quinta-feira, 24 de junho de 2021

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado

Começar pelo princípio: Marilynne Robinson (n. 1943), voz maior da literatura norte-americana, está de volta com Jack. Com acção em Gilead, a cidade que empresta o nome ao título do romance que a fez vencer o Pulitzer de Ficção em 2005, o livro conta a história de Jack Boughton, filho “problemático” de um pastor presbiteriano. Já o conhecemos de Gilead, Home e Lila, os romances anteriores da tetralogia. O ponto crítico está na ligação amorosa de um homem branco com uma mulher negra, na América dos anos 1950. Ser professora e filha de um bispo metodista influente na comunidade negra não isenta Della Miles dos interditos da lei. Mas a vexata quaestio nem sequer reside aí. Para Marilynne Robinson, a questão central é pôr em pauta o tipo de país em que a América se transformou. O dilema de Hamlet paira como uma sombra nas discussões “teológicas” de Jack e Della. Notável. Publicou a Relógio d'Água.

Finalmente podemos ler Luto em português. Trata-se do romance mais traduzido e premiado do guatemalteco Eduardo Halfon (n. 1971), judeu mizrahim que nos faz mergulhar no horror de um país destroçado pela guerra civil. No Verão de 1981, antes de completar dez anos, o narrador muda-se com os pais para os Estados Unidos. O relato será feito a partir da Flórida, a pretexto da memória de um tio que nunca conheceu: «Chamava-se Salomón. Morreu aos cinco anos, afogado no lago Amatitlán.» Filtrada pelas raízes familiares — polacas por parte da mãe, libanesas do lado paterno —, a escavação do passado expõe o conflito entre culpa e curiosidade. Publicou a Dom Quixote.

A Trilogia da Cidade de K. traz de volta os livros mais famosos de Agota Kristof (1935-2011), a escritora que fugiu para a Suíça após o fracasso da Revolução Húngara de 1956. Radicada em Neuchâtel, tornou-se cidadã helvética e publicou a obra em francês. Reunidos em volume único, O Caderno Grande (1986), A Prova (1988) e A Terceira Mentira (1992) contam a história de dois gémeos amorais, vítimas da guerra e toda a espécie de iniquidades. Escrito em capítulos muito curtos, O Caderno… suscitou controvérsia quando foi publicado, dando origem a um processo judicial (as cenas de sexo e crime foram consideradas pornográficas). Os outros dois romances têm uma estrutura mais convencional, desdizendo, cada um a seu modo, as “verdades” do Caderno… Publicou a Relógio d'Água.

Sessenta anos após a sua primeira publicação, Chamada Para o Morto volta às livrarias, desta vez com uma introdução escrita para assinalar a data pelo próprio John le Carré (1931-2020). O livro marca o “nascimento” de Smiley, o espião improvável com quem Le Carré cresceu e amadureceu. Chamada Para o Morto é o primeiro de nove romances centrados na figura desse erudito da cultura alemã que fará dos serviços secretos a sua razão de vida (a mulher, Lady Ann Sercomb, trocou-o por um piloto cubano de Fórmula Um). O plot gira em torno do alegado suicídio de Samuel Fennan, funcionário do Foreign Office britânico. Foi o primeiro, mas já era vintage. Publicou a Dom Quixote.

Condensar a história inglesa entre o século V e o fim dos anos 1990 numa síntese rigorosa, foi o que fez Simon Jenkins (n. 1943) ao escrever esta Breve História de Inglaterra. Em menos de quatrocentas páginas, o autor faz um tour d’horizon deveras estimulante, que nos leva da Alvorada Saxónica ao legado de Thatcher, dissecando temas tão importantes como a Reforma religiosa (o conflito com o Papa) ou o Estado-Providência criado em 1945. A obra inclui uma cronologia de datas-chave, bem como a lista de todos os soberanos e primeiros-ministros do Reino Unido. Publicou A Esfera dos Livros.

A morte de Marcelino da Mata, controverso oficial dos Comandos, acordou velhos fantasmas da Guerra Colonial. Um deles, porventura o mais polémico, foi a invasão falhada da Guiné-Conacry, em Novembro de 1970. Efectuado por via marítima, o golpe visava capturar Amílcar Cabral, líder do PAIGC, libertar prisioneiros portugueses, levar os oposicionistas de Sékou Touré ao poder, e destruir os caças russos Mig. Operação Mar Verde, de António Luís Marinho, expõe os factos com exemplar minúcia: Amílcar Cabral não foi encontrado, não havia Migs no aeroporto de Conacry, os oposicionistas da FLNG não conseguiram eliminar Sékou Touré. Portugal desmentiu tudo. Prefaciado por Guilherme Alpoim Calvão, responsável pela tentativa desse coup d'État, o volume inclui dezenas de fotografias, índice onomástico e, em anexo, documentação militar. Um documento para a História. Publicou a Temas & Debates.

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quarta-feira, 23 de junho de 2021

UM TORNEIO PARA TODOS?


A UEFA não permitiu que o Allianz Arena, onde esta noite jogam as selecções alemã e húngara, fosse iluminado com as cores da bandeira arco-íris, símbolo da comunidade LGBTI. A acção visava dar um sinal à Hungria, país da UE que recentemente aprovou legislação discriminatória da comunidade homossexual. 

Heiko Maas, ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, já criticou a decisão da UEFA: «Es stimmt, auf dem Fußballplatz geht’s nicht um Politik. Es geht um Menschen, um Fairness, um Toleranz. Deshalb sendet die UEFA das falsche Signal. Aber man kann heute ja zum Glück trotzdem Farbe bekennen im Stadion und außerhalb.» — Sinal errado, diz ele.

A ver vamos se a equipa alemã toma posição logo à noite.

A ideia de iluminar o estádio com as cores LGBTI partiu de Dieter Reiter, presidente da Câmara de Munique (capital do Estado da Baviera), que afirmou: «Queremos enviar um sinal claro à Hungria e ao mundo

Em protesto contra a UEFA, vários estádios alemães vão iluminar-se com as referidas cores assim que começar o jogo do Allianz Arena. A decisão da UEFA é tanto mais contraditória quanto a própria organização publicou um statement no Twitter, ilustrado com o símbolo do arco-íris, defendendo a inclusão da comunidade LGBTI no mundo do futebol.

Mas, como toda a gente sabe, o futebol é o último reduto da vida colectiva a seguir a divisa da rainha Vitória: «Homossexualidade? Isso não existe.» A soberana referia-se em particular às lésbicas.

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domingo, 20 de junho de 2021

VASCO GRAÇA MOURA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi os fantasmas coloquiais de Vasco Graça Moura (1942-2014), voz central da poesia portuguesa contemporânea e um dos intelectuais mais influentes do século XX português.

Natural do Porto, advogado, deputado à Assembleia Constituinte, eurodeputado no Parlamento Europeu (1999-2009), exerceu vários cargos institucionais, tais como, entre outros, os de secretário de Estado em dois Governos Provisórios (no IV, da Segurança Social; no VI, dos Retornados), director-geral da RTP, presidente da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, representante de Portugal no Conselho da Europa, presidente da comissão executiva das comemorações do centenário de Fernando Pessoa, presidente da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1988-95), comissário de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha, director da Fundação Casa de Mateus, membro do conselho consultivo da FLAD, membro do conselho-geral da Comissão Nacional da UNESCO, director do Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian e, nos dois últimos anos de vida, presidente do CCB.

Além de poesia, escreveu ensaio, ficção, crónicas e um diário, tendo organizado antologias de poesia e prosa. Traduziu Dante, Shakespeare (os sonetos), Petrarca, Rilke, Villon, Ronsard, Moliére, Voltaire e outros.

Em 1998 foi-lhe atribuída a Medalha de Ouro da Cidade de Florença pelas suas traduções de Dante. Mais tarde (2002), o ministério italiano da Cultura distinguiu-o pelas traduções de Dante e Petrarca. Uma das marcas da sua passagem pela IN-CM foi a edição integral da Enciclopédia Einaudi. Em Portugal recebeu todos os prémios que havia para receber, incluindo, em 1995, o Prémio Pessoa. Foi condecorado várias vezes, em Portugal e no Brasil.

Militante do PPD/PSD, apoiou a reeleição de Eanes (contra o candidato da AD) e, a partir de 1986, liderou o Movimento Contra o Acordo Ortográfico. Por mais de uma vez recusou ser ministro da Cultura. Homem de Direita, o seu ecumenismo é reconhecido por todos os quadrantes ideológicos. Teve quatro filhos de três casamentos. À data da sua morte vivia com a investigadora Maria Bochicchio.

O poema desta semana integra A Furiosa Paixão Pelo Tangível (1987). A imagem foi obtida a partir do primeiro volume de Poesia Reunida, publicado pela Quetzal em 2012.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda e Merícia de Lemos.]

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sábado, 19 de junho de 2021

MARCHA CANCELADA


Após parecer desfavorável da DGS entregue ontem ao início da noite, no termo de dois meses de contactos entre as partes, a comissão organizadora da marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa decidiu cancelar a Marcha agendada para este sábado, a 22.ª desde que o evento se realiza.

Reunidos depois das 21h, os representantes das catorze organizações que compõem a comissão organizadora da marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa lamentam a «desconsideração pelas sucessivas tentativas de contacto para planeamento duma marcha política segura, e ainda um profundo desconhecimento sobre a sua natureza e o que esta representa para a nossa comunidade

A decisão apanha de surpresa dezenas de activistas vindos de todo o país, neste momento impedidos de sair da área metropolitana de Lisboa.

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sexta-feira, 18 de junho de 2021

INVASÃO DE PRIVACIDADE

O envio de dados pessoais de activistas políticos às representações diplomáticas estrangeiras é uma prática indigna de um Estado democrático.

O procedimento acabou em Abril deste ano, mas vem do tempo dos governos-civis (extintos em 2011), órgãos da Administração Pública que representavam o Governo da República nos vários distritos.

Ontem, na apresentação das conclusões preliminares da auditoria interna, Fernando Medina explicou tudo com detalhe. Resumindo muito: desrespeitando normas fixadas por António Costa, quando o primeiro-ministro era o edil da cidade, a Câmara de Lisboa continuou a proceder como no tempo de António Galamba, governador-civil de Lisboa até 2011. Entre a documentação entregue aos media, constam cópias de faxes do governo-civil galambino enviados às embaixadas da Guiné-Bissau e de Israel. Não era com certeza o único, outros fariam o mesmo, mas mais valia estar calado.

Entretanto, Medina comunicou a exoneração de Luís Feliciano, responsável pela Protecção de Dados da CML, bem como a extinção do Gabinete de Apoio à Presidência, transferindo as suas competências para a Polícia Municipal.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

AML COM RESTRIÇÕES À CIRCULAÇÃO


Entre as 15:00 de sexta-feira e as 06:00 de segunda-feira, pode-se circular na Área Metropolitana de Lisboa, mas não entrar ou sair

Começa já amanhã. Pode prolongar-se por vários fins-de-semana.

Os dezoito concelhos abrangidos: Alcochete, Almada, Amadora, Barreiro, Cascais, LISBOA, Loures, Mafra, Moita, Montijo, Odivelas, Oeiras, Palmela, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Sintra e Vila Franca de Xira.

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OLHA SE NÃO FIZESSE


Concelho de Lisboa: mais de sete mil testes por cada cem mil habitantes, ou seja, quase tantos como as outras regiões do país, todas somadas.

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domingo, 13 de junho de 2021

MERÍCIA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Nasceu Um Menino Morto» de Merícia de Lemos (1913-1996), poetisa expatriada e, portanto, esquecida.

Natural da cidade da Beira, Moçambique, veio para Portugal em 1929 a fim de prosseguir estudos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1941 publicou o primeiro livro, Mar Interior. Em 1945 partiu para Paris, onde viveu até morrer. Com capas e hors-texte de Vieira da Silva, Dacosta, Cícero Dias e outros, os seus livros foram publicados na Guimarães, na Ática, na Imprensa Nacional, etc., mas também na Pierre Seghers, de Paris.

Tendo privado com a intelectualidade francesa do seu tempo, viajou por todo o mundo, colaborou na Seara Nova e outras publicações de prestígio. Interessada em artes plásticas — frequentou a École du Louvre —, foi, na capital francesa, durante meio século, antiquária.

O poema desta semana pertence a Rosa Rosae (1958). A imagem foi obtida a partir do 1.º volume da Terceira Série de Líricas Portuguesas, a mítica antologia organizada por Jorge de Sena, publicada pela Portugália [este primeiro volume] em 1972.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly e Alberto de Lacerda.]

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sexta-feira, 11 de junho de 2021

NINGUÉM É INOCENTE

A troca de informações entre Estados faz-se desde que o mundo é mundo. Não vale a pena discutir o mérito da prática. Sempre se fez, sempre se fará.

O que há de novo no caso que envolve a Câmara de Lisboa e a embaixada da Federação Russa levanta outro tipo de interrogações e acrescenta uma nota de incredulidade.

Toda a gente sabe, ou devia saber, que as manifestações (um direito garantido pela Constituição da República) não carecem de autorização. A única formalidade consiste na comunicação prévia, às autoridades, do local, data e hora da sua realização. É o que fazem os sindicatos, por exemplo. Quem quiser manifestar-se à margem de qualquer tipo de associação — como, alegadamente, terão feito os imigrantes russos —, não fica dispensado dessa comunicação: as autoridades exigem a identidade de três promotores. Um devia chegar, mas manda quem pode e obedece quem deve.

O Regulamento Geral sobre Protecção de Dados existe desde Agosto de 2019. 

A Lei n.º 58, de 8 de Agosto de 2019, «assegura a execução, na ordem jurídica nacional, do Regulamento (UE) 2016/679 do Parlamento e do Conselho, de 27 de abril de 2016, relativo à proteção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados.» Claro como água. 

Aparentemente, ninguém informou as autarquias. Face ao que se passou entre a Câmara de Lisboa e a embaixada da Federação Russa, é sintomático o silêncio das outras 307 autarquias nacionais.

Aqui chegados, dizer três coisas: o que se passou é grave / os funcionários das autarquias têm que respeitar o RGPD / nesta história mal contada ninguém é inocente.

HIGHLIGHT


Helena Vasconcelos, hoje no Público, sobre Devastação

«[...] É essa sensação de incómodo, a que não falta um arrepio de excitação, que acompanha a leitura destes seis contos de Eduardo Pitta, reunidos sob o título Devastação. Eduardo Pitta é um daqueles autores que é capaz de escrever poesia, ensaio, literatura de viagens e prosa sem nunca abandonar uma espécie de “lirismo selvagem”, em que a crueldade natural do ser humano se conjuga elegantemente com as evocações mais refinadas, as referências mais requintadas. [...] Com uma concisão que lembra os contos de Lydia Davis e a poética desencantada dos de Raymond Carver, Eduardo Pitta é, no entanto, original e único na forma como, em poucas palavras sabiamente escolhidas, cria tensão, drama, angústia e desassossego. [...] São contos cruéis e surpreendentemente exaltantes

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quinta-feira, 10 de junho de 2021

ANGOCHE POR VALE FERRAZ


Cinquenta anos passados sobre o Caso Angoche, mistério por decifrar, Carlos Vale Ferraz (n. 1946) deu à estampa Angoche — Os Fantasmas do Império. Vale Ferraz, pseudónimo literário do coronel Carlos Matos Gomes, na dupla qualidade de oficial do Exército e de investigador de História contemporânea, sabe do que fala. 

Oficialmente, os factos são estes: no dia 24 de Abril de 1971, entre as cidades de Quelimane e da Beira, na costa de Moçambique, foi avistado à deriva, com fogo na ponte de comando e na casa das máquinas, o navio de cabotagem Angoche, que transportava material de guerra, treze tripulantes negros, dez tripulantes brancos, um passageiro e um cão. O alerta foi dado no dia 27 pelo petroleiro Esso Port Dickson, com pavilhão do Panamá, continuando por esclarecer o hiato de três dias. Nunca foram encontrados corpos, desconhecendo-se o destino de quem ia a bordo. O Angoche foi rebocado para a baía de Lourenço Marques, onde chegou a 6 de Maio. Mais vírgula menos vírgula, dependendo do jornal ou das fontes “autorizadas”, é aquilo a que a opinião pública tem direito desde 1971.

Há especulações e perguntas para todos os gostos. O Angoche foi atacado? Por quem? Foi vítima de golpe da ARA ou da FRELIMO? Submarino russo ou chinês? Que papel tiveram os serviços secretos sul-africanos? O que aconteceu aos 24 homens? Foram para a Tanzânia? Por que razão o radiotelegrafista se “esqueceu” de embarcar, ficando em Nacala? Que papel tinha na história a mulher de alterne “suicidada” na Beira?

Sobre o assunto existe bibliografia documental, mas Angoche — Os Fantasmas do Império é um romance. A fórmula permite a Carlos Vale Ferraz inserir a intriga ficcional nos interstícios dos factos. E faz isso muito bem.

Angoche — Os Fantasmas do Império é dedicado «a quem morreu por saber de mais sobre o caso. Mortos por uma causa que ninguém teve a coragem de assumir

Para desenvolver o plot, o narrador apoia-se nos conhecimentos do “tio Dionísio”, oficial da Marinha portuguesa com ligações aos serviços secretos sul-africanos. Narrativa aliciante, faz o retrato dos últimos anos da colonização, vistos a partir de Moçambique. Por exemplo, é muito curiosa a caricatura a traço grosso de alguma burguesia de Lourenço Marques (Eduardo de Arantes e Oliveira, governador-geral de Moçambique à data do caso Angoche, surge mais de uma vez), os atritos entre a PIDE e os militares, etc. A sombra da operação Alcora — aliança militar secreta entre Portugal, a África do Sul e a Rodésia — perpassa no relato. Em suma, 170 páginas de boa ficção sobre factos obscuros da guerra colonial.

Lembrar que da obra ficcional de Carlos Vale Ferraz faz parte Nó Cego (1982, reeditado em 2018), título incontornável da bibliografia sobre a guerra em Moçambique.

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quarta-feira, 9 de junho de 2021

TAP COM LIDERANÇA FEMININA


Após dias de rumores, foi hoje confirmado que Christine Ourmières-Widener, 57 anos, engenheira aeronáutica diplomada pela École Nationale Supérieure de Mécanique et d'Aérotechniqueé, será a nova CEO da TAP.

Madame Ourmières-Widener foi CEO da britânica Flybe, a maior companhia aérea regional europeia que, por insolvência, cessou toda a operação em Março do ano passado.

Do seu currículo consta a passagem (1988-2016) pela administração da Air France, companhia onde foi responsável pela operação do Concorde. Mais tarde integrou a administração da Air France/KLM. Também passou pela companhia aérea irlandesa CityJet.

Entretanto, Miguel Frasquilho deixa o cargo de chairman, sendo substituído por Manuel Beja.

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OS 16 ANOS DA CNCDP

Alguém se lembra de quanto tempo durou, i.e., esteve em funções a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses?

A Comissão presidida por Vasco Graça Moura e outros durou dezasseis anos (1986-2002). Portanto, Rui Rio devia pôr um assessor a consultar o Diário da República antes de efabular sobre «os cinco anos» de Pedro Adão e Silva.

Exactamente: começou a preparar-se em 1986 o V Centenário da Viagem de Vasco da Gama (1497-1498) e da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia.

Vasco Graça Moura, que fez um trabalho notável, não exerceu, tal como os outros, pro bono.

Rui Rio não se lembra. Estaria ocupado com os cargos que exercia no BCP, nas tintas CIN, na Boyden Executive Search e outras empresas do mercado de capitais.

As pessoas comuns não têm obrigação de recordar estes detalhes. Mas um líder partidário tem. O presidente do PSD não se sente confortável com as celebrações da queda da ditadura? Problema dele.

terça-feira, 8 de junho de 2021

TRANQUIBÉRNIA


A nomeação de Pedro Adão e Silva para presidir à Comissão Executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril parece ter irritado muita gente. Mas fica mal ao líder da Oposição referir-se-lhe nos termos em que o fez.

Queriam o quê? Um neto de Salazar à frente das comemorações da queda da ditadura? Um antigo membro da Falange?

É natural que o PS tenha escolhido um antigo Secretário Nacional seu. Antigo porque Pedro Adão e Silva abandonou a política activa em 2005. O PSD escolheria um vice-presidente, o PCP um membro destacado do Comité Central, etc.

Nascido em 1974, o ano da revolução, doutorado em Ciências Sociais e Políticas pelo Instituto Europeu de Florença, professor de sociologia e políticas públicas no ISCTE, autor de obras sobre o estado social, surfista, meu amigo, Pedro Adão e Silva parece-me um boa escolha. O próprio Presidente da República enalteceu as suas qualidades.

contabilidade de Rui Rio é de merceeiro deprimido. As insinuações são indignas do chefe da Oposição.

domingo, 6 de junho de 2021

LACERDA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Depois de Veres Guerra e Paz de Sergei Bondarchuk de Alberto de Lacerda (1928-2007), poeta duplamente expatriado, uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Simplificando muito, pode dizer-se que a sua obra vive em permanente confronto com a tripla pulsão da melancolia, da liberdade e da iconoclastia.

Natural da Ilha de Moçambique, homossexual, Lacerda veio para Portugal pouco antes de completar 18 anos. Em Lisboa depressa fez amizade com Cinatti, Sophia, Cesariny, David, Ramos Rosa, Raul de Carvalho e Luís Amaro. Em 1950, com David, Couto Viana e Luiz de Macedo fundou as folhas de poesia Távola Redonda.

Mas foi curto o intervalo português: no Verão de 1951, quando o n.º 8 dos Cadernos de Poesia, então dirigidos por Jorge de Sena, lhe foi integralmente dedicado, partiu para Londres, onde viveu até morrer.

Na capital britânica trabalhou na BBC, divulgando a cultura portuguesa. Num curto espaço de tempo frequentava os salões literários mais exclusivos da cidade. Talvez por isso, Herberto Helder tenha dito que «Alberto de Lacerda tem Londres invadida por sofás» [cf Photomaton & Voz, 1979]. Tinha 23 anos quando Edith Sitwell o convidou para almoçar com T. S. Eliot e William Walton. Não por acaso, foi em Londres que foi publicado o seu primeiro livro, 77 Poems (1955), sob chancela da Allen & Unwin e prefácio do sinólogo Arthur Waley. Esse livro de estreia teve calorosa recepção crítica por parte de gurus como Quentin Stevenson, J. M. Cohen e David Wright. E terá sido no momento em que o Times Literary Supplement dedicou ao livro uma recensão atenta, que Portugal começou a fazer de conta que ele não existia.

Em 1959, a convite de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, permaneceu um ano no Brasil, dando conferências e recitais em universidades e outras instituições. Finalmente, em 1961, um livro em Portugal: «Palácio». Críticos empenhados, como Sena, Eduardo Lourenço e Ramos Rosa, sempre o elogiaram, mas a ortodoxia vigente ignorava.

Entre 1967 e 1993, Alberto de Lacerda leccionou em universidades americanas, primeiro em Austin (no Texas), depois em Nova Iorque, por último em Boston, onde esteve a partir de 1972. Durante esses vinte e seis anos, passava um semestre de cada lado do Atlântico.

Um dia, já depois do 25 de Abril, o dirigente máximo do Instituto de Alta Cultura “descobriu” que Lacerda não tinha habilitação própria, ou seja, licenciatura. E não hesitou: mandou rescindir o contrato. Incrédulas, as autoridades académicas americanas não queriam acreditar que o “seu” professor de Poética fosse posto de lado por tal motivo. E fizeram o óbvio: contrataram-no directamente, não aceitando receber o licenciado proposto por Portugal.

Tal como acontecera em Inglaterra, o convívio com a intelligentzia norte-americana foi fácil. Privou com Marianne Moore, Thom Gunn, Robert Duncan, David Hockney e outros. Em 1969 tinha uma antologia publicada pela Universidade do Texas, Sellected Poems. Foi o primeiro e único autor de língua portuguesa a dar um recital da sua poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington. Em 1973, editou Maio, International Poetry Magazine, de que saiu um único número, com colaboração de Cesariny, Guillén, Octavio Paz, Murilo Mendes, Dominique Fourcade e Augusto de Campos.

Coleccionador de arte, ele próprio autor de colagens (em 1987 expôs pela última vez na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa), são lendárias as suas amizades com Vieira da Silva, Arpad Szenes, Paula Rego, Victor Willing, Menez, Jorge Martins, etc., artistas sobre quem escreveu na imprensa portuguesa mas também na Encounter, The Listener e outras publicações. 

Também em 1987, a sua colecção privada de artistas do vasto mundo (arte, correspondência, retratos) foi mostrada ao público no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, tendo a Fundação editado um precioso catálogo com texto introdutório de Eduardo Lourenço. Outro volume indispensável para “mergulhar” no universo de Lacerda é o álbum fotográfico The Sea That Lies Beyond My Rocks, organizado por Luís Amorim de Sousa e publicado em 2010 pela Assírio & Alvim em parceria com a Fundação Mário Soares.

Em 27 de Agosto de 2007, a um mês de completar 79 anos, foi encontrado em coma na sua casa de Londres, pelo crítico de arte John McEwen (iam almoçar juntos), seu confidente e autor do obituário publicado no Independent. Hospitalizado de seguida, morreria horas depois.

O poema desta semana pertence a Mecânica Celeste (1994), que colige poemas escritos entre 1963 e 1970. A imagem foi obtida a partir de Oferenda II, segundo volume da obra poética quase completa, publicado pela Imprensa Nacional em 1994.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto e Ana Hatherly.]

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sábado, 5 de junho de 2021

ACABOU A FESTA


Com o lançamento de Devastação, o mais recente dos meus livros, terminou esta tarde a 5.ª edição de Alvalade Capital da Leitura.

Tudo aconteceu no Museu Bordalo Pinheiro e não podia ter corrido melhor. Cecília Andrade, editora da Dom Quixote, abriu a sessão com palavras de extrema generosidade. Teresa Sousa de Almeida apresentou a obra com o rigor académico a que nos habituou. Luis Lucas leu um dos contos com a sagesse de um grande actor.

A José António Borges, presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, coube fazer a síntese da semana, fazendo-o com desenvoltura, eloquência e verdadeira empatia.

Os amigos que estavam vieram todos de longe. Em suma, foi deveras emocionante.

Nos instantâneos fotográficos vêm-se, de cima para baixo e da esquerda para a direita, Cecília Andrade, Teresa Sousa de Almeida, Luís Lucas, José António Borges e eu próprio no uso da palavra.

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LANÇAMENTO NO BORDALO


O lançamento é hoje (18:00), no Museu Bordalo Pinheiro.

Apresenta o livro Teresa Sousa de Almeida, professora de literatura francesa e portuguesa da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde também leccionou teoria feminista.

Luis Lucas, actor que dispensa apresentações, vai ler um dos contos.

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ACL, DIA SEIS


Alvalade Capital da Leitura termina hoje ao fim da tarde com o lançamento do meu novo livro de contos, Devastação.

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sexta-feira, 4 de junho de 2021

MAGIA NO PALÁCIO PIMENTA


Como se estivéssemos mergulhados num filme de Lina Wertmüller, os pavões enlouqueceram assim que Händel abriu a noite. A partir daí, tudo — música, poesia, aves, vento, folhagem, iluminação — contribuiu para a magia da noite. Deslumbrante talvez seja o adjectivo adequado.

Não sei como agradecer a Maria João Luis e Manuel Wiborg, aos músicos dos Três Actos (Cristina Almeida, Miguel Vasconcelos, Simão Fonseca e Gonçalo Francisco), aos técnicos de luz, às próprias aves alucinadas. Bem hajam todos!

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ACL, DIA CINCO


Esta noite, nos jardins do Palácio Pimenta, vamos ter poesia e música.

Os poemas, meus e de outros nove poetas contemporâneos (ver imagem), serão lidos por Maria João Luis e Manuel Wiborg, nomes maiores do teatro português.

Bach, Barber, Glière e Händel — cuja Sarabanda abre o sarau —, interpretados por Cristina Almeida, primeiro violino, Miguel Vasconcelos, segundo violino, Simão Fonseca, viola de arco, e Gonçalo Francisco, violoncelo, preenchem a quota musical.

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