sexta-feira, 4 de março de 2022

CARA A CARA


Em vez de ouvirmos Emmanuel Macron a reportar conversas telefónicas com Putin, estratagema porventura útil à campanha presidencial francesa, quem já devia ter ido a Moscovo era o secretário-geral da ONU.

Exactamente, António Guterres. Fosse qual fosse o resultado da conversa, o testemunho do secretário-geral da ONU — que tem a obrigação de zelar pela paz — seria ouvido em todo o mundo.

Com o mundo à beira do precipício ou, na melhor das hipóteses, com uma catástrofe de proporções inimagináveis no centro da Europa, o protocolo das sessões do Conselho de Segurança (onde a Rússia detém o poder de veto) obedece a uma coreografia viciada.

Clique na imagem.

quarta-feira, 2 de março de 2022

ATÉ QUE ENFIM


A SPA sente-se «Revoltada com a grave situação militar e política vivida nestes dias pelo povo ucraniano, invadido pelas forças armadas russas...» 

Honra à Sociedade Portuguesa de Autores, primeira instituição cultural portuguesa a manifestar-se contra a invasão da Ucrânia.

Como seu representado, teria preferido uma tomada de posição entre os dias 25 e 26 de Fevereiro, mas antes tarde que nunca.

Imagem: primeiro parágrafo do comunicado da SPA. Clique.

E VÃO SETE DIAS


Prevista para durar menos de 24 horas, a invasão russa vai no sétimo dia sem que o Governo de Zelensky tenha caído.

O intelligence russo já não é o que era? Quem convenceu Putin de que a operação ficaria resolvida em poucas horas?

Como é que alguém pôde pensar subjugar, de um dia para o outro, um país com mais de quarenta milhões de habitantes (sendo russos 17%), Governo eleito, forte tradição de resistência e apoio de todo o Ocidente?

O que pretende Moscovo fazer de um território maior do que a França depois de destruir todas as suas infraestruturas?

Por exemplo, a cidade de Kharkiv, a segunda maior do país, sob destruição metódica desde o início do conflito, é um importante centro cultural e científico, com treze universidades classificadas entre as melhores da Europa, indústria electrónica de ponta, etc. Comparada com Kharkiv, Lisboa é uma cidade de província.  

O que acontecerá se uma das centrais nucleares ucranianas — nem precisa de ser a de Zaporizhzhia, a maior da Europa — for alvo (intencional ou por dano colateral imprevisto) de um acidente idêntico ao de Chernobyl?

Imagem: fragmento do míssil que atingiu o SBU de Kharkiv, hoje. Clique.

terça-feira, 1 de março de 2022

A VER SE A GENTE SE ENTENDE

Durante a Guerra Colonial (1961-1974), uma larga maioria de portugueses solidarizou-se, sob diversas formas, com os povos das Colónias que lutavam pela independência.

Não quero acreditar que, salvo por parte dos sociopatas do costume, essa solidariedade traduzisse ódio pelos portugueses nascidos e/ou radicados nas Colónias.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia coloca a mesma questão: a nossa solidariedade com o povo ucraniano em nada diminui igual solidariedade com o povo russo.

É dever dos intelectuais não assobiar para o lado.

SEQUELAS NO MILIEU ARTISTE

UPDATE DO SEXTO DIA DA INVASÃO DA UCRÃNIA

— Kirill Savchenkov e Alexandra Sukhareva, os artistas plásticos escolhidos para representar a Rússia na Bienal de Veneza 2022, desistiram de participar, alegando: Não há lugar para arte quando civis são mortos sob o fogo de mísseis, quando cidadãos da Ucrânia vivem escondidos em abrigos, quando manifestantes russos anti-guerra estão ser amordaçados e presos.

Raimundas Malasauskas, curador do pavilhão russo, também se retirou, subscrevendo a posição de Savchenkov e Sukhareva.

— A Filarmónica de Munique demitiu Valery Gergiev do cargo de maestro-chefe. Amigo pessoal de Putin, Gergiev também viu cancelada a sua presença no Scala de Milão, no Carnegie Hall de Nova Iorque e no Festival de Edimburgo.

— A soprano russa Anna Netrebko, que deveria actuar no MET (Nova Iorque) em Abril, já não o poderá fazer. A senhora escreveu no Instagram o seguinte: «Forçar artistas, ou qualquer figura pública, a expressar as suas opiniões políticas em público, denunciando a sua pátria, é errado.» Peter Gelb, responsável máximo do MET, não se comoveu. A Turandot terá outra solista.

— A Royal Opera House de Londres cancelou a temporada de Verão do Bolshoi Ballet.

— O Festival de Música da Primavera, que se realiza todos os anos em Lucerna (Suíça), este ano dedicado a Mendelssohn e com início marcado para o próximo 8 de Abril, cancelou a presença de todos os artistas russos.

— A Grécia vai suspender a colaboração com todas as organizações culturais russas.

— A Rússia foi expulsa da Eurovisão.

— A Warner Bros, a Disney e a Netflix cancelaram a distribuição de filmes (e as emissões por cabo) na Rússia.

Imagem: o pavilhão da Rússia no Giardini della Biennale, em Veneza.

PEN INTERNACIONAL



Claro que os intelectuais têm de tomar posição. Assinada por mais de mil escritores de todo o mundo (entre eles Joyce Carol Oates, Salman Rushdie, Margaret Atwood, Orhan Pamuk, Svetlana Alexievich, Jonathan Franzen, Lyudmila Ulitskaya, Colm Tóibín, Olga Tokarczuk e Paul Auster), a carta do PEN internacional é clara: solidariedade com o povo da Ucrânia (em especial com os artistas, escritores e jornalistas), condenação da invasão russa e apelo para o fim imediato das hostilidades.

Aos meus pares que não saibam como o fazer, o contacto é este: Aurelia.dondo@pen-international.org

Imagem: excerto das assinaturas, por ordem alfabética (apelido). Clique.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

RÉGIO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Libertação de José Régio (1901-1969), um dos fundadores, e o principal teórico, da revista Presença, que se publicou durante treze anos, dando corpo ao segundo modernismo.

Natural de Vila do Conde, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, Régio foi, além de poeta, também dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, cronista, crítico, diarista, memorialista e desenhador. Estreou-se em livro com Poemas de Deus e do Diabo (1925), colectânea que inclui Cântico Negro, o mais famoso dos seus poemas.

Professor de liceu no Porto e em Portalegre, foi uma das personalidades mais destacadas da vida literária portuguesa entre os anos 1930 e 1960. Morreu aos 68 anos sem nunca ter constituído família.

Publicado originalmente no livro de estreia, o poema desta semana foi integrado, em 1939, no segundo, Biografia. A imagem foi obtida a partir de Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra, publicada em 2002 pela Cotovia e Angelus Novus.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neill, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Miguel Torga, Ângelo de Lima, Pedro Tamen e António Ramos Rosa.]

Clique na imagem.