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terça-feira, 1 de junho de 2021

ACL COM MURAL

Pena o dia estar cinzento, porque com sol é outra coisa. O mural foi inaugurado hoje às cinco da tarde, na presença de amigos.

Na foto de cima estou eu, ladeado pela autora do mural, Vanessa Teodoro, e por José António Borges, presidente da Junta de Freguesia de Alvalade. Na de baixo pode ler-se, em letras vermelhas 3D, o verso que fecha o meu poema, 

Fotos de Jorge Neves. Clique.

ACL, DIA DOIS


Esta noite, no Mercado de Alvalade, debate sobre crítica literária, com Helena Vasconcelos, Isabel Lucas, Manuel Frias Martins, Pedro Mexia e eu próprio. Carlos Vaz Marques modera.

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segunda-feira, 31 de maio de 2021

ABERTURA DE ACL


Instantâneo da minha intervenção, esta tarde, na Biblioteca Nacional de Portugal, no início do colóquio sobre poesia, primeira das seis sessões inseridas em Alvalade Capital da Leitura.

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ACL 2021



Começa esta tarde, na Biblioteca Nacional de Portugal, a 5.ª edição de Alvalade Capital da Leitura, com curadoria de Carlos Vaz Marques.

Um Colóquio sobre poesia preenche o primeiro de seis dias centrados na minha obra. Farei a intervenção de abertura e depois será a vez de António Carlos Cortez, Fernando Pinto do Amaral, Helga Moreira, Joana Matos Frias e Nuno Júdice apresentarem as suas comunicações.

Esta e as restantes sessões têm assistência, reduzida de acordo com as normas da DGS.

Marcação prévia através de cultura@jf-alvalade.pt

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terça-feira, 25 de maio de 2021

CONTOS

 Chegou hoje às livrarias. Clique na imagem.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

DIA MUNDIAL DO LIVRO


Celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, instituído em 1995 pela UNESCO. 

A data coincide com a morte, no mesmo dia, de Cervantes e Shakespeare. Passam hoje 405 anos.

Em Espanha, no Reino Unido, na Irlanda e na Suécia, o Dia Mundial do Livro é celebrado em datas diferentes.

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segunda-feira, 19 de abril de 2021

DEVASTAÇÃO

 


Nas livrarias a partir do próximo 25 de Maio. São contos. Clique.

terça-feira, 23 de março de 2021

NOS 80 ANOS DE ESTEIROS


Assinalando os 80 anos da sua publicação, a Quetzal reeditou Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), figura destacada do movimento neo-realista português. Considerado a obra-prima do autor, o livro foi escrito para os filhos dos homens que nunca foram meninos. Publicada em 1941, a primeira edição tem capa e ilustrações de Álvaro Cunhal.

Esteiros conta a história de um punhado de miúdos que, no Telhal Grande, em pleno Ribatejo, ocupavam o Verão a trabalhar como adultos numa fábrica de tijolos.

Militante do PCP, Soeiro Pereira Gomes passou à clandestinidade em 1945, morrendo vítima de cancro do pulmão, aos 40 anos.

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segunda-feira, 22 de março de 2021

CENTENÁRIOS


Estamos no ano dos centenários de Carlos de Oliveira e Natália Nunes. Oliveira nasceu a 10 de Agosto, Natália a 18 de Novembro de 1921. Presumo que a Academia esteja atenta às datas.

Poeta, romancista e cronista, Carlos de Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil. Em 1923 veio para Portugal, radicando-se a família na região da Gândara. Estreado em livro em 1937, só considerará como parte da bibliografia a obra publicada a partir de 1942. Unanimemente considerado o poeta mais importante do neo-realismo português, distingue-se também como romancista. Na ficção, a obra mais conhecida é Uma Abelha na Chuva (1953), romance que Fernando Lopes passou ao cinema em 1972. Em Trabalho Poético (1977), Oliveira refunde e reescreve a poesia publicada, acrescentando ao volume os dez poemas de Pastoral. Nunca exerceu qualquer profissão. Viveu em Lisboa entre 1948 e 1981, ano da sua morte. O espólio do autor encontra-se depositado no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.

Romancista, contista, ensaísta, memorialista e tradutora, Natália Nunes é natural de Lisboa. Estreada em livro em 1952, pode dizer-se que foi uma feminista avant la lettre, embora o activismo institucional não dê por isso. A vários títulos, Assembleia de Mulheres (1964) é uma obra precursora. Entre outros, escreveu sobre Dostoievski, Raul Brandão e Carlos de Oliveira. Nas muitas traduções que fez, destacam-se as de Balzac e Violette Leduc. Foi bibliotecária-arquivista e conservadora do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Foi casada com António Gedeão, de quem teve uma filha, a escritora Cristina Carvalho. Faleceu em 2018.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

TERESA


Com Estranhezas, Maria Teresa Horta foi a vencedora do Prémio Literário Casino da Póvoa. O anúncio foi feito há pouco, na abertura da 22.ª edição do festival Correntes d’Escritas. 

Nas palavras do júri, o livro faz a «síntese de um percurso poético ancorado na celebração do corpo e do desejo, que estabelece um diálogo transgressor com a tradição lírica e medieval e renascentista [...] fazendo-as implodir num erotismo vital, que se exerce numa contínua experimentação dos limites da nudez e mistério da palavra.» 

Poeta e ficcionista, Maria Teresa Horta, nascida em Lisboa em 1937, publicou o primeiro livro de poesia em 1960, e o primeiro romance em 1970. Com Tatuagem integrou o núcleo fundador do grupo Poesia 61. Feminista heterodoxa, foi co-autora de Novas Cartas Portuguesas (1972), obra pela qual teve de responder em tribunal, num processo — conhecido como das Três Marias — que suscitou ressonância mediática planetária. Da sua vasta bibliografia poética destacaria Candelabro (1964), Minha Senhora de Mim (1971), Educação Sentimental (1975), Os Anjos (1983), Poemas para Leonor (2012), A Dama e o Unicórnio (2013) e o livro ora laureado.

Na área da ficção o destaque não pode ir senão para As Luzes de Leonor (2011), monumental romance sobre a marquesa de Alorna, sua ancestral. Mas Ema (1984) e A Paixão Segundo Constança H. (1994), dois exemplos entre outros, são prova de que alguma da melhor ficção portuguesa tem sido escrita por poetas.

Mulher de Esquerda, Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Maria Teresa Horta foi jornalista durante mais de trinta anos, tendo, no vespertino A Capital, coordenado o suplemento Literatura e Arte. Foi ainda crítica de cinema e dirigente do ABC Cineclube de Lisboa. Um dos seus poemas mais celebrados, Verão Coincidente (1962), deu origem a uma curta-metragem de António de Macedo. Como tradutora, devemos-lhe Ópio, de Cocteau.

Entre outros prémios e distinções, recebeu em 2011 o Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus. Em 2017 recusou receber o Prémio Oceanos que lhe fora atribuído ex-aequo com o escritor brasileiro Bernardo Carvalho.

Parabéns, Teresa. 

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

LAWRENCE FERLINGHETTI 1919-2021


Vítima de doença pulmonar intersticial, Lawrence Ferlinghetti morreu anteontem à noite na sua casa em São Francisco.

Faria 102 anos no próximo mês de Março. Poeta, escritor, crítico de arte, tradutor, artista plástico, editor e livreiro, ocasional activista político, Ferlinghetti foi quem, a partir de 1953, deu a conhecer ao mundo a Geração Beat. Sem ele, provavelmente não haveria tão cedo Ginsberg, Kerouac, Corso e outros.

Ferlinghetti não conheceu os progenitores: o pai morreu de síncope cardíaca ainda ele não era nascido, a mãe abandonou-o recém-nascido antes de ser internada num hospital psiquiátrico. Foi uma tia que o levou para Estrasburgo, onde passou a infância (o francês foi a primeira língua que aprendeu). De regresso a Nova Iorque, a tia Émilie tornou-se governanta em casa de uma família rica, os Bisland, que proporcionaram a Ferlinghetti uma educação esmerada em colégios privados.

Depois dos primeiros estudos universitários alistou-se na Marinha de Guerra, tendo visto de perto as ruínas de Nagasaki. Depois da guerra estudou literatura, em Columbia, e mais tarde na Sorbone (Paris), mas mudou-se para São Francisco em 1951. E foi aí que tudo mudou: casou com Selden Kirby-Smith e abriu, com um amigo, a City Lights Pocket Book Shop. 

Preso e julgado por obscenidade por ter publicado Uivo — Howl and Other Poems, 1956 —, de Ginsberg, Ferlinghetti acabou  absolvido e o poema tornou-se um bestseller internacional. O livro tinha sido impresso em Londres, enviado para os Estados Unidos e apreendido assim que chegou às livrarias. 

Em 1958, o seu primeiro livro de poesia, A Coney Island of the Mind, vendeu mais de um milhão de exemplares. Mas houve congressistas a pedirem a interdição da obra que, na opinião deles, ridicularizava a crucificação de Cristo. Tudo muda e, em 1998, Ferlinghetti era Poet Laureate.

Entre poesia, ficção, teatro, memórias, diários de viagem e uma heterodoxa autobiografia publicada quando fez cem anos — Rapazinho, 2019 —, Ferlinghetti deixou mais de cinquenta títulos.

Em São Francisco, desde 2019, o dia do seu aniversário [24 de Março] é celebrado como Dia Lawrence Ferlinghetti.

Na imagem, Ferlinghetti em 2006. Clique.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

LARS NORÉN 1944-2021


Vítima de Covid-19 morreu ontem Lars Norén, dramaturgo, ficcionista e poeta sueco, considerado o sucessor de Strindberg. Tinha 76 anos.

Como encenador, além do Dramaten, ou Kungliga Dramatiska Teatern de Estocolmo, Norén trabalhou em Paris e Copenhaga.

Em 1999, a sua peça 7:3 foi interpretada no Riksteatern por presidiários neo-nazis. Três fugiram, assaltaram a agência de Kisa do Banco Östgöta Enskilda e assassinaram barbaramente dois polícias. O caso é conhecido como ‘os assassinatos de Malexander’.

Estreado como poeta, foi no teatro que se notabilizou, sendo considerado o mais importante dramaturgo contemporâneo da Suécia.

Figura polémica, publicou em 2008 o primeiro volume do seu diário, En dramatikers dagbok, um cartapácio de mil e setecentas páginas. Os volumes seguintes foram publicados em 2013 e 2016. A sua extensa bibliografia inclui textos para rádio e televisão.

Dizem os especialistas que Norén constitui, com Ibsen, Strindberg e Bergman, o quarteto mais brilhante da cultura nórdica.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

TODA A HERESIA SERÁ CASTIGADA

O JL que saiu hoje é um número especial dedicado exclusivamente a Eduardo Lourenço. Um dos textos sobre o autor homenageado é de Eugénio Lisboa, colaborador do jornal praticamente desde a sua fundação.

Aparentemente, o texto merece reservas a José Carlos de Vasconcelos, o director. Eugénio Lisboa sentiu-se visado pelas farpas do editorial e bateu com a porta.

Aqui fica a carta de demissão de Eugénio Lisboa:

«José Carlos de Vasconcelos, quero comunicar-lhe que não volto a colaborar no JL. Enquanto o fiz, procurei sempre dizer, com franc parler que devo a bons e íntegros mestres, aquilo que penso: com admiração, quando ela é devida, mas sem idolatrias próprias de ditaduras de terceiro mundo. 

Para este número, dedicado a Eduardo Lourenço, enviei-lhe um texto a seu pedido. Isso convocava, da sua parte, no mínimo, neutralidade e cortesia, não as farpas envenenadas da sua editorial.

A minha colaboração de tantos anos, que não é de qualidade “imaginária” — ou, se é, porque continuou a mantê-la? — não justifica um ataque tão enviesado. A minha visão do Eduardo Lourenço é a minha, a que sinceramente tenho e posso garantir-lhe que não estou só.

Seja como for, não voltarei a incomodá-lo com os meus textos e desejo bom futuro ao JL.»

Definitivamente, vivemos no país do beija-mão. Digo eu.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

JOHN LE CARRÉ 1931-2020


Hoje na Sábado.

A notícia chegou domingo à noite, mas John Le Carré morreu no sábado, 12 de Dezembro. Tinha 89 anos e estava internado no Royal Cornwall Hospital com uma pneumonia.

Margaret Atwood e Simon Sebag Montefiore reagiram imediatamente. A escritora canadense foi peremptória: George Smiley, o espião que Chamada Para a Morte (1961) acrescentou à literatura, é «a chave» para a compreensão dos anos da Guerra Fria. Ter em conta que Smiley é o protagonista de dez dos trinta livros publicados por Le Carré até 2019. O historiador foi curto, classificando Le Carré como «o gigante da literatura inglesa».

Mas é um erro supor que John Le Carré foi apenas um brilhante autor de thrillers de espionagem. Le Carré é um dos nomes mais importantes da literatura de língua inglesa em qualquer género. Em 2013, já Ian McEwan havia dito numa entrevista que ele era «o romancista inglês mais importante da segunda metade do século XX […] ilustrando o declínio britânico como mais ninguém.» Com efeito, o facto de ter trabalhado nos serviços secretos britânicos durante 15 anos, primeiro no MI5, depois no MI6 (o mesmo fizeram Somerset Maugham e Graham Greene, para citar apenas dois), apenas o habilitou a descrever, com energia e sarcasmo, aquilo a que chamou o Circo. A fuga de Kim Philby para Moscovo pôs fim a essa fase da sua vida. Ironia suprema: por todo o mundo, os serviços de Intelligence subsumiram como jargão próprio os termos que Le Carré utiliza nos livros que escreveu. Dito de outro modo, a realidade adoptou a ficção. Como sublinha Boyd Tonkin, desde J.R.R. Tolkien que nenhum outro autor criou um «laboratório da natureza humana» de tal envergadura.

Nascido David John Moore Cornwell, a 19 de Outubro de 1931, em Pool, na Inglaterra, escolheu o pseudónimo que o celebrizou. A fama planetária chegou com o terceiro livro, O Espião Que Saiu do Frio (1963), adaptado ao cinema por Martin Ritt. A partir daí, Le Carré entrou na lenda. 

Oriundo de uma família problemática — quem leu as memórias coligidas em Túnel de Pombos lembra-se do capítulo sobre Ronnie, «vigarista, fantasista, preso ocasional e meu pai…» —, foi educado em colégios privados, estudou na Universidade de Berna e em Oxford, formou-se em línguas modernas e deu aulas em Eton. Não ter visto a mãe dos 5 aos 21 anos de idade não terá ajudado.

Além do conflito Leste/Oeste, o espectro da obra inclui temas tão diferentes como as “prioridades” da indústria farmacêutica, os trambiques da ajuda humanitária internacional, a queda do Muro de Berlim, o colapso da URSS, o tráfico de pessoas e armas, o expansionismo israelita, o “zelo” securitário que se seguiu ao 11 de Setembro, lavagem de dinheiro, etc. Livros como A Toupeira (1974), O Ilustre Colegial (1977), A Gente de Smiley (1979), Um Espião Perfeito (1986, o mais autobiográfico de todos), O Gerente da Noite (1993), O Nosso Jogo (1995), O Fiel Jardineiro (2001), Amigos Para Sempre (2003), Um Traidor dos Nossos (2010), Uma Verdade Incómoda (2013), para citar apenas alguns, são hoje clássicos. Como escreveu Timothy Garton Ash, em 1999, na New Yorker, «o verdadeiro assunto de Le Carré não é a espionagem, é o labirinto infinitamente enganador das relações humanas…»

Adversário de Trump e Boris Johnson, equiparava-os a mafiosos. No último livro, Agente em Campo, publicado em Outubro de 2019, ambos estão no centro da intriga, que gira em torno do hipotético conluio (encoberto) entre os Estados Unidos e os serviços secretos britânicos, com o intuito de desacreditar a União Europeia… As derradeiras ilusões que tinha com o Reino Unido perdeu-as com o Brexit.

Avesso a homenagens (recusou ser feito Cavaleiro pela rainha), recebeu vários prémios literários, o mais recente dos quais o Olof Palme 2019, que lhe foi atribuído «pela qualidade e humanismo da sua escrita, acerca da liberdade do indivíduo e das questões fundamentais da humanidade.» Casou duas vezes e é pai de quatro filhos (o mais novo é o escritor Nick Harkaway). Vivia na Cornualha há mais de quarenta anos, embora tivesse mantido a casa de Londres, em Hampstead.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

EDUARDO LOURENÇO 1923-2020


Hoje na Sábado.

Com a morte de Eduardo Lourenço, ocorrida hoje, aos 97 anos, Portugal perdeu o seu último maître à penser. Dito de outro modo, o ensaísmo português nunca mais será o mesmo. Não tratamos de avaliar a qualidade do que fica, apenas a peculiar singularidade de um pensamento.

Conselheiro de Estado e antigo administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, Eduardo Lourenço nasceu no seio de uma família conservadora, em São Pedro de Rio Seco, pequena aldeia raiana da Beira Alta, no dia 23 de Maio de 1923 (embora seu pai, à época 1.º sargento de Infantaria destacado em Coimbra, só o tenha registado no dia 29). Foi o primeiro dos sete filhos do casal. Depois dos primeiros estudos na aldeia Natal e na Guarda, ingressou em 1934 no Colégio Militar, estando já o pai colocado em Moçambique. A formação universitária fê-la na Universidade de Coimbra, cidade onde colaborou na imprensa local e concluiu a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas.

Parte da sua dissertação, O Sentido da Dialética no Idealismo Absoluto (1946), seria mais tarde coligida em Heterodoxia I (1949), o livro de estreia. Até 1953 ficará em Coimbra como assistente universitário. Em simultâneo, obtém uma bolsa Fulbright para estagiar na Universidade de Bordéus. É o início de um périplo que o levará, como leitor de português, a universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier. Entretanto, após uma passagem (1959) pela Universidade Federal da Bahia, como professor convidado de filosofia, radica-se em França em 1960, a convite da Universidade de Grenoble. Mas em breve se transfere para a de Nice, onde seria jubilado em 1988 como maître de conferences associado. Mantém a residência em Vence mesmo no período em que exerce as funções de Conselheiro Cultural na embaixada de Portugal em Roma. Só a morte da mulher, Annie Salomon, uma reputada hispanista, o fez regressar definitivamente a Portugal. 

Uma tão larga ausência (1953-2013) do país, fazendo dele um estrangeirado, não o distraiu da política nacional. São disso exemplo, entre outras, obras como O Fascismo nunca Existiu (1976), O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português (1978), O Complexo de Marx ou o Fim do Desafio Português (1979), Cultura e Política na Época Marcelista (1996) e Do Colonialismo como Nosso Impensado (2014). Terá recusado convites para exercer funções docentes nas universidades de Coimbra, do Porto e de Lisboa, mas não desistiu de intervir, através de livros, prefácios — como o que escreveu para Alvorada em Abril, de Otelo Saraiva de Carvalho —, artigos, conferências, etc. É sabido que, em 1975, não aceitou ser ministro da Cultura do VI Governo Provisório. Militou na UEDS, foi apoiante de Eanes e, em 1985, integrou o grupo de intelectuais que apoiaram a criação do PRD, o partido presidencial.

Numa bibliografia tão vasta, a excelência reside nos estudos que dedicou à literatura ela-mesma. Obras como Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista (1968), Fernando Pessoa Revisitado. Leitura Estruturante do Drama em Gente (1973), Tempo e Poesia (1974), Poesia e Metafísica. Camões, Antero, Pessoa (1983), Fernando, Rei da Nossa Baviera (1986) ou O Canto do Signo (2017), são de leitura obrigatória.

Órfã de pensadores, a Pátria quis fazer dele filósofo. Eduardo Lourenço recebeu todos os prémios portugueses que havia para receber, entre eles o António Sérgio (1992), o D. Dinis (1995), o Camões (1996), o Vergílio Ferreira (2001), o Pessoa (2011) e o Vasco Graça Moura (2016). Doutorado honoris causa por universidades de Lisboa, Bolonha, Coimbra e do Rio de Janeiro, recebeu comendas de vária índole, em Portugal e em França, entre elas o colar de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981). Não foi pequeno mérito ter sido reconhecido em vida.

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sábado, 21 de novembro de 2020

JAN MORRIS 1926-2020


Ontem, ao fim da manhã, morreu Jan Morris, a historiadora e escritora de viagens que nasceu homem e morreu mulher. Tinha 94 anos. Morris nasceu como James Humphrey e como homem viveu até aos 46 anos. Mudou de sexo em 1972. James Humphrey Morris tinha uma dúzia de livros publicados quando mudou de sexo e adoptou o nome de Jan Morris.

Formou-se em História em Oxford, frequentou a Academia Militar de Sandhurst, pertenceu ao 9.º Regimento de Lanceiros da Rainha e, durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou nos serviços secretos britânicos na Palestina e na Itália. No pós-guerra trabalhou como jornalista para o Times, de onde saiu por pressão do primeiro-ministro Anthony Eden (incomodado com os artigos sobre a Crise do Suez), e para o Guardian. Depois do conflito casou com Elizabeth Tuckniss, de quem teve cinco filhos, sendo um deles o poeta e músico Twm Morys. Embora divorciados por imposição legal, continuaram a viver juntos. Em 2008 legalizaram a união numa partnership.

A fama internacional chegou com Conundrum (1974), relato autobiográfico da experiência transexual. A bibliografia inclui cerca de sessenta títulos, entre História, ficção, ensaio e livros de viagem. A trilogia histórica Pax Britannica (1968-78, três volumes, o primeiro escrito na fase masculina), sobre o Império onde o sol nunca se punha, é porventura a sua obra mais importante. Mas foram os livros de viagem que lhe deram eco planetário. Morris integra desde 2008 a lista dos quinze escritores britânicos mais importantes dos últimos cem anos.

Em Portugal estão traduzidos cinco livros seus, entre os quais Conundrum, que entre nós tem dois títulos: Conundrum, o enigma na edição de 1975, e Enigma na edição que a Tinta da China fez em 2017.

Talvez esteja na altura de traduzir Pax Britannica (1968-78), The Spectacle of Empire: Style, Effect and the Pax Britannica (1982), e Battleship Yamato: Of War, Beauty and Irony (2018), bem como os diários My Mind’s Eye (2018) e Thinking Again (2020), publicado há poucos meses.

Jan Morris, galesa, republicana convicta, é doutorada honoris causa por várias universidades. Por imposição da escritora, existe um livro cuja publicação terá de observar um período de nojo.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

ARTUR PORTELA FILHO 1937-2020


Vítima de Covid-19 morreu ontem à noite, no Hospital de Abrantes, o jornalista, investigador e escritor Artur Portela Filho, fundador do Jornal Novo e da revista Opção, órgãos de combate à deriva totalitária do PREC. 

O primeiro livro, A Feira das Vaidades (1959), foi apreendido pela PIDE. Nesse mesmo ano lançou a primeira coluna regular de crítica de televisão na imprensa portuguesa. Mas seria com A Funda, série de crónicas coligidas em sete volumes, publicados entre 1972 e 77, que o seu nome entraria por direito próprio na literatura portuguesa. 

Artur Portela Filho também escreveu ficção e ensaio. Da vasta bibliografia destaco colectâneas de contos como, entre outras, A Gravata Berrante (1960), Avenida de Roma (1961), Thelonious Monk (1962) e Os Peixes Voadores (2006), romances como O Código de Hamurabi (1962), Marçalazar (1977), História Fantástica de António Portugal (2004), As Noivas de São Bento (2005) e A Guerra da Meseta (2009), a peça de teatro O General (1962), ensaios sobre Eça de Queirós — autor de quem adaptou para teatro A Capital —, Cardoso Pires, artes plásticas e Salazarisno, cultura em ditadura (Salazarismo vs Franquismo), investigação histórica sobre os anos 1930 na Espanha franquista e na Itália fascista, ética jornalística, etc., além das famosas crónicas dispersas pelo Jornal do Fundão, Diário de Lisboa, República, A Capital, Portugal Hoje, A Luta, O Jornal, TSF, etc., que fizeram dele um nome de referência. Na imprensa, ninguém escrevia como ele. Infelizmente, a sua heterodoxia não fez escola. O Novo Conde de Abranhos (1971) e O Regresso do Conde de Abranhos (1976) são sátiras violentas ao Estado Novo (a primeira) e ao PREC (a segunda). 

Filho do jornalista do mesmo nome, cresceu numa família de intelectuais. Eleito pela Assembleia da República, foi presidente da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Membro da candidatura de Humberto Delgado, activista da CDE (1969), antifascista e anticomunista, Artur Portela Filho sofreu o ónus de pensar e escrever sempre contra o ar do tempo. Tinha 83 anos.

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domingo, 25 de outubro de 2020

AGUSTINA POR MÓNICA BALDAQUE


Agustina Bessa-Luís apareceu em público pela última vez no início de 2007, pouco tempo depois de ter publicado o livro com que fechou a obra. A partir daí sucedeu-se a especulação. Quatro meses antes de morrer, em Junho de 2019, chegara às livrarias uma biografia escrita por Isabel Rio Novo, feita à revelia da família. Agora foi a vez da filha, a pintora e escritora Monica Baldaque, publicar as memórias do seu convívio com os pais.

Sapatos de Corda — Agustina é um relato desempoeirado da vida da escritora: a família, o Douro, os livros, os anos de Esposende, a casa do Gólgota, os Verões em Guéthary, a gestão parcimoniosa das amizades, a desconfiança do milieu literário, a natural coqueteria, o enfado com o paroquialismo indígena, a política, as viagens, os filmes de Manoel de Oliveira, o apoio do marido. Excertos de cartas escritas por Agustina à mãe e à filha iluminam o texto. O mesmo se diga da vasta iconografia: fotografias de várias épocas, reproduções, desenhos de Alberto Luís e Mónica Baldaque.

Em matéria de revelações, sirva de exemplo a história do Jaguar: Agustina, que não dava importância nenhuma a automóveis, pediu um Jaguar a Cupertino de Miranda a título de direitos de autor pela biografia encomendada pelo banqueiro. O Jaguar, cinza com estofos vermelhos, seria mais tarde vendido a um militar de Abril.

Há mais, naturalmente. Até porque Mónica Baldaque não omite o seu próprio percurso: infância, relações com os pais, colégio, anos de Lisboa — onde concluiu o curso de pintura na Escola Superior de Belas-Artes —, namoricos, vida profissional, casamento, filhos, direcção de dois museus (Soares dos Reis, Literatura), artistas e escritores com quem privou, acompanhamento da reedição da obra de Agustina, etc. O episódio envolvendo um improvável Corto Maltese é uma das várias passagens enigmáticas do livro.

Enquanto não chega a biografia de Agustina escrita pelo historiador Rui Ramos, Sapatos de Corda — Agustina é o melhor que li até hoje sobre a Sibila. Nessa medida, se Barthes falou no prazer do texto, seria fútil repetir o óbvio.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

TORRE LITERÁRIA


Abriu na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, a Torre Literária / Louvor e Simplificação da Literatura Portuguesa, exposição permanente (museu) dedicada à literatura portuguesa. Ocupa catorze salas espalhadas por quatro pisos do edifício, estando organizada do presente para o passado: do século XX ao século XV.

Na secção Photomaton os visitantes podem ser retratados «através do uso de algoritmos de visão computacional e de técnicas generativas não deterministas [...] usando apenas elementos tipográficos, mais especificamente letras.» Cada retrato será único e irrepetível.

Lembrar que no mesmo edifício encontra-se instalado o Centro Português do Surrealismo, dotado de um excelente museu.

A Torre Literária abre de segunda-feira a sábado. Encerra aos domingos, feriados nacionais, Páscoa, Natal e Ano Novo.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2020

CÂNONE


Organizado por António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, professores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Fundação Cupertino de Miranda editou, e a Tinta da China imprimiu, O Cânone.

A partir de autores nascidos entre 1391 e 1939 — ou seja, entre Dom Duarte e Luiza Neto Jorge —, a obra estabelece quem são os 50 nomes centrais da literatura portuguesa. Mas também analisa grupos, escolas, movimentos, revistas e palavras importantes.

Além dos organizadores, o volume conta com a colaboração de diversos críticos, tais como, entre outros, Abel Barros Baptista, Gustavo Rubim e Pedro Mexia.

Foi lançado anteontem e, como ainda não vi, não posso comentar, excepto dizer que a lista dos 50 me parece sensata.

São, por ordem alfabética, os seguintes: Agustina Bessa-Luís, Alexandre Herculano, Alexandre O’Neill, Almada Negreiros, Almeida Garrett, Antero de Quental, António José da Silva, António Nobre, António Vieira, Aquilino Ribeiro, Bernardim Ribeiro, Bocage, Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha, Carlos de Oliveira, Cesário Verde, Dom Duarte, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Fiama Hasse Pais Brandão, Florbela Espanca, Frei Luís de Sousa, Gil Vicente, Gomes Leal, Herberto Helder, Irene Lisboa, João de Deus, Jorge de Sena, José Régio, José Rodrigues Miguéis, José Saramago, Júlio Dinis, Luís de Camões, Luiza Neto Jorge, Maria Judite de Carvalho, Mário Cesariny, Mário de Sá-Carneiro, Miguel Torga, Oliveira Martins, Raul Brandão, Ruben A., Ruy Belo, Sá de Miranda, Teixeira de Pascoaes, As Três Marias, Vitorino Nemésio.

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