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domingo, 30 de maio de 2021

ANA HATHERLY


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi O Pé na Cabeça de Ana Hatherly (1929-2015), nome destacado da poesia experimental portuguesa.

Natural do Porto, Ana Hatherly perdeu os pais muito cedo, prosseguindo uma educação tradicional em casa da avó materna.

Poetisa, ficcionista, ensaísta, cineasta e artista plástica, fez estudos na Alemanha, na Califórnia e em Londres. Leccionou na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e foi professora catedrática da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, escola onde co-fundou o Instituto de Estudos Portugueses.

Diplomada em cinema pela London Film School, cópias dos seus filmes estão arquivadas na Cinemateca Portuguesa e no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Como artista plástica expôs a partir dos anos 1960, em Portugal e no estrangeiro.

Ajudou a fundar o PEN Clube Português, instituição que dirigiu durante largos anos, tendo sido (em paralelo) membro de várias organizações internacionais.

O poema desta semana pertence a Estruturas Poéticas — Tipo H (1967). A imagem foi obtida a partir da Antologia da Poesia Experimental Portuguesa. Anos 60 — Anos 80, organizada por Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro, publicada pela Angelus Novus em 2004.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa e António Botto.]

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domingo, 23 de maio de 2021

BOTTO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi o primeiro poema de Adolescente, livro com que António Botto (1897-1959) inicia Canções, conjunto de quinze livros publicados entre 1921 e 1941.

Como corolário de uma violenta campanha de imprensa, a Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa teve força para impor ao Governo Civil a apreensão, e ulterior auto-de-fé, da segunda edição (1923) de Canções. O manifesto dos estudantes das escolas superiores deu azo ao famoso contra-manifesto de Álvaro de Campos, Aviso por Causa da Moral.

Natural do Casal da Concavada, Abrantes, Botto nasceu em meio proletário, vindo viver para Lisboa em 1902, ainda D. Carlos era rei. Criado em Alfama, sem educação formal, nómada dos bairros populares, homossexual notório, aspirante a actor, ajudante de livraria, modesto funcionário público entre 1924 e 1942 (o primeiro ano em Angola), mitómano, tudo o afastou do padrão de respeitabilidade do seu tempo. É irrelevante discutir se tinha 15 ou 17 anos quando se estreou. A obra começa em 1921, ano em que sai a primeira edição de Canções, com prefácio de Teixeira de Pascoaes.

Admirado sem reservas por Pessoa, Régio, Aquilino, Nemésio, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Teixeira-Gomes, Ferreira de Castro, Adolfo Casais Monteiro, José Gomes Ferreira, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo e outros, abateu-se sobre Botto um silêncio de quase meio século (anos 1940-90). O resgate da obra deve-se a Joaquim Manuel Magalhães, Fernando Cabral Martins, Fernando J.B. Martinho, Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto do Amaral e, mais recentemente, a Anna M. Klobucka.

Botto foi expulso da Função Pública em 1942, sem direito a pensão, por, alegadamente, recitar poemas durante as horas de serviço e dirigir galanteios a um colega. O despacho consta do Diário do Governo, II Série, n.º 262, de 9 de Novembro desse ano.

Além de poesia, na qual incluo Cartas Que Me Foram Devolvidas (sequência em prosa integrada em Canções desde 1941), Botto escreveu contos infantis, peças de teatro, bem como narrativas de vária índole. Em co-autoria com Pessoa organizou a Antologia de Poemas Portugueses Modernos, com edição parcial em 1929, e integral em 1944. Foi reeditada em 2011, com prefácio meu.

A 17 de Agosto de 1947, data do seu 50.º aniversário, partiu para o Brasil na companhia de Carminda da Conceição Silva Rodrigues, mulher com quem coabitava desde 1929. Como tantos homossexuais da sua geração, Botto arranjou uma mulher para lhe servir de criada. Nove anos mais velha do que Botto, Carminda terá sido contratada como enfermeira, mas acompanhou-o até à morte.

A vida no Brasil foi uma espécie de buraco negro. Estão documentados convívios com Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Érico Verissimo (um trio de gigantes) e outros intelectuais brasileiros, mas o desenraizamento persistiu. Crescentes dificuldades materiais, decisões editoriais equívocas, azares pessoais, rápida progressão da sífilis, crise de fé nos anos 1950 — o que explica um livro como Fátima —, etc., tudo contribuiu para a débâcle.

A morte chegou de forma inesperada: a 4 de Março de 1959 foi atropelado por uma viatura do Estado, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro. Após doze dias em coma, morreu no dia 17, com 62 anos de idade. Dois meses depois da sua morte, a Ática publicou o livro derradeiro, Ainda Não Se Escreveu. Reconhecida como “viúva”, Carminda passou a receber uma pensão do Estado brasileiro. Foi ela quem enviou o espólio do poeta para a Biblioteca Nacional de Portugal.

Os restos mortais de Botto vieram para Lisboa em 1966, estando depositados no Cemitério do Alto de São João, acto a que assistiram Régio, vindo expressamente de Vila do Conde, Ferreira de Castro, Natália Correia, David Mourão-Ferreira e alguns amigos pessoais. A trasladação fora feita contra a vontade de um grupo de “notáveis”.

Como acima vai dito, o poema desta semana abre Adolescente. A imagem foi obtida a partir de Poesia, volume da sua poesia completa, por mim editado (introdução, notas, variantes, fixação de texto e cronologia), e publicado pela Assírio & Alvim em 2018.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho e Irene Lisboa.]

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domingo, 16 de maio de 2021

IRENE LISBOA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Nova, Nova, Nova, Nova! de Irene Lisboa (1892-1958), poetisa que até 1942 assinou com o pseudónimo de João Falco.

Natural do Casal da Murzinheira, Arruda dos Vinhos, Irene Lisboa foi professora do ensino primário, pedagoga e, após estudos na Bélgica, em França e na Suíça, tornou-se especialista em Ciências da Educação. Mulher de Esquerda, o Estado Novo afastou-a do ensino e de todos os cargos públicos em 1940. Além de João Falco (em livro), Irene usou outros pseudónimos masculinos para colaborar na imprensa.

Além de poesia, escreveu novelas, contos infantis, ensaios, crónicas e três diários. Colaborou nas revistas mais importantes do seu tempo e fez conferências sobre pedagogia.

Entre outros, Régio, Nemésio, Sena, José Gomes Ferreira, Adolfo Casais Monteiro, José Rodrigues Miguéis e Óscar Lopes tinham-na em alta consideração. Foi Paula Morão quem, a partir de 1991, editou as suas obras completas, publicadas em vários volumes pela Editorial Presença.

O poema desta semana pertence a Outono Havias de Vir (1936). A imagem foi obtida a partir de Do Corpo: Outras Habitações, antologia de poesia identitária organizada por Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas, publicada pela Assírio & Alvim em 2018.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira e Armando Silva Carvalho.]

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quarta-feira, 12 de maio de 2021

MANUEL ALEGRE


Nos 85 anos de Manuel Alegre — Águeda, 12 de Maio de 1936 —, um dos seus magníficos sonetos.

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domingo, 9 de maio de 2021

ARMANDO SILVA CARVALHO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Citações perversas ou da poesia que se pode de Armando Silva Carvalho (1938-2017), poeta central da poesia portuguesa contemporânea.

Natural de Olho Marinho, Óbidos, Armando Silva Carvalho estreou-se com Lírica Consumível (1965). Poeta e ficcionista, exerceu várias profissões antes de dedicar-se a tempo inteiro à escrita: foi advogado, professor do ensino secundário, jornalista, tradutor, publicitário e consultor de marketing.

Além de poesia, publicou contos e narrativas de mais largo fôlego, entre elas, em 1977, Portuguex — obra que urge reeditar —, radiografia mordaz de um certo Portugal. Entre outros, traduziu Genet, Beckett e Mallarmé.

Homem de esquerda, homossexual discreto, foi uma figura respeitada da vida literária portuguesa. Várias vezes premiado, encontra-se representado nas mais importantes antologias de poesia.

O poema desta semana pertence a Sol a Sol (2005). A imagem foi obtida a partir de O Que Foi Passado A Limpo, volume que reúne poemas publicados entre 1965 e 2005, editado pela Assírio & Alvim em 2007.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira e Judith Teixeira.]

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domingo, 2 de maio de 2021

JUDITH TEIXEIRA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Ausência de Judith Teixeira (1880-1959), primeira mulher a assumir, na poesia portuguesa, a sua condição de lésbica.

Natural de Viseu, Judith Teixeira foi um dos três poetas alvo da campanha promovida, em 1923, pela Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa (com o patrocínio de Pedro Teotónio Pereira, Marcello Caetano e toda a imprensa conservadora), contra «os invertidos». Os outros eram António Botto e Raul Leal. No dia 5 de Março desse ano, o Governo Civil de Lisboa apreendeu as suas obras, mais tarde queimadas no Rossio. Marcello Caetano chamou-lhe “desavergonhada”.

A 28 Maio de 1926 deu-se em Braga o golpe militar que pôs fim à Primeira República.

Figura proeminente do Modernismo português, Judith Teixeira publicou três livros, um deles as novelas de Satânia (1927), fez conferências e dirigiu a revista Europa, tornando-se o bode expiatório da desordem social que o fascismo associava à Primeira República. 

Foi casada com dois homens, primeiro com um empresário, depois com um advogado de origem aristocrática. A partir da ditadura militar (1928-33) que antecedeu o Estado Novo, nunca mais publicou. Deixou dispersos, coligidos nos anos 1990. Viajou, terá feito vida boémia, e geriu um negócio de antiguidades.

Um estudo de António Manuel Couto Viana, publicado em 1974 — considerando-a «a única poetisa Modernista» —, continua a ser o texto de referência sobre a sua obra. Judith Teixeira não se encontra representada em nenhuma antologia de poesia portuguesa.

Morreu na casa de Campo de Ourique (Lisboa) onde residia, a 17 de Maio de 1959. Tinha 79 anos.

O poema desta semana pertence a Nua. Poemas de Bizâncio (1926). A imagem foi obtida a partir de Poemas, volume da obra completa organizado por Maria Jorge e Luis Manuel Gaspar, publicado pela & etc em Setembro de 1996.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão e Reinaldo Ferreira.]

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domingo, 25 de abril de 2021

REINALDO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia de Reinaldo Ferreira (1922-1959), nome destacado da poesia portuguesa escrita em Moçambique.

Começar por esclarecer: em Portugal, quase toda a gente confunde o poeta com seu pai, o mais famoso jornalista português dos anos 1920 e 30, que assinava com o pseudónimo de Repórter X. Além de jornalista, o Repórter X era também novelista, dramaturgo, realizador e produtor de cinema. [Em 1986, José Nascimento fez Repórter X, o filme.] Tendo ambos o mesmo nome civil, a confusão é de regra, até porque Reinaldo filho, o poeta, viveu em Lourenço Marques a partir dos 17 anos.

Estando seus pais radicados em Barcelona, foi ali que Reinaldo nasceu. Com a chegada ao poder de Primo de Rivera, a família regressou a Portugal. Mais tarde, por razões nunca devidamente esclarecidas, o futuro poeta foi terminar o liceu a Lourenço Marques, cidade onde viveu até morrer.

Funcionário da Administração Civil, Reinaldo foi publicando poemas nos suplementos literários da imprensa local, sem nunca ter organizado um livro em vida. Escrito no início dos anos 1950, Receita Para Fazer um Herói passou a integrar o cânone da Guerra Colonial.

Homossexual assumido, figura mítica da gay scene laurentina, tornou-se responsável, a partir de 1952, pela secção de teatro do Rádio Clube de Moçambique, para onde traduziu peças de vários autores.

Escreveu as letras de canções interpretadas por, entre outros, Amália [Uma Casa Portuguesa] e Zeca Afonso [Menina dos Olhos Tristes], bem como, sob o pseudónimo de Reinaldo Porto, o guião e as canções de musicais exibidos em Lourenço Marques.

Vítima de cancro no pulmão, morreu antes de completar 37 anos.

O poema desta semana pertence a Um Voo Cego a Nada, primeira sequência da obra poética completa, coligida no volume Poemas, publicado pela Imprensa Nacional de Moçambique no primeiro aniversário (1960) da sua morte. A imagem foi obtida a partir desse livro. Em Portugal estão publicadas outras duas edições (1962 e 1998), prevendo-se para breve uma terceira.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão e Fiama Hasse Pais Brandão.]

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domingo, 18 de abril de 2021

FIAMA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi O Miradouro, de Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), personalidade hierática da vida literária portuguesa, de quem se diz ter sido hermética entre os herméticos. Discordo.

Natural de Lisboa, Fiama viveu numa quinta de Carcavelos até aos 18 anos, tendo feito os primeiros estudos na St Julian’s School. Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa conheceu Gastão Cruz, com quem foi casada. Juntos, editaram a Antologia de Poesia Universitária (1964) e deram consistência teórica ao movimento Poesia 61. A obra canónica abre com Morfismos (1961), justamente porque Fiama rasurou os dois livros anteriores, um dos quais premiado.

Além de poesia, Fiama escreveu teatro, ensaio, récits e o romance Sob o Olhar de Medeia (1998). Na área do ensaio ocupou-se sobretudo de teatro, Camões, Gil Vicente e a influência da Cabala na poesia portuguesa dos séculos XVI a XVIII. Como tradutora, verteu para português obras de Artaud, Brecht, Novalis, Tchekov e outros. Entre todas, destacaria a versão que fez do Cântico Maior Atribuído a Salomão (1985), integrada na sua obra poética.

O teatro foi sempre uma paixão. Talvez por isso, a seu respeito, se fale do teatro da voz. Fiama estagiou no Teatro Experimental do Porto, fez crítica, fundou com Gastão o Teatro Hoje (Lisboa), frequentou na Gulbenkian um seminário de Gutkin, encenou Mariana Pineda de Lorca e, por último mas não em último, escreveu sete peças, algumas das quais representadas.

Investigadora de linguística, disse um dia que O Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro fora o primeiro livro infantil que lera. Em 1992 deixou Lisboa, voltando à quinta de Carcavelos. Em Portugal recebeu todos os prémios que havia para receber, excepto o Camões. Morreu aos 68 anos.

O poema desta semana pertence a (Este) Rosto, de 1970, mais precisamente à sequência que nesse livro se chama ‘A Vez das Vilas’. A imagem foi obtida a partir de Obra Breve, volume da poesia reunida, publicado em 2006 pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca e António Gedeão.]

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domingo, 11 de abril de 2021

GEDEÃO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Homem, de António Gedeão (1906-1997), o poeta que deu coloquialidade ao barroco. Escreveu poesia, ficção, teatro, ensaio e memórias. A sua poesia encontra-se traduzida em vários idiomas.

Quando em 1956 surge na vida literária com o pseudónimo de António Gedeão, o pedagogo Rómulo de Carvalho, professor de física e química em liceus de Lisboa (1931-50 e 1957-75) e Coimbra (1950-57), contava já com títulos publicados nas áreas histórico-científica e pedagógica. Dito de outro modo, o divulgador de ciência deveio poeta.

Entre os seus alunos do Liceu Pedro Nunes que se notabilizaram na vida pública portuguesa conta-se Marcelo Rebelo de Sousa.

Natural de Lisboa, o dia do seu nascimento — 24 de Novembro — é celebrado desde 1996 como Dia Nacional da Cultura Científica.

Depois da sua morte, a Fundação Calouste Gulbenkian publicou (2010) um grosso volume de memórias que o autor dedicou aos futuros tetranetos.

Membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, doutorado honoris causa pela Universidade de Évora (1995), Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1996), foi-lhe concedida a título póstumo (2018) a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, da qual era Grande-Oficial desde 1987.

Casado em segundas núpcias com Natália Nunes, é pai da escritora Cristina Carvalho.

Desde 2012, o Prémio António Gedeão, criado por um sindicato de professores, distingue docentes com obra poética publicada.

O poema desta semana pertence a Movimento Perpétuo (1956), livro de estreia do autor. A imagem foi obtida a partir de Poesias Completas, volume publicado em 1964, com extenso prefácio de Jorge de Sena, na colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder e Florbela Espanca.]

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domingo, 4 de abril de 2021

FLORBELA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi In memoriam, de Florbela Espanca (1894-1930), uma das precursoras nacionais da emancipação literária feminina.

Natural de Vila Viçosa, Florbela tornou-se um case study, porque, vá-se lá saber porquê, a Academia insiste em fazer dela uma poetisa menor. Felizmente, a situação tende a mudar. Após décadas de silêncio, Florbela encontra-se antologiada em Do Corpo: Outras Habitações (2018), volume organizado para a Assírio & Alvim por Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas.

Filha de uma camponesa e de pai “incógnito” — o republicano João Maria Espanca, antiquário, fotógrafo e introdutor do cinema no Alentejo, só reconheceu a filha em 1948 —, Florbela frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas interrompeu os estudos em 1920 ao mudar-se com o amante para o Porto. 

Estreada com Livro de Mágoas (1919), obra publicada por empenho de Raul Proença, teve sempre grande dificuldade em editar os seus livros. Em vida, apenas dois foram publicados, o segundo em edição paga pelo pai. Isso explica que a maior parte deles, incluindo os contos e o diário, tenham tido publicação póstuma, com prefácios de Régio, Agustina Bessa-Luís, Natália Correia, Yvette K. Centeno e, no Brasil, de Maria Lúcia Dal Farra. 

A seu respeito, Régio falou de «donjuanismo feminino». Se tivesse nascido na Inglaterra ou nos Estados Unidos, Florbela seria hoje lida e estudada em toda a parte e, por certo, um ícone do feminismo.

Em Matosinhos, para onde foi viver com o terceiro marido, em 1926, dava explicações de português, fazia traduções de francês para a Figueirinhas e colaborava esporadicamente na imprensa, assinando quase sempre como Flor Bela Lobo (nome de baptismo) ou com o pseudónimo Florbela d’Alma da Conceição Espanca.

Em 1927, a morte do irmão, o piloto-aviador Apeles Espanca, afectou-a profundamente. Apeles despenhou no Tejo, perto da Trafaria, o hidroavião Hanriot que pilotava. Sobre o irmão, Florbela escreveu o poema que escolhi, bem como os contos de As Máscaras do Destino (1931). 

Na madrugada do dia em que fez 36 anos, Florbela suicidou-se.

O poema desta semana pertence ao livro póstumo Charneca em Flor, concluído em 1929, mas só publicado em 1931, por iniciativa de Guido Batelli, o professor italiano da Universidade de Coimbra de quem foi próxima. A imagem foi obtida a partir da 12.ª edição integral de Sonetos, publicada pela Livraria Tavares Martins, do Porto, em 1968.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Herberto Helder.]

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domingo, 28 de março de 2021

HERBERTO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Aos Amigos, de Herberto Helder (1930-2015), considerado por muitos o poeta central da segunda metade do século XX português.

Transcrevo de um ensaio meu de 2008: «Não é fácil falar de Herberto, porque Herberto queima pontes, dando a ler uma suma com um pé no romantismo alemão, outro no imagismo russo, fora tradições inesperadas como a dos ameríndios

Natural do Funchal, Herberto foi quase toda a vida um nómada: funcionário do Observatório Meteorológico do Funchal, guia de marinheiros em Amesterdão, operário metalúrgico, empacotador de aparas de papel, bartender, policopista, delegado de propaganda médica, empregado da Caixa Geral de Depósitos, encarregado do serviço de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, colaborador do Anuário Comercial Português, da Emissora Nacional, da RDP e da RTP, publicitário, revisor tipográfico na Arcádia, editor na Estampa, jornalista em Angola, etc. (este resumo não é cronológico). Viveu alguns períodos em França, na Bélgica, nos Países Baixos e em Angola.

Estreou-se em livro em 1958, com O Amor em Visita. Além de poesia, publicou prosa — Os Passos em Volta, obra-prima de 1963, e Apresentação do Rosto, de 1968 —, bem como os ensaios de Photomaton & Vox (1979). Depois da sua morte foi publicado em minúsculas (2018), selecção de crónicas (1971-72) publicadas na revista Notícia, de Luanda.

Organizou antologias, a mais famosa das quais Edoi Lelia Doura (1985), e editou a revista Nova (1975-77), de que se publicaram dois números. 

Recusou todos os prémios, incluindo o Pessoa, em 1994.

Faleceu vítima de ataque cardíaco, na casa de Cascais onde residia há mais de vinte anos. Um dos seus filhos é o comentador político Daniel Oliveira.

O poema desta semana pertence ao livro Lugar, publicado em 1962. A imagem foi obtida a partir de Ofício Cantante (2009), publicado pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro e Sophia de Mello Breyner Andresen.]

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domingo, 21 de março de 2021

SOPHIA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Soror Mariana — Beja, de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), voz ática da poesia de língua portuguesa.

Sophia nasceu no Porto em 1919 e passou a infância na casa do Campo Alegre. Em 1944 — ano de publicação do primeiro livro — veio para Lisboa, casando em 1946 com o advogado Francisco Sousa Tavares, de quem se divorciou em 1988. O casal teve cinco filhos, entre eles o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares e a professora e poeta Maria Andresen.

Em Livro Sexto (1962), Salazar é descrito como “velho abutre”. Católica progressista, dirigiu o Centro Nacional de Cultura a partir de 1965. Integrada nas listas da CEUD, concorreu às eleições de 1969 pelo círculo do Porto e, em Dezembro do mesmo ano, com o marido preso em Caxias, fez parte do núcleo fundador da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. 

Amiga desde sempre de Soares e Maria Barroso, abriu a sua casa para o Partido Socialista delinear ali, na Travessa das Mónicas, o primeiro congresso. Eleita deputada do PS à Assembleia Constituinte (1975), recusará mais tarde os cargos de secretária de Estado da Cultura e de embaixadora de Portugal em Paris. Apenas aceitará, em 1987, ser chanceler das Ordens Honoríficas Portuguesas, cargo que manteve durante três anos.

Além da vasta obra poética, de traduções (Camões e Pessoa para francês, Shakespeare e Claudel para português, etc.) e organização de antologias, Sophia escreveu contos, ensaios, peças de teatro e literatura para a infância. Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981), recebeu, entre outros, o Prémio Camões (1999). Vítima de acidente vascular cerebral, faleceu a 2 de Julho de 2004, no Hospital Pulido Valente, de Lisboa.

Em 2014, no dia do décimo aniversário da sua morte, os restos mortais foram trasladados do cemitério de Carnide para o Panteão Nacional, acto transmitido em directo por vários canais de televisão.

Escrito no início dos anos 1970, o poema desta semana pertence ao livro O Nome das Coisas, publicado em 1977. A imagem foi obtida a partir de Obra Poética (2015), publicado pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna e Mário de Sá-Carneiro.]

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domingo, 14 de março de 2021

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Feminina, de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), voz central do Modernismo português e da geração do Orpheu.

No meu ensaio Fractura (2003) escrevi que a obra do autor traz consigo «o travo desabusado de um deboche camp com seu quê de fundador…» Seria fútil acrescentar uma palavra ao que escrevi há dezoito anos.

Natural de Lisboa, Mário de Sá-Carneiro, órfão de mãe desde os dois anos de idade, partiu para Paris em 1912, meses após o suicídio, no pátio do Liceu Camões, do seu muito querido amigo Tomás Cabreira Júnior, com quem escrevera Amizade (1910), peça representada no Clube Estefânia. Data dessa época o convívio com Fernando Pessoa.

Antes da partida do pai para Lourenço Marques, cidade onde o poeta cogitou fixar-se (o avô paterno dirigia os Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique), viaja pela Europa. Por fim estabelecido em Paris, Mário de Sá-Carneiro matricula-se no curso de Direito da Sorbonne, que nunca frequentará, frequenta o milieu literário e artístico, e termina A Confissão de Lúcio, narrativa camp publicada em 1914.

O essencial da obra foi escrito na capital francesa, onde se suicida com cinco frascos de estricnina, num quarto do Grand Hôtel de Nice (Montmartre), no dia 26 de Abril de 1916, três semanas antes de completar 26 anos. O amigo José Araújo assiste aos últimos estertores.

Datado de 1916, o poema desta semana surgiu na edição póstuma de Poesias Completas, volume organizado por João Gaspar Simões e publicado em 1946 pela Ática. Faz parte dos poemas ‘irritantes’ — o adjectivo é do autor —, inseridos na extensa correspondência trocada com Pessoa. Na carta que o acompanha, esclarece tê-lo escrito no dia em que lhe roubaram um guarda-chuva.

A imagem foi obtida a partir de Poesia Completa de Mário de Sá-Carneiro (2017), editado por Ricardo Vasconcelos e publicado pela Tinta da China.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena e Glória de Sant’Anna.]

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domingo, 7 de março de 2021

GLÓRIA DE SANT'ANNA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Desde Que o Mundo, de Glória de Sant’Anna (1925-2009), voz ímpar da poesia escrita em Moçambique.

Natural de Lisboa, Glória de Sant’Anna foi para Moçambique em 1950, ali tendo vivido até Dezembro de 1974. Em Moçambique nasceram cinco dos seus seis filhos, publicou sete livros, foi professora do ensino secundário em Nampula, Pemba e Vila Pery, além de ocasional radialista. Fez tudo isto mantendo distância da cena literária de Lourenço Marques.

Além de doze livros de poesia, publicou contos, crónicas e memórias. Livro de Água (1961) recebeu o Prémio Camilo Pessanha da Academia das Ciências de Lisboa. Colaborou com poesia e prosa na imprensa moçambicana e portuguesa.

Em 2012, o Grupo de Acção Cultural de Válega (Ovar) instituiu o Prémio Glória de Sant’Anna, que começou a ser atribuído no ano seguinte.

Em 2019, Luís Loforte e Edmundo Galiza Matos, dois antigos alunos seus, organizaram Quando o Silêncio é Sujeito — Um Tributo a Glória de Sant’Anna, volume publicado em Moçambique que colige depoimentos e breves ensaios críticos de escritores e intelectuais seus contemporâneos.

O poema desta semana, publicado no auge da Guerra Colonial, pertence ao livro Desde Que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo (1972). A imagem foi obtida a partir de Amaranto — toda a poesia publicada entre 1951 e 1983 —, volume publicado em 1988, em Lisboa, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia e Jorge de Sena.]

domingo, 28 de fevereiro de 2021

SENA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Camões Dirige-se Aos Seus Contemporâneos, de Jorge de Sena (1919-1978), nome maior do século XX português. O poema foi escrito no Brasil, país onde Sena viveu entre 1959 e 1965 e lhe nasceram dois dos nove filhos.

Poeta, romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, crítico, historiador da Literatura, especialista em Camões e Pessoa, tradutor de Kavafis, Dickinson e outros, organizador de antologias, professor de literatura, intelectual público, Sena nasceu em Lisboa a 2 de Novembro de 1919, falecendo em Santa Bárbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978. Tinha 58 anos.

Antes de ingressar na Escola Naval, foi aluno de Rómulo de Carvalho (o poeta António Gedeão) no Liceu Camões, de Lisboa. Após uma viagem no navio-escola Sagres, entre Outubro de 1937 e Fevereiro de 1938, foi expulso da Marinha de Guerra. Sob o pseudónimo de Teles de Abreu, publicou os primeiros textos em Março de 1939. O primeiro livro, Perseguição, saiu em 1942. Concluiu o curso de engenharia civil em Novembro de 1944.

Depois do serviço militar, ingressou no ministério das Obras Públicas e fez um estágio de engenharia em Inglaterra. Em 1949 casou com Maria Mécia de Freitas Lopes, irmã de Óscar Lopes.

Em 1955, a PIDE apreendeu As Evidências, rotulando o livro de subversivo e pornográfico. Em Março de 1959 envolveu-se no frustrado Golpe da Sé e, em Agosto, partiu com a família para o Brasil. Começou a dar aulas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (São Paulo), tendo, à margem da docência, sido director literário da Editora Agir, do Rio de Janeiro. Em paralelo, fez conferências, participou de congressos, colaborou largamente na imprensa e com os círculos anti-salazaristas no exílio.

Em 1960 publicou a primeira colectânea de contos, Andanças do Demónio. Tornou-se cidadão brasileiro em Março de 1963. Doutorou-se em 1964 com uma tese sobre Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular. Em consequência da ditadura militar brasileira, instaurada em 31 de Março de 1964, foi demitido do ensino. Em Outubro de 1965, mudou-se com a mulher e os filhos para os Estados Unidos. Contratado pela Universidade do Wisconsin-Madison, transferiu-se mais tarde (1970) para a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Era professor catedrático efectivo de Literatura Portuguesa e Brasileira desde 1967. Sucedem-se as viagens à Europa, onde participa em colóquios e congressos internacionais.

A 22 de Dezembro de 1968 tentou entrar em Portugal, mas foi detido pela PIDE na fronteira de Valencia de Alcántara. No mesmo dia, José Blanc de Portugal intercede junto de Marcello Caetano e, ao fim de poucas horas, concedem-lhe visto de entrada. Fica dois meses em Lisboa. Em Julho de 1972 visita Moçambique, proferindo três conferências em Lourenço Marques.

Antes de morrer publica três livros memoráveis: Conheço o Sal... e Outros Poemas (1974) e Sobre Esta Praia... Oito Meditações À Beira do Pacífico (1977), ambos de poesia, e os contos de Os Grão Capitães (1976). Em 1977 recebeu o prémio internacional de poesia Etna-Taormina e, a convite de Eanes, discursou na Guarda no 10 de Junho.

Da vasta bibliografia — cerca de cem títulos em todos os géneros, incluindo volumes de correspondência — faz parte o romance póstumo Sinais de Fogo, publicado em 1979.

A universidade portuguesa nunca foi capaz de lhe oferecer um lugar. Vindos da Califórnia, os seus restos mortais foram transladados para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, em Setembro de 2009. O centenário do seu nascimento foi assinalado em 2019 de forma parcimoniosa.

Escrito em 1961, o poema desta semana pertence ao livro Metamorfoses (1963). A imagem foi obtida a partir da 1.ª edição da obra, publicada pelo Círculo de Poesia da Livraria Morais Editora, de Lisboa.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny e Natália Correia.]

domingo, 14 de fevereiro de 2021

CESARINY


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Pastelaria, de Mário Cesariny (1923-2006), o mais proeminente surrealista português.

Natural de Lisboa, Cesariny frequentou a Escola António Arroio e fez estudos de música com Lopes Graça. Além de notabilíssimo poeta, foi artista plástico, tendo recebido em 2005 o Grande Prémio de Arte da Fundação EDP. O espólio artístico encontra-se depositado na Fundação Cupertino de Miranda. 

Pelo facto de ser homossexual, viveu cinco anos (1953-58) com obrigação de apresentações regulares à polícia. Graças a bolsas da Gulbenkian, passou uma temporada em Paris, onde esteve preso, tendo, a partir de 1964, vivido vários anos em Londres.

Depois do 25 de Abril, alegadamente por veto do embaixador José Fernandes Fafe, o MNE recusou que ocupasse o cargo de adido cultural na embaixada de Portugal na Cidade do México. Em 1976 foi responsável pela representação portuguesa à Exposição Surrealista Mundial de Chicago.

Dias antes de morrer, Jorge Sampaio atribuiu-lhe Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Em testamento, Cesariny deixou mais de um milhão de euros à Casa Pia de Lisboa.

Aproveito para transcrever parte de um texto que publiquei em 2019 — «Tudo o afastava do establishment literário: de origem proletária, refractário aos salões bem pensantes, viveu de costas voltadas para a Academia, fez apostasia com o neo-realismo, teve problemas com a polícia de costumes, escreveu em jornais de Direita contra os militares e a Esquerda marxista, insultou gente influente e, pecado maior, nunca escondeu a sua predilecção por marujos.»

O poema desta semana pertence ao livro Nobilíssima Visão (1959). A imagem foi obtida a partir de Poesia, volume de obra completa publicado em 2017 pela Assírio & Alvim, organizado por Perfecto E. Cuadrado.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli e Luiza Neto Jorge.]

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domingo, 7 de fevereiro de 2021

LUIZA NETO JORGE


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Recanto 13, de Luiza Neto Jorge (1939-1989), porventura a maior poeta-fêmea do século XX português.

Como sublinhei domingo passado, não tenciono publicar o melhor poema de cada poeta, seja lá o que isso for, nem sequer ‘o meu preferido’. Escolho poemas que considero representativos da identidade de quem os escreveu.

Natural de Lisboa, Luiza Neto Jorge morreu antes de completar 50 anos. Tradutora notabilíssima de poesia, ficção e teatro (estou a lembrar-me de Verlaine, Sade, Céline e Genet, mas foram muitos mais), viveu em Paris entre 1962 e 1970. Nunca tendo frequentado os salões literários de uma certa Lisboa, não goza da aura reservada aos happy few. Além de poesia, escreveu diálogos para filmes de Alberto Seixas Santos, Margarida Gil, Paulo Rocha e Solveig Nordlund.

O poema desta semana pertence ao livro Dezanove Recantos (1969). A imagem foi recolhida de Poesia (1993), volume da Assírio & Alvim que colige a sua poesia completa.

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domingo, 31 de janeiro de 2021

RUI KNOPFLI


UM POEMA POR SEMANA — À laia de antologia pessoal, começo hoje a publicar um poema por semana. Para abrir escolhi Rui Knopfli (1932-1997), uma das grandes vozes da poesia de língua portuguesa do século XX. 

Natural de Inhambane, Knopfli foi para Lourenço Marques ainda criança, ali tendo vivido até ser obrigado a sair de Moçambique em Março de 1975, por imposição do almirante Vítor Crespo. (O alto-comissário não gostou do editorial de Knopfli, então director do vespertino A Tribuna, sobre o caso do espião Macintosh denunciado pela Frelimo às autoridades rodesianas.) Após quatro meses em Lisboa, Knopfli foi para Londres ocupar o cargo de conselheiro de imprensa na embaixada de Portugal, permanecendo na capital britânica até Agosto de 1997. Morreu no dia de Natal desse ano, depois de fumar um Cohiba. Está enterrado em Vila Viçosa.

O Preto no Branco não será o seu melhor poema, mas tem uma carga simbólica evidente. Escrito em 1962 e publicado pela primeira vez em 1969, no livro Mangas Verdes com Sal, em plena guerra colonial, ilustra bem o sentimento da intelligentsia moçambicana sobre o futuro a haver.

Fiz a close reading deste poema em Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do século XX (imagem), organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra, publicada em 2002 pela Cotovia e Angelus Novus, obra que colige 73 poemas de 47 poetas. A cada poema corresponde um ensaio.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

HENRIQUE SEGURADO 1930-2021


Morreu Henrique Segurado, poeta, jornalista e livreiro, personalidade discretíssima da vida cultural portuguesa. Tinha 90 anos. Só ontem à noite se soube da sua morte, ocorrida anteontem, dia 6.

Natural de Lisboa, Henrique Segurado foi um poeta bissexto, oriundo do grupo da Távola Redonda. Com obra publicada desde 1953, justamente representada em diversas antologias, coligiu em Almocreve das Palavras (2011) e Debaixo das Tílias (2012), dois volumes ilustrados por Rui Sanches, o essencial da sua poesia. O livro derradeiro foi O Avesso do Império (2016), organizado por Manuel Rosa.

Enquanto jornalista, fez carreira a partir de 1956, no Século, Diário de Lisboa, República, etc., tendo sido, em 1975, um dos fundadores do semanário O Jornal, do qual foi administrador. 

Como livreiro, abriu em 1976 as livrarias Castil, primeiro a da Rua Castilho, depois a de Alvalade e a seguir outras quatro, uma delas no Porto.

Os meus sentimentos a sua filha, a artista plástica Teresa Pavão.

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domingo, 30 de agosto de 2020

E.M. DE MELO E CASTRO 1932-2020


E. M. de Melo e Castro, poeta e ensaísta, morreu ontem em São Paulo, no Brasil.

Engenheiro têxtil de formação e antigo professor de design, Melo e Castro foi um dos fundadores — e porventura o nome mais mediático — do Experimentalismo na poesia portuguesa.

Conheci-o pessoalmente em Agosto de 1986, nas terceiras Jornadas Poéticas de Cuenca, onde ambos participámos juntamente com Al Berto. O autor de Caralhamas (1975) revelou-se um homem afável.

Anos mais tarde partiu para o Brasil, onde se doutorou em Letras e leccionou literatura comparada em várias universidades. Foi casado com a escritora Maria Alberta Menéres. Em 2006, uma grande retrospectiva da sua obra (videopoesia, poesia concreta, infopoesia, um ciclo de imagens fractais) foi apresentada no Museu da Fundação de Serralves. Tinha 88 anos.

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