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sábado, 31 de outubro de 2020

SEAN CONNERY 1930-2020


Morreu Sean Connery, o mítico James Bond. A morte ocorreu nas Bahamas, na noite de ontem para hoje, enquanto dormia.

Celebrizado pelos sete filmes em que interpretou o personagem criado por Ian Fleming, Connery provou ser um grande actor noutro tipo de papéis. Entre 1954 e 2012 protagonizou 78 filmes, número que não inclui séries e filmes de televisão. Ganhou um Óscar (actor coadjuvante), três Globos de Ouro e três Bafta.

Escocês, Sean Connery era filho de um operário católico e de uma empregada doméstica protestante. Sem educação formal, foi distribuidor de leite, pedreiro, polidor de caixões, camionista, marinheiro, jogador de futebol e candidato a Mr Universo. Abandonou a Marinha Real devido a problemas de saúde. A rainha fê-lo cavaleiro em 2000.

Imagem: Connery em 1962. Clique.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

REBECCA


Vi finalmente o remake de Rebecca disponível na Netflix desde o passado dia 21. Não me lembro se alguma vez vi a versão de Hitchcock (1940), provavelmente sim, mas não retive.

A versão actual é de Ben Wheatley, e tem nos principais papéis Lily James, Armie Hammer e, encarnando Mrs. Danvers, a fabulosa Kristin Scott Thomas. No filme de Hitchcock eram Joan Fontaine, Laurence Olivier e Judith Anderson. Quem leu o romance homónimo de Daphne du Maurier percebe a criteriosa escolha de Kristin Scott Thomas para o papel-chave da governanta de Manderley.

Não sendo uma obra-prima, são 120 minutos de bom cinema.

Clique na imagem.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

MICHAEL LONSDALE 1931-2020


Morreu ontem Michael Lonsdale, um dos maiores actores da sua geração. Filho de mãe francesa e pai inglês, Lonsdale fez cinema, teatro e televisão durante mais de sessenta anos, mas, para o público mais distraído, foi um actor “invisível”. Isto apesar de papéis memoráveis e de ter trabalhado com todos os realizadores que contam. Tinha 89 anos.

domingo, 26 de julho de 2020

OLIVIA DE HAVILLAND 1916-2020


Olivia de Havilland, última sobrevivente do star system, morreu hoje na sua casa do Bois de Boulogne, em Paris. Tinha 104 anos.

Para a minha geração, Ms Havilland será sempre Melanie Hamilton, a seráfica rival de Scarlett O'Hara na luta por Ashley Wilkes. Sim, falo de E Tudo o Vento Levou, o épico de Victor Fleming que há mais de 80 anos emociona milhões de pessoas em todo o mundo, agora em plataformas de streaming. O mês passado, em nome da political correctness, a HBO retirou o filme do catálogo americano. Mas já o repôs, com uma introdução paternalista de Jacqueline Stewart. Durante quatro minutos e meio, a professora da Universidade de Chicago explica que o filme de 1939 ilustra a realidade dos anos 1860 e da Guerra Civil Americana. Olha que novidade.

Tirando o clássico de Fleming, lembro-me de ter visto Lágrimas de Mãe (1946), A Herdeira (1949), A Difamação (1959), Aeroporto 77 (1977) e, em televisão, a mini-série Roots (1979). Muito pouco, tendo em vista uma carreira de mais de cinquenta filmes. Mas, na geração a que pertencia, as minhas preferidas eram outras.

Nomeada cinco vezes para o Óscar, recebeu dois.

Numa vida pontuada pela discrição, a excepção foi o permanente conflito com sua irmã, a actriz Joan Fontaine.

Imagem: Olivia de Havilland aos 101 anos. Clique.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

ENNIO MORRICONE 1928-2020


Morreu hoje o compositor italiano Ennio Morricone, o mais importante compositor de cinema de todos os tempos.

Autor de uma centena de peças clássicas, Morricone notabilizou-se no vasto mundo pela música que compôs para cinema, em especial para filmes de Sergio Leone. Quem não se lembra da extraordinária trilha sonora de Il buono, il brutto, il cattivo (1966), o terceiro filme da Trilogia do Dólar? Os mais jovens, que não têm idade para ter visto o filme, podem e devem ouvir a música numa das muitas versões disponíveis. A minha preferida é a da Danish National Symphony Orchestra.

Além de Leone, Morricone compôs também para filmes de Duccio Tessari, Giuseppe Tornatore, John Carpenter, Mike Nichols, Oliver Stone, Terrence Malick, Brian De Palma, Barry Levinson, Roland Joffé, Quentin Tarantino e outros.

Recebeu dois Óscares, onze David di Donatello, seis Bafta, quatro Grammy e dezenas de outros prémios e distinções pelos mais de 500 filmes que musicou. De bandas rock & heavy metal a orquestras sinfónicas, passando por Joan Baez, toda a gente que conta reinterpretou obras suas.

Uma queda com fractura do fémur levou ao internamento de Morricone numa clínica de Roma, onde morreu. Tinha 91 anos.

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sábado, 20 de junho de 2020

PEDRO LIMA 1971-2020


Foi esta manhã encontrado morto o actor Pedro Lima. O corpo foi descoberto na praia do Abano, no Guincho.

Natural de Luanda, o actor tinha dupla nacionalidade, tendo representado Angola como nadador nos Jogos Olímpicos de 1988 e 1992.

Em 1997 tornou-se actor, tendo interpretado peças de Beckett, Strindberg, Mamet, Tchekov, Stoppard, Fosse (este sob direcção de Jorge Silva Melo), etc., mas foi como actor de novelas e séries de televisão que o grande público fixou o seu nome. Dos filmes que protagonizou destacaria O Contrato, de Nicolau Breyner (2009), Quarta Divisão, de Joaquim Leitão (2013), e A Uma Hora Incerta, de Carlos Saboga (2015). Pedro Lima deixa cinco filhos. Tinha 49 anos.

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

LUCIA BERLIN POR ALMODÓVAR


Pedro Almodóvar aproveitou a passagem por Hollywood para confirmar que ainda este ano rodará dois novos filmes.

Primeiro, uma curta-metragem sobre La Voix Humaine de Cocteau, a interpretar por Tilda Swinton.

A seguir, uma adaptação de Manual para Mulheres de Limpeza, o livro que celebrizou a norte-americana Lucia Berlin (1936-2004) onze anos após a sua morte.

Almodóvar parece o realizador adequado para recriar o universo disfuncional de Lucia Berlin, um compósito de falta de dinheiro, empregos precários como professora, três casamentos falhados, quatro filhos, problemas de saúde muito graves, alcoolismo, toxicodependência e nomadismo compulsivo entre os Estados Unidos, o México, a Argentina e o Chile.

Por todas essas razões, Lucia foi uma outsider dos círculos institucionais da comunidade literária, e só a publicação póstuma do Manual... (2015) fez dela um nome de culto.

Os dois filmes serão rodados em inglês.

Na imagem, Almodóvar e Bong Joon-ho na noite dos Óscares. Clique.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

ÓSCARES 2020


Ontem foi noite de Óscares. O grande vencedor foi o coreano Bong Joon-ho, realizador de Parasitas, que ganhou quatro Óscares: melhor filme, melhor realização, melhor argumento original e melhor filme internacional.

Pela 1.ª vez na história da Academia de Hollywood, o mesmo filme coincide nas categorias de melhor filme e melhor filme internacional (estrangeiro). Ainda pela 1.ª vez, um filme de língua não-inglesa vence o prémio de melhor filme.

O preferido, 1917, de Sam Mendes, levou três Óscares, mas todos em categorias técnicas.

Nas interpretações não houve surpresas: Joaquin Phoenix, Renée Zellweger, Brad Pitt e Laura Dern foram laureados como melhor actor, melhor actriz, melhor actor secundário e melhor actriz secundária.

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

KIRK DOUGLAS 1916-2020


Kirk Douglas morreu ontem, aos 103 anos. Protagonizou cerca de cem filmes, entre 1946 e 2008. Faceta menos conhecida é a de autor: entre 1988 e 2014 escreveu e publicou oito romances, uma autobiografia, um livro de memórias e dois livros de auto-ajuda espiritual. Mas, para a minha geração, continua a ser Spartacus. A foto é de 1950.

Clique na imagem, uma foto de 1950.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A EROSÃO DO TEMPO


A RTP2 transmitiu ontem um filme que não tinha visto por ocasião do seu lançamento, em 2012. Falo de Amour, de Michael Haneke.

Laureado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Globo de Ouro na mesma categoria, a Palma de Ouro de Cannes, cinco Césares, dois Bafta, etc., narra a história de dois professores de piano aposentados, residentes em Paris, octogenários ambos. Nos papéis de Georges e Anne estão Jean-Louis Trintignant (nascido em 1930) e Emmanuelle Riva (1927-2017). A porteira do prédio é Rita Blanco. Uma história de solidão, doença e eutanásia. Muito deprimente.

Na minha adolescência, fui testemunha do sucesso de Trintignant, um pedaço de homem naquela época. Como actor nunca me entusiasmou: E Deus criou a mulher (Vadim), com a Bardot, filme que só vi nos anos 1960, e Um Homem e Uma Mulher (Lelouch), com Anouk Aimée, são dois exemplos.

Lembro-me da polémica que o filme de Lelouch suscitou em Lourenço Marques, porque Irene Gil abriu a ‘Página da Mulher’ — que coordenava no Notícias — a um debate em que participaram algumas personalidades locais, como Edith Arvelos e outras, mas não os cinéfilos de Esquerda, especializados em Godard e Antonioni, que escreviam noutras páginas.

Irene Gil, mãe dos filósofos Fernando Gil e José Gil, foi de certo modo uma feminista avant la lettre, pois, mesmo nos ominosos anos da censura, usou a coluna que assinava, Daqui e dali, para falar de Betty Friedan, autora do polémico The Feminine Mystique (1963), de Maria Teresa Horta, da ‘invisibilidade’ das mulheres negras na sociedade moçambicana (em 1972), em suma, de temas como relações de classe e etnia, estranhos ao espírito do tempo. Conheci bem Irene Gil e sei as dificuldades que teve em remar contra a maré.

Como disse, Um Homem e Uma Mulher deu azo a uma curiosa polémica, que esteve sempre no meu pensamento enquanto ontem via um Trintignant octogenário perdido no labirinto das escolhas inomináveis.

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domingo, 15 de dezembro de 2019

ANNA KARINA 1940-2019


Vítima de cancro, morreu a noite passada a actriz e cantora Anna Karina, musa de Godard, símbolo da nouvelle vague e referência do cinema francês dos anos 1960 e 70.

Além de Godard, com quem fez oito filmes, entre eles Une femme est une femme (1961), Vivre sa vie (1962) e Pierrot le Fou (1965), Anna Karina trabalhou com Rivette, Varda, Fassbinder, Vadim, Zurlini, Visconti, Cukor, Richardson, Delvaux, Ruiz e outros.

Nascida Hanne Karin Bayer, na Dinamarca, país onde teve vários empregos antes de ser modelo e cantora de cabaret, mudou o nome de nascença quando chegou a Paris. A sugestão partiu de Coco Chanel, com quem trabalhou. Ainda na Dinamarca, foi (aos 17 anos) o rosto da publicidade aos sabonetes Palmolive. Quem a descobriu para o cinema foi Godard, um dos seus quatro maridos. Assim que se conheceram convidou-a para À bout de souffle (1960), mas ela recusou.

Como cantora, ficaram famosas as canções que gravou com Serge Gainsbourg.

Tendo trabalhado como actriz em cinema, teatro e televisão, ainda arranjou tempo para escrever e publicar, entre 1973 e 1998, quatro romances.

Tinha 79 anos.

Clique na imagem da Cinemateca Francesa.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O PASTELÃO


Feito a partir de I Heard You Paint Houses, o livro de Charles Brandt que narra a vida de Frank Sheeran, o gangster irlandês que assassinou Jimmy Hoffa (o líder sindical que durante dez anos chefiou a todo-poderosa International Brotherhood of Teamsters, ou seja, a central de sindicatos dos motoristas americanos), O Irlandês é um exercício enfadonho sobre o mundo do crime, com a duração de três horas e meia. Metade chegava.

De Niro e Pacino iguais a si próprios, Joe Pesci muito bem, reconstituição de ambientes perfeita. Não chega. Por alguma razão Hollywood rejeitou sucessivamente o projecto de Scorsese. Seria a Netflix a pegar nele por 160 milhões de dólares.

O filme corrobora enfaticamente a tese que atribui à Máfia a responsabilidade pelo assassinato de Kennedy. A morte do Presidente retira de cena o irmão Robert (o gajo voltou a ser apenas um advogado), o procurador-geral que combateu o crime organizado, mas Hoffa acabou condenado e preso, em 1967, embora Nixon o tenha indultado em 1971. Assassinado em 1975, o corpo de Hoffa nunca apareceu por, alegadamente, ter sido cremado.

O Irlandês teve estreia mundial no Festival de Cinema de Nova Iorque, no passado 27 de Setembro, estando disponível na Netflix desde 1 de Novembro.

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sábado, 5 de outubro de 2019

MONUMENTAL


Quem não se lembra do Monumental e das suas três salas: o cinema, com 1.967 lugares; o teatro, com 1.086; e o estúdio, onde eram exibidos “filmes de autor”, com 208. O Monumental foi inaugurado em Novembro de 1951 e fechou em Novembro de 1983. Denominada Satélite, a sala-estúdio só abriu em Fevereiro de 1971, ocupando o espaço do antigo salão de chá do primeiro andar.

No piso térreo, virado à Fontes Pereira de Melo, o café-restaurante Monumental marcou uma época da vida gay de Lisboa (embora o Monte Carlo, mesmo ao lado, fosse muito mais divertido). Resumindo: durante 32 anos, o Monumental foi um lugar de eleição.

Demolido em Maio de 1984, deu lugar a um edifício pavoroso, todo espelhado, com quatro salecas de cinema desconfortáveis extremamente feias, inauguradas em 1993 pela Medeia Filmes, de Paulo Branco, actualmente encerradas.

Agora muda tudo. Por 29 milhões de euros, a Broadway Malyan, responsável pelo projecto arquitectónico, vai pôr o edifício como se vê na imagem. Além da fachada, a remodelação inclui os equipamentos interiores.

Continuará um pavor, embora o actual seja pior. Com abertura prevista para Outubro de 2020, manterá as salas de cinema (mas sem a Medeia Filmes), que espero sejam melhores que as actuais. O shopping desaparece, ficando a área comercial ocupada por uma grande loja-âncora.

Para mal dos nossos pecados, o Saldanha está condenado a ser cobaia de todas as experiências.

Clique nas imagens. De cima para baixo: projecto 2020 (em curso), versão 1993, obra original (1951).

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

DOWNTON ABBEY


É um conto de fadas, sim, mas é disso que precisamos. Downton Abbey, o filme, são duas horas de pura magia.

Quem acompanhou as seis temporadas da série televisiva, vai gostar de reencontrar Maggie Smith, Allen Leech, Penelope Wilton, Robert James-Collier, Michelle Dockery, Hugh Bonneville, Laura Carmichael, Jim Carter e tantos outros. Há caras novas: Geraldine James como Queen Mary e Simon Jones como Jorge V (os soberanos que passam uma noite em Downton Abbey), Imelda Staunton como aia da rainha (e prima do conde de Grantham, o senhor da casa), Perry Fitzpatrick, valet do rei e homossexual, etc.

O guião de Julian Fellowes, criador da série e do filme, tem um subtexto que, lido com atenção, questiona a monarquia. A excelente notícia é que manteve as picardias entre Maggie Smith e Penelope Wilton. Fotografia e guarda-roupa deslumbrantes.

Não é uma obra-prima. É apenas um filme muito bem feito, enternecedor, que deixa suficientes pontas soltas para uma mais que provável sequela. Assim aconteça.

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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

HOTÉIS VS CINEMAS


Vai ser demolido o edifício da Rua Francisco Sanches, em Arroios, onde funcionou in illo tempore o Cinema Imperial. Em seu lugar consta que será construído um hotel.

O desaparecimento dos cinemas-em-edifício-próprio começou há trinta ou mais anos. As últimas duas gerações vêem cinema em casa ou em salas de centro comercial. E a minha geração vai ao Corte Inglês, que ainda consegue juntar uma média de vinte espectadores por sala e por sessão.

Quando deixei Cascais (onde em 1975 havia seis cinemas e em 1997 não havia nenhum) e vim viver para Lisboa, ia todas as semanas ao Quarteto, ao Londres e ao King. O Quarteto fechou em Novembro de 2007. O Londres e o King fecharam ambos em 2013, o primeiro em Fevereiro, o segundo em Novembro. Denominador comum: eu era, por regra, um de três espectadores. E em várias estive sozinho na sala. Falo de sessões da tarde. À noite não experimentei, mas amigos relatam experiências iguais.

O Quarteto é hoje um condomínio de startups, o Londres é uma loja chinesa, e o King parece estar sem utilização. Quem deixou morrer esses cinemas foram as pessoas que durante anos a fio não puseram lá os pés.

Sobrevivem o São Jorge, porque a Câmara de Lisboa, via EGEAC, gere a sua programação; o Tivoli, porque o BBVA patrocina a exibição de peças com actores brasileiros; e o Império, porque a Igreja Universal do Reino de Deus fez dele uma catedral.

É a vida.

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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

DOR E GLÓRIA


Vi ontem Dor e Glória de Almodóvar, provavelmente o filme mais secreto do realizador. A interpretação de Banderas, no papel de Salvador Mallo, valeu-lhe o prémio de melhor actor no Festival de Cannes deste ano. Alegadamente, Mallo é Almodóvar. Banderas, que não aprecio, tem o registo certo, mas Asier Etxeandia (o amigo Alberto) é melhor.

Sobre Penélope Cruz: quem teve a ideia bizarra de maquilhar uma lavadeira de rio, na Espanha dos anos 1950, como se fosse uma socialite do Upper East Side?

Tem-se especulado sobre se o filme é a autobiografia do realizador. Almodóvar não confirma nem desmente.

Em todo o caso, em entrevistas, confirmou serem factuais: o reencontro com Carmen Maura em 2017; serem suas algumas roupas usadas por Banderas; ser seu algum mobiliário da casa de Mallo (o aparador Fornasetti, a poltrona Rietveld, etc.), bem como os quadros de Pérez Villalta, Manolo Quejido, Dis Berlin e Sigfrido Martín Begué, além de vasos e outros objectos decorativos; o hábito de deslocar-se sempre de táxi; uma foto de seu pai; as lavadeiras do rio (sendo a mãe uma delas); o facto de, em criança, escrever cartas para os vizinhos analfabetos; o corte de relações com os seus actores (esteve 32 anos sem falar com Eusebio Poncela, protagonista de A Lei do Desejo); a cicatriz nas costas; o travestismo dos anos 1980; a produtora El Deseo, fundada em 1986.

Em paralelo, desmentiu a existência de Eduardo: «Nunca vivi numa caverna e nunca me apaixonei por um pedreiro, embora ambas as coisas pudessem ter acontecido.» Pois podia, digo eu, e o desmaio do miúdo (ao ver o rapaz nu) é verosímil. Também desmentiu o uso de drogas. Dito de outro modo: confirmou as trivialidades e desmentiu factos plausíveis.

Quem gosta do Almodóver frenético, kitsch, glam rock, pós-punk, libertário, não apreciará este biopic. Mas se aguentar os primeiros dez minutos, vai gostar do resto.

Clique na imagem: Almodóvar (ao centro), Penélope Cruz e Banderas, na estreia mundial do filme, em Cannes 2019.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

RED JOAN


Fui esta tarde ver Red Joan / Uma Traição Necessária, de Trevor Nunn, com a fabulosa Judi Dench no papel de Melita Norwood após ter sido acusada de espionagem, em 1999, com 87 anos.

Ao lado de Judi Dench encontramos uma surpreendente Sophie Cookson a fazer de Melita em nova, ou seja, nos anos de Cambridge, da Segunda Grande Guerra e do imediato pós-guerra.

Melita Norwood (1912-2005), inglesa, licenciada em física, trabalhou para o KGB — passando segredos sobre a bomba atómica — sem nunca sair de Inglaterra. A ponte era Leo, judeu alemão que também estudou em Cambridge, o namorado em cuja pele se meteu o actor Tom Hughes. E nós compreendemos Melita.

O filme é inspirado no romance de Jennie Rooney sobre a vida de Melita Norwood.

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domingo, 31 de março de 2019

EMBOSCADA FINAL


Já está disponível na Netflix o filme que vira do avesso a história de Bonnie & Clyde. A minha geração apaixonou-se pelo par de bandidos protagonizado por Faye Dunaway e Warren Beatty, lindos de morrer, tesudos, loucos e vibrantes. Toda a gente viu o filme (1967) de Arthur Penn e ninguém pensou nos polícias.

Agora, o filme (2019) de John Lee Hancock, Emboscada Final, conta a história do lado dos polícias, com Kevin Costner e Woody Harrelson nos principais papéis. É um blind side, diz Hancock. A ver vamos.

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domingo, 10 de março de 2019

LIA EM ALTA DEFINIÇÃO


Lia Gama foi a entrevistada de ontem no programa Alta Definição, do jornalista Daniel Oliveira, na SIC. Vi agora. Um daqueles momentos raros de televisão.

Lia, que no próximo dia 24 vai receber o prémio Sophia Carreira (assunto omisso da conversa), expõe a sua vida com uma naturalidade desarmante, por vezes crua: violência doméstica na infância, maioridade aos 13, Paris, vigilância da Pide, o teatro, o dedo amputado do fotógrafo Sérgio Guimarães, outros amores, noitadas, bezanas, o casamento, os meses de Angola nos anos de brasa da guerra colonial, o filho, a disciplina do actor, a solidão.

Conheci a Lia em Lourenço Marques, no dia do meu 21.º aniversário (1970), em circunstâncias peculiares. Ainda há três dias estivemos juntos, a rir-nos muito, mas ela foi incapaz de mencionar que estava para sair a entrevista, tal como, na conversa com Daniel Oliveira, não faz referência aos autores que interpretou, e foram alguns dos maiores (Shakespeare, Gorki, Beckett, Genet, Sartre, Fassbinder, Gombrowicz e outros), nem aos encenadores com quem trabalhou, e também aí podia ter puxado dos galões, porque trabalhou com toda a gente que importa. Quem a ouvir, parece que só fez teatro de boulevard na companhia de Vasco Morgado. Também não fala dos filmes, e foram tantos, de realizadores tão diferentes como Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Fonseca e Costa, Solveig Nordlund, Alberto Seixas Santos, Joaquim Leitão, Alain Tanner e outros. Nenhuma pose, apenas a vida como ela tem sido. Vale a pena ir ver.

Na imagem, Lia Gama fotografada por Jorge Gonçalves durante a representação de Aos Que Nasceram Depois de Nós, de Brecht, dirigida por Jorge Silva Melo para os Artistas Unidos e Companhia de Teatro de Braga, em 1998.

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

VICE


Se tinha dúvidas acerca do poder real de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos nos dois mandatos de Bush W (2001-09), deve ir ver Vice, o filme de Adam McKay que não recebeu o Óscar de melhor do ano porque a Academia de Hollywood faz questão de distinguir xaropadas.

Está lá tudo: o 11 de Setembro, o Patriot Act (conjunto de leis que caucionam a tortura, o acesso ilimitado a registos privados de telefone e correio electrónico, bem como toda a sorte de atropelos a liberdades e garantias individuais), as guerras do Afeganistão e do Iraque, o reforço do poder executivo, as querelas ambientais, a filha lésbica, etc. O filme é muito bom e Christian Bale, no protagonista, não podia estar melhor.

Quem acompanha de perto a política americana, tal como quem conhece a vasta bibliografia entretanto publicada, sabe que Cheney foi, de facto, o Presidente. Quem não sabe, tem oportunidade de conferir.

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