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terça-feira, 4 de maio de 2021

JULIÃO SARMENTO 1948-2021


Vítima de cancro, morreu hoje Julião Sarmento, o artista plástico português de maior projecção internacional. Doente há vários meses, Sarmento encontrava-se internado no Centro Clínico Champalimaud, em Lisboa.

Representado em museus e galerias de todo o mundo, a obra de Sarmento desdobra-se pela pintura, desenho, escultura, fotografia, vídeo, instalações e performance. No nosso país, obras suas podem ser vistas no MNAC (Lisboa), no Museu de Serralves (Porto), no CAM da Gulbenkian, no Museu Berardo e outras assinaladas partes.

Retrospectivas suas foram apresentadas em Lisboa (Gulbenkian), Porto (Serralves), Madrid (Museu Nacional Reina Sofia), Londres (Tate Modern), Roterdão (Witte de With Centrum voor Hedendaagse Kuns), Amesterdão (Stedelijk Museum), Nova Iorque (Guggenheim), etc. A partir dos anos 1980 participou nas mais importantes bienais de arte: Paris, São Paulo, Veneza e, por duas vezes, na Documenta de Kassel. 

Após ter vivido em Londres nos anos 1960, Sarmento viveu em Lourenço Marques — mais exactamente na Matola — entre 1972 e o início de 1974. Descobri-o na Galeria Texto, onde expôs Quartos em Maio de 1974 (a abertura agendada para 25 de Abril foi adiada). Se a memória me não falha, havia dépliant de Sílvia Chicó. Terá sido a sua primeira individual.

Em Portugal tornou-se notado após ter participado em Alternativa Zero (1977), o happening conceptual e multidisciplinar que Ernesto de Sousa organizou na Galeria Nacional de Arte Moderna, juntando artistas, músicos e escritores de várias gerações e tendências.

Afinidades Electivas (2015), exposição comissariada por Delfim Sardo, mostrou a colecção particular de Sarmento: mais de trezentas obras de artistas nacionais e estrangeiros com quem se cruzou e de quem foi amigo. Exposta em dois núcleos, um no Museu da Electricidade da Fundação EDP, outro na Fundação Carmona e Costa, encontra-se plasmada em álbum, como tantas outras das suas exposições e ciclos temáticos.

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sexta-feira, 9 de abril de 2021

FILIPE, DUQUE DE EDIMBURGO 1921-2021


Morreu hoje, no Castelo de Windsor, Filipe Mountbatten, duque de Edimburgo, nascido em Corfu como príncipe da Grécia e Dinamarca.

Marido de Isabel II desde 1947, príncipe consorte desde 1952, faria cem anos no próximo 10 de Junho. Hospitalizado entre 16 de Fevereiro e 16 de Março, a causa da morte ainda não foi divulgada pela Casa Real.

Imagem: Guardian. Clique.

quinta-feira, 11 de março de 2021

FRANCISCO CONTENTE DOMINGUES 1959-2021


Morreu ontem o historiador Francisco Contente Domingues, professor catedrático do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e reconhecido especialista em História da Expansão. Tinha 62 anos.

Da sua bibliografia destaco a coordenação do Dicionário da Expansão Portuguesa (2016), obra que abrange 21 temas desenvolvidos em 390 entradas por 79 autores de diferentes nacionalidades.

Francisco Contente Domingues era membro da Academia Portuguesa da História, da Academia das Ciências de Lisboa, e membro emérito da Academia de Marinha. Ainda fez parte do International Committee for the History of Nautical Science e da International Society for the History of the Map.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

LAWRENCE FERLINGHETTI 1919-2021


Vítima de doença pulmonar intersticial, Lawrence Ferlinghetti morreu anteontem à noite na sua casa em São Francisco.

Faria 102 anos no próximo mês de Março. Poeta, escritor, crítico de arte, tradutor, artista plástico, editor e livreiro, ocasional activista político, Ferlinghetti foi quem, a partir de 1953, deu a conhecer ao mundo a Geração Beat. Sem ele, provavelmente não haveria tão cedo Ginsberg, Kerouac, Corso e outros.

Ferlinghetti não conheceu os progenitores: o pai morreu de síncope cardíaca ainda ele não era nascido, a mãe abandonou-o recém-nascido antes de ser internada num hospital psiquiátrico. Foi uma tia que o levou para Estrasburgo, onde passou a infância (o francês foi a primeira língua que aprendeu). De regresso a Nova Iorque, a tia Émilie tornou-se governanta em casa de uma família rica, os Bisland, que proporcionaram a Ferlinghetti uma educação esmerada em colégios privados.

Depois dos primeiros estudos universitários alistou-se na Marinha de Guerra, tendo visto de perto as ruínas de Nagasaki. Depois da guerra estudou literatura, em Columbia, e mais tarde na Sorbone (Paris), mas mudou-se para São Francisco em 1951. E foi aí que tudo mudou: casou com Selden Kirby-Smith e abriu, com um amigo, a City Lights Pocket Book Shop. 

Preso e julgado por obscenidade por ter publicado Uivo — Howl and Other Poems, 1956 —, de Ginsberg, Ferlinghetti acabou  absolvido e o poema tornou-se um bestseller internacional. O livro tinha sido impresso em Londres, enviado para os Estados Unidos e apreendido assim que chegou às livrarias. 

Em 1958, o seu primeiro livro de poesia, A Coney Island of the Mind, vendeu mais de um milhão de exemplares. Mas houve congressistas a pedirem a interdição da obra que, na opinião deles, ridicularizava a crucificação de Cristo. Tudo muda e, em 1998, Ferlinghetti era Poet Laureate.

Entre poesia, ficção, teatro, memórias, diários de viagem e uma heterodoxa autobiografia publicada quando fez cem anos — Rapazinho, 2019 —, Ferlinghetti deixou mais de cinquenta títulos.

Em São Francisco, desde 2019, o dia do seu aniversário [24 de Março] é celebrado como Dia Lawrence Ferlinghetti.

Na imagem, Ferlinghetti em 2006. Clique.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

CARMEN DOLORES 1924-2021


Morreu hoje Carmen Dolores, uma das mais respeitadas actrizes portuguesas de teatro, cinema e televisão.

Estreou-se nos palcos em 1945, embora já antes fizesse teatro radiofónico. Antes de retirar-se em 2005, no Teatro Aberto, pertenceu às companhias do Teatro da Trindade, Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Nacional Popular e Teatro Moderno de Lisboa, interpretando clássicos como Raul Brandão, Tennessee Williams, Garrett, Dürrenmatt, Giraudoux, Brecht, Pirandello, Strindberg, Tchekhov, Turguêniev e outros. Como diseuse, foi grande divulgadora de poesia.

Viveu em Paris durante sete anos (1976-83), época durante a qual deu recitais de poesia no Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian da capital francesa.

No cinema trabalhou sob direcção de António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros, António de Macedo e José Fonseca e Costa. Em 2018, a sala principal do Teatro da Trindade, de Lisboa, passou a designar-se Sala Carmen Dolores. Foi várias vezes laureada e condecorada.

Publicou três livros de memórias: Retrato Inacabado (1984), No Palco da Memória (2013) e Vozes Dentro de Mim (2017). Faria 97 anos no próximo mês de Abril.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

CECÍLIA E ADELAIDE



Vítimas de Covid-19, morreram na Casa do Artista as actrizes Adelaide João (1921-2021) e Cecília Guimarães (1927-2021). Ambas trabalharam, durante décadas, em teatro, cinema e televisão. 

Cecília Guimarães morreu ontem, com 93 anos. Adelaide João, que faria cem anos no próximo mês de Julho, morreu hoje.

Adelaide João estreou-se em 1960 e trabalhou até 2017. Após o curso do Conservatório foi para Paris com uma bolsa da Gulbenkian, permanecendo cinco anos na capital francesa. Integrou o elenco de várias companhias, tais como, entre outras, as do Teatro Nacional D. Maria II, O Bando, Teatro Experimental de Cascais e Teatro Estúdio de Lisboa (de Luzia Maria Martins). No cinema, foi dirigida por António da Cunha Telles, António de Macedo, António-Pedro Vasconcelos, Ernesto de Sousa, Fernando Lopes, José Álvaro de Morais, José Fonseca e Costa, Lauro António, Luís Galvão Teles, Manoel de Oliveira, Noémia Delgado, João Botelho, João Mário Grilo, Ricardo Costa e outros. Na televisão protagonizou inúmeras séries e telefilmes.

Cecília Guimarães estreou-se em 1951 e trabalhou até 2018. Após o curso do Conservatório integrou o elenco de várias companhias, tais como, entre outras, as do Teatro Nacional D. Maria II, Teatro da Trindade, Teatro Experimental do Porto, Teatro da Cornucópia, Teatro Experimental de Cascais, Teatro Maria Matos, Teatro de Almada, Artistas Unidos (de Jorge Silva Melo) e Teatro de Braga. No cinema, foi dirigida por António Lopes Ribeiro, Manoel de Oliveira e outros. Na televisão interpretou sobretudo peças de teatro clássico.

Duas grandes actrizes, de perfil diferente, a quem a Cultura portuguesa muito deve.

Imagens: Cecília Guimarães (ao alto) e Adelaide João. Clique.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

LARS NORÉN 1944-2021


Vítima de Covid-19 morreu ontem Lars Norén, dramaturgo, ficcionista e poeta sueco, considerado o sucessor de Strindberg. Tinha 76 anos.

Como encenador, além do Dramaten, ou Kungliga Dramatiska Teatern de Estocolmo, Norén trabalhou em Paris e Copenhaga.

Em 1999, a sua peça 7:3 foi interpretada no Riksteatern por presidiários neo-nazis. Três fugiram, assaltaram a agência de Kisa do Banco Östgöta Enskilda e assassinaram barbaramente dois polícias. O caso é conhecido como ‘os assassinatos de Malexander’.

Estreado como poeta, foi no teatro que se notabilizou, sendo considerado o mais importante dramaturgo contemporâneo da Suécia.

Figura polémica, publicou em 2008 o primeiro volume do seu diário, En dramatikers dagbok, um cartapácio de mil e setecentas páginas. Os volumes seguintes foram publicados em 2013 e 2016. A sua extensa bibliografia inclui textos para rádio e televisão.

Dizem os especialistas que Norén constitui, com Ibsen, Strindberg e Bergman, o quarteto mais brilhante da cultura nórdica.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

HENRIQUE SEGURADO 1930-2021


Morreu Henrique Segurado, poeta, jornalista e livreiro, personalidade discretíssima da vida cultural portuguesa. Tinha 90 anos. Só ontem à noite se soube da sua morte, ocorrida anteontem, dia 6.

Natural de Lisboa, Henrique Segurado foi um poeta bissexto, oriundo do grupo da Távola Redonda. Com obra publicada desde 1953, justamente representada em diversas antologias, coligiu em Almocreve das Palavras (2011) e Debaixo das Tílias (2012), dois volumes ilustrados por Rui Sanches, o essencial da sua poesia. O livro derradeiro foi O Avesso do Império (2016), organizado por Manuel Rosa.

Enquanto jornalista, fez carreira a partir de 1956, no Século, Diário de Lisboa, República, etc., tendo sido, em 1975, um dos fundadores do semanário O Jornal, do qual foi administrador. 

Como livreiro, abriu em 1976 as livrarias Castil, primeiro a da Rua Castilho, depois a de Alvalade e a seguir outras quatro, uma delas no Porto.

Os meus sentimentos a sua filha, a artista plástica Teresa Pavão.

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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

JOÃO CUTILEIRO 1937-2021


Vítima de enfisema pulmonar, morreu esta manhã o escultor João Cutileiro. Natural de Lisboa, frequentou a Escola Superior de Belas Artes e a Slade School of Art de Londres. Viveu na Inglaterra entre 1955 e 1970.

No regresso a Portugal radicou-se em Lagos, mas em 1985 transferiu-se para Évora. Antigo militante do PCP, é autor do Monumento ao 25 de Abril colocado no alto do Parque Eduardo VII. Contudo, a sua obra mais emblemática é a estátua de D. Sebastião (1973), da Praça Gil Eanes, de Lagos, verdadeiro ex-libris da cidade algarvia. É também de sua autoria o busto de Natália Correia (1999) que se encontra na Assembleia da República.

Ao longo da carreira expôs em várias cidades e países, sobretudo em Lisboa, no Algarve e no Alentejo, mas também na Bélgica, Alemanha, Luxemburgo, em Macau e nos Estados Unidos. Parte da sua obra foi exposta em Lisboa, numa grande retrospectiva organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1990.

Além de Lisboa e Lagos, estatuária sua encontra-se em diversas cidades portuguesas. Em 2018, Cutileiro doou o seu espólio (mais de 900 obras) ao Estado, parte das quais serão expostas no próximo mês de Maio em Vila Nova de Foz Coa.

Doutorado honoris causa pelas Universidades de Évora e Nova de Lisboa, foi também agraciado com a Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.

Tinha 83 anos e estava internado no Hospital Pulido Valente, em Lisboa. Era irmão do embaixador José Cutileiro, falecido em 2020.

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

JOHN LE CARRÉ 1931-2020


Hoje na Sábado.

A notícia chegou domingo à noite, mas John Le Carré morreu no sábado, 12 de Dezembro. Tinha 89 anos e estava internado no Royal Cornwall Hospital com uma pneumonia.

Margaret Atwood e Simon Sebag Montefiore reagiram imediatamente. A escritora canadense foi peremptória: George Smiley, o espião que Chamada Para a Morte (1961) acrescentou à literatura, é «a chave» para a compreensão dos anos da Guerra Fria. Ter em conta que Smiley é o protagonista de dez dos trinta livros publicados por Le Carré até 2019. O historiador foi curto, classificando Le Carré como «o gigante da literatura inglesa».

Mas é um erro supor que John Le Carré foi apenas um brilhante autor de thrillers de espionagem. Le Carré é um dos nomes mais importantes da literatura de língua inglesa em qualquer género. Em 2013, já Ian McEwan havia dito numa entrevista que ele era «o romancista inglês mais importante da segunda metade do século XX […] ilustrando o declínio britânico como mais ninguém.» Com efeito, o facto de ter trabalhado nos serviços secretos britânicos durante 15 anos, primeiro no MI5, depois no MI6 (o mesmo fizeram Somerset Maugham e Graham Greene, para citar apenas dois), apenas o habilitou a descrever, com energia e sarcasmo, aquilo a que chamou o Circo. A fuga de Kim Philby para Moscovo pôs fim a essa fase da sua vida. Ironia suprema: por todo o mundo, os serviços de Intelligence subsumiram como jargão próprio os termos que Le Carré utiliza nos livros que escreveu. Dito de outro modo, a realidade adoptou a ficção. Como sublinha Boyd Tonkin, desde J.R.R. Tolkien que nenhum outro autor criou um «laboratório da natureza humana» de tal envergadura.

Nascido David John Moore Cornwell, a 19 de Outubro de 1931, em Pool, na Inglaterra, escolheu o pseudónimo que o celebrizou. A fama planetária chegou com o terceiro livro, O Espião Que Saiu do Frio (1963), adaptado ao cinema por Martin Ritt. A partir daí, Le Carré entrou na lenda. 

Oriundo de uma família problemática — quem leu as memórias coligidas em Túnel de Pombos lembra-se do capítulo sobre Ronnie, «vigarista, fantasista, preso ocasional e meu pai…» —, foi educado em colégios privados, estudou na Universidade de Berna e em Oxford, formou-se em línguas modernas e deu aulas em Eton. Não ter visto a mãe dos 5 aos 21 anos de idade não terá ajudado.

Além do conflito Leste/Oeste, o espectro da obra inclui temas tão diferentes como as “prioridades” da indústria farmacêutica, os trambiques da ajuda humanitária internacional, a queda do Muro de Berlim, o colapso da URSS, o tráfico de pessoas e armas, o expansionismo israelita, o “zelo” securitário que se seguiu ao 11 de Setembro, lavagem de dinheiro, etc. Livros como A Toupeira (1974), O Ilustre Colegial (1977), A Gente de Smiley (1979), Um Espião Perfeito (1986, o mais autobiográfico de todos), O Gerente da Noite (1993), O Nosso Jogo (1995), O Fiel Jardineiro (2001), Amigos Para Sempre (2003), Um Traidor dos Nossos (2010), Uma Verdade Incómoda (2013), para citar apenas alguns, são hoje clássicos. Como escreveu Timothy Garton Ash, em 1999, na New Yorker, «o verdadeiro assunto de Le Carré não é a espionagem, é o labirinto infinitamente enganador das relações humanas…»

Adversário de Trump e Boris Johnson, equiparava-os a mafiosos. No último livro, Agente em Campo, publicado em Outubro de 2019, ambos estão no centro da intriga, que gira em torno do hipotético conluio (encoberto) entre os Estados Unidos e os serviços secretos britânicos, com o intuito de desacreditar a União Europeia… As derradeiras ilusões que tinha com o Reino Unido perdeu-as com o Brexit.

Avesso a homenagens (recusou ser feito Cavaleiro pela rainha), recebeu vários prémios literários, o mais recente dos quais o Olof Palme 2019, que lhe foi atribuído «pela qualidade e humanismo da sua escrita, acerca da liberdade do indivíduo e das questões fundamentais da humanidade.» Casou duas vezes e é pai de quatro filhos (o mais novo é o escritor Nick Harkaway). Vivia na Cornualha há mais de quarenta anos, embora tivesse mantido a casa de Londres, em Hampstead.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

GISCARD 1926-2020


Vítima de Covid-19, morreu Valéry Giscard d’Estaing, Presidente da França entre 1974 e 1981.

Oriundo da alta burguesia e da École Nationale d’Administration, antigo ministro da Economia e Finanças, europeísta convicto, foi um político reformista e liberal.

Membro da Academia Francesa, é autor de cinco romances e várias colectâneas de ensaios. As suas memórias estão registadas em vários títulos, em especial nos três volumes de Le Pouvoir et la Vie, publicados entre 1988 e 2006.

Charmant como nenhum outro antes ou depois dele, Giscard vem do tempo em que havia Direita civilizada. À sua maneira era um príncipe, o que faz sentido: afinal, a França nunca deixou de ser uma monarquia constitucional...

Morreu nos seus domínios de Authon, em Loir-et-Cher, e a família declinou funeral de Estado.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

EDUARDO LOURENÇO 1923-2020


Hoje na Sábado.

Com a morte de Eduardo Lourenço, ocorrida hoje, aos 97 anos, Portugal perdeu o seu último maître à penser. Dito de outro modo, o ensaísmo português nunca mais será o mesmo. Não tratamos de avaliar a qualidade do que fica, apenas a peculiar singularidade de um pensamento.

Conselheiro de Estado e antigo administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, Eduardo Lourenço nasceu no seio de uma família conservadora, em São Pedro de Rio Seco, pequena aldeia raiana da Beira Alta, no dia 23 de Maio de 1923 (embora seu pai, à época 1.º sargento de Infantaria destacado em Coimbra, só o tenha registado no dia 29). Foi o primeiro dos sete filhos do casal. Depois dos primeiros estudos na aldeia Natal e na Guarda, ingressou em 1934 no Colégio Militar, estando já o pai colocado em Moçambique. A formação universitária fê-la na Universidade de Coimbra, cidade onde colaborou na imprensa local e concluiu a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas.

Parte da sua dissertação, O Sentido da Dialética no Idealismo Absoluto (1946), seria mais tarde coligida em Heterodoxia I (1949), o livro de estreia. Até 1953 ficará em Coimbra como assistente universitário. Em simultâneo, obtém uma bolsa Fulbright para estagiar na Universidade de Bordéus. É o início de um périplo que o levará, como leitor de português, a universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier. Entretanto, após uma passagem (1959) pela Universidade Federal da Bahia, como professor convidado de filosofia, radica-se em França em 1960, a convite da Universidade de Grenoble. Mas em breve se transfere para a de Nice, onde seria jubilado em 1988 como maître de conferences associado. Mantém a residência em Vence mesmo no período em que exerce as funções de Conselheiro Cultural na embaixada de Portugal em Roma. Só a morte da mulher, Annie Salomon, uma reputada hispanista, o fez regressar definitivamente a Portugal. 

Uma tão larga ausência (1953-2013) do país, fazendo dele um estrangeirado, não o distraiu da política nacional. São disso exemplo, entre outras, obras como O Fascismo nunca Existiu (1976), O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português (1978), O Complexo de Marx ou o Fim do Desafio Português (1979), Cultura e Política na Época Marcelista (1996) e Do Colonialismo como Nosso Impensado (2014). Terá recusado convites para exercer funções docentes nas universidades de Coimbra, do Porto e de Lisboa, mas não desistiu de intervir, através de livros, prefácios — como o que escreveu para Alvorada em Abril, de Otelo Saraiva de Carvalho —, artigos, conferências, etc. É sabido que, em 1975, não aceitou ser ministro da Cultura do VI Governo Provisório. Militou na UEDS, foi apoiante de Eanes e, em 1985, integrou o grupo de intelectuais que apoiaram a criação do PRD, o partido presidencial.

Numa bibliografia tão vasta, a excelência reside nos estudos que dedicou à literatura ela-mesma. Obras como Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista (1968), Fernando Pessoa Revisitado. Leitura Estruturante do Drama em Gente (1973), Tempo e Poesia (1974), Poesia e Metafísica. Camões, Antero, Pessoa (1983), Fernando, Rei da Nossa Baviera (1986) ou O Canto do Signo (2017), são de leitura obrigatória.

Órfã de pensadores, a Pátria quis fazer dele filósofo. Eduardo Lourenço recebeu todos os prémios portugueses que havia para receber, entre eles o António Sérgio (1992), o D. Dinis (1995), o Camões (1996), o Vergílio Ferreira (2001), o Pessoa (2011) e o Vasco Graça Moura (2016). Doutorado honoris causa por universidades de Lisboa, Bolonha, Coimbra e do Rio de Janeiro, recebeu comendas de vária índole, em Portugal e em França, entre elas o colar de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981). Não foi pequeno mérito ter sido reconhecido em vida.

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sábado, 21 de novembro de 2020

JAN MORRIS 1926-2020


Ontem, ao fim da manhã, morreu Jan Morris, a historiadora e escritora de viagens que nasceu homem e morreu mulher. Tinha 94 anos. Morris nasceu como James Humphrey e como homem viveu até aos 46 anos. Mudou de sexo em 1972. James Humphrey Morris tinha uma dúzia de livros publicados quando mudou de sexo e adoptou o nome de Jan Morris.

Formou-se em História em Oxford, frequentou a Academia Militar de Sandhurst, pertenceu ao 9.º Regimento de Lanceiros da Rainha e, durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou nos serviços secretos britânicos na Palestina e na Itália. No pós-guerra trabalhou como jornalista para o Times, de onde saiu por pressão do primeiro-ministro Anthony Eden (incomodado com os artigos sobre a Crise do Suez), e para o Guardian. Depois do conflito casou com Elizabeth Tuckniss, de quem teve cinco filhos, sendo um deles o poeta e músico Twm Morys. Embora divorciados por imposição legal, continuaram a viver juntos. Em 2008 legalizaram a união numa partnership.

A fama internacional chegou com Conundrum (1974), relato autobiográfico da experiência transexual. A bibliografia inclui cerca de sessenta títulos, entre História, ficção, ensaio e livros de viagem. A trilogia histórica Pax Britannica (1968-78, três volumes, o primeiro escrito na fase masculina), sobre o Império onde o sol nunca se punha, é porventura a sua obra mais importante. Mas foram os livros de viagem que lhe deram eco planetário. Morris integra desde 2008 a lista dos quinze escritores britânicos mais importantes dos últimos cem anos.

Em Portugal estão traduzidos cinco livros seus, entre os quais Conundrum, que entre nós tem dois títulos: Conundrum, o enigma na edição de 1975, e Enigma na edição que a Tinta da China fez em 2017.

Talvez esteja na altura de traduzir Pax Britannica (1968-78), The Spectacle of Empire: Style, Effect and the Pax Britannica (1982), e Battleship Yamato: Of War, Beauty and Irony (2018), bem como os diários My Mind’s Eye (2018) e Thinking Again (2020), publicado há poucos meses.

Jan Morris, galesa, republicana convicta, é doutorada honoris causa por várias universidades. Por imposição da escritora, existe um livro cuja publicação terá de observar um período de nojo.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

GONÇALO RIBEIRO TELLES 1922-2020


Morreu hoje o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, criador da Reserva Ecológica Nacional, fundador do Partido Popular Monárquico e do Movimento Partido da Terra.

Antigo vereador da Câmara de Lisboa, várias vezes deputado e governante, exerceu funções de secretário de Estado do Ambiente e de ministro da Qualidade de Vida.

A sua obra mais marcante são os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, desenhados em co-autoria com António Viana Barreto. Uma das mais recentes é o Jardim Amália Rodrigues, no topo do Parque Eduardo VII. Tinha 98 anos.

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ARTUR PORTELA FILHO 1937-2020


Vítima de Covid-19 morreu ontem à noite, no Hospital de Abrantes, o jornalista, investigador e escritor Artur Portela Filho, fundador do Jornal Novo e da revista Opção, órgãos de combate à deriva totalitária do PREC. 

O primeiro livro, A Feira das Vaidades (1959), foi apreendido pela PIDE. Nesse mesmo ano lançou a primeira coluna regular de crítica de televisão na imprensa portuguesa. Mas seria com A Funda, série de crónicas coligidas em sete volumes, publicados entre 1972 e 77, que o seu nome entraria por direito próprio na literatura portuguesa. 

Artur Portela Filho também escreveu ficção e ensaio. Da vasta bibliografia destaco colectâneas de contos como, entre outras, A Gravata Berrante (1960), Avenida de Roma (1961), Thelonious Monk (1962) e Os Peixes Voadores (2006), romances como O Código de Hamurabi (1962), Marçalazar (1977), História Fantástica de António Portugal (2004), As Noivas de São Bento (2005) e A Guerra da Meseta (2009), a peça de teatro O General (1962), ensaios sobre Eça de Queirós — autor de quem adaptou para teatro A Capital —, Cardoso Pires, artes plásticas e Salazarisno, cultura em ditadura (Salazarismo vs Franquismo), investigação histórica sobre os anos 1930 na Espanha franquista e na Itália fascista, ética jornalística, etc., além das famosas crónicas dispersas pelo Jornal do Fundão, Diário de Lisboa, República, A Capital, Portugal Hoje, A Luta, O Jornal, TSF, etc., que fizeram dele um nome de referência. Na imprensa, ninguém escrevia como ele. Infelizmente, a sua heterodoxia não fez escola. O Novo Conde de Abranhos (1971) e O Regresso do Conde de Abranhos (1976) são sátiras violentas ao Estado Novo (a primeira) e ao PREC (a segunda). 

Filho do jornalista do mesmo nome, cresceu numa família de intelectuais. Eleito pela Assembleia da República, foi presidente da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Membro da candidatura de Humberto Delgado, activista da CDE (1969), antifascista e anticomunista, Artur Portela Filho sofreu o ónus de pensar e escrever sempre contra o ar do tempo. Tinha 83 anos.

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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

CRUZEIRO SEIXAS 1920-2020


A menos de um mês de completar cem anos, morreu ontem, no Hospital de Santa Maria, o pintor e poeta Artur do Cruzeiro Seixas, fundador e figura destacada do Surrealismo português.

Depois de frequentar a Escola António Arroio (1935-41), fez parte das tertúlias do Café Hermínius e do Grupo Surrealista de Lisboa, expondo pela primeira vez em 1949.

Alistado na Marinha Mercante, fixou-se em Angola em 1951, ali vivendo durante catorze anos. Sem abandonar as artes plásticas, foi naquela antiga Colónia que começou a escrever poesia, estando publicados os três volumes da Obra Poética organizados por Isabel Meyrelles (um quarto volume encontra-se em preparação). Em 1967 torna-se bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viaja por todo o mundo, dirige várias galerias de arte, expõe em Espanha, no Brasil, na Alemanha, na Inglaterra, na Bélgica, no Chile, nos Estados Unidos e no México, desenha cenários para o Ballet Gulbenkian e para a Companhia Nacional de Bailado e, em 1975, corta relações com Cesariny, o amigo dilecto. A correspondência de ambos (1941-75) foi publicada em 2016 pela editora Sistema Solar.

Ilustrou livros de diversos autores, entre eles a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica que Natália Correia organizou e publicou em 1966.

Cruzeiro Seixas está representado em colecções públicas e privadas. Entre outras, na Fundação Calouste Gulbenkian, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (Chiado), na Biblioteca Nacional de Portugal, no  Museu Machado de Castro (Coimbra), na Biblioteca de Tomar e, naturalmente, no Museu do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, instituição a que doou toda a sua colecção em 1999.

Radicado no Algarve desde o início dos anos 1980, homossexual assumido, foram realizados sobre a sua vida e obra três filmes: N.O.M.A. Cruzeiro Seixas (2006) de Carlos Cabral Nunes; Cruzeiro Seixas. O Vício da Liberdade (2010) de Alberto Serra e Ricardo Espírito Santo; e As Cartas do Rei Artur (2016) de Cláudia Rita Oliveira.

A ministra da Cultura atribuiu-lhe no mês passado a Medalha de Mérito Cultural.

O corpo estará no Teatro Thalia, em Lisboa, amanhã (10-15h), seguindo depois para o Cemitério dos Prazeres.

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sábado, 31 de outubro de 2020

SEAN CONNERY 1930-2020


Morreu Sean Connery, o mítico James Bond. A morte ocorreu nas Bahamas, na noite de ontem para hoje, enquanto dormia.

Celebrizado pelos sete filmes em que interpretou o personagem criado por Ian Fleming, Connery provou ser um grande actor noutro tipo de papéis. Entre 1954 e 2012 protagonizou 78 filmes, número que não inclui séries e filmes de televisão. Ganhou um Óscar (actor coadjuvante), três Globos de Ouro e três Bafta.

Escocês, Sean Connery era filho de um operário católico e de uma empregada doméstica protestante. Sem educação formal, foi distribuidor de leite, pedreiro, polidor de caixões, camionista, marinheiro, jogador de futebol e candidato a Mr Universo. Abandonou a Marinha Real devido a problemas de saúde. A rainha fê-lo cavaleiro em 2000.

Imagem: Connery em 1962. Clique.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

KENZO 1939-2020


Vítima de Covid-19 morreu ontem em Paris o estilista japonês Kenzo, radicado na capital francesa desde 1964.

Após a morte do seu companheiro, em 1993, Kenzo vendeu a marca ao conglomerado LVMH Moët Hennessy-Louis Vuitton, mantendo-se porém como estilista-chefe até 1999, ano em que abandonou a moda e foi substituído por Humberto Leon e Carol Lim, que se mantiveram na casa até Julho de 2019. Desde então, a marca Kenzo é da responsabilidade do português Felipe Oliveira Baptista, natural dos Açores.

Kenzo tinha 81 anos.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

QUINO 1932-2020


Praticamente cego e vítima de AVC, morreu ontem Quino, i.e., Joaquín Salvador Lavado Tejón, o argentino que criou a Mafalda, personagem de banda desenhada que marcou sucessivas gerações. Tinha 88 anos.

Publicado e traduzido em todo o mundo, Quino era filho de pais espanhois, expressando-se em dialecto andaluz até à adolescência. Mafalda nasceu por causa de uma campanha publicitária (1962) aos frigoríficos e máquinas de lavar roupa Mandsfield, trabalho rejeitado que o levou a publicar cartoons na imprensa, em plena ditadura militar de Onganía.

O ciclo Mafalda vai de 1964 a 1973, caracterizando-se pelo pacifismo (a Guerra do Vietname estava no auge), o feminismo, a crítica ao consumismo e a insatisfação das juventudes rebeldes. A “morte” de Mafalda coincide com o regresso de Perón ao poder e consequente exílio (na Itália) de Quino, que continuou a publicar livros até 2016 e a colaborar semanalmente com o jornal El País durante mais de vinte anos.

Cidadão espanhol desde 1990, Quino deixou de viver em Espanha em 2014, ano em que recebeu o Prémio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades. Antimonárquico de formação, tornou pública a sua admiração por Felipe VI.

A imagem mostra Quino em Setembro de 2014, sentado ao lado de Mafalda, Manolito e Susanita, obra de 2009 do escultor Pablo Irrgang. O banco encontra-se no bairro de San Telmo, em Buenos Aires.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

JORGE SALAVISA 1939-2020

Morreu hoje o bailarino e programador cultural Jorge Salavisa, antigo director do Ballet Gulbenkian (1977-96) e do Teatro Municipal de São Luiz (2002-10). Antes de regressar a Portugal, em 1977, Salavisa trabalhou cerca de vinte anos fora de Portugal, ao lado dos nomes mais importantes do bailado contemporâneo: Margot Fonteyn e Roland Petit são apenas dois entre dezenas, em companhias tão diferentes como a Ópera de Paris, o Grand Ballet du Marquis de Cuevas, o London Festival Ballet, o New London Ballet (onde chegou a director-assistente), o Scottish Ballet (Glasgow), o Performing Arts Research and Training Studios (Bruxelas) e outras.

Durante catorze anos, entre 1984 e 1998, foi professor-coordenador da Oficina Coreográfica da Escola de Dança do Conservatório Nacional. Entre 1998 e 2001 foi Director da Companhia Nacional de Bailado.

Publicou as memórias no volume Dançar a Vida (Dom Quixote, 2012), obra na qual expõe publicamente a sua condição de homossexual.

Foram seus alunos alguns dos mais destacados bailarinos portugueses, como, entre outros, Rui Horta, Clara Andermatt, João Fiadeiro, Vera Mantero, Paulo Ribeiro e Benvindo Fonseca.

Homem extensamente culto e afável, faria 81 anos no próximo mês de Novembro.