Mostrar mensagens com a etiqueta Televisão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Televisão. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

VENENO


Vou falar de uma série que não interessará a muita gente. Mas pode servir de alerta, por exemplo, aos associados da AMPLOS, a Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género.

Refiro-me a Veneno, em streaming na HBO. Criada por Javier Ambrossi e Javier Calvo a partir da biografia de Cristina Ortiz Rodríguez (1964-2016), conta a história da mais famosa transexual espanhola de sempre, La Veneno...

Analfabeta, La Veneno contou a sua vida a Valeria Vegas, jornalista transexual. Foi Valeria quem escreveu Digo! Ni puta, ni santa. Las memorias de La Veneno, livro publicado em Outubro de 2016. Cerca de um mês depois, La Veneno foi encontrada inanimada em casa, com traumatismo cranioencefálico. Após quatro dias em coma, morreu. Tinha 52 anos. Ainda hoje se discute se foi acidente ou assassínio. Entrevistada na televisão semanas antes de morrer, afirmou ter recebido ameaças de morte por causa da biografia.

A série é composta por oito episódios. Em televisão mainstream nunca vi nada igual: linguagem, sexo explícito, etc. A narrativa começa em Adra, a vilória onde La Veneno nasceu como José Antonio Ortiz Rodríguez, vulgo Joselito. Três actores compõem a personagem de Joselito: criança de 8 anos / adolescente de 14 / jovem adulto homossexual. E três actrizes transexuais a de La Veneno: puta em Madrid / estrela de Esta noche cruzamos el Mississippi, o programa de maior audiência na televisão espanhola / ex-presidiária. La Veneno esteve presa duas vezes: três anos entre 2003 e 2006, numa prisão masculina, e alguns meses em 2014, numa prisão feminina.

O auge da fama ocorreu nos anos 1990, quando futebolistas, políticos, membros do jet-set espanhol e, se non è vero, è ben trovato, um destacado membro da realeza — quem vir a série, dê atenção aos olhos do actor que surge no 8.º episódio dentro da limusine — faziam parte da sua carteira de clientes. Os nomes são omissos, mas as iniciais estão no livro.

Não é um tema fácil. A crueza das situações descritas perturbará muita gente. Mas vale a pena. Ao pé disto, Almodóvar é uma canção de embalar.

Clique na imagem.

domingo, 29 de novembro de 2020

CIBERBULLYING


Almas púdicas ofenderam-se com o título deste livro de Cristina Ferreira, directora-geral de ficção e entretenimento da TVI.

O seu conteúdo reproduz parte das centenas de mensagens de ódio que lhe têm sido dirigidas nas redes sociais, tanto por anónimos como por autores de perfis falsos e indivíduos de todos os sexos. Um esgoto a céu aberto. Não obstante, Cristina Ferreira teve a delicadeza de apagar os nomes (verdadeiros ou falsos) da caterva.

Importante: os direitos de autor de Pra Cima de Puta revertem para acções de combate ao ciberbullying, actividade criminosa — o ciberbullying — a que os nossos legisladores têm feito vista grossa.

Alguém tinha de dar o primeiro passo. Deu ela. Bravo!

Clique na imagem.

domingo, 22 de novembro de 2020

COMO VI THE CROWN 4


Breve nota acerca da quarta temporada da série de Peter Morgan sobre o reinado de Isabel II.

Olivia Colman igual a si mesma, mas melhor agora que na temporada anterior. Que pensará a rainha? Na próxima temporada o papel caberá a Imelda Staunton.

Josh O’Connor muito bem como Carlos.

O mesmo se diga de Charles Dance como Mountbatten, último vice-rei da Índia, vítima de um atentado do IRA, em Mullaghmore, na Irlanda, em 1979.

Helena Bonham Carter melhor que na temporada anterior. Margarida fez tudo a que tinha direito, mas a forma como foi retratada na 3.ª temporada não lhe faz justiça, nem sequer a Helena Bonham Carter, que é uma grande actriz no papel errado. Isto dito, o episódio sobre a depressão que antecede a descoberta das primas Katherine e Nerissa Bowes-Lyon, internadas no hospício de Earlswood, para doentes mentais, resgata-a do flop. [O “caso” das manas Bowes-Lyon só chegou ao conhecimento do público em 1987, causando grande controvérsia.] No tempo do episódio que o relata, ainda é um segredo bem guardado.

Emma Corrin não vai completamente mal, mas está longe de fazer lembrar Diana. Digo eu, que não morria de amores por Lady Di. Claro que há duas Dianas: a sonsa e a estrela planetária. E esta 4.ª temporada, terminando no Natal de 1990, quando, em Sandrigham, Diana diz ao sogro que pondera sair do casamento, ainda só mostra a fase sonsa.

Gillian Anderson faz uma Thatcher muito rígida. Por rígida não me refiro ao determinismo das convicções políticas. Digo rígida no sentido de parecer um pau. Se calhar era assim, mas não corresponde à imagem que passava para o público. Parece-me extremamente artificial.

Nicholas Farrell, que envelheceu mal desde A Jóia da Coroa (1984), faz de Michael Shea, o secretário de imprensa da rainha que se tornou autor de bestsellers depois de deixar Buckingham na sequência do diferendo com Thatcher. 

A relação de Carlos e Camilla ilustrada sem paninhos quentes. São amantes, ponto final. Todos sabem: a rainha, o marido de Camilla, Diana, o staff dos palácios, primeiros-ministros, diplomatas, etc. Diana paga-lhe na mesma moeda, dormindo com quem lhe apetece. A Coroa não se comove com histórias de boudoir: Sempre assim foi e será, diz algures a rainha-mãe, interpretada por Marion Bailey.

Tenho pena que a Guerra das Falkland seja tratada às três pancadas, até por comparação com os detalhes da  “exoneração” de Thatcher, provocada pela demissão de Geoffrey Howe.

Apesar das ressalvas, gostei francamente.

Clique na imagem.

domingo, 15 de novembro de 2020

THE CROWN, 4


Está disponível desde hoje na Netflix a 4.ª temporada da série criada por Peter Morgan sobre o reinado de Isabel II.

A série é inspirada na peça de teatro The Audience, que Morgan escreveu e estreou em 2013. O filme The Queen (2006), de Stephen Frears, já fora feito a partir de um guião do mesmo Morgan. Desengane-se quem pensar que ele é fã da família real. Pelo contrário, nunca escondeu ser anti-monárquico. Essa talvez seja uma mais-valia da série, que está longe de ser uma hagiografia. Isso talvez explique os remoques de alguns críticos alegadamente conhecedores do que se passa em Buckingham, Sandrigham e Balmoral.

A nova temporada cobre o período de 1977 a 1990, significando isso que surgem duas novas personagens: Diana Spencer, vulgo Lady Di, e Margaret Thatcher, a Dama de Ferro.

Olivia Colman mantém-se como Isabel II, Tobias Menzies como Filipe (o duque de Edimburgo), Josh O’Connor como Carlos, e Helena Bonham Carter, que não obstante ser uma boa actriz, é um notório erro de casting no papel de Margarida, a irmã rebelde da rainha. 

Entre os que entram pela primeira vez, destaque para Emma Corrin, no papel de Diana, e Gillian Anderson, como Margaret Thatcher, a mulher que governou o Reino Unido durante quase doze anos (entre Maio de 1979 e Novembro de 1990). Filha de um merceeiro e mulher de um pregador metodista rico, formada em química, Thatcher, que morreu baronesa, ficou na História por três razões: partiu a espinha aos sindicatos, destruiu a classe média britânica, ganhou a Guerra das Falkland. A série enfatiza a sua incapacidade (nos anos iniciais, presumo) em frequentar as classes altas e, em especial, os círculos da Coroa, desde logo por desconhecer os códigos de linguagem atinentes. E, claro, por não perceber que a roupa de cidade não é adequada ao countryside... Imperdível.

Estão previstas mais duas temporadas.

Na imagem, da esquerda para a direita, Emma Corrin, Olivia Colman e Gillian Anderson. Clique.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

RATCHED


Quase toda a gente se lembra de Voando Sobre um Ninho de Cucos, o filme que Miloš Forman fez em 1975 com Jack Nicholson no protagonista. Da enfermeira Mildred Ratched é que nem todos se recordarão, embora Louise Fletcher tenha ganho o Óscar de melhor actriz.

A personagem de Mildred Ratched é tão absorvente que Evan Romansky e Ryan Murphy criaram uma prequela do romance de Ken Kesey que está na origem do filme de Forman.

Assim nasceu Ratched, a série da Netflix que abre com Danse Macabre de Saint-Saëns e nos agarra logo pelo deslumbramento da fotografia.

Na série, Sarah Paulson faz de Mildred Ratched, uma mulher fria e calculista, abusada em criança, sociopata, assassina e lésbica. A seu lado encontramos a sempre notável Judy Davis, Finn Wittrock (o serial killer em torno do qual gira a trama), Cynthia Nixon, Sharon Stone, Amanda Plummer, Vincent D’Onofrio, Jon Jon Briones (o homem das lobotomias que cita Egas Moniz), Charlie Carver, Alice Englert e, por último mas não em último, a extraordinária Sophie Okonedo, numa performance de cortar a respiração.

Tudo se passa entre 1947 e 1950, quase sempre no Lucia State Hospital, uma instituição alegadamente psiquiátrica da Califórnia, localizada em Monterey. Violência e sexo em doses não recomendáveis a almas sensíveis.

O plot ressente-se da agenda política: Vincent D’Onofrio, no papel de Governador da Califórnia, é uma caricatura de Trump. Mas também de proselitismo: não é crível que em 1947 a secretária de um Governador estadual seja casada com um negro. Mesmo tratando-se de um casamento de fachada — ela lésbica, ele homossexual —, tal não era exequível nos círculos políticos norte-americanos dos anos 1940. Para já não falar do espírito MeToo que perpassa ao longo dos oito episódios da série. De qualquer modo, um excelente entretenimento.

Clique na imagem.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

LE BUREAU DES LÉGENDES


A série de Eric Rochant chegou este ano à quinta temporada. Pode ser vista na RTP-2 como A Agência Clandestina.

Mathieu Kassovitz, o protagonista, não tem o gabarito de Alec Guinness (o memorável George Smiley de Tinker Tailor Soldier Spy, mini-série da BBC de 1979), mas tenho empatia com a persona de Malotru — i.e., Paul Lefèvre ou Guillaume Debailly ou Pavel Lebedev —, o agente mal-amado da DGSE francesa por ele interpretado.

Óptimo entretenimento para quem, como eu, gosta de histórias de espionagem. Não tem a secura dos ingleses, mas os serviços secretos franceses têm um longo historial de intervenção externa, cinismo equivalente ao dos britânicos e know-how q.b. neste tipo de enredos, mesmo se Rochant não é Chabrol.

Clique na imagem.

domingo, 16 de agosto de 2020

RITZ & SILLY SEASON


A pandemia não acabou com a silly season. Este ano as televisões apostaram no ‘faça férias cá dentro’ em formato publicitário. Restaurantes do Portugal profundo, resorts exclusivos que há seis meses não queriam saber dos portugueses para nada, empresas de turismo fluvial, e por aí fora.

Ontem, a TVI dedicou largo espaço ao Ritz de Lisboa, que reabriu no passado dia 1 após quatro meses de encerramento.

Não me lembro de ter ouvido nenhuma referência a Pardal Monteiro, o arquitecto que desenhou o hotel inaugurado há 60 anos. Estamos a falar do arquitecto do Instituto Superior Técnico, da Biblioteca Nacional, da Reitoria e das Faculdades de Direito e de Letras da Universidade de Lisboa, do Instituto Nacional de Estatística, da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, da Estação Ferroviária do Cais do Sodré, do edifício onde funcionou (entre 1940 e 2016) o Diário de Notícias, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, do Hotel Tivoli, etc. Dito de outro modo, do arquitecto que fixou a imagem da Lisboa moderna. Qualquer das obras mencionadas faria boa figura em Berlim, Londres, Paris, Madrid e qualquer outra cidade europeia. Só me recordo de ouvir dizer: «O hotel ocupa um quarteirão inteiro... nestes corredores cabe um carro... » Se for um Smart cabem dois, diria eu.

Também não me recordo de ouvir referir o nome de nenhum dos artistas (e são dezenas) com obras espalhadas pelo átrio, paredes, salões, galerias, bar, restaurante, escadarias e quartos. Assim de repente, lembro-me de Almada Negreiros, cujas tapeçarias são uma das imagens de marca do hotel, Sarah Afonso, Carlos Botelho, Querubim Lapa, Sá Nogueira, Lagoa Henriques, Jorge Vieira, Carlos Calvet, Martins Correia e Bartolomeu Cid dos Santos. Mas sobram muitos, muitos mesmo. São poucos, em Portugal, os lugares em que a arte portuguesa está representada a este nível.

Alguém devia ter dado uma cábula ao autor da peça. É curto dizer que o hotel aproveitou o confinamento para «fazer barulho», metáfora usada para as obras de remodelação dos terraços e renovação total do restaurante Varanda «a caminho de uma estrela Michelin» e de todos os quartos.

Não tenho nada contra a publicidade, neste caso focada na certificação Clean and Safe. Mas o essencial ficou de fora. E tanto que havia para dizer.

Na imagem, a sala que serve de antecâmara do restaurante. Clique.

sábado, 20 de junho de 2020

PEDRO LIMA 1971-2020


Foi esta manhã encontrado morto o actor Pedro Lima. O corpo foi descoberto na praia do Abano, no Guincho.

Natural de Luanda, o actor tinha dupla nacionalidade, tendo representado Angola como nadador nos Jogos Olímpicos de 1988 e 1992.

Em 1997 tornou-se actor, tendo interpretado peças de Beckett, Strindberg, Mamet, Tchekov, Stoppard, Fosse (este sob direcção de Jorge Silva Melo), etc., mas foi como actor de novelas e séries de televisão que o grande público fixou o seu nome. Dos filmes que protagonizou destacaria O Contrato, de Nicolau Breyner (2009), Quarta Divisão, de Joaquim Leitão (2013), e A Uma Hora Incerta, de Carlos Saboga (2015). Pedro Lima deixa cinco filhos. Tinha 49 anos.

Clique na imagem.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

PATRICK MELROSE


Estreou hoje na RTP2 a minissérie britânica Patrick Melrose, de Edward Berger.

O protagonista não podia ser outro senão Benedict Cumberbatch, o maior actor de língua inglesa da sua geração (nasceu em 1976). O primeiro episódio é uma explosão de overacting de Cumberbatch.

Transposta para televisão por David Nicholls, a partir do quinteto Melrose — compactado em três volumes na edição portuguesa da Sextante — de Edward St Aubyn, o maior escritor de língua inglesa da sua geração (nasceu em 1960), mantém o grau de corrosão do quinteto autobiográfico, violento, inominável, sobre a infância indizível de Edward St Aubyn, abusado pelo próprio pai dos 5 aos 8 anos de idade.

São muitos adjectivos juntos, mas quem leu os livros sabe do que falo.

Não é uma distracção amável. É um bestiário moral de tiques e perversões no lodaçal da aristocracia inglesa.

Clique nas imagens: cartaz da minissérie e capas da edição portuguesa do Quinteto.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

TAMBÉM ELE


Jerónimo de Sousa foi hoje Programa da Cristina, onde não cozinhou, embora tenha mostrado fotografias do casamento.

Ficámos a saber que o secretário-geral do PCP vive com 900 euros mensais, porque o restante é entregue ao Partido. No fim, emocionou-se.

Clique na imagem.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O PASTELÃO


Feito a partir de I Heard You Paint Houses, o livro de Charles Brandt que narra a vida de Frank Sheeran, o gangster irlandês que assassinou Jimmy Hoffa (o líder sindical que durante dez anos chefiou a todo-poderosa International Brotherhood of Teamsters, ou seja, a central de sindicatos dos motoristas americanos), O Irlandês é um exercício enfadonho sobre o mundo do crime, com a duração de três horas e meia. Metade chegava.

De Niro e Pacino iguais a si próprios, Joe Pesci muito bem, reconstituição de ambientes perfeita. Não chega. Por alguma razão Hollywood rejeitou sucessivamente o projecto de Scorsese. Seria a Netflix a pegar nele por 160 milhões de dólares.

O filme corrobora enfaticamente a tese que atribui à Máfia a responsabilidade pelo assassinato de Kennedy. A morte do Presidente retira de cena o irmão Robert (o gajo voltou a ser apenas um advogado), o procurador-geral que combateu o crime organizado, mas Hoffa acabou condenado e preso, em 1967, embora Nixon o tenha indultado em 1971. Assassinado em 1975, o corpo de Hoffa nunca apareceu por, alegadamente, ter sido cremado.

O Irlandês teve estreia mundial no Festival de Cinema de Nova Iorque, no passado 27 de Setembro, estando disponível na Netflix desde 1 de Novembro.

Clique na imagem.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A LENDA


Contrariamente ao que alguns supõem, o manager dos estábulos reais e amigo íntimo de Isabel II, designado por Porchie, existiu mesmo, não é uma invenção da série de Peter Morgan.

Porchie é o diminutivo de Henry George Reginald Molyneux Herbert, ou seja, Lord Porchester, 7.º Conde de Carnarvon. Foi membro dos Royal Horse Guards e tornou-se responsável pelas corridas de cavalos reais em 1969. Tinha então 45 anos.

Em Maio desse ano, Porchie acompanhou a rainha numa viagem privada a França e aos Estados Unidos, países onde visitaram os melhores criadores de cavalos. A prolongada ausência da monarca coincidiu com reuniões preparatórias de um golpe de Estado contra o primeiro-ministro Harold Wilson, arquitectado por Cecil King (magnata da imprensa), a pretexto do caos económico e consequente desvalorização da libra esterlina.

Mas as pretensões do patrão do Daily Mirror esbarraram com a recusa final de Lord Mountbatten, primo da rainha, último vice-rei da Índia, envolvido na conspiração desde 1968. Assim que foi informada da tentativa de golpe, Isabel II interrompeu a viagem e regressou a Londres, metendo o primo na ordem. (Em 1974 haveria uma segunda tentativa para depor Wilson à força.)

A forma como a série ilustra a relação de Porchie com Isabel corrobora a lenda de um romance entre ambos. Porém, Dickie Arbiter, antigo secretário pessoal da rainha, foi peremptório: trata-se de um boato «very distasteful and totally unfounded.» Então ficamos assim.

Nas duas primeiras temporadas, Porchie é interpretado pelo actor Joseph Kloska. Na terceira, por John Hollingworth.

Na imagem, da esquerda para a direita, o príncipe Filipe, Porchie e a rainha. Clique.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

THE CROWN, AGAIN


Vi os dois primeiros episódios da série de Peter Morgan. Magníficos.

Isabel II está com 38 anos e Olivia Colman é perfeita no papel. Não diria o mesmo de Helena Bonham Carter, que faz um retrato histriónico de Margarida (a personalidade da actriz acentua o lado antipático). Tobias Menzies devolve-nos um Filipe mais sarcástico. Etc.

O mais interessante, porém, são os temas abordados. Por exemplo:

No Outono de 1964, sem dinheiro para honrar os compromissos com o FMI, e portanto à beira da bancarrota, o Reino Unido vê-se obrigado a pedir mil milhões de libras aos Estados Unidos. O trabalhista Harold Wilson, primeiro-ministro desde Outubro, não consegue que Lyndon B. Johnson autorize o empréstimo. Quem desfaz o nó? Margarida, a irmã da rainha, durante uma visita (1965) aos Estados Unidos na companhia do marido, Antony Armstrong-Jones. Tudo se resolve num jantar na Casa Branca, no meio de anedotas porcas e muito álcool. As peripécias que conduzem ao jantar são deveras interessantes, mas não vou contar tudo.

O caso Blunt não é ignorado. Isabel II fica atónita ao descobrir que Sir Anthony Blunt, historiador de arte e Surveyor of the King and Queen’s Picture, era o 4.º homem do anel de cinco espiões de Cambridge. Ela desconfiava de Wilson, saiu-lhe Blunt. Sobre Blunt, além da extensa bibliografia histórica, existe um romance notável de John Banville, O Intocável. Foi também ele quem deu origem ao personagem Maurice, no romance The Climate of Treason de Andrew Boyle.

Voltando à série. A rainha fica indignada mas, em nome dos interesses do Reino, prefere fingir que nada aconteceu.

Blunt, que ocupava o cargo desde 1945, a convite de George VI, permanecerá no lugar até 1972. Só será publicamente exposto em Novembro de 1979, na Câmara dos Comuns, por Margaret Thatcher. Perdeu os títulos mas nada lhe aconteceu até morrer, pois tinha imunidade. O actor Samuel West é o Blunt da série.

E um dos momentos altos é a conversa que mantém com Filipe, o príncipe consorte, durante um vernissage. Filipe diz-lhe que devia ser denunciado, mas Blunt recorda-lhe a existência de fotografias comprometedoras do Caso Profumo (as fotos desapareceram de casa de Stephen Ward, o osteopata da alta sociedade responsável pela rede de prostituição de luxo que serviu de pano de fundo ao escândalo), fotos que estariam em mãos seguras, embora pudessem surgir a qualquer momento.

Sempre se suspeitou que Filipe fosse o membro sénior da família real... envolvido no caso, mas creio que é a primeira vez que isso é dito com todas as letras.

De resto, fotografia, diálogos, recriação de ambientes, guarda-roupa, reconstituições (como o interior dos Vickers VC 10 da BOAC), etc., tudo superlativo.

Clique na imagem: o casal real na série e na realidade.

domingo, 17 de novembro de 2019

THE CROWN, TRÊS


O dia está impossível, mas temos uma consolação de peso: a Netflix estreia hoje a 3.ª temporada da série de Peter Morgan que descreve e analisa o reinado de Isabel II. Em boa verdade, The Crown é um documento para a História. O projecto prevê seis temporadas.

A primeira temporada abrange o período que vai do casamento de Isabel e Filipe (1947) ao fim da ligação “inconveniente” de Margarida com o capitão Peter Townsend, por imposição de Churchill (1955). A segunda vai da Crise do Suez e consequente demissão de Anthony Eden (1956) ao nascimento de Edward (1964).

A terceira, novamente em 10 episódios, está disponível a partir de hoje e cobre os dois mandatos de Harold Wilson como primeiro-ministro, indo de 1964 a 1977.

Foi preciso mudar o elenco porque 20 anos é muito tempo na vida de qualquer pessoa. Assim, Claire Foy, que foi Isabel II nas temporadas anteriores, vê-se substituída por Olivia Colman; Matt Smith, que foi Filipe, dá o lugar a Tobias Menzies; e Vanessa Kirby, a irreverente Margarida, passa a bola a Helena Bonham Carter. E assim sucessivamente.

Clique na imagem.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

MÃEPAIFILHO


Começou ontem a ser transmitida (22:12) na RTP-2 a série inglesa MotherFatherSon, criada por Tom Rob Smith, dirigida por James Kent e produzida pela BBC em 2019.

Nos principais papéis, Richard Gere, Helen McCrory, Billy Howle, Pippa Bennett-Warner, Sinéad Cusack, Joseph Mawle e Nick Caplan.

Oito episódios de 60 minutos cada. Imperdível.

Clique na imagem.

terça-feira, 2 de abril de 2019

TVI & POPULISMO ALARVE


Mariana Canotilho, 39 anos, professora universitária de Direito constitucional nacional e europeu, foi eleita pela Assembleia da República (votação secreta) juíza-conselheira do Tribunal Constitucional. Eleita por 148 votos.

Como toda a gente sabe ou devia saber, dos 13 juízes-conselheiros do TC, dez são eleitos pela Assembleia da República. Mariana Canotilho trabalha no TC desde 2003, com intervalo entre 2007-13.

Mas como a senhora é filha do constitucionalista Gomes Canotilho, a TVI deu a notícia da posse, hoje em Belém, perante o Presidente da República, como se o facto provasse o alegado nepotismo do PS em matérias de Estado.

Não há pachorra. Mesmo que se trate de uma guerra de audiências com a SIC — que ontem, pela boca de MMG, fez outing de um membro do Governo —, nada justifica a alarvidade da chicana.

Clique na imagem.

domingo, 31 de março de 2019

EMBOSCADA FINAL


Já está disponível na Netflix o filme que vira do avesso a história de Bonnie & Clyde. A minha geração apaixonou-se pelo par de bandidos protagonizado por Faye Dunaway e Warren Beatty, lindos de morrer, tesudos, loucos e vibrantes. Toda a gente viu o filme (1967) de Arthur Penn e ninguém pensou nos polícias.

Agora, o filme (2019) de John Lee Hancock, Emboscada Final, conta a história do lado dos polícias, com Kevin Costner e Woody Harrelson nos principais papéis. É um blind side, diz Hancock. A ver vamos.

Clique na imagem.

domingo, 10 de março de 2019

LIA EM ALTA DEFINIÇÃO


Lia Gama foi a entrevistada de ontem no programa Alta Definição, do jornalista Daniel Oliveira, na SIC. Vi agora. Um daqueles momentos raros de televisão.

Lia, que no próximo dia 24 vai receber o prémio Sophia Carreira (assunto omisso da conversa), expõe a sua vida com uma naturalidade desarmante, por vezes crua: violência doméstica na infância, maioridade aos 13, Paris, vigilância da Pide, o teatro, o dedo amputado do fotógrafo Sérgio Guimarães, outros amores, noitadas, bezanas, o casamento, os meses de Angola nos anos de brasa da guerra colonial, o filho, a disciplina do actor, a solidão.

Conheci a Lia em Lourenço Marques, no dia do meu 21.º aniversário (1970), em circunstâncias peculiares. Ainda há três dias estivemos juntos, a rir-nos muito, mas ela foi incapaz de mencionar que estava para sair a entrevista, tal como, na conversa com Daniel Oliveira, não faz referência aos autores que interpretou, e foram alguns dos maiores (Shakespeare, Gorki, Beckett, Genet, Sartre, Fassbinder, Gombrowicz e outros), nem aos encenadores com quem trabalhou, e também aí podia ter puxado dos galões, porque trabalhou com toda a gente que importa. Quem a ouvir, parece que só fez teatro de boulevard na companhia de Vasco Morgado. Também não fala dos filmes, e foram tantos, de realizadores tão diferentes como Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Fonseca e Costa, Solveig Nordlund, Alberto Seixas Santos, Joaquim Leitão, Alain Tanner e outros. Nenhuma pose, apenas a vida como ela tem sido. Vale a pena ir ver.

Na imagem, Lia Gama fotografada por Jorge Gonçalves durante a representação de Aos Que Nasceram Depois de Nós, de Brecht, dirigida por Jorge Silva Melo para os Artistas Unidos e Companhia de Teatro de Braga, em 1998.

Clique na imagem.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

AVISO À NAVEGAÇÃO


Na passada terça-feira, dia 19, a RTP2 começou a transmitir a segunda temporada da série sueca Vår tid är nu, dirigida por Harald Hamrell, exibida entre nós como O Restaurante.

Quem viu, sabe que o pano de fundo da história é a reconstrução da sociedade sueca após 1945, ou seja, o avanço da social-democracia: arranque da segurança social, ascensão dos sindicatos, paridade de género, etc. Personalidades políticas suecas continuam a surgir no plot.

A primeira temporada terminou em 1951. A segunda vai de 1955 a 1962, sublinhando a irrupção do rock, os direitos dos imigrantes e as identidades sexuais.

Hoje passa o 4.º episódio desta segunda temporada. Nina divorciou-se do herdeiro rico e casou com Calle, o chef de cozinha proletário. Gustaf continua escroque e a papar meninos (a mulher assiste sem querer a um fellatio). Peter, o filho pródigo, e Helga, a matriarca da família, continuam iguais a si mesmos. Uma vilã dinamarquesa, Henriette, entrou nos negócios da família Löwander. E um imigrante italiano, Angelo, vai atormentar a líbido de Gustaf.

Excelente. Clique na imagem.

sábado, 26 de janeiro de 2019

ISTO ANDA TUDO LIGADO


A instrução do processo Operação Marquês começa depois de amanhã, dia 28. Hoje, o Expresso faz manchete com uma revelação que pode tramar o referido processo: se, como revela o jornal, a investigação policial a Sócrates foi despoletada em Abril de 2013 por um alerta da Caixa Geral de Depósitos, significa que foi anterior à abertura oficial do processo. A ver vamos.

Ontem, a RTP estreou a série Teorias da Conspiração, realizada por Manuel Pureza, escrita por Paulo Pena e Artur Ribeiro, com excelente fotografia de Vasco Viana, sound design e produção musical de Elvis Veiguinha e um cast homérico de actores, de que destacaria Rúben Gomes, Carla Maciel (os protagonistas), Gonçalo Waddington, Miguel Loureiro, Rui Morisson e André Gago.

Para já, o 1.º episódio detém-se na queda de Jardim Gonçalves à frente do BCP, o banco que na série se chama BPC.

Na imagem, Pedro Carmo, o actor que faz de Sócrates. Clique.