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segunda-feira, 8 de março de 2021

LEITURA DA HISTÓRIA


Por razões longas de explicar, as elites moçambicanas (e, a partir dos anos 1930, também as classes médias) nunca gostaram de Salazar, olhando para o Estado Novo como uma realidade distante e abstrusa. Isto para dizer que, por parte da população branca de Moçambique, a oposição ao regime começou com a queda da Primeira República.

Moçambique fica do outro lado do mundo, faz fronteira com seis países de língua inglesa e, nessa medida, o modo de vida salazarento era uma abstracção para quase todos.

O livro de que vou falar — Brancos de Moçambique. Da oposição eleitoral ao salazarismo à descolonização (1945-1975) — foi publicado em 2018, mas só agora dele tomei conhecimento. Acrescenta muito pouco ao que já sabia. Mas, para a generalidade dos leitores portugueses, representa uma boa introdução ao que era a vida na Colónia.

Bem documentado, o historiador Fernando Tavares Pimenta, professor da Universidade de Coimbra, faz um tour d’horizon à administração colonial de Moçambique, vista sob o prisma da oposição local.

Resumindo muito: análise exaustiva até aos anos 1960, quadros estatísticos elaborados a partir dos censos oficiais, interpretação sociológica correcta e transcrição oportuna de fontes. Menos bem a parte relativa à vida cultural, acerca da qual muito mais haveria a dizer. Meia dúzia de omissões (sobretudo no último capítulo) não beliscam o interesse da obra.

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quinta-feira, 4 de março de 2021

PARA O LEITOR RELUTANTE


Acaba de sair mais um livro vermelho da Guerra & Paz, desta vez um cânone para o leitor relutante.

Falo de Vamos Ler!, de Eugénio Lisboa, suma de cinquenta obras de 35 autores portugueses, um deles ainda vivo. Destinado a leitores relutantes, ou seja, a leitores não-adictos, exclui autores que, «embora grandes ou notáveis, não se adequam ao [imperativo de] atrair leitores. Isso explica as ausências de, entre outros, Aquilino, Nemésio, Cesariny e Herberto.

Eugénio Lisboa faz a defesa das obras escolhidas, esclarecendo o critério de escolha. Sínteses biográficas de cada autor ajudam o leitor relutante a contextualizar a obra.

Há remoques contra a crítica highbrow e certos tiques do Meio.

Vamos ler!

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

SINTOMAS


Reportando aos anos 2013 e 2014, Yvette K. Centeno acaba de publicar o primeiro volume dos diários a que chamou Sintomas. Fê-lo por indução de filhos e netos, curiosos, uns e outros, das origens polacas da família da mãe.

Yvette K. Centeno é uma grande autora mas, nunca tendo andado em bicos de pés, o seu nome soa pouco familiar fora do círculo de cognoscenti. Afinal, a Simbologia, de que é considerada a mais importante especialista portuguesa, não é uma área de livre trânsito. E quem diz Simbologia diz filosofia hermética, alquimia, mística judaica, estudos sobre Pessoa, Goethe ou Celan, três entre muitos sobre quem orientou seminários e proferiu conferências em Harvard, Oxford, Londres, Berlim, Paris, Madrid, Lisboa, Coimbra e outras cidades.

Sintomas abre várias janelas. Ficamos a saber que, durante a Segunda Guerra Mundial, sua mãe trabalhou numa organização internacional de apoio a fugitivos e exilados judeus, que o activismo político, marxista, levou seu pai mais de uma vez à prisão, que os anos (1946-50) de Buenos Aires foram consequência da repressão do Estado Novo, que Paris era um escape recorrente, e que a paixão do jazz era partilhada com o marido, o lendário contrabaixo Bernardo Moreira, aka Binau.

Yvette não diz, mas digo eu: Binau, engenheiro civil, um dos fundadores do Hot Club de Portugal, acrescentou três músicos à família e dirigiu durante quase vinte anos a Escola de Jazz Luís Villas Boas. Quem viu Belarmino (1964), de Fernando Lopes, lembra-se dele a tocar com o saxofonista belga Jean Pierre Gebler.

Numa escrita limpa, isenta de pose, Yvette K. Centeno fala do tempo que nos coube viver, da infância, do intervalo argentino, das fugas para Paris, da operação de B., de filhos, noras e netos, do 25 de Abril, das redes sociais, de amigos, entre eles Rui Zink, de Rilke, de autoras suas contemporâneas, da angústia do envelhecimento, de toda a sorte de trivialidades que preenchem o nosso quotidiano.

Natural de Lisboa, onde nasceu em 1940, filha de mãe polaca e pai português, poeta, ficcionista, dramaturga, ensaísta e tradutora, professora catedrática jubilada, Yvette K. Centeno foi co-fundadora do CITAC da Universidade de Coimbra, criou o Gabinete de Estudos de Simbologia da Universidade Nova de Lisboa, fundou o ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian, viveu largas temporadas em Paris, conviveu de perto com os grandes da cultura europeia de século XX e, não obstante, mantém-se uma das personalidades mais discretas da cena literária.

Quem leu Entre Silêncios, o volume da sua poesia reunida publicado em 2019, ou Quem Se Eu Gritar (1962), As Palavras Que Pena (1972), A Alquimia e o Fausto de Goethe (1982), Fernando Pessoa: o Amor, a Morte, a Iniciação (1984), Literatura e Alquimia (1987) Os Jardins de Eva (1998), entre outros títulos, vai gostar de Sintomas, que prolonga, em aparente sottovoce, dois livros anteriores: Do Longe e do Perto (2011, diário) e No Rio da Memória (2017, memórias). Assim cheguem depressa os volumes subsequentes de Sintomas.

Com design de Mariana Viana, a capa reproduz o detalhe de uma pintura de Vera Kace. Parabéns, Yvette.

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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

A HISTÓRIA SECRETA


Nos meses do PREC foram muitos os que quiserem associar Amália ao Estado Novo. Sim, é verdade que foi cantar a Londres (1949) a convite de António Ferro. E também é verdade que foi à gala do 52.º aniversário do Sporting (1958) num carro escoltado pela PIDE. Nada disso impediu que, desde os anos 1940, tivesse apoiado militantes comunistas na clandestinidade, as famílias de muitos presos políticos, e até sequazes de Humberto Delgado.

Quem não sabe, fica a saber: Abandono (David Mourão-Ferreira, 1959), também conhecido como Fado de Peniche, é directamente inspirado na prisão de Cunhal: «Por teu livre pensamento / Foram-te longe encerrar...»

Decerto não por acaso, foi condecorada por Soares, Sampaio e Mitterrand. Adiante. Não vou aqui fazer a exegese das seiscentas páginas da biografia escrita por Miguel Carvalho, agora editada pela Dom Quixote. No ano do centenário da diva, a homenagem certa.

A extraordinária foto da capa, da autoria de Mariana Correia Pinto, reporta à participação de Amália numa manif (1975) organizada pelo PS em defesa do jornal República.

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quarta-feira, 29 de julho de 2020

BESSON


Era Fevereiro, a pandemia ainda era um exclusivo da China e da Itália, quando li este romance de Philippe Besson, amigo de Emmanuel e Brigitte Macron e, portanto, mal visto na França gauchiste.

O azedume acentuou-se em Agosto de 2018 com a sua nomeação para cônsul da França em Los Angeles, cidade onde vivia e leccionava há vários anos. A controvérsia atingiu o paroxismo quando o Syndicat du Ministère des Affaires Étrangères apelou ao Conselho de Estado. Em Março de 2019, sublinhando não estar em causa a pessoa de Besson, mas «o princípio da igualdade», foi anulado o decreto presidencial. Isto na França, país que, à semelhança de dezenas de outros, sempre teve cargos diplomáticos ocupados por escritores. Adiante.

Philippe Besson tem 53 anos, é homossexual, jurista e professor na área do Direito Social. Entre outros cargos, ocupou o de secretário-geral do IFOP, ou seja, o Institut Français d’Opinion Publique. A obra literária inclui mais de vinte romances, alguns dos quais adaptados ao cinema (um deles, Son frère, é o filme homónimo feito por Chéreau em 2003), três novelas e um livro de poesia.

Com três romances publicados em Portugal, nem por isso Philippe Besson se tornou um nome familiar. Um quarto título, Deixa-te de Mentiras, primeiro tomo da trilogia autobiográfica, vai com certeza fixar o nome do autor. O livro narra a história de amor de dois rapazes de 17 anos na cidadezinha francesa de Barbezieux. Três anos em três capítulos: 1984, o ano que ocupa dois terços do livro; 2007 e 2016, anos de explicação do day after. Pode-se dizer que Besson escreveu a versão contemporânea de Les Amitiés Particulières, o clássico de Roger Peyrefitte que atordoou a França de 1943. A principal diferença reside no registo cru (sexo sem metáforas), bem como na centralidade das questões identitárias: «No fim de contas, o amor só foi possível porque ele me viu não como eu era, mas como eu iria ser.» O inesperado desfecho tem a seu favor uma narrativa isenta de ênfase e de proselitismo. Há momentos deveras sublimes ao longo deste tão pungente récit. Notável sob vários pontos de vista.

A imprensa cultural portuguesa fez vista grossa ao livro. Jornais conspícuos que todas as semanas promovem lixo inominável, aos costumes disseram nada.

Fazer figas para que a Sextante publique o resto da trilogia: Un Certain Paul Darrigrand e Dîner à Montréal, ambos em 2019.

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terça-feira, 14 de julho de 2020

GEDEÃO


Descobri António Gedeão (1906-1997) por intermédio deste volume de 1964. Estava em Lisboa de férias, tinha 15 anos e ia a subir a Rua do Carmo quando vi o livro na montra da Livraria Portugal. Não conhecia nenhum dos quatro livros anteriores de Gedeão.

Num extenso e polémico prefácio, Jorge de Sena sublinha: «O tremendo mal do nosso tempo, que é a cisão entre uma cultura literária que se pretende largamente humanística e é apenas uma forma organizada de ignorância do mundo em que vivemos...»

Ora bem. Nesta breve síntese talvez resida a desconfiança com que a Academia avalia Gedeão (não confundir Academia com honrarias oficiais e genuíno apreço popular). É um erro, porquanto todos devemos a Gedeão «a inteligência das coisas» que nos deu, como ele diz num poema dedicado a Galileo.

Havendo uma edição mais recente da obra completa do autor, arrumada em lugar visível, tinha este volume da Portugália em segunda fila. Hoje, procurando em vão outro livro, dei com ele, ficando a pensar no que escrevi há anos: «A partir do não-lugar que fizeram seu, Gedeão assombra a normatividade.» [cf. Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013]

É só ler e tirar conclusões.

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domingo, 12 de julho de 2020

PARA QUANDO REEDITAR JAMES?


Ando deliciado a reler P.D. James (1920-2014), autora de thrillers policiais excelentíssimos, um deles este Pecado Original, nono dos catorze romances que têm Adam Dalgliesh — inspector da Scotland Yard e poeta — como protagonista.

Phyllis Dorothy James, baronesa de Holland Park, publicou 24 livros entre 1962 e 2011. Formada em administração hospitalar, trabalhou durante vinte anos para o NHS. Mais tarde integrou o departamento de Medicina Legal da Yard, o que explica as minuciosas descrições das suas obras.

Foi a partir da morte precoce do marido, ocorrida em 1964, que se dedicou a tempo inteiro à escrita, embora a estreia (com Cover Her Face, romance que inscreve Adam Dalgliesh na galeria de personagens da literatura de língua inglesa) seja anterior.

Por duas vezes desviou-se do thriller clássico: em 1992 com The Children of Men, uma distopia teológica que Alfonso Cuarón levou ao cinema em 2006, com Clive Owen e Julianne Moore nos principais papéis; e em 2011 com Death Comes to Pemberley, uma sequela pós-moderna de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Claro que só uma autora da envergadura de James podia arriscar, sem cair no ridículo, glosar Austen.

Morte em Ordens Sagradas (2001) e A Sala do Crime (2003), ambos com Martin Shaw no papel de Adam Dalgliesh, são dois exemplos de romances seus adaptados à televisão pela BBC.

Não estará na altura de trazer de volta às livrarias portuguesas estes livros admiráveis?

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sábado, 11 de julho de 2020

LEITURA DE SÁBADO


Mexer em estantes de duas filas tem sempre como consequência a descoberta de livros julgados desaparecidos. Este Lorca-Dalí. El amor que no pudo ser (1999) foi-me grato reencontro. São cerca de 380 páginas e dezenas de fotografias.

O autor, Ian Gibson, nasceu (1939) na Irlanda, tendo sido professor de Literatura espanhola em Belfast e Londres. Em 1978 radicou-se definitivamente em Espanha, obtendo a nacionalidade espanhola em 1984. Biógrafo, entre outros, de Lorca e Buñuel, Gibson é considerado o maior especialista de história da Literatura de Espanha do século XX. Vive em Granada.

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sábado, 27 de junho de 2020

POESIA GREGA


Numa bela edição de capa dura, com sobrecapa em papel mate, a Quetzal publicou Poesia Grega de Hesíodo a Teócrito. A edição é bilingue, com fixação de texto, tradução, notas e comentários de Frederico Lourenço, que seleccionou poemas e fragmentos de onze autores.

Trata-se da reedição “revista” do volume publicado em 2006, Poesia Grega de Álcman a Teócrito (Cotovia), com algumas diferenças: edição bilingue / 11 autores em vez de 10 / maior número de poemas seleccionados. Baquílides desaparece desta edição. Em seu lugar entram Hesíodo e Calímaco.

Autor e editora estão de parabéns.

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domingo, 21 de junho de 2020

LAWRENCE


Temos finalmente uma nova tradução de Seven Pillars of Wisdom, de T. E. Lawrence (1888-1935). Disponível em Portugal desde 1989, Os Sete Pilares da Sabedoria (1926) regressa numa edição extremamente cuidada da E-Primatur, que mantém os mapas e as ilustrações da edição original, mas não o portfolio fotográfico.

Toda a gente viu Lawrence da Arábia, o filme que David Lean fez em 1962 a partir do livro e, desde então, o rosto de Peter O'Toole (com 29 anos) passou a ser o de Lawrence.

O livro relata a experiência do autor entre 1915-18, enquanto coronel e diplomata britânico, durante a Revolta Árabe, a Campanha do Sinai e Palestina contra o Império Otomano, a queda de Damasco, etc. Foi Lawrence, arqueólogo de profissão, militar e diplomata ad hoc, quem desatou o nó górdio dos interesses britânicos na região. Tendo abandonado a arqueologia após a guerra, ingressou no ministério dos Negócios Estrangeiros, mantendo-se como interlocutor privilegiado de Faisal I, rei da Síria e do Iraque.

Os Sete Pilares da Sabedoria é dedicado a S.A., ou seja, Selim Ahmed, vulgo Dahoum, o jovem com quem manteve uma relação amorosa a partir de 1910.

Lawrence morreu com 46 anos, na Inglaterra, cinco dias após um acidente de mota.

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quarta-feira, 27 de maio de 2020

FOTOGRAFIA EM MOÇAMBIQUE


Quem se interessa por fotografia e, em especial, pela história da fotografia em Moçambique, deve procurar ler Photographos de Paulo Azevedo, que já em 2016 publicara Joseph e Maurice Lazarus. Photographos Pioneiros de Moçambique, 1899-1908.

Em cerca de duzentas páginas, Paulo Azevedo fixa o aparecimento e avanço da fotografia em Moçambique, entre os anos 1800 e 1920, traçando os perfis de pioneiros como Benjaminn Kisch, Manuel Romão Pereira, Louis Hily, Thomas Lee, António Joaquim Cunha, Joseph e Maurice Lazarus, Eduardo Battaglia, José Ferreira Flores, Francisco S. Silva, Ignácio P. Pó, Sidney Hocking e J. Wexelsen.

Descobri muita coisa que desconhecia, como por exemplo a história pregressa da Casa Spanos (onde, com 12 anos, folheava exemplares da revista gay americana Physique Pictorial...) e da Fotografia Bayly, que ainda existiam ao tempo da minha adolescência.

O volume inclui portfolio fotográfico, incluindo fotografias da visita feita a Moçambique (em 1907) pelo príncipe D. Luís Filipe, ao tempo herdeiro do trono português, mas também do 2.º aniversário da implantação da República, bem como várias transcrições do Lourenço Marques Guardian e de anúncios publicados na imprensa da época.

Muito interessante. Editou a Glaciar.

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terça-feira, 12 de novembro de 2019

ATLAS DOURADO


Foi agora traduzido o fabuloso Atlas Dourado do historiador britânico Edward Brooke-Hitching. Ao longo de 256 páginas encontramos mapas raros coloridos à mão, pinturas e gravuras antigas que nos revelam como o mundo se tornou conhecido.

Os 39 capítulos da obra abordam, entre outros, temas como a cartografia da antiguidade, a descoberta da América pelos vikings, as viagens de Marco Polo, os descobrimentos portugueses (em três capítulos), a circum-navegação de Magalhães, a viagem de Francis Drake, a descoberta da Nova Zelândia, a expedição de Vitus Bering, a era das mulheres viajantes e a corrida ao Polo Norte.

O apuro gráfico da edição faz justiça à qualidade das imagens (algumas são deslumbrantes) e o índice remissivo é um precioso auxiliar de leitura. A Bertrand está de parabéns.

Agora é preciso traduzir a obra mais famosa do autor, The Phantom Atlas: The Greatest Myths, Lies and Blunders on Maps.

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segunda-feira, 15 de julho de 2019

GORDIEVSKY POR MACINTYRE


A capa engana. Reproduz a edição original hardcover, mas nem por isso deixa de parecer um bestseller série B. Nada mais errado. The Spy and the Traitor: The Greatest Espionage Story of the Cold War (2018), do historiador britânico Ben Macintyre, é uma excelente biografia de Oleg Gordievsky, ex-coronel do KGB que trabalhou para o MI6 britânico entre 1974 e 1985. Com outra identidade, Gordievsky, actualmente com 80 anos, vive hoje algures na Inglaterra.

O livro é viciante. Macintyre não é Le Carré, mas anda lá perto. Condenado à morte após a deserção para Londres, Gordievsky sobreviveu em 2007 a uma tentativa de envenenamento quando vivia no Surrey. O volume inclui dezenas de fotografias e uma minúcia informativa pouco comum em obras do género. Da bibliografia de Macintyre constam livros sobre (entre outros) Eddie Chapman, o famoso agente Zigzag, e Kim Philby, o mítico espião britânico oriundo do grupo de Cambridge que desertou para Moscovo em 1963.

Se gosta de thrillers, este tem a vantagem de ser sobre factos verídicos.

terça-feira, 28 de maio de 2019

UMA CONVERSA SILENCIOSA


Eugénio Lisboa acaba de coligir num grosso volume de mais de quinhentas páginas, editado pela Imprensa Nacional, um conjunto de 74 ensaios publicados ao longo dos últimos anos. Reconheço a origem de alguns, mas não de todos. Desconfio que haverá meia dúzia de inéditos. Uma Conversa Silenciosa é portanto o livro mais recente do autor.

Os textos estão agrupados em três secções: Miscelânia / De portas adentro / De portas para fora. Intercalados com os de âmbito geral, uns quantos têm destinatário concreto. Casos de, entre outros, Alfredo Margarido, António Brotas, Ângelo (o pintor), António Figueiredo, Régio, Urbano Tavares Rodrigues, Alberto de Lacerda, Antero, Sérgio, David Mourão-Ferreira, Luís Amorim de Sousa, Onésimo Teotónio de Almeida, Pessoa, Florbela Espanca, Luís Amaro, Manuel Alegre, Rui Knopfli, Teresa Martins Marques, Germano Almeida, João Paulo Borges Coelho, Hemingway, P.G. Wodehouse, Robert B. Parker, Glória de Sant’Anna, Bernard Shaw, Lêdo Ivo, June Tabor (a cantora), Sartre e o poeta grego Ares Alexandrou.

Eugénio Lisboa tem o mérito de pensar pela sua cabeça, ao arrepio de modas, sem nunca deixar de ser claro, erudito e certeiro. Seja-me permitido destacar, entre os textos mais tocantes, o dedicado a Secotine — Mais literatura com gatos: my darling Secotine —, a gatinha que um dia deixou de fazer companhia ao escritor: «Tu eras a graça, a vida, [...] Eras a velocidade / encarnada, o gostoso / ir à nossa intimidade...» Quem prefira polémicas encontra aqui o famoso To Fuck, Or Not To Fuck: That Is The Question, resposta crua à magna questão colocada por António Lobo Antunes a propósito de Pessoa: «Eu me pergunto se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor

Para memória futura fica ainda a carta aberta dirigida ao primeiro-ministro, que era então Passos Coelho, por ocasião do «tiroteio fiscal» sobre a terceira idade:

«O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso

Honro-me de ter publicado essa carta neste blogue, nos ominosos tempos da troika, mas é bom que fique grafada em letra de forma

Há mais, evidentemente, mas não cabe nesta breve nota de leitura.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

PREMONITÓRIO


Em 1980, Jean-Jacques Servan-Schreiber (1924-2006) escreveu um livro premonitório, Le Defi Mondial, publicado em simultâneo em quinze países: França, Arábia Saudita, Argentina, Áustria, Brasil, Espanha, Finlândia, Holanda, Índia, Israel, Itália, Japão, Líbano, Noruega e Portugal. No ano seguinte venceu a barreira do mundo de língua inglesa, tornando-se um bestseller planetário. Quanto sei, depois dele apenas publicou, em dois volumes, as suas memórias. Uma doença do foro neurológico afastou-o de tudo em 1996.

Escritor, jornalista, fundador de L’Express, presidente do Parti Radical e, mais tarde, do Mouvement Réformateur, “inventor” da UDF, ministro de Giscard d’Estaing, mogul da vida política parisiense, Servan-Schreiber provoca muitos anticorpos.

Mas é fascinante ver como, há trinta anos, foi capaz de fazer a radiografia do mundo em que vivemos hoje: guerras por causa do petróleo, terror global, microcomputadores, robotização crescente, afirmação das monarquias do Golfo, migrações em massa, etc. As cabecinhas bem-pensantes franziram os sobrolhos, mas todos os dias acordamos com a realidade descrita por antecipação neste livro que reencontrei há pouco por acaso.

sexta-feira, 1 de março de 2019

AGUSTINA POR ISABEL RIO NOVO


Por norma, não comento livros antes de sobre eles escrever em sede própria. Abro uma excepção para assinalar a publicação de O Poço e a Estrada, a biografia de Agustina Bessa-Luís escrita por Isabel Rio Novo. Porquê a excepção? Porque o livro é muito bom.

Em 503 páginas — sendo 80 de Notas e 7 de índice remissivo —, Isabel Rio Novo faz o retrato de uma vida. Que o tenha feito sem acesso aos arquivos pessoais de Agustina (a família recusou), facto que provavelmente explicará a ausência de portfolio fotográfico, e, mesmo assim, tenha atingido tamanho grau de conseguimento, dá a medida da seriedade da obra.

Escrita num registo de grande desenvoltura narrativa, trata-se de uma verdadeira biografia: factos, datas, endereços, nomes, genealogias, a figura tutelar do Pai, interditos, correspondência, entrevistas, depoimentos, equívocos e tensões familiares, petite histoire, zonas de sombra, milieu literário do Porto e de Lisboa, close reading da obra agustiniana, etc., nada fica de fora.

Conhecia algum do anedotário citado, mas foram-me grata surpresa as páginas dedicadas ao Norte, em especial à Póvoa dos anos 1930. Lê-se como um romance, mas não é um romance. É uma biografia como deve ser.

Eu teria acrescentado a bibliografia de Agustina, mas esse é o tipo de ‘falha’ que pode (e deve) resolver-se em próxima edição ou simples reimpressão.

O Poço e a Estrada suscita um problema: fica muito alta a fasquia para os outros títulos já anunciados (as biografias de Natália Correia, José Cardoso Pires, Herberto Helder, Amália, etc.) pela Contraponto. A ver vamos.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

IDIOTIA, BIRRAS & CHUVA DOURADA


Convém ler para perceber a natureza do homem. É pior do que se avalia à distância, mas nem todas as percepções, deste lado do Atlântico, são correctas. Há outro lado curioso: um livro destes, com este tipo de informação sobre assuntos de Estado, seria possível em Portugal?

Por exemplo, aqui ou em qualquer outro país europeu, seria possível publicar um livro sobre Chefes de Estado ou de Governo, em funções, com cenas de natureza sexual explícita?

Bob Woodward cita o episódio escabroso, transcrito de um relatório da CIA, sobre cenas de chuva dourada... na suíte presidencial do Ritz Carlton de Moscovo, com prostitutas contratadas para o efeito. Episódio gravado e filmado pelo FSB (ex-KGB) da Rússia. Quem viu House of Cards não fica surpreendido. Mas isto não é uma série de ficção. Estamos a falar de um livro de História em tempo real, escrito pelo jornalista mais respeitado da América.

terça-feira, 1 de maio de 2018

GUERRA FRIA


Odd Arne Westad, 58 anos, norueguês, professor na London School of Economics e em Harvard, não é um daqueles historiadores mediáticos, conhecidos por toda a gente, como são Hobsbawm, Judt, Beevor ou Schama, mas isso não o diminui.

A Guerra Fria. Uma História do Mundo, de 2017, agora traduzido, faz um tour d’horizon ao período que vai de 1890, ano da primeira crise capitalista global e da radicalização dos trabalhadores, a 1990, momento do colapso da URSS. Setecentas páginas que extravasam a bipolaridade Washington vs Moscovo. Portugal, Angola, China, Coreias, Chile, Indonésia, etc., são alguns dos países analisados no âmbito do «sistema internacional» que foi a Guerra Fria. Doravante uma obra de referência. Publicou a Temas & Debates.

sábado, 6 de janeiro de 2018

OS MAIS BELOS POEMAS PORTUGUESES


Em 1995, mais coisa menos coisa, o editor José da Cruz Santos contactou 25 poetas a quem pediu que escolhessem os 25 mais belos poemas portugueses de sempre. Alguns desses poetas (Sophia, Eugénio, Fiama, Graça Moura, etc.) já morreram. Mas só agora o resultado chegou às livrarias, em dois volumes totalizando 1.260 páginas. O 1.º vai de Afonso X a Ricardo Reis, e o 2.º de Álvaro de Campos a Paulo Teixeira. Nestes dois volumes estão 361 poemas, de 116 poetas, nascidos entre 1221 e 1962. Sanadas as repetições, as 625 escolhas deram lugar aos 361 poemas antologiados. A título de curiosidade, refira-se que o poema mais citado foi O Sentimento dum Ocidental, de Cesário Verde.

Luís Adriano Carlos, poeta, ensaísta e professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, assina as 34 páginas da introdução, Crítica do gosto literário. O leitor estranhará que, a despeito da erudição, Luís Adriano Carlos faça listas de quem não foi escolhido (uma delas termina praticamente na minha house maid...), ao invés de deter-se nos eleitos. A ausência de verbetes biobibliográficos é outro óbice. Dou um rebuçado a quem souber quem é o poeta António H. Balté. Como de regra, Herberto Helder, João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães não autorizaram a publicação de poemas seus.

A primeira meia dúzia dos eleitos é constituída por Camões, com 22 poemas; Nemésio com 17; Sá-Carneiro com 15; Sena e Eugénio com 13 cada um; e o Pessoa ortónimo com 12. Falta gente? Falta sempre gente, mas, numa antologia de gosto, nem podia ser de outro modo. Porém, o cômputo é equilibrado. Uma lista feita por mim não podia ignorar 20 daqueles poemas. Gostei de me ver representado com um poema de 1983.

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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

LM


Quem me conhece sabe que não sou dado a saudosismos. Mas não posso ignorar que nasci e vivi até aos 26 anos em Lourenço Marques. Nunca lá voltei. Não quero voltar. Este livro é sobre a cidade que acabou em Junho de 1975, quando ainda se chamava Lourenço Marques. O nome actual, Maputo, chegou 9 meses depois da independência de Moçambique. O autor, João Mendes de Almeida, é médico otorrinolaringologista no Funchal. Como não esqueceu a sua cidade, dedicou-lhe este grosso volume de grande formato (28,5x21,5cm) e capa dura, com 630 páginas em papel couché e centenas de fotografias. Na área do desporto, em especial nas modalidades mais praticadas (natação, ténis, hóquei, basquetebol, vela, remo, caça submarina, ginástica desportiva, hipismo, esgrima, etc.) é um verdadeiro Who's Who. O mesmo não se pode dizer da área cultural, com omissões gritantes e escolhas equívocas. Não obstante, uma obra de referência.

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