sábado, 23 de outubro de 2021

IMPASSE

Parece que chegámos ao sábado de todas as decisões. Regressado de Bruxelas, António Costa tem agendadas reuniões com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. A ver vamos o resultado.

Entretanto, os representantes das confederações patronais abandonaram a Comissão Permanente de Concertação Social, solicitando, todos em bloco, audiência ao Presidente da República.

Embora não as deseje, o primeiro-ministro não tem medo de eleições antecipadas. E é o que acontecerá se o OE 2022 for chumbado, porque não o estou a ver a apresentar segunda versão à medida dos caprichos de uns e de outros. 

Por muito rápido que seja o processo, não haveria eleições antes do fim de Março. O prazo mínimo entre a dissolução do Parlamento e o acto eleitoral não pode ser inferior a 42 dias, mas há que contar com a coreografia institucional: demissão do PM, eventual convite do PR para que Costa se mantenha, reuniões com partidos, convocação do Conselho de Estado, etc. (e tudo isto com a lentidão suficiente para que PSD e CDS realizem os seus congressos). Dito de outro modo, com eleições no fim de Março, apenas no fim de Junho seria provável novo OE.

Mas o que são seis meses com o país a viver de duodécimos, com os fundos europeus geridos pelo Governo demissionário e com todas as alterações laborais metidas na gaveta?

Os princípios são muito bonitos mas não pagam contas ao fim do mês.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

ABRAPLIP, HOJE


Participo hoje, quando forem 19:30 em Portugal, no XXVIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, tendo como mediadores da minha intervenção os professores Emerson Inácio e Jorge Vicente Valentim.

Emerson Inácio é professor de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, especializado em poesia contemporânea de língua portuguesa, teoria queer, género, estudos culturais, etc. Jorge Vicente Valentim é professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de São Carlos, especializado em literatura portuguesa, estudos literários, género, homoerotismo, etc. Dito de outro modo, estou muito bem acompanhado.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

PRÉMIO CAMÕES


A escritora moçambicana Paulina Chiziane, 66 anos, venceu a 33.ª edição do Prémio Camões, atribuído por unanimidade por um júri constituído por Ana Martinho, Carlos Mendes de Sousa, Jorge Alves de Lima, Raul César Fernandes, Teresa Manjate e Tony Tcheka.

Antiga militante da FRELIMO com formação em linguística, Paulina Chiziane tem livros publicados, desde 1990, em Moçambique, Portugal e Brasil, estando alguns deles traduzidos em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e servo-croata.

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SINTRA

Ricardo Baptista Leite, o médico tremendista que disse ter visto seis pessoas a morrer no Hospital de Cascais num dia em que naquele hospital apenas morreu uma, concorreu à Câmara de Sintra encabeçando uma coligação [Curar Sintra] do PSD+CDS+AL+MPT+PDR+PPM+RIR. Perdeu.

Ontem, na cerimónia de posse dos órgãos municipais, Basílio Horta, o presidente reeleito (35,3%), recusou o aperto de mão do médico doublé de autarca. O vídeo está disponível no Twitter.

Parece má educação de Basílio Horta, mas como o próprio explicou, seria hipócrita da sua parte cumprimentar alguém que, além de o apelidar de cobarde, o retratou (em cartazes) de costas a fugir. «Fui alvo de ataques e insultos pessoais», disse. As relações institucionais não passam por ademanes protocolares.

Com tanta falta de médico, é indecoroso ver RBL a perder tempo com jogos florentinos.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

ARMANDA PASSOS 1944-2021


Vítima de cancro, morreu hoje Armanda Passos, uma das grandes pintoras portuguesas do século XX.

Obras suas podem ser vistas em Serralves, na Gulbenkian, no Museu do Chiado, no CCB, no Museu Nogueira da Silva (Braga), no Museu Amadeo de Souza-Cardoso (Amarante), etc., mas também em salas da Fundação Oriente, Fundação Champalimaud, Fundação Casa de Mateus (Vila Real), Fundação Dom Luís (Cascais) e outras instituições, como a Reitoria da Universidade do Porto, a Sé de Braga e o Palácio de Belém. O Museu do Douro, em Peso da Régua, cidade onde a artista nasceu, reuniu 83 obras suas numa ala com o seu nome.

Várias vezes premiada, Armanda Passos foi (nos anos 1970) professora de tecnologia de serigrafia no Centro de Reabilitação Vocacional da Granja, e monitora de tecnologia de gravura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Tinha 77 anos.

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SEGURO QUÊ?

Um dos coelhos da cartola de Carlos Moedas corresponde a um seguro de saúde para pessoas maiores de 65 anos com dificuldades económicas.

Devemos presumir que o novo edil de Lisboa desconhece a existência do Serviço Nacional de Saúde, aberto a toda a gente.

Será que os maiores de 65 anos com dificuldades económicas são barrados nos portões dos hospitais públicos? Convinha esclarecer.

NOITE SANGRENTA


Faz hoje cem anos que ocorreu o massacre do Arsenal da Armada, em Lisboa.

Na noite de 19 de Outubro de 1921, um grupo de marinheiros sequestrou e assassinou António Granjo, primeiro-ministro, mas também Machado Santos, fundador da República (morto no percurso da camioneta fantasma), José Carlos da Maia, capitão-de-mar-e-guerra, Freitas da Silva, chefe de gabinete do ministro da Marinha, o coronel Botelho de Vasconcelos e outros políticos republicanos. Cunha Leal, tido como próximo dos revoltosos, fazia parte dos ocupantes da camioneta, mas foi poupado.

António Granjo tinha pedido a demissão nessa manhã, mas o Presidente da República, António José de Almeida, não o demitiu.

Clique na imagem da Ilustração Portuguesa de 12 de Novembro de 1921.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

MOEDAS NA CML

Perante a nomenklatura do PSD, Carlos Moedas tomou hoje posse como 78.º presidente da Câmara de Lisboa, autarquia que gere um orçamento superior a mil milhões de euros. 

Fernando Medina, que assistiu à cerimónia, reiterou que a democracia tem de respeitar as regras da alternância: eu saio, ele entra.

Num discurso em que apenas citou urbanistas estrangeiros, Moedas voltou a prometer transportes públicos gratuitos para todos. A ver vamos. Ainda não se conhece a distribuição de pelouros, mas consta que o CDS ficará responsável pelas Finanças, Educação e Cultura. Moedas, himself, fica com a Transição Energética e Alterações Climáticas.

Recordar que o PSD elegeu sete vereadores, o PS outros sete, a CDU dois e o BE um. Dito de outro modo, Moedas terá de governar a cidade em minoria.

COLIN POWELL 1937-2021


Vítima de Covid 19 morreu hoje o general Colin Powell, antigo secretário de Estado norte-americano.

Além de responsável máximo pela política externa de Washington entre 2001 e 2005, Powell foi Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos (1987-89) e Presidente da Junta de Chefes do Estado-Maior (1989-93). Uma sua intervenção na ONU, em 2003, deu o tiro de partida para a invasão do Iraque.

Embora vacinado, não resistiu à Covid 19, provavelmente por sofrer de  mieloma múltiplo, uma comorbilidade fatal. Tinha 84 anos.

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ABRAPLIP 2021


Com uma conferência de Helena Carvalhão Buescu, professora catedrática da Universidade de Lisboa, começou hoje o XXVIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, que decorre até ao próximo dia 29.

Esta sessão inaugural é moderada por Sérgio Nazar David, doutor em Teoria da Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Durante dez dias consecutivos, participam no ABRAPLIP 2021 um largo conjunto de académicos, poetas e escritores dos dois lados do Atlântico. A minha participação ocorrerá no próximo dia 21.

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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

HABEAS CORPUS


Prevaleceu o bom senso. Mas vamos ser nós (e não quem decidiu a prisão no desembarque em Pedras Rubras) a pagar a indemnização por oito dias de prisão ilegal.

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UPDATE RENDEIRO

A inspecção da PJ feita anteontem à casa do banqueiro na Quinta Patiño confirmou o desaparecimento de obras de arte inventariadas em Novembro de 2010. E algumas das que encontraram não correspondem aos originais constantes do auto de apreensão. Conclusão: quinze sumiram, outras foram substituídas por cópias. Nada que surpreenda.

Mas há pior. Duas obras icónicas da arte portuguesa, Cabeça Heráldica (1912) de Amadeo de Souza-Cardoso e Cães de Barcelona (1964) de Paula Rego, não constam do referido auto de apreensão. Há dez anos ainda as duas se encontravam na casa da Quinta Patiño. Paula Rego até viu a sua no local e, segundo testemunho de Nick Willing, o filho mais velho da pintora, a mãe não gostou do sítio onde estava colocada.

Sem surpresa, Rendeiro não emprestou Cães de Barcelona para a retrospectiva de Paula Rego actualmente patente na Tate Britain (Londres) e, pelos vistos, a PJ nem sabia da existência da obra, adquirida por Rendeiro em 1998, e exposta em 2008 na mostra que o Museu Reina Sofía (Madrid) dedicou à pintora. Deveras estranho.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

ESPERAVAM O QUÊ?


Quem acompanha o que escrevo sabe que não perco tempo com casos de polícia. Mas o affaire Rendeiro não é um simples caso de polícia: envolve o colapso do Banco Privado Português, ocorrido em 2008. Porém, durante treze anos, fazendo tábua rasa de decisões judiciais, o banqueiro fez o que quis, dentro e fora do país.

Há dias decidiu pôr-se ao fresco. Mas deixou cá a mulher e as 124 obras de arte que decoram algumas salas da casa da Quinta Patiño, no Estoril. Obras de, entre outros, António Dacosta, Carlos Botelho, Dominguez Alvarez, Frank Stella, Hogan, Julião Sarmento, Júlio Resende, Lourdes Castro, Noronha da Costa e René Bertholo. Não confundir com o acervo do Museu Ellipse, o qual, alegadamente, estará encerrado e à responsabilidade da polícia. 

É preciso não esquecer que, em 2006, a revista americana Art Forum considerou João Rendeiro uma das cem personalidades mais influentes do mundo da arte contemporânea. Tudo por causa da (sua) Ellipse Foundation, com sede nos Países Baixos, museu em Alcabideche e curadores do gabarito de Alexandre Melo e Pedro Lapa.

Ontem, uma juíza emitiu um mandado de busca e apreensão das supracitadas obras de arte, arrestadas desde 2011 mas ainda nas paredes da casa da Quinta Patiño. Parece que muitas delas não correspondem aos originais inventariados há dez anos. Esperavam o quê?

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MEDINA & INDEPENDENTES


Fernando Medina renunciou ao cargo de vereador na Câmara de Lisboa, regressando ao lugar de economista da AICEP. Fez muito bem.

Entretanto, também renunciaram quatro independentes eleitos na sua lista: a arquitecta Inês Lobo, que seria o número dois da CML, bem como Álvaro Machado de Amorim Pinto, Inês Ucha e Maria João Santos Rodrigues. Para os seus lugares avançam militantes do PS que estavam colocados em posições inferiores.

Medina perdeu a CML por 2.299 votos, encabeçando uma lista cheia de nomes que nada dizem aos militantes e simpatizantes do Partido Socialista (a sociedade civil não os conhece). Convinha reflectir nas desvantagens da heterodoxia ideológica, na qual grande parte do eleitorado PS não se revê.

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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O QUE NOS ESPERA


A quem puder interessar, aqui fica a proposta de tabela de IRS para 2022. Principal novidade: passagem de 7 para 9 escalões.

Não confundir com tabelas de retenção na fonte, as quais são elaboradas depois de aprovado o OE.

Imagem: Expresso. Clique.

EM QUE FICAMOS?


Na última edição do Expresso, António Valdemar ocupa seis páginas para assinalar o centenário da revista Seara Nova. Numa delas afirma que Pedro da Silveira — poeta, crítico literário, investigador, tradutor, antigo director da Biblioteca Nacional de Portugal —, tido em vida como oposicionista ao Estado Novo, teria sido colaborador da PIDE. Revelação surpreendente. Verdadeira? Falsa? Resultado de equívoco? António Valdemar não é um jornalista de tablóide, há que aguardar desenvolvimentos

Há quem sustente que 'Pedro da Silveira' seria o pseudónimo de um informador da PIDE — um tal Duarte de Gusmão, professor de Braga, cuja ficha teria sido consultada por vários investigadores  —, e não o Pedro Laureano Mendonça da Silveira (1922-2003) nascido nos Açores, intelectual respeitado como Pedro da Silveira, antologiado por Sena, com obra publicada entre 1952 e 2002.

Em que ficamos?

Imagem: lápide na casa de Pedro da Silveira, em Campo de Ourique.

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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

NOBEL DA LITERATURA 2021


O Nobel da Literatura 2021 foi há pouco atribuído ao tanzaniano Abdulrazak Gurnah, 73 anos, natural de Zanzibar.

Autor de uma dezena de romances, um livro de contos e vários ensaios sobre autores de língua inglesa e literatura pós-colonial, Gurnah estudou na Inglaterra e deu aulas na Nigéria antes de transferir-se para a Universidade de Kent, onde se doutorou em 1982.

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LIVROS PARA O OUTONO


Hoje na Sábado.

A partir da morte de Hamnet Shakespeare, Maggie O’Farrell (n. 1972) escreveu Hamnet, romance inspirado na vida do bardo com Anne Hathaway. É a história de um casal de Stratford-upon-Avon. O’Farrell diz apenas: «Cerca de quatro anos depois, o pai escreveu uma peça chamada Hamlet.» (O mesmo nome escrevia-se nas duas formas.) É desconhecida a causa da morte de Hamnet, mas no romance é vítima da peste. Quando o filho morre, já Shakespeare estava estabelecido em Londres. Portanto, tudo gira em torno de Anne e dos filhos. Mais exactamente, sobre o luto da mulher que se sente responsável pela morte do filho de onze anos. Sem beliscar factos históricos, a narrativa é deveras empolgante. Com Hamnet, O’Farrell ganhou o Women’s Prize for Fiction 2020.

Com nova tradução, temos de volta Olá, América!, uma das distopias mais famosas do inglês J.G. Ballard (1930-2009). Publicado pela primeira vez em 1981, o livro “antecipa” o apocalipse dos Estados Unidos nos anos 2100, após um colapso ambiental (a Rússia barrou o Estreito de Bering que liga o Pacífico ao Ártico) e financeiro de proporções bíblicas. Com Charles Manson na Casa Branca e dois terços dos norte-americanos expatriados na Europa e na Ásia, um grupo de aventureiros parte de Inglaterra para averiguar o que se passa do outro lado do Atlântico. Excessivo, irónico, mordaz, por vezes burlesco, Olá, América! é uma visão dantesca do fracasso do sonho americano.

Com A Anomalia, Hervé Le Tellier (n. 1957) venceu no ano passado o Prémio Goncourt. O livro foi agora traduzido por Tânia Ganho, que encontrou o registo certo do thriller. Dividido em três partes, sinalizadas por versos de Queneau, A Anomalia é uma sucessão de narrativas escritas de acordo com o perfil das respectivas personagens, muito diferentes entre si. Tudo se passa num voo entre Paris e Nova Iorque, mas podia ser num festival literário, tantas são as referências literárias (nomes, citações, trocadilhos, opinião). Ficcionista, ensaísta e colunista político, Le Tellier é o paradigma do intelectual público francês. Mérito maior: ao contrário de outros laureados da sua geração, o que escreve não provoca enfado.

A ficção identitária vive um momento alto, e A Outra Metade de Brit Bennett (n. 1990) é do melhor que tem sido escrito sobre interditos étnicos. Em Mallard, a cidade do romance, ninguém se casava com gente escura. Até aqui, nada que o inventário do racismo não ilustre. O ponto é outro: de forma a ficarem cada vez mais claros, os negros de Mallard fazem casamentos mistos. Com dezasseis anos, as gémeas Vignes fogem da cidade após o linchamento do pai. Contudo, enredam-se noutro tipo de contradições. Stella casa com um branco desconhecedor das suas origens, e Desiree regressa à cidade com uma filha negra como o alcatrão. Estamos nos anos 1950, no auge do segregacionismo. A saga prossegue até aos anos 1970, com as filhas de ambas em confronto com novas realidades (a transexualidade, etc.) e perspectivas de vida opostas. Brit Bennett é um nome a fixar.

Pode um irlandês, radicado em Nova Iorque, ficcionar o quotidiano da Palestina? Foi o que fez Colum McCann (n. 1965), professor do Hunter College. O livro tem um título estranho, Apeirogon, que significa polígono infinito. McCann conta a história de dois homens, um judeu e um palestiniano, unidos pelo denominador comum de terem perdido as filhas pré-adolescentes: em 1997, Smadar, 13 anos, vítima de bombistas suícidas; em 2007, Abir, 10 anos, com um tiro na nuca. Não são personagens de ficção, isto aconteceu. Os factos foram «compilados a partir de uma série de entrevistas em Jerusalém, Nova Iorque, Jericó e Beit Jala», embora o autor tenha arredondado o discurso. Ao longo de mil e um capítulos (Mitterrand e família, amante incluída, surgem no sexto), como nas mil e uma noites do clássico árabe, McCann tenta expor o absurdo do conflito que opõe os dois Estados. São muitas as derivações de tema e sentido, da Flauta Mágica à Mossad. Vários capítulos resumem-se a uma única linha. Também há ilustrações. Como refere o subtítulo, trata-se de viagens infinitas.

A italiana Rosa Ventrella regressa com A Maledicência. Quem gostou de História de Uma Família Decente vai gostar deste regresso ao coração da Apúlia. Tendo a Segunda Guerra Mundial em pano de fundo (e, mais tarde, a reforma agrária), o romance opõe a fome e a moral, no registo fluente a que a autora nos habituou.

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terça-feira, 5 de outubro de 2021

FERNANDO ECHEVARRÍA 1929-2021


Morreu ontem Fernando Echevarría, um dos grandes poetas portugueses do século XX. Filho de pai português e mãe espanhola, Echevarría nasceu em Cabezón de la Sal, onde seu pai se exilara após o fracasso da denominada Monarquia do Norte. Foi aliás em Espanha que concluiu os estudos de Filosofia e Teologia.

Estreou-se em livro com Entre Dois Anjos (1956), tendo publicado com regularidade durante sessenta anos consecutivos. Em 1961 emigrou para Paris, integrando movimentos oposicionistas, como o Movimento de Acção Revolucionária e a Frente Patriótica de Libertação Nacional, de que foi um dos fundadores. Pertenceu ao Grupo de Argel, país onde se radicou em 1963. Em 1966 regressou a França, onde viveu mais de vinte anos. Regressou a Portugal na segunda metade dos anos 1980, fixando residência no Porto.

Traduzido em vários idiomas, várias vezes premiado, recusou todos os cargos oficiais que depois de 1974 lhe foram sendo propostos.

A notícia só hoje foi divulgada por sua mulher. Echevarría tinha 92 anos e estava internado.

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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

DIANA EVANS


Hoje na Sábado:

Ajusta-se perfeitamente a Pessoas Comuns, de Diana Evans, a máxima de Tolstói: cada família infeliz é infeliz à sua maneira. A meia-idade é um período fértil em desacertos conjugais e é deles que o romance trata. Não esquecer que, mesmo de viés, o fracasso do casamento de Diana com o príncipe Carlos paira sobre o seu livro de estreia, o premiado 26a, de 2005.

Filha de pai inglês e mãe nigeriana, Diana Evans nasceu (1972) na Inglaterra mas passou parte da infância na Nigéria. Neste livro, o terceiro que publica, pretende fazer uma grande angular sobre a classe média negra britânica. Tudo começa na festa de sábado à noite dada pelos irmãos Wiley, na sua casa do sudeste de Londres, para celebrar a eleição de Obama. Os convidados, gente glamorosa e bem-sucedida, são advogados, jornalistas, actores e políticos da comunidade negra. Isto coincide com o facto de Wall Street ter arrastado o mundo para o crash de 2008. A partir da realidade concreta da capital britânica, Evans ilustra esse microcosmo de forma minuciosa: «Não paravam de chegar, homens de boa disposição e sapatilhas no ponto, mulheres com diferentes graus de cabelo postiço […] como sócias de Beyoncé.» Sublinhar que o romance progride ao som de playlist adequada (começa logo no título), onde não falta Michael Jackson, cuja morte fecha o livro.

Melissa, a personagem mais forte, é uma jornalista freelance residente na área de Crystal Palace. Entedia-se com as rotinas domésticas como acontece com a maioria das mulheres (e homens) da sua geração que têm uma profissão absorvente. Nada de extraordinário. O melhor do livro acaba por ser o tour d’horizon pela Grande Londres gentrificada, vista a partir das duas margens do rio, num périplo que se estende a Dorking, trinta quilómetros a Sul. ‘Exilado’ no Surrey por vontade da dona de casa convencional com quem casou, Damian, um aspirante a escritor cujo pai fora um conhecido activista negro, sonha com a Londres da sua vida de solteiro. Denominador comum aos casais retratados, a incomunicabilidade e o tédio de vidas que chegaram ao ponto de não retorno, após crises de identidade, equívocos embaraçosos e ocasional adultério. Terá sido pelo facto de tentarem decalcar o padrão de vida dos homens e mulheres que alimentam a imprensa cor-de-rosa? Mas Torremolinos, onde fazem férias, não é exactamente um destino trendy.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

A TRAPALHADA

O statement que o Presidente da República fez ontem de manhã (aos media que o abordaram na rua) foi uma desautorização clara do ministro da Defesa.

João Gomes Cravinho havia proposto a demissão do Chefe de Estado-Maior da Armada, colocando no seu lugar o vice-almirante Gouveia e Melo. Aparentemente, o PR fora apanhado de surpresa. Afinal não foi assim.

Como se soube mais tarde, o almirante Mendes Calado, actual CEMA, foi reconduzido no cargo no passado mês de Fevereiro com o compromisso de sair em Fevereiro de 2022, compromisso que era do conhecimento do PR. Mais: Mendes Calado fora informado pessoalmente pelo ministro da antecipação da sua saída.

O primeiro-ministro não gostou do bruá e, na companhia do ministro, foi a Belém. Após a reunião, a Presidência esclareceu: «O Presidente da República recebeu, a seu pedido, o Primeiro-Ministro, que foi acompanhado pelo Ministro da Defesa Nacional. Ficaram esclarecidos os equívocos suscitados a propósito da Chefia do Estado-Maior da Armada.» O laconismo diz mais que mil palavras.

Repito um breve trecho do que escreveu o deputado Porfírio Silva: «Hoje ouvi o PR dizer que se tinha combinado com um altíssimo responsável de uma prestigiadíssima instituição nacional, aquando da respectiva nomeação, que não cumpriria o seu mandato até ao fim... para dar a oportunidade a outro camarada de ocupar esse lugar de altíssima responsabilidade antes de abandonar o activo

Comentários para quê?

ESTUDOS LGBTQ+


A Escócia tornou-se oficialmente o primeiro país do mundo a incluir, nos currículos do ensino secundário, uma disciplina obrigatória de estudos LGBTQ+.

Nos Estados Unidos, uma disciplina similar, porém facultativa, faz parte dos currículos escolares de sete Estados federais: Califórnia, Colorado, Connecticut, Illinois, Nevada, New Jersey e Oregon. 

Na imagem, Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia, rodeada por alunos. Clique.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

O CÉU É O LIMITE


Elenco muito resumido das promessas feitas por Carlos Moedas, o novo Edil da cidade:

— Transportes públicos gratuitos para menores de 23 anos e maiores de 65.

— Transformação de todos os prédios devolutos, propriedade da Câmara, em habitação para jovens.

— Seguro de saúde gratuito para pessoas “carenciadas” maiores de 65 anos.

— Eliminação da ciclovia na Avenida Almirante Reis.

— Eliminação da linha férrea entre o Cais do Sodré e Algés.

— Criação de uma Assembleia de Cidadãos para dialogarem com o executivo municipal. 

— Despachar em 180 dias todos os processos de licenciamento urbanístico, acelerando a renovação da cidade.

— Criação de uma fábrica de unicórnios [seja lá o que isso for] para empresas startup.

— Construção de um teatro em cada uma das 24 freguesias da cidade.

— Construção de um silo automóvel em cada uma das 24 freguesias da cidade. 

— Construção de parques “dissuasores” nas periferias da cidade.

— Isenção de IMT na compra de casa por parte de menores de 35 anos.

— Duplicação do benefício fiscal de dedução à colecta do IRS. [Os tais 32 milhões de euros.]

— Requalificação do Parque Mayer, criando um centro cultural, espaços de aprendizagem artística e laboratórios que acolham a ciência. [Obrigar as coristas a estudar biologia?]

— Desconto de 50% no estacionamento destinado a residentes inscritos na EMEL.

— Atribuição a fundo perdido do cheque Recuperar+ destinado a empresários em nome individual (indústria, comércio a retalho, restauração), à reabertura de negócios encerrados pela pandemia, bem como às actividades desportivas, culturais e artísticas.

— Construção das infraestruturas necessárias para tornar Lisboa uma capital global da economia do Mar...

Entre parêntesis rectos, comentários meus.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

AUTÁRQUICAS 2021


Com 99,58% da contagem oficial fechada, e apenas treze freguesias por apurar, os resultados são claros:

O PS ganhou as eleições nacionais em votos e mandatos.

— O PSD obteve melhor resultado do que em 2017.

— A CDU continuou a perder Câmaras.

— O BE continua sem nenhuma Câmara.

— O CHEGA obteve, a nível nacional, mais 70 mil votos do que o BE.

— Embora reeleito, o independente Rui Moreira perdeu a maioria no Porto.

— Basílio Horta (PS) foi reeleito em Sintra, onde o CHEGA ultrapassou a CDU e o BE.

— Santana Lopes, sem partido, venceu na Figueira da Foz.

— Isaltino Morais, independente, foi reeleito em Oeiras

— Inês Medeiros (PS) foi reeleita em Almada por larga margem.

— Na Amadora, Carla Tavares (PS) cilindrou Suzana Garcia (PSD).

— O PS conquistou (58%) Vila Nova de Gaia com maioria absoluta.

Imagem: detalhe do mapa do MAI com os resultados nacionais. Clique.

LISBOA MUDA DE COR


Terminou assim a noite mais longa.

Embora o Partido Socialista tenha sido, a nível nacional, o partido mais votado, e aquele que obteve mais presidências de Câmaras, mais vereadores e mais Juntas de Freguesia, perdeu Lisboa para a grande coligação de Direita — PSD+CDS+PPM+MPT+AL — liderada por Carlos Moedas.

O antigo comissário europeu a ganhou a presidência por 2.299 votos de diferença, mas apenas conseguiu 7 mandatos, tantos quantos os de Medina.

A distribuição de mandatos (a Esquerda obteve dez) não augura uma gestão fácil para os novos senhores.

Imagem: mapa do MAI com os resultados definitivos do concelho de Lisboa. Clique.

domingo, 26 de setembro de 2021

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Carne de José Blanc de Portugal (1914-2000), um dos fundadores dos Cadernos de Poesia.

Natural de Lisboa, Blanc de Portugal foi poeta, ensaísta, crítico musical e, após passagem pelo ensino, meteorologista (a bibliografia inclui obras nesta área científica). Depois de trabalhar na Pan American Airways, ingressou no Serviço Meteorológico Nacional, tendo dirigido os centros meteorológicos da Madeira, Açores, Cabo Verde, Angola e Moçambique. 

Mais tarde foi adido cultural na embaixada de Portugal em Brasília (1973-78) e vice-presidente do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (1978-82). Entre outros, traduziu obras de Shakespeare, Chesterton, Eliot, Jung, Coccioli, Pratolini, bem como os poemas ingleses de Fernando Pessoa.

O poema desta semana pertence a O Espaço Prometido (1960). A imagem foi obtida a partir do 1.º volume da Terceira Série de Líricas Portuguesas, a mítica antologia organizada por Jorge de Sena, publicada pela Portugália [este primeiro volume] em 1972.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira e Fernando Assis Pacheco.]

Clique na imagem.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

GALINÁCEOS

Hoje vou falar de coisas triviais que deviam incomodar as pessoas comuns. Aparentemente, não incomodam.

Falo das galinhas e frangos de aviário que se vendem nas chamadas grandes superfícies. Não terá passado despercebido a nenhum consumidor atento que os confinamentos deram origem a um downsizing generalizado. A distribuição nunca parou, é verdade, mas os despedimentos de que ninguém fala (e foram muitos), bem como a quebra de importações, fazem-se sentir desde o Outono do ano passado.

Estando obrigada a conhecer e fazer respeitar as regras de criação, abate, conservação e comercialização dos galináceos — matéria de grande minúcia e sofisticação —, a ASAE não pode fechar os olhos à realidade: sangue pisado, aves com pernas partidas (não é piada), sinais de infecção, pigmentação evidenciando sangramento deficiente, resíduos de penas, etc., temos encontrado de tudo, em lojas de topo e outras de baixo perfil.

O problema é comum porque todos se abastecem nos sítios do costume. E passo por cima do habitat em que são criados esses galináceos. Apesar de tudo, quero acreditar que não são forçados a viver em ambientes sujos e infestados de doenças, como tem sido denunciado acontecer noutros países do primeiro mundo. Repito: quero crer que tudo não passa de desleixo e falta de respeito pelo consumidor. Não é pouco!

Dizer a um gestor de grande superfície que «a galinha não pode ter sangue pisado» é o mesmo que dizer a um yuppie que não pode deixar o Land Rover em cima do passeio. Não sabem do que estamos a falar.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

PITAGÓRICA


Sondagens para todos os gostos. Esta é da Pitagórica para a TVI e foi divulgada há pouco no Jornal das 8. Clique na imagem.

CÂMARA DE LISBOA


Sondagem do CESOP da Universidade Católica Portuguesa para o Público e a RTP, divulgada hoje: 

Medina 37% / Moedas 28% / João Ferreira 11%

BE 7% / IL 5% / PAN 3% / CH 3% / Os restantes seis candidatos ficam abaixo de 1%.

Clique na imagem.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A INCUBADORA DE RUI RIO

«O que é uma bazuca? Uma bazuca dispara tiro a tiro e o dr. António Costa dispara de rajada, não é uma bazuca, é uma metralhadora.» — Rui Rio, ontem.

[A incubadora: «Este Governo é como um bebé nascido de um parto difícil e, por isso, a necessitar de incubadora e que vê os irmãos mais velhos a dar-lhe estaladas e pontapés.» — Santana Lopes, 2004.]

domingo, 19 de setembro de 2021

FERNANDO ASSIS PACHECO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi A Bela do Bairro de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), poeta maior da geração de 70.

Natural de Coimbra, onde estudou (seria sobre o poeta inglês Stephen Spender que faria a sua tese de licenciatura), nunca teve outra profissão senão a de jornalista. Na juventude foi actor de teatro no TEUC e no CITAC. 

Assinava uma coluna de crítica literária — o Bookcionário — sem rival na imprensa portuguesa, sínteses breves, bem fundamentadas, do que importava destacar. Estreou-se em livro com Cuidar dos Vivos (1962), chamando a atenção da crítica dez anos mais tarde, quando publicou Câu Kiên: Um Resumo (1972), reeditado em 1976 como Catalabanza, Quilolo e Volta para melhor se perceber de que guerra os poemas falavam.

Muita gente percebeu tarde que o Assis não era apenas o gajo porreiro (e culto) dos jornais, o autor da novela pícara Walt (1978), o tradutor de Neruda e Gabriel García Márquez, o jornalista que tratava os grandes por tu. Quando Rui Martiniano, o editor da Hiena, pôs na rua A Musa Irregular (1991), o grande público descobriu um grande poeta.

Morreu subitamente aos 58 anos, à porta da Livraria Buchholz, de Lisboa.

O poema desta semana pertence à plaquette privada A Bela do Bairro e Outros Poemas (1986), mais tarde integrado em volume próprio. Consta da obra poética completa do autor: A Musa Irregular (1991). A imagem foi obtida a partir da referida plaquette.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida e Carlos de Oliveira.]

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sábado, 18 de setembro de 2021

JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA 1922-2021


Morreu hoje José-Augusto França, historiador de arte e olissipógrafo, autor de uma obra muito vasta que inclui ensaio, crítica, romance, conto, poesia, teatro, monografias sobre Lisboa, e outra sobre Tomar, cidade onde nasceu.

Professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa, era considerado o guru da historiografia nacional de Arte. Fez parte (1947-49) do Grupo Surrealista de Lisboa, polemizou com os neorrealistas, organizou o primeiro salão de arte abstracta, editou revistas de vanguarda, leccionou na Sociedade Nacional de Belas Artes, presidiu ao Centro Nacional de Cultura, dirigiu a revista Colóquio-Artes (Gulbenkian) entre 1970 e 1997, criou em 1975 a primeira licenciatura em História da Arte, etc. Em suma, participou activamente na vida cultural portuguesa durante mais de meio século.

Em Paris, onde viveu largas temporadas e terminou a formação universitária que tinha abandonado em Lisboa, obteve os graus de Doutor em História (1962), Letras (1969) e, mais tarde, em Sociologia da Arte. Na capital francesa foi ainda director (1980-86) do Centro Cultural Calouste Gulbenkian.    

Em mais de cem títulos, gostaria de destacar Lisboa. História Física e Moral (2008), Lisboa Pombalina e o Iluminismo (1977), A Arte em Portugal no Século XX (1974, edição revista em 2008) e Arte Portuguesa do Século XIX (1967, edição revista em 1981), sem esquecer, naturalmente, as obras que dedicou a Almada e Amadeo. 

Prevê-se a publicação de Estudos das Zonas ou Unidades Urbanas de Carácter Histórico-Artístico de Lisboa, obra que inclui plantas, desenhos e levantamento fotográfico em 292 imagens.

Várias vezes condecorado, José-Augusto França vivia em França desde 2001. Estava internado há três anos numa unidade de cuidados continuados de Jarzé Villages e faria 99 anos no próximo mês de Novembro. Era casado com Marie-Thérèse Mandroux, historiadora de arte.

Imagem: fotografia de 1949, por Fernando Lemos, in Eu Sou Fotografia (2011), álbum editado pela Fundação Cupertino de Miranda. Clique.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

CÁTEDRA LÍDIA JORGE


É hoje apresentada na Université de Genève a cátedra Lídia Jorge, instituída no passado mês de Junho por aquela universidade centenária, com o fim de divulgar e promover a sua obra, mas também a língua portuguesa e as culturas de expressão portuguesa, como vem fazendo o respectivo Centre International d’Études Portugaises.

Integrada na Faculdade de Letras da referida universidade, a formalização da cátedra Lídia Jorge assenta num Colóquio internacional no qual participam cerca de vinte professores e investigadores portugueses, brasileiros, franceses, suíços, britânicos e norte-americanos, distribuídos por sete painéis, a partir do tema central — “o poder da imagem na obra de Lídia Jorge”.

Augusto Santos Silva, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, fará a primeira comunicação: A imagem de Portugal na obra de Lídia Jorge. Os trabalhos prosseguem amanhã.

Parabéns, Lídia.

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POR FIM


Quatro anos e 6,7 milhões de euros depois, reabriu ontem a estação do metro de Arroios. O cais foi prolongado quarenta metros, permitindo a paragem de comboios com seis carruagens, como no resto da rede.

Foram limpos os azulejos de Maria Keil e colocado um grande painel de Nikias Skapinakis, Cortina Mirabolante, encomendado para o efeito. Quem não quiser descer as escadas tem elevador.

Como é do conhecimento geral, o primeiro empreiteiro faliu, obrigando a Câmara de Lisboa a tomar posse administrativa da obra. Isso explica o salto de seis meses para quatro anos e a derrapagem de 50% no custo final.

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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

UM MILHÃO DE RECUPERADOS


Portugal ultrapassou hoje a barreira do milhão de recuperados. Clique na imagem.

domingo, 12 de setembro de 2021

CARLOS DE OLIVEIRA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Leitura de Carlos de Oliveira (1921-1981), poeta maior, cuja Obra transcende as balizas do neo-realismo a que o seu nome é por regra associado.

Natural de Belém do Pará, no Brasil, veio para Portugal em 1923, radicando-se na região da Gândara, onde seu pai exerceu medicina.

Estreado em livro em 1937, só considerará como parte da bibliografia a obra publicada a partir de 1942, ou seja, a partir de Turismo. Unanimemente considerado o poeta mais importante do neo-realismo português, distingue-se também como romancista. Na ficção, a obra mais conhecida é Uma Abelha na Chuva (1953). Nunca tendo exercido qualquer profissão, colaborou na imprensa cultural de Lisboa, do Porto e de Lourenço Marques. Viveu em Lisboa entre 1948 e 1981, ano da sua morte. O seu espólio encontra-se depositado no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. No passado 10 de Agosto passaram cem anos sobre o seu nascimento.

O poema desta semana pertence a Pastoral (1977), o derradeiro ciclo de Oliveira. A imagem foi obtida a partir de Trabalho Poético, volume da obra poética completa [Assírio & Alvim, 2003] na qual o autor refunde e reescreve toda a poesia publicada, acrescentando-lhe Pastoral.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho e Leonor de Almeida.]

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sábado, 11 de setembro de 2021

11/9


Passam hoje 20 anos sobre o dia que mudou a vida de toda a gente. Nada voltou a ser como dantes. Repito o que escrevi no meu livro de memórias: «Quando uma onda de gases, detritos e fumo engoliu a baixa de Manhattan [...] soubemos que o mundo tal como o conhecíamos tinha acabado naquele momento

A imagem mostra quatro das centenas de corpos que saltaram para o vazio. Foi obtida a partir de Here Is New York — álbum fotográfico com 865 páginas de grande formato, concebido e organizado por Alice Rose George, Gilles Peress, Michael Shulan e Charles Traub, editado pela Scalo [Nova Iorque, Berlim, Zurique] em 2002 —, o livro mais terrível que tenho na minha biblioteca.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2021

JORGE SAMPAIO 1939-2021


Vítima de insuficiência respiratória, morreu hoje Jorge Sampaio, antigo Presidente da República. Sampaio encontrava-se hospitalizado desde o passado dia 27 de Agosto. Faria 82 anos no próximo dia 18.

Activista estudantil contra a ditadura, advogado de profissão, fundador do MES (1974), ingressou no Partido Socialista em 1978. 

Por nomeação de Soares, chefiou a delegação portuguesa que negociou com a Frelimo o contencioso financeiro com Moçambique. Eleito deputado em 1979, foi líder da respectiva bancada parlamentar, chegando a secretário-geral do PS em 1988, cargo em que se manteve até 1992. Presidente da Câmara de Lisboa (1990-1995) e Presidente da República em dois mandatos (1996-2006), foi uma figura respeitada por todos os quadrantes políticos.

Por escolha das Nações Unidas, exerceu os cargos de Enviado Especial para a Luta contra a Tuberculose (2006) e Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações (2007-2013). Era doutorado honoris causa pelas universidades de Aveiro, Coimbra, Lisboa e Porto.

Casou duas vezes, primeiro com a médica Karin Schmidt Dias, depois com Maria José Ritta, ex-supervisora da TAP, mãe dos seus filhos.

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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado:

A holandesa Marieke Lucas Rijneveld (n. 1991) conseguiu a proeza de vencer o International Booker Prize com o livro de estreia, O Desassossego da Noite. Nunca o prémio fora atribuído a alguém tão jovem. Ao receber a notícia, Marieke, então com 29 anos, exclamou: «Estou orgulhosa como uma vaca de sete tetas.» Com acção centrada numa quinta de produtores de leite dos Países Baixos, o plot apoia-se num incidente autobiográfico, a morte acidental do irmão mais velho da narradora, Cas, testemunha da tragédia quando tinha dez anos. Marieke descreve com desenvoltura o dia-a-dia da quinta, o protestantismo da família e, com precisão gráfica, o incesto entre irmãos (muito criativo o uso dado às anilhas das latas de Coca-Cola). Além de sexo e escatologia, o livro subsume violência física e verbal, fisting em bovinos, febre aftosa, abate de animais, barras de sabão introduzidas no reto do pai, etc. Tudo isto em linguagem crua, traduzida directamente do neerlandês por Patrícia Couto. Publicou a Dom Quixote.

Um tour d’horizon sobre a Belle Époque, O Homem do Casaco Vermelho traz de volta Julian Barnes (n. 1946), excelentíssimo autor da literatura de língua inglesa. O ponto de partida é uma viagem a Londres, em 1885, na qual participaram três amigos, um deles Samuel Pozzi, o ginecologista francês que foi amante de Sarah Bernhardt. Barnes decidiu escrever o livro depois de ver o retrato de Pozzi feito por John Singer Sargent (o da sobrecapa e folha de rosto). Digamos que O Homem do Casaco Vermelho é uma espécie de Who’s Who dos anos 1880-90, escrito com minúcia e sagacidade. Estão lá todos, de Oscar Wilde ao conde de Montesquiou (o dândi que Proust imortalizou como Barão de Charlus), de Clemenceau a Dreyfus, de Madame X a Jean Lorrain, de Gide a Henry James, de Huysmans aos irmãos Goncourt. Em suma, um livro culto e divertido, em edição de capa dura com extenso portofolio fotográfico. Publicou a Quetzal. 

Um novo livro de Edna O’Brien (n. 1930), a mais importante escritora irlandesa, é sempre uma boa notícia. Publicado em 2019, Menina é inspirado no rapto, pela seita Boko Haram, das alunas cristãs de uma escola nigeriana. Tudo se passou em 2014, quando mais de duzentas raparigas foram feitas escravas sexuais dos jiadistas. O romance faz silêncio sobre o local do crime, dando voz às vítimas anónimas: «Em tempos fui uma menina, mas já não sou.» Assim começa o relato de Maryam, nome fictício de alguém que sobreviveu ao cativeiro. Para melhor escrever o livro, O’Brien deslocou-se duas vezes à Nigéria. Vão longe os tempos em que as suas obras eram banidas das livrarias de Dublin, muitas delas queimadas em autos-de-fé. Contar a verdade nunca foi fácil, mas O’Brien não desistiu. Descreve a tragédia das rapariguinhas de Chibok com o mesmo desembaraço com que em 1960 descreveu os interditos da sociedade irlandesa. Agora, fez de Menina um romance sobre o indizível. Magnífico. Publicou a Cavalo de Ferro.

Quase toda a gente sabe que Simone Veil (1927-2017) foi a ministra francesa da Saúde que, em 1975, despenalizou a interrupção voluntária da gravidez, tendo sido a primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente do Parlamento Europeu. O que nem toda a gente conhece é o seu passado de prisioneira em Auschwitz-Birkenau e Bergen-Belsen. Através dos relatos feitos a David Teboul, A Madrugada em Birkenau recupera o horror da sua deportação (Simone tinha 16 anos), o paroxismo nazi da “solução final” e o regresso a França depois da prisão. Um testemunho indispensável, ilustrado por dezenas de fotografias. Publicou a Quetzal.

Estamos habituados à ficção de Zadie Smith (n. 1975), mas Sinta-se Livre é uma colecção de ensaios deveras estimulantes, especialmente os da Parte V, que tem o título do livro. Originalmente publicados na New York Review of Books e outras revistas, sobre temas tão diferentes como literatura, Brexit, identidade de género, fotografia, censura artística, Facebook, alterações climáticas, cinema, fractura de classes, liberdade, etc., são textos que nos interpelam com opiniões fortes. Publicou a Dom Quixote.

Para assinalar os 700 anos da morte de Dante Alighieri, o historiador da literatura John Took escreveu A Importância de Dante, obra subtitulada como sendo Um Guia para Pessoas Inteligentes. Na realidade, trata-se um esclarecedor companion da vida e obra de Dante, acessível ao leitor comum. Centrado em três obras — A Divina Comédia, A Vida Nova e O Convívio —, Took cativa-nos do princípio ao fim da leitura. Publicou a Bertrand.

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terça-feira, 7 de setembro de 2021

7 DE SETEMBRO DE 1974


Passam hoje 47 anos sobre uma das datas mais trágicas da História de Moçambique: a tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, patrocinada por parte da burguesia branca (empresários e políticos) e por partidos sem expressão popular, alguns deles formados por dissidentes da FRELIMO, tais como, entre outros, o COREMO, o FICO, o GUMO, o MOLIMO, etc. Quatro dias de pesadelo sobre os quais a historiografia portuguesa faz silêncio.

Um dos contos do meu livro Devastação tem como ponto de partida esse fim-de-semana alucinante. Os factos constam do meu livro de memórias — Um Rapaz a Arder —, do qual deixo um breve excerto:

A tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974 foi um episódio tenebroso com ramificações nunca devidamente esclarecidas. Nesse sábado foi assinado em Lusaka o acordo que definia os termos e condições da independência de Moçambique, tendo Mário Soares e Samora Machel como principais signatários.

Assim que o facto foi divulgado, um grupo de antigos colonos reunidos no denominado Movimento de Moçambique Livre ocupou as instalações do Rádio Clube e fechou o aeroporto da cidade. Eram seis da tarde. Fiz alguns telefonemas e percebi que a situação era muito grave. Horas antes, um grupo de insurrectos tinha invadido a penitenciária e libertado os pides.

A situação ficou fora de controlo. Jornais pró-independência, como o Notícias e A Tribuna, foram tomados de assalto, o mesmo acontecendo às instalações da Associação Académica. O Diário foi o único jornal que saiu no domingo. Entre alusões patrióticas e recados aos «vendilhões de feira» (o alvo era Soares), apoiava a secessão. Os Democratas de Moçambique, cujo bureau fora destruído, deixaram as suas casas no Sommerschield e na Polana e foram refugiar-se no Caniço. Rui Knopfli foi para casa de José Craveirinha. Os transportes públicos deixaram de circular, grande parte dos restaurantes encerrou e, durante quatro dias, os cinemas não funcionaram.

O Movimento de Moçambique Livre confiava no apoio do Presidente da República, mas Spínola não abriu a boca. E contava também com Jorge Jardim, mas o ideólogo do federalismo desapareceu de cena. Apesar do apoio da BOSS, a polícia política sul-africana, o golpe não teve repercussão noutras cidades de Moçambique, nem sequer na Beira, feudo de Jorge Jardim. Mesmo assim, o MML galvanizou os sectores mais reaccionários de Lourenço Marques.

A cidade mergulhou num caos sem precedentes. Enquanto a tranquibérnia durou, não me atrevi a ir mais longe que o Parque José Cabral, a cem metros de minha casa. O Jorge estava retido em Boane, na escola de oficiais milicianos.

[...] Uma companhia de comandos oriunda do Niassa reabriu o aeroporto e desocupou o Rádio Clube na tarde do dia 10. Soube-se que a opera buffa tinha acabado quando as arengas de Gomes dos Santos e Vellez Grilo foram substituídas pelo grito «Galo, galo, galo. Amanheceu. Galo, amanheceu». Para uns, a senha da Frelimo visava apaziguar o Caniço. Para outros foi o tiro de partida da desforra que se manifestou de forma assaz violenta [centenas de mortos] nas vilas da Machava e da Matola. Parte significativa da população branca via esboroar-se o sonho de uma secessão de perfil rodesiano. O êxodo foi imediato. Entre os dias 10 e 12, as autoridades da África do Sul e da Suazilândia facilitaram a passagem de mais de cinquenta mil brancos, a maioria sem passaporte. Muitos regressaram ao fim de semanas. No dia 12 chegou o almirante Vítor Crespo, investido pelo MFA como alto-comissário português.

— Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013

Imagem: no rescaldo do golpe, militares patrulham a cidade. Clique.

domingo, 5 de setembro de 2021

LEONOR DE ALMEIDA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Atrás dos Olhos de Leonor de Almeida (1909-1983), poeta ignorada que Vladimiro Nunes tirou do limbo por ocasião da Feira do Livro do Porto de 2020, evento em que foi homenageada.

Para esse resgate contribuiu Claudia Clemente, que em simultâneo publicou Tatuagens de Luz (Documenta, 2020), rigorosa monografia biográfica de cuja iconografia consta a certidão que fixa em definitivo a data de nascimento de Leonor de Almeida.

Natural do Porto, Leonor de Almeida foi poeta, enfermeira, publicista, fisioterapeuta, esteticista e mulher do mundo, tendo vivido largas temporadas em Londres, Paris e Copenhaga. Morreu em Lisboa, onde viveu praticamente incógnita a partir de 1962.

Feminista avant la lettre, foi aclamada pelos críticos mais influentes dos anos 1940 e 50 (entre outros, João Gaspar Simões, Alberto de Serpa, Jacinto Prado Coelho, Melo e Castro), tendo sido incluída por Natália Correia na Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satítica (1966). Seguiu-se mais de meio século de silêncio.

Além dos quatro livros de poesia que publicou entre 1947 e 1960, colaborou (no mesmo lapso de tempo) em quase todas as revistas e jornais de referência, sendo membro da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Durante os anos em que viveu na Dinamarca tentou publicar naquele país uma antologia de poesia portuguesa traduzida. Foi casada em segundas núpcias (1951-61) com Alexandre Pinheiro Torres, catorze anos mais novo do que ela.

O poema desta semana pertence a Caminhos Frios (1947), o livro de estreia. A imagem foi obtida a partir de Na Curva Escura dos Cardos do Tempo (2020), volume da sua poesia reunida organizado por Vladimiro Nunes, prefaciado por Ana Luisa Amaral e publicado pela editora Ponto de Fuga.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte e Francisco Bugalho.]

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sábado, 4 de setembro de 2021

PAULO RANGEL FAZ COMING OUT


Por causa desta manchete do Expresso fui ver o programa Alta Definição, da SIC. Nele, Paulo Rangel, 53 anos, eurodeputado do PSD, fez o seu coming out com inteligência e serenidade. 

Fê-lo só agora, esclareceu, para preservar a mãe, falecida em 2019. Quem tinha de saber sabia, isso nunca constituiu problema

Rangel, homem culto —  um cristão que tolera o catolicismo —, fez o que fazem os políticos sérios quando se preparam para voos mais altos: pôs as cartas na mesa.

Ao longo da entrevista, além de falar dos pais, dos irmãos, da formação académica, de viagens, do Parlamento Europeu e de política tout court, ainda disse poemas de Gedeão.

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LEITURA


No seu blogue Acrítico, Antonio Ganhão faz a resenha do mais recente dos meus livros. Deixo aqui os últimos parágrafos:

«[...] Depois, temos esta escrita de Eduardo Pitta, limpa, sem metáforas, em linguagem direta. No início do conto Ema entra no autocarro, nada nos é dito sobre essa decisão. Mas o esgar do motorista e o espanto do revisor contam-nos toda uma história. Algo de grave se passou que não nos é dado a conhecer diretamente, cabe ao entendimento do leitor transcender a própria palavra escrita, uma elipse poderosa, avassaladora e o leitor treme de espectativa. Ao terceiro parágrafo já se rendeu e espera o pior, mas não consegue parar de ler. É assim em todos os contos, a elipse como uma segunda voz, um novo tipo de narrador a que não estamos habituados, pelo menos com este nível de mestria.

Todos nós somos senhores das nossas decisões ou de parte da nossa vida, mas o destino está nas circunstâncias de cada um, nos preconceitos, no que escondemos, no que a sociedade nos impõe, e sobreviver pode não ser uma opção. Devastação, impensável não ler este livro

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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

ISABEL DA NÓBREGA 1925-2021


Morreu hoje Isabel da Nóbrega, escritora e tradutora, Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Tinha 96 anos.

Autora de romances, contos, três peças de teatro e literatura para a infância, foi várias vezes premiada. Colaborou intensamente na imprensa, tendo escrito, a partir dos anos 1950, cerca de três mil crónicas.

A partir de edições inglesas e francesas traduziu obras de Tolstoi, Pirandello, Erich Maria Remarque, Graham Greene e outros. Na rádio e na televisão foi responsável por diversos programas culturais, tais como O Prazer de Ler e Largo do Pelourinho. O romance Viver com os outros (1964) é considerado a sua obra-prima.

Depois do cardiologista Abreu Loureiro, pai dos seus filhos, viveu com João Gaspar Simões entre 1954 e 1968, tornando-se companheira de Saramago em 1970 (viveu com o futuro Nobel durante dezasseis anos), mas o seu nome desapareceu das dedicatórias.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

LISBOA


CÂMARA DE LISBOA — Sondagem da Aximage para a TSF, JN e DN divulgada hoje.

Fernando Medina, PS / 51% 

Carlos Moedas, PSD+CDS+PPM+MPT+ALC / 27% 

João Ferreira, CDU / 9%

Beatriz Gomes Dias, BE / 4% 

Bruno Horta Leal, IL / 2%

Manuela Gonzaga, PAN / 2%

Nuno Graciano, CH / 2%

Liderando uma coligação de cinco partidos (PSD, CDS, PPM, MPT e ALC), Moedas obtém um resultado inferior ao conseguido pela soma do PSD e do CDS em 2017.

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LISBOA


O jornal é de hoje, mas a imagem da 1.ª página começou a circular ontem à noite, animando (ou estragando) jantares e convívios.

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domingo, 29 de agosto de 2021

FRANCISCO BUGALHO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Dúvida de Francisco Bugalho (1905-1949), o poeta que melhor retratou os dias parados no tempo.

Conhecido como poeta da melancolia alentejana, Francisco Bugalho nasceu no Porto, numa família da alta burguesia com raízes em Castelo de Vide.

Após haver colaborado em vários jornais e na influente revista — aliás ‘folha de arte e crítica’ — Presença, estreou-se em livro com Margens (1931). Em 1932 radicou-se em Lisboa, onde concluiu o curso de Direito, casou e lhe nasceu o primeiro filho, o futuro poeta Cristovam Pavia. Radicado em Castelo de Vide a partir de 1933, cidade onde exerceu funções de Conservador do Registo Predial, também se dedicou à agricultura.

Em 1960, Régio fez para a Portugália a introdução da sua poesia completa. Além de poesia, Bugalho escreveu um romance (inédito) e traduziu autores como Hawthorne e Stevenson. Morreu aos 43 anos, na sua casa de Castelo de Vide.

O poema desta semana pertence a Canções de entre Céu e Terra (1940). A imagem foi obtida a partir de Poesia (1998), volume organizado por Luis Manuel Gaspar, João Filipe Bugalho, Maria Jorge, Luís Amaro e Diana Pimentel. Prefaciado por Joana Morais Varela, publicado pela Editora LG, com ilustrações de Luis Manuel Gaspar, vasta iconografia, cronologia, tábua de variantes, extractos de correspondência e minuciosa bibliografia, Poesia é, pelo esmero gráfico e rigor bibliográfico, o livro com que sonham todos os poetas.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde e António José Forte.]

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PORTO


CÂMARA DO PORTO — Sondagem da Aximage para a TSF, JN e DN divulgada hoje.

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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

FEIRA DO LIVRO


No próximo sábado, dia 28, estarei na Feira do Livro de Lisboa a partir das 18 horas.

O pavilhão da Dom Quixote fica no topo do Parque Eduardo VII, à direita de quem sobe do Marquês ou à esquerda de quem vem de cima.

Vou lá fazer o quê? Assinar os livros que publiquei na Dom Quixote (mas se aparecerem com outros não me farei rogado), em especial o mais recente, Devastação.

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

JEAN-LUC NANCY 1940-2021


De causa desconhecida, morreu ontem à noite o filósofo francês Jean-Luc Nancy, professor emérito de filosofia na Universidade de Estrasburgo e membro do Collège International de Philosophie.

Discípulo de Derrida, que sobre ele escreveu um livro — Le Toucher. Jean-Luc Nancy, 2000 —, e amigo de Philippe Lacoue-Labarthe, com quem escreveu vários, entre eles Le Mythe Nazi (1991), Nancy pensou sempre em termos de ‘comunidade’. Sirvam de exemplo obras como La Communauté Désœuvrée (1986) e La Communauté Confrontée (2001). 

Deixa uma bibliografia de mais de duzentos títulos, sobre temas tão diversos como história da filosofia, literatura, sexualidade, psicanálise, teologia, pandemia Covid-19 [Un Trop Humain Virus, 2020], política, ociosidade, transplantes (a partir da sua experiência pessoal de transplante de coração em 1992), arte, democracia e outros. Em Portugal estão traduzidos nove, mas nenhum dos títulos aqui citados.

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domingo, 22 de agosto de 2021

COMO É QUE ISTO SE FAZ?


Grata surpresa de domingo, a publicação no Esquerda Net — um portal mantido pelo BE desde 2006 — da leitura feita por Alice Brito do mais recente dos meus livros, Devastação.

Acaba assim:

«Como é que isto se faz? / Como é que se consegue ter este olhar caleidoscópico sobre a realidade, este olhar que nunca é explícito, mas tão certeiro, tão profundamente devastador, que nos vai retratando seres humanos, sociedades, longínquos ways of life, regimes, perdas irreversíveis, traumas ocultos que à primeira oportunidade se revelam e rebelam... [...] Como é que isto se faz? Essa é a pergunta. Sem recurso a cambalhotas de palavras, metáforas, assim com esta limpeza, esta assepsia de prosa clara. / Como é que isto se faz? Essa é a pergunta

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ANTÓNIO JOSÉ FORTE


UM POEMA POR SEMANA — Publico hoje o 30.º poema desta secção: dezasseis escritos por homens, catorze por mulheres. O critério mantém-se: autores portugueses nascidos a partir de 1842, exclusão de autores vivos, autores relevantes a despeito do meu gosto.

Para este domingo escolhi Retrato do Artista em Cão Jovem de António José Forte (1931-1988), poeta surrealista ligado ao grupo do Café Gelo. O poema funciona como paráfrase em verso de um título famoso de Dylan Thomas.

Natural de Vila Franca de Xira, publicou o primeiro livro em 1960, foi funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian (encarregado das bibliotecas itinerantes durante vinte anos) e deixou uma obra breve. Foi casado em segundas núpcias com a artista plástica Aldina Costa.

O poema desta semana pertence a 40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girândola Implacável e Outros Poemas (1960). A imagem foi obtida a partir de Edoi Lelia Doura, antologia das vozes comunicantes da poesia portuguesa organizada por Herberto Helder em 1985.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos e Cesário Verde.]

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terça-feira, 17 de agosto de 2021

PESOS E MEDIDAS

A forma como tanta gente tem reagido à queda de Cabul, invectivando Washington, leva-me a alinhavar alguns comentários.

Na sequência do 11 de Setembro, o Afeganistão não foi ocupado pelos Estados Unidos, foi ocupado pela NATO, sob liderança norte-americana (a Austrália, que não é membro da NATO, também integrou a coligação). Não esquecer que, ao longo dos últimos vinte anos, Portugal teve forças no terreno.

Os que hoje lamentam a falta de solidariedade americana pela população afegã, acaso manifestaram solidariedade com as populações de Angola, Guiné, Moçambique, etc., durante a descolonização exemplar...? Alguém falou ou fala dos campos de reeducação que a Frelimo manteve em Nachingwea, Bagamoyo e Mitelela? Alguém se lembra das vítimas da reeducação, na sua maioria moçambicanos negros? Falo desses campos no meu livro de memórias, mas não sou o único. Ungulani Ba Ka Khosa, nome tsonga de Francisco Esau Cossa, também o faz no seu livro Entre Memórias Silenciadas (2013), como antes dele fizera o historiador João Paulo Borges Coelho em Campo de Trânsito (2007). Em Portugal alguém quis saber? 

Biden disse, por outras palavras: Estamos fartos! Acabou. Se não estava a debitar a cartilha do MRPP — Nem mais um soldado para as colónias —, andou lá perto.

Os que andam há décadas a demonizar «a América» não podem agora querer virar a História do avesso.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

ESTAMOS FARTOS, DIZ ELE


Interrompendo as férias em Camp David, Biden deslocou-se esta tarde à Casa Branca para falar ao país quando eram 16:05 em Washington.

Breve resumo: «A escolha que tive de fazer como Presidente foi respeitar o acordo de retirada das nossas forças.» Acrescentou que não faria sentido «intensificar o conflito, enviando milhares de soldados americanos de volta ao combate, prolongando o conflito pela terceira década

Afinal de contas, «os líderes políticos do Afeganistão desistiram e fugiram do país, desprezando centenas de biliões de dólares em equipamentos e recursos com militares que depuseram as armas.» Terminou dizendo que não se arrependia da decisão, assumindo total responsabilidade.

Pelo meio também disse que não se pode impor a terceiros o nosso modelo de sociedade, sobretudo quando eles não querem.

Não houve direito a perguntas. Biden abandonou o salão assim que acabou de falar.

Pela primeira vez, um Presidente norte-americano fez a vontade à opinião pública europeia, aparentemente desconcertada com o fracasso da operação da NATO — como Merkel reconheceu —, operação de vinte anos na qual participaram norte-americanos, canadenses, britânicos, alemães, franceses, espanhóis, portugueses, etc. Um dia histórico, este 16 de Agosto de 2021.

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domingo, 15 de agosto de 2021

CESÁRIO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi De Tarde de Cesário Verde (1855-1886), o mais destacado precursor da moderna poesia portuguesa.

Natural de Lisboa, Cesário Verde nasceu no seio de uma família de comerciantes abastados. Tinha dois anos quando uma epidemia de febre-amarela assolou Lisboa, obrigando a família a deslocar-se para Linda-a-Pastora, localidade onde Cesário passou a infância.

Aos 18 anos matriculou-se no Curso Superior de Letras, que abandonou ao fim de três meses. Data dessa época a sua amizade com Silva Pinto, o miglior fabbro. Aprendeu latim, francês e, para trabalhar numa loja do pai, rudimentos de contabilidade. Colaborou em revistas e jornais de Lisboa e de Azeitão. Vítima de tuberculose, morreu no Paço do Lumiar com 31 anos.

O poema desta semana pertence à sequência O Sentimento dum Ocidental, incluída no Livro de Cesário Verde (1887), edição póstuma organizada e publicada pelo amigo Silva Pinto, autor do prefácio. A imagem foi obtida a partir da edição que o Círculo de Leitores fez, em 1982, para a colecção Clássicos da Literatura Portuguesa.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha e Edith Arvelos.]

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