quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

GREVE GERAL


Por causa da refundação do sistema de segurança social contido no controverso projecto Delevoye (nome do alto-comissário para as pensões), a França está em greve.

Aparentemente, os sectores mais afectados são os transportes, as escolas e os hospitais. Ou seja, o sector público. O trivial em toda a parte.

Não é fácil resumir as variantes da nova lei, com cortes violentos e diferenças entre público e privado. Do que percebi, sublinharia a redução média de 20% no cálculo das novas pensões, a redução do tecto máximo de 320 para 120 mil euros por ano, e o facto de, a partir de 120 mil euros, os empresários deixarem de contribuir para a pensão do trabalhador.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

LISBOA, A NEUTRA

O primeiro-ministro de Israel chegou hoje a Lisboa para se encontrar com o Secretary of State americano. Agenda: discutir a anexação do Vale do Jordão. Netanyahu preferia Londres, mas Boris desaconselhou a visita em data coincidente com a cimeira da Nato. Ficou Lisboa, a neutra.

António Costa recebe os dois (Netanyahu e Pompeo) amanhã.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

NATO


Embora o 70.º aniversário tenha sido no passado 4 de Abril, data assinalada em Washington com um jantar dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos países membros, a cimeira da organização que hoje começou em Londres está a ser vista como a verdadeira festa de aniversário, na medida em que são os próprios chefes de Estado (ou de Governo, como António Costa e Ângela Merkel, entre outros) que estão na capital britânica, e vão jantar com a rainha esta noite em Buckingham Palace.

A imagem mostra Macron a falar e Trump a seguir a charla por intermédio de um tradutor.

Estará o Presidente francês a explicar o que entende por «morte cerebral da NATO...»? O tédio do Presidente americano é ululante.

Clique na imagem do Guardian.

ESPANHA


Abriram hoje as Cortes saídas das eleições do passado 10 de Novembro.

Meritxell Batet foi eleita presidenta do Congresso de Deputados, e Pilar Llop presidenta do Senado. Batet e Llop são membros do PSOE e têm ambas 46 anos. Llop é uma juíza especialista em violência de género.

Governo é que provavelmente não haverá, se o PSOE continuar a brincar com a paciência dos espanhois. Já toda a gente percebeu que vamos ter mais seis meses de coreografia “unida”. Se nenhum percalço alterar o calendário, a primeira prova de fogo será no próximo dia 16.

Na imagem do twitter de Sánchez podem ver-se, da esquerda para a direita, Batet e Llop no momento em que são aplaudidas. Clique.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O PASTELÃO


Feito a partir de I Heard You Paint Houses, o livro de Charles Brandt que narra a vida de Frank Sheeran, o gangster irlandês que assassinou Jimmy Hoffa (o líder sindical que durante dez anos chefiou a todo-poderosa International Brotherhood of Teamsters, ou seja, a central de sindicatos dos motoristas americanos), O Irlandês é um exercício enfadonho sobre o mundo do crime, com a duração de três horas e meia. Metade chegava.

De Niro e Pacino iguais a si próprios, Joe Pesci muito bem, reconstituição de ambientes perfeita. Não chega. Por alguma razão Hollywood rejeitou sucessivamente o projecto de Scorsese. Seria a Netflix a pegar nele por 160 milhões de dólares.

O filme corrobora enfaticamente a tese que atribui à Máfia a responsabilidade pelo assassinato de Kennedy. A morte do Presidente retira de cena o irmão Robert (o gajo voltou a ser apenas um advogado), o procurador-geral que combateu o crime organizado, mas Hoffa acabou condenado e preso, em 1967, embora Nixon o tenha indultado em 1971. Assassinado em 1975, o corpo de Hoffa nunca apareceu por, alegadamente, ter sido cremado.

O Irlandês teve estreia mundial no Festival de Cinema de Nova Iorque, no passado 27 de Setembro, estando disponível na Netflix desde 1 de Novembro.

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INTERCAMPUS


Sondagem da Intercampus divulgada hoje pelo Negócios. Clique.

sábado, 30 de novembro de 2019

TRÊS MORTOS


O terrorista da London Bridge, entretanto abatido pela polícia, já tinha estado preso, entre 2012 e 2018, por ter participado numa tentativa de atentado à Bolsa de Londres.

Ontem, no momento do ataque, estava em liberdade provisória, com pulseira electrónica, e um colete de explosivos que se verificou ser falso.

Chegou à London Bridge vindo de Fishmonger’s Hall, onde decorria o Learning Together, uma conferência sobre reabilitação de reclusos organizada pela Universidade de Cambridge que junta antigos prisioneiros, advogados e académicos.

Um dos convidados da conferência era o homem, originário do Paquistão, que saiu dali para ir esfaquear oito pessoas, tendo morrido duas.

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quinta-feira, 28 de novembro de 2019

LITERATURA & VIAGENS


Hoje na Sábado, Literatura e Viagens

Houve um tempo em que a literatura nos impelia a viajar, descobrindo povos e países. Isso mudou. Os que não lêem livros têm agora o recurso da Internet. Presumo que sejam poucos os que hoje seguem as pegadas de Jan Morris ou Bruce Chatwin.

A minha geração atravessou a adolescência e a entrada na idade adulta sem plataformas digitais. Queríamos descobrir as cidades dos “nossos” autores. Lembro-me de, por volta de 1966, ter lido A Bastarda de Violette Leduc. Como não querer conhecer os cafés onde se acotovelavam as lendas vivas que eram então Simone de Beauvoir, Sartre e Genet, os caveaux onde Juliette Gréco reinava como sacerdotisa de todos os existencialistas? Mas a vida dá muitas voltas e, quando a oportunidade chegou, já a literatura francesa era um imenso bocejo, com raros intervalos de lucidez — À l’Ami Qui Ne m’a Pas Sauvé La Vie de Hervé Guibert foi um deles — que erguiam uma barragem, não contra o Pacífico (como em Duras), mas contra o desejo.

Muito antes calhou a vez de Londres. Era preciso conhecer a cidade onde Virginia Woolf e os outros bloomsberries inauguraram em 1910 o mundo moderno, entendido como, notou Quentin Bell, «uma entidade ética, social e estética.» Mais: era preciso fazer o percurso que Clarissa Dalloway fez na manhã em que foi comprar flores. A Festa de Mrs Dalloway é o conto de 1922 que mais tarde deu origem ao romance Mrs Dalloway, lido por todos nós antes do texto percursor. Até que um dia dei comigo no n.º 31 de Gordon Square, morada onde o economista John Maynard Keynes e o pintor Duncan Grant viveram a sua relação amorosa (nessa casa está hoje instalada a Mozambique High Commission). Virginia, portanto, mais T.S. Eliot e os que vieram a seguir, de Graham Greene, Doris Lessing e John Le Carré até Julian Barnes, Ian McEwan e Zadie Smith. Mas quando pela primeira vez ali cheguei, o Bloomsbury era um bairro melancólico e a swinging London uma reminiscência arqueológica, porque Callaghan era então o inquilino de Downing Street, e até no Ivy, o restaurante do West End preferido pelos intelectuais de esquerda, se dizia mal dele. A mítica dos sixties, com o célebre Annus Mirabilis de Larkin — «Sexual intercourse began / In nineteen sixty-three…» —, os Beatles, Mary Quant, Carnaby Street, Twiggy (epítome da super-modelo anoréxica), o glamoroso escândalo Profumo, faziam parte da era que Antonioni fixou em Blow-Up.

O Buda dos Subúrbios, de Hanif Kureishi, regista essa mudança. Thatcher deu cabo do resto, mas isso é outro campeonato.

E por vezes um livro basta. A Virgem dos Sicários de Fernando Vallejo fez mais por Medellín que o famoso cartel de droga de Pablo Escobar. A Catedral Metropolitana da cidade, onde os sicários (matadores a soldo) iam pedir a benção da Virgem antes de consumarem as execuções contratadas, tornou-se, quem diria?, lugar de culto literário… São ínvios os caminhos que ligam a literatura ao desejo de viajar.

O Rio de Janeiro foi um caso especial. Como não visitar a cidade à boleia de Machado de Assis? Dois livros chegam: Memórias Póstumas de Brás Cubas, roteiro «amargo e áspero», e Dom Casmurro, apesar de tudo menos dickensiano. Percorrer a Rua do Ouvidor, tomar chá na Confeitaria Colombo, conhecer Santa Teresa — cenário de outras obras de Machado e, cem anos mais tarde, zona demarcada dos soixante-huitard que sobreviveram ao novo milénio —, calcorrear o Jardim Botânico, descobrir que a cidade rivaliza com Paris em matéria de art déco, ou seja, tentar perceber o Rio vazado em obras de Lima Barreto, João do Rio, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Ruy Castro e outros. Por falar em Castro, o Rio que melhor conheci cabe inteiro nos seus livros, sobretudo o bairro de Ipanema, feudo da imigração culta (sobretudo alemães, polacos, franceses e italianos) dos anos 1930 e, talvez por isso, sublinha o autor de Carnaval no Fogo, «berço ou palco de várias revoluções no comportamento, na moda, nas artes plásticas, no cinema, na música popular, na imprensa…». Dito de outro modo, o cosmopolitismo no seu esplendor.

Para Roma também somos empurrados pela literatura. Quem leu Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon ou, em alternativa, I Claudius de Robert Graves, não perde a cidade de vista. Mas também Pasolini, Moravia e Elsa Morante, referências incontornáveis. Os primeiros romances do cineasta, Ragazzi di vita, radiografia crua do lumpemproletariado, e Vida Violenta, espécie de sequela do anterior, acordam em nós sentimentos díspares. Temos de ir ver como é. Contudo, Roma permanece um caso singular, sendo porventura a menos moderna das capitais europeias. A primeira grande surpresa decorre das afinidades com Lisboa: cheio de tesouros artísticos incomparáveis, o centro histórico de Roma é uma espécie de Bairro Alto a multiplicar por quatro. E o Trastevere, bairro boémio por excelência, reproduz fielmente o que livros e filmes ilustram: engarrafamentos de trânsito madrugada dentro, com centenas de vespas em alta velocidade, beldades de todos os sexos a beber, dançar e flirtar na rua (como na Piazza Trilussa, epicentro do que sobrou da dolce vita), feiras de bijuteria a céu aberto defronte de igrejas medievais, versão low cost e contemporânea do Satyricon de Petrónio.

Veneza é um caso parecido. Durante séculos, toda a gente escreveu sobre a cidade. Dois exemplos: as Dramatic Lyrics de Robert Browning, sequência de pregnante eloquência, ou Marca de Água de Joseph Brodsky. Foi aliás por causa do russo que lá fui. Mas a bibliografia da cidade é interminável: desde logo Ruskin, com St Mark’s Rest: The History of Venice, e depois Goethe, Thomas Mann, Italo Calvino e dezenas de outros. A Riva Degli Schiavoni, onde Henry James viveu e escreveu Retrato duma Senhora, não se adequa à nossa fantasia, mas não nos podemos esquecer que em 1880 o mundo era outro.

Berlim é um caso sério, sobretudo para quem gosta de poesia inglesa. Não há nenhum mistério. Christopher Isherwood escreveu Adeus a Berlim após ali ter vivido com Auden (seu amante) e os poetas Stephen Spender, Louis Mac Neice e Cecil Day-Lewis, mais o fotógrafo Herbert List. O livro de Isherwood é sempre citado, até por causa de Cabaret, o filme de Bob Fosse, mas o relato mais fiel desses anos loucos do estertor da República de Weimar foi escrito por Spender, num romance autobiográfico, pouco conhecido, chamado O Templo. A seguir veio o Reich e a Segunda Guerra Mundial, catástrofe que gerou toda uma literatura, mas foram os thirties poets ingleses que colocaram Berlim no meu ponto de mira.

Falar de literatura e viagens e esquecer Nova Iorque seria uma contradição nos termos. Uma pessoa lê Breakfast at Tiffany’s de Truman Capote, ou O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald, e vê-se obrigada a conhecer a cidade. Os mais novos, para quem Capote ou Fitzgerald possam ser referências remotas, podem optar por outros marcos geracionais, como o glittering As Mil Luzes de Nova Iorque de Jay McInerney, apogeu do Brat Pack literário, ou, em registo étnico, Open City de Teju Cole. A lista nunca termina, mas os livros de Mary McCarthy, John Cheever e Dorothy Parker estão entre os que fizeram de Nova Iorque a cidade prometida para sucessivas gerações de leitores. Quem, gostando de literatura, fica indiferente à memória da Round Table, com quartel-general instalado no bar do Algonquin Hotel? Fundada por Dorothy Parker e Alexander Woollcott, foi na Round Table (o mais influente círculo de críticos de Nova Iorque entre 1919 e 1929, a quem os detractores se referiam como the vicious circle…) que nasceu a revista New Yorker. Recuando no tempo, convém não esquecer Walt Whitman, que em 1855 publicou na cidade a primeira edição de Leaves of Grass, cujo primeiro canto, nesse ano ainda sem título, virá mais tarde a ser o emblemático Song of Myself. Whitman trabalhou em vários jornais de Manhattan, escrevendo crítica de ópera, teatro e baseball, crónicas do quotidiano, artigos sobre a questão esclavagista, guias de viagem, etc. Se tudo isto não são argumentos de viagem…

Do outro lado do mundo, Viena continua a fazer parte do imaginário dos viajantes cultos. Muitos ainda lá vão por causa de Freud, embora grande parte deles saiba que o famoso divã está em Londres, no museu de Hampstead dedicado ao pai da psicanálise. Verdade que, na primeira metade do século XX, os filósofos, cientistas, pintores e escritores que constituiram o Círculo de Viena fizeram da capital austríaca um dos epicentros da política e da cultura da Europa. Os leitores de Stefan Zweig são muitos e, após ler O Mundo de Ontem, a sua autobiografia, quase todos querem ir conferir. Joseph Roth, Thomas Bernhard, Arthur Schnitzler e Elfriede Jelinek têm a sua quota, mas Zweig chega e sobra para nos transportar à cidade que ficou manchada pelo Anschluss nazi. Os apreciadores de thrillers de espionagem guiam-se por Graham Greene, que ali esteve destacado como agente secreto do MI6 britânico.

Faltam cidades? Faltam com certeza. Mas o poço sem fundo da literatura universal ajuda-nos a encontrar os recessos onde escondemos os nossos fantasmas privados.

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SALÁRIOS

O Governo aumentou o salário mínimo em 5,83% e fez muito bem. O diploma foi promulgado no próprio dia em que chegou a Belém, foi publicado, e entra em vigor no próximo 1 de Janeiro. Beneficiará cerca de 800 mil trabalhadores em todo o país.

Mas ontem foi dado outro passo: o Governo apresentou em sede de Concertação Social uma proposta global de aumentos salariais, para todos os trabalhadores do privado, tendo como ponto de arranque (e não de chegada), i.e., mínimo, os 2,7%.

Para os trabalhadores do Estado está previsto um aumento inferior a 0,8%. Eu sei que os trabalhadores do Estado são também os médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, professores, militares, polícias, juízes e outros magistrados, diplomatas, investigadores, etc., mas a disparidade parece-me gritante.

Mas daqui até à aprovação do OE alguma água correrá sob as pontes.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

LARGUEM O OSSO, DIZ ELE


«A cultura de trabalho de Joacine Katar Moreira é uma cultura de descanso, no sentido intelectual do termo...», disse o assessor da deputada, depois de ter aconselhado o vasto mundo no Twitter: «Larguem o osso

Por seu turno, Albino de Azevedo Soares, secretário-geral da Assembleia da República, foi categórico: «Os serviços de segurança não deviam ter disponibilizado um elemento para acompanhar a deputada porque não estava em causa a sua segurança física. Não voltará a acontecer

Clique na imagem do Observador.

SAÚDE PRIVADA


Por que será que não me admiro?
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terça-feira, 26 de novembro de 2019

NACIONALIDADE

O LIVRE pretendia apresentar um projecto de diploma com alterações à Lei da Nacionalidade e, desse modo, participar da discussão em Plenário agendada para o próximo 11 de Dezembro.

Mas atrasou-se (o prazo caducou no passado dia 22) e o debate será apenas sobre as propostas do BE, do PCP e do PAN.

O partido representado por Joacine Katar Moreira fica de fora.

Prevê-se que o projecto de diploma chegue hoje ao Parlamento. O chefe de gabinete da deputada justifica o atraso com problemas de comunicação entre Joacine e a Direcção do partido.

Step by step...

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O MEU 25 DE NOVEMBRO


Cheguei a Lisboa a 8 de Novembro de 1975, o sábado em que o VI Governo Provisório mandou dinamitar os emissores da Rádio Renascença, controlada pela extrema-esquerda. Do aeroporto da Portela fui directamente para o Estoril. Dezassete dias depois aconteceu o 25 de Novembro.

Transcrevo (embora a sequência dos parágrafos seja diferente) do meu livro de memórias:

«[...] A contra-revolução não surpreendeu ninguém. O detonador foi a demissão de Otelo Saraiva de Carvalho do comando da Região Militar de Lisboa. Vasco Lourenço, que o substituiu, pôs um travão nas veleidades da extrema-esquerda militar e civil. Ao mesmo tempo, Soares induziu Pinheiro de Azevedo a cessar funções, dando origem à greve do Governo, com início a 19 de Novembro. Ministros e deputados trocaram Lisboa pelo Porto. Francisco Sá Carneiro estava na RFA. A Constituinte suspendeu os trabalhos por oito dias.

Para quem estava de fora, a história conta-se numa frase: Soares e os militares moderados fizeram abortar a Comuna de Lisboa, pondo fim a dezanove meses de excessos. [...]

Passei o dia no Estoril, a tal ponto alheado dos acontecimentos que fui com o Jorge jantar a Lisboa e a seguir ao cinema. O Galeto teria talvez uma dúzia de clientes, mas no primeiro balcão do Império éramos os únicos espectadores.

Só no comboio de regresso a casa soubemos do recolher obrigatório. 

O passeio impediu que tivéssemos visto Duran Clemente a ser substituído por Danny Kaye — The Man from the Diner’s Club foi o sinal inequívoco de que o PREC tinha acabado.

Com a imprensa nacionalizada desde a intentona de 11 de Março de 1975, o Governo impôs um período de nojo. Não se publicaram jornais durante mais de quinze dias. Quem quisesse saber o que se passava em Portugal, ouvia a BBC ou comprava o Monde. [...]»

domingo, 24 de novembro de 2019

FUI ELEITA SOZINHA

Foi assim que a deputada Joacine Katar-Moreira, que não quer ser marionete dos que não conseguem ser eleitos, reagiu à polémica que a opõe ao Grupo de Contacto (a Direcção do partido). Discurso directo: «Fui eu que ganhei as eleições, sozinha, e a direcção quer ensinar-me a ser política. O apoio que tive ao longo da campanha só chegou de quem não era do partido

O desacerto de posições não é recente, mas ganhou visibilidade com a abstenção de Joacine face ao voto apresentado anteontem pelo PCP, condenando aquilo que o partido considera serem os crimes cometidos por Israel contra o povo palestiniano e o reconhecimento por Trump da legitimidade dos colonatos israelitas...

Tendo cometido a heresia de pensar pela sua cabeça, Joacine descobriu da pior maneira que o voto de consciência não consta do catecismo do LIVRE.

Mas o lado mais deprimente do imbróglio é a troca de comunicados entre a deputada e o Grupo de Contacto: pediu instruções / não pediu instruções / devia ter pedido apoio específico / etc. Apoio específico? A sério?

sábado, 23 de novembro de 2019

CADÊ AS MULHERES?

Por 179 votos a favor, 26 brancos e 9 nulos, a Assembleia da República elegeu ontem os seus representantes no Conselho de Estado. Dezasseis deputados não compareceram à votação.

Foram eleitos Carlos César (PS), Francisco Louçã (BE), Domingos Abrantes (PCP), Rui Rio e Francisco Pinto Balsemão (ambos do PSD). Louçã e Abrantes foram indicados pelo PS.

Além dos membros por inerência — o Presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro, o presidente do Tribunal Constitucional, o Provedor de Justiça, os presidentes dos Governos Regionais dos Açores e da Madeira e os antigos Presidentes da República —, e dos representantes da AR eleitos ontem, o Conselho de Estado integra também as cinco personalidades designadas pelo Presidente da República em 2016, quando iniciou o mandato.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

Com as livrarias entupidas, há muito por onde escolher em todos os géneros literários. Seleccionei seis títulos: a biografia ficcionada de Augusto, um thriller centrado no Vaticano, o primeiro volume de uma trilogia famosa, um clássico irlandês, uma viagem ao inferno das crianças adoptadas e um policial heterodoxo.

Começar por um clássico, Augustus, última obra do norte-americano John Williams (1922-1994). Até à tradução de Stoner, feita com 50 anos de atraso, Williams era praticamente desconhecido do público português. Depois, aqui como em toda a parte, tornou-se muito citado. Augustus, que em 1973 venceu o National Book Award de Ficção, justifica todas as expectativas. Trata-se da biografia do filho adoptivo de Júlio César, ou seja, do homem que se tornou o primeiro imperador romano. Utilizando a forma epistolar (Cícero é um dos correspondentes), Williams traça o quadro das relações de força do império, tendo Roma como epicentro. Uma narrativa viciante. Publicou a Dom Quixote.

Mantendo Roma como ponto de referência, mas noutro registo, David I. Kertzer (n. 1948) escreveu um romance sobre O Rapto de Edgardo Mortara. Ou seja, ficcionou a história do rapaz judeu raptado em Bolonha, em 1858, pelo Santo Ofício, tornando-se protégé do Papa Pio IX. Factos que abalaram a Europa da época — Napoleão III tomou parte na controvérsia — e ainda hoje suscitam querela. Encontra-se em fase de produção um filme de Spielberg sobre o caso. Kertzer, especialista em história vaticana, recebeu o Pulitzer de 2015 por The Pope and Mussolini: The Secret History of Pius XI and the Rise of Fascism in Europe. Porém, O Rapto de Edgardo Mortara não é um ensaio histórico, é um thriller inspirado em factos verídicos. Publicou a Presença.

Quem prefira ficção pura deve ler O Jornalista Desportivo, de Richard Ford (n. 1944), romance que volta às livrarias com nova tradução. É o primeiro volume da famosa Trilogia Bascombe, na realidade um quarteto, pois saiu um quarto volume. Tudo gira em torno de Frank Bascombe, escritor em crise: morte do filho Ralph, divórcio, relações equívocas. Embora se trate de uma ficção sombria (a instituição familiar não escapa à mordacidade), Ford, voz ímpar da literatura contemporânea, prende o leitor ao longo de quatrocentas páginas. Publicou a Porto Editora.

O triplo homicídio de uma mulher, do filho de três anos, e de um padre, crime que chocou a Irlanda em 1994, serviu de pretexto para Edna O’Brien (n. 1930) escrever o portentoso Na Floresta. Romancista, contista, dramaturga, poeta e ensaísta, O’Brien é considerada a mais importante escritora irlandesa viva, tão hábil a escrever sobre o IRA como sobre as idiossincrasias sexuais da sociedade irlandesa (a trilogia Country Girls é um clássico do feminismo avant la lettre). No romance, Mich O’Kane, o kinderschreck perturbado por sucessivos abusos, ocupa o lugar que na vida real foi o de Brendan O'Donnell. O mesmo sucede com outros personagens, mas o plot segue a par os acontecimentos. Quem melhor do que O’Brien para transformar o horror em literatura? Publicou a Cavalo de Ferro.

O que significa adoptar uma criança? As agressões físicas e psicológicas ocorrem exclusivamente nas famílias de integração? Serão as casas de acolhimento eufemismos de guetos? A lei como tábua de salvação? Foi para responder a estas e outras perguntas que Patrícia Reis (n. 1970) escreveu As Crianças Invisíveis. Não é uma narrativa amável. Tratado com seriedade, o tema isenta-se de pieguice. A vida como ela é, crua, desapiedada, sem as arestas boleadas. Conceição é o único interstício de afecto que o romance se permite. Acompanhamos o percurso de M. — para cada criança uma inicial —, igual ao de tantos institucionalizados. O adjectivo é uma agressão. A invisibilidade é de regra. Chutado de casa para casa como criatura descartável, bola de pingue-pongue humana, M. terá de crescer sozinho. Ou sozinha? A escrita clara da autora domina com precisão o melindre do inominável. Publicou a Dom Quixote.

Com novo título — está nas salas o filme realizado por Edward Norton —, mas mantendo a tradução original, foi reeditado o livro mais conhecido de Jonathan Lethem (n. 1964), Os Órfãos de Brooklyn, thriller policial que celebrizou o detective Lionel Essrog. Laureado com o prestigiado National Book Critics Circle Award, o livro tem tudo para agradar a quem gostou de O Que Diz Molero, de Dinis Machado (a escala é outra, mas, à boleia da síndrome de Tourette, o delírio semântico tem semelhanças). Lethem já provou ser capaz de fazer melhor. Publicou a Lua de Papel.

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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A LENDA


Contrariamente ao que alguns supõem, o manager dos estábulos reais e amigo íntimo de Isabel II, designado por Porchie, existiu mesmo, não é uma invenção da série de Peter Morgan.

Porchie é o diminutivo de Henry George Reginald Molyneux Herbert, ou seja, Lord Porchester, 7.º Conde de Carnarvon. Foi membro dos Royal Horse Guards e tornou-se responsável pelas corridas de cavalos reais em 1969. Tinha então 45 anos.

Em Maio desse ano, Porchie acompanhou a rainha numa viagem privada a França e aos Estados Unidos, países onde visitaram os melhores criadores de cavalos. A prolongada ausência da monarca coincidiu com reuniões preparatórias de um golpe de Estado contra o primeiro-ministro Harold Wilson, arquitectado por Cecil King (magnata da imprensa), a pretexto do caos económico e consequente desvalorização da libra esterlina.

Mas as pretensões do patrão do Daily Mirror esbarraram com a recusa final de Lord Mountbatten, primo da rainha, último vice-rei da Índia, envolvido na conspiração desde 1968. Assim que foi informada da tentativa de golpe, Isabel II interrompeu a viagem e regressou a Londres, metendo o primo na ordem. (Em 1974 haveria uma segunda tentativa para depor Wilson à força.)

A forma como a série ilustra a relação de Porchie com Isabel corrobora a lenda de um romance entre ambos. Porém, Dickie Arbiter, antigo secretário pessoal da rainha, foi peremptório: trata-se de um boato «very distasteful and totally unfounded.» Então ficamos assim.

Nas duas primeiras temporadas, Porchie é interpretado pelo actor Joseph Kloska. Na terceira, por John Hollingworth.

Na imagem, da esquerda para a direita, o príncipe Filipe, Porchie e a rainha. Clique.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

JOSÉ MÁRIO BRANCO 1942-2019


Sem que nada o fizesse prever, morreu esta madrugada o músico José Mário Branco, autor do mítico Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (1971), álbum que junta letras suas com poemas de Camões, Natália, O’Neill e Sérgio Godinho.

Compositor, letrista e cantor, mas também produtor de vários artistas, entre eles Camané, José Mário Branco nasceu no Porto, foi dirigente da Acção Católica até 1958, militou no PCP [«saltei de uma igreja para a outra»], foi perseguido pela PIDE, exilou-se em Paris em 1963 e regressou a Portugal depois do 25 de Abril.

Em Maio de 1974 fundou o GAC — Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta. Colaborou activamente com grupos de teatro, em especial A Comuna, e compôs música para duas dezenas de filmes de, entre outros, Luís Galvão Teles, Solveig Nordlund, Jorge Silva Melo, Paulo Rocha, Noémia Delgado e João Canijo.

Em 2018 foi editado Inéditos, juntando canções do período de 1967 a 1999.

Numa das últimas entrevistas que deu, afirmou: «O mundo está mesmo muito diferente. Deixámos de ter um projecto, aquela coisa ideológica do futuro

Tinha 77 anos.

Clique na imagem.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

THE CROWN, AGAIN


Vi os dois primeiros episódios da série de Peter Morgan. Magníficos.

Isabel II está com 38 anos e Olivia Colman é perfeita no papel. Não diria o mesmo de Helena Bonham Carter, que faz um retrato histriónico de Margarida (a personalidade da actriz acentua o lado antipático). Tobias Menzies devolve-nos um Filipe mais sarcástico. Etc.

O mais interessante, porém, são os temas abordados. Por exemplo:

No Outono de 1964, sem dinheiro para honrar os compromissos com o FMI, e portanto à beira da bancarrota, o Reino Unido vê-se obrigado a pedir mil milhões de libras aos Estados Unidos. O trabalhista Harold Wilson, primeiro-ministro desde Outubro, não consegue que Lyndon B. Johnson autorize o empréstimo. Quem desfaz o nó? Margarida, a irmã da rainha, durante uma visita (1965) aos Estados Unidos na companhia do marido, Antony Armstrong-Jones. Tudo se resolve num jantar na Casa Branca, no meio de anedotas porcas e muito álcool. As peripécias que conduzem ao jantar são deveras interessantes, mas não vou contar tudo.

O caso Blunt não é ignorado. Isabel II fica atónita ao descobrir que Sir Anthony Blunt, historiador de arte e Surveyor of the King and Queen’s Picture, era o 4.º homem do anel de cinco espiões de Cambridge. Ela desconfiava de Wilson, saiu-lhe Blunt. Sobre Blunt, além da extensa bibliografia histórica, existe um romance notável de John Banville, O Intocável. Foi também ele quem deu origem ao personagem Maurice, no romance The Climate of Treason de Andrew Boyle.

Voltando à série. A rainha fica indignada mas, em nome dos interesses do Reino, prefere fingir que nada aconteceu.

Blunt, que ocupava o cargo desde 1945, a convite de George VI, permanecerá no lugar até 1972. Só será publicamente exposto em Novembro de 1979, na Câmara dos Comuns, por Margaret Thatcher. Perdeu os títulos mas nada lhe aconteceu até morrer, pois tinha imunidade. O actor Samuel West é o Blunt da série.

E um dos momentos altos é a conversa que mantém com Filipe, o príncipe consorte, durante um vernissage. Filipe diz-lhe que devia ser denunciado, mas Blunt recorda-lhe a existência de fotografias comprometedoras do Caso Profumo (as fotos desapareceram de casa de Stephen Ward, o osteopata da alta sociedade responsável pela rede de prostituição de luxo que serviu de pano de fundo ao escândalo), fotos que estariam em mãos seguras, embora pudessem surgir a qualquer momento.

Sempre se suspeitou que Filipe fosse o membro sénior da família real... envolvido no caso, mas creio que é a primeira vez que isso é dito com todas as letras.

De resto, fotografia, diálogos, recriação de ambientes, guarda-roupa, reconstituições (como o interior dos Vickers VC 10 da BOAC), etc., tudo superlativo.

Clique na imagem: o casal real na série e na realidade.

domingo, 17 de novembro de 2019

THE CROWN, TRÊS


O dia está impossível, mas temos uma consolação de peso: a Netflix estreia hoje a 3.ª temporada da série de Peter Morgan que descreve e analisa o reinado de Isabel II. Em boa verdade, The Crown é um documento para a História. O projecto prevê seis temporadas.

A primeira temporada abrange o período que vai do casamento de Isabel e Filipe (1947) ao fim da ligação “inconveniente” de Margarida com o capitão Peter Townsend, por imposição de Churchill (1955). A segunda vai da Crise do Suez e consequente demissão de Anthony Eden (1956) ao nascimento de Edward (1964).

A terceira, novamente em 10 episódios, está disponível a partir de hoje e cobre os dois mandatos de Harold Wilson como primeiro-ministro, indo de 1964 a 1977.

Foi preciso mudar o elenco porque 20 anos é muito tempo na vida de qualquer pessoa. Assim, Claire Foy, que foi Isabel II nas temporadas anteriores, vê-se substituída por Olivia Colman; Matt Smith, que foi Filipe, dá o lugar a Tobias Menzies; e Vanessa Kirby, a irreverente Margarida, passa a bola a Helena Bonham Carter. E assim sucessivamente.

Clique na imagem.