quinta-feira, 15 de abril de 2021

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

O gigante perdido da literatura americana, como é conhecido William Melvin Kelley (1937-2017), chegou finalmente à edição portuguesa. Depois da morte do autor, Um Tambor Diferente, o aclamado romance de estreia, tem sido reeditado em todo o mundo. Kelley, que também foi professor de escrita criativa no Sarah Lawrence College, deixou uma obra parcimoniosa: cinco títulos, publicados entre 1962 e 1970. Mesmo oriundo de Harvard e vivendo em Nova Iorque, onde o comparavam a Faulkner e James Baldwin, era complicado um negro impor-se no milieu literário norte-americano. Isso explica que tenha vivido quase uma década entre Paris e Roma, radicando-se em 1968 na Jamaica. Escrito quando a luta pelos direitos civis marcava a agenda política, Um Tambor Diferente é o relato vibrante da rejeição, por parte de Tucker Caliban (o protagonista), das iniquidades do Sul Profundo. Após salgar as terras, abater o cavalo e deitar fogo à casa onde vivia com a mulher grávida, Tucker parte para o Norte, decisão que desencadeia o êxodo da comunidade negra. A originalidade do plot reside no facto de ser narrado a partir do ponto de vista dos brancos. Publicou a Quetzal.

A reedição de Fome, do norueguês Knut Hamsun (1859-1952), traz de volta um autor controverso. Admirador de Hitler e Goebbels, racista confesso, colaborador nazi, foi julgado e condenado por traição ao seu país. Além de romances e contos, Hamsun escreveu poesia, ensaios e panfletos. Após publicar Os Frutos da Terra (1917), recebeu o Nobel da Literatura em 1920. O domínio do fluxo de consciência acentua o carácter autobiográfico de Fome, o seu primeiro livro (1890), elogiado por Gide, Thomas Mann e outros. Liliete Martins traduz directamente do norueguês. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrito para a BBC Radio, Estilicídio, do galês Cynan Jones (n. 1975), são esses doze episódios em forma de livro. Estilicídio significa ‘queda de água gota a gota’. Série de antecipação sobre como sobreviver a uma crise climática de proporções bíblicas, coloca o leitor perante a possibilidade da falta de água. A acção centra-se numa grande metrópole (admitamos que seja Londres) devastada por uma sucessão de secas e enchentes. Uma das alternativas consiste em rebocar um iceberg do Ártico. Falta porém consenso entre quem manda, a população, os ambientalistas e, como é de regra, os terroristas que também entram na história. Resumindo: Estilicídio ecoa todas as harmónicas possíveis num guião televisivo. Publicou a Elsinore.

É sempre gratificante voltar a Cesare Pavese (1908-1950), nome maior da literatura italiana. Poeta, ficcionista, ensaísta, diarista, crítico, tradutor de Joyce, Melville e outros, Pavese suicidou-se aos 41 anos, poucos meses depois de receber o Prémio Strega e de publicar A Lua e as Fogueiras, o livro derradeiro. Narrado na primeira pessoa («Há uma razão para eu ter voltado para esta aldeia…») pela voz de um emigrante regressado da América após o fim da Segunda Guerra Mundial, demonstra a impossibilidade de resgatar o passado. Tudo rui à sua volta, e nem a fortuna acumulada desfaz a condição de “bastardo”. Uma elegia seca e amarga dos lugares e pessoas da remota infância. Publicou a Bertrand.

Quando George Orwell (1903-1950) escreveu 1984, estava longe de supor o impacto que o livro teria nas gerações vindouras. Agora que a obra caiu em domínio público, sucedem-se as reedições. A obra de Orwell recentrou a distopia em literatura, na medida em que o seu precedente mais célebre, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, não resistiu à usura do tempo. Pelo contrário, o Grande Irmão (o Big Brother) faz parte do imaginário contemporâneo. Escrito com a intenção de denunciar o totalitarismo estalinista, a tese do controlo total por parte do Partido é o Leitmotiv do romance. Um dos personagens, o poeta Ampleforth, intelectual praticante da Novilíngua, parece ser uma caricatura de Auden. Gonçalo M. Tavares assina o prefácio. Publicou a Relógio d'Água.

Numa altura em que se verifica o avanço de forças extremistas em democracias consolidadas, convém ler O Regresso da Ultradireita, de Cas Mudde (n. 1967), o cientista político holandês que tem escrito sobre as várias formas de populismo. Analisando a rapidez com que partidos tradicionais, outrora conservadores, interiorizaram o discurso de homens como Trump ou Bolsonaro, Mudde faz um tour d’horizon às franjas radicais que controlam os governos de vários países, dentro e fora da Europa. A quarta vaga da ultradireita é o enfoque do livro. Por que é que há vinte anos as opiniões públicas reagiam indignadas à xenofobia, e hoje reagem com um bocejo à sua “normalização”? Publicou a Presença.

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domingo, 11 de abril de 2021

GEDEÃO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Homem, de António Gedeão (1906-1997), o poeta que deu coloquialidade ao barroco. Escreveu poesia, ficção, teatro, ensaio e memórias. A sua poesia encontra-se traduzida em vários idiomas.

Quando em 1956 surge na vida literária com o pseudónimo de António Gedeão, o pedagogo Rómulo de Carvalho, professor de física e química em liceus de Lisboa (1931-50 e 1957-75) e Coimbra (1950-57), contava já com títulos publicados nas áreas histórico-científica e pedagógica. Dito de outro modo, o divulgador de ciência deveio poeta.

Entre os seus alunos do Liceu Pedro Nunes que se notabilizaram na vida pública portuguesa conta-se Marcelo Rebelo de Sousa.

Natural de Lisboa, o dia do seu nascimento — 24 de Novembro — é celebrado desde 1996 como Dia Nacional da Cultura Científica.

Depois da sua morte, a Fundação Calouste Gulbenkian publicou (2010) um grosso volume de memórias que o autor dedicou aos futuros tetranetos.

Membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, doutorado honoris causa pela Universidade de Évora (1995), Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1996), foi-lhe concedida a título póstumo (2018) a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, da qual era Grande-Oficial desde 1987.

Casado em segundas núpcias com Natália Nunes, é pai da escritora Cristina Carvalho.

Desde 2012, o Prémio António Gedeão, criado por um sindicato de professores, distingue docentes com obra poética publicada.

O poema desta semana pertence a Movimento Perpétuo (1956), livro de estreia do autor. A imagem foi obtida a partir de Poesias Completas, volume publicado em 1964, com extenso prefácio de Jorge de Sena, na colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder e Florbela Espanca.]

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sábado, 10 de abril de 2021

CONCLUSÃO

Para pôr um ponto final no assunto, a que não tenciono voltar antes de Setembro, data em que o recurso do MP deve chegar à Relação de Lisboa (não esquecer que aos quatro meses requeridos para recurso há que somar o período de Verão das férias judiciais, que se prolongam até 31 de Agosto), deixo uma nota de perplexidade.

A metade do país que tem ódio jurado a Sócrates ficou impressionada com o facto de, em 189 crimes distribuídos por 28 arguidos, apenas dezassete, distribuídos por 5 arguidos, terem tido acolhimento do juiz de instrução.

Verdade que personagens como Granadeiro, Bava, Barroca, Bataglia, etc., não foram pronunciados por nenhum crime. E aquela parte do povo sedenta de um ajuste de contas com o 25 de Abril quer uma versão pós-moderna do Processo dos Távoras. 

Mas Sócrates não saiu incólume, tal como Salgado, Vara, Santos Silva e o motorista do antigo primeiro-ministro. Mais: Sócrates ouviu o juiz dizer-lhe, olhos nos olhos, que não acredita na tese dos empréstimos. É o momento mais arrasador da leitura do despacho de pronúncia.

Aqui chegados, o MP tinha uma oportunidade de ouro para deixar prosseguir o caso. Porque Sócrates vai ter de responder por três crimes de branqueamento de capitais e outros três de falsificação de documento (o mesmo sucedendo ao amigo Santos Silva). Insistir na novela desmontada por Ivo Rosa terá como consequência arrastar o caso por mais 12 ou 15 anos, sem garantia de sucesso.

Não é preciso ter formação jurídica para perceber que a narrativa do MP visa julgar o regime. O resto é folclore.

NONSENSE

 

O desnorte. Clique na imagem.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

AKRASIA


E é isto. Comentários para quê? Clique na imagem.

LEI VS EMOÇÕES

Não podemos confundir a Lei com as nossas emoções. Até prova em contrário, ainda vivemos num Estado de Direito. Nas ditaduras é que é possível construir narrativas à vontade dos juízes.

Acusado de 37 crimes, Sócrates vai responder por 6. Porquê? Porque o MP o acusou, em 2017, de crimes prescritos.

Em 28 arguidos, 5 vão a julgamento. Em 4 julgamentos autónomos, porque Ivo Rosa não aceitou a tese da novela. 

Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, Hélder Bataglia, Sofia Fava, e mais 19 arguidos, não foram pronunciados. Porquê? Por ausência de provas consistentes, nuns casos, e de prescrições, noutros.

É tão simples como isto.

23 ILIBADOS


Finda a leitura, ficou a saber-se:

Apenas 5 dos 28 arguidos vão a julgamento. Mas serão quatro julgamentos autónomos.

— Sócrates e Santos Silva serão julgados por seis crimes: três de branqueamento de capitais e três de falsificação de documentos.

— Ricardo Salgado será julgado por três crimes de abuso de confiança.

— Armando Vara será julgado por um crime de branqueamento de capitais.

— João Perna, o motorista de Sócrates, será julgado por detenção de arma proibida.

O Ministério Público vai recorrer da decisão.

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OPERAÇÃO MARQUÊS


Desde as 14:30 que o juiz Ivo Rosa tem estado a desmontar, peça por peça, a acusação do Ministério Público contra Sócrates, Ricardo Salgado, Santos Silva e outros.

Na impossibilidade de ler as 6.700 páginas do despacho de pronúncia, Ivo Rosa limita-se a um resumo.

Highlights que retive até ao momento:

— «Esta decisão não é a favor nem contra ninguém. O tribunal age sempre do mesmo modo: em obediência à Lei. As garantias são para todos. O combate à corrupção não se afirma mais eficaz diminuindo as garantias e liberdades. Prestar contas em termos políticos não é a mesma coisa do que prestar contas à Justiça

Baseada em especulação e fantasia, a acusação é inócua, não tem coerência, nem sequer cronológica, evidenciando pouco rigor e consistência.

— São nulos alguns actos praticados pelo juiz Carlos Alexandre.

— As escutas que migraram do processo Face Oculta não servem de prova.

— Sócrates foi ilibado de corrupção nos seguintes itens: Parque Escolar, TGV, Vale de Lobo, Grupo Lena, Venezuela.

— Estão prescritos todos os crimes de fraude fiscal.

— Sócrates não teve intervenção na OPA falhada da Sonae sobre a PT.

— Estão prescritos todos os crimes de corrupção que relacionam Sócrates e Ricardo Salgado. Estavam prescritos desde 2017, data da dedução de acusação.

— Não há evidência de que Ricardo Salgado tenha pedido a Hélder Bataglia para entregar 12 milhões de euros a Sócrates.

— Foram ainda ilibados Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, Hélder Bataglia, Rui Horta e Costa, Joaquim Barroca, Sofia Fava (ex-mulher de Sócrates), um primo de Sócrates, o arguido Mão de Ferro, etc.

A leitura prossegue.

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FILIPE, DUQUE DE EDIMBURGO 1921-2021


Morreu hoje, no Castelo de Windsor, Filipe Mountbatten, duque de Edimburgo, nascido em Corfu como príncipe da Grécia e Dinamarca.

Marido de Isabel II desde 1947, príncipe consorte desde 1952, faria cem anos no próximo 10 de Junho. Hospitalizado entre 16 de Fevereiro e 16 de Março, a causa da morte ainda não foi divulgada pela Casa Real.

Imagem: Guardian. Clique.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

ANTIGOS COMBATENTES

Nos termos da Lei n.º 46/2020, de 20 de Agosto, encontra-se desde ontem em vigor a isenção do pagamento de taxas moderadoras no acesso às prestações do Serviço Nacional de Saúde, tais como (entre outras) consultas, exames complementares de diagnóstico e serviços de urgência.

O benefício é extensivo a viúvas e viúvos, bem como a cônjuges sobrevivos de uniões de facto judicialmente reconhecidas.

Enquanto não for distribuído o Cartão de Antigo Combatente, basta apresentar o Cartão de Cidadão.

Outra benesse a Lei é a gratuitidade do passe intermodal nos transportes públicos.

Quem tiver dúvidas ou necessitar de esclarecimentos adicionais pode telefonar para o Balcão Único da Defesa.

terça-feira, 6 de abril de 2021

VACINAÇÃO COVID


Vacinação covid em Portugal continental, entre 27 de Dezembro de 2020 e 4 de Abril de 2021. Afinal, ao contrário da lenda, Lisboa não come tudo.

Imagem: Expresso. Clique.

THE SLEEPERS


Lembram-se da Revolução de Veludo que pôs termo a mais de 40 anos de domínio comunista no país que então se chamava Checoslováquia?

Para quem não sabe: entre 17 de Novembro e 29 de Dezembro de 1989, sucessivas manifestações deram origem às demissões de Miloš Jakeš, secretário-geral do Partido Comunista checo, e de Gustáv Husák, o Presidente da República. O detonador do levantamento popular foi a repressão do desfile no Dia Internacional dos Estudantes.

Corolário: ao fim de 43 dias de tumulto, Václav Havel, intelectual respeitado dentro e fora do país, dramaturgo, ensaísta, poeta e líder do movimento dissidente Fórum Cívico, foi eleito, no Parlamento, Presidente da República, enquanto Alexander Dubček, o artífice da Primavera de Praga (1968), era escolhido pelos revolucionários para presidir ao Parlamento.

The Sleepers — Bez vědomí —, série de 2019 escrita por Ondřej Gabriel e realizada por Ivan Zachariáš, disponível na HBO, centra-se na claustrofobia da sociedade checa durante esses anos de chumbo. Narrada em dois tempos, 1977 e 1989, ilustra o quotidiano de uma sociedade em que todos denunciam todos.

Infelizmente, nós, portugueses, sabemos o que isso é: 55 anos de polícia política (nas suas vários encarnações a partir de 1919: PSE, PI, PDPS, PVDE, PIDE e DGS) fazem com que o modus operandi da Státní Bezpečnost, a temida StB checa, nos seja familiar.

A reconstituição de época é notável. Distanciando-se do tom heróico, o guião não ignora o cinismo do Ocidente, em especial do MI6 britânico. Focada nas práticas totalitárias decorrentes do incesto entre Praga e Moscovo, a série omite muitos detalhes da revolução propriamente dita. São seis episódios de uma hora cada.

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segunda-feira, 5 de abril de 2021

O Rt

Imbuído das melhores intenções, o primeiro-ministro ilustrou o bom povo (na passada quinta-feira, salvo erro) com um gráfico de quadrantes para o Rt.

Resultado: não há mamífero que não debite inanidades na televisão, nos jornais, nas redes, etc. Esta gajada ainda não percebeu que ninguém quer saber da catequese do tremendismo?

AXIMAGE


Sondagem da Aximage para o JN, DN e TSF divulgada hoje.

PS 39,7% / PSD 23,6% / BE 8,6% / CH 8,5% / CDU 6% / IL 4,8% / PAN 3,2% / 

CDS 1,1%.

Sozinho, o PS tem mais que toda a Direita e extrema-direita juntas.

O PS e o PSD estão separados por 16,1%. BE e CH empatados.

Clique na infografia do Jornal de Notícias.

domingo, 4 de abril de 2021

FLORBELA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi In memoriam, de Florbela Espanca (1894-1930), uma das precursoras nacionais da emancipação literária feminina.

Natural de Vila Viçosa, Florbela tornou-se um case study, porque, vá-se lá saber porquê, a Academia insiste em fazer dela uma poetisa menor. Felizmente, a situação tende a mudar. Após décadas de silêncio, Florbela encontra-se antologiada em Do Corpo: Outras Habitações (2018), volume organizado para a Assírio & Alvim por Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas.

Filha de uma camponesa e de pai “incógnito” — o republicano João Maria Espanca, antiquário, fotógrafo e introdutor do cinema no Alentejo, só reconheceu a filha em 1948 —, Florbela frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas interrompeu os estudos em 1920 ao mudar-se com o amante para o Porto. 

Estreada com Livro de Mágoas (1919), obra publicada por empenho de Raul Proença, teve sempre grande dificuldade em editar os seus livros. Em vida, apenas dois foram publicados, o segundo em edição paga pelo pai. Isso explica que a maior parte deles, incluindo os contos e o diário, tenham tido publicação póstuma, com prefácios de Régio, Agustina Bessa-Luís, Natália Correia, Yvette K. Centeno e, no Brasil, de Maria Lúcia Dal Farra. 

A seu respeito, Régio falou de «donjuanismo feminino». Se tivesse nascido na Inglaterra ou nos Estados Unidos, Florbela seria hoje lida e estudada em toda a parte e, por certo, um ícone do feminismo.

Em Matosinhos, para onde foi viver com o terceiro marido, em 1926, dava explicações de português, fazia traduções de francês para a Figueirinhas e colaborava esporadicamente na imprensa, assinando quase sempre como Flor Bela Lobo (nome de baptismo) ou com o pseudónimo Florbela d’Alma da Conceição Espanca.

Em 1927, a morte do irmão, o piloto-aviador Apeles Espanca, afectou-a profundamente. Apeles despenhou no Tejo, perto da Trafaria, o hidroavião Hanriot que pilotava. Sobre o irmão, Florbela escreveu o poema que escolhi, bem como os contos de As Máscaras do Destino (1931). 

Na madrugada do dia em que fez 36 anos, Florbela suicidou-se.

O poema desta semana pertence ao livro póstumo Charneca em Flor, concluído em 1929, mas só publicado em 1931, por iniciativa de Guido Batelli, o professor italiano da Universidade de Coimbra de quem foi próxima. A imagem foi obtida a partir da 12.ª edição integral de Sonetos, publicada pela Livraria Tavares Martins, do Porto, em 1968.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Herberto Helder.]

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sábado, 3 de abril de 2021

FRONTEIRAS

A fronteira de Portugal com Espanha vai manter-se encerrada pelo menos até ao próximo dia 16. Isso mesmo foi confirmado hoje pelo Governo de Espanha.

Como até aqui, as deslocações autorizadas restringem-se a trabalhadores transfronteiriços, veículos de mercadorias, nacionais de regresso a casa, pessoal médico e diplomatas em serviço.

Por todo o mundo, fronteiras abrem e fecham por decisão arbitrária de vários Governos.

Por isso me faz confusão haver tanta gente apanhada de surpresa. As companhias de aviação não esclarecem? Os emigrantes não consultam os consulados? As pessoas não se informam?

Em Janeiro ainda havia muitos portugueses em teletrabalho no Brasil, no Dubai, em São Tomé, nas Maldivas, etc. Não previram o confinamento que chegou com os Reis. É estranho, porque andamos há treze meses no abre e fecha.

Agora, são os emigrantes de França, da Suíça e do Luxemburgo a desembarcarem no Porto, “espantados” com a obrigatoriedade de quarentena. Ninguém os avisou?

Muito estranha toda esta ligeireza.

AXIMAGE


Se dúvidas houvesse... Sondagem da Aximage divulgada hoje pelo DN, JN e TSF.

Infografia: Jornal de Notícias. Clique.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

45 ANOS


Faz hoje 45 anos que foi aprovada a Constituição da República Portuguesa. Em vigor desde 25 de Abril de 1976, foi alvo de sete revisões, a mais recente das quais em Agosto de 2005.

Tendo em vista as peripécias que marcaram os trabalhos da Constituinte, a sua aprovação, a 2 de Abril de 1976, foi uma proeza.

Não vejo a data assinalada, como notícia, em nenhum jornal português de referência.

Clique na imagem, um volume-miniatura da Constituição.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

DESCONFINAR

Atenta a situação do país — a incidência de infecções é de 62,4 pessoas por cada 100 mil habitantes —, o primeiro-ministro confirmou esta tarde a segunda fase do desconfinamento.

Assim, a partir da próxima segunda-feira, dia 5, reabrem:

As escolas do 2.º e do 3.º ciclo e as ATL para os alunos abrangidos / as lojas até 200 metros quadrados / os museus, galerias de arte, palácios e monumentos públicos / os equipamentos sociais na área da deficiência / os centros de dia da terceira idade / as feiras e mercados não-alimentares / as esplanadas, tendo como limite quatro pessoas por mesa / os ginásios sem aulas de grupo.

Acaba a interdição de circular entre concelhos e passam a ser permitidas as modalidades desportivas de baixo risco, bem como as actividades físicas ao ar livre, tendo como limite quatro pessoas por grupo.

Contudo, os almoços de domingo de Páscoa, dia 4, são fortemente desencorajados.

quarta-feira, 31 de março de 2021

CLARO COMO ÁGUA


Muita gente julga que os diplomas de apoio aos trabalhadores independentes, aos sócios-gerentes, às famílias prejudicadas pelo encerramento das escolas e, last but not least, aos profissionais de saúde, foram obra do BE, do PCP e do PAN. Errado. 

O que esses Partidos fizeram, com a Direita, os liberais e a extrema-direita às cavalitas, foi alterar a legislação que o Governo já aplica aos referidos sectores da população.

Exemplo: onde estava o valor A puseram o valor B e onde a situação X tinha que obedecer a regras passou a ser um direito indiscriminado. Nada menos que 500 milhões de euros daqui até Dezembro. O Parlamento aprovou e o Presidente da República promulgou.

Sucede que, tal como ficou, o Governo podia, se quisesse, fazer de conta que os diplomas não existem. Quem o permite é o Presidente: «Os diplomas podem ser aplicados, na medida em que respeitem os limites resultantes do Orçamento de Estado vigente.» O primeiro-ministro não foi por aí.

Na sua comunicação ao país, ontem ao fim da tarde, António Costa fez notar: «O senhor Presidente procurou limitar os danos constitucionais destas leis, propondo uma interpretação que esvazia o seu efeito prático, e até reforça os poderes do Governo...»

Disse mais: «O Governo não pode deixar de cumprir uma Lei da Assembleia da República enquanto esta vigorar, mesmo que a entenda inconstitucional e só o Tribunal Constitucional pode declarar com força obrigatória geral a inconstitucionalidade de uma Lei. [...] Os cidadãos beneficiários têm o direito de saber com o que podem contar... [...] Como iríamos aplicar esse limite? Dando apoios a uns e não a outros? Dando apenas aos que fossem mais rápidos a pedir, até se esgotar o plafond disponível, e recusando todos os pedidos posteriores? Reduzindo o montante do apoio pago a todos, violando o disposto na Lei? [...] A incerteza jurídica gera insegurança e mina a confiança nas instituições

Não quero imaginar uma situação destas nas mãos dos/as malabaristas do costume.

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