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domingo, 25 de abril de 2021

47 ANOS


Passam hoje 47 anos sobre a queda da ditadura. Quem nasceu em democracia não tem noção de como era viver num país miserável.

Não concebe sequer o totalitarismo de Estado, o regime de Partido único, os malefícios da censura (no ensino, imprensa, literatura, música, teatro, rádio, cinema, televisão, etc.), as arbitrariedades da polícia política, os treze anos de guerra colonial, a rígida hierarquia de classes, o ostracismo de grande parte da comunidade internacional. O inventário é longo, não fica por aqui.

Clique na fotografia de Alfredo Cunha, tirada quando ainda não se sabia se a Fragata F-743 bombardearia o Terreiro do Paço.

sábado, 25 de abril de 2020

25 DE ABRIL


Não tenho paciência para cerimónias oficiais, sejam elas de que natureza forem. A coreografia é medíocre, os discursos não primam pela concisão e as citações de poetas são quase sempre despropositadas. Isto para dizer que, em 45 anos, terei assistido duas ou três vezes a breves passagens das sessões solenes do 25 de Abril.

Hoje foi diferente. Depois das tentativas de boicote, que juntaram gente de vária origem, decidi acompanhar a sessão. E não me arrependi.

Deputados eram 46, um por cada ano de democracia. Convidados não sei quantos eram, talvez fossem 40. Por motivos de saúde, Jorge Sampaio não pôde comparecer. Ramalho Eanes dividiu a tribuna com o cardeal-Patriarca de Lisboa.

Ferro Rodrigues, Presidente da Assembleia da República, começou por pedir um minuto de silêncio em memória dos portugueses falecidos devido à pandemia. Depois sublinhou o óbvio: «Desde 3 de Junho de 1976, a Assembleia da República está em pleno funcionamento. Hoje não foi excepção, hoje não é excepção. A liberdade não está só a passar por aqui, a liberdade é aqui e agora

Em seguida falaram deputados de todos os partidos. André Ventura, do CHEGA, quer uma nova República. Destaco Ventura como contraponto à hipocrisia de Telmo Correia, do CDS, que aproveitou a sessão para destilar bílis e fazer chicana. Os restantes cumpriram o protocolo com boas intenções e a tradicional língua de pau.

Por último falou o Presidente da República. De um longo discurso, destaco: «Seria vergonhoso não estar aqui a celebrar o 25 de Abril. Nunca hesitei um segundo. Seria inadmissível não fazer esta celebração. / Esta cerimónia foi um bom exemplo. Também vamos celebrar o 10 de Junho, o 5 de Outubro e o 1.º de Dezembro

Telmo Correia, do CDS, abandonou o hemiciclo antes de ouvir o hino nacional. Mas foi para o salão nobre da Assembleia fazer chicana com os media.

Em suma, um separar de águas muito útil.

Clique na imagem de Tiago Petinga.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

CANTO PENINSULAR


Canto Peninsular /  Manuel Alegre


Estar aqui dói-me. E eu estou aqui
há novecentos anos. Não cresci nem mudei.
Apodreci.
Doem-me as próprias raízes que criei.

Foi a guerra e a paz. E veio o sol. Veio e passou
a tempestade.
Muita coisa mudou. Só não mudou
este monstro que tem a minha idade.

E foi de novo a guerra e a paz. Muita coisa mudou
em novecentos anos.
Eu é que não mudei. Neste monstro que sou
só os olhos ainda são humanos.

Quantas vezes gritei e não me ouviram
quantas vezes morri e me deixaram
nos campos de batalha onde depois floriram
flores e pão que do meu sangue se criaram.

Andei de terra em terra
por esse mundo que de certo modo descobri.
E fui soldado contra a minha própria guerra
eu que fui pelo mundo e nunca saí daqui.

Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.
Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome.
Eis-me tal como sou há novecentos anos
eu que não sei escrever o meu próprio nome.

Falam de mim e dizem: é um herói.
(Não sei se por estar morto ou porque ainda não morri)
Mas nunca ninguém disse a razão porque me dói
estar aqui.

45 ANOS


Completam-se hoje 45 anos de regime democrático, ou, se preferirem, 45 anos de Segunda República. O facto de já ter durado mais do que durou o Estado Novo (1933-1974) não nos autoriza a baixar a guarda.

A Primeira República (1910-1926) foi interrompida pelo pronunciamento dos militares que desceram de Braga a Lisboa para impor a ditadura militar, travestida de civil com a eleição de Carmona, por sufrágio universal, em 1928.

Infelizmente, tal como a Primeira República não conseguiu mudar as mentalidades do país monárquico, conservador e ultramontano que dominou o país durante a primeira metade do século XX, o regime democrático, ou, se preferirem, a Segunda República, não tem sido capaz de fazer a pedagogia da democracia.

É contra o laissez-faire galopante que temos de lutar todos os dias.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

SOARES & ABRIL


No dia dos 44 anos do 25 de Abril, a zona verde do Campo Grande passa a chamar-se Jardim Mário Soares.

Na extremidade Sul, junto a Entrecampos e à Biblioteca Nacional (uma área com 62 mil metros quadrados), o jardim foi todo redesenhado, substituídas dezoito árvores em risco de queda, melhorada a circulação pedonal, a iluminação nocturna, o isolamento sonoro e o sistema de rega e drenagem. Perto da alameda da Universidade de Lisboa, o Go Fit, um ginásio com seis mil metros quadrados e equipamento de topo, tem capacidade para receber dez mil pessoas. Ocupa o espaço onde outrora existiram duas piscinas. Há também um parque infantil com escalada. Uma parceria entre a Câmara de Lisboa e a Sociedade Portuguesa de Matemática permitiu instalar uma peça de ilusão de óptica, o quarto de Ames, bem como caminhos, ao longo do jardim, com os principais feitos na área da matemática.

A inauguração ocorrerá quando forem 13:00h, com a presença do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República, do primeiro-ministro e do presidente da Câmara de Lisboa. Onde quer que esteja, Soares ficará feliz.

Clique na imagem.

terça-feira, 26 de abril de 2016

POR FIM


Marcelo Rebelo de Sousa vai condecorar Salgueiro Maia (1944-1992) com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. O Presidente da República tornou público esse propósito durante uma homenagem que prestou em Santarém ao antigo capitão de Abril. A condecoração será outorgada no próximo dia 1 de Julho, data em que se comemoram 72 anos sobre o nascimento de Salgueiro Maia.

TRÊS HISTÓRIAS

Ontem, até quase à meia-noite, não li jornais, não ouvi rádio e não estive perto de nenhuma televisão. Isto para dizer que não acompanhei as celebrações protocolares, oficiais e oficiosas, do dia. Mas depois do jantar vi em diferido um painel da TVI onde Judite de Sousa juntou duas resistentes comunistas com Fernando Medina, filho e neto de comunistas. As duas senhoras, Faustina Barradas (1944) e Mariana Morais de Oliveira (1949), falaram da sua experiência na clandestinidade, em particular sobre o drama dos pais que eram obrigados a separar-se dos filhos. Faustina sem conter a emoção, Mariana com travão ideológico. Faustina veio do Alentejo da fome, Mariana foi aos 17 anos estudar dialéctica para a União Soviética, e relatou com pormenor as peripécias do salto de fronteira. Medina, que no 25 de Abril tinha pouco mais de um ano de idade, nasceu longe do pai, algures na clandestinidade. Foi por um anúncio de jornal (uma senha) que teve conhecimento do nascimento do filho, que é hoje presidente da Câmara de Lisboa. Memórias muito diferentes, todas comoventes. Fica-se sempre com um nó na garganta. Há ocasiões em que nos reconciliamos com a televisão.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O QUE TERIA SIDO?

Quem não viveu os anos do salazarismo não pode avaliar em toda a sua extensão o que era o Portugal mesquinho do Estado Novo. Não chega ter ouvido contar. Não chega ter lido o muito que entretanto se escreveu sobre essas décadas abomináveis. Realmente não chega. É preciso ter passado pela experiência da censura, da polícia política e da guerra. Foi terrível. Nasci em Lourenço Marques, onde vivi até aos 26 anos. Nunca pertenci a movimentos clandestinos, nunca militei em qualquer espécie de organização política. Nem sequer em democracia. A minha aversão ao Regime vinha por tradição familiar. Comprava livros proibidos, dizia mal do Botas, e era tudo. Melhor dito: pensava eu que era tudo. De facto, não era.

Em Abril de 1969, tinha então 19 anos, fui a Durban com duas amigas, uma delas filha de um conhecido e respeitado oposicionista entretanto falecido. A viagem foi monitorizada pela PIDE em sintonia com a BOSS sul-africana. Soube-o no regresso, quando minha Mãe, que durante a minha ausência fora chamada ao gabinete do director da PIDE, me perguntou o que tinha andado a fazer. A viagem mete pelo meio o escritor Alan Paton (activista dos direitos cívicos e fundador do Partido Liberal, que se opunha à política do desenvolvimento separado), mas isso agora não vem ao caso. Em Outubro desse ano, no dia das primeiras eleições do consulado de Caetano, uma festa heterodoxa — um ‘casamento’ fictício —, organizada por mim e pelas amigas da viagem a Durban, foi por momentos interrompida por dois agentes da polícia política que não perceberam porque carga de água 50 rapazes e 50 raparigas vestiam calças de sarja branca. A inspecção terá durado um quarto de hora. Até que, em Janeiro de 1971, foi aberto o ominoso processo 1/808/71, o qual conduziu à prisão dezenas de militares de todas as patentes, por práticas homossexuais. Sem acusação formada, eu próprio estive preso em Nampula durante 57 dias. (O processo foi arquivado em Dezembro de 1973.) Adiante. Em 2014 pude consultar, no Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra, o escabroso relatório da PIDE a meu respeito, documento ilustrado com uma dúzia de fotografias minhas, três das quais nunca tinha visto.

A partir daqui, está tudo dito. O que teria sido de nós sem o 25 de Abril?