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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

GURNAH EM PORTUGUÊS


O Nobel da Literatura 2021 foi parar às mãos de Abdulrazak Gurnah (n. 1948), nascido no Sultanato de Zanzibar, quando o arquipélago não fazia parte da República da Tanzânia. Gurnah ainda não tinha dezoito anos quando, a pretexto de terminar os estudos, foi para Inglaterra. É lá que vive desde então. Foi breve o regresso a África: ocorreu nos anos 1980, um breve período em que deu aulas numa universidade da Nigéria. Para todos os efeitos, Gurnah é um eminente cidadão, escritor e académico britânico, professor emérito da Universidade de Kent.

Vidas Seguintes, o décimo e mais recente dos romances que publicou, tem como pano de fundo as relações entre colonizadores e colonizados na Deutsch-Ostafrika. Muita gente não se lembra, mas o território da Tanzânia fez parte, até ao fim da Primeira Guerra Mundial, da África Oriental Alemã, vasta área que se estendia até à província do Niassa, no Norte de Moçambique. A problematização do colonialismo alemão tem sido sistematicamente omitida nos últimos cem anos, daí a relevância com que a obra de Gurnah preenche essa lacuna.

Gurnah nasceu sob domínio colonial britânico, mas é sobre as práticas coloniais alemãs que a obra se debruça. Denominador comum a todos os livros: as ilhas de Zanzibar, predominantemente muçulmanas e, como tal, estranhas ao clichê “africano”. Dito de outro modo, arabização no lugar da negritude.

As histórias dos quatro principais personagens de Vidas Seguintes — Khalifa, Ilyas, Hamza e Afiya — são as histórias de todos os colonizados que um dia foram obrigados a lutar pelo império ocupante, muitos deles roubados em crianças pelo Schutztruppe: «Toda a gente conhecia a frieza e impiedade dos oficiais alemães

Não é a primeira vez que o autor escreve sobre o tema. Por exemplo, Yusuf, o protagonista de Paradise (1994), é uma criança vendida pelo pai para trabalhar em regime de escravatura.

Qual o significado de “pertença”? Pondo em pauta a vexata quaestio da extraterritorialidade, do choque identitário e de culturas, Gurnah coloca-se no centro das experiências de alteridade que distinguem o que escreve.

Além de romancista, Gurnah é autor de contos. Uns e outros muito bem recebidos pela crítica, mas com vendas residuais (mesmo no Reino Unido, o prémio apanhou os editores desprevenidos). Antes de laureado com o Nobel, era sobretudo conhecido e respeitado pelos ensaios que escreveu sobre diáspora e literatura pós-colonial.

Vidas Seguintes foi traduzido por Eugénia Antunes e publicado pela Cavalo de Ferro.

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

ALMUDENA GRANDES


Hoje na Sábado

A morte precoce de Almudena Grandes (1960-2021) interrompeu um dos projectos mais ambiciosos da literatura de Espanha, a série de Episódios de Uma Guerra Interminável, terminada com A Mãe de Frankenstein, agora traduzido. Inspirando-se na vida de Aurora Rodríguez Carballeira, uma feminista avant la lettre, Almudena Grandes — formada em História — expõe a forma como o regime de Franco lidava com a psiquiatria.

Aurora foi internada depois de matar a filha de dezoito anos, a famosa Hildegart, menina-prodígio e activista republicana, abatida pela mãe com quatro tiros de pistola. O interesse da autora pela história clínica de Aurora começou no momento em que leu El Manuscrito Encontrado em Ciempozuelos, do psiquiatra Guillermo Rendueles Olmedo.

Como em livros anteriores, também neste se cruzam personagens fictícias e pessoas reais (entre outros, o psiquiatra Juan José López Ibor, que pretendia curar a homossexualidade dos pacientes), factos históricos e situações efabuladas. O manicómio feminino de Ciempozuelos existe, estando associado à tentativa de reconquista da cidade por parte do Quinto Regimento republicano, comandado por Gustavo Durán, amigo de Lorca, Buñuel e Alberti, figura lendária de Guerra Civil de Espanha.

Narrado a três vozes, uma delas a do psiquiatra Germán Velázquez Martín, A Mãe de Frankenstein centra-se nos últimos anos de vida de Aurora, fazendo o relato cru de como a repressão do nacional-catolicismo espanhol se estendia à esfera da saúde mental. Germán, que viveu exilado na Suíça durante quinze anos, regressa ao país em 1954, trazendo com ele métodos humanos e um medicamento experimental, a Clorpromazina. Ali chegado, Germán interessa-se pelo ‘caso’ de Aurora, bem como pela natureza da relação da filicida com a enfermeira María Castejón. É sobre este eixo central que se desenvolve a narrativa, tendo como pano de fundo as diversas faces da ignomínia franquista, como por exemplo o roubo de crianças filhas de republicanos, para serem entregues a famílias católicas. 

Uma extensa nota da autora contextualiza as relações de contiguidade entre ficção e realidade. A útil tábua de personagens que fecha o volume podia (e devia) ter sido inserida a abrir.

Escritos contra a amnésia histórica, os cinco romances que compõem a série de Episódios de Uma Guerra Interminável (o sexto ficou por concluir) estendem à segunda metade do século XX a saga ficcional escrita por Benito Pérez Galdós sobre os anos 1800.

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

EMMA GOLDMAN


Hoje na Sábado

Nenhum balanço do século XX pode ignorar Emma Goldman, que em 1931 publicou uma densa autobiografia — Viver a Minha Vida — só agora traduzida em Portugal. Mas quem foi esta mulher que o activismo anarquista, longe dos corredores académicos, fez filósofa política?

Nascida na Lituânia no seio de uma família judaica, Emma tinha dezasseis anos quando foi para os Estados Unidos, fixando-se primeiro em Rochester e anos mais tarde em Nova Iorque, cidade onde fez a sua formação junto das comunidades de imigrantes russos e alemães. Piotr Kropotkin, teórico do anarco-comunismo, seu amigo, foi uma permanente fonte de inspiração.

Viver a Minha Vida começa exactamente assim: «Foi em 15 de Agosto de 1889 que cheguei a Nova Iorque, tinha vinte anos.» A partir daí nunca mais abandonou as causas em que acreditava. Os motins de Haymarket, em Chicago, desencadeados pela jornada de oito horas de trabalho, foram o ponto de partida para uma vida pontuada por incidentes. Um dos primeiros foi a tentativa de assassinato do coleccionador de arte Henry C. Frick, perpetrada (1892) por Alexander Berkman, seu amante. Berkman foi preso, mas depois de sair da prisão ajudou-a a fundar a revista Mother Earth, que se publicou até serem ambos presos e deportados para a Rússia.

Porém, a pátria dos sovietes não era lugar indicado para uma defensora pública da liberdade de expressão, da independência das mulheres, dos direitos laborais, das lutas sindicais, da objecção de consciência, do controlo da natalidade, do amor livre, da homossexualidade, etc. Dois anos perdidos. A forma como Moscovo esmagou a revolta de Kronstadt, que opôs marinheiros anti-bolcheviques a Lenine, levou-a a sair do país e a escrever (1923-24) dois livros sobre o desapontamento que lhe causara a Mãe Rússia. A partir de então foi alvo de ataques por parte do movimento comunista internacional. Para os camaradas, Emma Goldman fizera apostasia.

Após temporadas em vários países europeus e no Canadá, estabeleceu-se em Saint-Tropez em 1928. Precisava de tranquilidade para a sua autobiografia mas também para escrever uma biografia de Voltairine de Cleyre. Apoiante declarada da Espanha republicana, nada sabemos desses anos fatais, posteriores à redacção de Viver a Minha Vida.

Emma Goldman morreu em Toronto, pouco antes de completar 71 anos. Mas, como desejava, foi enterrada em Chicago junto às campas dos mártires de Haymarket.

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

JAVIER MARÍAS


Um novo romance de Javier Marías (n. 1951) é sempre um acontecimento. E Tomás Nevinson, provavelmente o melhor de todos os que publicou até hoje, não constitui excepção. Traz consigo o aliciante de colocar no título o protagonista de Berta Isla, alegado alter-ego do autor.

Filho de um filósofo exilado por causa de Franco, eterno candidato ao Nobel, admirado sem reservas pelos mais ilustres dos seus pares europeus e norte-americanos, romancista, contista, ensaísta, tradutor de Sterne, Conrad, Yeats, Auden, Nabokov, Ashbery e outros, antigo professor de literatura em Oxford, nada na sua obra (várias vezes premiada dentro e fora de Espanha) se confunde com a imagem de marca da literatura espanhola contemporânea. Digamos com clareza: Javier Marías é o mais importante escritor espanhol dos últimos cinquenta anos.

Sob a aparência de um thriller, Tomás Nevinson põe em pauta o dilema moral de matar ou não matar, o “dever” de optar por uma dessas soluções. Veja-se o episódio que une o escritor alemão Friedrich Reck-Malleczewen ao destino de Hitler: podia tê-lo morto em 1936, mudando o curso da História, mas não o fez, acabando morto em Dachau.

Com os massacres da ETA em pano de fundo, detalhando alguns dos mais brutais, o plot é narrado na primeira pessoa, excepto quando Nevinson veste a pele de Miguel Centurión Aguilera, o pacato professor de inglês pelo qual se faz passar em Ruán, a cidade fictícia onde tem por missão descobrir, entre três mulheres — Inés Marzán, Celia Bayo e María Viana —, qual delas é de facto Magdalena Orúe O’Dea, «metade da Irlanda do Norte e metade da Rioja…», o cérebro por trás do crime hediondo. Por se tratar de um exercício sobre o bem e o mal, a culpa, o medo e a memória, e não de mero panfleto sobre espiões e terrorismo político, Shakespeare é citado com propriedade. Mas, como sempre, a vasta erudição da prosa não perturba a fluidez do discurso.

Calibrando cada frase com a precisão de um joalheiro, ao mesmo tempo que mantém a tensão narrativa num jogo de harmónicas não isento de mordacidade e humor, Javier Marías não esquece as vítimas do separatismo basco, o ónus do horror. Tomás Nevinson, o romance, é apenas o invólucro elegante da interpelação que deixa à posteridade.

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

FUTUROS CLÁSSICOS?


Hoje na Sábado

Nem sempre acontece, mas o ano que agora termina foi pródigo na edição de livros que podem vir a tornar-se clássicos. Estamos a falar de poesia, ficção, biografia e História. Do que li gostaria de destacar oito títulos.

Um deles é Poemas, reunião da poesia completa de António Franco Alexandre, oportunidade para nos deixarmos absorver pelo estranhamento desta poesia sem predecessores em língua portuguesa: «Vamos a ver se dois incêndios se juntam, / se a folha do corpo fica a arder. / Os dentes que riem, saberão morder?» Outro é o primeiro volume de uma trilogia sobre a América contemporânea, Encruzilhadas, de Jonathan Franzen. A família Hildebrandt pode não ter glamour, mas só um escritor com o fôlego de Franzen podia dar-nos um épico desta natureza. Noutro registo, Maggie O’Farrell demonstra que Shakespeare é um personagem em aberto, servindo-se da morte precoce do filho do bardo para escrever Hamnet, romance centrado na vida de Anne Hathaway. Mas também Paul Auster, que resgata a vida e obra de Stephen Crane, um gigante da literatura norte-americana do século XIX, na monumental biografia a que deu o título de Um Homem em Chamas. Por falar em biografias, não podemos ignorar a de Philip Roth escrita por Blake Bailey, desassombrado registo de uma época e seus temas-fétiche. Ainda no domínio da compreensão do outro, a História dos Povos Árabes de Albert Hourani, historiador britânico de origem libanesa, finalmente traduzida e actualizada, é indispensável para entender o mundo árabe. Entretanto, numa altura em que foi tudo escrito sobre disfunções (sexuais e outras), a holandesa Marieke Lucas Rijneveld consegue surpreender-nos com O Desassossego da Noite. Por último mas não em último, Trilogia de Jon Fosse, volume que colige três novelas, traduzidas directamente do norueguês por Liliete Martins, que respeita a peculiar pontuação (ou falta dela) do autor. Rompendo mais uma vez com os modelos convencionais, Fosse não abdica de construir uma linguagem própria.

António Franco Alexandre, Poemas / Assírio & Alvim

Jonathan Franzen, Encruzilhadas / Dom Quixote

Maggie O’Farrell, Hamnet / Relógio d’Água

Paul Auster, Um Homem em Chamas / Asa

Blake Bailey, Philip Roth / Dom Quixote

Albert Hourani, História dos Povos Árabes / Book Builders

Marieke Lucas Rijneveld, O Desassossego da Noite / Dom Quixote

Jon Fosse, Trilogia / Cavalo de Ferro

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

Temos o Natal à porta, época tradicionalmente associada à partilha de livros. A rentrée trouxe novidades para todos os gostos. Há muito por onde escolher — a prosa completa de Sophia, o 26.º e último romance de Le Carré, ficções de Don DeLillo, João Paulo Borges Coelho, Viet Thanh Nguyen, Claudio Magris e António Ferro, o thriller com que David Lagercrantz inicia uma nova saga, a biografia que Paul Auster dedicou a Stephen Crane, a poesia reunida de Adília Lopes, o clássico de Vassili Grossman sobre a ocupação de Stalinegrado e, por último mas não em último, a novela gráfica que Martin Ernstsen fez a partir da obra-prima de Knut Hamsun.

Juntar num único volume toda a prosa de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) ajuda-nos a avaliar a dimensão de uma autora que a posteridade fixou como um dos poetas centrais do século XX português. É o que sucede com Prosa, volume organizado por Carlos Mendes de Sousa, que assina uma desenvolvida introdução. Aqui estão os contos — desde logo os magníficos Contos Exemplares, mas também os que escreveu para a infância —, além do ensaio sobre o nu na antiguidade clássica. Em suma, uma edição que fazia falta, posfaciada pela filha, Maria Andresen de Sousa Tavares. Publicou a Assírio & Alvim.

Silverview, o livro póstumo de John le Carré (1931-2020), não desilude os fiéis. Posfaciado pelo filho Nick Cornwell, que garante não ter alterado uma vírgula do manuscrito encontrado, prolonga o virtuosismo de uma obra ímpar. No lugar de George Smiley temos agora Proctor, mas o jogo de espelhos mantém-se. O essencial da intriga é narrado em flashback, quando Deborah e Edward, os anfitriões da mansão conhecida por Silverview, estavam no activo. Magnífico, como sempre. Publicou a Dom Quixote.

A violência e os bastidores do futebol universitário norte-americano são o tema de Linha Final, um dos mais antigos romances de Don DeLillo (n. 1936). Narrado por Gary Harkness, capitão de equipa, a narrativa segue à risca o jargão do balneário, ao mesmo tempo que transforma cada jogo numa batalha campal. Quem gosta de bola e conhece a sua lógica interna acompanhará com gosto as descrições “fotográficas”. Escrito no auge da Guerra Fria, não é inocente que o futebol sirva de metáfora ao frágil equilíbrio nuclear entre a Nato e o Pacto de Varsóvia (vide capítulo 29). Admirável. Publicou a Relógio d’Água.

Nasceu no Porto aquele que é um dos mais significativos autores moçambicanos. Refiro-me a João Paulo Borges Coelho (n. 1955), radicado naquele país desde criança, onde acabou por adoptar a respectiva nacionalidade. Ali se formou e construiu uma obra ficcional sólida, paralela à de historiador. Quem ler Museu da Revolução não se surpreenderá com a heterodoxia com que põe em pauta a sociedade moçambicana: «O Moçambique que encontrou não era muito diferente do Moçambique que deixara…» Meridiana clareza: violência, rigidez ideológica dos anos pós-independência, guerra civil, domínio de partido único, precariedade da economia, etc. Tudo em português de lei. Outra coisa não seria de esperar de quem escreveu As Visitas do Doutor Valdez. Publicou a Caminho.

Os fãs de policiais nórdicos conhecem David Lagercrantz (n. 1962) sobretudo por, após a morte de Stieg Larsson, ter sido o autor do prolongamento de Millennium. Mas Lagercrantz, com obra publicada desde 1997, acaba de publicar Obscuritas, primeiro livro da série Rekke & Vargas. O tiro de partida do plot é dado pelo assassinato, em 2003, de um árbitro de futebol afegão refugiado em Estocolmo. Curiosamente, o personagem Hans Rekke parece uma versão escandivana e pós-moderna de Sherlock Holmes. Publicou a Porto Editora.

Stephen Crane, gigante da literatura norte-americana do século XIX, tinha apenas 28 anos quando morreu e, talvez por isso, não goze do reconhecimento de alguns dos seus pares. Razão acrescida para ler Um Homem em Chamas, a monumental biografia que Paul Auster (n. 1947) lhe dedica. Quase novecentas páginas para “homologar” uma reputação, com destaque para a exegese da obra. Dito de outro modo, mais hermenêutica, menos acidentes biográficos. Seja como for, resgata Crane do relativo silenciamento a que foi votado. Além de notas e iconografia, o volume inclui índice onomástico. Publicou a Asa.

Os portugueses conhecem o vietnamita Viet Thanh Nguyen (n. 1971) desde o primeiro livro, laureado com o Pulitzer de Ficção 2016. Mudando a acção para Paris, mas mantendo o narrador original, O Comprometido prolonga esse livro de estreia, pondo o acento tónico em questões de identidade e género. Não esquecer que a França antecedeu os Estados Unidos na ocupação da Indochina. Radicado nos Estados Unidos desde a queda de Saigão, o autor não esquece as humilhações sofridas pelo seu povo. De certo modo, um ajuste de contas pós-colonial. E Nguyen faz isso muito bem. Publicou a Elsinore.

A partir de pretextos fortuitos, cada um à sua maneira, os cinco protagonistas de Tempo Curvo em Krems, de Claudio Magris (n. 1939), fazem o balanço do passado: o escritor, o industrial, o professor de música, o homem de passagem, o sobrevivente do império dos Habsburgo, o patriota triestino. Nada distingue ficção e realidade. Magris vintage, nestes cinco contos isentos de ênfase que se lêem de um fôlego. Publicou a Quetzal.

Por ter delineado uma política cultural tolerada por Salazar, o modernista António Ferro (1895-1956) passou à História como ideólogo do Estado Novo. O que nem todos sabem é que o editor da revista Orfeu foi um ficcionista prolífico, como demonstrado pelas quase setecentas páginas de Ficção, volume que colige os seus contos e novelas. Organizado por Hugo Xavier, com portfolio iconográfico e introdução de Luis Leal, ilustra a especial atenção que Ferro dava às personagens femininas. Uma edição primorosa. Publicou a E-Primatur.

Um grosso volume de capa dura e mais de mil páginas, Dobra, reúne a poesia completa de Adília Lopes (n. 1960), ou seja, todos os livros publicados a partir de 1985 e ainda inéditos. Lida com reticências durante alguns anos, Adília — que começou por ser um epifenómeno mediático — foi gradualmente impondo um tom, sendo hoje reconhecida a sua singularidade na poesia portuguesa contemporânea. Títulos como O Poeta de Pondichéry (1986), Maria Cristina Martins (1992), Florbela Espanca espanca (1999) e A mulher-a-dias (2002), para citar os quatro que prefiro, tornaram-se parte do cânone. Publicou a Assírio & Alvim.

Com Stalinegrado, Vassili Grossman (1905-1964) fixou a mais sangrenta batalha da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, se leu Vida e Destino, vai perceber que se trata de um díptico. Stalinegrado é a prequela do livro que imortalizou Grossman, o engenheiro que se encontrava na cidade como correspondente de guerra, e desse modo pôde legar ao futuro o testemunho da barbárie, a resistência de um povo determinado em pôr fim ao cerco nazi. Como sublinha Nina Guerra, esta «combinação da reportagem, da ficção e da análise política, social e psicológica […] cria um quadro verídico, credível.» Acompanhando o quotidiano da família Chapochnikova (a matriarca, Aleksandra, recusa deixar a cidade) temos a noção do horror. Mais tarde, Grossman, cansado de ser Kulak, tornou-se dissidente do regime soviético, mas em 1952 ainda acreditava na Mãe Rússia. Publicou a Dom Quixote.

O norueguês Knut Hamsun, Nobel da Literatura em 1920, tornou-se famoso por causa de Fome. Agora, como tem acontecido a tantas obras de ressonância planetária, esse romance de carácter autobiográfico foi vertido em novela gráfica. Quem o fez foi Martin Ernstsen (n. 1982), premiado por este trabalho. Os “puristas” dirão que a banda desenhada não transmite com nitidez o fluxo de consciência, mas trata-se de um álbum apelativo, traduzido directamente do norueguês por Liliete Martins. Publicou a Cavalo de Ferro.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2021

JONATHAN FRANZEN


Hoje na Sábado.

Tem saudades de, ou quer saber como se vivia nos anos 70 do século passado? Então leia Encruzilhadas, o romance mais recente de Jonathan Franzen (n. 1959), primeiro título de uma anunciada trilogia sobre a América comtemporânea, A Key to All Mythologies. Desde as obras-primas de Updike, Roth e DeLillo que a literatura norte-americana não atingia tal fôlego, mas isso ficou estabelecido há vinte anos, quando Franzen publicou Correcções.

O título original, Crossroads, remete para um gangue de adolescentes da Comunidade de Deus. Tudo se passa num subúrbio de classe-média de Chicago, onde vivem os Hildebrandt. Russ, o patriarca da família, pastor na igreja local, via-se a si próprio, aos 47 anos, como um «tolo, obsoleto e repelente palhaço». Estamos nos últimos anos da Guerra do Vietname e, para os Hildebrandt , o Natal de 1971 desata o nó górdio das tensões (o romance ocupa-se de duas gerações da família). O plot inclui desastres, sexo, estupro, aborto, drogas, renascimento do cristianismo moderno, crises de fé, internamento psiquiátrico, costumes Navajo, contracultura hippie, guerra vs pacifismo, voluntariado, frustração, memórias recalcadas, ressentimento, psicanálise grupal, conflito étnico, dilemas morais, epifanias, crime, suicídio e blues de Robert Johnson. Leitores familiarizados com a cultura pop dos seventies, sobretudo música e cinema, identificam com facilidade os envios.

A mais-valia de toda a arquitectura romanesca encontra-se na forma como Franzen radiografa cada um dos cinco membros da família. Por exemplo, Perry (o filho mais novo), um toxicodependente de 15 anos intelectualmente sobredotado, terá sido inspirado na personalidade de David Foster Wallace, que foi íntimo do autor. Em suma, uma versão actual dos Buddenbrook de Thomas Mann não andaria longe deste quadro.

Encruzilhadas é realismo histérico (como James Wood bem observa) em todo o seu esplendor, calibrado com o virtuosismo a que Franzen nos habituou. A partir de incidentes paroquiais e das disfunções de uma família sem glamour, o autor constrói um épico irrepreensível, onde não faltam juízos morais: «Como podia uma nação que se intitulava cristã gastar milhares de milhões de dólares em armas mortíferas?» Nada que surpreenda quem conheça a obra do autor.

Doravante, a cidade fictícia de New Prospect passa a integrar a geografia da literatura contemporânea. E Marion, mulher mal amada, mãe de cinco filhos e co-autora dos sermões do marido, tem a espessura de uma heroína de Balzac.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2021

VIGDIS HJORTH


Hoje na Sábado.

Com Herança, a norueguesa Vigdis Hjorth (n. 1959) tornou-se uma das autoras mais discutidas da literatura europeia contemporânea. Vigdis começou pela literatura infantil, mas de seguida publicou cerca de trinta romances, sendo a Herança o primeiro a chegar à edição portuguesa.

No ano em que foi publicado (2016) o livro gerou controvérsia pela sua natureza autobiográfica. À laia de recado, a autora cita A Festa, o filme de Thomas Vinterberg. Na Noruega, foram muitos os que reconheceram no plot nada menos que três gerações da família Hjorth. Vigdis foi acusada de usar diverso material privado, como por exemplo correspondência familiar. A irmã, Helga, até publicou a sua versão dos factos, num livro que foi um bestseller. E a mãe de ambas processou a companhia de teatro que encenou uma adaptação da obra.

Relatos de sordidez familiar não são novidade em literatura. Os noruegueses tinham o precedente de Karl Ove Knausgård, mas o quinteto Melrose, do inglês Edward St Aubyn, continua sem equivalente em matéria de transgressão. Isto dito, a Herança não surpreende pelo tema. O que o distingue é a escrita da autora, nem sempre linear, porém estimulante nos seus avanços, recuos e minúcia descritiva. Certas repetições parecem-me escusadas, mas terá que ver com o discurso obsessivo compulsivo. Curiosamente, críticos de língua inglesa têm falado de Vigdis Hjorth como de um híbrido de Jane Austen e Agatha Christie, com laivos de Ibsen.

Incesto (em criança, Bergljot foi várias vezes abusada sexualmente pelo próprio pai) e disputas patrimoniais entre quatro irmãos constituem uma mistura explosiva. Vigdis Hjorth constrói a narrativa explicando as razões que levam a sua narradora a aliar-se ao irmão mais velho, contra as irmãs mais novas, na querela que o opõe à partilha das casas de férias dos pais. No momento em que decide expor as memórias acumuladas da infância traumática, Bergljot é uma escritora e crítica de teatro, mãe de três filhos adultos, divorciada, há muito afastada do núcleo familiar. A herança é o detonador do conflito. Com prejuízo dos filhos mais velhos, Bergljot e Bård, o testamento do patriarca beneficia as filhas mais novas (menos ausentes da casa-mãe). Sem essa disputa, provavelmente Bergljot não traria à tona o recalque de anos de manipulação e abuso.

Por causa deste livro, há cinco anos que os media e a intelligentsia da Noruega discutem os limites da literatura “da realidade”.

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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

LIVROS PARA O OUTONO


Hoje na Sábado.

A partir da morte de Hamnet Shakespeare, Maggie O’Farrell (n. 1972) escreveu Hamnet, romance inspirado na vida do bardo com Anne Hathaway. É a história de um casal de Stratford-upon-Avon. O’Farrell diz apenas: «Cerca de quatro anos depois, o pai escreveu uma peça chamada Hamlet.» (O mesmo nome escrevia-se nas duas formas.) É desconhecida a causa da morte de Hamnet, mas no romance é vítima da peste. Quando o filho morre, já Shakespeare estava estabelecido em Londres. Portanto, tudo gira em torno de Anne e dos filhos. Mais exactamente, sobre o luto da mulher que se sente responsável pela morte do filho de onze anos. Sem beliscar factos históricos, a narrativa é deveras empolgante. Com Hamnet, O’Farrell ganhou o Women’s Prize for Fiction 2020.

Com nova tradução, temos de volta Olá, América!, uma das distopias mais famosas do inglês J.G. Ballard (1930-2009). Publicado pela primeira vez em 1981, o livro “antecipa” o apocalipse dos Estados Unidos nos anos 2100, após um colapso ambiental (a Rússia barrou o Estreito de Bering que liga o Pacífico ao Ártico) e financeiro de proporções bíblicas. Com Charles Manson na Casa Branca e dois terços dos norte-americanos expatriados na Europa e na Ásia, um grupo de aventureiros parte de Inglaterra para averiguar o que se passa do outro lado do Atlântico. Excessivo, irónico, mordaz, por vezes burlesco, Olá, América! é uma visão dantesca do fracasso do sonho americano.

Com A Anomalia, Hervé Le Tellier (n. 1957) venceu no ano passado o Prémio Goncourt. O livro foi agora traduzido por Tânia Ganho, que encontrou o registo certo do thriller. Dividido em três partes, sinalizadas por versos de Queneau, A Anomalia é uma sucessão de narrativas escritas de acordo com o perfil das respectivas personagens, muito diferentes entre si. Tudo se passa num voo entre Paris e Nova Iorque, mas podia ser num festival literário, tantas são as referências literárias (nomes, citações, trocadilhos, opinião). Ficcionista, ensaísta e colunista político, Le Tellier é o paradigma do intelectual público francês. Mérito maior: ao contrário de outros laureados da sua geração, o que escreve não provoca enfado.

A ficção identitária vive um momento alto, e A Outra Metade de Brit Bennett (n. 1990) é do melhor que tem sido escrito sobre interditos étnicos. Em Mallard, a cidade do romance, ninguém se casava com gente escura. Até aqui, nada que o inventário do racismo não ilustre. O ponto é outro: de forma a ficarem cada vez mais claros, os negros de Mallard fazem casamentos mistos. Com dezasseis anos, as gémeas Vignes fogem da cidade após o linchamento do pai. Contudo, enredam-se noutro tipo de contradições. Stella casa com um branco desconhecedor das suas origens, e Desiree regressa à cidade com uma filha negra como o alcatrão. Estamos nos anos 1950, no auge do segregacionismo. A saga prossegue até aos anos 1970, com as filhas de ambas em confronto com novas realidades (a transexualidade, etc.) e perspectivas de vida opostas. Brit Bennett é um nome a fixar.

Pode um irlandês, radicado em Nova Iorque, ficcionar o quotidiano da Palestina? Foi o que fez Colum McCann (n. 1965), professor do Hunter College. O livro tem um título estranho, Apeirogon, que significa polígono infinito. McCann conta a história de dois homens, um judeu e um palestiniano, unidos pelo denominador comum de terem perdido as filhas pré-adolescentes: em 1997, Smadar, 13 anos, vítima de bombistas suícidas; em 2007, Abir, 10 anos, com um tiro na nuca. Não são personagens de ficção, isto aconteceu. Os factos foram «compilados a partir de uma série de entrevistas em Jerusalém, Nova Iorque, Jericó e Beit Jala», embora o autor tenha arredondado o discurso. Ao longo de mil e um capítulos (Mitterrand e família, amante incluída, surgem no sexto), como nas mil e uma noites do clássico árabe, McCann tenta expor o absurdo do conflito que opõe os dois Estados. São muitas as derivações de tema e sentido, da Flauta Mágica à Mossad. Vários capítulos resumem-se a uma única linha. Também há ilustrações. Como refere o subtítulo, trata-se de viagens infinitas.

A italiana Rosa Ventrella regressa com A Maledicência. Quem gostou de História de Uma Família Decente vai gostar deste regresso ao coração da Apúlia. Tendo a Segunda Guerra Mundial em pano de fundo (e, mais tarde, a reforma agrária), o romance opõe a fome e a moral, no registo fluente a que a autora nos habituou.

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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

DIANA EVANS


Hoje na Sábado:

Ajusta-se perfeitamente a Pessoas Comuns, de Diana Evans, a máxima de Tolstói: cada família infeliz é infeliz à sua maneira. A meia-idade é um período fértil em desacertos conjugais e é deles que o romance trata. Não esquecer que, mesmo de viés, o fracasso do casamento de Diana com o príncipe Carlos paira sobre o seu livro de estreia, o premiado 26a, de 2005.

Filha de pai inglês e mãe nigeriana, Diana Evans nasceu (1972) na Inglaterra mas passou parte da infância na Nigéria. Neste livro, o terceiro que publica, pretende fazer uma grande angular sobre a classe média negra britânica. Tudo começa na festa de sábado à noite dada pelos irmãos Wiley, na sua casa do sudeste de Londres, para celebrar a eleição de Obama. Os convidados, gente glamorosa e bem-sucedida, são advogados, jornalistas, actores e políticos da comunidade negra. Isto coincide com o facto de Wall Street ter arrastado o mundo para o crash de 2008. A partir da realidade concreta da capital britânica, Evans ilustra esse microcosmo de forma minuciosa: «Não paravam de chegar, homens de boa disposição e sapatilhas no ponto, mulheres com diferentes graus de cabelo postiço […] como sócias de Beyoncé.» Sublinhar que o romance progride ao som de playlist adequada (começa logo no título), onde não falta Michael Jackson, cuja morte fecha o livro.

Melissa, a personagem mais forte, é uma jornalista freelance residente na área de Crystal Palace. Entedia-se com as rotinas domésticas como acontece com a maioria das mulheres (e homens) da sua geração que têm uma profissão absorvente. Nada de extraordinário. O melhor do livro acaba por ser o tour d’horizon pela Grande Londres gentrificada, vista a partir das duas margens do rio, num périplo que se estende a Dorking, trinta quilómetros a Sul. ‘Exilado’ no Surrey por vontade da dona de casa convencional com quem casou, Damian, um aspirante a escritor cujo pai fora um conhecido activista negro, sonha com a Londres da sua vida de solteiro. Denominador comum aos casais retratados, a incomunicabilidade e o tédio de vidas que chegaram ao ponto de não retorno, após crises de identidade, equívocos embaraçosos e ocasional adultério. Terá sido pelo facto de tentarem decalcar o padrão de vida dos homens e mulheres que alimentam a imprensa cor-de-rosa? Mas Torremolinos, onde fazem férias, não é exactamente um destino trendy.

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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado:

A holandesa Marieke Lucas Rijneveld (n. 1991) conseguiu a proeza de vencer o International Booker Prize com o livro de estreia, O Desassossego da Noite. Nunca o prémio fora atribuído a alguém tão jovem. Ao receber a notícia, Marieke, então com 29 anos, exclamou: «Estou orgulhosa como uma vaca de sete tetas.» Com acção centrada numa quinta de produtores de leite dos Países Baixos, o plot apoia-se num incidente autobiográfico, a morte acidental do irmão mais velho da narradora, Cas, testemunha da tragédia quando tinha dez anos. Marieke descreve com desenvoltura o dia-a-dia da quinta, o protestantismo da família e, com precisão gráfica, o incesto entre irmãos (muito criativo o uso dado às anilhas das latas de Coca-Cola). Além de sexo e escatologia, o livro subsume violência física e verbal, fisting em bovinos, febre aftosa, abate de animais, barras de sabão introduzidas no reto do pai, etc. Tudo isto em linguagem crua, traduzida directamente do neerlandês por Patrícia Couto. Publicou a Dom Quixote.

Um tour d’horizon sobre a Belle Époque, O Homem do Casaco Vermelho traz de volta Julian Barnes (n. 1946), excelentíssimo autor da literatura de língua inglesa. O ponto de partida é uma viagem a Londres, em 1885, na qual participaram três amigos, um deles Samuel Pozzi, o ginecologista francês que foi amante de Sarah Bernhardt. Barnes decidiu escrever o livro depois de ver o retrato de Pozzi feito por John Singer Sargent (o da sobrecapa e folha de rosto). Digamos que O Homem do Casaco Vermelho é uma espécie de Who’s Who dos anos 1880-90, escrito com minúcia e sagacidade. Estão lá todos, de Oscar Wilde ao conde de Montesquiou (o dândi que Proust imortalizou como Barão de Charlus), de Clemenceau a Dreyfus, de Madame X a Jean Lorrain, de Gide a Henry James, de Huysmans aos irmãos Goncourt. Em suma, um livro culto e divertido, em edição de capa dura com extenso portofolio fotográfico. Publicou a Quetzal. 

Um novo livro de Edna O’Brien (n. 1930), a mais importante escritora irlandesa, é sempre uma boa notícia. Publicado em 2019, Menina é inspirado no rapto, pela seita Boko Haram, das alunas cristãs de uma escola nigeriana. Tudo se passou em 2014, quando mais de duzentas raparigas foram feitas escravas sexuais dos jiadistas. O romance faz silêncio sobre o local do crime, dando voz às vítimas anónimas: «Em tempos fui uma menina, mas já não sou.» Assim começa o relato de Maryam, nome fictício de alguém que sobreviveu ao cativeiro. Para melhor escrever o livro, O’Brien deslocou-se duas vezes à Nigéria. Vão longe os tempos em que as suas obras eram banidas das livrarias de Dublin, muitas delas queimadas em autos-de-fé. Contar a verdade nunca foi fácil, mas O’Brien não desistiu. Descreve a tragédia das rapariguinhas de Chibok com o mesmo desembaraço com que em 1960 descreveu os interditos da sociedade irlandesa. Agora, fez de Menina um romance sobre o indizível. Magnífico. Publicou a Cavalo de Ferro.

Quase toda a gente sabe que Simone Veil (1927-2017) foi a ministra francesa da Saúde que, em 1975, despenalizou a interrupção voluntária da gravidez, tendo sido a primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente do Parlamento Europeu. O que nem toda a gente conhece é o seu passado de prisioneira em Auschwitz-Birkenau e Bergen-Belsen. Através dos relatos feitos a David Teboul, A Madrugada em Birkenau recupera o horror da sua deportação (Simone tinha 16 anos), o paroxismo nazi da “solução final” e o regresso a França depois da prisão. Um testemunho indispensável, ilustrado por dezenas de fotografias. Publicou a Quetzal.

Estamos habituados à ficção de Zadie Smith (n. 1975), mas Sinta-se Livre é uma colecção de ensaios deveras estimulantes, especialmente os da Parte V, que tem o título do livro. Originalmente publicados na New York Review of Books e outras revistas, sobre temas tão diferentes como literatura, Brexit, identidade de género, fotografia, censura artística, Facebook, alterações climáticas, cinema, fractura de classes, liberdade, etc., são textos que nos interpelam com opiniões fortes. Publicou a Dom Quixote.

Para assinalar os 700 anos da morte de Dante Alighieri, o historiador da literatura John Took escreveu A Importância de Dante, obra subtitulada como sendo Um Guia para Pessoas Inteligentes. Na realidade, trata-se um esclarecedor companion da vida e obra de Dante, acessível ao leitor comum. Centrado em três obras — A Divina Comédia, A Vida Nova e O Convívio —, Took cativa-nos do princípio ao fim da leitura. Publicou a Bertrand.

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sábado, 4 de setembro de 2021

LEITURA


No seu blogue Acrítico, Antonio Ganhão faz a resenha do mais recente dos meus livros. Deixo aqui os últimos parágrafos:

«[...] Depois, temos esta escrita de Eduardo Pitta, limpa, sem metáforas, em linguagem direta. No início do conto Ema entra no autocarro, nada nos é dito sobre essa decisão. Mas o esgar do motorista e o espanto do revisor contam-nos toda uma história. Algo de grave se passou que não nos é dado a conhecer diretamente, cabe ao entendimento do leitor transcender a própria palavra escrita, uma elipse poderosa, avassaladora e o leitor treme de espectativa. Ao terceiro parágrafo já se rendeu e espera o pior, mas não consegue parar de ler. É assim em todos os contos, a elipse como uma segunda voz, um novo tipo de narrador a que não estamos habituados, pelo menos com este nível de mestria.

Todos nós somos senhores das nossas decisões ou de parte da nossa vida, mas o destino está nas circunstâncias de cada um, nos preconceitos, no que escondemos, no que a sociedade nos impõe, e sobreviver pode não ser uma opção. Devastação, impensável não ler este livro

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domingo, 22 de agosto de 2021

COMO É QUE ISTO SE FAZ?


Grata surpresa de domingo, a publicação no Esquerda Net — um portal mantido pelo BE desde 2006 — da leitura feita por Alice Brito do mais recente dos meus livros, Devastação.

Acaba assim:

«Como é que isto se faz? / Como é que se consegue ter este olhar caleidoscópico sobre a realidade, este olhar que nunca é explícito, mas tão certeiro, tão profundamente devastador, que nos vai retratando seres humanos, sociedades, longínquos ways of life, regimes, perdas irreversíveis, traumas ocultos que à primeira oportunidade se revelam e rebelam... [...] Como é que isto se faz? Essa é a pergunta. Sem recurso a cambalhotas de palavras, metáforas, assim com esta limpeza, esta assepsia de prosa clara. / Como é que isto se faz? Essa é a pergunta

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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

MAHFOUZ


Traduzido directamente do árabe por Badr Hassanein, Entre os Dois Palácios, do egípcio Naguib Mahfouz (1911-2006), abre a famosa Trilogia do Cairo, publicada trinta anos antes do Nobel ter dado visibilidade planetária ao autor e à literatura árabe. Foi Jackie Kennedy quem, como editora da Doubleday, comprou os direitos da obra em língua inglesa.

Dividido em 71 capítulos breves, Entre os Dois Palácios centra-se no quotidiano de uma família da pequena-burguesia cairota, entre o decurso da Primeira Guerra Mundial e as sequelas da Revolução Egípcia de 1919 contra o domínio britânico. O patriarca, Ahmad Abdel Gawward, é um comerciante devoto, autoritário, alcoólatra e devasso. O plot realça a identidade cultural do Islão, por oposição a práticas ocidentais. Cada membro da família ilustra uma sensibilidade política diferente, estando a narrativa impregnada de tradição, sexo, drogas, contradições, desobediência e abuso. Nenhum dos cinco filhos, duas raparigas e três rapazes, aceita a intolerância do pai, um libertino dominador para quem a moral islâmica só tem validade dentro de casa (e com os seus). Os irmãos não se entendem, excepto no amor pela mãe, denominador comum. Em pano de fundo, a vida dos bairros populares do Cairo, incluindo os motins contra o regime de Propectorado que a todos oprime.

Frequentemente comparado a Dickens, cuja obra conhecia bem, Mahfouz foi uma personalidade discreta da vida literária egípcia. Nascido no seio de uma família pobre, fez estudos de filosofia, foi funcionário público (um dos lugares que ocupou foi o de director do gabinete de censura ao cinema), colaborou na imprensa, casou tarde e raramente viajou. Era assessor do ministro da Cultura quando decidiu ser escritor a tempo inteiro.

Escreveu perto de quarenta romances, centenas de contos, quatro peças de teatro, uma autobiografia e diversos guiões para filmes, mas nenhum a partir de obras suas, dezenas das quais foram adaptadas ao cinema. Em 1994, por causa de um folhetim sobre religiões monoteístas, publicado em 1959 no jornal Al-Ahram, foi vítima de tentativa de assassinato. Apunhalado no pescoço, sobreviveu, mas precisou de protecção policial até morrer. Após a morte de Mahfouz, Children of Gebelawi foi finalmente editado em livro no Egipto (no Líbano circulava desde 1967), acentuando a passagem do realismo social para as questões da fé, escolha que colocou o autor em conflito com as autoridades religiosas.

Publicou a E-Primatur.

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quinta-feira, 8 de julho de 2021

CARDOSO PIRES BIOGRAFADO


Hoje na Sábado

Chegou finalmente às livrarias a tão aguardada biografia de José Cardoso Pires (1925-1998), nome maior da ficção portuguesa. Bruno Vieira Amaral, o biógrafo, escolheu um título certeiro — Integrado Marginal. Ao contrário de muitos dos seus pares, Cardoso Pires foi uma personalidade de certo modo “secreta”, razão acrescida para o interesse suscitado pelo livro de Amaral.

Sem perder de vista a vida cultural e política do país ao longo de seis décadas, bem como a boémia tão do agrado de Cardoso Pires, o biógrafo ilustra as origens rurais do biografado, o estertor da Primeira República, o tédio precoce pelo quotidiano pequeno-burguês, as primícias literárias, as amizades com Pomar, Castro Soromenho, Luiz Pacheco e outros, a iniciação sexual das «matinées-segóvia», uma viagem a África como tripulante de navio (curiosos os flashes da sua estadia em Lourenço Marques em 1945), o MUD Juvenil, a passagem pelo PCP, a “tutoria” de Mário Dionísio, o primeiro livro em 1949, os anos em que foi guia-intérprete da TAP, experiências como editor, a revista Eva, a cumplicidade com Maria Lamas, atritos com a crítica, apreensão pela PIDE do segundo livro, a morte do irmão, o casamento com Edite («o rochedo da família»), as filhas, desilusão com o Movimento Para a Paz, os retiros na Caparica, a parceria com Figueiredo Magalhães, a consolidação da obra — a partir de O Anjo Ancorado, de 1958 —, o Golpe da Sé, a direcção do Almanaque, o crime da praia do Guincho (móbil de Balada da Praia dos Cães), a fuga para Londres em 1960, a temporada brasileira, o congresso em Itália da Comunità Europea Degli Scrittori, o prémio para O Hóspede de Job, a extinção da SPE, a publicidade, consagração com O Delfim (1968), leitor e depois escritor residente no King’s College de Londres, o Diário de Lisboa, passagem pela Câmara de Lisboa, a ida ao Camboja, o Prémio da União Latina e o Grande Prémio da APE, o reconhecimento institucional, o apagão cerebral de 1995 e um De Profundis por antecipação.

Bruno Vieira Amaral calibra bem a vasta informação de que dispõe, analisa com argúcia a obra de Cardoso Pires e abstém-se de especulações laterais. Apenas lamento a ausência de uma bibliografia activa do biografado. No mais, Integrado Marginal cumpre com brio o protocolo do género.

Publicou a Contraponto. Clique na imagem.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado

Começar pelo princípio: Marilynne Robinson (n. 1943), voz maior da literatura norte-americana, está de volta com Jack. Com acção em Gilead, a cidade que empresta o nome ao título do romance que a fez vencer o Pulitzer de Ficção em 2005, o livro conta a história de Jack Boughton, filho “problemático” de um pastor presbiteriano. Já o conhecemos de Gilead, Home e Lila, os romances anteriores da tetralogia. O ponto crítico está na ligação amorosa de um homem branco com uma mulher negra, na América dos anos 1950. Ser professora e filha de um bispo metodista influente na comunidade negra não isenta Della Miles dos interditos da lei. Mas a vexata quaestio nem sequer reside aí. Para Marilynne Robinson, a questão central é pôr em pauta o tipo de país em que a América se transformou. O dilema de Hamlet paira como uma sombra nas discussões “teológicas” de Jack e Della. Notável. Publicou a Relógio d'Água.

Finalmente podemos ler Luto em português. Trata-se do romance mais traduzido e premiado do guatemalteco Eduardo Halfon (n. 1971), judeu mizrahim que nos faz mergulhar no horror de um país destroçado pela guerra civil. No Verão de 1981, antes de completar dez anos, o narrador muda-se com os pais para os Estados Unidos. O relato será feito a partir da Flórida, a pretexto da memória de um tio que nunca conheceu: «Chamava-se Salomón. Morreu aos cinco anos, afogado no lago Amatitlán.» Filtrada pelas raízes familiares — polacas por parte da mãe, libanesas do lado paterno —, a escavação do passado expõe o conflito entre culpa e curiosidade. Publicou a Dom Quixote.

A Trilogia da Cidade de K. traz de volta os livros mais famosos de Agota Kristof (1935-2011), a escritora que fugiu para a Suíça após o fracasso da Revolução Húngara de 1956. Radicada em Neuchâtel, tornou-se cidadã helvética e publicou a obra em francês. Reunidos em volume único, O Caderno Grande (1986), A Prova (1988) e A Terceira Mentira (1992) contam a história de dois gémeos amorais, vítimas da guerra e toda a espécie de iniquidades. Escrito em capítulos muito curtos, O Caderno… suscitou controvérsia quando foi publicado, dando origem a um processo judicial (as cenas de sexo e crime foram consideradas pornográficas). Os outros dois romances têm uma estrutura mais convencional, desdizendo, cada um a seu modo, as “verdades” do Caderno… Publicou a Relógio d'Água.

Sessenta anos após a sua primeira publicação, Chamada Para o Morto volta às livrarias, desta vez com uma introdução escrita para assinalar a data pelo próprio John le Carré (1931-2020). O livro marca o “nascimento” de Smiley, o espião improvável com quem Le Carré cresceu e amadureceu. Chamada Para o Morto é o primeiro de nove romances centrados na figura desse erudito da cultura alemã que fará dos serviços secretos a sua razão de vida (a mulher, Lady Ann Sercomb, trocou-o por um piloto cubano de Fórmula Um). O plot gira em torno do alegado suicídio de Samuel Fennan, funcionário do Foreign Office britânico. Foi o primeiro, mas já era vintage. Publicou a Dom Quixote.

Condensar a história inglesa entre o século V e o fim dos anos 1990 numa síntese rigorosa, foi o que fez Simon Jenkins (n. 1943) ao escrever esta Breve História de Inglaterra. Em menos de quatrocentas páginas, o autor faz um tour d’horizon deveras estimulante, que nos leva da Alvorada Saxónica ao legado de Thatcher, dissecando temas tão importantes como a Reforma religiosa (o conflito com o Papa) ou o Estado-Providência criado em 1945. A obra inclui uma cronologia de datas-chave, bem como a lista de todos os soberanos e primeiros-ministros do Reino Unido. Publicou A Esfera dos Livros.

A morte de Marcelino da Mata, controverso oficial dos Comandos, acordou velhos fantasmas da Guerra Colonial. Um deles, porventura o mais polémico, foi a invasão falhada da Guiné-Conacry, em Novembro de 1970. Efectuado por via marítima, o golpe visava capturar Amílcar Cabral, líder do PAIGC, libertar prisioneiros portugueses, levar os oposicionistas de Sékou Touré ao poder, e destruir os caças russos Mig. Operação Mar Verde, de António Luís Marinho, expõe os factos com exemplar minúcia: Amílcar Cabral não foi encontrado, não havia Migs no aeroporto de Conacry, os oposicionistas da FLNG não conseguiram eliminar Sékou Touré. Portugal desmentiu tudo. Prefaciado por Guilherme Alpoim Calvão, responsável pela tentativa desse coup d'État, o volume inclui dezenas de fotografias, índice onomástico e, em anexo, documentação militar. Um documento para a História. Publicou a Temas & Debates.

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sexta-feira, 11 de junho de 2021

HIGHLIGHT


Helena Vasconcelos, hoje no Público, sobre Devastação

«[...] É essa sensação de incómodo, a que não falta um arrepio de excitação, que acompanha a leitura destes seis contos de Eduardo Pitta, reunidos sob o título Devastação. Eduardo Pitta é um daqueles autores que é capaz de escrever poesia, ensaio, literatura de viagens e prosa sem nunca abandonar uma espécie de “lirismo selvagem”, em que a crueldade natural do ser humano se conjuga elegantemente com as evocações mais refinadas, as referências mais requintadas. [...] Com uma concisão que lembra os contos de Lydia Davis e a poética desencantada dos de Raymond Carver, Eduardo Pitta é, no entanto, original e único na forma como, em poucas palavras sabiamente escolhidas, cria tensão, drama, angústia e desassossego. [...] São contos cruéis e surpreendentemente exaltantes

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quarta-feira, 2 de junho de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

Os indefectíveis de Patricia Highsmith (1921-1995) dispõem agora, não de um novo thriller, mas do ensaio Suspense ou a Arte da Ficção. Mais do que um manual de escrita criativa, trata-se de um companion da obra. Publicado em 1966, quando era já uma escritora consagrada (o seu alter-ego, Ripley “nasceu” em 1955), Highsmith fez em 1981 uma edição revista e alargada, agora traduzida. Filha de um casal de artistas que se divorciou antes do seu nascimento, Highsmith foi uma vítima da depressão e do álcool, uma lésbica socialmente inadaptada que criou uma das obras literárias mais consistentes do século XX. Preciosa, esta tese sobre a arte da ficção. Publicou a Cavalo de Ferro.

Aos poucos, vai-se fazendo a história da colonização. O segundo volume das memórias de João Afonso dos Santos (n. 1927), Até ao Cair da Folha, abrange os anos que vão de 1947 a 1975. Sob um título genérico — O Último dos Colonos —, o autor põe em letra de forma «impressões e rememorações» do tempo passado em Moçambique, onde viveu em dois períodos distintos, primeiro em criança (o pai era juiz e estava radicado na Colónia desde os anos 1930), depois em adulto, como advogado. Tal como no primeiro volume, relata peripécias do irmão mais novo, o cantor Zeca Afonso, professor do ensino secundário em Lourenço Marques e na Beira, nos anos 1960. O autor discreteia sobre a oposição ao Estado Novo, levando o relato até à independência do país. Além de retratos de família, o volume inclui documentos da transição independentista. Publicou a Sextante.

Um novo livro da israelita Zeruya Shalev (n. 1959), O Que Resta da Nossa Vida, expõe vários tabus a partir do momento em que uma octogenária moribunda passa a sua vida em revista, dos anos do kibutz aos desacertos da vida em família: um filho advogado de causas “erradas”, uma filha por quem sente repulsa desde a gravidez. A neta, por sua vez, despreza a mãe. Mas o plot não se esgota no drama familiar. São claras as críticas da autora (vítima de um atentado terrorista em 2004) à política de expansão israelita. Pela sua tradução em França, O Que Resta da Nossa Vida recebeu o Prémio Femina Étranger. Publicou a Elsinore.

A saga de Harro e Libertas Schulze-Boysen, o casal alemão que lutou contra Hitler, é o tema de Os Infiltrados, de Norman Ohler (n. 1970), jornalista especializado em história da Segunda Guerra Mundial. Escrito com exemplar minúcia, o autor faz questão de sublinhar que não se trata de um texto ficcional. A nota prévia faz luz sobre a razão de ser do livro. A partir de correspondência, diários e recortes de imprensa, Ohler reconstrói a vida de Harro e Libertas, membros destacados da Orquestra Vermelha, nome dado pela polícia política aos dissidentes. Harro era um intelectual de esquerda quando a guerra fez dele oficial da Luftwaffe. Libertas foi uma aristocrata liberal que se afastou das simpatias pró-nazis da família para acompanhar o amante e futuro marido. Os dois tinham um casamento aberto, e uma intensa vida boémia, mas nada disso os desviou da espionagem a favor da União Soviética e do auxílio a judeus perseguidos. Em Dezembro de 1942, com uma hora de intervalo, ambos foram executados. Todas as fontes estão creditadas e as inúmeras fotografias ilustram os anos felizes. Publicou a Vogais.

Saiu mais um livro vermelho da Guerra & Paz — Vamos Ler! Um Cânone Para o Leitor Relutante, de Eugénio Lisboa (n. 1930), suma de cinquenta obras de trinta e cinco autores portugueses. Destinado a leitores relutantes, exclui autores que, «embora grandes ou notáveis, não se adequam ao [objectivo de] atrair leitores.» A ressalva justifica as ausências de, entre outros, Aquilino e Herberto, privilegiando as presenças de Eça, Régio, Sena, Sophia, etc. Eugénio Lisboa “defende” as obras escolhidas, uma delas de Miguel Sousa Tavares. Não faltam remoques à crítica highbrow. Sínteses biográficas de cada autor ajudam o leitor a contextualizar a obra. Publicou a Guerra & Paz.

Com A Força da Não-Violência, a filósofa americana Judith Butler (n. 1956) põe em pauta, de forma clara, o debate em torno da desobediência civil, sublinhando as questões éticas associadas à ambiguidade semântica dos conceitos de violência e não-violência. Mas as vagas de imigrantes fugidos à guerra, o feminicídio, o movimento Ni Una Menos, etc., também são tratados, tornando leitura do livro deveras estimulante. Publicaram as Edições 70.

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terça-feira, 1 de junho de 2021

CRÍTICA


Instantâneo do debate sobre crítica, realizado no Mercado de Alvalade.

Da esquerda para a direita vêem-se Carlos Vaz Marques (moderador), Manuel Frias Martins, eu próprio no uso da palavra, Pedro Mexia, Isabel Lucas e Helena Vasconcelos.

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quinta-feira, 15 de abril de 2021

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

O gigante perdido da literatura americana, como é conhecido William Melvin Kelley (1937-2017), chegou finalmente à edição portuguesa. Depois da morte do autor, Um Tambor Diferente, o aclamado romance de estreia, tem sido reeditado em todo o mundo. Kelley, que também foi professor de escrita criativa no Sarah Lawrence College, deixou uma obra parcimoniosa: cinco títulos, publicados entre 1962 e 1970. Mesmo oriundo de Harvard e vivendo em Nova Iorque, onde o comparavam a Faulkner e James Baldwin, era complicado um negro impor-se no milieu literário norte-americano. Isso explica que tenha vivido quase uma década entre Paris e Roma, radicando-se em 1968 na Jamaica. Escrito quando a luta pelos direitos civis marcava a agenda política, Um Tambor Diferente é o relato vibrante da rejeição, por parte de Tucker Caliban (o protagonista), das iniquidades do Sul Profundo. Após salgar as terras, abater o cavalo e deitar fogo à casa onde vivia com a mulher grávida, Tucker parte para o Norte, decisão que desencadeia o êxodo da comunidade negra. A originalidade do plot reside no facto de ser narrado a partir do ponto de vista dos brancos. Publicou a Quetzal.

A reedição de Fome, do norueguês Knut Hamsun (1859-1952), traz de volta um autor controverso. Admirador de Hitler e Goebbels, racista confesso, colaborador nazi, foi julgado e condenado por traição ao seu país. Além de romances e contos, Hamsun escreveu poesia, ensaios e panfletos. Após publicar Os Frutos da Terra (1917), recebeu o Nobel da Literatura em 1920. O domínio do fluxo de consciência acentua o carácter autobiográfico de Fome, o seu primeiro livro (1890), elogiado por Gide, Thomas Mann e outros. Liliete Martins traduz directamente do norueguês. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrito para a BBC Radio, Estilicídio, do galês Cynan Jones (n. 1975), são esses doze episódios em forma de livro. Estilicídio significa ‘queda de água gota a gota’. Série de antecipação sobre como sobreviver a uma crise climática de proporções bíblicas, coloca o leitor perante a possibilidade da falta de água. A acção centra-se numa grande metrópole (admitamos que seja Londres) devastada por uma sucessão de secas e enchentes. Uma das alternativas consiste em rebocar um iceberg do Ártico. Falta porém consenso entre quem manda, a população, os ambientalistas e, como é de regra, os terroristas que também entram na história. Resumindo: Estilicídio ecoa todas as harmónicas possíveis num guião televisivo. Publicou a Elsinore.

É sempre gratificante voltar a Cesare Pavese (1908-1950), nome maior da literatura italiana. Poeta, ficcionista, ensaísta, diarista, crítico, tradutor de Joyce, Melville e outros, Pavese suicidou-se aos 41 anos, poucos meses depois de receber o Prémio Strega e de publicar A Lua e as Fogueiras, o livro derradeiro. Narrado na primeira pessoa («Há uma razão para eu ter voltado para esta aldeia…») pela voz de um emigrante regressado da América após o fim da Segunda Guerra Mundial, demonstra a impossibilidade de resgatar o passado. Tudo rui à sua volta, e nem a fortuna acumulada desfaz a condição de “bastardo”. Uma elegia seca e amarga dos lugares e pessoas da remota infância. Publicou a Bertrand.

Quando George Orwell (1903-1950) escreveu 1984, estava longe de supor o impacto que o livro teria nas gerações vindouras. Agora que a obra caiu em domínio público, sucedem-se as reedições. A obra de Orwell recentrou a distopia em literatura, na medida em que o seu precedente mais célebre, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, não resistiu à usura do tempo. Pelo contrário, o Grande Irmão (o Big Brother) faz parte do imaginário contemporâneo. Escrito com a intenção de denunciar o totalitarismo estalinista, a tese do controlo total por parte do Partido é o Leitmotiv do romance. Um dos personagens, o poeta Ampleforth, intelectual praticante da Novilíngua, parece ser uma caricatura de Auden. Gonçalo M. Tavares assina o prefácio. Publicou a Relógio d'Água.

Numa altura em que se verifica o avanço de forças extremistas em democracias consolidadas, convém ler O Regresso da Ultradireita, de Cas Mudde (n. 1967), o cientista político holandês que tem escrito sobre as várias formas de populismo. Analisando a rapidez com que partidos tradicionais, outrora conservadores, interiorizaram o discurso de homens como Trump ou Bolsonaro, Mudde faz um tour d’horizon às franjas radicais que controlam os governos de vários países, dentro e fora da Europa. A quarta vaga da ultradireita é o enfoque do livro. Por que é que há vinte anos as opiniões públicas reagiam indignadas à xenofobia, e hoje reagem com um bocejo à sua “normalização”? Publicou a Presença.

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