domingo, 9 de janeiro de 2022

O'NEILL


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi O Tempo Sujo de Alexandre O’Neill (1924-1986), um dos poetas centrais do século XX português.

Natural de Lisboa, O’Neill atravessou a infância e adolescência com largas temporadas em casa da bisavó materna, em Amarante, cidade onde publicou (1943) os primeiros versos e conheceu Pascoaes. Fez estudos com professores privados e em colégios particulares, tendo ainda frequentado a Escola Náutica. 

Foi funcionário da Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio (1946-52) até ser demitido compulsivamente, amanuense na Companhia de Seguros Metrópole, tradutor e publicista.

Em 1947, durante as festas do Festival Mundial da Juventude, conheceu Cesariny. Nesse mesmo ano participa na reunião fundadora do Grupo Surrealista de Lisboa. Ingressa no MUD-Juvenil em 1948, ano em que publica o primeiro livro, A Ampola Milagrosa, e conhece Nora Mitrani, a trotskista búlgara por quem se apaixonou e esteve na origem do mais famoso dos seus poemas, Um Adeus Português.

Por ter ido esperar Maria Lamas ao aeroporto de Lisboa, foi preso pela PIDE em 1953, ficando detido em Caxias durante quarenta dias. Nesse ano, por empenho de José Cardoso Pires, começa a trabalhar na Telecine.

Foi casado com a realizadora Noémia Delgado e, mais tarde, com Teresa Patrício Gouveia, secretária de Estado da Cultura e duas vezes ministra (Ambiente, Negócios Estrangeiros), sendo pai de um filho de cada uma.

O poema desta semana pertence a No Reino da Dinamarca (1958). A imagem foi obtida a partir de Poesias Completas & Dispersos (2017), volume editado por Maria Antónia Oliveira, biógrafa do autor, e publicado pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti e Al Berto.]

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sábado, 8 de janeiro de 2022

LOURDES CASTRO 1930-2022


Morreu hoje Lourdes Castro, uma das mais importantes artistas plásticas portuguesas.

Natural do Funchal, Lourdes Castro foi aluna do Colégio Alemão antes de partir para Lisboa onde frequentou o curso de pintura da Escola Superior de Belas Artes.

Casada com René Bertholo, partiu para Munique em 1957. No ano seguinte, já em Paris, o casal fundou — com outros artistas, entre eles Christo, Escada e João Vieira — o grupo KWY. Além de exposições, o grupo produziu até 1963 doze números da revista homónima. Depois de 25 anos a viver em Paris, regressou ao Funchal.

Várias vezes premiada e condecorada, Lourdes Castro está representada em museus britânicos e europeus, mas também na Gulbenkian, em Serralves e no Museu de Arte Moderna de Havana.

A partir da segunda metade dos anos 1960 desenvolveu o carácter performativo do seu Teatro de Sombras. Em 2016, a Culturgest mostrou os 36 cadernos a que chamou Álbum de Família. Casou em segundas núpcias com Manuel Zimbro, com quem expôs (2019), na Fundação Carmona e Costa, um núcleo de obras centradas no quotidiano de ambos na Quinta do Monte.

Lourdes Castro tinha 91 anos e as causas da morte não foram tornadas públicas.

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EM QUE FICAMOS?


Vai por aí uma grande confusão. Muita gente ainda não percebeu o óbvio: se ganhar as eleições e formar Governo, o PS apresentará o OE que foi chumbado em Outubro. Nem podia ser de outro modo. Ninguém levaria a sério um Partido que se mostrasse disposto a negociar agora o que, tendo sido arduamente negociado no Outono, foi rejeitado. 

Portanto, é simples. Querem outro OE? Votem em quem tenha condições de formar novo Governo. Supor que das eleições do próximo dia 30 possa resultar correcção de pontaria, é o mesmo que acreditar no sexo dos anjos.

Imagem: sondagem da Católica para a RTP e Público. Clique.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

TIRO PELA CULATRA

A sondagem da Universidade Católica divulgada esta noite pela RTP não acrescenta nada às projeções de voto, mas traz um dado importante:

«[...] 43% dos votantes PS em 2019 são favoráveis a entendimento preferencial com o PSD...» 

Este score ultrapassa a minha percepção, que ficava por 30 ou 32%. Foi isto que o chumbo do OE conseguiu. As pessoas cansaram-se e, provavelmente, teremos novas eleições no Outono.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

COSTA VS VENTURA


Obviamente.

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domingo, 2 de janeiro de 2022

AL BERTO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi o sexto poema de Réstia de Sangue de Al Berto (1948-1997), poeta que trouxe à poesia portuguesa o lampejo de uma identidade queer coerente com os acidentes biográficos.

Nascido em Coimbra como Alberto Raposo Pidwell Tavares, foi viver para Sines no ano seguinte. Frequentou a Escola António Arroio, em Lisboa, antes de partir para a Bélgica em Abril de 1967.

Em Bruxelas frequentou a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels, tendo vivido na comunidade hippie onde conheceu Joëlle de La Casinière, amiga com quem fundaria, em 1972, o Montfaucon Research Center.

Regressado a Portugal em Novembro de 1975, foi viver para Sines, onde publicou À Procura do Vento Num Jardim d’Agosto (1977). Em Sines foi editor e livreiro, animador cultural da autarquia e director do Centro Cultural Emmerico Nunes.

A partir de 1987, ano de publicação de O Medo, Al Berto tornou-se uma figura mediática, com presença regular em festivais e outros eventos da cena literária. Em 1992 foi feito Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Horto de Incêndio (1997), o livro derradeiro, foi escrito e publicado no âmbito de uma bolsa de criação literária do ministério da Cultura.

Sofrendo de um linfoma, foi internado no Hospital dos Capuchos no dia 25 de Abril de 1997, morrendo naquele hospital a 13 de Junho.

Vinte anos após a sua morte estreou (em Outubro de 2017) o filme Al Berto, de Vicente Alves do Ó.

O poema desta semana pertence a Livro Décimo (1985). A imagem foi obtida a partir da 1.ª edição de O Medo, editada pela Contexto.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana e Ruy Cinatti.]

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

INTENÇÕES DE VOTO


Sondagem do ISCTE/ICS para o Expresso e a SIC, divulgada hoje.

Além das intenções de voto por partido, o estudo contempla variantes como com quem deve o PS negociar. Sem surpresa — face à ausência de maioria absoluta —, 38% do eleitorado PS prefere que o Partido negoceie com o PSD.

Não é novidade para quem tem amigos que sempre votaram PS. À mais pequena indicação de que o Partido possa vir a tentar repetir a geringonça (escrevo esta palavra pela primeira vez em seis anos), grande parte do eleitorado PS tomará uma de duas opções: ou fica em casa, abstendo-se de votar, ou vota PSD. A realidade é esta e não vale a pena dourar a pílula.

O país não pode ficar refém da teimosia de minorias iluminadas. As próximas eleições são mais importantes do que todas as anteriores.

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

NÚMEROS ELOQUENTES

 

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FUTUROS CLÁSSICOS?


Hoje na Sábado

Nem sempre acontece, mas o ano que agora termina foi pródigo na edição de livros que podem vir a tornar-se clássicos. Estamos a falar de poesia, ficção, biografia e História. Do que li gostaria de destacar oito títulos.

Um deles é Poemas, reunião da poesia completa de António Franco Alexandre, oportunidade para nos deixarmos absorver pelo estranhamento desta poesia sem predecessores em língua portuguesa: «Vamos a ver se dois incêndios se juntam, / se a folha do corpo fica a arder. / Os dentes que riem, saberão morder?» Outro é o primeiro volume de uma trilogia sobre a América contemporânea, Encruzilhadas, de Jonathan Franzen. A família Hildebrandt pode não ter glamour, mas só um escritor com o fôlego de Franzen podia dar-nos um épico desta natureza. Noutro registo, Maggie O’Farrell demonstra que Shakespeare é um personagem em aberto, servindo-se da morte precoce do filho do bardo para escrever Hamnet, romance centrado na vida de Anne Hathaway. Mas também Paul Auster, que resgata a vida e obra de Stephen Crane, um gigante da literatura norte-americana do século XIX, na monumental biografia a que deu o título de Um Homem em Chamas. Por falar em biografias, não podemos ignorar a de Philip Roth escrita por Blake Bailey, desassombrado registo de uma época e seus temas-fétiche. Ainda no domínio da compreensão do outro, a História dos Povos Árabes de Albert Hourani, historiador britânico de origem libanesa, finalmente traduzida e actualizada, é indispensável para entender o mundo árabe. Entretanto, numa altura em que foi tudo escrito sobre disfunções (sexuais e outras), a holandesa Marieke Lucas Rijneveld consegue surpreender-nos com O Desassossego da Noite. Por último mas não em último, Trilogia de Jon Fosse, volume que colige três novelas, traduzidas directamente do norueguês por Liliete Martins, que respeita a peculiar pontuação (ou falta dela) do autor. Rompendo mais uma vez com os modelos convencionais, Fosse não abdica de construir uma linguagem própria.

António Franco Alexandre, Poemas / Assírio & Alvim

Jonathan Franzen, Encruzilhadas / Dom Quixote

Maggie O’Farrell, Hamnet / Relógio d’Água

Paul Auster, Um Homem em Chamas / Asa

Blake Bailey, Philip Roth / Dom Quixote

Albert Hourani, História dos Povos Árabes / Book Builders

Marieke Lucas Rijneveld, O Desassossego da Noite / Dom Quixote

Jon Fosse, Trilogia / Cavalo de Ferro

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terça-feira, 28 de dezembro de 2021

GRABATO DIAS EM ANTOLOGIA


Pedro Mexia conseguiu a proeza de organizar, para a Tinta da China, uma antologia de poemas de João Pedro Grabato Dias, coisa que até aqui ninguém tinha conseguido, alegadamente por reticências dos herdeiros.

Para quem não sabe: João Pedro Grabato Dias é o principal pseudónimo literário de António Augusto de Melo Lucena e Quadros (1933-1994), personalidade irreverente da vida cultural moçambicana.

Nascido em Viseu, foi para Lourenço Marques em 1964, tendo vivido em Moçambique até 1984. Além de pintor sob o nome civil — António Quadros —, com obra espalhada por colecções exigentes e museus de referência, o António fez tudo: encenou peças para o teatro universitário, escreveu canções para Zeca Afonso (então professor em Moçambique), deu aulas na Universidade, co-editou com Rui Knopfli os cadernos de poesia Caliban, fascinou Sena com as Qvybyrycas de Frey Ioannes Garabatus (outro pseudónimo seu), convenceu Samora Machel da existência de um guerrilheiro-poeta chamado Mutimati Barnabé João (outra vez ele), mais o que aqui se não diz por ser de natureza privada.

Agora, quem nunca leu «o Grabato», tem as Odes Didácticas para o fazer.

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

APENAS UM CONVIDADO


Não é a primeira vez que Cristina Carvalho se ocupa de personalidades da cultura escandinava. Desta vez o eleito foi August Strindberg, que todos conhecemos como dramaturgo, porventura o mais importante da Suécia.

Sucede que Strindberg (1849-1912) também foi romancista, contista, diarista, ensaísta, pintor, fotógrafo, alquimista, activista político do movimento operário, polemista assíduo sobre as questões que moldaram o seu tempo, teosofia incluída.

Strindberg defendeu o direito das mulheres a votarem embora as considerasse seres inferiores. Misógino assumido, casou três vezes. Não gostava do rei, nem de militares, nem da Igreja, nem de capitalistas, nem de judeus. Também não gostava de Ibsen. E invejava Selma Lagerlöf. 

Cristina Carvalho calibra bem todas estas harmónicas no romance biográfico Strindberg — Neste Mundo Fui Apenas Um Convidado. Vale a pena ler para perceber melhor este proto-anarquista pouco simpático de que a Suécia (e com razão) tanto se orgulha.

Numa acção concertada entre o Instituto Camões e a embaixada de Portugal em Estocolmo, o livro foi apresentado no Strindbergsmuseet — aka Museu Strindberg — no passado dia 9, pelo seu director Erik Höök.

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domingo, 26 de dezembro de 2021

RUY CINATTI


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Reisebilder de Ruy Cinatti (1915-1986), poeta que não teve nunca a divulgação merecida.

Nascido em Londres, onde seu avô materno exercia o cargo de cônsul-geral de Portugal, Ruy Cinatti formou-se em agronomia (Lisboa) e antropologia social e cultural (doutoramento em Oxford). Aos 19 anos, o pai expulsou-o de casa.

Com Tomaz Kim e José Blanc de Portugal fundou em 1940 os Cadernos de Poesia, estreando-se em livro no ano seguinte, com Nós Não Somos Deste Mundo. Trabalhou dois anos na Pan-American como meteorologista, partindo em 1944 para Timor como secretário do governador-geral. Mais tarde seria o responsável máximo dos Serviços de Agricultura de Timor, ingressando no quadro da Junta de Investigações do Ultramar.

Viveu em Timor entre 1944 e 1966, mas viajou intensamente pelo extremo-Oriente, Europa, Estados Unidos e México, proferindo conferências e participando de seminários científicos. Antes de deixar Timor, fez juramento de sangue com dois liurais timorenses.

Deixou uma obra poética muito extensa, estando editados em volume único — mais de 1.400 páginas — todos os livros que publicou em vida.

Monárquico, católico, conservador, ficou profundamente abalado com a ocupação de Timor. Além de poesia, publicou o conto Ossobó (1936), diários de viagem às colónias portuguesas, excepto Moçambique, bem como monografias botânicas e antropológicas.

Morreu em Outubro de 1986, em Lisboa, estando sepultado no Cemitério dos Ingleses.

O poema desta semana pertence a Paisagens Timorenses Com Vultos (1974). A imagem foi obtida a partir do primeiro volume de Obra Poética, organizado por Luis Manuel Gaspar e publicado pela Assírio & Alvim em 2016.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos e António Manuel Couto Viana.]

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

JOAN DIDION 1934-2021


Vítima da doença de Parkinson, morreu hoje Joan Didion, uma das personalidades mais destacadas do New Journalism e da contracultura da costa Oeste norte-americana. Tinha 87 anos.

Membro da Academia Americana de Artes e Letras, jornalista, crítica cultural e escritora, Joan Didion tinha tanta influência em Hollywood como em Manhattan, uma proeza alcançada por muito poucos. 

Várias vezes premiada, autora de cinco romances e dois volumes de memórias — O Ano do Pensamento Mágico, sobre a morte do marido, foi adaptado ao teatro por Vanessa Redgrave; e Noites Azuis, sobre a morte da filha. Ambos traduzidos em Portugal —, além de roteiros para filmes de sucesso e catorze colectâneas dos artigos que escreveu para a New York Review of Books e outras publicações, Didion recebeu doutoramentos honoris causa por Harvard e Yale, mas também a Medalha Nacional das Artes.

Quem quiser saber mais pode ver na Netflix o documentário Joan Didion: The Center Will Not Hold (2017), feito por Griffin Dunne, seu sobrinho. Ou então ler The Last Love Song: A Biography of Joan Didion, a biografia publicada por Tracy Daugherty em 2015.

Na imagem, Didion nos anos 1970. Clique.

ACIMA DAS NOSSAS POSSES?


Entrevistado pelo Expresso, Henrique Gouveia e Melo declinou, em modo ambíguo, a lengalenga da maioria PSD/CDS que nos governou entre 2011 e 2015.

Vejamos: «distribuir a riqueza inexistente, que não produzimos...» corresponde a dizer que vivemos acima das nossas possibilidades.

Mas qual riqueza? Actualização do Indexante dos Apoios Sociais, do Rendimento Social de Inserção, do salário mínimo, das pensões, dos vencimentos dos funcionários públicos?

Para começo de carreira política é um passo em falso do vice-almirante submarinista. O país precisa de muita coisa, mas não do passismo reciclado.

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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

BRUXELAS SEGURA TAP


Ao fim de um ano de análise do processo, Margrethe Vestager, comissária da Concorrência, autorizou todas as ajudas que o Estado português suportou e vai suportar com a TAP.

Os mais de três mil milhões de euros distribuem-se pelos 462 milhões do ano em curso, os 107,1 milhões no âmbito dos apoios Covid, e os 2,55 mil milhões a haver.

Como contrapartida, a companhia terá de abdicar de dezoito slots / reduzir a frota / formalizar os despedimentos previstos no plano de reestruturação / separar-se da Portugália / mas também desinvestir na Cateringpor, na Groundforce e na manutenção efectuada no Brasil.

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

HABITUEM-SE


Por contraponto aos 2,5% de devolução do IRS que a Câmara de Lisboa praticava anualmente (aos residentes no concelho), Carlos Moedas prometeu o dobro. Ou seja, 5%. 

Mas o que hoje fez aprovar foi a devolução de 3%. Ora três não são cinco.

Como vai ser com os prometidos transportes gratuitos para maiores de 65 e menores de 23 anos? Vão ser reservados a paraplégicos?

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domingo, 19 de dezembro de 2021

ABSOLUTA, COM CERTEZA


Falando num encontro promovido ontem pela Juventude Socialista, António Costa foi claro: não chega ganhar as eleições, é preciso saber em que condições elas são ganhas. Essa é a escolha fundamental.

Discurso directo — «Por isso, a forma de termos maioria é sermos nós a maioria. Para isso, temos mesmo de mobilizar os portugueses. Não podemos andar em eleições de dois em dois anos e não podemos andar a governar porque nos fazem o favor de nos viabilizarem o Orçamento durante dois anos

Continua a não ser pronunciada a formulação-tabu (maioria absoluta), mas ela tem de ser posta em cima da mesa. Se tiver de depender de terceiros, sejam eles quais forem, o PS deve abster-se de formar Governo.

Quem vota, tem de votar naquilo em que acredita. Dito de outro modo: quem vota no PCP (na CDU, vá) e no BE por convicção ideológica, deve continuar a fazê-lo. Isso não está em causa. Mas os empatas anti-PS devem perceber que o regresso da Direita ao poder está nas mãos deles. Não se pode votar para empatar nem estar permanentemente a contar com o ovo no cu da galinha.

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ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Muito Urgente de António Manuel Couto Viana (1923-2010), o poeta que a democracia obliterou.

Nascido em Viana do Castelo, veio viver para Lisboa em 1946, tendo-se estreado em livro com O Avestruz Lírico (1948), primeiro de mais de cem títulos de uma vasta bibliografia. A sua proximidade com instituições do Estado Novo fez com que, após 1974, tivesse sido praticamente silenciado. Exceptuando Joaquim Manuel Magalhães, que sobre ele escreveu um denso ensaio incluído em Rima Pobre (1999), a recepção crítica dos livros que publicou em democracia foi residual. Sobretudo a partir de Café de Subúrbio (1991), assumiu sem reservas a identidade homossexual.

Por ter herdado da avó o Teatro Sá de Miranda, de Viana do Castelo, esteve desde sempre ligado ao teatro — mas também à ópera: Teatro Nacional de São Carlos, Círculo Portuense de Ópera, etc. —, como director, encenador, tradutor, actor e figurinista. Contudo, é como poeta que a posteridade o fixa.

Membro da Academia das Ciências de Lisboa, conselheiro de leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, director de revistas literárias como Graal, Távola Redonda e outras, viveu dois anos (1986-88) em Macau. Várias vezes premiado e condecorado, foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique em 1995.

Além de poesia, escreveu teatro, contos, ensaios, memórias, literatura para a infância e gastronomia. Entre outros, traduziu Sófocles, Molière e Neruda. Por seu turno, livros seus estão traduzidos em Espanha, França, Alemanha, Rússia, Inglaterra e China.

Editada pela Imprensa Nacional, a poesia que publicou até 2001 encontra-se coligida nos dois volumes de 60 Anos de Poesia (2004). Deixou inédito um livro de memórias, provável continuação dos três que publicou em vida. Morreu na Casa do Artista, em Lisboa.

O poema desta semana pertence a Relatório Secreto (1963). A imagem foi obtida a partir do 2.º volume da Terceira Série de Líricas Portuguesas, a mítica antologia organizada por Jorge de Sena.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade e José Carlos Ary dos Santos.]

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sábado, 18 de dezembro de 2021

EVE BABITZ 1943-2021


Vítima de doença de Huntington, morreu ontem Eve Babitz, artista visual e cronista-mor de Hollywood. Quem alguma vez leu a New York Review of Books, Rolling Stone, The Village Voice ou a Vogue norte-americana, para citar apenas quatro das muitas publicações onde colaborava, lembra-se da prosa vibrante e sarcástica desta mulher que tratava por tu todos os grandes do showbiz, de Elizabeth Taylor a Madona e Jim Morrison, mas também escritores como Joseph Heller, Joan Didion e Bret Easton Ellis, ou a fotógrafa Annie Leibovitz.

Alguns dos livros que publicou, sobretudo os de ensaio e as memórias, dão testemunho de uma voz singular. Obras como Eve’s Hollywood (1974), Slow Days, Fast Company (1977), Sex and Rage (1979), Black Swans (1993), Two by Two (1999) ou I Used to Be Charming (2019) estão traduzidas em várias línguas. Para descreverem com propriedade a cena cultural de Los Angeles dos anos 1960 e 1970, os historiadores do futuro não as poderão ignorar. 

Foi também autora das capas de álbuns dos Buffalo Springfield e outras bandas.

Afilhada de Igor Stravinsky, de quem os pais eram íntimos, Eve tornou-se famosa aos vinte anos, quando Julian Wasser a fotografou nua a jogar xadrez com Marcel Duchamp. Infelizmente, aos 54, ficou com grande parte do corpo queimado: o cigarro que fumava (enquanto conduzia) pegou fogo à saia de nylon.

Em 2019, Lili Anolik publicou uma biografia de Eve, Hollywood’s Eve: Eve Babitz and the Secret History of L.A., demonstrando que Eve não era apenas a rainha do Troubadour.

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

EM QUE PAÍS VIVEMOS?

Factos agora conhecidos:

 — Sete militares da GNR de Odemira foram acusados pelo Ministério Público de torturar imigrantes. Os actos de tortura envolveram gás pimenta e foram filmados pelos torturadores.

— Tudo se passou em 2019, sendo comandante-geral da GNR o tenente-general Botelho Miguel, nomeado diretor nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras após o bárbaro assassinato do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk nas instalações daquele serviço no Aeroporto de Lisboa.

Tudo isto envergonha o país. Alguém quer saber?