segunda-feira, 10 de maio de 2021

CICLO EM ALVALADE


No passado 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, revelei ser eu, este ano, o autor homenageado em Alvalade Capital da Leitura. Hoje acrescento os nomes de quem participará nos vários momentos do ciclo literário, que tem curadoria de Carlos Vaz Marques.

Os participantes estão citados por ordem alfabética: 

A 31 de Maio | 14:30 | Colóquio na Biblioteca Nacional de Portugal — com assistência e em streaming —, sobre poesia, com António Carlos Cortez, Fernando Pinto do Amaral, Helga Moreira, Hugo Pinto Santos, Joana Matos Frias, Nuno Júdice e eu próprio. 

A 1 de Junho | 17:00 | Inauguração de mural público, na Rua Flores do Lima. Poema meu, mural de Vanessa Teodoro. 

A 1 de Junho | 21:30 | Debate sobre crítica literária, no Mercado de Alvalade, com Helena Vasconcelos, Isabel Lucas, Manuel Frias Martins, Pedro Mexia e eu próprio. Moderação de Carlos Vaz Marques.

A 2 de Junho | 21:30 | Noite Laurentina, na Galeria 111, com Eugénio Lisboa, Isabela Figueiredo, José Gil e eu próprio. Moderação de Maria João Seixas.

A 3 de Junho | 21:00 | Exibição, no auditório do Caleidoscópio, do filme The Untold Tales of Amistead Maupin, de Jennifer M. Kroot, seguido de debate sobre literatura LGBT — Fractura exposta —,  com Ana Luísa Amaral, Marinela Freitas e eu próprio. Moderação de Miguel Vale de Almeida.

A 4 de Junho | 21:30 | Noite de poesia e música, nos jardins do Museu Palácio Pimenta, com Lia Gama e um actor mistério. Leitura de poesia portuguesa contemporânea.

A 5 de Junho | 18:00 | No Museu Bordalo Pinheiro, lançamento de Devastação, o meu novo livro de contos, editado pela Dom Quixote. Teresa Sousa de Almeida apresenta e o actor Luís Lucas lerá um conto.

Oportunamente darei detalhes sobre as inscrições de quem quiser assistir presencialmente.

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domingo, 9 de maio de 2021

ARMANDO SILVA CARVALHO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Citações perversas ou da poesia que se pode de Armando Silva Carvalho (1938-2017), poeta central da poesia portuguesa contemporânea.

Natural de Olho Marinho, Óbidos, Armando Silva Carvalho estreou-se com Lírica Consumível (1965). Poeta e ficcionista, exerceu várias profissões antes de dedicar-se a tempo inteiro à escrita: foi advogado, professor do ensino secundário, jornalista, tradutor, publicitário e consultor de marketing.

Além de poesia, publicou contos e narrativas de mais largo fôlego, entre elas, em 1977, Portuguex — obra que urge reeditar —, radiografia mordaz de um certo Portugal. Entre outros, traduziu Genet, Beckett e Mallarmé.

Homem de esquerda, homossexual discreto, foi uma figura respeitada da vida literária portuguesa. Várias vezes premiado, encontra-se representado nas mais importantes antologias de poesia.

O poema desta semana pertence a Sol a Sol (2005). A imagem foi obtida a partir de O Que Foi Passado A Limpo, volume que reúne poemas publicados entre 1965 e 2005, editado pela Assírio & Alvim em 2007.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira e Judith Teixeira.]

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sábado, 8 de maio de 2021

ZMAR


Ainda o imbróglio do eco camping resort construído em cima de uma reserva ecológica e declarado insolvente no passado 10 de Março, por decisão do Tribunal de Odemira.

Com a falta de tacto que o caracteriza, o ministro da Administração Interna geriu o processo que levou à instalação, no referido resort, de alguns migrantes que trabalham em explorações agrícolas do concelho de Odemira. Trata-se de pessoas que viviam em condições de habitabilidade infra-humana.

Para resolver um problema que a pandemia (e a cerca sanitária que isola duas freguesias do concelho) agravou, o Governo accionou a requisição civil do Zmar, instalando ali, em dez bungalows — 10 dos 260 distribuídos por 81 hectares —, essas pessoas.

Caiu o Carmo e a Trindade. Bem vistas as coisas, não estamos a falar da Cova da Moura. Criado por Francisco de Mello Breyner, o Zmar tem (ou teve) Marcela de Mello Breyner como administradora da área financeira, Francesca de Mello Breyner como responsável pelas relações públicas, a ceramista Anna Westerlund (viúva do actor Pedro Lima) entre os proprietários indignados, Pedro Pidwell como administrador de insolvência, etc. Tanto bastou para pôr os media a salivar.

Ontem, na SICN, a advogada Rita Garcia Pereira explicou com detalhe as consequências da requisição civil, da eficácia do despacho, da falta de efeitos práticos da providência cautelar interposta por um grupo de proprietários dos bungalows amovíveis (o STA recusou o decretamento imediato), da resolução fundamentada a apresentar pelo Governo, do tempo da Justiça, etc. Coisa para anos.

Entre outras coisas, disse: «Ao contrário do que tem sido noticiado, a providência cautelar foi recebida e a isto se resume a atitude do tribunal. Verificou os pressupostos do ponto de vista formal e, depois disso, é que irá analisar inclusivamente os fundamentos da mesma. Estamos numa apreciação muito preliminar ainda...» Claro como água.

Imagem: Rita Garcia Pereira na SICN. Clique.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

MADRID RECONDUZ AYUSO


A vitória do PP reconduz Isabel Díaz Ayuso como presidente da Comunidade de Madrid.

Juntos, o PP (com 65 lugares, mais do dobro do que em 2019) e a extrema-direita do VOX (com 13) obtiveram maioria absoluta: 78 em 136.

O PSOE ficou empatado com o Más Madrid: 24 cada. O PODEMOS obteve 10. Pablo Iglesias abandona o cargo e a vida política. CIUDADANOS sai de cena: zero lugares (em 2019 conseguiu 26). Tudo isto tendo votado ontem mais 11% dos madrilenos que votaram nas eleições anteriores.

Clique na imagem de El País.

terça-feira, 4 de maio de 2021

JULIÃO SARMENTO 1948-2021


Vítima de cancro, morreu hoje Julião Sarmento, o artista plástico português de maior projecção internacional. Doente há vários meses, Sarmento encontrava-se internado no Centro Clínico Champalimaud, em Lisboa.

Representado em museus e galerias de todo o mundo, a obra de Sarmento desdobra-se pela pintura, desenho, escultura, fotografia, vídeo, instalações e performance. No nosso país, obras suas podem ser vistas no MNAC (Lisboa), no Museu de Serralves (Porto), no CAM da Gulbenkian, no Museu Berardo e outras assinaladas partes.

Retrospectivas suas foram apresentadas em Lisboa (Gulbenkian), Porto (Serralves), Madrid (Museu Nacional Reina Sofia), Londres (Tate Modern), Roterdão (Witte de With Centrum voor Hedendaagse Kuns), Amesterdão (Stedelijk Museum), Nova Iorque (Guggenheim), etc. A partir dos anos 1980 participou nas mais importantes bienais de arte: Paris, São Paulo, Veneza e, por duas vezes, na Documenta de Kassel. 

Após ter vivido em Londres nos anos 1960, Sarmento viveu em Lourenço Marques — mais exactamente na Matola — entre 1972 e o início de 1974. Descobri-o na Galeria Texto, onde expôs Quartos em Maio de 1974 (a abertura agendada para 25 de Abril foi adiada). Se a memória me não falha, havia dépliant de Sílvia Chicó. Terá sido a sua primeira individual.

Em Portugal tornou-se notado após ter participado em Alternativa Zero (1977), o happening conceptual e multidisciplinar que Ernesto de Sousa organizou na Galeria Nacional de Arte Moderna, juntando artistas, músicos e escritores de várias gerações e tendências.

Afinidades Electivas (2015), exposição comissariada por Delfim Sardo, mostrou a colecção particular de Sarmento: mais de trezentas obras de artistas nacionais e estrangeiros com quem se cruzou e de quem foi amigo. Exposta em dois núcleos, um no Museu da Electricidade da Fundação EDP, outro na Fundação Carmona e Costa, encontra-se plasmada em álbum, como tantas outras das suas exposições e ciclos temáticos.

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domingo, 2 de maio de 2021

JUDITH TEIXEIRA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Ausência de Judith Teixeira (1880-1959), primeira mulher a assumir, na poesia portuguesa, a sua condição de lésbica.

Natural de Viseu, Judith Teixeira foi um dos três poetas alvo da campanha promovida, em 1923, pela Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa (com o patrocínio de Pedro Teotónio Pereira, Marcello Caetano e toda a imprensa conservadora), contra «os invertidos». Os outros eram António Botto e Raul Leal. No dia 5 de Março desse ano, o Governo Civil de Lisboa apreendeu as suas obras, mais tarde queimadas no Rossio. Marcello Caetano chamou-lhe “desavergonhada”.

A 28 Maio de 1926 deu-se em Braga o golpe militar que pôs fim à Primeira República.

Figura proeminente do Modernismo português, Judith Teixeira publicou três livros, um deles as novelas de Satânia (1927), fez conferências e dirigiu a revista Europa, tornando-se o bode expiatório da desordem social que o fascismo associava à Primeira República. 

Foi casada com dois homens, primeiro com um empresário, depois com um advogado de origem aristocrática. A partir da ditadura militar (1928-33) que antecedeu o Estado Novo, nunca mais publicou. Deixou dispersos, coligidos nos anos 1990. Viajou, terá feito vida boémia, e geriu um negócio de antiguidades.

Um estudo de António Manuel Couto Viana, publicado em 1974 — considerando-a «a única poetisa Modernista» —, continua a ser o texto de referência sobre a sua obra. Judith Teixeira não se encontra representada em nenhuma antologia de poesia portuguesa.

Morreu na casa de Campo de Ourique (Lisboa) onde residia, a 17 de Maio de 1959. Tinha 79 anos.

O poema desta semana pertence a Nua. Poemas de Bizâncio (1926). A imagem foi obtida a partir de Poemas, volume da obra completa organizado por Maria Jorge e Luis Manuel Gaspar, publicado pela & etc em Setembro de 1996.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão e Reinaldo Ferreira.]

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sábado, 1 de maio de 2021

PRIMEIRO DE MAIO


Celebra-se hoje o Dia Internacional dos Trabalhadores. Tudo começou em 1886, quando, no âmbito da luta pelas oito horas de trabalho diário (metade da média horária praticada à época), os motins de Haymarket, em Chicago, levaram a Segunda Internacional a escolher a data por proposta da Federação Americana do Trabalho.

Em Portugal, hoje, talvez seja altura de reflectir sobre as condições de trabalho dos migrantes sem os quais a nossa indústria agrícola não teria expressão. Para eles não há sindicatos, nem contratos colectivos de trabalho, nem eco nos media.

Há pelo menos vinte anos que os trabalhadores por conta de outrem perdem direitos que nos anos 1970 eram dados por adquiridos. Mas a situação das populações deslocadas, aqui e em toda a parte, é especialmente revoltante.

Na imagem, o 1.º de Maio de 1974, em Lisboa. A primeira vez que a data foi celebrada sem bufos da Pide e cavalaria da GNR. Entre outros, vêem-se Sophia, Gastão Cruz, Armindo Rodrigues e, de barbas e boina, Fernando Grade.

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quinta-feira, 29 de abril de 2021

PASSAPORTE COVID


Por 540 votos a favor, 119 contra e 31 abstenções, o Parlamento Europeu aprovou esta manhã o passaporte Covid.

Dito de outro modo, um certificado em suporte digital ou em papel, comprovando que o portador foi vacinado, ou, não tendo sido, se um teste efectuado nas 48 horas anteriores à viagem deu resultado negativo. 

Teoricamente, sem o referido passaporte, o atravessamento de fronteiras obrigará a quarentenas. Em todo o caso, diz-nos a experiência, cada membro da UE fará o que os seus interesses ditarem. 

A ver vamos como a presidência portuguesa da UE gere os detalhes técnicos do assunto.

Imagem: tuíte da presidente da Comissão Europeia a saudar a aprovação. Clique.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

NONSENSE


Se não comprou, já não compra. A Norton suspendeu a distribuição, incluindo a das versões digitais, e mandou retirar das livrarias a biografia de Philip Roth escrita por Blake Bailey, o conceituado biógrafo de John Cheever, Richard Yates e Charles Jackson. O livro estava à venda há três semanas.

Bailey é acusado por antigas alunas de má-conduta e assédio sexual. E Valentina Rice, uma executiva editorial de 47 anos, acusa-o mesmo de sexo não consentido.

Redes de livrarias e plataformas dominantes como a Amazon, a Barnes & Noble e a Recorded Books não aceitam mais livros do autor. Por exemplo, The Splendid Things We Planned, as memórias que Bailey publicou em 2014, já não estão disponíveis.

Julia A. Reidhead, CEO da Norton, vai doar a organizações que apoiam vítimas de assédio sexual uma soma equivalente ao adiantamento pago a Bailey, ou seja, cerca de um milhão de dólares.

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segunda-feira, 26 de abril de 2021

AUTARQUIAS & PANDEMIA

Para quem tanto barafusta com a dependência do Terreiro do Paço, Rui Moreira deu prova de que o Princípio de Peter se lhe aplica. Ou então é só descaso. Entre uma coisa e outra, venha o Diabo e escolha. Afinal, o Estado central sempre dá muito jeito.

Muito resumidamente: em 2020, a Câmara de Lisboa gastou 6,7% do seu orçamento em acções de combate à pandemia, enquanto a do Porto gastou 1,78%.

Dito de outro modo: em 2020, Lisboa investiu 77,7 milhões de euros, 55 dos quais a fundo perdido (restauração e comércio), enquanto o Porto apenas investiu 5,6 milhões. 

Mais: em 2020, para financiar acções de combate à pandemia, o investimento da Câmara do Porto foi inferior ao das Câmaras de Cascais e Sintra, que investiram, para o mesmo fim, 25 e 20 milhões de euros respectivamente.

O concelho de Lisboa tem cerca de 515 mil habitantes, o de Sintra cerca de 380 mil, o do Porto cerca de 240 mil e o de Cascais cerca de 215 mil.

HOPKINS & FRANCES


Sem grande surpresa, os Óscares foram para Nomadland, melhor filme, Chloé Zhao, melhor realizadora, Frances McDormand, melhor actriz, Anthony Hopkins, melhor actor, Yuh-Jung Youn, melhor actriz coadjuvante, Daniel Kaluuya, melhor actor coadjuvante, e Druk, do dinamarquês Thomas Vinterberg, melhor filme estrangeiro. Sobram mais uns tantos, importando destacar o de melhor fotografia [Erik Messerschmidt] para Mank.

Aos 83 anos, Hopkins ganhou pela segunda vez o Óscar de melhor actor. Desta vez por The Father. À beira de completar 74, a sul-coreana Yuh-Jung Youn ganhou o primeiro, como actriz coadjuvante. 

Chloé Zhao, 39 anos, nascida em Pequim, tornou-se a segunda mulher, em 93 anos, a ganhar o Óscar de melhor realização. Ms Zhao nasceu na China mas frequentou colégios privados ingleses e a Universidade de Nova Iorque. Vive nos Estados Unidos desde 1999.

Disponível na Netflix, Mank é uma seca, mas tem uma fotografia soberba. Frances McDormand, por quem nunca morri de amores, entra na galeria dos que receberam três Óscares.

Clique na fotografia de Hopkins.

domingo, 25 de abril de 2021

REINALDO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia de Reinaldo Ferreira (1922-1959), nome destacado da poesia portuguesa escrita em Moçambique.

Começar por esclarecer: em Portugal, quase toda a gente confunde o poeta com seu pai, o mais famoso jornalista português dos anos 1920 e 30, que assinava com o pseudónimo de Repórter X. Além de jornalista, o Repórter X era também novelista, dramaturgo, realizador e produtor de cinema. [Em 1986, José Nascimento fez Repórter X, o filme.] Tendo ambos o mesmo nome civil, a confusão é de regra, até porque Reinaldo filho, o poeta, viveu em Lourenço Marques a partir dos 17 anos.

Estando seus pais radicados em Barcelona, foi ali que Reinaldo nasceu. Com a chegada ao poder de Primo de Rivera, a família regressou a Portugal. Mais tarde, por razões nunca devidamente esclarecidas, o futuro poeta foi terminar o liceu a Lourenço Marques, cidade onde viveu até morrer.

Funcionário da Administração Civil, Reinaldo foi publicando poemas nos suplementos literários da imprensa local, sem nunca ter organizado um livro em vida. Escrito no início dos anos 1950, Receita Para Fazer um Herói passou a integrar o cânone da Guerra Colonial.

Homossexual assumido, figura mítica da gay scene laurentina, tornou-se responsável, a partir de 1952, pela secção de teatro do Rádio Clube de Moçambique, para onde traduziu peças de vários autores.

Escreveu as letras de canções interpretadas por, entre outros, Amália [Uma Casa Portuguesa] e Zeca Afonso [Menina dos Olhos Tristes], bem como, sob o pseudónimo de Reinaldo Porto, o guião e as canções de musicais exibidos em Lourenço Marques.

Vítima de cancro no pulmão, morreu antes de completar 37 anos.

O poema desta semana pertence a Um Voo Cego a Nada, primeira sequência da obra poética completa, coligida no volume Poemas, publicado pela Imprensa Nacional de Moçambique no primeiro aniversário (1960) da sua morte. A imagem foi obtida a partir desse livro. Em Portugal estão publicadas outras duas edições (1962 e 1998), prevendo-se para breve uma terceira.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão e Fiama Hasse Pais Brandão.]

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47 ANOS


Passam hoje 47 anos sobre a queda da ditadura. Quem nasceu em democracia não tem noção de como era viver num país miserável.

Não concebe sequer o totalitarismo de Estado, o regime de Partido único, os malefícios da censura (no ensino, imprensa, literatura, música, teatro, rádio, cinema, televisão, etc.), as arbitrariedades da polícia política, os treze anos de guerra colonial, a rígida hierarquia de classes, o ostracismo de grande parte da comunidade internacional. O inventário é longo, não fica por aqui.

Clique na fotografia de Alfredo Cunha, tirada quando ainda não se sabia se a Fragata F-743 bombardearia o Terreiro do Paço.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

ALVALADE CAPITAL DA LEITURA


Agora que é oficial, torno público: este ano serei o autor homenageado em Alvalade Capital da Leitura.

A semana começa no dia 31 de Maio, com um colóquio na Biblioteca Nacional de Portugal, terminando no dia 5 de Junho com o lançamento do meu livro Devastação, no Museu Bordalo Pinheiro, onde será apresentado pela professora Teresa Sousa de Almeida e o actor Luis Lucas lerá um dos contos.

Estou naturalmente feliz por se terem lembrado de mim. Sobretudo por suceder a três dos mais ilustres dos meus pares — José Cardoso Pires (2018), Aquilino Ribeiro (2019), Lídia Jorge (2020), todos antigos ou actuais moradores em Alvalade —, reunindo à minha volta um conjunto de personalidades que admiro: poetas, ficcionistas, ensaístas, críticos, professores de Literatura, cientistas sociais, actores, especialistas em estudos de género, jornalistas e gestores culturais.

Além do colóquio de abertura, sobre poesia, a realizar na BNP, e do lançamento do livro, haverá sessões temáticas: crítica literária, literatura LGBT, memórias de Lourenço Marques. Mas também uma noite de poesia e um mural público, de Vanessa Teodoro, inspirado num dos meus poemas. Tudo isto em locais icónicos de Alvalade, que divulgarei assim que o programa estiver impresso.

Embora estejam todos confirmados, não revelo nomes por enquanto. Uma coisa sei: não podia estar em melhor companhia.

Carlos Vaz Marques é o curador do evento.

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DIA MUNDIAL DO LIVRO


Celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, instituído em 1995 pela UNESCO. 

A data coincide com a morte, no mesmo dia, de Cervantes e Shakespeare. Passam hoje 405 anos.

Em Espanha, no Reino Unido, na Irlanda e na Suécia, o Dia Mundial do Livro é celebrado em datas diferentes.

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quinta-feira, 22 de abril de 2021

MAÇON, SER OU NÃO SER

O PSD e o PAN querem obrigar os titulares de altos cargos públicos a declararem publicamente se devem obediência a uma Loja maçónica. Abstenho-me de classificar o disparate.

O projecto do PSD quer registo obrigatório (nem Salazar se atreveu a ir tão longe). O projecto do PAN fica-se pela recomendação.

Hoje, José Adelino Maltez, maçon assumido, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, foi ouvido no Parlamento. Entre outras coisas, disse: «A Assembleia da República é o maior templo de maçonaria em Portugal

As vestais rasgaram as vestes, mas Maltez continuou: «O PSD é o partido com mais maçons, não é o PS...» Sim, deputados. Sim, mais de metade dos candidatos às próximas eleições autárquicas. E por aí fora.

André Silva, do PAN, e um deputado do PSD que não sei quem seja, perderam as estribeiras. Perante a chicana, Maltez nunca perdeu a compostura.

Em que país julgam viver estas criaturas que um dia chegaram a deputados? Não conhecem a História da Europa? Nunca foram a Washington?

quarta-feira, 21 de abril de 2021

BLACK LIVES MATTER


Derek Chauvin, o polícia que a 25 de Maio do ano passado matou George Floyd numa rua de Minneapolis, foi declarado culpado das três acusações de homicídio de que está acusado.

A partir do veredicto do júri, proferido ontem, o tribunal decidirá dentro de oito semanas qual a pena, nunca inferior a 40 anos. 

Neste caso, o crime de homicídio em segundo grau é agravado por três factores: abuso de autoridade / crime de ódio / presença de crianças no local.

Chauvin saiu do tribunal algemado, tendo de aguardar preso a sentença.

O assassinato de George Floyd, um homem de 46 anos, desempregado, que sufocou até morrer deitado no chão de cara para baixo, com o joelho de Chauvin a pressionar-lhe o pescoço durante 9 minutos e 29 segundos, deu origem a manifestações em prol dos direitos civis, em todos os Estados americanos (muitas delas violentas), mas também em sessenta países.

Os três colegas de Chauvin que assistiram à tortura sem nada fazer (os polícias Kueng, Lane e Thao), serão julgados a partir de 23 de Agosto.

Na imagem, Chauvin a sair do tribunal.

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segunda-feira, 19 de abril de 2021

DEVASTAÇÃO

 


Nas livrarias a partir do próximo 25 de Maio. São contos. Clique.

48 ANOS


Passam hoje 48 anos sobre a fundação do Partido Socialista. 

Nesse distante 19 de Abril de 1973, vinte e sete membros da Acção Socialista Portuguesa, oriundos de Portugal e outros países, reunidos na Fundação Friedrich Ebert, em Bad Münstereifel, votaram a favor da transformação da ASP em PS. Sete votaram contra.

Assim nasceu o PS.

A lista de fundadores é mais extensa que os dezanove da imagem, porque nem todos puderam deslocar-se à Alemanha.

A foto é da Fundação Mário Soares. Clique.

CENSOS 2021


Começa hoje o período de resposta ao Censos 2021. Até ao próximo 3 de Maio, há que preencher, este ano de forma online, os questionários.

Os códigos de acesso foram distribuídos pelo INE (nós recebemos os nossos no passado dia 15) em boletim próprio. Para quem não responder, as coimas podem ir até 25 mil euros.

Até 1970, o censo realizava-se nos anos zero (1900, 70). A partir da década seguinte passou para o ano um (1981, 2011). Em Portugal e no resto do mundo.

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DESCONFINAR


Ora vamos lá desconfinar mais um pouco.

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domingo, 18 de abril de 2021

FIAMA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi O Miradouro, de Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), personalidade hierática da vida literária portuguesa, de quem se diz ter sido hermética entre os herméticos. Discordo.

Natural de Lisboa, Fiama viveu numa quinta de Carcavelos até aos 18 anos, tendo feito os primeiros estudos na St Julian’s School. Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa conheceu Gastão Cruz, com quem foi casada. Juntos, editaram a Antologia de Poesia Universitária (1964) e deram consistência teórica ao movimento Poesia 61. A obra canónica abre com Morfismos (1961), justamente porque Fiama rasurou os dois livros anteriores, um dos quais premiado.

Além de poesia, Fiama escreveu teatro, ensaio, récits e o romance Sob o Olhar de Medeia (1998). Na área do ensaio ocupou-se sobretudo de teatro, Camões, Gil Vicente e a influência da Cabala na poesia portuguesa dos séculos XVI a XVIII. Como tradutora, verteu para português obras de Artaud, Brecht, Novalis, Tchekov e outros. Entre todas, destacaria a versão que fez do Cântico Maior Atribuído a Salomão (1985), integrada na sua obra poética.

O teatro foi sempre uma paixão. Talvez por isso, a seu respeito, se fale do teatro da voz. Fiama estagiou no Teatro Experimental do Porto, fez crítica, fundou com Gastão o Teatro Hoje (Lisboa), frequentou na Gulbenkian um seminário de Gutkin, encenou Mariana Pineda de Lorca e, por último mas não em último, escreveu sete peças, algumas das quais representadas.

Investigadora de linguística, disse um dia que O Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro fora o primeiro livro infantil que lera. Em 1992 deixou Lisboa, voltando à quinta de Carcavelos. Em Portugal recebeu todos os prémios que havia para receber, excepto o Camões. Morreu aos 68 anos.

O poema desta semana pertence a (Este) Rosto, de 1970, mais precisamente à sequência que nesse livro se chama ‘A Vez das Vilas’. A imagem foi obtida a partir de Obra Breve, volume da poesia reunida, publicado em 2006 pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca e António Gedeão.]

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quinta-feira, 15 de abril de 2021

ASTRAZENECA, OF COURSE


Fomos hoje vacinados (18:30) no Estádio Universitário de Lisboa. Não podia ter corrido melhor. A DGS, em articulação com a Câmara de Lisboa, tem feito um trabalho irrepreensível.

Na imagem, entre o meu marido e eu próprio, vê-se Lídia Brás, a operacional que nos acompanhou durante o processo. Clique.

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

O gigante perdido da literatura americana, como é conhecido William Melvin Kelley (1937-2017), chegou finalmente à edição portuguesa. Depois da morte do autor, Um Tambor Diferente, o aclamado romance de estreia, tem sido reeditado em todo o mundo. Kelley, que também foi professor de escrita criativa no Sarah Lawrence College, deixou uma obra parcimoniosa: cinco títulos, publicados entre 1962 e 1970. Mesmo oriundo de Harvard e vivendo em Nova Iorque, onde o comparavam a Faulkner e James Baldwin, era complicado um negro impor-se no milieu literário norte-americano. Isso explica que tenha vivido quase uma década entre Paris e Roma, radicando-se em 1968 na Jamaica. Escrito quando a luta pelos direitos civis marcava a agenda política, Um Tambor Diferente é o relato vibrante da rejeição, por parte de Tucker Caliban (o protagonista), das iniquidades do Sul Profundo. Após salgar as terras, abater o cavalo e deitar fogo à casa onde vivia com a mulher grávida, Tucker parte para o Norte, decisão que desencadeia o êxodo da comunidade negra. A originalidade do plot reside no facto de ser narrado a partir do ponto de vista dos brancos. Publicou a Quetzal.

A reedição de Fome, do norueguês Knut Hamsun (1859-1952), traz de volta um autor controverso. Admirador de Hitler e Goebbels, racista confesso, colaborador nazi, foi julgado e condenado por traição ao seu país. Além de romances e contos, Hamsun escreveu poesia, ensaios e panfletos. Após publicar Os Frutos da Terra (1917), recebeu o Nobel da Literatura em 1920. O domínio do fluxo de consciência acentua o carácter autobiográfico de Fome, o seu primeiro livro (1890), elogiado por Gide, Thomas Mann e outros. Liliete Martins traduz directamente do norueguês. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrito para a BBC Radio, Estilicídio, do galês Cynan Jones (n. 1975), são esses doze episódios em forma de livro. Estilicídio significa ‘queda de água gota a gota’. Série de antecipação sobre como sobreviver a uma crise climática de proporções bíblicas, coloca o leitor perante a possibilidade da falta de água. A acção centra-se numa grande metrópole (admitamos que seja Londres) devastada por uma sucessão de secas e enchentes. Uma das alternativas consiste em rebocar um iceberg do Ártico. Falta porém consenso entre quem manda, a população, os ambientalistas e, como é de regra, os terroristas que também entram na história. Resumindo: Estilicídio ecoa todas as harmónicas possíveis num guião televisivo. Publicou a Elsinore.

É sempre gratificante voltar a Cesare Pavese (1908-1950), nome maior da literatura italiana. Poeta, ficcionista, ensaísta, diarista, crítico, tradutor de Joyce, Melville e outros, Pavese suicidou-se aos 41 anos, poucos meses depois de receber o Prémio Strega e de publicar A Lua e as Fogueiras, o livro derradeiro. Narrado na primeira pessoa («Há uma razão para eu ter voltado para esta aldeia…») pela voz de um emigrante regressado da América após o fim da Segunda Guerra Mundial, demonstra a impossibilidade de resgatar o passado. Tudo rui à sua volta, e nem a fortuna acumulada desfaz a condição de “bastardo”. Uma elegia seca e amarga dos lugares e pessoas da remota infância. Publicou a Bertrand.

Quando George Orwell (1903-1950) escreveu 1984, estava longe de supor o impacto que o livro teria nas gerações vindouras. Agora que a obra caiu em domínio público, sucedem-se as reedições. A obra de Orwell recentrou a distopia em literatura, na medida em que o seu precedente mais célebre, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, não resistiu à usura do tempo. Pelo contrário, o Grande Irmão (o Big Brother) faz parte do imaginário contemporâneo. Escrito com a intenção de denunciar o totalitarismo estalinista, a tese do controlo total por parte do Partido é o Leitmotiv do romance. Um dos personagens, o poeta Ampleforth, intelectual praticante da Novilíngua, parece ser uma caricatura de Auden. Gonçalo M. Tavares assina o prefácio. Publicou a Relógio d'Água.

Numa altura em que se verifica o avanço de forças extremistas em democracias consolidadas, convém ler O Regresso da Ultradireita, de Cas Mudde (n. 1967), o cientista político holandês que tem escrito sobre as várias formas de populismo. Analisando a rapidez com que partidos tradicionais, outrora conservadores, interiorizaram o discurso de homens como Trump ou Bolsonaro, Mudde faz um tour d’horizon às franjas radicais que controlam os governos de vários países, dentro e fora da Europa. A quarta vaga da ultradireita é o enfoque do livro. Por que é que há vinte anos as opiniões públicas reagiam indignadas à xenofobia, e hoje reagem com um bocejo à sua “normalização”? Publicou a Presença.

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quarta-feira, 14 de abril de 2021

O ÚLTIMO?

Foi aprovado esta tarde, na Assembleia da República, o 15.º estado de emergência, que vigorará entre os próximos dias 16 e 30.

Votos a favor — PS, PSD, CDS, PAN e uma deputada não-inscrita.

Votos contra — PCP, PEV, IL, CH e JKM.

O BE absteve-se.

O Presidente da República fala hoje (20:00) ao país.

domingo, 11 de abril de 2021

GEDEÃO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Homem, de António Gedeão (1906-1997), o poeta que deu coloquialidade ao barroco. Escreveu poesia, ficção, teatro, ensaio e memórias. A sua poesia encontra-se traduzida em vários idiomas.

Quando em 1956 surge na vida literária com o pseudónimo de António Gedeão, o pedagogo Rómulo de Carvalho, professor de física e química em liceus de Lisboa (1931-50 e 1957-75) e Coimbra (1950-57), contava já com títulos publicados nas áreas histórico-científica e pedagógica. Dito de outro modo, o divulgador de ciência deveio poeta.

Entre os seus alunos do Liceu Pedro Nunes que se notabilizaram na vida pública portuguesa conta-se Marcelo Rebelo de Sousa.

Natural de Lisboa, o dia do seu nascimento — 24 de Novembro — é celebrado desde 1996 como Dia Nacional da Cultura Científica.

Depois da sua morte, a Fundação Calouste Gulbenkian publicou (2010) um grosso volume de memórias que o autor dedicou aos futuros tetranetos.

Membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, doutorado honoris causa pela Universidade de Évora (1995), Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1996), foi-lhe concedida a título póstumo (2018) a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, da qual era Grande-Oficial desde 1987.

Casado em segundas núpcias com Natália Nunes, é pai da escritora Cristina Carvalho.

Desde 2012, o Prémio António Gedeão, criado por um sindicato de professores, distingue docentes com obra poética publicada.

O poema desta semana pertence a Movimento Perpétuo (1956), livro de estreia do autor. A imagem foi obtida a partir de Poesias Completas, volume publicado em 1964, com extenso prefácio de Jorge de Sena, na colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder e Florbela Espanca.]

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sábado, 10 de abril de 2021

CONCLUSÃO

Para pôr um ponto final no assunto, a que não tenciono voltar antes de Setembro, data em que o recurso do MP deve chegar à Relação de Lisboa (não esquecer que aos quatro meses requeridos para recurso há que somar o período de Verão das férias judiciais, que se prolongam até 31 de Agosto), deixo uma nota de perplexidade.

A metade do país que tem ódio jurado a Sócrates ficou impressionada com o facto de, em 189 crimes distribuídos por 28 arguidos, apenas dezassete, distribuídos por 5 arguidos, terem tido acolhimento do juiz de instrução.

Verdade que personagens como Granadeiro, Bava, Barroca, Bataglia, etc., não foram pronunciados por nenhum crime. E aquela parte do povo sedenta de um ajuste de contas com o 25 de Abril quer uma versão pós-moderna do Processo dos Távoras. 

Mas Sócrates não saiu incólume, tal como Salgado, Vara, Santos Silva e o motorista do antigo primeiro-ministro. Mais: Sócrates ouviu o juiz dizer-lhe, olhos nos olhos, que não acredita na tese dos empréstimos. É o momento mais arrasador da leitura do despacho de pronúncia.

Aqui chegados, o MP tinha uma oportunidade de ouro para deixar prosseguir o caso. Porque Sócrates vai ter de responder por três crimes de branqueamento de capitais e outros três de falsificação de documento (o mesmo sucedendo ao amigo Santos Silva). Insistir na novela desmontada por Ivo Rosa terá como consequência arrastar o caso por mais 12 ou 15 anos, sem garantia de sucesso.

Não é preciso ter formação jurídica para perceber que a narrativa do MP visa julgar o regime. O resto é folclore.

NONSENSE

 

O desnorte. Clique na imagem.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

AKRASIA


E é isto. Comentários para quê? Clique na imagem.

LEI VS EMOÇÕES

Não podemos confundir a Lei com as nossas emoções. Até prova em contrário, ainda vivemos num Estado de Direito. Nas ditaduras é que é possível construir narrativas à vontade dos juízes.

Acusado de 37 crimes, Sócrates vai responder por 6. Porquê? Porque o MP o acusou, em 2017, de crimes prescritos.

Em 28 arguidos, 5 vão a julgamento. Em 4 julgamentos autónomos, porque Ivo Rosa não aceitou a tese da novela. 

Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, Hélder Bataglia, Sofia Fava, e mais 19 arguidos, não foram pronunciados. Porquê? Por ausência de provas consistentes, nuns casos, e de prescrições, noutros.

É tão simples como isto.

23 ILIBADOS


Finda a leitura, ficou a saber-se:

Apenas 5 dos 28 arguidos vão a julgamento. Mas serão quatro julgamentos autónomos.

— Sócrates e Santos Silva serão julgados por seis crimes: três de branqueamento de capitais e três de falsificação de documentos.

— Ricardo Salgado será julgado por três crimes de abuso de confiança.

— Armando Vara será julgado por um crime de branqueamento de capitais.

— João Perna, o motorista de Sócrates, será julgado por detenção de arma proibida.

O Ministério Público vai recorrer da decisão.

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OPERAÇÃO MARQUÊS


Desde as 14:30 que o juiz Ivo Rosa tem estado a desmontar, peça por peça, a acusação do Ministério Público contra Sócrates, Ricardo Salgado, Santos Silva e outros.

Na impossibilidade de ler as 6.700 páginas do despacho de pronúncia, Ivo Rosa limita-se a um resumo.

Highlights que retive até ao momento:

— «Esta decisão não é a favor nem contra ninguém. O tribunal age sempre do mesmo modo: em obediência à Lei. As garantias são para todos. O combate à corrupção não se afirma mais eficaz diminuindo as garantias e liberdades. Prestar contas em termos políticos não é a mesma coisa do que prestar contas à Justiça

Baseada em especulação e fantasia, a acusação é inócua, não tem coerência, nem sequer cronológica, evidenciando pouco rigor e consistência.

— São nulos alguns actos praticados pelo juiz Carlos Alexandre.

— As escutas que migraram do processo Face Oculta não servem de prova.

— Sócrates foi ilibado de corrupção nos seguintes itens: Parque Escolar, TGV, Vale de Lobo, Grupo Lena, Venezuela.

— Estão prescritos todos os crimes de fraude fiscal.

— Sócrates não teve intervenção na OPA falhada da Sonae sobre a PT.

— Estão prescritos todos os crimes de corrupção que relacionam Sócrates e Ricardo Salgado. Estavam prescritos desde 2017, data da dedução de acusação.

— Não há evidência de que Ricardo Salgado tenha pedido a Hélder Bataglia para entregar 12 milhões de euros a Sócrates.

— Foram ainda ilibados Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, Hélder Bataglia, Rui Horta e Costa, Joaquim Barroca, Sofia Fava (ex-mulher de Sócrates), um primo de Sócrates, o arguido Mão de Ferro, etc.

A leitura prossegue.

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FILIPE, DUQUE DE EDIMBURGO 1921-2021


Morreu hoje, no Castelo de Windsor, Filipe Mountbatten, duque de Edimburgo, nascido em Corfu como príncipe da Grécia e Dinamarca.

Marido de Isabel II desde 1947, príncipe consorte desde 1952, faria cem anos no próximo 10 de Junho. Hospitalizado entre 16 de Fevereiro e 16 de Março, a causa da morte ainda não foi divulgada pela Casa Real.

Imagem: Guardian. Clique.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

ANTIGOS COMBATENTES

Nos termos da Lei n.º 46/2020, de 20 de Agosto, encontra-se desde ontem em vigor a isenção do pagamento de taxas moderadoras no acesso às prestações do Serviço Nacional de Saúde, tais como (entre outras) consultas, exames complementares de diagnóstico e serviços de urgência.

O benefício é extensivo a viúvas e viúvos, bem como a cônjuges sobrevivos de uniões de facto judicialmente reconhecidas.

Enquanto não for distribuído o Cartão de Antigo Combatente, basta apresentar o Cartão de Cidadão.

Outra benesse a Lei é a gratuitidade do passe intermodal nos transportes públicos.

Quem tiver dúvidas ou necessitar de esclarecimentos adicionais pode telefonar para o Balcão Único da Defesa.

terça-feira, 6 de abril de 2021

VACINAÇÃO COVID


Vacinação covid em Portugal continental, entre 27 de Dezembro de 2020 e 4 de Abril de 2021. Afinal, ao contrário da lenda, Lisboa não come tudo.

Imagem: Expresso. Clique.

THE SLEEPERS


Lembram-se da Revolução de Veludo que pôs termo a mais de 40 anos de domínio comunista no país que então se chamava Checoslováquia?

Para quem não sabe: entre 17 de Novembro e 29 de Dezembro de 1989, sucessivas manifestações deram origem às demissões de Miloš Jakeš, secretário-geral do Partido Comunista checo, e de Gustáv Husák, o Presidente da República. O detonador do levantamento popular foi a repressão do desfile no Dia Internacional dos Estudantes.

Corolário: ao fim de 43 dias de tumulto, Václav Havel, intelectual respeitado dentro e fora do país, dramaturgo, ensaísta, poeta e líder do movimento dissidente Fórum Cívico, foi eleito, no Parlamento, Presidente da República, enquanto Alexander Dubček, o artífice da Primavera de Praga (1968), era escolhido pelos revolucionários para presidir ao Parlamento.

The Sleepers — Bez vědomí —, série de 2019 escrita por Ondřej Gabriel e realizada por Ivan Zachariáš, disponível na HBO, centra-se na claustrofobia da sociedade checa durante esses anos de chumbo. Narrada em dois tempos, 1977 e 1989, ilustra o quotidiano de uma sociedade em que todos denunciam todos.

Infelizmente, nós, portugueses, sabemos o que isso é: 55 anos de polícia política (nas suas vários encarnações a partir de 1919: PSE, PI, PDPS, PVDE, PIDE e DGS) fazem com que o modus operandi da Státní Bezpečnost, a temida StB checa, nos seja familiar.

A reconstituição de época é notável. Distanciando-se do tom heróico, o guião não ignora o cinismo do Ocidente, em especial do MI6 britânico. Focada nas práticas totalitárias decorrentes do incesto entre Praga e Moscovo, a série omite muitos detalhes da revolução propriamente dita. São seis episódios de uma hora cada.

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segunda-feira, 5 de abril de 2021

O Rt

Imbuído das melhores intenções, o primeiro-ministro ilustrou o bom povo (na passada quinta-feira, salvo erro) com um gráfico de quadrantes para o Rt.

Resultado: não há mamífero que não debite inanidades na televisão, nos jornais, nas redes, etc. Esta gajada ainda não percebeu que ninguém quer saber da catequese do tremendismo?

AXIMAGE


Sondagem da Aximage para o JN, DN e TSF divulgada hoje.

PS 39,7% / PSD 23,6% / BE 8,6% / CH 8,5% / CDU 6% / IL 4,8% / PAN 3,2% / 

CDS 1,1%.

Sozinho, o PS tem mais que toda a Direita e extrema-direita juntas.

O PS e o PSD estão separados por 16,1%. BE e CH empatados.

Clique na infografia do Jornal de Notícias.

domingo, 4 de abril de 2021

FLORBELA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi In memoriam, de Florbela Espanca (1894-1930), uma das precursoras nacionais da emancipação literária feminina.

Natural de Vila Viçosa, Florbela tornou-se um case study, porque, vá-se lá saber porquê, a Academia insiste em fazer dela uma poetisa menor. Felizmente, a situação tende a mudar. Após décadas de silêncio, Florbela encontra-se antologiada em Do Corpo: Outras Habitações (2018), volume organizado para a Assírio & Alvim por Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas.

Filha de uma camponesa e de pai “incógnito” — o republicano João Maria Espanca, antiquário, fotógrafo e introdutor do cinema no Alentejo, só reconheceu a filha em 1948 —, Florbela frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas interrompeu os estudos em 1920 ao mudar-se com o amante para o Porto. 

Estreada com Livro de Mágoas (1919), obra publicada por empenho de Raul Proença, teve sempre grande dificuldade em editar os seus livros. Em vida, apenas dois foram publicados, o segundo em edição paga pelo pai. Isso explica que a maior parte deles, incluindo os contos e o diário, tenham tido publicação póstuma, com prefácios de Régio, Agustina Bessa-Luís, Natália Correia, Yvette K. Centeno e, no Brasil, de Maria Lúcia Dal Farra. 

A seu respeito, Régio falou de «donjuanismo feminino». Se tivesse nascido na Inglaterra ou nos Estados Unidos, Florbela seria hoje lida e estudada em toda a parte e, por certo, um ícone do feminismo.

Em Matosinhos, para onde foi viver com o terceiro marido, em 1926, dava explicações de português, fazia traduções de francês para a Figueirinhas e colaborava esporadicamente na imprensa, assinando quase sempre como Flor Bela Lobo (nome de baptismo) ou com o pseudónimo Florbela d’Alma da Conceição Espanca.

Em 1927, a morte do irmão, o piloto-aviador Apeles Espanca, afectou-a profundamente. Apeles despenhou no Tejo, perto da Trafaria, o hidroavião Hanriot que pilotava. Sobre o irmão, Florbela escreveu o poema que escolhi, bem como os contos de As Máscaras do Destino (1931). 

Na madrugada do dia em que fez 36 anos, Florbela suicidou-se.

O poema desta semana pertence ao livro póstumo Charneca em Flor, concluído em 1929, mas só publicado em 1931, por iniciativa de Guido Batelli, o professor italiano da Universidade de Coimbra de quem foi próxima. A imagem foi obtida a partir da 12.ª edição integral de Sonetos, publicada pela Livraria Tavares Martins, do Porto, em 1968.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Herberto Helder.]

Clique na imagem.

sábado, 3 de abril de 2021

FRONTEIRAS

A fronteira de Portugal com Espanha vai manter-se encerrada pelo menos até ao próximo dia 16. Isso mesmo foi confirmado hoje pelo Governo de Espanha.

Como até aqui, as deslocações autorizadas restringem-se a trabalhadores transfronteiriços, veículos de mercadorias, nacionais de regresso a casa, pessoal médico e diplomatas em serviço.

Por todo o mundo, fronteiras abrem e fecham por decisão arbitrária de vários Governos.

Por isso me faz confusão haver tanta gente apanhada de surpresa. As companhias de aviação não esclarecem? Os emigrantes não consultam os consulados? As pessoas não se informam?

Em Janeiro ainda havia muitos portugueses em teletrabalho no Brasil, no Dubai, em São Tomé, nas Maldivas, etc. Não previram o confinamento que chegou com os Reis. É estranho, porque andamos há treze meses no abre e fecha.

Agora, são os emigrantes de França, da Suíça e do Luxemburgo a desembarcarem no Porto, “espantados” com a obrigatoriedade de quarentena. Ninguém os avisou?

Muito estranha toda esta ligeireza.

AXIMAGE


Se dúvidas houvesse... Sondagem da Aximage divulgada hoje pelo DN, JN e TSF.

Infografia: Jornal de Notícias. Clique.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

45 ANOS


Faz hoje 45 anos que foi aprovada a Constituição da República Portuguesa. Em vigor desde 25 de Abril de 1976, foi alvo de sete revisões, a mais recente das quais em Agosto de 2005.

Tendo em vista as peripécias que marcaram os trabalhos da Constituinte, a sua aprovação, a 2 de Abril de 1976, foi uma proeza.

Não vejo a data assinalada, como notícia, em nenhum jornal português de referência.

Clique na imagem, um volume-miniatura da Constituição.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

DESCONFINAR

Atenta a situação do país — a incidência de infecções é de 62,4 pessoas por cada 100 mil habitantes —, o primeiro-ministro confirmou esta tarde a segunda fase do desconfinamento.

Assim, a partir da próxima segunda-feira, dia 5, reabrem:

As escolas do 2.º e do 3.º ciclo e as ATL para os alunos abrangidos / as lojas até 200 metros quadrados / os museus, galerias de arte, palácios e monumentos públicos / os equipamentos sociais na área da deficiência / os centros de dia da terceira idade / as feiras e mercados não-alimentares / as esplanadas, tendo como limite quatro pessoas por mesa / os ginásios sem aulas de grupo.

Acaba a interdição de circular entre concelhos e passam a ser permitidas as modalidades desportivas de baixo risco, bem como as actividades físicas ao ar livre, tendo como limite quatro pessoas por grupo.

Contudo, os almoços de domingo de Páscoa, dia 4, são fortemente desencorajados.

quarta-feira, 31 de março de 2021

CLARO COMO ÁGUA


Muita gente julga que os diplomas de apoio aos trabalhadores independentes, aos sócios-gerentes, às famílias prejudicadas pelo encerramento das escolas e, last but not least, aos profissionais de saúde, foram obra do BE, do PCP e do PAN. Errado. 

O que esses Partidos fizeram, com a Direita, os liberais e a extrema-direita às cavalitas, foi alterar a legislação que o Governo já aplica aos referidos sectores da população.

Exemplo: onde estava o valor A puseram o valor B e onde a situação X tinha que obedecer a regras passou a ser um direito indiscriminado. Nada menos que 500 milhões de euros daqui até Dezembro. O Parlamento aprovou e o Presidente da República promulgou.

Sucede que, tal como ficou, o Governo podia, se quisesse, fazer de conta que os diplomas não existem. Quem o permite é o Presidente: «Os diplomas podem ser aplicados, na medida em que respeitem os limites resultantes do Orçamento de Estado vigente.» O primeiro-ministro não foi por aí.

Na sua comunicação ao país, ontem ao fim da tarde, António Costa fez notar: «O senhor Presidente procurou limitar os danos constitucionais destas leis, propondo uma interpretação que esvazia o seu efeito prático, e até reforça os poderes do Governo...»

Disse mais: «O Governo não pode deixar de cumprir uma Lei da Assembleia da República enquanto esta vigorar, mesmo que a entenda inconstitucional e só o Tribunal Constitucional pode declarar com força obrigatória geral a inconstitucionalidade de uma Lei. [...] Os cidadãos beneficiários têm o direito de saber com o que podem contar... [...] Como iríamos aplicar esse limite? Dando apoios a uns e não a outros? Dando apenas aos que fossem mais rápidos a pedir, até se esgotar o plafond disponível, e recusando todos os pedidos posteriores? Reduzindo o montante do apoio pago a todos, violando o disposto na Lei? [...] A incerteza jurídica gera insegurança e mina a confiança nas instituições

Não quero imaginar uma situação destas nas mãos dos/as malabaristas do costume.

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terça-feira, 30 de março de 2021

DAESH OCUPA PALMA


Após cinco dias de combates, Palma caiu ontem nas mãos do Daesh. Os confrontos deram origem à fuga, para Pemba, de cerca de quarenta mil pessoas. 

Entre os mais de cem mortos confirmados, metade são estrangeiros (um deles português) que se encontravam no Hotel Amarula Palma. Nos seus helicópteros, a empresa de segurança sul-africana Dyck Advisory Group apenas conseguiu evacuar vinte e duas pessoas. Muitos dos que ficaram para trás foram decapitados, outros abatidos a tiro na praia.

Situada no extremo Norte de Moçambique, Palma é uma das principais bases de exploração de gás natural, naquele que é o maior investimento privado de toda a África. Entre as petrolíferas internacionais envolvidas destaca-se a Total, presente em Moçambique há mais de 60 anos.

Por junto, existem neste momento setecentos mil deslocados em Cabo Delgado, uma das onze províncias de Moçambique.

Nove vezes maior que Portugal, Moçambique tem 28 milhões de habitantes, muita riqueza natural por explorar, mas, infelizmente, não dispõe de forças armadas em número suficiente para controlar um território tão vasto. 

Tudo indica que o conflito vai internacionalizar-se. A Tanzânia e a África do Sul ponderam intervir directamente. Portugal vai enviar sessenta militares para darem formação (em Maputo) ao Exército moçambicano.

Nada disto começou agora. Nos últimos três anos, enquanto morreram moçambicanos, ninguém ligou. Agora que executivos de várias nacionalidades, todos brancos, foram executados, o mundo acordou. Até o Pentágono.

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segunda-feira, 29 de março de 2021

QUADRATURA

O Presidente da República promulgou ontem, domingo, os três diplomas da Assembleia da República que formalizam medidas sociais urgentes no âmbito da situação pandémica. Os diplomas foram aprovados pelo PSD, BE, PCP, PEV, PAN, CDS, IL, CH e as duas deputadas não inscritas.

O PS absteve-se num caso, votando contra nos outros. Motivo: a Constituição proíbe a apresentação, pelo Parlamento, de iniciativas que impliquem aumento de despesa ou redução de receitas. Ou seja, que contrariem o Orçamento do Estado em vigor. Aquilo que em linguagem comum se chama Lei-travão.

Nas razões aduzidas para a promulgação, escreve o Presidente:

«Os três diplomas em análise implicam potenciais aumentos de despesas ou reduções de receitas, mas de montantes não definidos à partida, até porque largamente dependentes de circunstâncias que só a evolução da pandemia permite concretizar. E, assim sendo, deixando em aberto a incidência efetiva na execução do Orçamento do Estado

Diz ainda o Presidente: «os diplomas podem ser aplicados, na medida em que respeitem os limites resultantes do Orçamento do Estado vigente

Em que ficamos? Eu diria que é dar com uma mão e tirar com a outra.

domingo, 28 de março de 2021

HERBERTO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Aos Amigos, de Herberto Helder (1930-2015), considerado por muitos o poeta central da segunda metade do século XX português.

Transcrevo de um ensaio meu de 2008: «Não é fácil falar de Herberto, porque Herberto queima pontes, dando a ler uma suma com um pé no romantismo alemão, outro no imagismo russo, fora tradições inesperadas como a dos ameríndios

Natural do Funchal, Herberto foi quase toda a vida um nómada: funcionário do Observatório Meteorológico do Funchal, guia de marinheiros em Amesterdão, operário metalúrgico, empacotador de aparas de papel, bartender, policopista, delegado de propaganda médica, empregado da Caixa Geral de Depósitos, encarregado do serviço de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, colaborador do Anuário Comercial Português, da Emissora Nacional, da RDP e da RTP, publicitário, revisor tipográfico na Arcádia, editor na Estampa, jornalista em Angola, etc. (este resumo não é cronológico). Viveu alguns períodos em França, na Bélgica, nos Países Baixos e em Angola.

Estreou-se em livro em 1958, com O Amor em Visita. Além de poesia, publicou prosa — Os Passos em Volta, obra-prima de 1963, e Apresentação do Rosto, de 1968 —, bem como os ensaios de Photomaton & Vox (1979). Depois da sua morte foi publicado em minúsculas (2018), selecção de crónicas (1971-72) publicadas na revista Notícia, de Luanda.

Organizou antologias, a mais famosa das quais Edoi Lelia Doura (1985), e editou a revista Nova (1975-77), de que se publicaram dois números. 

Recusou todos os prémios, incluindo o Pessoa, em 1994.

Faleceu vítima de ataque cardíaco, na casa de Cascais onde residia há mais de vinte anos. Um dos seus filhos é o comentador político Daniel Oliveira.

O poema desta semana pertence ao livro Lugar, publicado em 1962. A imagem foi obtida a partir de Ofício Cantante (2009), publicado pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro e Sophia de Mello Breyner Andresen.]

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sábado, 27 de março de 2021

RTP: NOVO CEO


O jornalista Nicolau Santos, 66 anos, será o novo presidente da RTP. Antigo diretor-adjunto do Expresso e actual presidente da Lusa, Nicolau Santos foi convidado pelo Conselho Geral Independente da RTP para suceder a Gonçalo Reis, antigo deputado do PSD. 

A sua escolha encerra o processo de head hunting (custo: setenta mil euros) conduzido pela consultora Boyden. A posse está prevista para meados de Abril.

A ver vamos se Nicolau Santos tem guts para pôr ordem na casa.

Clique na foto da Lusa.

MANOBRAS


Desconfio sempre de voluntarismos. Em regra, atrapalham mais do que ajudam.

Clique na imagem do Diário de Notícias.

quinta-feira, 25 de março de 2021

PSD PERDE


A palermice foi chumbada. Antes assim.

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MAIS UM

Foi aprovado esta tarde, na Assembleia da República, o 14.º estado de emergência, que vigorará entre os próximos dias 1 e 15 de Abril.

Votos a favor — PS, PSD, CDS, PAN e uma deputada não-inscrita.

Votos contra — PCP, PEV, IL, CH e JKM.

O BE absteve-se.

O Presidente da República fala hoje ao país.

REPRISE


 Páscoa confinada. Clique na imagem.

quarta-feira, 24 de março de 2021

DITO POR NÃO DITO


Eram 02:37 da madrugada de ontem quando, no fim de uma longa reunião com os dezasseis ministros-presidentes dos Estados federados da Alemanha, a Chanceler anunciou o confinamento geral entre os dias 1 e 5 de Abril. 

Hoje, ao início da tarde, Merkel deu o dito por não dito:

«Para ser absolutamente clara, esse erro é única e exclusivamente meu, porque no fim de contas a responsabilidade final é minha. Lamento profundamente e peço perdão a todos os cidadãos. Um erro precisa de ser chamado de erro e precisa de ser corrigido

O confinamento previa o encerramento do comércio (excepto, no dia 3 de Abril, o comércio alimentar), restauração, serviços e espectáculos, bem como a suspensão das celebrações religiosas durante o fim-de-semana da Páscoa.

Mas, perante a possibilidade de incumprimento geral, Merkel recuou. Entre missas e festarolas, os alemães podem portanto celebrar a Páscoa.

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terça-feira, 23 de março de 2021

NOS 80 ANOS DE ESTEIROS


Assinalando os 80 anos da sua publicação, a Quetzal reeditou Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), figura destacada do movimento neo-realista português. Considerado a obra-prima do autor, o livro foi escrito para os filhos dos homens que nunca foram meninos. Publicada em 1941, a primeira edição tem capa e ilustrações de Álvaro Cunhal.

Esteiros conta a história de um punhado de miúdos que, no Telhal Grande, em pleno Ribatejo, ocupavam o Verão a trabalhar como adultos numa fábrica de tijolos.

Militante do PCP, Soeiro Pereira Gomes passou à clandestinidade em 1945, morrendo vítima de cancro do pulmão, aos 40 anos.

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segunda-feira, 22 de março de 2021

CENTENÁRIOS


Estamos no ano dos centenários de Carlos de Oliveira e Natália Nunes. Oliveira nasceu a 10 de Agosto, Natália a 18 de Novembro de 1921. Presumo que a Academia esteja atenta às datas.

Poeta, romancista e cronista, Carlos de Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil. Em 1923 veio para Portugal, radicando-se a família na região da Gândara. Estreado em livro em 1937, só considerará como parte da bibliografia a obra publicada a partir de 1942. Unanimemente considerado o poeta mais importante do neo-realismo português, distingue-se também como romancista. Na ficção, a obra mais conhecida é Uma Abelha na Chuva (1953), romance que Fernando Lopes passou ao cinema em 1972. Em Trabalho Poético (1977), Oliveira refunde e reescreve a poesia publicada, acrescentando ao volume os dez poemas de Pastoral. Nunca exerceu qualquer profissão. Viveu em Lisboa entre 1948 e 1981, ano da sua morte. O espólio do autor encontra-se depositado no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.

Romancista, contista, ensaísta, memorialista e tradutora, Natália Nunes é natural de Lisboa. Estreada em livro em 1952, pode dizer-se que foi uma feminista avant la lettre, embora o activismo institucional não dê por isso. A vários títulos, Assembleia de Mulheres (1964) é uma obra precursora. Entre outros, escreveu sobre Dostoievski, Raul Brandão e Carlos de Oliveira. Nas muitas traduções que fez, destacam-se as de Balzac e Violette Leduc. Foi bibliotecária-arquivista e conservadora do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Foi casada com António Gedeão, de quem teve uma filha, a escritora Cristina Carvalho. Faleceu em 2018.

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domingo, 21 de março de 2021

SOPHIA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Soror Mariana — Beja, de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), voz ática da poesia de língua portuguesa.

Sophia nasceu no Porto em 1919 e passou a infância na casa do Campo Alegre. Em 1944 — ano de publicação do primeiro livro — veio para Lisboa, casando em 1946 com o advogado Francisco Sousa Tavares, de quem se divorciou em 1988. O casal teve cinco filhos, entre eles o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares e a professora e poeta Maria Andresen.

Em Livro Sexto (1962), Salazar é descrito como “velho abutre”. Católica progressista, dirigiu o Centro Nacional de Cultura a partir de 1965. Integrada nas listas da CEUD, concorreu às eleições de 1969 pelo círculo do Porto e, em Dezembro do mesmo ano, com o marido preso em Caxias, fez parte do núcleo fundador da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. 

Amiga desde sempre de Soares e Maria Barroso, abriu a sua casa para o Partido Socialista delinear ali, na Travessa das Mónicas, o primeiro congresso. Eleita deputada do PS à Assembleia Constituinte (1975), recusará mais tarde os cargos de secretária de Estado da Cultura e de embaixadora de Portugal em Paris. Apenas aceitará, em 1987, ser chanceler das Ordens Honoríficas Portuguesas, cargo que manteve durante três anos.

Além da vasta obra poética, de traduções (Camões e Pessoa para francês, Shakespeare e Claudel para português, etc.) e organização de antologias, Sophia escreveu contos, ensaios, peças de teatro e literatura para a infância. Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981), recebeu, entre outros, o Prémio Camões (1999). Vítima de acidente vascular cerebral, faleceu a 2 de Julho de 2004, no Hospital Pulido Valente, de Lisboa.

Em 2014, no dia do décimo aniversário da sua morte, os restos mortais foram trasladados do cemitério de Carnide para o Panteão Nacional, acto transmitido em directo por vários canais de televisão.

Escrito no início dos anos 1970, o poema desta semana pertence ao livro O Nome das Coisas, publicado em 1977. A imagem foi obtida a partir de Obra Poética (2015), publicado pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna e Mário de Sá-Carneiro.]

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sábado, 20 de março de 2021

O DEDO NA FERIDA


Ora aqui está o título de um artigo publicado hoje pelo New York Times sobre o desastre que tem sido a vacinação covid na Europa.

Revelações que envergonham a UE:

— Ursula von der Leyen, Macron e Alexander de Croo (o primeiro-ministro belga) não pararam de fazer telefonemas para Washington para saber como se faz. Grotesco!

— A UE vacinou cerca 10% da população dos 27 países, os Estados Unidos vacinaram 23%, e o Reino Unido vacinou 39%.

Síntese da conclusão do artigo:

Os governos europeus costumam ser vistos nos Estados Unidos como liberais e gastadores, mas desta vez foi Washington quem jogou milhares de milhões nas farmacêuticas. Comparativamente, Bruxelas tem tido uma abordagem conservadora, estando a sofrer as consequências. Não se pode adoptar a postura de cliente (como faz a Europa), é preciso entrar nas farmacêuticas para acelerar o desenvolvimento e a produção, como fazem os Estados Unidos.

É sintomático dos novos tempos que tenha de ser um grande jornal norte-americano, bastião do establishment capitalista, a lembrar aos europeus que vacinas não são automóveis.

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sexta-feira, 19 de março de 2021

ELEMENTAR


Se não fosse assim, era um regabofe. Um regabofe e falta de respeito pelos outros.

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quinta-feira, 18 de março de 2021

SISMO EM LISBOA


Eram 09:50h, mais coisa menos coisa, quando senti o chão descer. Segundos.

Diz o Instituto Português do Mar e da Atmosfera que foi um abalo sísmico com magnitude de 3,4 na escala de Richter, com epicentro a dez quilómetros a Noroeste de Alcochete.

Imagem: IPMA. Clique.