sexta-feira, 24 de setembro de 2021

GALINÁCEOS

Hoje vou falar de coisas triviais que deviam incomodar as pessoas comuns. Aparentemente, não incomodam.

Falo das galinhas e frangos de aviário que se vendem nas chamadas grandes superfícies. Não terá passado despercebido a nenhum consumidor atento que os confinamentos deram origem a um downsizing generalizado. A distribuição nunca parou, é verdade, mas os despedimentos de que ninguém fala (e foram muitos), bem como a quebra de importações, fazem-se sentir desde o Outono do ano passado.

Estando obrigada a conhecer e fazer respeitar as regras de criação, abate, conservação e comercialização dos galináceos — matéria de grande minúcia e sofisticação —, a ASAE não pode fechar os olhos à realidade: sangue pisado, aves com pernas partidas (não é piada), sinais de infecção, pigmentação evidenciando sangramento deficiente, resíduos de penas, etc., temos encontrado de tudo, em lojas de topo e outras de baixo perfil.

O problema é comum porque todos se abastecem nos sítios do costume. E passo por cima do habitat em que são criados esses galináceos. Apesar de tudo, quero acreditar que não são forçados a viver em ambientes sujos e infestados de doenças, como tem sido denunciado acontecer noutros países do primeiro mundo. Repito: quero crer que tudo não passa de desleixo e falta de respeito pelo consumidor. Não é pouco!

Dizer a um gestor de grande superfície que «a galinha não pode ter sangue pisado» é o mesmo que dizer a um yuppie que não pode deixar o Land Rover em cima do passeio. Não sabem do que estamos a falar.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

PITAGÓRICA


Sondagens para todos os gostos. Esta é da Pitagórica para a TVI e foi divulgada há pouco no Jornal das 8. Clique na imagem.

CÂMARA DE LISBOA


Sondagem do CESOP da Universidade Católica Portuguesa para o Público e a RTP, divulgada hoje: 

Medina 37% / Moedas 28% / João Ferreira 11%

BE 7% / IL 5% / PAN 3% / CH 3% / Os restantes seis candidatos ficam abaixo de 1%.

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terça-feira, 21 de setembro de 2021

A INCUBADORA DE RUI RIO

«O que é uma bazuca? Uma bazuca dispara tiro a tiro e o dr. António Costa dispara de rajada, não é uma bazuca, é uma metralhadora.» — Rui Rio, ontem.

[A incubadora: «Este Governo é como um bebé nascido de um parto difícil e, por isso, a necessitar de incubadora e que vê os irmãos mais velhos a dar-lhe estaladas e pontapés.» — Santana Lopes, 2004.]

domingo, 19 de setembro de 2021

FERNANDO ASSIS PACHECO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi A Bela do Bairro de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), poeta maior da geração de 70.

Natural de Coimbra, onde estudou (seria sobre o poeta inglês Stephen Spender que faria a sua tese de licenciatura), nunca teve outra profissão senão a de jornalista. Na juventude foi actor de teatro no TEUC e no CITAC. 

Assinava uma coluna de crítica literária — o Bookcionário — sem rival na imprensa portuguesa, sínteses breves, bem fundamentadas, do que importava destacar. Estreou-se em livro com Cuidar dos Vivos (1962), chamando a atenção da crítica dez anos mais tarde, quando publicou Câu Kiên: Um Resumo (1972), reeditado em 1976 como Catalabanza, Quilolo e Volta para melhor se perceber de que guerra os poemas falavam.

Muita gente percebeu tarde que o Assis não era apenas o gajo porreiro (e culto) dos jornais, o autor da novela pícara Walt (1978), o tradutor de Neruda e Gabriel García Márquez, o jornalista que tratava os grandes por tu. Quando Rui Martiniano, o editor da Hiena, pôs na rua A Musa Irregular (1991), o grande público descobriu um grande poeta.

Morreu subitamente aos 58 anos, à porta da Livraria Buchholz, de Lisboa.

O poema desta semana pertence à plaquette privada A Bela do Bairro e Outros Poemas (1986), mais tarde integrado em volume próprio. Consta da obra poética completa do autor: A Musa Irregular (1991). A imagem foi obtida a partir da referida plaquette.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida e Carlos de Oliveira.]

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sábado, 18 de setembro de 2021

JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA 1922-2021


Morreu hoje José-Augusto França, historiador de arte e olissipógrafo, autor de uma obra muito vasta que inclui ensaio, crítica, romance, conto, poesia, teatro, monografias sobre Lisboa, e outra sobre Tomar, cidade onde nasceu.

Professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa, era considerado o guru da historiografia nacional de Arte. Fez parte (1947-49) do Grupo Surrealista de Lisboa, polemizou com os neorrealistas, organizou o primeiro salão de arte abstracta, editou revistas de vanguarda, leccionou na Sociedade Nacional de Belas Artes, presidiu ao Centro Nacional de Cultura, dirigiu a revista Colóquio-Artes (Gulbenkian) entre 1970 e 1997, criou em 1975 a primeira licenciatura em História da Arte, etc. Em suma, participou activamente na vida cultural portuguesa durante mais de meio século.

Em Paris, onde viveu largas temporadas e terminou a formação universitária que tinha abandonado em Lisboa, obteve os graus de Doutor em História (1962), Letras (1969) e, mais tarde, em Sociologia da Arte. Na capital francesa foi ainda director (1980-86) do Centro Cultural Calouste Gulbenkian.    

Em mais de cem títulos, gostaria de destacar Lisboa. História Física e Moral (2008), Lisboa Pombalina e o Iluminismo (1977), A Arte em Portugal no Século XX (1974, edição revista em 2008) e Arte Portuguesa do Século XIX (1967, edição revista em 1981), sem esquecer, naturalmente, as obras que dedicou a Almada e Amadeo. 

Prevê-se a publicação de Estudos das Zonas ou Unidades Urbanas de Carácter Histórico-Artístico de Lisboa, obra que inclui plantas, desenhos e levantamento fotográfico em 292 imagens.

Várias vezes condecorado, José-Augusto França vivia em França desde 2001. Estava internado há três anos numa unidade de cuidados continuados de Jarzé Villages e faria 99 anos no próximo mês de Novembro. Era casado com Marie-Thérèse Mandroux, historiadora de arte.

Imagem: fotografia de 1949, por Fernando Lemos, in Eu Sou Fotografia (2011), álbum editado pela Fundação Cupertino de Miranda. Clique.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

CÁTEDRA LÍDIA JORGE


É hoje apresentada na Université de Genève a cátedra Lídia Jorge, instituída no passado mês de Junho por aquela universidade centenária, com o fim de divulgar e promover a sua obra, mas também a língua portuguesa e as culturas de expressão portuguesa, como vem fazendo o respectivo Centre International d’Études Portugaises.

Integrada na Faculdade de Letras da referida universidade, a formalização da cátedra Lídia Jorge assenta num Colóquio internacional no qual participam cerca de vinte professores e investigadores portugueses, brasileiros, franceses, suíços, britânicos e norte-americanos, distribuídos por sete painéis, a partir do tema central — “o poder da imagem na obra de Lídia Jorge”.

Augusto Santos Silva, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, fará a primeira comunicação: A imagem de Portugal na obra de Lídia Jorge. Os trabalhos prosseguem amanhã.

Parabéns, Lídia.

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POR FIM


Quatro anos e 6,7 milhões de euros depois, reabriu ontem a estação do metro de Arroios. O cais foi prolongado quarenta metros, permitindo a paragem de comboios com seis carruagens, como no resto da rede.

Foram limpos os azulejos de Maria Keil e colocado um grande painel de Nikias Skapinakis, Cortina Mirabolante, encomendado para o efeito. Quem não quiser descer as escadas tem elevador.

Como é do conhecimento geral, o primeiro empreiteiro faliu, obrigando a Câmara de Lisboa a tomar posse administrativa da obra. Isso explica o salto de seis meses para quatro anos e a derrapagem de 50% no custo final.

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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

UM MILHÃO DE RECUPERADOS


Portugal ultrapassou hoje a barreira do milhão de recuperados. Clique na imagem.

domingo, 12 de setembro de 2021

CARLOS DE OLIVEIRA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Leitura de Carlos de Oliveira (1921-1981), poeta maior, cuja Obra transcende as balizas do neo-realismo a que o seu nome é por regra associado.

Natural de Belém do Pará, no Brasil, veio para Portugal em 1923, radicando-se na região da Gândara, onde seu pai exerceu medicina.

Estreado em livro em 1937, só considerará como parte da bibliografia a obra publicada a partir de 1942, ou seja, a partir de Turismo. Unanimemente considerado o poeta mais importante do neo-realismo português, distingue-se também como romancista. Na ficção, a obra mais conhecida é Uma Abelha na Chuva (1953). Nunca tendo exercido qualquer profissão, colaborou na imprensa cultural de Lisboa, do Porto e de Lourenço Marques. Viveu em Lisboa entre 1948 e 1981, ano da sua morte. O seu espólio encontra-se depositado no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. No passado 10 de Agosto passaram cem anos sobre o seu nascimento.

O poema desta semana pertence a Pastoral (1977), o derradeiro ciclo de Oliveira. A imagem foi obtida a partir de Trabalho Poético, volume da obra poética completa [Assírio & Alvim, 2003] na qual o autor refunde e reescreve toda a poesia publicada, acrescentando-lhe Pastoral.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho e Leonor de Almeida.]

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sábado, 11 de setembro de 2021

11/9


Passam hoje 20 anos sobre o dia que mudou a vida de toda a gente. Nada voltou a ser como dantes. Repito o que escrevi no meu livro de memórias: «Quando uma onda de gases, detritos e fumo engoliu a baixa de Manhattan [...] soubemos que o mundo tal como o conhecíamos tinha acabado naquele momento

A imagem mostra quatro das centenas de corpos que saltaram para o vazio. Foi obtida a partir de Here Is New York — álbum fotográfico com 865 páginas de grande formato, concebido e organizado por Alice Rose George, Gilles Peress, Michael Shulan e Charles Traub, editado pela Scalo [Nova Iorque, Berlim, Zurique] em 2002 —, o livro mais terrível que tenho na minha biblioteca.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2021

JORGE SAMPAIO 1939-2021


Vítima de insuficiência respiratória, morreu hoje Jorge Sampaio, antigo Presidente da República. Sampaio encontrava-se hospitalizado desde o passado dia 27 de Agosto. Faria 82 anos no próximo dia 18.

Activista estudantil contra a ditadura, advogado de profissão, fundador do MES (1974), ingressou no Partido Socialista em 1978. 

Por nomeação de Soares, chefiou a delegação portuguesa que negociou com a Frelimo o contencioso financeiro com Moçambique. Eleito deputado em 1979, foi líder da respectiva bancada parlamentar, chegando a secretário-geral do PS em 1988, cargo em que se manteve até 1992. Presidente da Câmara de Lisboa (1990-1995) e Presidente da República em dois mandatos (1996-2006), foi uma figura respeitada por todos os quadrantes políticos.

Por escolha das Nações Unidas, exerceu os cargos de Enviado Especial para a Luta contra a Tuberculose (2006) e Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações (2007-2013). Era doutorado honoris causa pelas universidades de Aveiro, Coimbra, Lisboa e Porto.

Casou duas vezes, primeiro com a médica Karin Schmidt Dias, depois com Maria José Ritta, ex-supervisora da TAP, mãe dos seus filhos.

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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado:

A holandesa Marieke Lucas Rijneveld (n. 1991) conseguiu a proeza de vencer o International Booker Prize com o livro de estreia, O Desassossego da Noite. Nunca o prémio fora atribuído a alguém tão jovem. Ao receber a notícia, Marieke, então com 29 anos, exclamou: «Estou orgulhosa como uma vaca de sete tetas.» Com acção centrada numa quinta de produtores de leite dos Países Baixos, o plot apoia-se num incidente autobiográfico, a morte acidental do irmão mais velho da narradora, Cas, testemunha da tragédia quando tinha dez anos. Marieke descreve com desenvoltura o dia-a-dia da quinta, o protestantismo da família e, com precisão gráfica, o incesto entre irmãos (muito criativo o uso dado às anilhas das latas de Coca-Cola). Além de sexo e escatologia, o livro subsume violência física e verbal, fisting em bovinos, febre aftosa, abate de animais, barras de sabão introduzidas no reto do pai, etc. Tudo isto em linguagem crua, traduzida directamente do neerlandês por Patrícia Couto. Publicou a Dom Quixote.

Um tour d’horizon sobre a Belle Époque, O Homem do Casaco Vermelho traz de volta Julian Barnes (n. 1946), excelentíssimo autor da literatura de língua inglesa. O ponto de partida é uma viagem a Londres, em 1885, na qual participaram três amigos, um deles Samuel Pozzi, o ginecologista francês que foi amante de Sarah Bernhardt. Barnes decidiu escrever o livro depois de ver o retrato de Pozzi feito por John Singer Sargent (o da sobrecapa e folha de rosto). Digamos que O Homem do Casaco Vermelho é uma espécie de Who’s Who dos anos 1880-90, escrito com minúcia e sagacidade. Estão lá todos, de Oscar Wilde ao conde de Montesquiou (o dândi que Proust imortalizou como Barão de Charlus), de Clemenceau a Dreyfus, de Madame X a Jean Lorrain, de Gide a Henry James, de Huysmans aos irmãos Goncourt. Em suma, um livro culto e divertido, em edição de capa dura com extenso portofolio fotográfico. Publicou a Quetzal. 

Um novo livro de Edna O’Brien (n. 1930), a mais importante escritora irlandesa, é sempre uma boa notícia. Publicado em 2019, Menina é inspirado no rapto, pela seita Boko Haram, das alunas cristãs de uma escola nigeriana. Tudo se passou em 2014, quando mais de duzentas raparigas foram feitas escravas sexuais dos jiadistas. O romance faz silêncio sobre o local do crime, dando voz às vítimas anónimas: «Em tempos fui uma menina, mas já não sou.» Assim começa o relato de Maryam, nome fictício de alguém que sobreviveu ao cativeiro. Para melhor escrever o livro, O’Brien deslocou-se duas vezes à Nigéria. Vão longe os tempos em que as suas obras eram banidas das livrarias de Dublin, muitas delas queimadas em autos-de-fé. Contar a verdade nunca foi fácil, mas O’Brien não desistiu. Descreve a tragédia das rapariguinhas de Chibok com o mesmo desembaraço com que em 1960 descreveu os interditos da sociedade irlandesa. Agora, fez de Menina um romance sobre o indizível. Magnífico. Publicou a Cavalo de Ferro.

Quase toda a gente sabe que Simone Veil (1927-2017) foi a ministra francesa da Saúde que, em 1975, despenalizou a interrupção voluntária da gravidez, tendo sido a primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente do Parlamento Europeu. O que nem toda a gente conhece é o seu passado de prisioneira em Auschwitz-Birkenau e Bergen-Belsen. Através dos relatos feitos a David Teboul, A Madrugada em Birkenau recupera o horror da sua deportação (Simone tinha 16 anos), o paroxismo nazi da “solução final” e o regresso a França depois da prisão. Um testemunho indispensável, ilustrado por dezenas de fotografias. Publicou a Quetzal.

Estamos habituados à ficção de Zadie Smith (n. 1975), mas Sinta-se Livre é uma colecção de ensaios deveras estimulantes, especialmente os da Parte V, que tem o título do livro. Originalmente publicados na New York Review of Books e outras revistas, sobre temas tão diferentes como literatura, Brexit, identidade de género, fotografia, censura artística, Facebook, alterações climáticas, cinema, fractura de classes, liberdade, etc., são textos que nos interpelam com opiniões fortes. Publicou a Dom Quixote.

Para assinalar os 700 anos da morte de Dante Alighieri, o historiador da literatura John Took escreveu A Importância de Dante, obra subtitulada como sendo Um Guia para Pessoas Inteligentes. Na realidade, trata-se um esclarecedor companion da vida e obra de Dante, acessível ao leitor comum. Centrado em três obras — A Divina Comédia, A Vida Nova e O Convívio —, Took cativa-nos do princípio ao fim da leitura. Publicou a Bertrand.

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terça-feira, 7 de setembro de 2021

7 DE SETEMBRO DE 1974


Passam hoje 47 anos sobre uma das datas mais trágicas da História de Moçambique: a tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, patrocinada por parte da burguesia branca (empresários e políticos) e por partidos sem expressão popular, alguns deles formados por dissidentes da FRELIMO, tais como, entre outros, o COREMO, o FICO, o GUMO, o MOLIMO, etc. Quatro dias de pesadelo sobre os quais a historiografia portuguesa faz silêncio.

Um dos contos do meu livro Devastação tem como ponto de partida esse fim-de-semana alucinante. Os factos constam do meu livro de memórias — Um Rapaz a Arder —, do qual deixo um breve excerto:

A tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974 foi um episódio tenebroso com ramificações nunca devidamente esclarecidas. Nesse sábado foi assinado em Lusaka o acordo que definia os termos e condições da independência de Moçambique, tendo Mário Soares e Samora Machel como principais signatários.

Assim que o facto foi divulgado, um grupo de antigos colonos reunidos no denominado Movimento de Moçambique Livre ocupou as instalações do Rádio Clube e fechou o aeroporto da cidade. Eram seis da tarde. Fiz alguns telefonemas e percebi que a situação era muito grave. Horas antes, um grupo de insurrectos tinha invadido a penitenciária e libertado os pides.

A situação ficou fora de controlo. Jornais pró-independência, como o Notícias e A Tribuna, foram tomados de assalto, o mesmo acontecendo às instalações da Associação Académica. O Diário foi o único jornal que saiu no domingo. Entre alusões patrióticas e recados aos «vendilhões de feira» (o alvo era Soares), apoiava a secessão. Os Democratas de Moçambique, cujo bureau fora destruído, deixaram as suas casas no Sommerschield e na Polana e foram refugiar-se no Caniço. Rui Knopfli foi para casa de José Craveirinha. Os transportes públicos deixaram de circular, grande parte dos restaurantes encerrou e, durante quatro dias, os cinemas não funcionaram.

O Movimento de Moçambique Livre confiava no apoio do Presidente da República, mas Spínola não abriu a boca. E contava também com Jorge Jardim, mas o ideólogo do federalismo desapareceu de cena. Apesar do apoio da BOSS, a polícia política sul-africana, o golpe não teve repercussão noutras cidades de Moçambique, nem sequer na Beira, feudo de Jorge Jardim. Mesmo assim, o MML galvanizou os sectores mais reaccionários de Lourenço Marques.

A cidade mergulhou num caos sem precedentes. Enquanto a tranquibérnia durou, não me atrevi a ir mais longe que o Parque José Cabral, a cem metros de minha casa. O Jorge estava retido em Boane, na escola de oficiais milicianos.

[...] Uma companhia de comandos oriunda do Niassa reabriu o aeroporto e desocupou o Rádio Clube na tarde do dia 10. Soube-se que a opera buffa tinha acabado quando as arengas de Gomes dos Santos e Vellez Grilo foram substituídas pelo grito «Galo, galo, galo. Amanheceu. Galo, amanheceu». Para uns, a senha da Frelimo visava apaziguar o Caniço. Para outros foi o tiro de partida da desforra que se manifestou de forma assaz violenta [centenas de mortos] nas vilas da Machava e da Matola. Parte significativa da população branca via esboroar-se o sonho de uma secessão de perfil rodesiano. O êxodo foi imediato. Entre os dias 10 e 12, as autoridades da África do Sul e da Suazilândia facilitaram a passagem de mais de cinquenta mil brancos, a maioria sem passaporte. Muitos regressaram ao fim de semanas. No dia 12 chegou o almirante Vítor Crespo, investido pelo MFA como alto-comissário português.

— Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013

Imagem: no rescaldo do golpe, militares patrulham a cidade. Clique.

domingo, 5 de setembro de 2021

LEONOR DE ALMEIDA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Atrás dos Olhos de Leonor de Almeida (1909-1983), poeta ignorada que Vladimiro Nunes tirou do limbo por ocasião da Feira do Livro do Porto de 2020, evento em que foi homenageada.

Para esse resgate contribuiu Claudia Clemente, que em simultâneo publicou Tatuagens de Luz (Documenta, 2020), rigorosa monografia biográfica de cuja iconografia consta a certidão que fixa em definitivo a data de nascimento de Leonor de Almeida.

Natural do Porto, Leonor de Almeida foi poeta, enfermeira, publicista, fisioterapeuta, esteticista e mulher do mundo, tendo vivido largas temporadas em Londres, Paris e Copenhaga. Morreu em Lisboa, onde viveu praticamente incógnita a partir de 1962.

Feminista avant la lettre, foi aclamada pelos críticos mais influentes dos anos 1940 e 50 (entre outros, João Gaspar Simões, Alberto de Serpa, Jacinto Prado Coelho, Melo e Castro), tendo sido incluída por Natália Correia na Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satítica (1966). Seguiu-se mais de meio século de silêncio.

Além dos quatro livros de poesia que publicou entre 1947 e 1960, colaborou (no mesmo lapso de tempo) em quase todas as revistas e jornais de referência, sendo membro da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Durante os anos em que viveu na Dinamarca tentou publicar naquele país uma antologia de poesia portuguesa traduzida. Foi casada em segundas núpcias (1951-61) com Alexandre Pinheiro Torres, catorze anos mais novo do que ela.

O poema desta semana pertence a Caminhos Frios (1947), o livro de estreia. A imagem foi obtida a partir de Na Curva Escura dos Cardos do Tempo (2020), volume da sua poesia reunida organizado por Vladimiro Nunes, prefaciado por Ana Luisa Amaral e publicado pela editora Ponto de Fuga.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte e Francisco Bugalho.]

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sábado, 4 de setembro de 2021

PAULO RANGEL FAZ COMING OUT


Por causa desta manchete do Expresso fui ver o programa Alta Definição, da SIC. Nele, Paulo Rangel, 53 anos, eurodeputado do PSD, fez o seu coming out com inteligência e serenidade. 

Fê-lo só agora, esclareceu, para preservar a mãe, falecida em 2019. Quem tinha de saber sabia, isso nunca constituiu problema

Rangel, homem culto —  um cristão que tolera o catolicismo —, fez o que fazem os políticos sérios quando se preparam para voos mais altos: pôs as cartas na mesa.

Ao longo da entrevista, além de falar dos pais, dos irmãos, da formação académica, de viagens, do Parlamento Europeu e de política tout court, ainda disse poemas de Gedeão.

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LEITURA


No seu blogue Acrítico, Antonio Ganhão faz a resenha do mais recente dos meus livros. Deixo aqui os últimos parágrafos:

«[...] Depois, temos esta escrita de Eduardo Pitta, limpa, sem metáforas, em linguagem direta. No início do conto Ema entra no autocarro, nada nos é dito sobre essa decisão. Mas o esgar do motorista e o espanto do revisor contam-nos toda uma história. Algo de grave se passou que não nos é dado a conhecer diretamente, cabe ao entendimento do leitor transcender a própria palavra escrita, uma elipse poderosa, avassaladora e o leitor treme de espectativa. Ao terceiro parágrafo já se rendeu e espera o pior, mas não consegue parar de ler. É assim em todos os contos, a elipse como uma segunda voz, um novo tipo de narrador a que não estamos habituados, pelo menos com este nível de mestria.

Todos nós somos senhores das nossas decisões ou de parte da nossa vida, mas o destino está nas circunstâncias de cada um, nos preconceitos, no que escondemos, no que a sociedade nos impõe, e sobreviver pode não ser uma opção. Devastação, impensável não ler este livro

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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

ISABEL DA NÓBREGA 1925-2021


Morreu hoje Isabel da Nóbrega, escritora e tradutora, Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Tinha 96 anos.

Autora de romances, contos, três peças de teatro e literatura para a infância, foi várias vezes premiada. Colaborou intensamente na imprensa, tendo escrito, a partir dos anos 1950, cerca de três mil crónicas.

A partir de edições inglesas e francesas traduziu obras de Tolstoi, Pirandello, Erich Maria Remarque, Graham Greene e outros. Na rádio e na televisão foi responsável por diversos programas culturais, tais como O Prazer de Ler e Largo do Pelourinho. O romance Viver com os outros (1964) é considerado a sua obra-prima.

Depois do cardiologista Abreu Loureiro, pai dos seus filhos, viveu com João Gaspar Simões entre 1954 e 1968, tornando-se companheira de Saramago em 1970 (viveu com o futuro Nobel durante dezasseis anos), mas o seu nome desapareceu das dedicatórias.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

LISBOA


CÂMARA DE LISBOA — Sondagem da Aximage para a TSF, JN e DN divulgada hoje.

Fernando Medina, PS / 51% 

Carlos Moedas, PSD+CDS+PPM+MPT+ALC / 27% 

João Ferreira, CDU / 9%

Beatriz Gomes Dias, BE / 4% 

Bruno Horta Leal, IL / 2%

Manuela Gonzaga, PAN / 2%

Nuno Graciano, CH / 2%

Liderando uma coligação de cinco partidos (PSD, CDS, PPM, MPT e ALC), Moedas obtém um resultado inferior ao conseguido pela soma do PSD e do CDS em 2017.

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LISBOA


O jornal é de hoje, mas a imagem da 1.ª página começou a circular ontem à noite, animando (ou estragando) jantares e convívios.

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