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sexta-feira, 5 de março de 2021

BELÉM NO FEMININO

A partir da próxima terça-feira, dia 9, data da posse do Presidente da República, os serviços da Presidência da República passam a contar com onze mulheres, nove das quais estreantes da West Wing de Belém.

Na Casa Civil serão: Amélia Paiva, embaixadora, para chefiar a assessoria diplomática; Djaimilia Pereira de Almeida, escritora afro-portuguesa, na Integração e Inclusão Social; Maria José Policarpo, empresária, na área das Empresas e Concertação Social; Isabel Aldir, médica infecciologista e antiga responsável pelo plano de rastreio e prevenção do HIV, na Saúde; Zita Martins, astrobióloga, na Ciência; Isabel Alçada, professora e autora de literatura para a infância, na Educação; Maria João Ruela, jornalista, nos Assuntos Sociais; Patrícia Fonseca, ex-deputada do CDS; Rita Saias, presidente do Conselho Nacional de Juventude; e Inês Domingos, ex-deputada do PSD.

Para a Casa Militar entra Patrícia Pereira, afro-portuguesa, major da GNR, responsável pela Segurança do PR.

Isabel Alçada e Maria João Ruela transitam do mandato em curso.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

EQUÍVOCO


Elementar. Clique na imagem.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

FAMILYGATE

Com tanto assunto sério para resolver, tais como contratar médicos e enfermeiros para o SNS, agilizar os pedidos de contagem de tempo e reforma da Segurança Social, pôr um travão no descalabro da Refer, aumentar a oferta de transportes públicos, abrir a ADSE a cônjuges de beneficiários, arranjar forma de moderar o sufoco fiscal, etc., o país entretém-se com o familygate.

O PS propõe interditar nomeações até ao 4.º grau, patamar que inclui os filhos dos primos. Mas o Presidente da República, que não pode legislar, vai entregar ao Governo o draft de um diploma sobre nomeações para Belém (Casa Civil, Casa Militar, gabinete do PR, centro de comunicações, segurança, serviço de apoio médico), interditando nomeações até ao 6.º grau, patamar que inclui primos segundos, primos-tios-avós, primos-sobrinhos-netos, tios-trisavós, sobrinhos-trinetos, pentavós e pentanetos.

Não sei se ria se chore.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

JAMAICA & MARCELO


Santana Lopes foi ontem ao Jamaica: Um susto. Eu, se morasse aqui, também me sentiria revoltado. A frase soa bem, mas não esquecer que Santana foi primeiro-ministro durante oito meses, entre 2004 e 2005, e o Bairro da Jamaica, em Setúbal, existe pelo menos desde 1989. Mas não é Santana que me interessa. Santana anda em campanha pelo seu partido.

O que me faz confusão é o aparente descaso do Presidente da República. Depois da visita ao Panamá, onde foi assistir a um concílio papal (visita que devia ter sido feita a título particular, nunca com carácter de Estado, na medida em que Portugal é uma República laica), o PR cumpre agenda à revelia dos acontecimentos do Jamaica.

O facto seria natural se a agenda (oficial, oficiosa e privada) do PR não fosse pautada pelo dom da ubiquidade. Sirva de exemplo o descarrilamento do eléctrico da Carris, ocorrido em Dezembro, no cruzamento da Rua de São Domingos à Lapa com a Rua Garcia de Orta, em Lisboa. Minutos após o acidente, Marcelo estava no local.

Estabelecido um padrão, é difícil escapar ao formato sem uma explicação razoável.

Clique na imagem.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O DIA DA RAÇA

Num dos anos em que exerceu o cargo de primeiro-ministro, Cavaco convidou (e ele aceitou) Miguel Esteves Cardoso a escrever as Grandes Opções do Plano. Não vou comparar MEC com JMT. Mas o nonsense é da mesma ordem de grandeza. E o ano passado foi Ricardo Araújo Pereira quem esteve nas Nações Unidas, a representar a língua portuguesa, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal. A lógica é a mesma, e não me admiraria ver Cristina Ferreira a presidir às comemorações no próximo ano. Eu, como considero que o Dia da Raça devia ter sido extinto pela democracia, em vez de lhe mudarem o nome e meterem os emigrantes no pacote, também considero pouco edificantes estas nomeações. Mas cada um sabe de si.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

BARNIER EM BELÉM


Realizou-se ontem mais uma sessão do Conselho de Estado. Desta vez, o convidado foi Michel Barnier, negociador-chefe da UE para o Brexit.

Durantes os trabalhos, António Costa expôs o Plano de Preparação e de Contingência para a saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo. A intervenção do primeiro-ministro faz todo o sentido. Mas por que carga de água (excepto demonstrar a eficácia da nossa diplomacia) o Presidente da República convidou Mr. Barnier?

Imagem (editada) do site da Presidência da República. Clique.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

BRANCO É, GALINHA O PÕE

Não toleraremos que se repita o uso das Forças Armadas por interesses pessoais ou de grupo e jogos de poder... — disse o Presidente da República no discurso que ontem fez na Avenida da Liberdade.

O recado vai em linha recta para os promotores da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Caso de Tancos, que pretende, por essa via, envolver o Governo e a Presidência da República.

Pode ser que me engane, mas os deputados (interessados em saber quem sabia do encobrimento que afinal não houve, porém desinteressados do alegado roubo) vão ficar a falar sozinhos.

domingo, 5 de agosto de 2018

SHORT RENTING

O Presidente da República reconhece que o Parlamento tem produzido legislação de forma atabalhoada. Exemplo maior, o diploma sobre alojamento local. Mas então, se é assim, e qualquer pessoa reconhece que sim, por que razão o promulgou? Para proteger os centros históricos das cidades? Salvo esse detalhe (zonas de contenção a definir pelas autarquias), quase tudo o resto fica dependente de legislação a produzir no espaço de dois anos.

É o caso dos direitos dos condóminos em prédios onde coexista habitação permanente com short renting. Fica suspenso por dois anos e, não sendo alterada a redacção do actual diploma, as autarquias podem contrariar a decisão dos condóminos. Isto admite-se?

O Presidente considera questionável e desconexo, tem razão, mas promulgou. Porquê?

sexta-feira, 9 de março de 2018

DOIS ANOS


Não sou apoiante do Bloco de Esquerda, partido em que nunca votei, mas, nas últimas eleições presidenciais, como é público, apoiei Marisa Matias.

Isto dito, fique exarado que me revejo na forma como Marcelo Rebelo de Sousa tem exercido o mandato de Presidente da República. Os detalhes coreográficos são secundários. Importante mesmo é a presença de um democrata em Belém. Não tenhamos dúvidas: com um nível de aceitação a roçar a unanimidade, outro no seu lugar não hesitaria em plebiscitar uma entorse constitucional. Ter isso presente.

sábado, 3 de março de 2018

TANTO BARULHO PARA NADA

Afinal, o que o Presidente da República queria era um debate alargado sobre o financiamento dos Partidos. Desde que o conteúdo do diploma fosse explicado, podia ter ficado como estava. Marcelo dixit: «A minha recomendação era muito simples. Têm de discutir e explicar aos portugueses aquilo que querem aprovar. Fizeram isso.» Foi a posição defendida pelo PS desde o início, mas os deputados foram mais papistas que o Papa e fizeram alterações pontuais.

Ontem, com os votos do PS, BE, PCP, PEV e PSD, o Parlamento aprovou as alterações. O CDS e o PAN votaram contra.

domingo, 22 de outubro de 2017

PERGUNTA OPORTUNA

O Presidente da República quer saber, e já agora eu também, por que razão os deputados (sobretudo os que foram eleitos pelos círculos afectados) ainda não foram visitar os concelhos ardidos. Será porque não têm galochas?

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

FESTA DO LIVRO


Um realejo com Florbela Espanca abre hoje (18:00), nos jardins do Palácio de Belém, a Festa do Livro. Estão representadas 33 editoras e os seus autores de língua portuguesa. Além de quiosques de venda de livros, haverá um kindergarten e sete pontos de restauração. Pedro Mexia, assessor cultural do Presidente da República, organizou debates sobre vários temas em que participarão, entre outros, Bernardo Pires de Lima, Bruno Vieira Amaral, Djaimilia Pereira da Silva, Eduardo Lourenço, Frederico Lourenço e Maria de Fátima Bonifácio. Também haverá jogos didácticos (seja lá o que isso for), sessões de leitura de poesia, charlas com contadores de histórias, uma palestra sobre Pessoa, intervenções do Quarteto de Cordas da GNR, um espectáculo de fado com Cristina Branco (amanhã), bem como, no sábado, a estreia de «Visita ou Memórias e Confissões», o filme póstumo de Manoel de Oliveira, que volta a ser exibido no domingo. Pela parte que me toca, estarei presente no domingo a partir das 17h. A entrada é livre, mas quem quiser ir terá de levar consigo o cartão de cidadão ou o bilhete de identidade.

quinta-feira, 24 de março de 2016

CLARO COMO ÁGUA

Passos Coelho, cujo Governo não mexeu um dedo para evitar ou sequer controlar os colapsos do BES e do BANIF, teve o topete de questionar António Costa sobre a sua legitimidade para interferir no BPI e no BCP. O primeiro-ministro deixou o líder do PSD a falar sozinho. Mas o Presidente da República foi claro. Na presença do primeiro-ministro, Marcelo afirmou:

«Justifica-se essa intervenção a pensar na estabilidade do sistema financeiro, a pensar na afirmação do interesse público. É natural que o Governo, como aliás todos os governos da União Europeia, estejam permanentemente atentos àquilo que é a garantia da estabilidade do sistema financeiro, nomeadamente quando essa liberdade envolve processos legislativos ou pode envolver. [...] A Constituição da República subordina o poder económico ao político e determina que o poder político salvaguarde um conjunto de princípios fundamentais do Estado de direito democrático. E aí justifica-se a intervenção dos órgãos de soberania, naturalmente em articulação com as entidades reguladoras

quarta-feira, 9 de março de 2016

HABEMUS PRESIDENTE


Cavaco Silva saiu de cena. Chegou hoje ao fim um período negro da História de Portugal. O cavaquismo representa tudo o que de pior a Democracia alimenta. Cavaco deixa Belém ao fim de dez anos de facciosismo, intriga e prepotência. O homem que fracturou o país em dois não deixa saudades.

Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse perante os deputados da Nação e umas centenas de convidados, entre os quais Filipe VI, rei de Espanha; Filipe Nyusi, presidente da República de Moçambique; Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, um representante do rei de Marrocos e o antigo presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso.

Retenho dois breves períodos do discurso que fez: «Temos de cicatrizar feridas destes tão longos anos de sacrifícios, no fragilizar do tecido social, na perda de consensos de regime, na divisão entre hemisférios políticos. [...] O Presidente da República é o Presidente de todos. Sem promessas fáceis ou programas que se sabe não pode cumprir, mas com determinação constante. Assumindo, em plenitude, os seus poderes e deveres. Sem querer ser mais do que a Constituição permite. Sem aceitar ser menos do que a Constituição impõe

O tom da cerimónia foi dado no modo como chegou à Assembleia da República: a pé. Neste momento, depois dos cumprimentos protocolares, almoça no Palácio de Belém com um pequeno grupo (vinte pessoas) de convidados, entre eles o presidente do Parlamento, o primeiro-ministro, o rei de Espanha e o presidente da República de Moçambique. Passos Coelho, convidado, faltou.

A meio da tarde, Marcelo participará numa celebração ecuménica na Mesquita de Lisboa, cerimónia que juntará representantes de duas dezenas de confissões religiosas.

Às oito da noite, Marcelo será recebido por Fernando Medina na Câmara de Lisboa. Mariza cantará o hino nacional, seguindo-se um concerto popular na Praça do Município, durante o qual actuam Anselmo Ralph, Diogo Piçarra, José Cid, Paulo de Carvalho, Pedro Abrunhosa e a banda HMB.

Foto da Presidência da República. Clique.

domingo, 6 de março de 2016

O RETRATO


Vai por aí um estendal de juízos morais com o facto de ser Barahona Possollo o autor do retrato oficial de Cavaco que figurará na galeria dos Presidentes do palácio de Belém. Pouca gente saberá que Barahona Possollo é o autor da maioria dos selos que os CTT emitem desde os anos 1990 (um exemplo: a série comemorativa do 5.º centenário da viagem de Vasco da Gama). E que existe na Casa Branca um retrato de George Washington de sua autoria. E que o retrato de Cavaco foi escolhido por um júri informal: havia dois retratos, de dois autores, e um grupo de 40 pessoas, sem saberem quem tinha pintado o quê, e sem falaram entre si (a passagem de uma sala para outra impedia conversas prévias à escolha), indicavam a sua preferência. Terá sido isto.

Não é fácil ir à Casa Branca ou ao andar da administração do Banco de Portugal, mas o Museu de Setúbal fica aqui a dois passos. Se eu gosto do retrato? O tinteiro é um disparate, o resto é o trivial. Já agora: Cavaco não tem a mão sobre um exemplar da Bíblia, como se anda a dizer por aí. Os volumes ao alto são a Constituição da República e A Riqueza das Nações, de Adam Smith. Clique na imagem.

sexta-feira, 4 de março de 2016

OS HOMENS DO PRESIDENTE

A cinco dias da posse de Marcelo, são conhecidos quase todos os homens do Presidente. O chefe da Casa Civil é Fernando Frutuoso de Melo, 60 anos, diplomata. Vem de Bruxelas, onde exerce o cargo de director da política de cooperação e ajuda externa da Comissão Europeia. O chefe da Casa Militar é João Carvalho Cordeiro, 57 anos, general da Força Aérea e chefe da Missão Militar junto da NATO e da União Europeia. Também vem de Bruxelas. O assessor diplomático vem de Moçambique: José Augusto Duarte, 52 anos, embaixador de Portugal em Maputo (e embaixador não-residente na Suazilândia, Tanzânia, Seychelles e Maurícia). O assessor jurídico é Miguel Nogueira de Brito, 50 anos, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. O assessor cultural é Pedro Mexia, 43 anos, poeta, cronista e crítico literário. O assessor para a área do empreendedorismo e inovação é Luís Ferreira Lopes, jornalista, antigo director de economia da SIC. O assessor político mantém-se: é António Araújo, administrador da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Para o gabinete de imprensa vão Mariana Corrêa e Duarte Vaz-Pinto, mas ainda se desconhece o nome do futuro titular.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

ENTÃO O CPA?


No portão? Mas há com certeza uma guia assinada e datada. Portanto é só ir ler o que diz o Código do Procedimento Administrativo. Portão ou boudoir, o acto teve de ser datado.

A manchete é do Diário de Notícias. Clique.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

COMO É?

Tenho uma visão minimalista da função presidencial. Representação externa do Estado, chefia honorária das Forças Armadas e pouco mais. Um PR não deve ter programa. Tem apenas a obrigação de respeitar e fazer respeitar a Constituição. Ponto.

A revisão constitucional de 1982, a primeira das sete efectuadas até 2005, tendo retirado poderes ao Presidente da República, ainda lhe deixa a margem de manobra que justifica a eleição por sufrágio directo e universal. Exemplo corrente: poder dissolver a Assembleia da República. Todos o fizeram. Embora o Artigo 195.º admita, desde 1982 nenhum PR demitiu o primeiro-ministro, porque a Constituição é peremptória: «O Presidente da República só pode demitir o Governo quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, ouvido o Conselho de Estado.» Não é isto que me preocupa. Um PR sensato abstém-se de tentações caudilhistas.

Por isso não gostei nada de ouvir Marcelo dizer que, sendo eleito, tenciona ouvir permanentemente os partidos, os agentes económicos e os parceiros sociais. Permanentemente. Nenhum Governo se aguenta nesse frenesi. Em Abril, quando Sampaio da Nóvoa avançou, muita gente ficou de pé atrás com o “programa” do candidato.  Daqui até 24 de Janeiro temos todos de saber com o que contamos.

domingo, 1 de novembro de 2015

CHUTZPAH

Entre 22 de Outubro, data em que indigitou Passos Coelho, e anteontem, data em que empossou o primeiro-ministro, o Presidente da República engoliu vários sapos. Não foi ele que mudou. A mão que escreveu o discurso de 30 de Outubro não pôde ignorar o eco internacional da catilinária com que pretendeu ilegalizar três partidos com representação parlamentar (BE, PCP, PEV), subtraindo direitos de cidadania a um milhão de eleitores. Não foi um eco qualquer. Bastar ler o Wall Street Journal, a Forbes, o New York Times, La Tribune, o Huffington Post, o Telegraph ou mesmo o conservador Tagesspiegel, coincidindo todos na tese da usurpação de poder ou, na fórmula de Jacques Sapir, “golpe de Estado silencioso”, para termos a noção de como a imprensa de referência leu Cavaco Silva. Isso levou ao discurso soft de anteontem. Tão simples como isto.

sábado, 24 de outubro de 2015

DISCURSO DIRECTO, 22

José Pacheco Pereira, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«O que fez o Presidente da República na sua declaração foi dar uma chicotada nos portugueses — por singular coincidência, a maioria — de que ele considera não ser o Presidente. Não foi uma chicotada psicológica, mas uma chicotada real. [...]

Embora não o tenha dito explicitamente, disse com clareza suficiente que não dará posse a um governo PS-BE-PCP, com maioria parlamentar, que ele entende ser maldito, sugerindo que, mesmo que o Governo PSD-CDS não passe na Assembleia, poderá deixá-lo em gestão até que haja condições para haver novas eleições. O facto de apenas o ter subentendido pode indicar que possa recuar, mas o tom agressivo das suas considerações faz com que, se o fizer, isso equivalha a uma gigantesca manifestação de incoerência e impotência, em si mesma um factor de instabilidade. [...]

Num só acto o Presidente garantiu longos meses de instabilidade política, um confronto permanente entre instituições, uma enorme radicalização da vida política, e tornou-se responsável pelas consequências económicas que daí advenham. A aceitarem este rumo, Cavaco Silva e Passos Coelho passam a ser os principais sujeitos dos efeitos negativos na economia e na sociedade, desta instabilidade [...]

Na verdade, o que é ainda mais grave é que se mostrou disposto a deteriorar a situação económica do país, e a sua posição face aos “mercados”, que até agora não reflectiram o catastrofismo do discurso interno do PSD-PS e externo do PPE, e que, se agora o começarem a fazer, é porque o Presidente abriu uma frente de guerra e de instabilidade que dificilmente se resolverá. [...]

Nunca, desde o 25 de Abril, um Governo serviu a direita ideológica e dos interesses como o tandem troika-PSD-CDS. Nunca foi tão grande a troca mútua de serviços entre a “Europa” e a direita política. [...] A aliança do PSD-CDS com os interesses económicos consolidou-se como nunca. Os passeios de Sócrates com os empresários, muitos que agora andam atrás de Passos, Portas e Pires de Lima, são uma brincadeira de meninos com o que se passa hoje. Sócrates distribuiu favores e benesses, Passos e Portas, apoiados na troika, mudaram as regras do jogo em áreas decisivas para o patronato que precisa de poder despedir sem grandes problemas, baixar salários e contar com uma enorme pool de trabalho precário, e de uma ecologia fiscal e social favorável aos “negócios”. Deram-lhes um incremento de legitimação ao propagandearem uma economia que era feita apenas de empresas, empresários e “empreendedorismo”, mas em que os trabalhadores são apenas uma maçada uma vez por mês para pagar salários. Ofereceram-lhes uma voz política como nunca tiveram, e uma voz em que a “economia” passou a significar governar como eles governaram, ou seja, a “economia” exige que se governe à direita, e em que os “mercados” passaram a estar acima da democracia e do voto. E nunca até agora uma poderosa máquina ideológica e comunicacional existiu para proteger estes interesses económicos e políticos. [...]

Outro dos efeitos perversos da comunicação presidencial foi condicionar a próxima eleição presidencial ao dilema da dissolução ou não da Assembleia. [...]

Por último, o Presidente, com a sua declaração de guerra, terá a guerra que declarou. Ao apelar à desobediência dos deputados do PS, tornará muito difícil que eles desobedeçam, sob pena de se tornarem párias no seu próprio partido. Ajudou a consolidar a vontade do PS, BE e PCP de defrontarem em comum o PSD-CDS, e abriu espaço para o imediato anúncio, que ainda não tinha sido feito, de que o PS apresentaria uma moção de rejeição. [...]

Onde a mensagem do Presidente — sugerindo, mesmo que não o diga com clareza, que possa manter o Governo Passos Coelho em gestão até novas eleições — é mais grave é no confronto que faz à Assembleia da República. É que se o Governo pode estar em gestão, a Assembleia não o está. É detentora dos seus plenos poderes constitucionais. Pode não só impedir a legislação oriunda do Governo, como pode ela própria legislar e avocar muitos actos que o Governo venha a praticar. Ou seja, numa situação de conflito entre um Governo que recusou e os seus próprios poderes, a Assembleia pode “governar” sem limitações em muitas matérias. E que fará o Presidente? Veta de gaveta, devolve os diplomas, manda para o Tribunal Constitucional? Os precedentes que este conflito pode gerar mostram como a comunicação presidencial está, ela sim, no limite do abuso e da usurpação de poderes