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terça-feira, 30 de março de 2021

DAESH OCUPA PALMA


Após cinco dias de combates, Palma caiu ontem nas mãos do Daesh. Os confrontos deram origem à fuga, para Pemba, de cerca de quarenta mil pessoas. 

Entre os mais de cem mortos confirmados, metade são estrangeiros (um deles português) que se encontravam no Hotel Amarula Palma. Nos seus helicópteros, a empresa de segurança sul-africana Dyck Advisory Group apenas conseguiu evacuar vinte e duas pessoas. Muitos dos que ficaram para trás foram decapitados, outros abatidos a tiro na praia.

Situada no extremo Norte de Moçambique, Palma é uma das principais bases de exploração de gás natural, naquele que é o maior investimento privado de toda a África. Entre as petrolíferas internacionais envolvidas destaca-se a Total, presente em Moçambique há mais de 60 anos.

Por junto, existem neste momento setecentos mil deslocados em Cabo Delgado, uma das onze províncias de Moçambique.

Nove vezes maior que Portugal, Moçambique tem 28 milhões de habitantes, muita riqueza natural por explorar, mas, infelizmente, não dispõe de forças armadas em número suficiente para controlar um território tão vasto. 

Tudo indica que o conflito vai internacionalizar-se. A Tanzânia e a África do Sul ponderam intervir directamente. Portugal vai enviar sessenta militares para darem formação (em Maputo) ao Exército moçambicano.

Nada disto começou agora. Nos últimos três anos, enquanto morreram moçambicanos, ninguém ligou. Agora que executivos de várias nacionalidades, todos brancos, foram executados, o mundo acordou. Até o Pentágono.

Clique na imagem.

segunda-feira, 8 de março de 2021

LEITURA DA HISTÓRIA


Por razões longas de explicar, as elites moçambicanas (e, a partir dos anos 1930, também as classes médias) nunca gostaram de Salazar, olhando para o Estado Novo como uma realidade distante e abstrusa. Isto para dizer que, por parte da população branca de Moçambique, a oposição ao regime começou com a queda da Primeira República.

Moçambique fica do outro lado do mundo, faz fronteira com seis países de língua inglesa e, nessa medida, o modo de vida salazarento era uma abstracção para quase todos.

O livro de que vou falar — Brancos de Moçambique. Da oposição eleitoral ao salazarismo à descolonização (1945-1975) — foi publicado em 2018, mas só agora dele tomei conhecimento. Acrescenta muito pouco ao que já sabia. Mas, para a generalidade dos leitores portugueses, representa uma boa introdução ao que era a vida na Colónia.

Bem documentado, o historiador Fernando Tavares Pimenta, professor da Universidade de Coimbra, faz um tour d’horizon à administração colonial de Moçambique, vista sob o prisma da oposição local.

Resumindo muito: análise exaustiva até aos anos 1960, quadros estatísticos elaborados a partir dos censos oficiais, interpretação sociológica correcta e transcrição oportuna de fontes. Menos bem a parte relativa à vida cultural, acerca da qual muito mais haveria a dizer. Meia dúzia de omissões (sobretudo no último capítulo) não beliscam o interesse da obra.

Clique na imagem.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

7 DE SETEMBRO DE 1974


Passam hoje 46 anos sobre uma das datas mais trágicas vividas em Lourenço Marques, actual Maputo. Ainda lá vivia e tenho presentes esses dias de caos universal. Respigo do meu livro de memórias Um Rapaz a Arder, publicado em 2013 na Quetzal:

«[...] Do ponto de vista das expectativas individuais, o 25 de Abril dividiu a população branca em dois grandes grupos: os que queriam a independência branca, como na Rodésia de Ian Smith; e os que queriam a independência sob tutela da Frelimo. Entalado entre os dois, sem expressão numérica relevante, o núcleo dos que acreditavam numa solução de compromisso, com exclusão das teses federalistas. Era o meu caso. A ilusão durou pouco.

A tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974 foi um episódio tenebroso com ramificações nunca devidamente esclarecidas. Nesse sábado, foi assinado em Lusaca o acordo que definia os termos e condições da independência de Moçambique, tendo Mário Soares e Samora Machel como principais signatários. Assim que o facto foi divulgado, um grupo de antigos colonos reunidos no denominado Movimento de Moçambique Livre ocupou as instalações do Rádio Clube e fechou o aeroporto da cidade. Eram seis da tarde. Fiz alguns telefonemas e percebi que a situação era muito grave. Horas antes, um grupo de insurrectos tinha invadido a penitenciária e libertado os pides.

A situação ficou fora de controlo. Jornais pró-independência, como o Notícias e A Tribuna, foram tomados de assalto, o mesmo acontecendo às instalações da Associação Académica. O Diário foi o único jornal que saiu no domingo. Entre alusões patrióticas e recados aos vendilhões de feira (o alvo era Soares), apoiava a secessão. Os Democratas de Moçambique, cujo bureau fora destruído, deixaram as suas casas no Sommerschield e na Polana e foram refugiar-se no Caniço. Rui Knopfli foi para casa de José Craveirinha. Os transportes públicos deixaram de circular, grande parte dos restaurantes encerrou e, durante quatro dias, os cinemas não funcionaram.

O Movimento de Moçambique Livre confiava no apoio do Presidente da República, mas Spínola não abriu a boca. E contava também com Jorge Jardim, mas o ideólogo do federalismo desapareceu de cena. Apesar do apoio da BOSS, a polícia política sul-africana, o golpe não teve repercussão noutras cidades de Moçambique, nem sequer na Beira, feudo de Jorge Jardim. Mesmo assim, o MML galvanizou os sectores mais reaccionários de Lourenço Marques.

A cidade mergulhou num caos sem precedentes. Enquanto a tranquibérnia durou, não me atrevi a ir mais longe que o Parque José Cabral, a cem metros de minha casa. O Jorge estava retido em Boane, na escola de oficiais milicianos. Os rostos visíveis do MML eram Manuel Gomes dos Santos, o locutor Manuel; Victor Hugo Vellez Grilo, dirigente do PCP até às purgas de 1940 (vivia em Lourenço Marques desde 1942); Gonçalo Mesquitela, líder da direita, vogal do Conselho Ultramarino e deputado à Assembleia Nacional; Arlindo Malosso, Vasco Cardiga, Vasco Ferreira Pinto, Pires Moreira e o comandante de milícias Daniel Roxo.

Uma companhia de comandos oriunda do Niassa reabriu o aeroporto e desocupou o Rádio Clube na tarde do dia 10. Soube-se que a opera buffa tinha acabado quando as arengas de Gomes dos Santos e Vellez Grilo foram substituídas pelo grito «Galo, galo, galo. Amanheceu. Galo, amanheceu». Para uns, a senha da Frelimo visava apaziguar o Caniço. Para outros, foi o tiro de partida da desforra que se manifestou de forma assaz violenta nas vilas da Machava e da Matola. Parte significativa da população branca via esboroar-se o sonho de uma secessão de perfil rodesiano. O êxodo foi imediato. Entre os dias 10 e 12, as autoridades da África do Sul e da Suazilândia facilitaram a passagem de mais de cinquenta mil brancos, a maioria sem passaporte. Muitos regressaram ao fim de semanas. [...]»

Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

FOTOGRAFIA EM MOÇAMBIQUE


Quem se interessa por fotografia e, em especial, pela história da fotografia em Moçambique, deve procurar ler Photographos de Paulo Azevedo, que já em 2016 publicara Joseph e Maurice Lazarus. Photographos Pioneiros de Moçambique, 1899-1908.

Em cerca de duzentas páginas, Paulo Azevedo fixa o aparecimento e avanço da fotografia em Moçambique, entre os anos 1800 e 1920, traçando os perfis de pioneiros como Benjaminn Kisch, Manuel Romão Pereira, Louis Hily, Thomas Lee, António Joaquim Cunha, Joseph e Maurice Lazarus, Eduardo Battaglia, José Ferreira Flores, Francisco S. Silva, Ignácio P. Pó, Sidney Hocking e J. Wexelsen.

Descobri muita coisa que desconhecia, como por exemplo a história pregressa da Casa Spanos (onde, com 12 anos, folheava exemplares da revista gay americana Physique Pictorial...) e da Fotografia Bayly, que ainda existiam ao tempo da minha adolescência.

O volume inclui portfolio fotográfico, incluindo fotografias da visita feita a Moçambique (em 1907) pelo príncipe D. Luís Filipe, ao tempo herdeiro do trono português, mas também do 2.º aniversário da implantação da República, bem como várias transcrições do Lourenço Marques Guardian e de anúncios publicados na imprensa da época.

Muito interessante. Editou a Glaciar.

Clique na imagem.

sábado, 23 de maio de 2020

MEMORIES


Como eu me lembro de Glória de Sant’Anna.

Em 1968, quando comecei a escrever e a publicar poemas, já Glória de Sant’Anna era um nome consagrado em Moçambique. Um daqueles poetas que admiramos à distância. Nunca tendo ido a Pemba, não a conhecia em pessoa.

Um dia, para vaidade e surpresa minha, recebi pelo correio dois livros seus, autografados — Um Denso Azul Silêncio, de 1965, e Desde Que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo, publicado em 1972, com ilustrações de Teresa Roza d’Oliveira.

Só nos conhecemos pessoalmente em Julho de 1974, na tarde do dia 27, o sábado em que Spínola reconheceu o direito à independência das Colónias, dando início ao processo de descolonização. O nosso encontro aconteceu por mero acaso, no gabinete de Rui Knopfli, então director do vespertino A Tribuna, instalado no mesmo edifício do Notícias. Não me recordo se ouvimos juntos o discurso do general. Sei que ficou combinada uma carilada de amendoim para a noite do dia seguinte, em casa do Rui, na Bellegarde da Silva, ou seja, na actual Avenida Francisco Orlando Magumbwe, de Maputo.

Esse jantar, em que também esteve presente o poeta Sebastião Alba, foi o nosso (meu e de Glória de Sant’Anna) segundo e último encontro.

Em Portugal, novo desencontro. Glória de Sant’Anna vivia em Ovar, no distrito de Aveiro, e eu em Cascais, nos arredores de Lisboa. Mas quando, em 1988, a Imprensa Nacional publicou Amaranto, a reunião da sua poesia, escrevi uma recensão crítica que saiu no n.º 108 (Março de 1989) da revista Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ficou a sua poesia, clara, luminosa, atenta aos sinais da terra. Isso basta.

— Eduardo Pitta, in Quando o silêncio é sujeito, Pemba & Sêwi Editores (Moçambique), 2019.

A imagem foi retirada do livro. Clique.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

EMERGÊNCIA EM MOÇAMBIQUE


Reunido em sessão extraordinária ontem à noite, o Parlamento moçambicano ratificou o decreto do Presidente Filipe Nyuisi que impõe, durante 30 dias, o estado de emergência em todo o país.

Tendo entrado em vigor às zero horas de hoje, o estado de emergência limita a circulação de pessoas, reforça a prevenção nos transportes e suspende a emissão de vistos, ficando cancelados os já emitidos.

Quem entrar no país fica obrigado a cumprir 14 dias de isolamento.

Imagem: Notícias, de Maputo. Clique.

sábado, 28 de março de 2020

ÁFRICA AUSTRAL

Com 1.170 infectados e um morto, números de ontem, a República da África do Sul impôs quarentena por 21 dias, com recolher obrigatório associado. A medida entrou ontem em vigor. Cyril Ramaphosa, o Presidente, foi claro: «Até à meia-noite de 16 de Abril, todos os sul-africanos terão que ficar em casa

Tenho recebido vídeos de amigos e familiares que ainda lá vivem. Joanesburgo, a maior cidade sul-africana, tem seis milhões de habitantes (na área metropolitana são nove milhões). É fácil imaginar a situação.

Mas o pior ocorre longe das grandes cidades. Há cinco ou seis dias encerraram as minas de ouro, onde trabalham milhares de moçambicanos. Sem emprego e sem alojamento (as minas encerraram os dormitórios), esses homens viram-se obrigados a regressar a Moçambique, a maioria deles a Maputo.

Chegados à fronteira, esperava-os uma surpresa: o pessoal de controlo tinha desaparecido. A fronteira de Komatipoort, porta de entrada para quem vai de Maputo para a África do Sul (e vice-versa), encontra-se aberta.

Habituada a abastecer-se nos supermercados da cidade sul-africana, situada a escassos 98 quilómetros da capital moçambicana, a classe média de Maputo terá de contentar-se com a oferta local.

Em Komatipoort, como também em Nelspruit e outras cidades próximas da fronteira, está tudo fechado. Agora é só imaginar o caos das grandes cidades, como Durban, Cape Town (sede do Parlamento) ou Pretória (a capital do país). Um filme de terror.

De Moçambique sabe-se pouco, infelizmente.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

LM VS MAPUTO


Estas duas fotografias mostram o mesmo edifício, o Leão Que Ri, um dos quinze ou vinte, ou se calhar mais, que o arquitecto Amâncio de Alpoim Miranda Guedes (1925-2015), vulgo Pancho, espalhou por Lourenço Marques, actual Maputo.

Na foto em cima, vemos o edifício acabado de construir, em 1958. Na de baixo, de 2004 (salvo erro), a degradação não poupou os espaços entre os pilotis do rés-do-chão, outrora vazios, hoje transformados em lojas.

E ainda há quem me pergunte porque nunca quis voltar de visita.

Não vivi no Leão Que Ri, mas recordações muito fortes ligam-me a um dos seus apartamentos. E foi com espanto que ontem ouvi (no primeiro episódio da série documental Brisa Solar, de Ana Pissarra e José Nascimento, transmitida na RTP2) o arquitecto Luís Lage dizer que agora é que está bem, porque, e cito de cor, a arquitectura é o que queremos fazer dela. Então ficamos assim.

Bora lá pôr o Taveira a desconstruir os Jerónimos!

Clique nas imagens para as ver na íntegra.

sábado, 23 de março de 2019

CICLONE IDAI


Parece que os portugueses residentes na Beira estão descontentes com os serviços consulares. Conhecendo os caminhos ínvios da burocracia nacional, não me custa admitir que muita coisa funcione menos bem ou mesmo mal.

Mas no caso concreto da tragédia que assola a província de Sofala e, por extensão, a cidade da Beira, não percebo a ira dos portugueses ali residentes. Salvo se quiserem ser imediatamente repatriados para Portugal (ou deslocados para Maputo). Se for esse o caso, a coisa resolve-se por coordenação entre o MNE, a embaixada de Portugal em Maputo e o Consulado na Beira.

Mais do que isso, não vejo como. A ajuda humanitária (alimentação, água potável, medicamentos) não pode privilegiar duas mil pessoas em detrimento do meio milhão que vive ao lado, ou dos dois milhões de habitantes do território moçambicano alagado, uma área equivalente a mais de metade de Portugal.

Como é que uma repartição consular tem condições para repor infraestruturas (as estradas desapareceram debaixo de seis metros de água, pontes aluíram, não há electricidade, a rede de comunicações móveis colapsou, o hospital da Beira ficou inundado) que o próprio Estado moçambicano se mostra incapaz de repor?

segunda-feira, 18 de março de 2019

BEIRA DESTRUÍDA


Estive a ver imagens da cidade da Beira após a passagem do Idai, o ciclone que atravessou o Malawi, o Zimbabwe (antiga Rodésia do Sul) e a província de Sofala, no centro de Moçambique.

Na Beira, que actualmente tem meio milhão de habitantes, e ficou com 90% da área urbanizada destruída, residem cerca de dois mil portugueses. No centro, o número de mortos é de cerca de cem, mas nas periferias e no conjunto da província de Sofala serão aos milhares, estando mais de cem mil pessoas em risco de vida. Por estarem submersas, dezenas de aldeias desapareceram do mapa, pontes e estradas abateram com a força das chuvas e da água dos rios, em especial o Púngué.

No conjunto dos três países atingidos pelo Idai, o número de vítimas é superior a um milhão e meio.

Uma tragédia.

Clique na imagem.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

MAPUTO


Foi inaugurada anteontem a ponte que liga Maputo à Katembe, a maior ponte suspensa de África, construída pela China Road and Bridge Corporation. Foi também inaugurada uma estrada circular com 187 quilómetros. Custo da obra: 800 milhões de dólares. Situada na periferia Sul da cidade, próximo da Matola, facilitará o acesso à praia da Ponta do Ouro e à fronteira sul-africana de KwaZulu-Natal.

No meu tempo, ia-se de Lourenço Marques para a Katembe (então grafada como Catembe) de gasolina ou ferry boat. A praia não valia nada, mas, além de residências de férias de talvez vinte famílias, havia restaurantes de marisco e uma escola de remo e vela. E muita, muita movida gay aos sábados à noite.

sexta-feira, 16 de março de 2018

LAMBDA


Em 2014, quando Moçambique substituiu o Código Penal de 1886 pelo actual, a homossexualidade, a prostituição e o aborto (até à 12.ª semana de gestação) deixaram de ser crime. Isso é História. O que eu não sabia, por uma daquelas distracções sem sentido, era que Moçambique tem uma associação de defesa dos direitos LGBT — a LAMBDA: Associação Moçambicana para a Defesa das Minorias Sexuais —, que publica a revista Cores. Nada disto teria sido possível durante os anos do terror maoísta (1975-1993), mas as coisas mudaram, felizmente para melhor.

Clique na imagem.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

LM


Quem me conhece sabe que não sou dado a saudosismos. Mas não posso ignorar que nasci e vivi até aos 26 anos em Lourenço Marques. Nunca lá voltei. Não quero voltar. Este livro é sobre a cidade que acabou em Junho de 1975, quando ainda se chamava Lourenço Marques. O nome actual, Maputo, chegou 9 meses depois da independência de Moçambique. O autor, João Mendes de Almeida, é médico otorrinolaringologista no Funchal. Como não esqueceu a sua cidade, dedicou-lhe este grosso volume de grande formato (28,5x21,5cm) e capa dura, com 630 páginas em papel couché e centenas de fotografias. Na área do desporto, em especial nas modalidades mais praticadas (natação, ténis, hóquei, basquetebol, vela, remo, caça submarina, ginástica desportiva, hipismo, esgrima, etc.) é um verdadeiro Who's Who. O mesmo não se pode dizer da área cultural, com omissões gritantes e escolhas equívocas. Não obstante, uma obra de referência.

Clique na imagem.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

INDEPENDÊNCIAS UNILATERAIS


Tinha 16 anos quando Ian Smith declarou a independência unilateral da Rodésia do Sul, actual Zimbabwe. Era o 11 de Novembro de 1965. A aventura (o regime branco) durou até 18 de Abril de 1980, ou seja, catorze anos e cinco meses. Quando o bispo Abel Muzorewa lhe sucedeu, Smith continuou no país como líder da Oposição. Foi neste modelo que se inspiraram os secessionistas moçambicanos que fizeram o 7 de Setembro de 1974. Para quem como eu vivia em Moçambique, onde nasci, o caso rodesiano não era despiciendo, até porque o Reino Unido, potência colonial, fez aprovar nas Nações Unidas um bloqueio de combustíveis e outras sanções económicas. Navios de guerra britânicos foram enviados para águas territoriais portuguesas, ao largo da Beira, de forma a impedir a trasfega de petróleo para o pipeline que ligava aquela cidade moçambicana à Rodésia do Sul (a antiga Rodésia do Norte é a actual Zambia). O bloqueio durou anos, tendo provocado incidentes com vários navios. Mas, em Abril de 1966, o petroleiro grego Joanna V conseguiu iludir a Armada britânica e atracar, dando origem a um incidente diplomático de proporções homéricas. Harold Wilson, primeiro-ministro britânico, ameaçou Salazar com a ocupação de Moçambique. Smith veio a Portugal em segredo e, no Forte de São João do Estoril, terá acertado detalhes sobre a entrada do petróleo através da África do Sul. Não era tão eficaz como o pipeline da Beira, mas contornava o problema. Na praia do Macúti, os beirenses contavam anedotas sobre os navios de guerra na linha do horizonte.

Na imagem, a vermelho, o pipeline que liga a Beira a Harare, a antiga Salisbury. Clique.

domingo, 25 de junho de 2017

MOÇAMBIQUE: 42 ANOS


Moçambique completa hoje 42 anos como país independente. Deixo aqui um excerto das minhas memórias desse dia.

Moçambique tornou-se independente no dia 25 de Junho de 1975. Na véspera não fui trabalhar. Era terça-feira mas deve ter havido tolerância de ponto. A época fria tinha começado e o tempo mantinha-se luminoso. Em Moçambique, o Inverno é seco. As chuvas chegam em Janeiro e Fevereiro, quando a temperatura sobe. O jantar foi servido à hora do costume. Para surpresa de minha mãe, não acompanhei o Jorge à cerimónia que teve início no Estádio da Machava ao minuto zero do dia 25. Estavam lá muitos filhos da burguesia dourada, gente que não tinha sujado as mãos na guerra, preferindo viver anestesiada em Oslo ou Estocolmo. Alguns ficaram. A maioria regressou no primeiro avião ao borralho escandinavo. Deitei-me cedo e lembro-me de acordar de madrugada com o estampido das balas de jubilação. A Frelimo tinha acabado de instaurar o regime de partido único. Naquele momento, alguns amigos que tinham celebrado a queda de Saigão como o advento de um mundo novo, gozavam as amenidades de Cape Town como lídimos herdeiros de Cecil Rhodes. Eu lia Alan Watts e queria acreditar num futuro que nunca chegou.

Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013, p. 19

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

LOURENÇO MARQUES


Deixei Moçambique em Novembro de 1975, cinco meses depois da independência do país. Tinha 26 anos, vivia com o Jorge há três, era autor de um livro de poesia publicado no ano anterior, e conhecia Portugal de duas visitas: 1964 e 1974. Nunca voltei. O passado é o passado. Mas tenho-me mantido informado da realidade moçambicana através de amigos que vão e vêm, da imprensa de Maputo, de escritores moçambicanos com quem falo nos eventos do costume. Em 1999, entrevistado pela RTP, disse que tinha nascido em Moçambique como podia ter nascido na China (afirmação que causou escândalo), mas é mesmo isso que penso. A nossa terra é onde nos sentimos bem. Nunca tive fantasmas identitários. Isto dito, passo ao que realmente interessa.

Fui ontem tomar chá com uma grande amiga que também deixou Moçambique em Novembro de 1975. Nessa altura ela tinha 12 anos. Mas não esqueceu. Nunca nos conhecemos enquanto lá vivemos. A nossa amizade data de 2007. Em comum, o facto de sermos escritores. Em 2009, escreveu um livro devastador sobre a realidade colonial que fez dela o alvo de todos os saudosistas. Foi demonizada até ao paroxismo. O que sempre nos separou foi a vontade de voltar. Ela queria, eu não. E lá foi, contra todas as advertências, passar um mês sozinha. Sozinha ali se manteve, por acaso num bairro bom. Teve a sorte de arranjar um motorista de tuk-tuk de confiança. A descrição que me fez da Maputo actual não terá sido diferente da que faria de Nairobi: crime, insegurança generalizada, pobreza extrema, autismo da comunidade branca. Por comunidade branca entenda-se o núcleo dos funcionários transnacionais que estão de passagem e são pagos em dólares americanos, os sul-africanos que exploram os resorts turísticos, mas, sobretudo, os nacionalistas que pertencem ou têm a bengala das ‘estruturas’ do Partido único. Essa comunidade de happy few vive em guetos de luxo, tem segurança privada e circula em automóveis com vidros fumados. Ninguém que se preze tem menos que vários criados. O formalismo é de regra nas relações sociais. Quatro quintos da população não tem o que comer. Sobre a degradação urbana não vale a pena falar. Em suma, um pesadelo.

A tudo isto, a imprensa portuguesa diz nada. Moçambique fica do outro lado do mundo, nunca interessou aos nossos jornaleiros.

As imagens mostram a vista aérea dos bairros da Polana e do Sommerschield, e parte do Hotel Polana, inaugurado em 1922. Clique nelas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

TRAGÉDIA

A capotagem e explosão de um camião-cisterna cheio de combustível, na região de Tete, em Moçambique, provocou 73 mortos e 110 feridos em estado grave. No momento em que escrevo é provável que o número de mortos seja superior. Aconteceu ontem ao fim da tarde e o feedback noticioso tem sido residual. Se fosse na Europa tínhamos folhetim televisivo para vários dias.

sábado, 7 de maio de 2016

MOÇAMBIQUE, ALIÁS MOZAMBIQUE


A propósito da sucessão de disparates que se têm escrito sobre Moçambique, vou alinhavar duas ou três coisas que ajudem a perceber a ignorância nacional. Ao contrário de Angola, que fica relativamente perto, Moçambique fica do outro lado do mundo. Em Março de 1961, na sequência do massacre da UPA, Salazar fixou a legenda: Angola é nossa. Em Julho de 1975 teve início a famosa ponte aérea que durante cem dias trouxe para Portugal meio milhão de pessoas. E em Setembro de 1989, durante a guerra civil angolana, o avião em que seguia João Soares despenhou-se na Jamba. (O filho de Mário Soares regressava de um congresso da Unita.) Entre outros, estes três acontecimentos tiveram larga cobertura mediática e ficaram gravados na memória colectiva.

Em Moçambique nada ocorreu de parecido. O massacre de Wiriyamu, em Dezembro de 1972, tendo tido larga repercussão na imprensa internacional, sobretudo na de língua inglesa, foi silenciado em Portugal. A partir de 1974, a imprensa portuguesa ignorou sistematicamente a situação em Moçambique, onde dezenas de milhares de indivíduos (negros, mestiços, brancos e indianos; a comunidade chinesa não foi incomodada) foram enviados para os ‘campos de reeducação’ da Frelimo — Nachingwea e Bagamoyo, ambos na Tanzânia; Mitelela, no Niassa. Dois terços dos detidos enlouqueceram, morreram de fome ou foram executados. Seria preciso esperar por Junho de 1995 para o Público dar à estampa a reportagem «Os Campos da Vergonha», de José Pinto de Sá. Alguém ligou? O tema voltaria em 2007 sob a forma de romance, Campo de Trânsito, do historiador e escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, mas toda a gente assobiou para o lado. Nem sequer a guerra civil moçambicana, que durante dezasseis anos (1976-92) opôs a Frelimo à Renamo, comoveu os nossos media. Pior: não me lembro de ter lido em jornais portugueses qualquer referência ao facto de Joaquim Chissano ter admitido em Washington, perante uma comissão do Departamento de Estado, a prática de execuções sumárias nos anos 1970. («Report on Human Rights Practice for 1991/1992», US State Department, Washington DC, 1993.) A tudo isto a opinião pública portuguesa disse nada.

Para os media nacionais, Moçambique é aquele país distante onde se conduz pela esquerda. Ponto. Nunca perceberam, nem quiseram perceber, que a colonização de Angola não teve nada a ver com a de Moçambique. Para Angola sempre foi quem quis, quando quis e como quis. Ao contrário, para Moçambique, a exigência de carta de chamada vigorou até ao fim dos anos 1960. Os brancos de Angola nunca cortaram o cordão umbilical com as origens. Em Moçambique, para a larga maioria da população branca, Portugal era uma entidade abstracta. Quando eu nasci (1949), ainda a maioria do comércio de Lourenço Marques se fazia em libras e não em escudos: era assim no John Orr's e no LM Bazaar, para dar dois exemplos. E o LM Guardian era redigido em inglês... Não vou entrar na caracterização sociológica da emigração porque existe bibliografia sobre o assunto.

Para os media nacionais, é mais fácil perceber e falar de Angola: diamantes, petróleo, nepotismo, Luanda como meca de patos-bravos, as birras da Dona Isabel, etc. Moçambique fica longe e, bem vistas as coisas, até é desde 1995 um Estado-membro da Commonwealth.

Na imagem, LM/Maputo. Clique.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

ASNEIRA GROSSA


A viagem do Presidente da República a Moçambique tem revelado em todo o seu esplendor a ignorância dos media nacionais.

Primeiro, o Expresso ‘ressuscitou’ Malangatana. Agora, a SIC faz de Joaquim Chissano o líder na Renamo, qualidade em que teria sido convidado a participar no banquete de Estado oferecido pelo PR moçambicano a Marcelo Rebelo de Sousa. Como a SIC devia saber, o líder da Renamo é Afonso Dhlakama. Ponto.

A notícia é de ontem ou anteontem mas só hoje tomei conhecimento dela. Como é que a SIC ignora que Chissano foi primeiro-ministro do Governo de Transição (1974-75), ministro dos Negócios Estrangeiros (1975-86) e, após a morte de Samora Machel, Presidente da República (1986-2005) durante dezanove anos? Como?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

OPOSIÇÃO & DEMOCRATAS

Manuel Carvalho assina hoje no Público um excelente obituário de Almeida Santos. Porém, como quase toda a gente que não viveu em Moçambique, cai no erro de incluir Almeida Santos nos denominados Democratas de Moçambique, uma espécie de MDP/CDE da FRELIMO. Sucede que Almeida Santos, tendo sido, de facto, adversário do Estado Novo e figura destacada da então denominada Oposição Democrática de Moçambique, a oposição tradicional à ditadura, nada tinha a ver com os Democratas de Moçambique. Isso é outra história. Sobre o tema, escrevi no meu livro de memórias:

Enquanto grupo de pressão, os Democratas de Moçambique constituíram-se à pressa em Maio de 1974, durante um plenário realizado na Associação dos Naturais de Moçambique. Tinha como prioridade servir de contrapeso e ultrapassar pela esquerda a oposição tradicional. Foram seus fundadores o enfermeiro Abner Sansão Mutemba, o engenheiro Álvaro Carmo Vaz, o economista Mário da Graça Machungo e o advogado Ruy Baltazar. A oposição tradicional era constituída por gente de diversa filiação, desde marxistas ortodoxos a sociais-democratas. Denominador comum, o ódio a Salazar e um fundo desprezo pelo Estado Novo e a tibieza de Marcello Caetano. O núcleo duro da oposição tradicional era formado por seis advogados: Almeida Santos, Antero Sobral, Carlos Adrião Rodrigues, Filipe Ferreira, José Santa-Rita e Vasco Soares de Melo. Um dream team com grande visibilidade na opinião pública, sobretudo a partir de 1962, ano em que o julgamento colectivo de vários nacionalistas ampliou a questão independentista. [...] Foi contra a influência dessa oposição que os Democratas de Moçambique se constituíram. A passagem do tempo e a simplificação da história meteram tudo no mesmo saco: oposição tradicional e Democratas. A manobra serve aos dois lados. A direita pode chamar traidores a todos os críticos do colonialismo e os Democratas viram nobilitada a sua matriz fundadora. — Um Rapaz a Arder, Quetzal, 2013.

Verdade que houve gente da oposição tradicional que, tendo ficado em Moçambique depois da independência do país, aderiu aos “Democratas”. Almeida Santos, que até estava em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, voltou várias vezes a Moçambique, mas já como governante.

A posteridade registou a designação Democratas de Moçambique como uma realidade pré-1974. Sei que a nuance é difusa, mas a realidade é outra.