quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

JAVIER MARÍAS


Um novo romance de Javier Marías (n. 1951) é sempre um acontecimento. E Tomás Nevinson, provavelmente o melhor de todos os que publicou até hoje, não constitui excepção. Traz consigo o aliciante de colocar no título o protagonista de Berta Isla, alegado alter-ego do autor.

Filho de um filósofo exilado por causa de Franco, eterno candidato ao Nobel, admirado sem reservas pelos mais ilustres dos seus pares europeus e norte-americanos, romancista, contista, ensaísta, tradutor de Sterne, Conrad, Yeats, Auden, Nabokov, Ashbery e outros, antigo professor de literatura em Oxford, nada na sua obra (várias vezes premiada dentro e fora de Espanha) se confunde com a imagem de marca da literatura espanhola contemporânea. Digamos com clareza: Javier Marías é o mais importante escritor espanhol dos últimos cinquenta anos.

Sob a aparência de um thriller, Tomás Nevinson põe em pauta o dilema moral de matar ou não matar, o “dever” de optar por uma dessas soluções. Veja-se o episódio que une o escritor alemão Friedrich Reck-Malleczewen ao destino de Hitler: podia tê-lo morto em 1936, mudando o curso da História, mas não o fez, acabando morto em Dachau.

Com os massacres da ETA em pano de fundo, detalhando alguns dos mais brutais, o plot é narrado na primeira pessoa, excepto quando Nevinson veste a pele de Miguel Centurión Aguilera, o pacato professor de inglês pelo qual se faz passar em Ruán, a cidade fictícia onde tem por missão descobrir, entre três mulheres — Inés Marzán, Celia Bayo e María Viana —, qual delas é de facto Magdalena Orúe O’Dea, «metade da Irlanda do Norte e metade da Rioja…», o cérebro por trás do crime hediondo. Por se tratar de um exercício sobre o bem e o mal, a culpa, o medo e a memória, e não de mero panfleto sobre espiões e terrorismo político, Shakespeare é citado com propriedade. Mas, como sempre, a vasta erudição da prosa não perturba a fluidez do discurso.

Calibrando cada frase com a precisão de um joalheiro, ao mesmo tempo que mantém a tensão narrativa num jogo de harmónicas não isento de mordacidade e humor, Javier Marías não esquece as vítimas do separatismo basco, o ónus do horror. Tomás Nevinson, o romance, é apenas o invólucro elegante da interpelação que deixa à posteridade.

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domingo, 16 de janeiro de 2022

NEMÉSIO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi A Caminho do Corvo de Vitorino Nemésio (1901-1978), um dos poetas centrais do século XX português.

Natural de Praia da Vitória, na Ilha Terceira (Açores), Nemésio publicou em Angra do Heroísmo o primeiro livro, Canto Matinal, não tinha ainda quinze anos feitos.

Depois do serviço militar, já em Lisboa, colaborou na imprensa da época. Em 1922, em Coimbra, concluiu o ensino secundário, matriculando-se na Faculdade de Direito, ao mesmo tempo que trabalhava como revisor da Imprensa da Universidade. No ano seguinte foi admitido na Maçonaria. Em 1925 trocou o curso de Direito pelo de Filologia Românica, tornando-se docente da Faculdade de Letras de Lisboa em 1931.

Além de poesia, publicou um dos mais importantes romances portugueses de sempre, Mau Tempo no Canal (1944). Mas também contos, teatro, ensaios, crónicas, uma biografia de Herculano e uma antologia de poesia brasileira dos séculos XVII e XVIII.

Durante quase sessenta anos, colaborou activamente em jornais e revistas (algumas das quais fundou), tendo, após 25 de Novembro de 1975, sido o primeiro director do jornal conservador O Dia, lançado pelos jornalistas despedidos do Diário de Notícias durante o PREC.

Antes de tornar-se catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa (1940), foi leitor de português em Montpellier (1934-36) e Bruxelas (1937-39). Ao longo da vida ministrou cursos em vários países, do Brasil a Moçambique.

Ligado ao separatismo açoriano durante o PREC, nem por isso deixou de ser uma personalidade extremamente popular, celebrizado pelas crónicas da Emissora Nacional e pelo programa Se Bem Me Lembro que a RTP transmitiu a partir de 1969.

Continuam inéditos os poemas eróticos, de que se conhece apenas um, Pedra de Canto, publicado no n.º 35 (1977) da revista Colóquio-Letras.

O poema desta semana pertence a Sapateia Açoriana (1976). A imagem foi obtida a partir do Volume II de Obras Completas (1989), organizado por Fátima Freitas Morna e publicado pela Imprensa Nacional.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto e Alexandre O’Neill.]

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domingo, 9 de janeiro de 2022

O'NEILL


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi O Tempo Sujo de Alexandre O’Neill (1924-1986), um dos poetas centrais do século XX português.

Natural de Lisboa, O’Neill atravessou a infância e adolescência com largas temporadas em casa da bisavó materna, em Amarante, cidade onde publicou (1943) os primeiros versos e conheceu Pascoaes. Fez estudos com professores privados e em colégios particulares, tendo ainda frequentado a Escola Náutica. 

Foi funcionário da Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio (1946-52) até ser demitido compulsivamente, amanuense na Companhia de Seguros Metrópole, tradutor e publicista.

Em 1947, durante as festas do Festival Mundial da Juventude, conheceu Cesariny. Nesse mesmo ano participa na reunião fundadora do Grupo Surrealista de Lisboa. Ingressa no MUD-Juvenil em 1948, ano em que publica o primeiro livro, A Ampola Milagrosa, e conhece Nora Mitrani, a trotskista búlgara por quem se apaixonou e esteve na origem do mais famoso dos seus poemas, Um Adeus Português.

Por ter ido esperar Maria Lamas ao aeroporto de Lisboa, foi preso pela PIDE em 1953, ficando detido em Caxias durante quarenta dias. Nesse ano, por empenho de José Cardoso Pires, começa a trabalhar na Telecine.

Foi casado com a realizadora Noémia Delgado e, mais tarde, com Teresa Patrício Gouveia, secretária de Estado da Cultura e duas vezes ministra (Ambiente, Negócios Estrangeiros), sendo pai de um filho de cada uma.

O poema desta semana pertence a No Reino da Dinamarca (1958). A imagem foi obtida a partir de Poesias Completas & Dispersos (2017), volume editado por Maria Antónia Oliveira, biógrafa do autor, e publicado pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti e Al Berto.]

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sábado, 8 de janeiro de 2022

LOURDES CASTRO 1930-2022


Morreu hoje Lourdes Castro, uma das mais importantes artistas plásticas portuguesas.

Natural do Funchal, Lourdes Castro foi aluna do Colégio Alemão antes de partir para Lisboa onde frequentou o curso de pintura da Escola Superior de Belas Artes.

Casada com René Bertholo, partiu para Munique em 1957. No ano seguinte, já em Paris, o casal fundou — com outros artistas, entre eles Christo, Escada e João Vieira — o grupo KWY. Além de exposições, o grupo produziu até 1963 doze números da revista homónima. Depois de 25 anos a viver em Paris, regressou ao Funchal.

Várias vezes premiada e condecorada, Lourdes Castro está representada em museus britânicos e europeus, mas também na Gulbenkian, em Serralves e no Museu de Arte Moderna de Havana.

A partir da segunda metade dos anos 1960 desenvolveu o carácter performativo do seu Teatro de Sombras. Em 2016, a Culturgest mostrou os 36 cadernos a que chamou Álbum de Família. Casou em segundas núpcias com Manuel Zimbro, com quem expôs (2019), na Fundação Carmona e Costa, um núcleo de obras centradas no quotidiano de ambos na Quinta do Monte.

Lourdes Castro tinha 91 anos e as causas da morte não foram tornadas públicas.

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EM QUE FICAMOS?


Vai por aí uma grande confusão. Muita gente ainda não percebeu o óbvio: se ganhar as eleições e formar Governo, o PS apresentará o OE que foi chumbado em Outubro. Nem podia ser de outro modo. Ninguém levaria a sério um Partido que se mostrasse disposto a negociar agora o que, tendo sido arduamente negociado no Outono, foi rejeitado. 

Portanto, é simples. Querem outro OE? Votem em quem tenha condições de formar novo Governo. Supor que das eleições do próximo dia 30 possa resultar correcção de pontaria, é o mesmo que acreditar no sexo dos anjos.

Imagem: sondagem da Católica para a RTP e Público. Clique.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

TIRO PELA CULATRA

A sondagem da Universidade Católica divulgada esta noite pela RTP não acrescenta nada às projeções de voto, mas traz um dado importante:

«[...] 43% dos votantes PS em 2019 são favoráveis a entendimento preferencial com o PSD...» 

Este score ultrapassa a minha percepção, que ficava por 30 ou 32%. Foi isto que o chumbo do OE conseguiu. As pessoas cansaram-se e, provavelmente, teremos novas eleições no Outono.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

COSTA VS VENTURA


Obviamente.

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domingo, 2 de janeiro de 2022

AL BERTO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi o sexto poema de Réstia de Sangue de Al Berto (1948-1997), poeta que trouxe à poesia portuguesa o lampejo de uma identidade queer coerente com os acidentes biográficos.

Nascido em Coimbra como Alberto Raposo Pidwell Tavares, foi viver para Sines no ano seguinte. Frequentou a Escola António Arroio, em Lisboa, antes de partir para a Bélgica em Abril de 1967.

Em Bruxelas frequentou a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels, tendo vivido na comunidade hippie onde conheceu Joëlle de La Casinière, amiga com quem fundaria, em 1972, o Montfaucon Research Center.

Regressado a Portugal em Novembro de 1975, foi viver para Sines, onde publicou À Procura do Vento Num Jardim d’Agosto (1977). Em Sines foi editor e livreiro, animador cultural da autarquia e director do Centro Cultural Emmerico Nunes.

A partir de 1987, ano de publicação de O Medo, Al Berto tornou-se uma figura mediática, com presença regular em festivais e outros eventos da cena literária. Em 1992 foi feito Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Horto de Incêndio (1997), o livro derradeiro, foi escrito e publicado no âmbito de uma bolsa de criação literária do ministério da Cultura.

Sofrendo de um linfoma, foi internado no Hospital dos Capuchos no dia 25 de Abril de 1997, morrendo naquele hospital a 13 de Junho.

Vinte anos após a sua morte estreou (em Outubro de 2017) o filme Al Berto, de Vicente Alves do Ó.

O poema desta semana pertence a Livro Décimo (1985). A imagem foi obtida a partir da 1.ª edição de O Medo, editada pela Contexto.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana e Ruy Cinatti.]

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