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quinta-feira, 15 de abril de 2021

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

O gigante perdido da literatura americana, como é conhecido William Melvin Kelley (1937-2017), chegou finalmente à edição portuguesa. Depois da morte do autor, Um Tambor Diferente, o aclamado romance de estreia, tem sido reeditado em todo o mundo. Kelley, que também foi professor de escrita criativa no Sarah Lawrence College, deixou uma obra parcimoniosa: cinco títulos, publicados entre 1962 e 1970. Mesmo oriundo de Harvard e vivendo em Nova Iorque, onde o comparavam a Faulkner e James Baldwin, era complicado um negro impor-se no milieu literário norte-americano. Isso explica que tenha vivido quase uma década entre Paris e Roma, radicando-se em 1968 na Jamaica. Escrito quando a luta pelos direitos civis marcava a agenda política, Um Tambor Diferente é o relato vibrante da rejeição, por parte de Tucker Caliban (o protagonista), das iniquidades do Sul Profundo. Após salgar as terras, abater o cavalo e deitar fogo à casa onde vivia com a mulher grávida, Tucker parte para o Norte, decisão que desencadeia o êxodo da comunidade negra. A originalidade do plot reside no facto de ser narrado a partir do ponto de vista dos brancos. Publicou a Quetzal.

A reedição de Fome, do norueguês Knut Hamsun (1859-1952), traz de volta um autor controverso. Admirador de Hitler e Goebbels, racista confesso, colaborador nazi, foi julgado e condenado por traição ao seu país. Além de romances e contos, Hamsun escreveu poesia, ensaios e panfletos. Após publicar Os Frutos da Terra (1917), recebeu o Nobel da Literatura em 1920. O domínio do fluxo de consciência acentua o carácter autobiográfico de Fome, o seu primeiro livro (1890), elogiado por Gide, Thomas Mann e outros. Liliete Martins traduz directamente do norueguês. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrito para a BBC Radio, Estilicídio, do galês Cynan Jones (n. 1975), são esses doze episódios em forma de livro. Estilicídio significa ‘queda de água gota a gota’. Série de antecipação sobre como sobreviver a uma crise climática de proporções bíblicas, coloca o leitor perante a possibilidade da falta de água. A acção centra-se numa grande metrópole (admitamos que seja Londres) devastada por uma sucessão de secas e enchentes. Uma das alternativas consiste em rebocar um iceberg do Ártico. Falta porém consenso entre quem manda, a população, os ambientalistas e, como é de regra, os terroristas que também entram na história. Resumindo: Estilicídio ecoa todas as harmónicas possíveis num guião televisivo. Publicou a Elsinore.

É sempre gratificante voltar a Cesare Pavese (1908-1950), nome maior da literatura italiana. Poeta, ficcionista, ensaísta, diarista, crítico, tradutor de Joyce, Melville e outros, Pavese suicidou-se aos 41 anos, poucos meses depois de receber o Prémio Strega e de publicar A Lua e as Fogueiras, o livro derradeiro. Narrado na primeira pessoa («Há uma razão para eu ter voltado para esta aldeia…») pela voz de um emigrante regressado da América após o fim da Segunda Guerra Mundial, demonstra a impossibilidade de resgatar o passado. Tudo rui à sua volta, e nem a fortuna acumulada desfaz a condição de “bastardo”. Uma elegia seca e amarga dos lugares e pessoas da remota infância. Publicou a Bertrand.

Quando George Orwell (1903-1950) escreveu 1984, estava longe de supor o impacto que o livro teria nas gerações vindouras. Agora que a obra caiu em domínio público, sucedem-se as reedições. A obra de Orwell recentrou a distopia em literatura, na medida em que o seu precedente mais célebre, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, não resistiu à usura do tempo. Pelo contrário, o Grande Irmão (o Big Brother) faz parte do imaginário contemporâneo. Escrito com a intenção de denunciar o totalitarismo estalinista, a tese do controlo total por parte do Partido é o Leitmotiv do romance. Um dos personagens, o poeta Ampleforth, intelectual praticante da Novilíngua, parece ser uma caricatura de Auden. Gonçalo M. Tavares assina o prefácio. Publicou a Relógio d'Água.

Numa altura em que se verifica o avanço de forças extremistas em democracias consolidadas, convém ler O Regresso da Ultradireita, de Cas Mudde (n. 1967), o cientista político holandês que tem escrito sobre as várias formas de populismo. Analisando a rapidez com que partidos tradicionais, outrora conservadores, interiorizaram o discurso de homens como Trump ou Bolsonaro, Mudde faz um tour d’horizon às franjas radicais que controlam os governos de vários países, dentro e fora da Europa. A quarta vaga da ultradireita é o enfoque do livro. Por que é que há vinte anos as opiniões públicas reagiam indignadas à xenofobia, e hoje reagem com um bocejo à sua “normalização”? Publicou a Presença.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

Para surpresa de muitos, o Nobel da Literatura 2020 foi atribuído a uma poeta praticamente desconhecida em Portugal. Falo da norte-americana Louise Glück (n. 1943), oriunda de uma família de judeus russos e húngaros. Traduzido por Ana Luísa Amaral, A Íris Selvagem venceu o Pulitzer de Poesia em 1993. Conjunto de 54 poemas em torno de um jardim, alegoria de Deus, cerca de vinte têm o mesmo título: Matinas e Vésperas. Logo a abrir, o poema titular dá o mote: «É muito duro sobreviver assim, / a consciência / sepultada na terra escura.» Onde lemos rosas, violetas, íris, etc., estão pessoas. Elíptica, nimbada de certa tonalidade bíblica, a poesia de Glück demarca-se ostensivamente do que convencionou chamar-se “poesia do real”. Se começar por ler “Final de Inverno”, “Vento em Fuga” ou “A Porta”, vai querer ler tudo, incluindo os outros três livros da autora já disponíveis. Agora é só aguardar por The Triumph of Achilles, uma das suas obras mais notáveis. Publicou a Relógio d'Água.

Traduzido directamente do russo por Larissa Shotropa, foi publicado Garganta de Aço, primeiro volume dos contos completos de Mikhail Bulgakov (1891-1940). Seriados cronologicamente, incluem “Apontamentos de um jovem médico”, ciclo sobre o início da sua actividade clínica em Smolensk. Em jeito de autobiografia ficcionada, Bulgakov não poupa o leitor aos detalhes de uma traqueotomia. Mais tarde, Bulgakov tornou-se escritor a tempo inteiro, mas acabou por cair em desgraça junto de Estaline. Só trinta anos após a sua morte as obras começaram a ser divulgadas. Por exemplo, a primeira edição não censurada de O Mestre e Margarita é de 1973. Um clássico entre clássicos. Publicou a E-Primatur.

O poeta e ensaísta espanhol Antonio Gamoneda (n. 1931) publicou Um Armário Cheio de Sombra, memórias da infância e adolescência de um rapaz pobre das Astúrias, nos anos de sombra da Guerra Civil de Espanha. O relato seco da miséria extrema, dos abusos do colégio de frades, da repressão franquista, da morte do pai (a seu pedido, após um derrame cerebral, a mulher provocou-lhe uma overdose de morfina), do primeiro emprego, antecipando a idade adulta para os catorze anos, fazem deste livro um testemunho admirável. Publicou a Minotauro.

Quem gosta de ficção histórica ambientada na Idade das Trevas e, em especial, dos livros de Ken Follett (n. 1949), vai com certeza apreciar Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era, prequela de Os Pilares da Terra. O novo livro recua até ao ano 997dC, durante os ataques a Inglaterra vindos do Leste (os viquingues) e do Oeste (os galeses). A estrutura romanesca não difere dos anteriores, embora não esteja focado numa grande construção. Desta vez, sobrelevam os efeitos colaterais da política. Eventuais especulações sobre dados históricos não beliscam o prazer da leitura. Afinal, trata-se de um romance de aventuras bem esgalhado. Publicou a Presença.

Com Mulheres da Minha Alma, a chilena Isabel Allende (n. 1942) acrescentou um título à extensa bibliografia feminista. Rebelde contra a autoridade masculina, fala das mulheres da sua alma: sua mãe, sua filha Paula e a amiga e agente Carmen Balcells. Mas também de Olga Murray (a salvadora de meninas nepalesas), das escritoras de eleição e de bruxas. Numa linguagem alheada de jargão académico, escalpeliza a realidade chilena, mas também a de outras latitudes, como a norte-americana. Uma boa surpresa. Publicou a Porto Editora.

Romancista, dramaturgo e ensaísta, é sempre gratificante voltar a Don DeLillo (n. 1936), o derradeiro guru da literatura norte-americana. Depois de ter escrito sobre temas tão diversos como o advento da Era digital, o assassinato de Kennedy, fraude fiscal, linguística, dissuasão nuclear, artes performativas, adultério, terrorismo, Wall Street, desporto, televisão, o 11 de Setembro (o melhor romance sobre a tragédia de 2001 continua a ser O Homem em Queda), velhice, etc., chegou a vez de escrever sobre o futuro próximo. Publicado em plena pandemia, O Silêncio, romance minimal que podia ser uma peça de teatro, centra-se no Super Bowl de 2022. Em Nova Iorque, defronte de um televisor, ansiosas pela final do campeonato, três pessoas aguardam a chegada de um casal amigo regressado de Paris (ignoram que o avião de Jim e Tessa tenha tido que fazer uma violenta aterragem de emergência). Até que tudo pára: televisores, laptops, relógios, telefones. Com o colapso geral da energia, a cidade está mergulhada na escuridão. Apocalipse da Internet provocado pela China? Ciberataque de origem russa? Início da Terceira Guerra Mundial? Invasão extraterrestre? Nenhum dos cinco sabe o que pensar. Deveras inquietante. Publicou a Relógio d'Água.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

ESCOLHAS


A espanhola Almudena Grandes (n. 1960) não desiste de radiografar o regime franquista. Começou em 2010 com o romance Inés y la Alegría, primeiro de uma série a que chamou Episódios de uma Guerra Interminável, publicando em 2017 o mais recente, Os Doentes do Doutor García, agora traduzido. Na forja estão outros dois. O livro trata da rede clandestina de evasão de criminosos de guerra nazis, dirigida por Clara Stauffer a partir de Madrid. Como nos anteriores, Almudena Grandes constrói a ficção a partir de factos e personagens reais (são citados pelo nome alguns dos oitocentos nazis que Clara Stauffer ajudou a fugir para Buenos Aires). A acção decorre em vários países, entre 1936, por ocasião do Festival de Ópera de Bayreuth, e 1977, no auge da ditadura militar argentina instaurada por Videla. O médico Guillermo García Medina, conhecido por outros nomes a partir de 1939, e o diplomata Manuel Arroyo Benítez, que também usa nomes falsos, são as personagens fictícias que sustentam este romance deveras empolgante, no qual Almudena Grandes faz um ajuste de contas com a História, ou não fosse ela, além de romancista, também historiadora. / Porto Editora

A reedição de O Bom Soldado, de Ford Madox Ford (1873-1939), traz de volta um mogul da literatura. Simplificando muito, pode-se dizer que Quadrilha, o poema de Carlos Drummond de Andrade, é uma “síntese” irónica, deslocada no tempo, no lugar e nas intenções, da obra-prima que Ford Madox Ford publicou em 1915. O intróito da edição canónica de 1927 (uma carta escrita à mulher, Stella, depois do affaire com Jean Rhys), leva-nos a supor que se trata de um roman à clef. Será Edward Ashburnham um alter-ego do autor? Abrindo com a frase famosa — «Esta é a mais triste história jamais contada.» —, O Bom Soldado é um tratado ácido sobre a imprevisibilidade das paixões. / Relógio d'Água

Quem gosta de ficção científica conhece Frank Herbert (1920-1986), autor de clássicos do género, em particular os seis romances da saga Duna, que David Lynch transpôs para o cinema em 1984. Herbert, um “autodidacta” libertário, é frequentemente comparado a Tolkien, o erudito que escreveu O Senhor dos Anéis. Compósito de política, religião, ecologia e alteração de consciência em ambiente interestelar feudal, num futuro longínquo, tudo gira em torno da mélange da imortalidade. A história de Paul Atreides, senhor de Arrakis (adversário dos Harkonnen), tem galvanizado sucessivas gerações. O volume inclui cartas cartográficas e um glossário da terminologia do Império. / Relógio d'Água

Editar em forma de antologia breve As Farpas que Ramalho Ortigão (1836-1915) publicou entre 1872 e 1883, acrescentando-lhe textos posteriores publicados até 1914, alguns deles na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, é uma forma hábil de pôr o leitor a reflectir sobre o presente, a partir da vida portuguesa durante a monarquia constitucional e nos primeiros anos da República. Francisco Abreu fez a selecção deste Ramalho a solo (como é sabido, Eça de Queirós foi co-autor das Farpas antes de partir para Havana), optando por textos que «denotam uma espantosa — e deveras preocupante — actualidade.» Viriato Soromenho-Marques assina o prefácio. / Manufactura

Saiu finalmente em português o primeiro romance de Richard Zimler (n. 1956), Insubmissos, publicado em língua inglesa em 1996. No prefácio, o autor explica: «Nessa altura [1996] eu ainda não tinha cidadania portuguesa. […] A possibilidade de me ser negada a renovação do visto de trabalho pareceu-nos muito real…» Tendo como Leitmotiv a Sida, então associada à comunidade gay, a tradução ficou “congelada”. Até hoje. Escrito em linguagem crua, Insubmissos aborda a homossexualidade dos seus personagens. Importa pouco saber se o narrador (um professor de guitarra clássica, judeu) e o autor são uma e a mesma pessoa. Lê-se com agrado e as suas ocasionais fragilidades não beliscam o plot. / Porto Editora

Professor de psicologia clínica em Columbia e colaborador de revistas de prestígio, Andrew Solomon (n. 1963) tornou-se conhecido do grande público depois de publicar O Demónio da Depressão. Mas a sua obra tem um espectro mais largo, indo dos direitos LGBT à arte soviética. Tendo o suicídio como denominador comum, a Quetzal reuniu nove ensaios, alguns publicados no New York Tomes, na New Yorker, etc., e editou Um Crime da Solidão. Solomon fala de celebridades que puseram termo à vida, como a designer Kate Spade, o actor Robin Williams, o chef de cozinha Anthony Bourdain, mas também de sua mãe. Um livrinho didáctico que ajuda a perceber as possíveis razões de um acto tão radical. / Quetzal

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

SEIS MULHERES


Hoje na Sábado.

À beira de completar 48 anos, a francesa Vanessa Springora (n. 1972), editora da Julliard, publicou Consentimento, primeiro e único livro que escreveu, logo premiado com o prémio Jean-Jacques Rousseau para literatura autobiográfica. A onda de choque atingiu os leitores não familiarizados com os interditos do demi-monde, mas não surpreendeu o meio literário. Poucos ignoram que Gabriel Matzneff gosta de rapariguinhas — e também de rapazinhos —, preferência documentada ao longo da obra, razão pela qual as revelações de Vanessa Springora acrescentam pouco. Perturba descobrir os detalhes da intensa ligação sexual, consentida, que uniu V. e G., ou seja, entre uma rapariga de 14 anos e um homem de 50, mas literatura não é sinónimo de moral. Além do prémio, Consentimento vendeu cerca de cem mil exemplares. Entretanto, os livros de Matzneff, hoje com 84 anos, foram retirados de muitas livrarias francesas, em especial o ensaio Les Moins de Seize Ans (1974). Vanessa Springora resume: escrevi para «apanhar o caçador na sua própria armadilha, prendê-lo num livro.» Valeu a pena?

Acaba de ser traduzido o romance mais recente de Mariana Enriquez (n. 1973), A Nossa Parte da Noite. Jornalista e escritora argentina, a obra de Mariana Enriquez adapta ao imaginário sul-americano a tradição gótica. A partir desse amálgama de fantasia e horror, a autora constrói um universo que os leitores portugueses conhecem desde, pelo menos, As Coisas Que Perdemos no Fogo (2017). Retrato cru da ditadura militar argentina, A Nossa Parte da Noite não constitui excepção. O facto de o fazer por intermédio de uma narrativa que mistura médiuns, satanismo, masmorras, rituais de sexo, etc., não belisca a descrição da tragédia em que o país viveu mergulhado.

Enquanto não chega a biografia de Agustina Bessa-Luís escrita pelo historiador Rui Ramos, um novo contributo faz luz sobre a vida da grande escritora. Refiro-me a Sapatos de Corda, de Mónica Baldaque, relato desempoeirado da vida da mãe: relações de família, o Douro, a Obra, os anos de Esposende, a casa do Gólgota, os Verões em Guéthary, a desconfiança do milieu literário, o enfado com o paroquialismo indígena, a política, as viagens, os filmes de Manoel de Oliveira, a saída de cena em 2007, a presença constante de Alberto Luís. Vasta iconografia ilustra o livro, cheio de episódios surpreendentes, como, entre outros, o do Jaguar que pediu (e recebeu) a título de royalties… Imprescindível.

A obra de Rachel Ingalls (1940-2019) é um dos segredos mais bem guardados da literatura de língua inglesa. Admirada pelos seus pares e nos círculos cultos dos dois lados do Atlântico, não é um nome familiar ao grande público. Agora temos Mrs. Caliban para avaliar a excelência desta americana que viveu quase toda a vida na Inglaterra. Se viu A Forma da Água (2017), o filme de Guillermo del Toro, fica com a sensação de que ele se “inspirou” no livro de 1983. Decerto não por acaso, a obra-prima de Rachel Ingalls foi reeditada em 2017. Enfim, até um leitor distraído se interroga sobre onde viu ou ouviu falar de uma mulher apaixonada por um anfíbio gigante com pele verde-acastanhada. Felizmente, a prosa da autora é infinitamente superior às capacidades do cineasta. Quem gosta de fábulas (esta é sobre solidão) vai com certeza deliciar-se com este romance breve mas intenso.

Um novo subgénero faz o seu caminho: o da literatura de imigrantes sem resquícios de auto-complacência. É o caso de Yaa Gyasi (n. 1989), nascida no Gana, radicada desde criança nos Estados Unidos, autora de dois livros, ambos premiados sob aplauso geral. Reino Transcendente relata o quotidiano de uma doutoranda de Stanford, oriunda de África, forçada a gerir as obrigações académicas com a depressão da mãe. Numa escrita fluente, Yaa Gyasi diz o que tem a dizer sem os clichês associados ao proselitismo étnico da political correctness.

Até aos anos 1970, a literatura francesa foi determinante na cultura do Ocidente. Quase todos crescemos à sombra da vasta plêiade que vai de Balzac a Marguerite Duras, mais uma centena entre ambos. Isso acabou. Annie Ernaux (n. 1940) destaca-se nas raras excepções, como descobrirá quem ler Uma Paixão Simples, brevíssimo récit que volta às livrarias na irrepreensível tradução de Tereza Coelho. Só uma grande autora podia escrever um livro assim, misto de diário («não conto uma história») e bloco de notas, 70 páginas de uma crueza desarmante: «Não quero explicar a minha paixão […] quero, simplesmente, expô-la.» Notável.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

Terminou a especulação em torno da identidade de Elena Ferrante, pseudónimo da tradutora Anita Raja (n. 1943), mas não o ritmo de publicação. Agora traduzido, A Vida Mentirosa dos Adultos mantém a exuberância descritiva da sua ficção. Quem leu a tetralogia A Amiga Genial sabe do que falo. Denominador comum à obra precedente: Nápoles, conflito de classes, a experiência das mulheres, a perversidade das relações familiares. Giovanna mente aos pais, coisa que ambos fazem com ela. Um romance sobre o poder e as consequências da mentira? De certo modo, sim. Aos doze anos, ouvindo o pai dizer à mãe que a filha «está a ficar com a cara de Vittoria» (a tia malvada), descobre-se feia. A partir daí, todo o plot gira em torno da aversão que julga causar. O aspecto mais interessante é o confronto entre a rudeza dos bairros populares e a “respeitabilidade” da cidade burguesa. Não é um livro amável, mas o contrário é que seria de admirar. Editou a Relógio d'Água.

Uma nova tradução do polaco Zbigniew Herbert (1924-1998) traz de volta um autor central à cultura europeia. Natureza Morta Com Brida colige seis ensaios e dez textos apócrifos sobre a cultura dos Países Baixos. Com enfoque nos costumes da Holanda dos séculos XVI e XVII, o ensaio que dá o título ao conjunto disseca a biografia e a obra homónima de Johannes van der Beeck, o pintor que passou à história da arte como Torrentius. O artista foi condenado à fogueira por pertencer à Rosa-Cruz, uma sociedade secreta, mas a repercussão internacional do veredicto valeu-lhe o exílio na corte inglesa. Deveras estimulante. Editou a Cavalo de Ferro.

Traduzidos directamente do russo por Nina e Filipe Guerra, chegaram a Portugal os contos que Ivan Búnin (1870-1953) escreveu durante o exílio no sul de França e reuniu em Alamedas Escuras. Famoso pelo seu diário Os Dias Malditos (1926), Búnin ganhou o Nobel da Literatura em 1933, antes de qualquer outro russo e numa altura em que, ao contrário do que hoje sucede, estava longe de ser um autor célebre, respeitado, traduzido e estudado. O amor e a natureza dominam a obra, embora a condição de émigré, bem como as mudanças ocorridas na Rússia pré e pós-1917, estejam sempre presentes. Esta edição inclui prefácio de Tatiana Mártchenko. Editou a Dom Quixote.

Quem acompanha a literatura espanhola reconhece a importância de Javier Cercas (n. 1962) e sabe que um dos seus traços distintivos radica no hábito de inserir factos reais na trama ficcional. Terra Alta não constitui excepção. Com acção centrada na comarca de Terra Alta, o protagonista, Melchor Marín, mosso d’Esquada com passado problemático, tem um crime nas mãos. O thriller não ignora os atentados islâmicos de Barcelona, o referendo catalão de 2017 e a Guerra Civil. Longe do seu melhor, Terra Alta ganhou o Prémio Planeta 2019. Editou a Porto Editora.

Mais de 30 anos passados sobre a fatwa que o aiatola Khomeini decretou contra si, Salman Rushdie (n. 1947) continua a ser uma das grandes vozes da literatura de língua inglesa. Cervantes deu o tiro de partida, mas Quichotte, a obra mais recente de Rushdie, faz vénia ao surrealismo, sem esquecer Voltaire e Ionesco. O «viajante de origem indiana...» que atravessa a América, radiografa o caos actual. Com reality shows no centro da intriga, Quichotte tem outro livro dentro, modo de ilustrar, em dois andamentos, o desconcerto do mundo. Uma coisa sabemos: Rushdie himself não é outro senão Miss Salma R., «estrela de uma dinastia de estrelas». Digamos que a obra do autor já conheceu melhores dias. Editou a Dom Quixote.

Organizado por António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, saiu O Cânone. A partir de autores nascidos entre 1391 (o rei Dom Duarte) e 1939 (Luiza Neto Jorge), os três editores, o historiador Rui Ramos e 22 ensaístas, escrevem sobre 47 autores, mais as Três Marias, poetas laureados, revistas e críticos. Entre outros textos, António M. Feijó assina a introdução, Miguel Tamen escreve sobre a lógica interna do livro, Anna M. Klobucka sobre mulheres na literatura, João R. Figueiredo sobre escritores homossexuais, etc. Como vem escrito, trata-se de «um livro de crítica literária para nos fazer pensar sobre a literatura portuguesa.» Meia dúzia de omissões geraram controvérsia, assente, como de regra, em clubismo. Tudo visto, o saldo é deveres positivo. Editaram, em co-edição, a Fundação Cupertino de Miranda e a Tinta da China.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

A rentrée trouxe novidades há muito aguardadas. Entre elas, a edição em volume único da autobiografia de Ruben A., a edição da poesia reunida de Leonor de Almeida, romances novos de Colson Whitehead, David Grossman e Bernardine Evaristo, mas também a oportuna reedição do clássico de Daniel Defoe sobre a Grande Peste de Londres.

No ano do centenário do nascimento de Ruben A. (1920-2020), o mais secreto dos grandes autores portugueses, reeditam-se num único volume os três tomos de O Mundo À Minha Procura, autobiografia publicada entre 1964 e 68. Natural de Lisboa, Ruben Alfredo Andresen Leitão morreu em Londres, cidade onde viveu vários anos. Em Setembro de 1975, um ataque de coração impediu que assumisse o cargo de Senior Fellow no St Antony’s College de Oxford. Tinha 55 anos e uma obra dividida entre ficção (contos e romances), dramaturgia, narrativa de viagem, diarística e História. Salazar chamava-lhe “o maluco”. Não obstante, após ter trabalhado cerca de 20 anos na embaixada do Brasil em Lisboa, foi administrador da Imprensa Nacional e director-geral dos Assuntos Culturais do ministério da Educação e Cultura. A Torre da Barbela, romance de 1964, é um dos títulos centrais do cânone nacional. Escrito em registo desembaraçado e culto, O Mundo À Minha Procura conta agora com um prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa. 

Leonor de Almeida (1909-1983) é hoje um nome ignorado por quase toda a gente. Em boa hora decidiu Vladimiro Nunes reunir os quatro livros que constituem a sua poesia completa. Na Curva Escura dos Cardos do Tempo é o resultado desse trabalho, com o detalhe de seriar os livros por ordem inversa à da publicação original. Estabelecendo, no prefácio, o guião da recepção crítica da poeta, Ana Luísa Amaral estranha a desatenção de que Leonor de Almeida, uma feminista avant la lettre, tem sido alvo. Publicada quase em simultâneo, a monografia biogáfica Tatuagens de Luz, de Cláudia Clemente, ilumina a personalidade de uma autora que urge descobrir.

Quem acompanha a ficção norte-americana não ignora Colson Whitehead (n. 1969), duas vezes laureado com o Pulitzer de Ficção — proeza até ao momento apenas lograda por Tarkington, Faulkner e Updike —, primeiro com A Estrada Subterrânea, agora com Os Rapazes de Nickel, acabado de traduzir. Voltamos à escavação do passado, neste caso aos horrores da Dozier School, o reformatório da Flórida onde desde 1899 rapazes negros foram torturados e enterrados num cemitério secreto. O romance ficciona essa realidade macabra, descoberta por estudantes universitários de arqueologia. Dito de outro modo: a experiência pessoal de Elwood transforma o terrorismo racial em Literatura. 

O mais recente romance do israelita David Grossman (n. 1954), A Vida Brinca Comigo, confirma-o como uma das grandes vozes actuais. O livro inspira-se em factos verídicos, em particular nos vividos por uma sobrevivente de Goli Otok, a ilha croata do Mar Adriático que serviu de prisão e campo de trabalhos forçados. Quando as personagens do romance (Vera, Nina, Guili e Rafi) visitam o local, é todo o passado que regressa. Não obstante a secura da linguagem, A Vida Brinca Comigo é o relato envolvente e doloroso da história de duas famílias.

Com o vibrante Rapariga, Mulher, Outra, a britânica Bernardine Evaristo (n. 1959) venceu, ex-aequo com Margaret Atwood, o Man Booker Prize de 2019. Bernardine, filha de pai nigeriano, constrói um mosaico com 12 personagens principais (Amma, Yazz, Dominique, Carole, Bummi, LaTisha, Shirley, Winsome, Penelope, Megan-Morgan, Hattie, Grace) através de cujas vidas, cosidas num patchwork multicultural, vão sendo abordadas questões pós-coloniais e de identidade de género. É pena que Nzinga, feminista radical e rainha do vodu, não tenha direito a capítulo próprio. Logo a abrir, não é difícil identificar em Amma, uma dramaturga lésbica negra, o alter-ego da autora. Nem todas são jovens habitantes de Londres. Hattie, por exemplo, tem 93 anos e mora no Norte da Inglaterra. Em suma, um retrato muito nítido do Reino Unido contemporâneo.

Pelas piores razões, vem a propósito a reedição de Diário do Ano da Peste, o clássico que Daniel Defoe (1660-1731) publicou em 1722 a seguir ao sucesso planetário de Robinson Crusoe. Defoe era uma criança quando a peste bubónica dizimou 200 mil pessoas em Londres, mas o livro faz um relato impressivo da epidemia, incluindo listas com as directivas impostas pelo Lord Mayor para controlo de danos. Precursor do romance moderno inglês, Defoe foi, além de homem de negócios, um político muito interventivo e ocasional espião. Rui Tavares assina o prefácio.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

SEIS SUGESTÕES


Hoje na Sábado.

Os prelos continuam activos e, apesar do Verão, há novidades de todo o tipo. Além de nova tradução da Eneida, o mais famoso épico latino, merecem destaque um romance autobiográfico de Édouard Louis, memórias de Patti Smith, o relato de Malaparte feito a partir de Leninegrado, o ensaio colérico que Bernard-Henri Lévy dedica à pandemia e a biografia política de Amália escrita pelo jornalista Miguel Carvalho.

Não é a primeira vez que os doze livros da Eneida de Virgílio são vertidos para português. Agostinho da Silva já o havia feito, mas a nova tradução de Carlos Ascenso André, além de anotações ao poema, tem a vantagem de lhe acrescentar uma introdução em forma de exegese (acção, personagens, modelo neotérico), auxiliar precioso para o leitor menos versado em cultura latina. Quem não conhece a epopeia do troiano encontra nestes quase dez mil hexâmetros heróicos, extremamente fluentes na língua de chegada, a suma de uma vida. Imprescindível. Esta edição segue de perto a de Jacques Perret. Editou a Cotovia.

Com poucos meses de intervalo foram traduzidos dois romances autobiográficos do francês Édouard Louis (n. 1992), sendo o mais recente Quem Matou o Meu Pai. Ao contrário do anterior, o foco não são os preconceitos de classe nem as várias formas de xenofobia e homofobia. O autor responsabiliza directamente quatro presidentes (Chirac, Sarkozy, Hollande e Macron) pela morte do pai: «Porque é que nunca se dizem estes nomes numa biografia?...» Citado assim, parece um panfleto. Longe disso. Quem Matou o Meu Pai é uma evocação pungente dos desencontros entre pai e filho. As “reformas” que partiram a espinha à classe trabalhadora francesa explicam o título. Setenta páginas de um libelo seco, sem resquício de auto-complacência. Editou a Elsinore.

Foi agora traduzido O Ano do Macaco, terceiro volume das memórias de Patti Smith (n. 1946). O mais recente ano do macaco foi 2016, aquele em que Patti fez 70 anos e Trump foi eleito: «O fanfarrão urrou. E o silêncio tomou conta de todos. […] Um grande viva à apatia americana.» Patti tinha razão: «quem decide são os que estão quietos e calados…» Aproveitou para viajar. Entre Manhattan e Venice Beach, a errância incluiu Lisboa, «cidade das noites calcetadas», com um punhado de páginas dedicadas a Pessoa. Vagabundagem, recordações de amigos moribundos (Sam Shepard, Sandy Pearlman) e, claro, a velha obsessão com os sonhos. Patti nunca desilude. Editou a Quetzal.

Actualmente já poucos se lembram do italiano Curzio Malaparte (1898-1957), autor de uma obra muito vasta, em vários géneros. Escritor maldito, cinco anos em degredo por delito de opinião, misto de repórter, diplomata e agente secreto, Malaparte publicou Kaputt em 1944, logo após a queda de Mussolini. A história de como fez chegar o manuscrito (dividido em três partes) a Milão ilustra bem o melindre da situação. Kaputt narra o cerco a Leninegrado visto a partir do lado alemão, enquanto correspondente do Corriere della Sera. Palavras suas: «A guerra é a paisagem objectiva deste livro.» Pese embora a quota ficcional, os factos estão lá. Traduzido em todo o mundo, Kaputt deu ressonância planetária a Malaparte. Editou a Cavalo de Ferro.

Os leitores de Bernard-Henri Lévy (n. 1948) não ficaram surpreendidos com a ira do filósofo perante a gestão política da pandemia Covid-19, Este Vírus Que Nos Enlouquece. O «medo que se abateu sobre o mundo» seria uma consequência irracional da ascensão do poder médico. Lévy exorciza os novos aprendizes de feiticeiro, o confinamento das sociedades, a lamentável combinação de «maus sentimentos e maus reflexos», o inevitável «regresso dos bufos à antiga», a rapidez com que o Ocidente se deixou subjugar pelo totalitarismo chinês. Controverso, decerto. Ou não seria BHL. Editou a Guerra & Paz.

No ano do centenário de Amália, o jornalista Miguel Carvalho (n. 1970) publicou uma minuciosa biografia da fadista — Amália. Ditadura e Revolução. O autor desconstrói a lenda que “amarra” Amália ao Estado Novo. Quem não sabe, fica a saber que Amália apoiou as famílias de presos políticos, militantes comunistas na clandestinidade e até sequazes de Humberto Delgado. As revelações não ficam por aqui. Bem documentada, essa “história secreta” é narrada com desenvoltura. Miguel Carvalho entrevistou cerca de cem pessoas, cotejou fontes e fez uma síntese de seiscentas páginas. O volume inclui cronologia, bibliografia, portfolio fotográfico e índice onomástico. Um documento para a História. Editou a Dom Quixote.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

ESCOLHAS DE VERÃO


Hoje na Sábado.

Por decisão da viúva, foi agora reeditado o livro que Herberto Helder (1930-2015) obliterou da sua obra em 1968 — Apresentação do Rosto. Apreendido pela PIDE pouco depois de chegar às livrarias, não voltou aos prelos. Contudo, fragmentos seus vieram mais tarde a ser integrados noutros livros do autor. A nota editorial que antecede os textos nada esclarece sobre a vontade de Herberto. O recorte autobiográfico aproxima Apresentação do Rosto de obras como Os Passos em Volta (1963) ou Photomaton & Vox (1979). Minudências à parte, trata-se de um texto forte, como são por regra os de Herberto: «Eu tinha a febre de enterrar hastes em amoras e amoras em hastes, e era uma febre quente como não podes supor.» Dividida em seis partes, a narrativa em prosa antecipa o esplendor da poesia a devir.

O albanês Ismail Kadaré (n. 1936) não é um desconhecido dos leitores portugueses. Quem não conhece, tem agora oportunidade de ler o mais famoso dos seus romances, O General do Exército Morto. A partir de uma missão sombria (identificar e recuperar os corpos de soldados italianos mortos na Albânia), o plot flui com precisão. Por muito justa que fosse a pretensão da Itália, não deixava de ser uma nova “violentação” do território da Albânia. Nos diálogos estabelecidos entre o general e o padre que o acompanha, ambos italianos, fica exposta a “fractura” daquela missão impossível. O mérito de Kadaré é fazê-lo com secura não isenta de ironia.

A reedição de Nada a Temer traz de volta Julian Barnes (n. 1946), excelentíssimo autor inglês que há doze anos publicou este primeiro volume de memórias centrado na falta de fé: «Não acredito em Deus, mas sinto a Sua falta.» Está dado o tiro de partida. A partir do axioma, Barnes passa em revista as relações de família, a amizade, o amor, a morte, a arte, as questões ambientais, a própria literatura, etc., apoiando as reflexões na citação de factos vividos ou obras de terceiros (entre outros, Montaigne e Koestler). Como sempre, envolvente e elegante, sem deixar de ser sardónico.

Quem leu A Porta, romance de Magda Szabó (1917-2007) já editado entre nós, ficou com vontade de ler outros romances da autora. Chegou agora A Balada de Iza, traduzido directamente do húngaro por Piroska Felkai. Trata-se da sibilina denúncia do estalinismo, feita a partir dos segredos de um pequeno núcleo familiar. Tudo se passa em poucos meses, na Budapeste do início dos anos 1960, num crescendo de tensão entre mãe (viúva de juiz) e filha (médica). Claustrofóbico, decerto, mas dando testemunho da transição entre duas épocas.

O caso verídico da ocupação, em 2012, do Hotel Cambridge, de São Paulo, pelo colectivo Frente de Luta por Moradia, é o tema do livro-manifesto A Ocupação, do brasileiro Julián Fuks (n. 1981). Sem evasivas: «É uma grande tristeza o que sucede no Brasil de hoje.» Sebastián, narrador e alter-ego do autor, sublinha: «Os ditadores de hoje são papagaios ruidosos. […] Querem ser maiores do que o regime em que se deitam.» Retrato nítido do Brasil actual, algures entre a reportagem literária e o panfleto de causas, A Ocupação inclui, num dos seus 41 breves capítulos, uma carta dirigida por Fuks a Mia Couto.

O romance mais recente da inglesa Pat Barker (n. 1943), O Silêncio das Mulheres, relê a Ilíada para, por interposto cânone feminino, pôr em pauta questões relacionadas com identidade de género. Agora é a vez delas. A narradora não é outra senão Briseida, a princesa troiana que Aquiles sequestrou e fez concubina. Habituados a ler a História escrita por homens, Pat Barker não só inverte as posições como antecipa a cronologia dos factos cantados no poema de Homero: aqui, tudo começa em Lirnesso. Há um senão: a “mensagem” vê-se beliscada pelo proselitismo. Mas talvez fosse mesmo essa a intenção. Ou seja, obrigar-nos a ler a Ilíada em registo feminista.

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sexta-feira, 12 de junho de 2020

SEIS SUGESTÕES DE LEITURA


Esta semana na revista SábadoSeis sugestões para o novo normal

No nosso país, a francesa Annie Ernaux (n. 1940) tem sido menos lida do que devia. Agora que foi traduzida uma das suas obras mais conhecidas, Os Anos, é provável que outras cheguem à edição portuguesa. Em jeito de carnet de souvenirs, o livro é um relato autobiográfico que vai da infância até 2006. Annie Ernaux constrói um macrotexto que lê o mundo a partir de incidentes biográficos, fotografias, filmes, livros, canções, política francesa, acontecimentos globais marcantes (descolonização da Argélia, Guerra do Vietname, assassinato de Aldo Moro, etc.), decepções, o vírus SARS, Le Pen, a fractura do 11 de Setembro: «uma força obscura infiltrara-se no mundo». A escrita flui com elegância e a sucessão de temas torna a leitura aliciante. Publicou a Livros do Brasil.

Traduzido directamente do persa por Carimo Mohomed, O Mocho Cego de Sadeq Hedayat (1903-1951) é unanimemente considerado uma obra-prima da literatura iraniana moderna. Originalmente publicado na Índia, por ser impossível fazê-lo no Irão durante a ditadura de Reza Shah, elogiado em dezenas de países onde foi traduzido, tornou-se um livro de culto a partir do momento em que o regime dos aiatolas associou a obra ao suicídio induzido. Tradutor de Kafka, Sadeq Hedayat interiorizou na sua própria obra muitas das “preocupações” existenciais do escritor checo. Publicou a E-Primatur.

Na versão em língua inglesa, o penúltimo romance da alemã Marion Poschmann (n. 1969), As Ilhas dos Pinheiros, integrou a shortlist do International Booker Prize. A narrativa tem um ponto de partida interessante (um homem sonha com o adultério da mulher), mas quando Gilbert Silvester, o homem traído, decide abandonar o casamento e partir para o Japão, onde salva um jovem suicida, a história perde-se numa sucessão de pontas soltas. O tom desembaraçado resgata o plot da sua trivialidade. Publicou a Relógio d’Água.

Não admira que Karoline Kan (n. 1989), jornalista conceituada e editora do jornal digital China Dialogue, tenha escrito Sob Céus Vermelhos, um livro sobre a realidade chinesa actual analisada à luz da experiência de três gerações da sua família. Livro de memórias, portanto. Tal como a Revolução Cultural Chinesa (1966-76), com o seu cortejo de crimes, um dos aspectos mais dramáticos reporta à política do filho único imposta por Mao Tsé-Tung nos anos 1970, porém contrariada por muitas mulheres, entre elas sua mãe, que sofreu o ónus da ousadia. Em suma, o retrato cru de um país que saltou do obscurantismo maoista para as contradições do capitalismo de Estado. Publicou a Quetzal.

A inglesa Jeanette Winterson (n. 1959) regressa com a reedição daquele que é provavelmente o seu melhor livro, A Paixão, romance com acção centrada nas guerras napoleónicas, vencedor do Prémio John Llewellyn Rhys de 1987. Ficção pura, nada a ver com romance histórico. Henri, soldado requisitado como cozinheiro, narrador de grande parte do livro, começa por nos introduzir na cozinha de Napoleão: «Que cozinha aquela, com aves em todas as fases de amanho, algumas ainda frias e penduradas em ganchos…» Tudo se passa durante a desastrosa Campanha da Rússia, que Henri acompanha. Villanelle, a veneziana por quem o jovem se apaixona (ela não o ama, prefere mulheres), descreve com eloquência a cidade dos Doges. Filha de barqueiro, conhece todos os recessos da Laguna. E sabe de certeza certa que «Algures entre o medo e o sexo está a paixão». Publicou a Elsinore.

Se há obras cuja difusão planetária se mantém sem interrupção há mais de cem anos, uma delas é A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia, de Selma Lagerlöf (1858-1940), cuja primeira edição data de 1906. Aquilo que começou por ser uma encomenda da Associação Nacional de Professores, destinada a difundir a reforma ortográfica da Suécia, ao mesmo tempo que servia de guia geográfico dos estudantes, rapidamente se transformou num bestseller internacional, várias vezes adaptado ao cinema. A narrativa assenta num tour d’horizon pelo país, incluindo lendas, folclore, vida animal, etc. Nils Holgersson, o protagonista, conduz-nos com malícia pelo seu universo encantatório. Pela primeira vez traduzido directamente do sueco, por João Reis, e publicado em capa dura, o volume inclui as ilustrações que Bertil Lybeck fez para a edição de 1931. Publicou a Sextante.

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quinta-feira, 19 de março de 2020

BALDWIN & DESPENTES


Foi finalmente traduzido entre nós o primeiro livro escrito por James Baldwin (1924-1987), o romance autobiográfico Se o Disseres na Montanha, motivo de querela nos círculos académicos anglo-americanos: romance afro-americano ou romance gay...? Seja como for, em mais de vinte obras publicadas pelo autor, um ensaísta notável, a segunda a chegar à edição portuguesa. Nimbado de ressonâncias bíblicas, desde logo a partir do título, mas também ao nível sintáctico, o plot centra-se na figura de John Grimes, um adolescente do Harlem cujo pai fora pregador pentecostal, com o padrasto do autor. Nunca tendo conhecido o pai biológico, o livro nasce da relação conflituosa que Baldwin mantinha com o marido da mãe, um clérigo sulista. Ao fim de anos de persistência, Se o Disseres na Montanha foi terminado em 1951, nos Alpes suíços, em casa de um namorado do autor. Foi nesse cenário em tudo diferente do que fora a sua vida pretérita (em Nova Iorque, onde nasceu, e em Paris para onde foi viver aos 24 anos), que Baldwin, neto de escravos, crente «até ao dia em que o pecado o surpreendeu pela primeira vez...», fixou as memórias que o levaram à descoberta do sexo e a uma progressiva descrença religiosa. Dito de outro modo, um mergulho na infância e pré-adolescência de um rapaz negro, pobre e homossexual, nascido na América dos anos 1930. Dividido em três partes e cinco capítulos, o livro fixa-se sucessivamente nas reflexões do protagonista (um miúdo de catorze anos), na tia, no padrasto, na mãe e de novo no rapaz. Em 1935 a sociedade não reconhecia questões identitárias, a fé era um dogma, e os negros caricaturados com todo o tipo de clichês. Por que ninguém sai impune da apostasia, um sentimento de culpa percorre o livro: «Odiava o mal que habitava o seu corpo…» O juízo tanto é válido para as reflexões de John (alter-ego do narrador) como para os flashbacks relacionados com a família. Sem surpresa, Se o Disseres na Montanha é justamente considerado um dos pontos de partida do movimento dos direitos civis dos negros americanos. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

Saiu agora a tradução do segundo volume da trilogia Vernon Subutex, da francesa Virginie Despentes (n. 1969), personalidade da cena literária desde 1994, o ano em que, após ter exercido meia dúzia de profissões pouco “convencionais”, publicou o primeiro romance. Malgré o halo de escândalo, Vernon Subutex não tem a força de Apocalypse Baby, laureado com o Renaudot e também traduzido entre nós. Subutex, o apelido do herói, corresponde a um dos nomes comerciais da buprenorfina, o medicamento usado na dependência de drogas. Tal como em livros anteriores, Virginie Despentes descreve o que considera a decadência da França, mas o discurso aproxima-se mais da memorabilia hippie do que da análise fria da luta de classes: «Lembra-te, Vernon, entrámos no rock como quem entra numa catedral, e a nossa história era uma nave espacial.» Este volume retoma a história no ponto em que termina o primeiro, trazendo a abrir o índice das personagens respectivas. Vai ser preciso esperar pelo terceiro para avaliar onde a autora quis chegar. Três estrelas. Publicou a Elsinore.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

ESCOLHAS DE JANEIRO


Hoje na Sábado.

Lawrence Ferlinghetti fez cem anos em Março de 2019, data que assinalou com o romance autobiográfico Rapazinho, no qual revela a sua atribulada infância com a tia Émilie, que o levou ainda criança para Estrasburgo, o regresso a Nova Iorque, a vida em casa dos Bisland, o colégio, a Marinha de Guerra, a passagem pelas ruínas de Nagasaki, a nostalgia de Paris, o salto para a Califórnia, etc. Poeta, escritor, livreiro, editor e artista plástico, Ferlinghetti deu a conhecer ao mundo a Geração Beat (Ginsberg, Kerouac e outros), foi julgado por obscenidade, tornou-se o símbolo de todas as transgressões, vendeu um milhão de exemplares do seu livro de poesia A Coney Island of the Mind (1958) e, em 1998, foi nomeado Poet Laureate. Em Rapazinho, o mais impressionante é a vitalidade da prosa, o testamento de um grande autor. Admirável. Publicou a Quetzal.

Pouca gente se lembra hoje da inglesa Anna Kavan (1901-1968), morta por overdose de heroína, cuja última e mais conhecida obra, Gelo, agora traduzida, antecipa uma era pós-nuclear centrada em alterações climáticas. O mundo está a ser engolido pelo gelo e a catástrofe traz com ela o autoritarismo: «Além do mais, não há transportes, a não ser para entidades oficiais.» Não sabemos onde isto acontece, nem com quem (o narrador não tem nome), sabemos apenas que há controlo militarizado. Será o colapso da sociedade uma metáfora da disfunção psicossocial da autora? Publicou a Cavalo de Ferro.

História da Violência, do francês Édouard Louis (n. 1992), é o romance de um estupro na noite de Natal. Narrado na primeira pessoa, o livro descreve a violação do autor pelo cabila com quem passou essa noite. A partir do comportamento da irmã, amigos, médicos e polícias, Édouard Louis analisa preconceitos de classe, xenofobia e homofobia, bem como as sequelas da descolonização da Argélia. Publicou a Elsinore.

O penúltimo romance do austríaco Robert Seethaler (n. 1966), Uma Vida Inteira, é uma viagem pelo século XX. Andreas Egger passou por tudo: brutalizado em rapaz pelo parente que o adoptou, fisicamente diminuído, prisioneiro de guerra, operário, guia turístico da região onde mais sofreu, nem por isso perde a esperança e o sentido de humor. Numa linguagem isenta de ênfase, Seethaler faz o relato comovente de uma vida. Publicou a Porto Editora.

A literatura está cheia de personagens com quem crescemos. Alberto Manguel (n. 1948) chama-lhes amigos literários. Juntou-os em Monstros Fabulosos, espécie de dicionário com 38 entradas: Capuchinho Vermelho, Fausto, Super-Homem e outros. Selecção criteriosa, da Bíblia à banda desenhada, passando por Eça de Queirós, pela mitologia e por contos infantis. Ensaios breves, eruditos, ecoando memórias pessoais. Um belo companion de leitura. Publicou a  Tinta da China.

A história de dois ordenhadores de 17 anos que são recrutados pelas Waffen-SS é o tema de Morrer na Primavera, romance do alemão Ralf Rothmann (n. 1953). Não obstante a marca autobiográfica, o leitor lembra-se do facto de Günter Grass ter sido recrutado com a mesma idade por aquela divisão do exército nazi. Culpa é o sentimento dominante: Walter, o narrador, vê-se obrigado a fuzilar o melhor amigo. Para quê? Quando a guerra acaba, a ordenha é feita por máquinas. Publicou a Sextante.

Ilustrar a vida de uma dúzia de escritoras com opiniões fortes é o propósito da jornalista canadiana Michelle Dean (n. 1979), que escolheu Dorothy Parker, Rebecca West, Zora Neale Hurston, Hannah Arendt, Mary McCarthy, Susan Sontag, Pauline Kael, Joan Didion, Nora Ephron, Lillian Hellman, Renata Adler e Janet Malcolm para escrever De Língua Afiada. O layout da edição portuguesa faz supor que se trata de uma colectânea de textos das referidas autoras. Não é. Como o subtítulo indica — Mulheres que fizeram da opinião uma arte —, trata-se de um ensaio biográfico sobre mulheres que marcaram a cena literária. O livro acompanha a onda actual do movimento feminista, embora muitas delas tenham estado em rota de colisão «com as posições políticas do feminismo…» Publicou a Quetzal.

Um dos aspectos menos conhecidos do Holocausto diz respeito à destruição de livros hebraicos. Esse desconhecimento foi ultrapassado com a publicação de Os Homens Que Salvavam Livros, do historiador David E. Fishman (n. 1957). A ocupação da Polónia e da Lituânia, pelos nazis e pelos soviéticos, é o foco do livro. Fishman dá a conhecer os homens e mulheres que fizeram a “Brigada do Papel” no gueto de Vilnius. Além de mapas, o volume inclui portfolio fotográfico. Publicou a Presença.

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

ZBIGNIEW HERBERT


Hoje na Sábado escrevo sobre Um Bárbaro no Jardim, de Zbigniew Herbert (1924-1998), poeta, ensaísta e dramaturgo polaco dos mais notáveis do século XX. Infelizmente não é um nome familiar a leitores portugueses. Uma breve antologia poética, organizada e traduzida pelo poeta Jorge de Sousa Braga, é tudo quanto havia em Portugal. Mas foi agora traduzida, por Teresa Fernandes Swiatkiewicz, a primeira colectânea de ensaios que Herbert publicou, Um Bárbaro no Jardim. Trata-se de um livro que o autor pretende seja lido como «um relatório das [suas] viagens.» Em vez do tradicional diário, Herbert centrou-se na Idade Média e optou por “coser” breves ensaios sobre arte e civilizações distantes, incluindo estudos de fundo sobre os Albigenses (também chamados de Cátaros) e os Templários. Considerados hereges, os Albigenses eram oriundos da região francesa do Languedoque, tendo sido perseguidos e massacrados por tropas apoiadas pelo Papa Inocêncio III. No século XII, o conflito durou 45 anos. Apesar de tudo, os Templários são mais conhecidos, surgindo, aqui e ali, na cultura popular (a procura do Graal é tema de inúmeros livros e filmes), como acontece na obra de Dan Brown. Foi através da Ordem de Cristo que os Templários se estabeleceram em Portugal, em 1319, depois da tentativa de aniquilamento ordenada em 1314 pelo Papa Clemente V. Herbert faz a defesa dos Templários em vinte páginas absorventes. O renascentista italiano Piero della Francesca é outro foco da atenção do autor. O mesmo se diga de Il Duomo, de Orvieto (a catedral dedicada à Virgem Maria). Como vai dito no início, Um Bárbaro no Jardim trata de viagens por interpostos artistas, grupos religiosos ou as pinturas rupestres de Lascaux. Nada a ver com os livros de viagens de Bruce Chatwin ou Jan Morris. Nos anos 1960 (a edição original deste livro é de 1962), um cidadão dos países satélites de Moscovo não viajava com facilidade pelo Ocidente. Herbert não teve outra alternativa senão dissertar sobre temas de cultura geral, como, entre outros, a derrota do exército florentino frente a Siena. Não é de admirar que os templos religiosos estejam no centro da narrativa, seja no Périgord, na Umbria ou em Arles. Quatro estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

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domingo, 22 de dezembro de 2019

LIVROS 2019


Deixo aqui as minhas escolhas, acompanhadas de breves notas de leitura.

No Armário do Vaticano — Para dar a conhecer o dark side do Vaticano, o francês Frédéric Martel encarregou oitenta investigadores espalhados por cerca de quarenta países para entrevistaram mil e quinhentas pessoas. Ele próprio entrevistou 41 cardeais, 52 bispos, 45 núncios apostólicos, mais de 200 padres e seminaristas, além de embaixadores, adidos de imprensa, funcionários do Vaticano e membros da Guarda Suíça. Dividido em quatro partes, o livro aborda o pontificado de vários Papas, as lutas pelo poder, as correntes ideológicas, o predomínio da extrema-direita no pontificado de João Paulo II, a guerra movida por Roma aos defensores da Teologia da Libertação, as idiossincrasias da Igreja em África e na América Latina, a ‘ditadura’ da Congregação para a Doutrina da Fé, a vida dupla de centenas de padres de todos os escalões hierárquicos, os excessos do cardeal guineense Robert Sarah, a biografia mirabolante do cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, corrupção e escândalos financeiros na Santa Sé, a reiterada indiferença de Bento XVI face aos relatórios sobre abuso de menores, a clínica Gemelli, onde altos dignitários da Igreja são discretamente tratados de Sida, o assédio sexual aos membros da Guarda Suíça, o outing do teólogo Krzysztof Charamsa, a protecção de padres pedófilos, a relação particular de Bento XVI com Georg Gänswein, seu secretário (sagrado arcebispo no dia em que Ratzinger renunciou ao Papado), e outros temas quentes. Um documento para a História. Publicou a Sextante.

Churchill. Caminhando com o Destino — O historiador inglês Andrew Roberts escreveu uma nova biografia de Churchill. O título remete para um discurso feito em 1940 pelo antigo primeiro-ministro britânico. Em cerca de mil e duzentas páginas, Andrew Roberts traça o retrato do maior estadista britânico de todos os tempos. Com a vantagem de, relativamente a anteriores biografias, divulgar informação até agora classificada. Imprescindível. Volume de capa dura, com portfolio fotográfico, notas e o indispensável índice onomástico. Publicou a Texto.

Regresso a Reims — A partir das suas origens proletárias, o sociólogo francês Didier Eribon, biógrafo de Foucault, analisa as relações no seio da família, a vergonha social, a construção de identidades e, tema central, a traição de classe. Mas também algumas das razões que levaram os operários franceses a trocar o Partido Comunista por Le Pen. A morte do pai serve de pretexto à catarse. Homossexual assumido, teórico da cultura gay, o autor regressa aos lugares da infância e adolescência para desatar o nó górdio dos equívocos. Não é amável. Publicou a Dom Quixote.

As Três Irmãs Soong — Depois de ter escrito as biografias de Tzu Hsi, a imperatriz viúva conhecida por Cixi, e a de Mao Tse-tung, a chinesa (naturalizada britânica) Jung Chang escreveu agora sobre a vida das três irmãs Soong: a mais velha, a mais nova e a vermelha. Educadas nos Estados Unidos, as três foram muito influentes em campos políticos opostos. A mais velha tornou-se uma das mulheres mais ricas da China e fez do marido primeiro-ministro. A mais nova casou com Chiang Kai-shek. E a vermelha foi vice-presidente de Mao. Jung Chang, que tem uma escrita aliciante, consegue fazer-nos mergulhar no universo da política chinesa. Muito bem documentado, o livro é um tour d’horizon pelo século XX, incluindo notas, portfolio fotográfico e, naturalmente, índice remissivo. Publicou a Quetzal.

Dunbar e As Suas Filhas — A mais negra tragédia familiar de Shakespeare, O Rei Lear, chega às nossas mãos em versão contemporânea. Quem o fez foi Edward St Aubyn, o romancista de língua inglesa mais fulgurante da sua geração (nasceu em 1960). Quem leu essa obra-prima absoluta que é o quinteto Melrose, sabe do que falo. Nascido e educado no seio das classes altas inglesas, St Aubyn conhece por dentro o âmago das relações de poder, dentro e fora da família. Transformar Lear em Henry Dunbar, 80 anos, CEO absoluto de uma multinacional de comunicação, assemelha-se muito ao retrato de Rupert Murdoch. Pode ser que seja. Admirável. Publicou a Bertrand.

Entre Silêncios. Poesia 1961-2018 — Poeta, ensaísta, ficcionista, dramaturga e tradutora, reconhecida como a nossa maior especialista em simbologia, Yvette K. Centeno reuniu a sua obra poética publicada entre 1961 e 2015, à qual acrescentou inéditos escritos até 2018. O registo próximo da sottovoce não isenta esta poesia de algum humor corrosivo. Preciosa edição, que nos devolve uma poeta que andava esquecida. Se não conhece, devia. Publicou a Glaciar.

Herman Melville. Ficção Curta Completa — Prosseguindo a sua criteriosa edição de clássicos, a E-Primatur deu este ano à estampa os contos e outros dispersos da ficção do autor de Moby Dick. Quem não conhece, pode ler aqui os seis Contos da Piazza, que ocupam 245 das 591 páginas do volume. Uma dúzia de textos agora publicados conhece a sua primeira versão em português.

O Triângulo Mágico — Cesariny teve mais sorte que alguns dos seus pares já biografados. António Cândido Franco, professor de linguistica e literatura na Universidade de Évora, biógrafo de Agostinho da Silva, fez a tão esperada biografia do poeta e pintor. Numa narrativa de cunho próprio, isenta de hagiografia, Franco não deixa de fora aspectos melindrosos da vida privada, bem como nenhum dado importante da vida pública de Cesariny. A história do Grupo Surrealista de Lisboa encontra-se muito bem documentada. O volume inclui quadro genealógico, Portaló, doze capítulos, um epílogo, vários anexos, portfolio fotográfico, índice de abreviaturas e uma extensa tábua bibliográfica activa e passiva. O autor conheceu pessoalmente o seu biografado e teve acesso a importantes acervos de correspondência, tendo conversado com testemunhas idóneas. Leitura obrigatória por parte de quem se interessa pelo biografado. Publicou a Quetzal.

Obra Reunida de Manuel de Lima — Quase ninguém se lembra hoje de Manuel de Lima (1915-1976), escritor, musicólogo, crítico e artista plástico. Devemos a Vladimiro Nunes o volume em que sua obra completa foi reunida. A vida errática afastou-o dos círculos dominantes, e o exílio na Venezuela “apagou-o” da vida literária portuguesa. Cumulativamente, João Gaspar Simões e Óscar Lopes, gurus da crítica, não gostavam dos seus livros. Absurdizante, diziam. Era demasiado humor negro e nonsense para os hábitos indígenas. Além dos quatro livros, o volume inclui uma extensa e muito esclarecedora introdução de Vladimiro Nunes, retratos, desenhos, correspondência, fac-símiles de manuscritos, da certidão de nascimento e do assento de óbito, bem como reproduções de pinturas suas que fazem parte do espólio do Museu Carlos Machado, de Ponta Delgada. O careca evidente decerto gostaria deste resgate. Publicou a Ponto de Fuga

Leonardo da Vinci — Coube ao americano Walter Isaacson, professor de História, fazer a biografia de Leonardo. Trabalho ambicioso, respeitador do protocolo académico, porém escrito de forma a interessar o leitor comum. Além das ilustrações a cores (mais de uma centena), o volume inclui explicação sobre um pormenor do retrato escolhido para a capa, relação biográfica dos principais personagens, cronologia do biografado, sessenta páginas de notas, bibliografia e índice remissivo. Ao longo de trinta e três capítulos, a vida de Leonardo flui com naturalidade, desde o seu nascimento em 1452, até à sua morte em 1519. Isaacson não omite nada: nem a condição homossexual, assumida sem complexos, nem os crónicos problemas de dinheiro do homem que fez A Última Ceia, a pintura mais reproduzida de todos os tempos. Notável. Publicou a Porto Editora.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

Com as livrarias entupidas, há muito por onde escolher em todos os géneros literários. Seleccionei seis títulos: a biografia ficcionada de Augusto, um thriller centrado no Vaticano, o primeiro volume de uma trilogia famosa, um clássico irlandês, uma viagem ao inferno das crianças adoptadas e um policial heterodoxo.

Começar por um clássico, Augustus, última obra do norte-americano John Williams (1922-1994). Até à tradução de Stoner, feita com 50 anos de atraso, Williams era praticamente desconhecido do público português. Depois, aqui como em toda a parte, tornou-se muito citado. Augustus, que em 1973 venceu o National Book Award de Ficção, justifica todas as expectativas. Trata-se da biografia do filho adoptivo de Júlio César, ou seja, do homem que se tornou o primeiro imperador romano. Utilizando a forma epistolar (Cícero é um dos correspondentes), Williams traça o quadro das relações de força do império, tendo Roma como epicentro. Uma narrativa viciante. Publicou a Dom Quixote.

Mantendo Roma como ponto de referência, mas noutro registo, David I. Kertzer (n. 1948) escreveu um romance sobre O Rapto de Edgardo Mortara. Ou seja, ficcionou a história do rapaz judeu raptado em Bolonha, em 1858, pelo Santo Ofício, tornando-se protégé do Papa Pio IX. Factos que abalaram a Europa da época — Napoleão III tomou parte na controvérsia — e ainda hoje suscitam querela. Encontra-se em fase de produção um filme de Spielberg sobre o caso. Kertzer, especialista em história vaticana, recebeu o Pulitzer de 2015 por The Pope and Mussolini: The Secret History of Pius XI and the Rise of Fascism in Europe. Porém, O Rapto de Edgardo Mortara não é um ensaio histórico, é um thriller inspirado em factos verídicos. Publicou a Presença.

Quem prefira ficção pura deve ler O Jornalista Desportivo, de Richard Ford (n. 1944), romance que volta às livrarias com nova tradução. É o primeiro volume da famosa Trilogia Bascombe, na realidade um quarteto, pois saiu um quarto volume. Tudo gira em torno de Frank Bascombe, escritor em crise: morte do filho Ralph, divórcio, relações equívocas. Embora se trate de uma ficção sombria (a instituição familiar não escapa à mordacidade), Ford, voz ímpar da literatura contemporânea, prende o leitor ao longo de quatrocentas páginas. Publicou a Porto Editora.

O triplo homicídio de uma mulher, do filho de três anos, e de um padre, crime que chocou a Irlanda em 1994, serviu de pretexto para Edna O’Brien (n. 1930) escrever o portentoso Na Floresta. Romancista, contista, dramaturga, poeta e ensaísta, O’Brien é considerada a mais importante escritora irlandesa viva, tão hábil a escrever sobre o IRA como sobre as idiossincrasias sexuais da sociedade irlandesa (a trilogia Country Girls é um clássico do feminismo avant la lettre). No romance, Mich O’Kane, o kinderschreck perturbado por sucessivos abusos, ocupa o lugar que na vida real foi o de Brendan O'Donnell. O mesmo sucede com outros personagens, mas o plot segue a par os acontecimentos. Quem melhor do que O’Brien para transformar o horror em literatura? Publicou a Cavalo de Ferro.

O que significa adoptar uma criança? As agressões físicas e psicológicas ocorrem exclusivamente nas famílias de integração? Serão as casas de acolhimento eufemismos de guetos? A lei como tábua de salvação? Foi para responder a estas e outras perguntas que Patrícia Reis (n. 1970) escreveu As Crianças Invisíveis. Não é uma narrativa amável. Tratado com seriedade, o tema isenta-se de pieguice. A vida como ela é, crua, desapiedada, sem as arestas boleadas. Conceição é o único interstício de afecto que o romance se permite. Acompanhamos o percurso de M. — para cada criança uma inicial —, igual ao de tantos institucionalizados. O adjectivo é uma agressão. A invisibilidade é de regra. Chutado de casa para casa como criatura descartável, bola de pingue-pongue humana, M. terá de crescer sozinho. Ou sozinha? A escrita clara da autora domina com precisão o melindre do inominável. Publicou a Dom Quixote.

Com novo título — está nas salas o filme realizado por Edward Norton —, mas mantendo a tradução original, foi reeditado o livro mais conhecido de Jonathan Lethem (n. 1964), Os Órfãos de Brooklyn, thriller policial que celebrizou o detective Lionel Essrog. Laureado com o prestigiado National Book Critics Circle Award, o livro tem tudo para agradar a quem gostou de O Que Diz Molero, de Dinis Machado (a escala é outra, mas, à boleia da síndrome de Tourette, o delírio semântico tem semelhanças). Lethem já provou ser capaz de fazer melhor. Publicou a Lua de Papel.

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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

C. G. JUNG


Hoje na Sábado escrevo sobre a autobiografia de C. G. Jung (1875-1961), Memórias, Sonhos, Reflexões, organizada por Aniela Jaffé. Uma autobiografia a quatro mãos não corresponde às convenções do género, mas foi o que fizeram Jung e Aniela Jaffé. Antes de morrer, Jung  o fundador da psicologia analítica, acedeu a escrever e falar sobre si. Aniela organizou a obra. O Prólogo, os três primeiros capítulos — Infância, Os anos de escola, Os anos da universidade —, bem como os textos sobre Théodore Flournoy, Richard Wilhelm e Heinrich Zimmer, foram escritos por Jung; o restante foi redigido por Aniela a partir de conversas entre ambos. Depois de entrar em rota de colisão com Freud, que o admirava, Jung fixou o conceito de individuação. Interessado por terapia da dança, arte, religião, ciências paranormais e outros temas, viajante incansável (o Magreb, a Índia, o Quénia. o Uganda, etc.), Jung foi uma personalidade ímpar que esta semi-autobiografia ajuda a descobrir. Além da introdução de Aniela, o volume inclui árvore genealógica, glossário científico, cartas e trechos de obras de Jung. Quatro estrelas. Publicou a  Relógio d’Água.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

HAROLD BLOOM 1930-2019


Harold Bloom, o crítico literário mais influente dos últimos cem anos, morreu ontem à noite no hospital de New Haven (Connecticut) onde se encontrava internado.

Professor de Yale, Bloom deixou uma obra extensa, com vários livros publicados em Portugal, entre eles A Angústia da Influência, 1973, com tradução de Miguel Tamen, e O Cânone Ocidental, 1994, close reading da obra dos 26 escritores mais importantes da literatura ocidental, de Dante a Thomas Pynchon, com tradução de Manuel Frias Martins. Há outros.

Em língua portuguesa, publicadas no Brasil, estão traduzidas três obras incontornáveis: Poesia e Repressão, 1976, com tradução de Cillu Maia, Shakespeare: A Invenção do Humano, 1998, e Génio, 2002, ambas com tradução de José Roberto O’Shea. Sobre peças de Shakespeare escreveu vários outros livros. No famoso The Book of J., 1990, sustenta que longos trechos da Bíblia foram escritos por uma mulher.

Politicamente incorrecto, combateu a crítica marxista, o afrocentrismo e o feminismo, ou seja, aquilo que designava por escola do ressentimento. Admirava profundamente Emily Dickinson, Jane Austen, George Eliot, Virginia Woolf, Toni Morrison, Maya Angelou e Amy Tan. Detestava a saga Harry Potter e, de um modo geral, a cultura popular. Mas gostava de Álvaro de Campos e não desgostava de Saramago. Tinha 89 anos.

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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

JACKSON & DRNDIC


Hoje na Sábado escrevo sobre A Lotaria e Outras Histórias, de Shirley Jackson (1916-1965). Sendo a tradição gótica tão importante na literatura norte-americana, Ms Jackson conseguiu a proeza de construir uma das obras ficcionais mais sólidas do género, podendo medir-se com Hawthorne ou mesmo Edgar Allan Poe. Antes de morrer aos 48 anos de idade, escreveu seis romances, uma centena de contos, três volumes de memórias e quatro livros infantis. A Lotaria e Outras Histórias constitui a primeira, e única publicada em vida, das sete colectâneas em que os seus contos estão coligidos. O romance de terror A Maldição de Hill House, já publicado em Portugal, foi adaptado ao cinema duas vezes (1963 e 1999), tendo a Netflix feito a partir dele uma série de dez episódios. Outras obras suas foram igualmente adaptadas ao teatro, cinema e televisão. Juntamente com o conto titular que fecha o conjunto, o livro inclui outras 24 histórias e o poema de James Harris que serve de epílogo. Em 1948, quando a New Yorker publicou A Lotaria, a controvérsia foi enorme. Os leitores da revista ficaram chocados com o ritual de violência associado à festa (o dia da lotaria) da aldeia. Lido hoje, o que mais surpreende neste conto é o ponto de vista, feminista, da narradora. Por muito subtil que seja, a natureza anti-patriarcal é evidente. Num registo oposto, porque urbano, O Amante Demoníaco relata a história de uma mulher de 34 anos à procura do noivo (indo de casa em casa), no dia que julgava ser o do seu casamento. Outro exemplo “macabro” é A Renegada, a história de uma cadela que dizima as galinhas da vizinhança. Parece banal. O pior, o verdadeiro horror, subjaz à solução preconizada pelos filhos pré-adolescentes de uma pacata dona de casa: «A Sra. Walpole fechou os olhos sentindo, de súbito, mãos ásperas que a puxavam, pontas afiadas que lhe apertavam a garganta.»  São assim os contos de Shirley Jackson. Aparentemente triviais, sobre pessoas comuns, porém encharcados de genuína maldade. Não podendo comentar todos, gostaria de destacar, além dos citados, os seguintes: Charles, Estátua de Sal e O Dente. Cinco estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrevo ainda sobre Trieste, da escritora croata Daša Drndić (1946-2018). Traduzido a partir da versão em língua inglesa, é um documento para a história. Se dúvidas houvesse, a lista de 44 páginas com os nomes dos cerca de nove mil judeus deportados de Itália, aí está para o provar. A história de Haya Tedeschi, professora de matemática, nascida em 1923, em Gorizia, cidade italiana que foi outrora uma possessão do império austro-húngaro, é um pretexto para contar a história da Europa no século XX. A partir da cidade de Trieste, Daša Drndić compõe o mosaico do horror: parte de uma lista com os nomes de membros do Aktion T4 (o departamento nazi responsável pelo extermínio de doentes), os verbetes biográficos de alguns carrascos, excertos de interrogatórios dos Julgamentos de Nuremberga, velhas histórias de família, genealogias, retratos, poemas e citações de muitos autores: Pound, Ungaretti, Borges, Magris, Celan, T.S. Eliot e outros. Muito ténue, o fio condutor gira em torno da busca de um filho perdido. Quatro estrelas. Publicou a Sextante.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

ROONEY & McGREGOR


Hoje na Sábado escrevo sobre Pessoas Normais, da irlandesa Sally Rooney (n. 1991), autora de dois romances finalistas de prémios de prestígio. Além desses, tem publicado contos em revistas, entre elas a New Yorker e a Granta. Também publicou poesia em The Stinging Fly, uma revista de Dublin de que é editora. Aos 28 anos, a recepção crítica tem sido unânime dos dois lados do Atlântico: Ms Rooney é a grande revelação dos últimos anos. Pessoas Normais, cuja acção decorre entre 2011 e 2015, ou seja, durante o colapso da economia irlandesa, é a história de como, a partir da cidadezinha de Carricklea (nome fictício de Castlebar, cidade natal da autora), Connell e Marianne fazem a sua educação sentimental. Connell é o típico aluno bem-sucedido, jogador de futebol «com uma postura muito boa», oriundo da working class, e Marianne a rapariga que lê Proust na cantina da escola e tem de lidar com as idiossincrasias da mãe, uma advogada neurótica e viúva. A mãe dele trabalha como empregada em casa da mãe dela, e a relação aprofunda-se quando ele começa a ir buscar a mãe a casa de Marianne. Mas o gap social é um óbice que a mudança para o Trinity College, de Dublin, acentua. Nunca como então as clivagens foram tão nítidas. Connell nunca quis saber quem era o pai. Educado pela mãe no respeito pelos valores da solidariedade, interessava-se pela causa palestiniana e era capaz de dizer que «um pouco mais de comunismo não fazia mal nenhum a este país». Estamos na Irlanda da recessão, em plena crise das dívidas soberanas, no auge da turbulência austeritária, com o Fine Gael e o Sinn Féin representados no Parlamento. E nem por isso Marianne deixou de ter um affaire com o filho de um dos responsáveis pelo descalabro financeiro. Com muito sexo à mistura, é de tudo isto que o romance trata. Sem grande ênfase, Sally Rooney faz o retrato da geração que chegou à idade adulta no pior momento que a Irlanda atravessou no século XXI. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Até os Cães, do britânico Jon McGregor (n. 1976), romance que em 2010 venceu o International Dublin Literary Award. Não é frequente colocar fantasmas como personagens de romance, mas está longe de ser novidade. Quem tenha lido Incidente em Antares (1971), do brasileiro Érico Verissimo, identifica o déjà vu nas primeiras páginas do livro. McGregor tornou-se conhecido dos leitores portugueses com Reservatório 13. Noutro registo, Até os Cães é realismo urbano em versão ghost. Os fantasmas são antigos amigos de Robert Radcliffe, encontrado morto algures nas Midlands: «Não nos veem, à medida que nos amontoamos e abrimos caminho entre eles. É claro que não. E nem podiam. Mas já estamos habituados a isso.» Quem não os pode ver são os polícias que arrombam a porta. Marginais em vida (alcoólicos, drogados, sem abrigo), une-os a proximidade com o falecido. Há também a filha Laura, compinchas da tropa, etc. Todos passam em revista a vida de Robert. A escrita é escorreita mas não exaltante. Duas estrelas. Publicou a Elsinore.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

LEVY & SÖNMEZ


Hoje na Sábado escrevo sobre O Custo de Vida, a segunda parte da autobiografia de Deborah Levy (n. 1959), escritora britânica nascida na África do Sul, país que abandonou aos 9 anos de idade, na companhia dos pais, activistas dos direitos humanos e membros do ANC empenhados na luta anti-Apartheid. Deborah vive na Inglaterra desde então. Sobre O Custo de Vida pode dizer-se que é uma autobiografia feminista, um manifesto cru da dificuldade de ser mulher num mundo dominado por homens: maior intolerância, mais competição e toda a sorte de preconceitos. Nos interstícios da prosa, ecos de Simone de Beauvoir. A primeira parte desta autobiografia está disponível no nosso país com o título Coisas Que não Quero Saber, editado também pela Relógio d'Água. Por volta dos 50 anos, Deborah divorcia-se e vai viver com as duas filhas para um bairro “proletário” do norte de Londres. O Custo de Vida é o relato, por vezes elíptico, dessa mudança: «Nesse mês de Novembro, mudei-me com as minhas filhas para um apartamento que ficava num sexto andar de um grande prédio de aspecto desmazelado [adequado] a esses tempos de desintegração e de rutura.» Sucedem-se as faltas de água e electricidade, Deborah não tem espaço para escrever, os livros continuam nas caixas, os corredores estão revestidos por plástico cinzento usado nas obras. Muito difusas, memórias da casa de família na África do Sul. A situação melhora quando a viúva de Adrian Mitchell (o poeta e dramaturgo falecido em 2008), sua vizinha, lhe aluga o anexo do fundo do jardim onde o marido escrevia: «Toda a gente merece ter um anjo da guarda como Celia.» Numa linguagem despojada, Deborah fala de Freud, de incomunicabilidade, do ofício de escrever (citando Elena Ferrante, James Baldwin, Doris Lessing, etc.), de episódios caricatos como o da galinha atropelada, de uma viagem a Paris efectuada no Eurostar, da doença e morte da mãe, do seu romance Nadar para Casa, da cultura colonial branca na África do Sul, dos atritos do ciclismo urbano, de livros e filmes de Marguerite Duras, bem como de outros temas e incidentes pessoais. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

Escrevo ainda sobre Istambul, Istambul, de Burhan Sönmez (n. 1965), escritor turco actualmente radicado no Reino Unido, país onde escreveu e publicou este romance. O regime turco tem afastado do país muitos intelectuais desafectos de Erdoğan. Um deles é Sönmez. O romance é anterior ao putsch militar de 2016. Porém, os seus dez capítulos antecipam as sequelas do golpe falhado. Cada capítulo corresponde a um dia. Os narradores são quatro presos políticos, enclausurados numa cela subterrânea, escura e minúscula: um médico, um estudante, um barbeiro e um velho revolucionário que «falava no tom dos poetas delirantes». Ao longo de dez dias, nos intervalos dos interrogatórios e das sessões de tortura, contando histórias uns aos outros, narram memórias da cidade. Até que, de acordo com as respectivas idiossincrasias, cada um deles passa a discutir os efeitos da repressão: «Na cela, a vida repetia-se. À medida que a escuridão girava lentamente por cima de nós, as nossas palavras descreviam a mesma pessoa…» Podia ser um thriller. Mas é o retrato de uma ditadura. Três estrelas. Publicou a Dom Quixote.