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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

CARMEN DOLORES 1924-2021


Morreu hoje Carmen Dolores, uma das mais respeitadas actrizes portuguesas de teatro, cinema e televisão.

Estreou-se nos palcos em 1945, embora já antes fizesse teatro radiofónico. Antes de retirar-se em 2005, no Teatro Aberto, pertenceu às companhias do Teatro da Trindade, Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Nacional Popular e Teatro Moderno de Lisboa, interpretando clássicos como Raul Brandão, Tennessee Williams, Garrett, Dürrenmatt, Giraudoux, Brecht, Pirandello, Strindberg, Tchekhov, Turguêniev e outros. Como diseuse, foi grande divulgadora de poesia.

Viveu em Paris durante sete anos (1976-83), época durante a qual deu recitais de poesia no Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian da capital francesa.

No cinema trabalhou sob direcção de António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros, António de Macedo e José Fonseca e Costa. Em 2018, a sala principal do Teatro da Trindade, de Lisboa, passou a designar-se Sala Carmen Dolores. Foi várias vezes laureada e condecorada.

Publicou três livros de memórias: Retrato Inacabado (1984), No Palco da Memória (2013) e Vozes Dentro de Mim (2017). Faria 97 anos no próximo mês de Abril.

Clique na imagem.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

CECÍLIA E ADELAIDE



Vítimas de Covid-19, morreram na Casa do Artista as actrizes Adelaide João (1921-2021) e Cecília Guimarães (1927-2021). Ambas trabalharam, durante décadas, em teatro, cinema e televisão. 

Cecília Guimarães morreu ontem, com 93 anos. Adelaide João, que faria cem anos no próximo mês de Julho, morreu hoje.

Adelaide João estreou-se em 1960 e trabalhou até 2017. Após o curso do Conservatório foi para Paris com uma bolsa da Gulbenkian, permanecendo cinco anos na capital francesa. Integrou o elenco de várias companhias, tais como, entre outras, as do Teatro Nacional D. Maria II, O Bando, Teatro Experimental de Cascais e Teatro Estúdio de Lisboa (de Luzia Maria Martins). No cinema, foi dirigida por António da Cunha Telles, António de Macedo, António-Pedro Vasconcelos, Ernesto de Sousa, Fernando Lopes, José Álvaro de Morais, José Fonseca e Costa, Lauro António, Luís Galvão Teles, Manoel de Oliveira, Noémia Delgado, João Botelho, João Mário Grilo, Ricardo Costa e outros. Na televisão protagonizou inúmeras séries e telefilmes.

Cecília Guimarães estreou-se em 1951 e trabalhou até 2018. Após o curso do Conservatório integrou o elenco de várias companhias, tais como, entre outras, as do Teatro Nacional D. Maria II, Teatro da Trindade, Teatro Experimental do Porto, Teatro da Cornucópia, Teatro Experimental de Cascais, Teatro Maria Matos, Teatro de Almada, Artistas Unidos (de Jorge Silva Melo) e Teatro de Braga. No cinema, foi dirigida por António Lopes Ribeiro, Manoel de Oliveira e outros. Na televisão interpretou sobretudo peças de teatro clássico.

Duas grandes actrizes, de perfil diferente, a quem a Cultura portuguesa muito deve.

Imagens: Cecília Guimarães (ao alto) e Adelaide João. Clique.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

LARS NORÉN 1944-2021


Vítima de Covid-19 morreu ontem Lars Norén, dramaturgo, ficcionista e poeta sueco, considerado o sucessor de Strindberg. Tinha 76 anos.

Como encenador, além do Dramaten, ou Kungliga Dramatiska Teatern de Estocolmo, Norén trabalhou em Paris e Copenhaga.

Em 1999, a sua peça 7:3 foi interpretada no Riksteatern por presidiários neo-nazis. Três fugiram, assaltaram a agência de Kisa do Banco Östgöta Enskilda e assassinaram barbaramente dois polícias. O caso é conhecido como ‘os assassinatos de Malexander’.

Estreado como poeta, foi no teatro que se notabilizou, sendo considerado o mais importante dramaturgo contemporâneo da Suécia.

Figura polémica, publicou em 2008 o primeiro volume do seu diário, En dramatikers dagbok, um cartapácio de mil e setecentas páginas. Os volumes seguintes foram publicados em 2013 e 2016. A sua extensa bibliografia inclui textos para rádio e televisão.

Dizem os especialistas que Norén constitui, com Ibsen, Strindberg e Bergman, o quarteto mais brilhante da cultura nórdica.

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sábado, 25 de julho de 2020

BRUNO CANDÉ 1981-2020


Bruno Candé, actor, 39 anos, foi morto com quatro tiros disparados à queima-roupa na Avenida de Moscavide. Aconteceu hoje por volta da uma da tarde.

O autor dos disparos, um homem branco, foi neutralizado por populares e entregue à PSP. O caso está a ser investigado pela PJ. Em consequência do grave acidente de bicicleta que o deixou em coma vários meses, Bruno Candé, natural da Guiné-Bissau, tinha grandes limitações de mobilidade desde 2017.

Segundo um comunicado da família, «O assassino já o havia ameaçado de morte três dias antes, proferindo vários insultos racistas. [...] Face a esta circunstância, fica evidente o carácter premeditado e racista deste crime hediondo.»​

Entretanto, a actriz Marta Félix disse ao PÚBLICO: «Terá havido uma discussão na quarta-feira [dia 22] depois de o homem ter tropeçado na cadela do Bruno, da qual era inseparável e que foi importante na sua recuperação. O homem terá ameaçado o Bruno de morte e, hoje, quando ele estava numa esplanada na avenida principal de Moscavide, onde ia assiduamente, o homem avistou-o, terá ido pouco depois a casa buscar uma arma, e disparado quatro tiros

Bruno Candé formou-se no Chapitô e pertencia à Casa Conveniente, de Mónica Calle, companhia de teatro onde se estreou com A Missão. Memórias de uma Revolução (1979), de Heiner Müller. Actualmente participava num workshop da companhia. Deixou mulher e três filhos menores.

Imagem: BlogOperatório. Clique.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

FESTIVAL DE ALMADA


Bruscamente no Verão Passado, de Tennessee Williams, pelo Teatro Experimental de Cascais, é um dos espectáculos que hoje marcam o início da 37.ª edição do Festival de Almada.

Uma obra-prima que põe em pauta temas como hipocrisia, canibalismo, homossexualidade, abuso e loucura. Encenada por Carlos Avilez, a peça (1958) de Williams é interpretada por Bárbara Branco, Bernardo Souto, João Gaspar, Lídia Muñoz, Luísa Salgueiro, Manuela Couto e Teresa Côrte-Real.

Às 21:00 no Teatro Municipal Joaquim Benite.

Nesta 37.ª edição, o Festival de Almada apresentará dezassete espectáculos (não confundir com sessões, que são mais), catorze dos quais de companhias portuguesas.

Além do próprio Teatro de Almada, também os Artistas Unidos, a Comuna, o Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa), o Teatro Nacional São João (Porto), o TEC (Cascais), o Teatrão (Coimbra), etc. Devido às contingências internacionais da pandemia, a presença de companhias estrangeiras é reduzida a três companhias de Espanha, com obras de Celso Giménez, Dario Fo/Franca Rame e Agnès Mateus/Quim Tarrida.

Nem toda a gente saberá, mas o Festival [internacional] de Almada é um dos de maior prestígio na Europa.

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sábado, 20 de junho de 2020

PEDRO LIMA 1971-2020


Foi esta manhã encontrado morto o actor Pedro Lima. O corpo foi descoberto na praia do Abano, no Guincho.

Natural de Luanda, o actor tinha dupla nacionalidade, tendo representado Angola como nadador nos Jogos Olímpicos de 1988 e 1992.

Em 1997 tornou-se actor, tendo interpretado peças de Beckett, Strindberg, Mamet, Tchekov, Stoppard, Fosse (este sob direcção de Jorge Silva Melo), etc., mas foi como actor de novelas e séries de televisão que o grande público fixou o seu nome. Dos filmes que protagonizou destacaria O Contrato, de Nicolau Breyner (2009), Quarta Divisão, de Joaquim Leitão (2013), e A Uma Hora Incerta, de Carlos Saboga (2015). Pedro Lima deixa cinco filhos. Tinha 49 anos.

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quarta-feira, 25 de março de 2020

TERRENCE McNALLY 1938-2020


Vítima do Covid-19, morreu ontem o dramaturgo e libretista americano, Terrence McNally, uma das primeiras celebridades a não resistir ao coronavírus. Deixa viúvo o produtor teatral Tom Kirdahy.

Considerado o maior dramaturgo americano vivo, quatro vezes laureado com o Tony, McNally é autor de 40 peças de teatro, dez musicais, do libreto de quatro óperas, etc.

Tinha 81 anos e morreu em casa.

Imagem: New York Times. Clique.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

MÁQUINA HAMLET


Com encenação de Jorge Silva Melo estreou ontem no Teatro da Politécnica A Máquina Hamlet de Heiner Müller.

Durante cerca de uma hora, somos absorvidos pela música de João Madeira e pelo texto que Müller escreveu em 1977, ainda no tempo da RDA, denunciando a situação vivida pelos artistas e intelectuais alemães.

João Pedro Mamede, Américo Silva, Inês Pereira, André Loubet, Hugo Tourita, João Estima e José Vargas interpretam. Simplificando muito, diria que a peça se apoia nos monólogos (shakespearianos) de Mamede e Américo Silva. Inesperado, bem conseguido, o Pas de Deux a que Mamede e André Loubet dão corpo.

O texto de Müller chega à nossa língua pela mão de Maria Adélia Silva Melo e Jorge Silva Melo. Os Artistas Unidos não podiam ter começado melhor o ano.

Clique na foto de Jorge Gonçalves.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

NORBERTO BARROCA 1937-2020


Morreu hoje Norberto Barroca, actor, encenador, cenógrafo, figurinista e arquitecto de quem fui amigo.

O Norberto viveu cerca de três anos em Lourenço Marques, integrado num projecto de requalificação do Caniço, mas depressa entrou no programa da Gulbenkian que apoiava dois grupos de teatro locais, o TALM e o TEUM.

Após o regresso a Portugal, integrou o Teatro Experimental de Cascais, a Casa da Comédia, o Teatro Estúdio de Lisboa, a Barraca, a Comuna, o Novo Grupo/Teatro Aberto, o Teatro Nacional D. Maria II, a Seiva Trupe, a Centelha (de Viseu) e outros. Foi director artístico do Teatro Experimental do Porto e do Teatro São Luiz de Lisboa. Do seu repertório fazem parte obras de Gil Vicente, Francisco Manuel de Mello, Sttau Monteiro, Pirandello, Shakespeare, Joe Orton, etc. Como actor e encenador trabalhou com toda a gente que conta no teatro português, tendo entrado em filmes de Manoel de Oliveira, Jorge Silva Melo, Paulo Rocha e Eduardo Geada. Tinha 82 anos.

Clique na foto do Jornal da Marinha Grande, cidade onde nasceu. A autarquia decretou luto municipal.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

PRÉMIO PESSOA


Tiago Rodrigues, 42 anos, actor, dramaturgo, encenador, gestor cultural e actual director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, de Lisboa, é o vencedor do Prémio Pessoa 2019.

Ao longo dos últimos vinte anos, Tiago Rodrigues trabalhou com companhias de teatro nacionais e estrangeiras (uma delas sendo a STAN belga), foi argumentista das Produções Fictícias, criou a companhia Mundo Perfeito, foi professor na Universidade de Évora e na Escola Superior de Dança de Lisboa, colaborou com coreógrafos e cineastas, etc. Actualmente colabora com a Royal Shakespeare Company numa adaptação de dois romances de Saramago.

O júri do prémio é constituído por Francisco Pinto Balsemão, Rui Vilar, Ana Pinho, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Maria Manuel Mota, Eduardo Souto de Moura, Maria de Sousa, José Luís Porfírio, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho-Marques.

Clique na imagem.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

JOSÉ LOPES 1958-2019


Não há palavras para descrever o horror.

Na tenda que lhe servia de tecto, morreu um homem de 61 anos. Vivia sozinho, na miséria, sem acesso ao rendimento mínimo alegadamente garantido. O corpo foi descoberto ontem, por um amigo, mas o óbito terá ocorrido em data anterior.

Era um actor, o José Lopes, outrora respeitado e aplaudido, antigo colaborador de Luís Miguel Cintra no Teatro da Cornucópia e na Escola Superior de Teatro e Cinema.

Não há palavras.

O ministério da Cultura vai pagar as despesas do funeral, ou nem isso?

Clique na imagem.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

EMÍLIA


Foi com Emília do argentino Claudio Tolcachir que os Artistas Unidos inauguraram hoje, no Teatro da Politécnica, a temporada 2019/20. Isabel Muñoz Cardoso, Américo Silva, Andreia Bento, João Estima e Pedro Carraca interpretam esta tragicomédia negra encenada por Jorge Silva Melo com cenografia de Rita Lopes Alves e José Manuel Reis.

O inferno são os outros, como disse Sartre?

Emília fica até 19 de Outubro.

No fim do espectáculo dê um salto à galeria do teatro para ver Descontinuando — pintura e desenho — de Nikias Skapinakis.

Na fotografia de Jorge Gonçalves vêem-se Isabel Muñoz Cardoso e João Estima. Clique.


domingo, 18 de agosto de 2019

NÃO ESQUECER


Mário não pode ficar em Lisboa. Se não puder fazer uma digressão nacional, tem pelo menos de ir ao Porto.

As pessoas têm de saber como era, terem consciência de um tempo em que homens e mulheres eram internados à força (e, em muitos casos, lobotomizados) por serem “diferentes”. Aconteceu com o bailarino Valentim de Barros e com dezenas de outros. Podia ter sido um de nós.

Mário ficciona a vida de um artista que esteve internado durante 38 anos consecutivos. O texto de Fernando Heitor faz um tour d'horizon ao país hipócrita que foi o nosso entre os últimos anos da Primeira República e a queda do Estado Novo. É preciso saber como era. E não esquecer.

Flávio Gil, actor de excepção, dá o corpo e a voz ao monólogo perturbador que Fernando Heitor encenou com alto conseguimento.

No São Jorge até 1 de Setembro.

Clique nos dois instantâneos de Flávio Gil fotografado por Rui Olavo.

sábado, 17 de agosto de 2019

MÁRIO


Tenho tido a sorte de ver grandes actores e actrizes em cena, aqui e lá fora. Mas nunca a performance de alguém me arrasou tanto com a de Flávio Gil, em Mário.

Durante 70 minutos, sozinho no palco, Flávio Gil faz o retrato da repressão homofóbica que foi a imagem de marca de Portugal durante o Estado Novo.

A partir da biografia do bailarino Valentim de Barros (1916-1986), internado no Hospital Miguel Bombarda, de Lisboa, por decisão de um tribunal, o actor e encenador Fernando Heitor escreveu e encenou a peça que está em cena no São Jorge — Mário.

Acusado de «psicopatia homossexual e pederastia passiva», vítima de lobotomia executada por Egas Moniz, o malogrado bailarino esteve preso naquele hospital durante 38 anos consecutivos: entre 1948 e 1986. Foi a partir destes factos que Mário — a peça de Fernando Heitor a que Flávio Gil dá corpo — nasceu.

Um monólogo perturbador servido por um actor de excepção.

Clique na imagem de Flávio Gil fotografado por Fernando Heitor.

domingo, 17 de março de 2019

FREI LUÍS DE SOUSA


Acontece com o Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, epítome do drama romântico, o mesmo que acontece com os Lusíadas, poema épico por excelência. Décadas de leituras enviesadas erigiram uma barragem de anticorpos.

Quem teve de aturar professores tacanhos, tal como quem viu o filme que António Lopes Ribeiro fez em 1950 (vi muito mais tarde na televisão), jurou não voltar a ver a peça que põe em pauta o casamento “ilegítimo” de D. Manuel de Sousa Coutinho, capitão-mor de Almada, com D. Madalena de Vilhena, alegada “viúva” de D. João de Portugal. Tudo se passa no fim do século XVI, quando, por força da crise dinástica, Filipe II de Espanha era rei de Portugal,

Almeida Garrett escreveu Frei Luís de Sousa em 1843, após a morte de Adelaide Pastor, com quem viveu entre 1835 e 1839, embora continuasse casado com Luísa Cândida da Silva Midosi. Garrett e Adelaide, falecida com 21 anos, tiveram uma filha tão problemática como a Maria da peça. A vida de D. Manuel de Sousa Coutinho, mais tarde Frei Luís de Sousa, autor canónico do século XVII, serviu de pretexto para recriar o drama pessoal do autor.

Isto pode ter muitas leituras. Miguel Loureiro fez a dele numa encenação brilhante, enriquecida pelo trabalho de luz de José Álvaro Correia, a cenografia de André Guedes, os figurinos de José António Tenente e, last but not least, as interpretações de Álvaro Correia, Ângelo Torres (um Telmo inesperado e magnífico), Carolina Amaral, Gustavo Salvador Rebelo, João Grosso, Maria Duarte, Rita Rocha, Sílvio Vieira e Tónan Quito. Gonçalo Ferreira de Almeida é o assistente de encenação. A música que encerra os actos não podia ter sido melhor escolhida.

Vi as versões de Ricardo Pais (1979) e de Carlos Avillez (1999), mas não gostei absolutamente nada da primeira (um patchwork de Garrett, Alexandre O'Neill e Maria Velho da Costa), nem me entusiasmei com a segunda. As que foram feitas nos últimos vinte anos não vi.

Miguel Loureiro reconciliou-me com o texto, belíssimo, mas só agora — a dicção dos actores é decisiva — isso me foi evidente. A clareza do texto é o princípio de tudo e talvez seja por isso que este Frei Luís de Sousa nos interpela.

Parabéns a toda a equipa e ao Miguel Loureiro em particular.

A foto é de Filipe Ferreira. Clique.

domingo, 10 de março de 2019

LIA EM ALTA DEFINIÇÃO


Lia Gama foi a entrevistada de ontem no programa Alta Definição, do jornalista Daniel Oliveira, na SIC. Vi agora. Um daqueles momentos raros de televisão.

Lia, que no próximo dia 24 vai receber o prémio Sophia Carreira (assunto omisso da conversa), expõe a sua vida com uma naturalidade desarmante, por vezes crua: violência doméstica na infância, maioridade aos 13, Paris, vigilância da Pide, o teatro, o dedo amputado do fotógrafo Sérgio Guimarães, outros amores, noitadas, bezanas, o casamento, os meses de Angola nos anos de brasa da guerra colonial, o filho, a disciplina do actor, a solidão.

Conheci a Lia em Lourenço Marques, no dia do meu 21.º aniversário (1970), em circunstâncias peculiares. Ainda há três dias estivemos juntos, a rir-nos muito, mas ela foi incapaz de mencionar que estava para sair a entrevista, tal como, na conversa com Daniel Oliveira, não faz referência aos autores que interpretou, e foram alguns dos maiores (Shakespeare, Gorki, Beckett, Genet, Sartre, Fassbinder, Gombrowicz e outros), nem aos encenadores com quem trabalhou, e também aí podia ter puxado dos galões, porque trabalhou com toda a gente que importa. Quem a ouvir, parece que só fez teatro de boulevard na companhia de Vasco Morgado. Também não fala dos filmes, e foram tantos, de realizadores tão diferentes como Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Fonseca e Costa, Solveig Nordlund, Alberto Seixas Santos, Joaquim Leitão, Alain Tanner e outros. Nenhuma pose, apenas a vida como ela tem sido. Vale a pena ir ver.

Na imagem, Lia Gama fotografada por Jorge Gonçalves durante a representação de Aos Que Nasceram Depois de Nós, de Brecht, dirigida por Jorge Silva Melo para os Artistas Unidos e Companhia de Teatro de Braga, em 1998.

Clique na imagem.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

RELER MILLER


Apesar do gelo que transia o São Luiz, gostei muito de ver Do Alto da Ponte. Austera, a encenação de Jorge Silva Melo — relendo tão bem o Arthur Miller dos fifties — é perfeita. O mesmo se diga do sexteto de actores principais: Américo Silva, Joana Bárcia, André Loubet, Vânia Rodrigues, António Simão e Bruno Vicente. Tema central: sexo e delação num gueto novaiorquino de imigrantes ilegais. Como Silva Melo disse numa entrevista recente, «o realismo de Miller é moral». Vendo a peça (traduzida por Ana Raquel Fernandes e Rui Pina Coelho), percebemos porquê.

A fotografia é de Jorge Gonçalves. Clique na imagem.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

LAURA SOVERAL 1933-2018


Vítima de esclerose lateral amiotrófica, Laura Soveral morreu hoje. Lembro-me de a ver actuar em Lourenço Marques, salvo erro em 1969, ao lado de Jacinto Ramos. Além de teatro, Laura Soveral fez muito cinema e televisão. Casada com um dos filhos de Marcelo Caetano, nem por isso deixou de ser respeitada por todos os quadrantes ideológicos. Tinha 85 anos. Era, de facto, uma grande actriz. Não haverá cerimónias fúnebres.

domingo, 4 de março de 2018

TÔNIA CARRERO 1922-2018


Vítima de paragem cardíaca durante uma intervenção cirúrgica numa clínica do Rio de Janeiro, Tônia Carrero morreu ontem à noite. Tinha 95 anos. A actriz sofria de hidrocefalia, razão do seu desaparecimento do espaço público nos últimos seis anos. Mais conhecida, em Portugal, pelas novelas, Tônia Carrero tem um longo historial no teatro, tendo interpretado Shakespeare, Albee, Dürrenmatt, Ibsen, Feydeau, Tchekhov, Pirandello, Sartre, Duras, Tennessee Williams, Bernard Shaw, Noel Coward, Lillian Hellman, Plínio Marcos, William Luce e outros. Também fez cinema (vinte filmes) e performance, como em Quartett, de Heiner Muller. Tônia Carrero era mãe do actor Cecil Thiré.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

GERMANA TÂNGER 1920-2018


Com 98 anos, morreu ontem à noite Germana Tânger, epítome da diseuse passional. Professora do Conservatório Nacional durante 25 anos, titular da cátedra de Estudos Camonianos na Sorbonne, actriz bissexta, encenadora, mas, sobretudo, diseuse, Germana Tânger tornou-se célebre quando, em 1959, declamou na íntegra, e de cor, a Ode Marítima de Álvaro de Campos. (No Teatro da Trindade, em Lisboa, uma placa assinala os 40 anos desse espectáculo.) Viveu vários anos no Brasil, país onde o marido exerceu o cargo de adido cultural. Tendo toda a vida privado com os nomes mais destacados da cultura portuguesa, publicou em 2016 a sua autobiografia, Vidas Numa Vida. Figura mítica do Ancien Régime, a democracia não lhe regateou homenagens e comendas. Jorge Sampaio fez dela Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, as Câmaras de Lisboa e de Sintra atribuiram-lhe as respectivas medalhas de Mérito Cultural Grau Ouro, e a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género distinguiu-a com o Prémio Maria Isabel Barreno, destinado a mulheres criadoras de Cultura. E a editora Assírio & Alvim, ainda no tempo de Manuel Hermínio Monteiro, dedicou-lhe um número especial d'A Phala.