domingo, 23 de setembro de 2018

NOVELA MAPPLETHORPE


Isabel Pires de Lima, administradora da Fundação de Serralves, deu esta noite uma entrevista ao Expresso online. A antiga ministra da Cultura não podia ser mais clara: foi João Ribas quem pôs de lado 20 fotografias, reduzindo a exposição de 179 para 159 trabalhos. Discurso directo: Surpreende-nos que ele tenha excluído 20 obras. É bastante penalizador para a Fundação, que pagou 179. Também não aceita a alegação de censura porque, desde o início, ficou estabelecido criar uma zona interdita (as fotografias de cariz sexual explícito) a menores de 18 anos não acompanhados.

Como João Ribas ainda não se pronunciou, o que é estranho, ficamos só com um dos lados da história.

Importa lembrar que não é a primeira vez que obras de Mapplethorpe são expostas em Portugal. Em 1985, a Galeria Cómicos (Lisboa), de Luís Serpa, expôs Black Flowers, ainda o autor estava vivo. Em 1993, no Mês da Fotografia de Lisboa, e nos Encontros da Imagem, em Braga, mais obras foram expostas. Verdade que nenhuma destas exposições era uma grande retrospectiva, como a que neste momento está em Serralves.

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sábado, 22 de setembro de 2018

INFARMED

Acabou a novela da transferência do Infarmed para o Porto, iniciada em Novembro de 2017. Ouvido ontem no Parlamento, o ministro da Saúde revelou que o Governo suspendeu a medida.

Integrada na candidatura falhada do Porto à sede da Agência Europeia do Medicamento, a transferência do Infarmed não podia fazer-se sem os seus 356 funcionários. Sucede que apenas 19 (nenhum dirigente, nenhum quadro superior, nenhum técnico especializado) manifestaram disponibilidade para se deslocar.

Alguém no seu perfeito juízo acreditou ser possível transferir 356 funcionários e respectivas famílias para mais de 300 quilómetros da sua residência?

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

MAPPLETHORPE CENSURADO

João Ribas, director do Museu de Serralves, e Paula Fernandes, curadora, organizaram a exposição de Mapplethorpe com 179 trabalhos do fotógrafo americano. A publicidade institucional vinca a existência desse conjunto.

Mas a administração da Fundação vetou 20, reduzindo a mostra a 159. Também impôs proibição a menores de 18 anos.

João Ribas demitiu-se esta noite do cargo de director.

A administração da Fundação é composta por Ana Pinho, Manuel Cavaleiro Brandão, Manuel Ferreira da Silva, Isabel Pires de Lima, Vera Pires Coelho, Carlos Moreira da Silva, António Pires de Lima e José Pacheco Pereira.

A decisão de interditar as 20 obras foi tomada por maioria ou por unanimidade? Quem votou a favor da interdição?

De que modo a Fundação de Serralves tenciona ressarcir quem (como eu) comprou ingressos por via electrónica?

PIRUETAS

Desde 9 de Janeiro, dia em que Francisca Van Dunem defendeu na TSF a eficácia de mandato único para o cargo de Procurador-Geral da República, a Direita entrou em ebulição. A carta que Passos Coelho publicou ontem à noite no Observador faz a síntese do desapontamento de quantos, nos últimos oito meses, fizeram da recondução de Joana Marques Vidal o turning point do Governo.

Marcelo não pode ceder a Costa, repetiram dirigentes nacionais e apparatchik locais do PSD e do CDS, articulistas encartados, comentadores avençados e eurodeputados metediços. Não houve cão nem gato que não defendesse a continuação de Joana Marques Vidal, titular do cargo desde 2012. Marques Mendes, o oráculo do regime, afiançou que o assunto estava arrumado. Sábado passado, o Expresso fez manchete de uma fake new estridente. Nas audiências feitas pela ministra da Justiça aos partidos com representação parlamentar, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa também se manifestaram a favor da recondução de Joana Marques Vidal.

No centro do furacão, o primeiro-ministro escolheu Lucília Gago, comunicou a escolha ao Presidente da República, foi a Angola, veio a Lisboa trocar os jeans Paul Smith pelo fato Huntsman & Sons (Savile Row) e, sem perder a compostura, partiu para a cimeira da UE em Salzburgo.

Mas, quem ler hoje os jornais da manhã, fica com a sensação de que não aconteceu nada.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

LUCÍLIA GAGO


Por escolha do primeiro-ministro, Lucília Gago, 62 anos, especialista em Direito de Família e Menores, é a nova Procuradora-Geral da República. O Presidente da República já formalizou a nomeação.

António Costa não cedeu à chantagem da Direita nem aos pontos de vista do PCP e do BE, e não reconduziu Joana Marques Vidal.

MACHADO & MÓNICA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado (n. 1986). Por regra, os escritores fortes constroem a sua persona. Mas o processo era lento, e só dávamos por isso a meio da carreira. Agora não. O protocolo das redes sociais mudou tudo. Assim que publica o primeiro livro, o escritor apressa-se a divulgar as idiossincrasias. É o modus operandi de Carmen, filha de emigrantes cubanos e autora residente da Universidade da Pensilvânia, que usa o Twitter para pôr tudo em pratos limpos. Os contos reunidos em O Corpo Dela e Outras Partes dão notícia de uma voz poderosa, sem necessidade de mais nada, porque nos fala do corpo, de sexo, violência, paixão e morte. E fica tudo dito com apreciável grau de conseguimento. Como meta-linguagem, a literatura dispensa folclore. Neste caso, folclore significa o aproveitamento que tem sido feito do seu livro por parte do movimento MeToo. Sucede que a qualidade desta escrita passa bem sem muletas ideológicas. As questões identitárias são centrais à obra? É evidente que sim: «Ela movia-se com uma descontracção masculina e dura […] Fiquei molhada.» Neste conto, um casal de duas mulheres tem um bebé. Lesbianismo, portanto. É a circunstância de Carmen, casada com uma mulher. Um escritor sério escreve sobre o que conhece. A economia discursiva é uma vantagem. Carmen descreve cenas de sexo com natural parcimónia: «Não sei muito bem o que ele vai fazer, só quando o faz. Está duro, quente e seco, e cheira a pão e, quando me rasga, grito e agarro-me a ele como se estivesse perdida no mar.» Os textos mais agressivos, a roçar a pornografia, assina-os como Olivia Glass, o pseudónimo hard. Um dos textos corresponde a 272 sketches escritos a partir das doze temporadas da série de televisão Lei & Ordem. Um inventário de fantasia sem limites. Aqui é um conto, mas este núcleo constitui o livro de estreia: Especialmente Abominável (2013). Uma forma de colagem como qualquer outra. A ficção de Carmen não tem fronteiras, e por vezes aproxima-se da plenitude, como em As Mulheres de Verdade Têm Corpo. Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Nunca Dancei Num Coreto, da socióloga Maria Filomena Mónica (n. 1943). As crónicas são um género nobre, entre nós muitas vezes confundido com panfleto político. A autora reuniu neste volume as que escreveu a partir de 2011. Maria Filomena Mónica tem a enorme vantagem de pensar pela sua cabeça. Temas prosaicos ou eruditos, o desembaraço é de regra. Com brilho, a autora salta dos efeitos corrosivos da burocracia para as idiossincrasias de Christopher Hitchens, da redução de salários do Estado para a cultura do desenrascanço, dos bastidores da vida académica para a gentrificação do bairro da Lapa, do crash do Lehman Brothers para os direitos das mulheres, da escola pública para a regressão das liberdades individuais, de Sócrates (o antigo primeiro-ministro) para as casas de banho de hotel, da banlieue de Paris para Obama, da farsa independentista de Puigdemont para a guerrilha geracional, do pianista Claudio Arrau para Marcelo (o Presidente), da desigual repartição de sacrifícios para os graffiti, da doença para o esplendor da relva. Deveras estimulante. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

MAPPLETHORPE EM SERRALVES


É hoje inaugurada em Serralves uma exposição de Robert Mapplethorpe. Junta 179 trabalhos do autor, incluindo as fotografias de cariz sexual que têm sido boicotadas por museus dos dois lados do Atlântico. Comissariada por João Ribas e Paula Fernandes, arrisca-se a ser o acontecimento cultural mais importante do ano em Portugal. Mapplethorpe (1946-1989) é um dos artistas mais importantes do século XX, e quem não conhece tem aqui uma boa oportunidade. Não voltei a vê-lo desde o Whitney, lá terei que voltar à Marechal Gomes da Costa. Vale uma ou várias deslocações ao Porto. Fica até 6 de Janeiro de 2019.

Clique na imagem.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

PREC TAXISTA


Em protesto contra a legalização das plataformas online de táxis (casos da Uber, Cabify, Taxify e Chaffeur Privé), os taxistas estão a bloquear Lisboa. Desde as 5 da manhã que a Praça dos Restauradores está intransitável. Além dos Restauradores, estão ocupadas, e nalguns casos cortadas ao trânsito, a Avenida da Liberdade, o Marquês de Pombal, a Avenida Fontes Pereira de Melo, o Saldanha e a Avenida da República.

No Porto e em Faro decorrem acções semelhantes.

E depois admiram-se com o extremismo das populações.

Na imagem, interior do Cab londrino (os melhores táxis do mundo) onde circulei na tarde de sábado, 15 de Setembro. Clique

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

BOWLES & SHEPARD


Na edição desta semana da Sábado escrevo sobre Deixa a Chuva Cair, o segundo romance do americano Paul Bowles (1910-1999). Autor de uma obra extensa, Bowles sobrevive como nome de culto. O facto de ter-se expatriado em Tânger logo após a Segunda Guerra Mundial cimentou a lenda do escritor “maldito”. Escreveu quinze colectâneas de contos, seis romances, uma novela, cinco livros de poesia, dois de viagem e uma autobiografia em quatro volumes, mas, na realidade, foram os incidentes biográficos que fixaram o interesse e a avaliação dos contemporâneos. Quantos dos seus leitores sabem que foi um notável compositor de música erudita e de scores para a Broadway? Sem o halo de transgressão que marcou o exílio marroquino, como teria sido a recepção crítica? Além de compositor, ficcionista, poeta e memorialista, Bowles foi tradutor de Sartre e Genet, mas também dos contos orais do pintor Mohammed Mrabet. Metáfora omnipresente, o céu. A epígrafe do Macbeth, de Shakespeare, dá o tiro de partida. O plot ilumina os primeiros tempos de Bowles em Marrocos. Nas suas linhas gerais, a história de Dyar, o bancário que troca Manhattan («Qualquer outra vida seria melhor do que esta») pelos expedientes da zona internacional de Tânger, assenta no impulso que levou Bowles a deixar a América. Nova vida: outra gente, novos padrões morais, a mesma solidão. Dyar é um homem enredado nas contradições do desconhecido e numa sucessão de azares. Bowles teve um percurso diferente, sabemos que sim, mas não é das minudências do quotidiano que falamos. O conflito entre despaisamento e a nova realidade assenta na experiência do autor. É curiosa a insistência num cenário sombrio, por vezes macabro, por parte de alguém que escolheu viver ali mais de meio século. Se, em romances posteriores — A Casa da Aranha é um bom exemplo —, Bowles meteu na ficção acontecimentos políticos concretos (a colonização, o exílio na Córsega imposto pelos franceses ao sultão Maomé V, o avanço da cultura pan-islâmica, o nacionalismo árabe, os dogmas do Islamismo), em Deixa a Chuva Cair é a própria circunstância do autor que está em pauta. Três estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre a novela Espião na Primeira Pessoa, o livro póstumo de Sam Shepard (1943-2017). Conhecido sobretudo como actor de cinema, Shepard é autor de mais de cinquenta peças de teatro, algumas das quais encenou e interpretou, dezenas de contos e um romance. Vítima de esclerose lateral amiotrófica, Shepard foi obrigado a ditar parte deste livro derradeiro, constituído por 37 capítulos muito breves. Patti Smith, amiga de longa data, editou a versão final da obra. Texto de despedida, narra o ocaso de um homem que passa os dias a ler, num alpendre, enquanto come queijo e bolachas e bebe chá gelado. Um vizinho espia a progressão da doença. Por trás da tensa arquitectura discursiva, é nítida a mão do dramaturgo que sempre foi. (Em 1979, Shepard ganhou o Pulitzer com a peça Buried Child.) Tentativa de captura do tempo, «Como uma crosta muito estaladiça, muito pequena, que se arranha. Está um pouco turvo, este tempo. Não está muito claro para mim.» Sem escapatória: Espião na Primeira Pessoa é o epitáfio deste narrador anónimo. Notável. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

IMBRÓGLIO SUECO

Os números oficiais contrariam as sondagens, mas a tendência foi corroborada:

Direita — 158 deputados
Esquerda — 129 deputados
Extrema-direita — 62 deputados

O Socialdemokraterna, vulgo Partido Operário Social-Democrata da Suécia, vencedor de todas as eleições desde 1917, foi outra vez o partido mais votado (28,4%), mas obteve o pior resultado desde 1908. Tem agora 101 deputados. Perdeu 12.

O Moderaterna, vulgo Partido Moderado, mantém o segundo lugar (19,8%), mas perdeu 14 deputados. Tem agora 70.

O Sverigedemokraterna, vulgo Democratas Suecos, chegou aos 17,7%. Tem agora 62 deputados, mais 13 do que tinha. O establishment sueco não pode continuar a ignorar o partido de Jimmie Åkesson. Sessenta e dois deputados são três BE e ainda sobram cinco.

Os Verdes perderam 10 deputados.

Concorreram 15 partidos. Oito conseguiram representação parlamentar.

Os 349 deputados estão assim distribuídos:

Social-democratas, 101
Moderados, 70
Democratas (extrema-direita), 62
Centristas, 31
Comunistas, 28
Democratas-cristãos, 23
Liberais, 19
Verdes, 15

domingo, 9 de setembro de 2018

O FIM DA SOCIAL-DEMOCRACIA?


Os suecos podem acordar amanhã noutro país. Tudo depende do resultado das eleições deste domingo.

Prevê-se que o Socialdemokraterna, vulgo Partido Operário Social-Democrata da Suécia, fundado em 1889, tenha o pior resultado desde 1930. Os Verdes e os Liberais devem ter resultados insignificantes.

Entretanto, o Sverigedemokraterna, vulgo Democratas Suecos, actualmente o terceiro partido, está à frente em todas as sondagens.

Liderado por Jimmie Åkesson, 39 anos, o Sverigedemokraterna tem o apoio da extrema-direita e dos antigos comunistas. Tem um programa que galvaniza cada vez mais suecos. Quer fechar as fronteiras a emigrantes; quer o exército a assegurar a ordem pública nos subúrbios das grandes cidades; quer agravar o sistema penal; quer o fim da iniciativa privada na Saúde, na Educação, na distribuição de Energia e na rede viária; quer o encerramento das escolas privadas e religiosas; quer diminuir a carga fiscal dos altos rendimentos; e também quer um referendo para tirar o país da UE. Os esperados 25% nas eleições farão com que nenhum partido consiga formar governo sem o seu apoio. Jimmie Åkesson vai fazer pagar caro o desprezo dos partidos tradicionais.

À sua direita, o Nordiska Motståndsrörelsen, vulgo Movimento Nórdico de Resistência, órgão do neo-nazismo escandinavo, pode ter um resultado surpreendente. O MNR é liderado por Simon Lindberg, 35 anos, várias vezes preso por incitamento ao ódio racial e de género, activista anti-LGBT, xenófobo radical e neo-nazi declarado: O Holocausto nunca existiu. O partido tem extensões na Noruega, Finlândia e Islândia.

No gráfico do Guardian, a evolução das intenções de voto nos Democratas Suecos. Clique.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

FOI DEUS, DIZ ELE


Adélio Bispo de Oliveira, 40 anos, servente de pedreiro, missionário evangélico, esfaqueou Jair Bolsonaro durante uma acção de campanha em Juiz de Fora (Minas Gerais). O líder da extrema-direita brasileira ficou com o intestino perfurado em três sítios e o fígado afectado, estando internado no Hospital da Santa Casa, onde foi sujeito a uma melindrosa intervenção cirúrgica.

Um segundo homem, alegado cúmplice de Adélio, foi entretanto preso.

Bolsonaro, 63 anos, deputado (o mais votado no Rio de Janeiro), olho azul sibilino, militar na reserva, apoiante declarado da ditadura militar, defensor da legalização da tortura policial e da pena de morte, católico fundamentalista, activista anti-LGBT e anti-aborto, é o político brasileiro mais influente nas redes sociais e, com Lula fora da corrida, o candidato presidencial que lidera as sondagens.

Na foto do Estadão, Bolsonaro a ser retirado do local após o ataque. Clique.

PAGLIA & CUSK


Hoje na Sábado escrevo sobre Mulheres Livres Homens Livres, de Camille Paglia (n. 1947). Cada novo livro da autora é sempre um acontecimento. Mesmo que seja uma compilação de textos de natureza diversa sobre sexo, género e feminismo: ensaios académicos, conferências, recensões, capítulos de outras obras. Mulheres Livres Homens Livres é uma visão alargada sobre a sociedade contemporânea e a cultura ocidental (arte e decadência). Quem leu Personas Sexuais, a obra-prima que em 1990 projectou o nome da autora para fora da Academia, sabe do que falo. Palavras suas: «As ideias fundamentais deste livro são a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão.» Oriunda do feminismo radical e dos círculos académicos mais exigentes, Paglia nunca evitou chocar de frente com o establishment: «Permanece um mistério a razão pela qual um psicanalista trapaceiro, cínico e verborreico como Jacques Lacan […] se tornou o ídolo de tantas feministas anglo-americanas.» Com o sarcasmo de regra, os temas abordados reportam à crise do sistema de ensino universitário americano, ao retrato que Mapplethorpe fez de Patti Smith, a sexo nas escolas, à violação, ao aborto, aos equívocos da candidatura presidencial de Hillary Clinton, à série de televisão The Real Housewives, a cirurgia plástica, à prática do masoquismo por parte das classes médias educadas, à «mistela bafienta» do pós-estruturalismo, à regressão dos grupos feministas, etc. Paglia nunca desilude. A desenvoltura da sua escrita, empenhada, envolvente, apoiada numa vasta erudição e num desprezo total pela mentalidade dominante, fazem de cada livro uma provocação. Em O espelho cruel: tipos físicos e imagens do corpo tal como os reflecte a arte, a digressão sobre arte (escultura, pintura, fotografia, design publicitário) tem como contraponto a aridez do registo dos media: «Para o bem e para o mal, o corpo tornou-se um indicador identitário fundamental…» Entre vários outros, são recuperados os artigos dedicados a Nefertiti e Madona: «Madona é a verdadeira feminista. Ela põe a nu o puritanismo e a ideologia sufocante do feminismo americano […] Madona é o futuro do feminismo.» Isto foi publicado em 1990 no New York Times. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre o penúltimo romance de Rachel Cusk (n. 1967), Trânsito, que corresponde ao livro do meio da trilogia Outline, a história de uma escritora divorciada, com dois filhos, decidida a reformar uma casa em ruínas. A casa existe. Os amantes de parábolas têm aqui o relato escarolado do que seja reconstruir uma vida reduzida a cacos. A prosa irrepreensível de Cusk transfigura o quotidiano mais prosaico no tipo de narrativa que prende o leitor da primeira à última página. A acção decorre em Londres, numa zona isenta de glamour. A intriga salta com naturalidade de cenas da vida doméstica para reflexões sobre cães, formação de adolescentes, idiossincrasias literárias (a escrita onde ‘nada acontece’), responsabilidade social, trabalho precário, gentrificação, imigrantes, multiculturalisno, conjugalidade entre casais do mesmo sexo: «Não era propriamente a primeira vez que presenciara a homossexualidade: era a primeira vez que tinha presenciado amor.» O fluxo da consciência nunca derrapa. Trânsito respeita a arquitectura da trilogia, mas tem vida própria. Nenhum óbice para quem não tenha lido A Contraluz, o primeiro volume da vida de Fay. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

AXIMAGE


Sondagem da AXIMAGE para o Correio da Manhã e o Jornal de Negócios.

Maioria de Esquerda = 54,8%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 15,8% (e a PAF em 6,6%). O PSD cai três pontos. O CDS consegue ultrapassar o BE e passa a ser o terceiro partido com assento parlamentar.

Clique no gráfico do Negócios.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

FEAR


Aguardo com expectativa o novo livro de Bob Woodward, Fear, com lançamento previsto para o próximo dia 11. A data escolhida pela Simon & Schuster é uma metáfora macabra?

Se, por um lado, as revelações são preocupantes (disfunção total na West Wing e no gabinete de crise), por outro confirmam o que já se sabia: Trump é o boneco de uma administração sem rosto. A ver vamos.

Clique no retrato de Bob Woodward.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

GOOGLE


O Google faz hoje vinte anos. Graças a ele, a vida dos povos mudou mais que nos cem anos precedentes. Ter nascido antes ou depois do aparecimento do Google faz toda a diferença. Sou do tempo em que o Google Earth e o Google Maps eram coisa de ficção científica. E quem diz esses diz o Gmail e o sistema Android e o YouTube. As nossas vidas nunca mais foram as mesmas.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

RIO EM CHAMAS


Ardeu por completo o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Das mais de vinte milhões de peças do espólio, apenas escapou o meteorito Bendegó, uma pedra de 5,6 toneladas descoberta em 1784 no interior da Bahia. Por decisão do imperador Dom Pedro II, o meteorito estava no museu desde 1888.

O palácio da Quinta da Boa Vista foi residência da família real portuguesa (1808-21) e da família imperial brasileira (1822-89). O museu foi fundado em 1818, por D. João VI, mas só em 1892 foi transferido para o palácio da Quinta da Boa Vista. Era um dos mais importantes museus de história natural e antropologia da América Latina. Agora acabou. Ainda bem que o visitei em 1982.

Clique na imagem de El País.

domingo, 2 de setembro de 2018

MUDANÇA DA HORA

Segundo a Pordata, a população da UE corresponde a 512 milhões de pessoas. Daqui a seis meses, com a saída do Reino Unido, seremos 460 milhões. Não obstante, a Comissão Europeia deu por bom um inquérito em que alegadamente participaram 4,6 milhões de cidadãos dos Estados-membros.

Não sei o que aconteceu nos outros países. Em Portugal praticamente não se ouviu falar do inquérito à mudança da hora. Não vi publicidade institucional na televisão ou na imprensa (estou a falar de publicidade, não confundir com artigos de opinião), não dei por nenhum debate no Parlamento, não recebi nenhum sms sobre o assunto (como recebo para a provável ocorrência de fogos ou a vacinação contra a gripe), o Partido Ecologista Os Verdes não deu um pio, o Governo não se pronunciou, e até o Presidente da República, que emite opinião sobre tudo, fez silêncio sobre o tema. Anteontem, o Observatório Astronómico de Lisboa deu um parecer favorável à continuação da mudança da hora. Dito de outro modo, o inquérito europeu foi, entre nós, um interdito.

Por aquilo que leio nas redes sociais, a maior parte dos portugueses que “participaram” fê-lo de forma errada. Estava em pauta saber se a «mudança» da hora era para manter. Mais nada. Bruxelas quer acabar com a mudança e promoveu este circo. Mas muita gente achou que se tratava de escolher a hora preferida. Nonsense.

Vamos cumprir o que Bruxelas decidir. O circo era escusado.

VERDES ANOS


Estive ontem no primeiro dos três encontros programados para o ciclo dedicado ao bairro de Alvalade: Os Cafés e outras Constelações de Encontro da Avenida de Roma. Falou-se de quando o cinema português era novo. Foi no café-restaurante Vá-Vá, e nem fazia sentido que fosse noutro sítio, pois foi por ali que passaram as gerações que nos anos 1960 e 70 mudaram a paisagem de parte importante da vida cultural portuguesa.

Na imagem, da esquerda para a direita, Aquilino Machado, organizador dos encontros (e respectivos itinerários pedonais), Alfredo Barroso, Isabel Maria Mendes Ferreira, Isabel Ruth e Lauro Antonio. Um belo fim de tarde.

Clique na imagem.

sábado, 1 de setembro de 2018

LULA EMBARGADO


Por seis votos contra um, o Tribunal Superior Eleitoral não aceita o registo da candidatura presidencial de Lula. Argumento: o antigo Presidente «está enquadrado na Lei da Ficha Limpa». Ficam só os da Ficha Suja.

Clique na imagem do Estadão.