sábado, 23 de outubro de 2021

IMPASSE

Parece que chegámos ao sábado de todas as decisões. Regressado de Bruxelas, António Costa tem agendadas reuniões com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. A ver vamos o resultado.

Entretanto, os representantes das confederações patronais abandonaram a Comissão Permanente de Concertação Social, solicitando, todos em bloco, audiência ao Presidente da República.

Embora não as deseje, o primeiro-ministro não tem medo de eleições antecipadas. E é o que acontecerá se o OE 2022 for chumbado, porque não o estou a ver a apresentar segunda versão à medida dos caprichos de uns e de outros. 

Por muito rápido que seja o processo, não haveria eleições antes do fim de Março. O prazo mínimo entre a dissolução do Parlamento e o acto eleitoral não pode ser inferior a 42 dias, mas há que contar com a coreografia institucional: demissão do PM, eventual convite do PR para que Costa se mantenha, reuniões com partidos, convocação do Conselho de Estado, etc. (e tudo isto com a lentidão suficiente para que PSD e CDS realizem os seus congressos). Dito de outro modo, com eleições no fim de Março, apenas no fim de Junho seria provável novo OE.

Mas o que são seis meses com o país a viver de duodécimos, com os fundos europeus geridos pelo Governo demissionário e com todas as alterações laborais metidas na gaveta?

Os princípios são muito bonitos mas não pagam contas ao fim do mês.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

ABRAPLIP, HOJE


Participo hoje, quando forem 19:30 em Portugal, no XXVIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, tendo como mediadores da minha intervenção os professores Emerson Inácio e Jorge Vicente Valentim.

Emerson Inácio é professor de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, especializado em poesia contemporânea de língua portuguesa, teoria queer, género, estudos culturais, etc. Jorge Vicente Valentim é professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de São Carlos, especializado em literatura portuguesa, estudos literários, género, homoerotismo, etc. Dito de outro modo, estou muito bem acompanhado.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

PRÉMIO CAMÕES


A escritora moçambicana Paulina Chiziane, 66 anos, venceu a 33.ª edição do Prémio Camões, atribuído por unanimidade por um júri constituído por Ana Martinho, Carlos Mendes de Sousa, Jorge Alves de Lima, Raul César Fernandes, Teresa Manjate e Tony Tcheka.

Antiga militante da FRELIMO com formação em linguística, Paulina Chiziane tem livros publicados, desde 1990, em Moçambique, Portugal e Brasil, estando alguns deles traduzidos em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e servo-croata.

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SINTRA

Ricardo Baptista Leite, o médico tremendista que disse ter visto seis pessoas a morrer no Hospital de Cascais num dia em que naquele hospital apenas morreu uma, concorreu à Câmara de Sintra encabeçando uma coligação [Curar Sintra] do PSD+CDS+AL+MPT+PDR+PPM+RIR. Perdeu.

Ontem, na cerimónia de posse dos órgãos municipais, Basílio Horta, o presidente reeleito (35,3%), recusou o aperto de mão do médico doublé de autarca. O vídeo está disponível no Twitter.

Parece má educação de Basílio Horta, mas como o próprio explicou, seria hipócrita da sua parte cumprimentar alguém que, além de o apelidar de cobarde, o retratou (em cartazes) de costas a fugir. «Fui alvo de ataques e insultos pessoais», disse. As relações institucionais não passam por ademanes protocolares.

Com tanta falta de médico, é indecoroso ver RBL a perder tempo com jogos florentinos.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

ARMANDA PASSOS 1944-2021


Vítima de cancro, morreu hoje Armanda Passos, uma das grandes pintoras portuguesas do século XX.

Obras suas podem ser vistas em Serralves, na Gulbenkian, no Museu do Chiado, no CCB, no Museu Nogueira da Silva (Braga), no Museu Amadeo de Souza-Cardoso (Amarante), etc., mas também em salas da Fundação Oriente, Fundação Champalimaud, Fundação Casa de Mateus (Vila Real), Fundação Dom Luís (Cascais) e outras instituições, como a Reitoria da Universidade do Porto, a Sé de Braga e o Palácio de Belém. O Museu do Douro, em Peso da Régua, cidade onde a artista nasceu, reuniu 83 obras suas numa ala com o seu nome.

Várias vezes premiada, Armanda Passos foi (nos anos 1970) professora de tecnologia de serigrafia no Centro de Reabilitação Vocacional da Granja, e monitora de tecnologia de gravura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Tinha 77 anos.

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SEGURO QUÊ?

Um dos coelhos da cartola de Carlos Moedas corresponde a um seguro de saúde para pessoas maiores de 65 anos com dificuldades económicas.

Devemos presumir que o novo edil de Lisboa desconhece a existência do Serviço Nacional de Saúde, aberto a toda a gente.

Será que os maiores de 65 anos com dificuldades económicas são barrados nos portões dos hospitais públicos? Convinha esclarecer.

NOITE SANGRENTA


Faz hoje cem anos que ocorreu o massacre do Arsenal da Armada, em Lisboa.

Na noite de 19 de Outubro de 1921, um grupo de marinheiros sequestrou e assassinou António Granjo, primeiro-ministro, mas também Machado Santos, fundador da República (morto no percurso da camioneta fantasma), José Carlos da Maia, capitão-de-mar-e-guerra, Freitas da Silva, chefe de gabinete do ministro da Marinha, o coronel Botelho de Vasconcelos e outros políticos republicanos. Cunha Leal, tido como próximo dos revoltosos, fazia parte dos ocupantes da camioneta, mas foi poupado.

António Granjo tinha pedido a demissão nessa manhã, mas o Presidente da República, António José de Almeida, não o demitiu.

Clique na imagem da Ilustração Portuguesa de 12 de Novembro de 1921.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

MOEDAS NA CML

Perante a nomenklatura do PSD, Carlos Moedas tomou hoje posse como 78.º presidente da Câmara de Lisboa, autarquia que gere um orçamento superior a mil milhões de euros. 

Fernando Medina, que assistiu à cerimónia, reiterou que a democracia tem de respeitar as regras da alternância: eu saio, ele entra.

Num discurso em que apenas citou urbanistas estrangeiros, Moedas voltou a prometer transportes públicos gratuitos para todos. A ver vamos. Ainda não se conhece a distribuição de pelouros, mas consta que o CDS ficará responsável pelas Finanças, Educação e Cultura. Moedas, himself, fica com a Transição Energética e Alterações Climáticas.

Recordar que o PSD elegeu sete vereadores, o PS outros sete, a CDU dois e o BE um. Dito de outro modo, Moedas terá de governar a cidade em minoria.

COLIN POWELL 1937-2021


Vítima de Covid 19 morreu hoje o general Colin Powell, antigo secretário de Estado norte-americano.

Além de responsável máximo pela política externa de Washington entre 2001 e 2005, Powell foi Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos (1987-89) e Presidente da Junta de Chefes do Estado-Maior (1989-93). Uma sua intervenção na ONU, em 2003, deu o tiro de partida para a invasão do Iraque.

Embora vacinado, não resistiu à Covid 19, provavelmente por sofrer de  mieloma múltiplo, uma comorbilidade fatal. Tinha 84 anos.

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ABRAPLIP 2021


Com uma conferência de Helena Carvalhão Buescu, professora catedrática da Universidade de Lisboa, começou hoje o XXVIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, que decorre até ao próximo dia 29.

Esta sessão inaugural é moderada por Sérgio Nazar David, doutor em Teoria da Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Durante dez dias consecutivos, participam no ABRAPLIP 2021 um largo conjunto de académicos, poetas e escritores dos dois lados do Atlântico. A minha participação ocorrerá no próximo dia 21.

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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

HABEAS CORPUS


Prevaleceu o bom senso. Mas vamos ser nós (e não quem decidiu a prisão no desembarque em Pedras Rubras) a pagar a indemnização por oito dias de prisão ilegal.

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UPDATE RENDEIRO

A inspecção da PJ feita anteontem à casa do banqueiro na Quinta Patiño confirmou o desaparecimento de obras de arte inventariadas em Novembro de 2010. E algumas das que encontraram não correspondem aos originais constantes do auto de apreensão. Conclusão: quinze sumiram, outras foram substituídas por cópias. Nada que surpreenda.

Mas há pior. Duas obras icónicas da arte portuguesa, Cabeça Heráldica (1912) de Amadeo de Souza-Cardoso e Cães de Barcelona (1964) de Paula Rego, não constam do referido auto de apreensão. Há dez anos ainda as duas se encontravam na casa da Quinta Patiño. Paula Rego até viu a sua no local e, segundo testemunho de Nick Willing, o filho mais velho da pintora, a mãe não gostou do sítio onde estava colocada.

Sem surpresa, Rendeiro não emprestou Cães de Barcelona para a retrospectiva de Paula Rego actualmente patente na Tate Britain (Londres) e, pelos vistos, a PJ nem sabia da existência da obra, adquirida por Rendeiro em 1998, e exposta em 2008 na mostra que o Museu Reina Sofía (Madrid) dedicou à pintora. Deveras estranho.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

ESPERAVAM O QUÊ?


Quem acompanha o que escrevo sabe que não perco tempo com casos de polícia. Mas o affaire Rendeiro não é um simples caso de polícia: envolve o colapso do Banco Privado Português, ocorrido em 2008. Porém, durante treze anos, fazendo tábua rasa de decisões judiciais, o banqueiro fez o que quis, dentro e fora do país.

Há dias decidiu pôr-se ao fresco. Mas deixou cá a mulher e as 124 obras de arte que decoram algumas salas da casa da Quinta Patiño, no Estoril. Obras de, entre outros, António Dacosta, Carlos Botelho, Dominguez Alvarez, Frank Stella, Hogan, Julião Sarmento, Júlio Resende, Lourdes Castro, Noronha da Costa e René Bertholo. Não confundir com o acervo do Museu Ellipse, o qual, alegadamente, estará encerrado e à responsabilidade da polícia. 

É preciso não esquecer que, em 2006, a revista americana Art Forum considerou João Rendeiro uma das cem personalidades mais influentes do mundo da arte contemporânea. Tudo por causa da (sua) Ellipse Foundation, com sede nos Países Baixos, museu em Alcabideche e curadores do gabarito de Alexandre Melo e Pedro Lapa.

Ontem, uma juíza emitiu um mandado de busca e apreensão das supracitadas obras de arte, arrestadas desde 2011 mas ainda nas paredes da casa da Quinta Patiño. Parece que muitas delas não correspondem aos originais inventariados há dez anos. Esperavam o quê?

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MEDINA & INDEPENDENTES


Fernando Medina renunciou ao cargo de vereador na Câmara de Lisboa, regressando ao lugar de economista da AICEP. Fez muito bem.

Entretanto, também renunciaram quatro independentes eleitos na sua lista: a arquitecta Inês Lobo, que seria o número dois da CML, bem como Álvaro Machado de Amorim Pinto, Inês Ucha e Maria João Santos Rodrigues. Para os seus lugares avançam militantes do PS que estavam colocados em posições inferiores.

Medina perdeu a CML por 2.299 votos, encabeçando uma lista cheia de nomes que nada dizem aos militantes e simpatizantes do Partido Socialista (a sociedade civil não os conhece). Convinha reflectir nas desvantagens da heterodoxia ideológica, na qual grande parte do eleitorado PS não se revê.

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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O QUE NOS ESPERA


A quem puder interessar, aqui fica a proposta de tabela de IRS para 2022. Principal novidade: passagem de 7 para 9 escalões.

Não confundir com tabelas de retenção na fonte, as quais são elaboradas depois de aprovado o OE.

Imagem: Expresso. Clique.

EM QUE FICAMOS?


Na última edição do Expresso, António Valdemar ocupa seis páginas para assinalar o centenário da revista Seara Nova. Numa delas afirma que Pedro da Silveira — poeta, crítico literário, investigador, tradutor, antigo director da Biblioteca Nacional de Portugal —, tido em vida como oposicionista ao Estado Novo, teria sido colaborador da PIDE. Revelação surpreendente. Verdadeira? Falsa? Resultado de equívoco? António Valdemar não é um jornalista de tablóide, há que aguardar desenvolvimentos

Há quem sustente que 'Pedro da Silveira' seria o pseudónimo de um informador da PIDE — um tal Duarte de Gusmão, professor de Braga, cuja ficha teria sido consultada por vários investigadores  —, e não o Pedro Laureano Mendonça da Silveira (1922-2003) nascido nos Açores, intelectual respeitado como Pedro da Silveira, antologiado por Sena, com obra publicada entre 1952 e 2002.

Em que ficamos?

Imagem: lápide na casa de Pedro da Silveira, em Campo de Ourique.

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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

NOBEL DA LITERATURA 2021


O Nobel da Literatura 2021 foi há pouco atribuído ao tanzaniano Abdulrazak Gurnah, 73 anos, natural de Zanzibar.

Autor de uma dezena de romances, um livro de contos e vários ensaios sobre autores de língua inglesa e literatura pós-colonial, Gurnah estudou na Inglaterra e deu aulas na Nigéria antes de transferir-se para a Universidade de Kent, onde se doutorou em 1982.

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LIVROS PARA O OUTONO


Hoje na Sábado.

A partir da morte de Hamnet Shakespeare, Maggie O’Farrell (n. 1972) escreveu Hamnet, romance inspirado na vida do bardo com Anne Hathaway. É a história de um casal de Stratford-upon-Avon. O’Farrell diz apenas: «Cerca de quatro anos depois, o pai escreveu uma peça chamada Hamlet.» (O mesmo nome escrevia-se nas duas formas.) É desconhecida a causa da morte de Hamnet, mas no romance é vítima da peste. Quando o filho morre, já Shakespeare estava estabelecido em Londres. Portanto, tudo gira em torno de Anne e dos filhos. Mais exactamente, sobre o luto da mulher que se sente responsável pela morte do filho de onze anos. Sem beliscar factos históricos, a narrativa é deveras empolgante. Com Hamnet, O’Farrell ganhou o Women’s Prize for Fiction 2020.

Com nova tradução, temos de volta Olá, América!, uma das distopias mais famosas do inglês J.G. Ballard (1930-2009). Publicado pela primeira vez em 1981, o livro “antecipa” o apocalipse dos Estados Unidos nos anos 2100, após um colapso ambiental (a Rússia barrou o Estreito de Bering que liga o Pacífico ao Ártico) e financeiro de proporções bíblicas. Com Charles Manson na Casa Branca e dois terços dos norte-americanos expatriados na Europa e na Ásia, um grupo de aventureiros parte de Inglaterra para averiguar o que se passa do outro lado do Atlântico. Excessivo, irónico, mordaz, por vezes burlesco, Olá, América! é uma visão dantesca do fracasso do sonho americano.

Com A Anomalia, Hervé Le Tellier (n. 1957) venceu no ano passado o Prémio Goncourt. O livro foi agora traduzido por Tânia Ganho, que encontrou o registo certo do thriller. Dividido em três partes, sinalizadas por versos de Queneau, A Anomalia é uma sucessão de narrativas escritas de acordo com o perfil das respectivas personagens, muito diferentes entre si. Tudo se passa num voo entre Paris e Nova Iorque, mas podia ser num festival literário, tantas são as referências literárias (nomes, citações, trocadilhos, opinião). Ficcionista, ensaísta e colunista político, Le Tellier é o paradigma do intelectual público francês. Mérito maior: ao contrário de outros laureados da sua geração, o que escreve não provoca enfado.

A ficção identitária vive um momento alto, e A Outra Metade de Brit Bennett (n. 1990) é do melhor que tem sido escrito sobre interditos étnicos. Em Mallard, a cidade do romance, ninguém se casava com gente escura. Até aqui, nada que o inventário do racismo não ilustre. O ponto é outro: de forma a ficarem cada vez mais claros, os negros de Mallard fazem casamentos mistos. Com dezasseis anos, as gémeas Vignes fogem da cidade após o linchamento do pai. Contudo, enredam-se noutro tipo de contradições. Stella casa com um branco desconhecedor das suas origens, e Desiree regressa à cidade com uma filha negra como o alcatrão. Estamos nos anos 1950, no auge do segregacionismo. A saga prossegue até aos anos 1970, com as filhas de ambas em confronto com novas realidades (a transexualidade, etc.) e perspectivas de vida opostas. Brit Bennett é um nome a fixar.

Pode um irlandês, radicado em Nova Iorque, ficcionar o quotidiano da Palestina? Foi o que fez Colum McCann (n. 1965), professor do Hunter College. O livro tem um título estranho, Apeirogon, que significa polígono infinito. McCann conta a história de dois homens, um judeu e um palestiniano, unidos pelo denominador comum de terem perdido as filhas pré-adolescentes: em 1997, Smadar, 13 anos, vítima de bombistas suícidas; em 2007, Abir, 10 anos, com um tiro na nuca. Não são personagens de ficção, isto aconteceu. Os factos foram «compilados a partir de uma série de entrevistas em Jerusalém, Nova Iorque, Jericó e Beit Jala», embora o autor tenha arredondado o discurso. Ao longo de mil e um capítulos (Mitterrand e família, amante incluída, surgem no sexto), como nas mil e uma noites do clássico árabe, McCann tenta expor o absurdo do conflito que opõe os dois Estados. São muitas as derivações de tema e sentido, da Flauta Mágica à Mossad. Vários capítulos resumem-se a uma única linha. Também há ilustrações. Como refere o subtítulo, trata-se de viagens infinitas.

A italiana Rosa Ventrella regressa com A Maledicência. Quem gostou de História de Uma Família Decente vai gostar deste regresso ao coração da Apúlia. Tendo a Segunda Guerra Mundial em pano de fundo (e, mais tarde, a reforma agrária), o romance opõe a fome e a moral, no registo fluente a que a autora nos habituou.

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terça-feira, 5 de outubro de 2021

FERNANDO ECHEVARRÍA 1929-2021


Morreu ontem Fernando Echevarría, um dos grandes poetas portugueses do século XX. Filho de pai português e mãe espanhola, Echevarría nasceu em Cabezón de la Sal, onde seu pai se exilara após o fracasso da denominada Monarquia do Norte. Foi aliás em Espanha que concluiu os estudos de Filosofia e Teologia.

Estreou-se em livro com Entre Dois Anjos (1956), tendo publicado com regularidade durante sessenta anos consecutivos. Em 1961 emigrou para Paris, integrando movimentos oposicionistas, como o Movimento de Acção Revolucionária e a Frente Patriótica de Libertação Nacional, de que foi um dos fundadores. Pertenceu ao Grupo de Argel, país onde se radicou em 1963. Em 1966 regressou a França, onde viveu mais de vinte anos. Regressou a Portugal na segunda metade dos anos 1980, fixando residência no Porto.

Traduzido em vários idiomas, várias vezes premiado, recusou todos os cargos oficiais que depois de 1974 lhe foram sendo propostos.

A notícia só hoje foi divulgada por sua mulher. Echevarría tinha 92 anos e estava internado.

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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

DIANA EVANS


Hoje na Sábado:

Ajusta-se perfeitamente a Pessoas Comuns, de Diana Evans, a máxima de Tolstói: cada família infeliz é infeliz à sua maneira. A meia-idade é um período fértil em desacertos conjugais e é deles que o romance trata. Não esquecer que, mesmo de viés, o fracasso do casamento de Diana com o príncipe Carlos paira sobre o seu livro de estreia, o premiado 26a, de 2005.

Filha de pai inglês e mãe nigeriana, Diana Evans nasceu (1972) na Inglaterra mas passou parte da infância na Nigéria. Neste livro, o terceiro que publica, pretende fazer uma grande angular sobre a classe média negra britânica. Tudo começa na festa de sábado à noite dada pelos irmãos Wiley, na sua casa do sudeste de Londres, para celebrar a eleição de Obama. Os convidados, gente glamorosa e bem-sucedida, são advogados, jornalistas, actores e políticos da comunidade negra. Isto coincide com o facto de Wall Street ter arrastado o mundo para o crash de 2008. A partir da realidade concreta da capital britânica, Evans ilustra esse microcosmo de forma minuciosa: «Não paravam de chegar, homens de boa disposição e sapatilhas no ponto, mulheres com diferentes graus de cabelo postiço […] como sócias de Beyoncé.» Sublinhar que o romance progride ao som de playlist adequada (começa logo no título), onde não falta Michael Jackson, cuja morte fecha o livro.

Melissa, a personagem mais forte, é uma jornalista freelance residente na área de Crystal Palace. Entedia-se com as rotinas domésticas como acontece com a maioria das mulheres (e homens) da sua geração que têm uma profissão absorvente. Nada de extraordinário. O melhor do livro acaba por ser o tour d’horizon pela Grande Londres gentrificada, vista a partir das duas margens do rio, num périplo que se estende a Dorking, trinta quilómetros a Sul. ‘Exilado’ no Surrey por vontade da dona de casa convencional com quem casou, Damian, um aspirante a escritor cujo pai fora um conhecido activista negro, sonha com a Londres da sua vida de solteiro. Denominador comum aos casais retratados, a incomunicabilidade e o tédio de vidas que chegaram ao ponto de não retorno, após crises de identidade, equívocos embaraçosos e ocasional adultério. Terá sido pelo facto de tentarem decalcar o padrão de vida dos homens e mulheres que alimentam a imprensa cor-de-rosa? Mas Torremolinos, onde fazem férias, não é exactamente um destino trendy.

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