segunda-feira, 24 de abril de 2017

UM BANQUEIRO NO ELISEU


A vitória de Macron levanta a questão de saber como é que um homem sem partido (o movimento En marche! não é um partido) formará governo se, como se prevê, vença a segunda volta a realizar a 7 de Maio. Irá buscar personalidades próximas do PS, do qual foi militante entre 2006 e 2009? Vira-se para os Republicanos? Faz um melting pot dos dois? Quem é que indicará para primeiro-ministro? Mundo não lhe falta. Mundo e jogo de cintura. Um homem que foi secretário-geral da Presidência da República (2012-14) e ministro da Economia e da Indústria (2014-16), conhece bem o milieu político e trata por tu a alta-finança internacional. Não esquecer que Macron é uma ‘criação’ da casa Rothschild. Tudo indica que o PS francês vai aproveitar a embalagem para tirar partido da vitória do seu antigo militante.

PRIMEIRO ROUND


Os primeiros resultados oficiais. Gráfico do Guardian. Clique para ler melhor.

domingo, 23 de abril de 2017

DUELO MACRON VS LE PEN


Quando estão contados dois terços dos votos, os resultados das Presidenciais francesas são estes. A imagem é do Monde. Clique para ver melhor.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

FUSILLADE


A três dias da 1.ª volta das presidenciais francesas, um atentado reivindicado pelo Daesh fez um morto (um polícia) e dois feridos graves, nos Campos Elísios, em Paris. O ataque deu-se entre a loja Marks & Spencer e a estação de metro Franklin D. Roosevelt. A avenida continua cortada ao trânsito.

Imagem: Le Monde. Clique.

BRUNO VIEIRA AMARAL



Esta semana, na Sábado, escrevo sobre Hoje Estarás Comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral (n. 1978). Quem tenha lido o que escrevi há cerca de quatro anos sobre o primeiro romance do autor, não ficará surpreendido com o juízo que faço do segundo. Sublinhei então a qualidade da narrativa («o texto é brilhante»), bem como a evidência de que «temos escritor». Tudo se confirma. Bruno Vieira Amaral tem o enorme mérito de não escrever para a academia, nem complexos sobre Realismo. Em suma, as palavras têm vida própria, estão no sítio certo, e o leitor interessado em devaneios metafísicos terá de procurar noutra freguesia. Partindo de uma grelha autobiográfica, porém ficcionada, o autor intercala no plot reflexões de natureza hermenêutica que sinalizam o lugar do narrador. A investigação em torno do assassínio do primo João Jorge permite mergulhar nas remotas memórias da infância e adolescência: pai ausente, ecos da Angola colonial, o bairro em que cresceu, ilustrado com virtuosismo no romance anterior. Não me recordo, na literatura portuguesa das últimas décadas, de descrições tão vívidas dos anos da puberdade: mitos, rituais, erotismo, carências, matraquilhos, almoços de domingo, cromos da bola, a «praia do cagalhão», torneios com caricas, cumplicidades tribais, alcunhas. Verdade que desde As Primeiras Coisas temos o Bairro Amélia inscrito no cânone literário, mas agora podemos vê-lo em cinemascope. Factos reais intercalados com acuidade pontuam a evolução da história. Sirvam de exemplo os anos da fome em Setúbal ou o Caso Dona Branca. A destreza do narrador autodiegético ajuda, mas é o domínio dos recursos narrativos que dá eficácia à trama romanesca, servida por uma escrita limpa e polida até ao osso. De forma natural, o enquadramento histórico (em particular sobre Angola) “explica” a personalidade de vários personagens. Isso e as reminiscências da Luanda pré-independente. O mesmo se diga da reconstrução do assassinato de João Jorge: excertos de notícias de jornal, autos policiais, ressonância da vox populi, mnemónica atinente. Por último mas não em último, sublinhar o carácter identitário do texto, a força de uma prosa isenta de qualquer espécie de floreados retóricos: «Onde é que a história da nossa família contamina a nossa história individual?» A obra responde. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre o oitavo volume da série diarística Dias Comuns, de José Gomes Ferreira (1900-1985), volume que tem como subtítulo Livro das Insónias sem Mestre. Num país sem tradição memorialística — os exemplos de Raul Brandão, Torga, Saramago e Ruben A., não sendo os únicos, estão longe de fazer escola —, o diário de Gomes Ferreira tem, sobre outros, o mérito de ilustrar o comportamento do milieu durante a ditadura do Estado Novo. O autor não insinua nem discreteia em abstracto: cita nomes, datas, prémios, anedotário de café, mexericos, etc. O foco central é o país e a literatura. Apesar da aparente secura, não há azedume na prosa. Gomes Ferreira, que em vida foi um cavalheiro, mantém-se igual a si mesmo. Reportando ao período que vai de Agosto de 1969 a Janeiro de 1970, o volume não ignora as eleições do consulado de Caetano, quem era quem na CEUD e na CDE, a violência dos legionários, o cinismo da Pide, e até o manifesto dos escritores (cortado pela Censura), aqui reproduzido na íntegra, com o nome dos seus 83 signatários. A propósito: por que razão a poesia de Gomes Ferreira anda desaparecida há mais de vinte anos? Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

terça-feira, 18 de abril de 2017

BORA LÁ


Hoje em Lisboa. Clique na imagem.

THERESA ANTECIPA


Para calar os detractores do Brexit, Theresa May anunciou há momentos que haverá eleições gerais antecipadas no próximo 8 de Junho. Com o Labour em frangalhos, e sem que os britânicos tenham começado a sentir os efeitos das negociações «duras» que ela pretende, o momento é ideal.

A imagem é do Guardian. Clique nela.

sábado, 15 de abril de 2017

FRANÇA


A mais recente sondagem do Monde. E não é que Mélenchon, 65 anos, eurodeputado, esquerda dura, anti-UE, chegou aos 20% das intenções de voto? Tecnicamente empatado com Macron, Le Pen e Fillon, tudo pode acontecer. Clique na imagem para ler melhor.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

ORDEM PARA ABATER

Para estabelecer a ordem pública na Chechénia, Putin escolheu Ramzan Kadyrov para presidente. Kadyrov, 40 anos, muçulmano sunita, praticante de wrestling, ex-rebelde separatista, chefe de um exército privado denominado Kadyrovtsy, é filho do antigo presidente Akhmad Kadyrov (1951-2004). Em troca de segurança militar, Putin deu carta branca a Kadyrov para impor um regime totalitário. A criatura está em funções desde Abril de 2007, com aval de Moscovo desde Março de 2011. Em Dezembro de 2015 tornou-se membro da Comissão Consultiva do Conselho de Estado da Federação Russa.

Nos últimos dias, a partir de notícias do jornal russo Novaya Gazeta, a imprensa internacional tem feito eco da existência, na Chechénia, de campos de detenção, tortura e abate de homossexuais. Numa sociedade extremamente conservadora e homofóbica como a chechena, a maioria dos homossexuais casa com mulheres (mantendo vida dupla) para evitar retaliação das próprias famílias. Leia-se: para evitarem ser executados pela própria família, como é aconselhado pelas autoridades e tem acontecido. Mas uns quantos saem de casa para viver a sua vida. São esses que têm sentido a mão pesada dos esbirros de Kadyrov. Os que conseguem sair da Chechénia dão conta do horror generalizado. Activistas dos direitos humanos estão a monitorizar a fuga de dúzias de homossexuais que, tendo saído da Chechénia, ainda se encontram na Rússia, pois a possibilidade de serem repatriados para Grózni é real.

Boris Johnson, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, escreveu no Twitter que a situação na Chechénia é «ultrajante». O Reino Unido já manifestou disponibilidade para acolher esses homens. Curiosamente, as notícias não referem lésbicas. Sobre tudo isto, o que dizem as Nações Unidas? E Mr Guterres, católico, em particular?

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A MÃE DE TODAS AS BOMBAS


A partir de um avião MC-130, a Força Aérea dos Estados Unidos lançou hoje sobre Khorosan, no Afeganistão, uma bomba GBU-43, vulgo MOAB, ou Massive Ordnance Air Blast. Esta ‘Mãe de Todas as Bombas’ tem um índice explosivo superior a onze toneladas de TNT. Foi a primeira vez que foi usada em combate. Khorosan é o epicentro de uma zona de cavernas utilizadas como esconderijos pelo Daesh. Projectada para destruir alvos subterrâneos, a bomba GBU-43 detona antes de atingir o solo e, além do seu poder destruidor, tem enorme impacto psicológico. O general John W. Nicholson, comandante das forças americanas no Afeganistão, disse que o GBU-43, a bomba não-nuclear mais potente, era a munição certa para combater o Daesh.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

BILL BRYSON


Hoje na Sábado escrevo sobre Regresso à Pequena Ilha, de Bill Bryson (n. 1951). Na melhor tradição anglo-americana, Bryson é o autor de livros de viagens por excelência. Mas também escreveu uma biografia de Shakespeare, ensaios sobre a língua inglesa, ciência, História, e um volume de memórias. Americano de nascença, transferiu-se para Inglaterra em 1973, e por lá ficou, primeiro a trabalhar num hospital psiquiátrico, depois como colunista e escritor. Houve um breve intervalo no Iowa natal, mas foi em Inglaterra que casou e nasceram os filhos, tendo obtido a cidadania britânica em Outubro de 2014. Com doze livros publicados em Portugal, tornou-se um autor de culto. Refere o Brexit nestes termos: «A muitos de nós, o voto inglês pareceu uma espécie de loucura.» Como o título induz, Regresso à Pequena Ilha é uma sequela de Crónicas de uma Pequena Ilha, várias vezes trazido à colação, embora o título original, The Road to Little Dribbling, não seja tão óbvio. Em 26 capítulos, Bryson passa em revista o Reino Unido. A displicência é aparente, zurzindo sem dó nas instituições, usos e costumes dos dois lados do Atlântico. Sobre condecorações, o contraponto é hilariante: «Na América o sistema produz a ala de um hospital; na Grã-Bretanha ficamos apenas com um idiota vestido de arminho.» O capítulo dedicado a Londres tem o mérito de ilustrar os estrangeiros: «Nem sequer é uma cidade, mas sim duasWestminster e a City —», concluindo que a inépcia e o cabelo de Boris Johnson (antigo Mayor da cidade) são «um monumento à desordem». Na parte dedicada ao País de Gales temos uma evocação de Dylan Thomas e, coisa rara, elogios francos à estância balnear de Tenby. Muito curiosas as observações sobre centrais nucleares, a partir do acidente de 1957 em Windscale. Evitou-se a catástrofe («os carneiros ficaram incandescentes durante uns tempos»), mas o Lake District permaneceu uma das mais belas paisagens do mundo. Stonehenge tem direito a onze páginas. Etc. O brilho da prosa é equivalente ao grau de corrosão. Mas há uma indisfarçável quota bipolar no binómio EUA vs UK. Remissões inesperadas, como a referência a Frederic Leighton, o pintor mais famoso da Era vitoriana, põem o acento tónico no prazer do texto. Quatro estrelas. Publicou a Bertrand.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA 1925-2017


Morreu hoje Maria Helena da Rocha Pereira, decana dos especialistas portugueses em estudos clássicos. Da sua obra, muito vasta, constam os dois volumes de Estudos de História da Cultura Clássica: o de 1965 dedicado à cultura grega, o de 1984 à cultura romana. Entre outros, traduziu Platão, Sófocles, Eurípides, Píndaro, Anacreonte e Pausânias. Tinha 91 anos.

domingo, 9 de abril de 2017

RAUL BRANDÃO


Não tenho livros de cabeceira por uma razão muito simples: não leio na cama. Mas a expressão tem valor simbólico e, nessa medida, as Memórias de Raul Brandão têm todas as condições para serem livro de cabeceira. Bem andou a Quetzal ao reunir num único tomo (capa dura, 623 páginas) os três volumes de memórias do autor de Húmus.

Brandão, que foi militar entre 1888 e 1911, facto que o não impediu de deixar uma obra literária consistente que inclui historiografia, teatro, ficção, livros de viagens e narrativas diarísticas, escreveu estas memórias enquanto testemunha privilegiada dos últimos anos da monarquia e da implantação da República. Lendo-o, temos uma radiografia nítida de Portugal no período que vai de 1900 a 1930, em especial a primeira metade. Diversa iconografia, como cartazes da época, retratos, fac-símiles de documentos de vária proveniência, etc., serve de apoio ao texto. Brandão põe o acento tónico nos factos, bem documentados, mas não ignora a ‘história da porteira’.

Se quer conhecer aquele tipo de detalhes da vida de D. Carlos que as Histórias canónicas omitem, tem de ler estas memórias. E quem diz o rei diz todos os políticos que deixaram marca no início do século XX português. Está lá tudo. Só assim se percebe o estado a que chegámos. Indispensável. Inclui, naturalmente, índice remissivo.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 55,8%. A diferença entre o PS e o PSD é agora de dez pontos. E, mesmo sozinho, o PS continua a ultrapassar a PAF, que soma 35,7%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

LEITURAS


Hoje na Sábado escrevo sobre quatro livros: O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin; Diário dos Imperfeitos, de João Morgado; O Rio Triste, de Fernando Namora; e Baudolino, de Umberto Eco.

Se fizéssemos uma lista dos dez livros mais controversos do século XX, O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), estaria nela. Escrita em segredo numa quinta da Estónia, nos anos 1960, num esconderijo só tornado público em 1991, a magnum opus do autor saiu clandestinamente da URSS e foi revelada ao Ocidente em Dezembro de 1973, por intermédio da tradução francesa da IMKA. Houve quem notasse que talvez fosse o início da «desagregação do sistema comunista». A edição portuguesa de 1975 nada tem a ver com o livro que agora chegou às livrarias, em tradução directa do russo, da responsabilidade de António Pescada. Ensaio autobiográfico, ou de «investigação literária», como se lê na folha de rosto, cobre o período que vai de 1918 a 1956. As cerca de seiscentas páginas do volume correspondem à edição abreviada que tem sido publicada em todo o mundo nos últimos 44 anos. Dividido em sete partes, a clareza dos títulos respectivos não ilude: A Indústria prisional, Movimento perpétuo, Extermínio pelo trabalho, A alma e o arame farpado, Os trabalhos forçados, O desterro e, a fechar, Não há Estaline. Uma verdadeira enciclopédia do horror. Anna Akhmátova disse do livro que devia ser lido e decorado pelos duzentos milhões de russos. Combatente na Segunda Guerra Mundial, e tendo estudado física, matemática e literatura, tinha apenas 26 anos quando foi preso pela primeira vez. Mais tarde seria condenado a «desterro perpétuo» e trabalhos forçados numa charachka, ou seja, um instituto científico onde os investigadores trabalhavam sob vigilância. A pena terminou em 1953, com a chegada de Khrushchov ao poder. Toda a obra reflecte as experiências de privação de liberdade. Soljenítsin tinha nove livros publicados, e o Prémio Nobel da Literatura atribuído em 1970, quando O Arquipélago Gulag saiu dos prelos em Paris. Em Fevereiro de 1974, menos de dois meses passados sobre a sua publicação, foi preso, acusado de «traição à pátria», privado da cidadania russa e expulso do país. O volume inclui posfácio do autor, prefácio de Natália Soljenítsina, notas ao texto, glossário de abreviaturas e termos, bem como verbetes biográficos sucintos de pessoas citadas. Cinco estrelas. Publicou a Sextante.

Diário dos Imperfeitos, de João Morgado (n. 1965), foi novamente reeditado. Em 2012, quando chegou às livrarias, venceu o Prémio Literário Vergílio Ferreira, instituído pela Câmara Municipal de Gouveia (não confundir com o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, que é um prémio de consagração). A bibliografia do autor inclui romances, alguns dos quais de índole histórica; uma novela, contos, poesia e livros para a infância. Miguel Real considera-o «um Camilo Castelo Branco dos nossos tempos». Construído segundo o prisma das relações de poder, Diário dos Imperfeitos põe em pauta o tema mais antigo da humanidade, o amor: «Quando um casal discute, a cama fica para quem? Para quem domina a relação.» O que desencadeia a trama é um desastre: uma mulher perde o controlo do automóvel e capota depois de embater violentamente num semáforo. Sofre traumatismo craniano e entra em coma. Amnésia dissociativa como corolário. Numa linguagem próxima do showing, ou seja, reduzindo a distância entre o discurso do narrador e os factos narrados, João Morgado explora todos os cambiantes da alma humana. Foco central, a Gaivota, embora sejam muitas as personagens femininas, como Dorinda, Emília, Laura. Por vezes de forma desconcertante, este Diário dos Imperfeitos pretende transmitir várias dimensões do real. «Esquece o cono da mulher… é apenas um aeroporto. Podemos aterrar mil vezes num aeroporto e não conhecer o país, como podemos entrar mil vezes numa mulher e não a conhecer.» La Palisse não concluiria melhor, mas concatenar vagina com aeroporto parece-me uma novidade absoluta, mesmo na peculiar genealogia narrativa em que se insere. É muito vasto o espectro de temas dissecados: enamoramento, desejo, medo, insanidade, casamento, nojo, etc. A cada núcleo corresponde uma das três partes do romance. Embora saiba que «a metáfora é o princípio omnipresente da linguagem» (Richards, 1967), diria que certas imagens, ilustrando aquilo que muitos designam por escrita poética, fragiliza o livro. Três exemplos: «ópio de fêmea», «mãos de bolacha», «bebendo-lhe a pele». O recorte conotativo nem sempre é a melhor alternativa. Pelo contrário, não confundir prosa contaminada pela poesia com escrita poética é meio caminho andado para um bom resultado. Duas estrelas. Publicou a Casa das Letras.

Está em curso de reedição a obra de Fernando Namora (1919-1989), um dos autores portugueses mais traduzidos de sempre. O Rio Triste, o último romance, chegou agora às livrarias. Depois dele publicaria uma colectânea de poesia, outra de crónicas de viagem à URSS, e três volumes da série Cadernos de um Escritor. Por oposição ao ciclo rural que caracteriza a obra publicada até 1950 (médico de profissão, veio nesse ano para Lisboa exercer no Instituto Português de Oncologia), O Rio Triste é um bom exemplo do ciclo urbano. Com acção centrada na Lisboa de 1965, põe em pauta os temas da época: repressão política, emigração, guerra colonial, o Império a colapsar: «Há colonos que, suceda o que suceder, ninguém os arrancará vivos da sua casa ou da sua fazenda.» O epílogo dá um salto ao pós-revolução: «O Castel-Branco bufou de não ter sido convidado, julgava-se com candeia acesa no todo-poderoso MFA.» Bem esgalhada, a arquitectura romanesca inclui narrador omnisciente, excertos de cartas, páginas de um diário, notícias de jornal, exegese genológica (o romance como «enxurrada de vida»), trama policial, etc. Roman à clef ou simples coincidência? Boa ocasião para reavaliar no seu conjunto uma obra alvo de não poucos equívocos. Quatro estrelas. Publicou a Caminho.

Não é fácil fazer uma síntese da obra do italiano Umberto Eco (1932-2016), escritor lato sensu, conhecido sobretudo como medievalista e semiólogo, notável ensaísta de teoria narrativa, estudioso da ‘cultura de massas’, capaz de prender o leitor com toda a sorte de assuntos, das peculiaridades semânticas de P. G. Wodehouse ao percurso das Brigadas Vermelhas. Intelectual interventivo, tomou sempre partido, fosse para denunciar o populismo de Berlusconi, a invasão do Iraque ou o flop das Primaveras árabes. Graças à sua capacidade de transpor para a ficção temas eruditos, os romances — em especial O Nome da Rosa —, alguns dos quais deram origem a filmes, fizeram dele uma figura planetária. É o que sucede com Baudolino, agora reeditado. A trama põe em cena figuras reais com personagens de ficção, na transição dos séculos XII e XIII. Mitómano e autodidacta, Baudolino, o rapaz de Frascheta que a sorte atirou para o vasto mundo, narra a história em flashback, da juventude em Paris, para onde foi estudar retórica com uma tença de Frederico I [o Barbarroxa] do Sacro Império Romano-Germânico, ao saque de Constantinopla. O desembaraço narrativo dá consistência à intriga. Quatro estrelas. Publicou a Gradiva.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

BANNON OUT

Stephen Bannon, 63 anos, militante da ala direita do Partido Republicano, deixou de ser membro permanente do Conselho de Segurança Nacional. O almirante Michael S. Rogers, director do Conselho, bem como os chefes de Estado-Maior, recuperam a influência perdida desde a posse de Trump. Quem terá manobrado nos bastidores para que assim fosse foi o tenente-general H.R. McMaster. A realidade tem muita força.

ARQUIVADO

Lembram-se do Banco Português de Negócios, vulgo BPN, que implodiu no dia 2 de Novembro de 2008? Contas por baixo, nove mil milhões de euros pelo cano. O BPN foi nacionalizado nessa semana pelo Governo de Sócrates. E vendido em Março de 2012 pelo Governo de Passos Coelho (era Vítor Gaspar ministro das Finanças), ao angolano BIC. Vendido pelo preço de um T1 em Massamá. O Ministério Público abriu inquérito. A vox populi trouxe Dias Loureiro para o tablado, obrigando o antigo dirigente do PSD a demitir-se do Conselho de Estado. José de Oliveira Costa foi preso. A opinião pública ficou a saber que Cavaco Silva fora accionista da Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN, tendo obtido ganho de 147 mil euros em acções.

Aqui chegados, soube-se agora: o Ministério Público arquivou o processo contra Dias Loureiro e José de Oliveira Costa por não ter sido possível identificar, «de forma conclusiva, todos os factos suscetíveis de integrar os crimes imputados aos arguidos», mesmo depois da analisar toda a «informação bancária relativa às operações e aos sujeitos intervenientes». Dias Loureiro mostrou-se indignado: «Estou estarrecido. É um arquivamento com insinuações». Pois.

sexta-feira, 31 de março de 2017

TAXAS & TAXINHAS

Lembram-se da histeria do PSD quando a Câmara de Lisboa, a exemplo do que acontece em todas as cidades civilizadas, introduziu a taxa turística em Lisboa? Estão recordados da cena patética de Pires de Lima no Parlamento? Pois bem, agora é o PSD, pela voz de José Eduardo Martins, coordenador do programa autárquico do partido e candidato à Assembleia Municipal, quem propõe o aumento dessa taxa de 1 para 1,5 euros. Em conformidade, Teresa Leal Coelho irá defender esse aumento.

quinta-feira, 30 de março de 2017

JÚLIA NERY


Hoje na Sábado escrevo sobre Ei-los que partem, o novo livro de Júlia Nery (n. 1939), apresentado na capa como sendo o romance da nova emigração portuguesa, embora omita qualquer tipo de razão política. Portanto, nada de desemprego por força do colapso da economia ou do catecismo da Troika. A epígrafe de Ferreira de Castro diz tudo: «Todas as gerações nasciam já com aquela aspiração…» Lília, bióloga, parte porque tem um sonho: tornar a água potável acessível a todos os povos. Nuno, homossexual enrustido, vai-se embora para sair do armário em Notting Hill. Marta para escapar à petite vie. Os outros, auto-designados desenrascas (casos de Valter, Ilse, Paulo, Madalena), partem porque se consideram membros de uma elite sem acesso ao patamar social conforme às suas ambições. Une-os uma amizade de muitos anos. Tiago, o astrofísico que Lília trouxe da Califórnia e acrescentou ao grupo, faz parte de outra galáxia. É no casamento de Ilse com Valter, em Unterreichenbach, na Alemanha, que todos se reencontram, ficando a conhecer Albert, o namorado de Nuno (a revelação da sua identidade sexual é uma surpresa). Marta também veio de Londres, enturmando-se rapidamente com um casal de lésbicas de Unterreichenbach. Paulo e Madalena vieram de Luanda, mas primeiro deixaram o filho em França num curso para estrangeiros. Lília não contou a Ilse que em tempos fora abusada por Valter. Lembram-se do filme de Lawrence Kasdan, Os Amigos de Alex, sobre o reencontro de amigos para um funeral? Aqui, em vez de funeral, é casamento. Ei-los que partem é uma história da diáspora com diáspora dentro. Paulo nasceu em Luanda, de onde a família teve de fugir em 1975, era ele criança, tendo voltado agora como gestor financeiro. São muitas as memórias da descolonização de Angola. Episódios violentos, como os que envolveram a família de Ilse e, em concreto, a sua gestação. Subitamente, tudo rui: Ilse sofre com a personalidade bipolar de Valter; Paulo troca Madalena por uma amante angolana; a promiscuidade de Albert faz da vida de Nuno um inferno; Tiago morre num desastre de avião. Por fim, Ilse, Valter e Madalena voltam para Portugal, Marta impõe-se como artista e Nuno arranja um novo namorado. Lília não desiste de salvar o mundo. Três estrelas. Publicou a Sextante.

quarta-feira, 29 de março de 2017

A CARTA


Tusk colocou no Twitter a foto do momento em que Sir Tim Barrow lhe entregou a carta do Brexit. E o Guardian divulgou o seu conteúdo. Fica aqui a imagem da primeira página. Clique para ler melhor.

DONE


Eram 16:30 de ontem quando Theresa May assinou em Downing Street a carta que será hoje entregue a Donald Tusk, presidente do Conselho europeu, formalizando a saída do Reino Unido da UE. Merkel, Tusk e Juncker foram previamente informados do seu conteúdo. Sir Tim Barrow, embaixador britânico em Bruxelas, entregará a carta no preciso momento (12:30 de hoje) em que a primeira-ministra britânica fará um curto statement na Câmara dos Comuns.

Clique na imagem do Guardian para ver melhor.

terça-feira, 28 de março de 2017

O SICOFANTA

Depois dos socialistas europeus, os eurodeputados dos partidos filiados no PPE (como por exemplo o PSD e o CDS) subscreveram uma carta enviada hoje a Dijsselbloem, exigindo um pedido formal de desculpas e a sua imediata demissão do cargo de presidente do Eurogrupo. E fizeram questão de assinar a carta num acto público, no Parlamento Europeu.

MR KHAN EM BRUXELAS

Antecipando-se aos atritos que se adivinham, Sadiq Khan, mayor de Londres, está hoje em Bruxelas a sensibilizar a Comissão e o Conselho para o futuro dos 3,3 milhões de cidadãos de países da UE que vivem no Reino Unido, e dos britânicos (1,2 milhões) que vivem em países da UE. A preocupação de Sadiq Khan faz todo o sentido. Afinal, Londres é uma realidade autónoma do conjunto do Reino Unido, precisando como nenhuma outra de uma política de imigração flexível, apesar do Brexit.

Amanhã, Theresa May acciona o Artigo 50 com uma breve declaração no Parlamento, ao mesmo tempo que um documento de sete páginas será entregue a Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu. As negociações formais, que devem durar 18 meses, começam em meados de Maio, depois da eleição presidencial francesa.

segunda-feira, 27 de março de 2017

TURQUIA VS GRÉCIA

Se calhar sou eu que ando distraído, mas ainda não vi os media nacionais referirem a escalada de tensão entre a Turquia e a Grécia. O clima azedou com a decisão do Supremo Tribunal grego de rejeitar a extradição de oito oficiais turcos que desertaram para a Grécia na sequência do golpe contra Erdogan. A Turquia voltou a suscitar a questão das ilhas ‘ocupadas’ (em 1996, pelo mesmo motivo, os dois países estiveram à beira de um conflito de grandes proporções), tendo nos últimos dias destacado para o Egeu vários navios de guerra, enquanto aviões sobrevoam diariamente o espaço aéreo grego. O ministro grego da Defesa já declarou: «As forças armadas gregas estão prontas para responder a qualquer provocação.» Chipre pode ser o detonador.

domingo, 26 de março de 2017

SAMPAIO


Num país em que tudo é um jogo de sombras, não me espanta o ‘incómodo’ que tem causado a revelação pública de excertos do segundo volume da biografia de Jorge Sampaio, da autoria do jornalista José Pedro Castanheira. Santana Lopes é o rosto visível dessa incomodidade, tendo chegado ao extremo de desafiar o antigo Presidente para um debate na televisão. Mas Santana tem o mérito de dizer em voz alta o que os outros apenas murmuram. A biografia é excelente: mais de duas mil páginas (1060 + 1063) e centenas de fotografias. O 1.º volume, publicado em 2012, termina com a declaração de Sampaio — Sou o candidato à Câmara Municipal de Lisboa — que em Julho de 1989 deixou o país, e o próprio PS, em transe. O 2.º volume, agora publicado, arranca com a campanha em que defrontou e venceu Marcelo Rebelo de Sousa na autarquia (1990-95), terminando com o fim dos dois mandatos de Presidente da República (1996-2006). José Pedro Castanheira entrevistou cerca de duzentas personalidades e teve acesso ao arquivo pessoal de Sampaio. Não é uma obra hagiográfica. É uma biografia como deve ser: fontes creditadas, notas de contexto, correspondência, índice remissivo, iconografia de vária proveniência, citações, etc. O busílis está nas citações, porque Sampaio, homem de formação anglo-saxónica, não se coibiu de lembrar o que fulano e beltrano (a nata da nata da política portuguesa) disseram em determinadas ocasiões, sobre este e aquele. Mas é assim que se faz a História.

LÚCIA E O COCHICHO

No seu livro mais recente, Amália, uma biografia da cantora que chega às livrarias nos primeiros dias de Abril, Fernando Dacosta faz algumas revelações curiosas. Por exemplo: «Salazar receava vê-la passar-se para a oposição. Amália enfrentou Pinochet recusando uma recepção com que o ditador pretendia cumpliciá-la. Guerrilheiros palestinianos cancelaram um atentado em Beirute porque ela actuava na cidade. A Irmã Lúcia escreveu-lhe a pedir para não cantar O Cochicho da Menina.» Mas como é que a Irmã Lúcia conhecia O Cochicho da Menina? Será o terceiro segredo de Fátima?

quinta-feira, 23 de março de 2017

RUY CASTRO


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição de Carnaval no Fogo, de Ruy Castro (n. 1948). Um acontecimento. O homem que escreveu a história da Bossa Nova, o biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, podia não ter escrito mais nada, porque as duzentas páginas em que nos “explica” o Rio de Janeiro chegam e sobram para fixar o seu nome. Publicado em 2003, Carnaval no Fogo resume a biografia da cidade desde 1555, ano em que o vice-almirante Villegagnon desembarcou na ilha de Serigipe com o propósito de estabelecer uma França Antártica na região da baía da Guanabara (a ocupação durou dez anos). Em 1565, Estácio de Sá correu com os franceses e fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, «em homenagem ao rei de Portugal e ao santo crivado de flechas». Os portugueses ficaram mas persistiu o apetite francês. No século XIX, a imigração francesa deixou marca: «Depois de Paris [o Rio] é a cidade que mais tem estatuária francesa no mundo.» Sabia? O autor não se atém à cronologia histórica. A exemplo do que faz com Ela é Carioca (1999), uma enciclopédia de Ipanema, também aqui nos dá a conhecer usos e costumes; a música popular; a arquitectura (igrejas barrocas, edifícios coloniais, art déco e modernistas, mais os «estrupícios pós-modernos»); a cultura da negritude; o boom dos anos 1930, quando foram construídos os bairros da Glória, do Flamengo, da Urca e de Copacabana; a decisão de arrasar quinhentas casas e três igrejas tricentenárias para rasgar a Avenida Presidente Vargas; personalidades como Chiquinha Gonzaga (a maestrina anti-esclavagista), Nair de Teffé (a caricaturista que casou com o marechal-presidente Hermes da Fonseca) ou Oscar Niemeyer, que em 1941 viu chumbado o seu projecto para o estádio do Maracanã; a demolição do Palácio Monroe por imposição da ditadura militar; o Jardim Botânico, que desde 1808 conserva milhares de espécies vegetais e centenas de espécies de aves; o delírio do visconde de Courcy, que em 1886 propôs implodir o morro do Pão de Açúcar para ventilar o centro da cidade e, como não podia deixar de ser, o Carnaval. Entre reconstituição histórica e crónica, tudo isto compõe um patchwork de leitura compulsiva. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

quarta-feira, 22 de março de 2017

ATENTADO EM LONDRES


Um homem esfaqueou um polícia ao tentar entrar no Parlamento britânico, enquanto, ali a dois passos, na ponte de Westminster, um atropelamento em massa fez um morto e dezenas de feridos. Um polícia morreu. Dois atacantes foram capturados. O Parlamento foi encerrado.

Clique na imagem do Telegraph.

TRUMP & MAY, PARA JÁ


Anteontem foi Trump. Passageiros oriundos ou com destino a treze países não podem transportar computadores portáteis e tablets (vulgo iPads) na cabine do avião. A medida é taxativa para nove companhias de aviação, entre elas a Qatar Airways e a Emirates Airlines, mas, informalmente, foi sugerida a outras. Todos os instrumentos electrónicos de tamanho superior a um vulgar smartphone têm de ir no porão.

Ontem foi Theresa May. No tocante ao número de países, o Reino Unido desceu de treze para seis, mas as companhias visadas são catorze (em vez de nove), sendo britânicas seis: British Airways, EasyJet, Jet2, Monarch, Thomas Cook e Thomson.

A França e o Canadá estudam o assunto para adoptarem medidas equivalentes. É o mundo em que vivemos.

Clique na imagem do Guardian.

COPOS & PUTAS

Sob o efeito da estrondosa derrota do seu partido, o PvdA, ou Partij van de Arbeid (os trabalhistas), que passou de 38 para 9 deputados, o senhor Jeroen Dijsselbloem desatinou. Nele, não admira. Um ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo que atesta no currículo ter um mestrado que nunca fez, é capaz de tudo. Dizer à criatura que, se os povos do Sul gastam tudo em copos e mulheres, é para contrariar os do Norte, que gastam tudo em mefedrona e rapazes.

segunda-feira, 20 de março de 2017

BREXIT


É oficial: Theresa May vai accionar o Artigo 50 no próximo dia 29. Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, já notificou que, em 48 horas, Bruxelas poderá dar início às negociações do Brexit.

A imagem é do Guardian. Clique.

domingo, 19 de março de 2017

GRAÇA MORAIS


Graça Morais tem neste momento uma exposição na Fundação Champalimaud, em Lisboa. O quadro ao alto chama-se 27 Jan 2017, data em foi concluído e coincide com a ordem executiva anti-imigração que Trump tentou impor como Lei. Fica o registo. Graça Morais é uma grande artista, e o facto de não andar ao colo da crítica enfatiza essa realidade.

A imagem é do site da TimeOut. Clique para ver melhor.

sábado, 18 de março de 2017

DEREK WALCOTT 1930-2017


Morreu ontem Derek Walcott, poeta, dramaturgo e ensaísta caribenho, Prémio Nobel da Literatura em 1992. Quanto sei, nenhum livro seu está traduzido em Portugal. O legado colonial e a questão identitária são centrais à sua obra. Em 2009, um pacote anónimo com páginas fotocopiadas de um livro onde é acusado de assédio sexual em Harvard, frustrou a candidatura ao lugar de professor de poesia em Oxford. Morreu em Santa Lúcia, onde nasceu. Tinha 87 anos.

PORQUÊ?

Sou capaz de perceber o ódio que muitos magistrados e professores do ensino básico e secundário votam a Sócrates. A redução das férias judiciais e o sistema de avaliação de docentes explicam a fronda corporativa. Mas o justicialismo militante de grande parte da comunidade jornalística é para mim um mistério. Não estou a falar de estagiários, nem de opinadores avençados. Estou a falar de titulares de carteira profissional que em vez de pensarem pela sua cabeça preferem ser capachos do Ministério Público. É de facto muito estranho.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A CULPA É DO VIZINHO


Pensava que já tinha visto tudo?
Clique na imagem é do Diário de Notícias.

A VIDA COMO ELA É


Clique na imagem do Expresso.

FRANÇA


Sondagem do Monde, hoje.
Clique na imagem para ver melhor.

quinta-feira, 16 de março de 2017

MARGARET ATWOOD


Hoje na Sábado escrevo sobre O Coração é o Último a Morrer, o penúltimo romance de Margaret Atwood (n. 1939), autora que volta a esticar os limites da distopia. Dentro de trinta anos saberemos se ela foi o Jules Verne da transição do século XX para o XXI. Verne publicou nos anos 1860-70 diversas obras de antecipação que preencheram o imaginário de várias gerações. Margaret Atwood investe menos na vertente científica, pondo o acento tónico na mutação civilizacional que tem sido o traço distintivo das últimas décadas: fundamentalismo religioso vs laicismo, totalitarismo vs normas constitucionais, xenofobia vs dissolução de fronteiras, e assim por diante. Quem, tendo lido Órix e Crex (2003) ou O Ano do Dilúvio (2009), tem presente as tramas respectivas, sabe que o colapso da civilização tal como a conhecemos é o foco central da obra da autora. Isto é válido para as questões ambientais e, de forma correlata, para o autoritarismo. Pode parecer-nos absurdo o que acontece com Charmaine e Stan, personagens de O Coração é o Último a Morrer. A questão é: até quando? Até quando isto não rompe o formato de um romance distópico? Charmaine e Stan, vítimas dos Mercados, foram descartados. Ela trabalhava num lar para idosos, ele numa empresa de robótica. O crash deu cabo de tudo, «todo o sistema ruíra», o dinheiro foi pelo cano, mentiras e fraudes fizeram lei: «Na televisão, hordas de peritos de meia-tigela tentavam explicar por que razão aquilo acontecera […] mas tudo isso não passava de suposições da treta.» Agora dormem no carro, um Honda em terceira mão. Servir à mesa, como Charmaine fez durante uma temporada, ou permanecer desempregado por excesso de habilitações, como sucedeu com Stan, não permite alternativa. E depois temos Consiliência, a cidade onde está localizado o Projecto Positrão. Charmaine e Stan tiveram sorte em ser admitidos. Regras simples: mês sim, mês não, cedem a sua liberdade (indo para uma cela de prisão) a troco de uma casa. Não é o romance que inquieta. É o grau de premonição. Quatro estrelas. Publicou a Bertrand.

DOR DE CABEÇA EM HAIA


Elegendo 33 deputados, o partido liberal VVD, de Mark Rutte, primeiro-ministro desde 2010, ficou em primeiro lugar. Mas o PVV, de Geert Wilders, líder da extrema-direita holandesa, ficou em segundo, com 20 deputados. Depois há dois partidos com 19 deputados cada um: os cristãos-democratas do CDA e os anarquistas radical-chic do D66. Como a soma do VVD com o CDA e o D66 não atinge os 76 deputados necessários para a maioria absoluta, Rutte tem duas hipóteses: ou se coliga novamente com os trabalhistas do PvdA (nove deputados), ou com os ecologistas do GL (catorze deputados). Ter no Parlamento 20 racistas assumidos  não é pêra doce, mas podia ter sido pior.

Clique no gráfico do Telegraaf.

quarta-feira, 15 de março de 2017

AKRASIA


Parece uma anedota de mau gosto? Não é.
Clique na imagem é do Expresso.

EM QUE FICAMOS?

Como surgiu o 17 de Março? Contra mim falo, mas sempre supus que Joana Marques Vidal, no despacho de prorrogação de prazo do inquérito a Sócrates, tivesse escrito... até 17 de Março. Afinal não. O que a Procuradora-Geral da República estabeleceu foi um prazo de 180 dias. Ora os 180 dias terminaram à meia-noite de segunda-feira, 13 de Março. Os advogados do antigo primeiro-ministro já requereram à PGR notificação «do despacho de enceramento do inquérito», porque os actos praticados depois do dia 13 são ilegais.

O que me espanta é que, até ao momento, que se saiba, nenhum jornalista tenha ido à PGR perguntar como é. Provavelmente nem se deram ao trabalho de contar pelos dedos.

NEXIT?

Hoje é dia de eleições gerais na Holanda. Concorrem 28 partidos. Por tradição, 14 conseguem eleger deputados. As últimas sondagens dão empate técnico entre o VVD, ou Volkspartij voor Vrijheid en Democratie, de Mark Rutte, primeiro-ministro desde 2010, e o PVV, ou Partij voor de Vrijheid, de Geert Wilders, líder da extrema-direita.

Rutte tem 50 anos, é solteiro e liberal. Wilders, dissidente do VVD, 53 anos, casado, assumidamente xenófobo e anti-imigração, tenciona propor um referendo para a saída da UE.

Nos últimos cem anos, todos os governos holandeses foram de coligação. E nem sempre o primeiro-ministro sai do partido mais votado. Portanto, a menos que o PVV consiga eleger os 76 deputados necessários para a maioria absoluta, Wilders dificilmente será PM. Mas é evidente que uma votação muito expressiva no seu partido influenciará a condução da política holandesa, qualquer que seja o perfil do governo que venha a ser empossado. Estima-se que o PVV (Wilders) eleja 26 deputados, contra 28 do VVD (Rutte). A ver vamos.

terça-feira, 14 de março de 2017

TURQUIA VS UE

A Turquia não autoriza o regresso a Ankara do embaixador da Holanda. Ausente do país, o embaixador preparava-se para regressar ao seu posto. «Não fomos nós que criámos esta crise», disse Numan Kurtulmus, vice-primeiro-ministro e porta-voz do Governo turco.

segunda-feira, 13 de março de 2017

BREXIT EM FORÇA

Esta noite, a Câmara dos Comuns chumbou os diplomas da Câmara dos Lordes sobre o Brexit. Por 335 votos contra 287, foi rejeitada a protecção dos direitos dos imigrantes (incluindo os da UE) residentes no Reino Unido. Por 274 votos contra 135, foi rejeitada a exigência de votação parlamentar no fim das negociações. Theresa May ficou com as mãos livres para fazer o que quiser.

O FOLHETIM

O Ministério Público desistiu de meter Vale de Lobo no pacote de acusações a Sócrates. Inexistência de provas sustentáveis, esclarece Judite de Sousa. Aliás, nem provas nem... agarrem-se, indícios! Nada. Como o antigo primeiro-ministro ainda estava a ser interrogado quando a TVI deu a notícia, pode-se conjecturar tudo. O facto do prazo ir derrapar (a deadline era a próxima sexta-feira, dia 17) não é novidade, mas Judite sublinha que os prazos são meramente indicativos. Portanto, mais um mesito, na melhor das hipóteses. Razão tinha o Presidente da República quando, hoje de manhã, na sessão de abertura da conferência “Justiça igual para todos”, promovida pela Associação 25 de Abril e realizada na Gulbenkian, se manifestou desconfortável com o estado da Justiça. E disse-o com ar sisudo, coisa rara nele.

domingo, 12 de março de 2017

NAPALM

Lembram-se da tirada famosa de Robert Duvall, martelada ao som da Cavalgada das Valquírias, de Wagner? Esta: «Adoro o cheiro de napalm logo pela manhã.» É a frase mais citada de Apocalypse Now, o filme de Coppola. Aplica-se com propriedade à situação actual na Europa. O que está a passar-se entre a Holanda e a Turquia é de uma gravidade extrema. Na prática, os dois países estão com as relações diplomáticas cortadas: embaixadas encerradas em Haia e Ankara, consulados encerrados em Roterdão e Istambul. Um ministro turco impedido de desembarcar em Amesterdão, uma ministra turca impedida de entrar no consulado do seu próprio país, detida e expulsa de Roterdão. Comícios de apoio ao referendo de Erdogan, cancelados e proibidos na Holanda. Motins de rua desde ontem à noite. Erdogan ameaça proibir o acesso de companhias aéreas holandesas à Turquia. É muita coisa junta.

Na Alemanha, a situação mantém-se dentro de limites razoáveis. Foram autorizados trinta comícios, mas Merkel foi ao Bundestag dizer que não admitia comparações com o regime nazi. Os holandeses, que também não gostaram de ouvir Erdogan dizer que eles têm mentalidade e actuam em função de reminiscências nazis, estão a esticar a corda, até porque no próximo dia 15 há eleições gerais.

ESCALADA


Aumenta a tensão entre a Holanda e a Turquia. A embaixada holandesa em Ankara foi encerrada pelas autoridades turcas, bem como o consulado em Istambul. O ministério turco dos Negócios Estrangeiros aconselhou o embaixador holandês a meter férias longas. Entretanto, Fatma Betül Sayan Kaya, ministra turca dos Assuntos Familiares, foi mesmo expulsa da Holanda. Ahmed Aboutaleb, o presidente da Câmara de Roterdão, foi claro: «Ela foi expulsa para o país de onde veio.» Lembrar que Ahmed Aboutaleb, muçulmano, é um imigrante marroquino com dupla nacionalidade. No Twitter, a governante publicou o statement que a imagem mostra. A violência prossegue nas ruas.

Clique na imagem.

TURNING POINT

A Holanda impediu Mevlüt Cavusoglu, ministro turco dos Negócios Estrangeiros, de entrar no país. Cavusoglu ia participar num comício de apoio ao referendo que aumenta os poderes de Erdogan. Em seu lugar foi Fatma Betül Sayan Kaya, ministra turca dos Assuntos Familiares, que fez a viagem de carro a partir da Alemanha. Mas o presidente da Câmara de Roterdão, Ahmed Aboutaleb (marroquino, muçulmano, imigrante com dupla nacionalidade), mandou bloquear todos os acessos ao centro da cidade e a ministra foi impedida de chegar ao consulado turco. A embaixada da Turquia em Haia, bem como o consulado em Roterdão, foram encerrados. A ministra vai ser deportada. Esta noite, milhares de manifestantes da comunidade turca enfrentaram (e tudo indica que o motim prossiga) a polícia holandesa em vários pontos da cidade. Depois dos incidentes na Alemanha, onde vivem três milhões de turcos, chegou a vez da Holanda desafiar Erdogan. Isto não augura nada de bom.

sábado, 11 de março de 2017

QUEM DIRIA


Estas manchetes não são do AVANTE. São do Observador e do Negócios. Clique nelas.

ACUSAÇÃO NA RUA

A poucos dias do prazo anunciado pelo MP, dois jornais, o Correio da Manhã e o Expresso, antecipam hoje o teor da acusação contra Sócrates. Corrupção, dizem eles. Apenas diferem nos montantes: o CM fala de 32,8 milhões de euros, enquanto o jornal de Pinto Balsemão fica por 23 milhões. Nos dois casos, as notícias estão detalhadas ao cêntimo. Comentários para quê?

sexta-feira, 10 de março de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 55,5%. A diferença entre o PS e o PSD é agora de 9,5 pontos. E, mesmo sozinho, o PS continua a ultrapassar a PAF. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 9 de março de 2017

DULCE GARCIA


Hoje na Sábado escrevo sobre Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum, o primeiro romance de Dulce Garcia. O livro confirma o óbvio: nos últimos vinte anos, a melhor ficção portuguesa tem sido escrita por mulheres. Nada a ver com “escrita no feminino”. Falo de literatura escrita por mulheres. O fôlego narrativo de Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum faz subir a fasquia dessa evidência. Mérito não despiciendo, a autora tem um invejável desembaraço vocabular. Terreno movediço: Isabel é uma mulher à deriva na zona de fronteira entre a loucura e o senso comum. Protagonista e co-narradora (o romance é contado a duas vozes), Isabel, «a mulher do saco», acampa no aeroporto. É ali que passa a sua vida em revista. À luz crua dos flashbacks, os dela e os de Afonso, amante com estatuto de narrador, aquele que lhe roubou «uma existência arrumadinha para [a] lançar na mais atroz das solidões», conhecemos os porquês, o meio em que cresceu, o espaço em que se move, o perfil violento do pai, a mãe acomodada, suicidados de passagem (Virginia Woolf, Stig Dagerman, Sylvia Plath), crianças apanhadas pelo fogo cruzado dos pais, o irmão Quim atirado «para baixo de um camião» com apenas 35 anos, enfim livre dos fantasmas que o assombravam, paixões itinerantes, mentiras, ciladas, ataques de pânico, o dia em que Isabel resolveu separar-se do marido: «O Luís Miguel reagiu calmamente à notícia da nossa separação. […] Fomos para casa em silêncio. Despi-me, deitei-me. Chorei. E depois adormeci. Acordei com ele a masturbar-se.» É muita coisa junta, o plot não é linear, nem amável, mas a vida também não. Podia ser uma história como tantas. O que a resgata do lugar-comum, o que faz daquele obsessivo triângulo amoroso um pormaior, é o retrato em grande angular de uma mulher entregue a si própria, indiferente a regras e convenções. Prosa seca, isenta de autocomplacência ou qualquer tipo de floreados: «querido, estás a maçar-me, sai de cima de mim». Por mim dispensaria os inserts sobre a hyperthymesia, a síndrome de Riley-Day ou o DIU (e outros como estes), mas não serão as fontes de autoridade a beliscar o prazer do texto. Cinco estrelas. Publicou a Guerra & Paz.

terça-feira, 7 de março de 2017

ORA BEM


A Associação 25 de Abril, presidida por Vasco Lourenço, repudiou em comunicado a decisão da FCSH de cancelar a conferência de Jaime Nogueira Pinto, tendo disponibilizado as suas instalações para a realização da conferência, se e quando o orador entender. A imagem é do Expresso. Clique.

UE DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA


Reunidos em Versailles, Hollande, Merkel, Gentiloni e Rajoy, ou seja, os representantes das quatro maiores economias da UE, foram unânimes: a UE deve continuar, porém a velocidades diferentes. Se não for assim, implode. O statement dá o mote à cimeira do próximo dia 25, data em que se comemora o 60.º aniversário do Tratado de Roma. Resta saber o que, em termos práticos, significa esta «préfiguration de l’Europe à plusieurs vitesses...» Um euro de 1.ª e um euro de 2.ª, com paridades diferentes face ao dólar americano? É isso? O documento final é claro: «L’unité n’est pas l’uniformité.» Preparados para descer à segunda divisão?

Foto: Le Monde. Clique nela.

DISCURSO DIRECTO, 45

Ferreira Fernandes, hoje no Diário de Notícias. Excerto, sublinhado meu:

«Jaime Nogueira Pinto deveria falar esta tarde, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, sobre ‘Populismo ou democracia: o brexit, Trump e Le Pen’. [...] A direção da faculdade cancelou a intervenção por exigência da associação de estudantes. E eis o ponto da situação: na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas a democracia cedeu ao populismo. Ora, o brexit e Trump já aconteceram e Le Pen pode vir a acontecer — e, já agora, na minha opinião, todos errados — porque os três souberam conquistar com conversa a aprovação da maioria. Não deveriam os estudantes, por definição gente que anda a aprender, ouvir os argumentos dos adversários para saber como os combater? Este episódio trouxe-me à memória outro, muito invocado recentemente na morte de Mário Soares, porque este o referira em entrevista. Quando se exilou em França, em 1970, Soares foi convidado a dar aulas na Universidade de Vincennes. Durante semanas, não conseguiu falar porque os estudantes achavam-no um mole social-democrata. Não estou a comparar Soares com Nogueira Pinto, não é relevante para aqui, tomo nota é da semelhança dos censores

segunda-feira, 6 de março de 2017

ONDE ANDAM OS CHARLIES?

Foi cancelada uma conferência de Jaime Nogueira Pinto marcada para amanhã à tarde na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Motivo: um grupo de alunos não gosta do orador e considera o tema — Populismo ou Democracia? O Brexit, Trump e Le Pen em debate — fascista. Abstenho-me de qualificar. Fico é curioso de saber onde andam os Charlies, os tais da liberdade de expressão sem limites e a qualquer custo.

A direcção da FCSH lamenta o sucedido e pretende convidar Nogueira Pinto para um evento «mais académico». Mais académico? E este era o quê? Desportivo?

quinta-feira, 2 de março de 2017

OCTAVIO PAZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Vislumbres da Índia, do mexicano Octavio Paz (1914-1998). Não é novidade para ninguém que o autor é um dos mais notáveis poetas do século XX. Como ensaísta é menos conhecido entre nós, mas acaba de ser reeditado o último livro que publicou, Vislumbres da Índia, que está longe de ser um livro de viagens tout court. Trata-se de um ensaio sobre o país onde exerceu funções diplomáticas nos anos 1950, e de novo a partir de 1962, então já como embaixador. Apoiado numa experiência de muitos anos, Paz reflecte sobre a diversidade da Índia, nos mais variados temas: o denominador comum da língua inglesa, política, sistema de castas, arquitectura, cultura (artes plásticas, poesia, música, filosofia), gastronomia e religiões, em particular a hindu e a islâmica. É evidente que o livro inclui descrições do quotidiano de Bombaim e Deli, bem como referências a viagens ao Afeganistão e outros países, sem esquecer a guerra sino-indiana de 1962, mas o foco central tem índole diferente. Paz detém-se com minúcia no legado colonial britânico («A Índia moderna é inexplicável sem a influência da cultura inglesa…»), por oposição à colonização hispânica do México. Com admirável poder de síntese, traça um quadro nítido da evolução do país, desde os anos mais duros da ocupação, até aos massacres de 1947 (entre muçulmanos e hindus) que deram origem a meio milhão de mortos e à fractura em Paquistão e Índia. Seguindo um raciocínio claro, o autor introduz o leitor na teia das complexas relações de poder: secularismo do Estado, o exército como «defensor da ordem e da Constituição» (ao arrepio da tradição latino-americana de indutor de desordens civis), a máquina bem oleada do Civil Service, o papel determinante do Partido do Congresso, os perfis de Gandhi e Nehru, islão vs hinduísmo, hábitos e costumes, etc. Em suma, um verdadeiro companion do que foi a Índia até à primeira metade dos anos 1990. O desencontro de Gandhi e Rabindranath Tagore surge ilustrado pela prática da queima de roupa e outros produtos importados. Ao ideólogo do Satyagraha (não-violência), adversário de tudo o que fosse estrangeiro, Tagore opôs: «Prefiro dar essas roupas aos que andam nus.» Como este, outros episódios aparentemente prosaicos pontuam o livro. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

COLAPSO ANUNCIADO

No primeiro capítulo do programa sobre o colapso do BES, que a SIC começou ontem a transmitir, fica estabelecido que o Banco de Portugal tinha em seu poder, desde 8 de Novembro de 2013, todas as informações que conduziram, oito meses mais tarde, ao afastamento (verificado em 13 de Julho de 2014) de Ricardo Salgado da presidência do BES. Três semanas depois, a 3 de Agosto, um domingo, ocorreu a cisão entre BES e Novo Banco. O que significa todas as informações...? Significa um minucioso dossier que põe em causa a idoneidade do presidente e mais três administradores do BES, ou seja, Ricardo Salgado, Amílcar Morais Pires, José Maria Ricciardi e Paulo José Lameiras Martins. Isto no dia 8 de Novembro de 2013. Mas Salgado só saiu oito meses depois. Entretanto, num comunicado difundido horas depois do programa, o BdP esclarece que «a informação existente à data [Novembro de 2013] tinha que ser devidamente verificada e confirmada.» Pronto. Levou oito meses a verificar. Pelo meio, mais exactamente em Maio de 2014, houve uma subscrição pública para aumento de capital. O Presidente da República e o primeiro-ministro vieram à televisão dizer que não havia nada mais sólido e sério do que o BES.

quarta-feira, 1 de março de 2017

BREXIT & IMIGRANTES

Por 358 votos contra 256, a Câmara dos Lordes aprovou um pedido de emenda à vontade da primeira-ministra britânica. Theresa May tem repetido que os três milhões de imigrantes da UE residentes no Reino Unido vão manter os direitos actuais (residência, autorização de trabalho, saúde, apoios sociais), mas isso não está escrito no diploma do Governo sobre o Brexit. E os lordes querem a garantia em letra de forma. A ver vamos como reage a Câmara dos Comuns, para onde o diploma voltou. Os tories não estão com vontade de mexer no texto original: Somos pessoas sérias! Dito de outro modo: a garantia está dada, não há que a pôr por escrito.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

ÓSCARES


Depois da trapalhada que foi a troca de envelopes no momento de anunciar o melhor filme do ano, gaffe que implicou subida ao palco da equipa errada, os principais vencedores foram:

Moonlight, melhor filme do ano
Damien Chazelle, melhor director, La La Land
Casey Affleck, melhor actor principal, Manchester by the Sea
Emma Stone, melhor actriz principal, La La Land
Mahershala Ali, melhor actor coadjuvante, Moonlight
Viola Davis, melhor actriz coadjuvante, Fences
Melhor argumento original, Manchester by the Sea
Melhor argumento adaptado, Moonlight
Melhor filme estrangeiro, The Salesman (Irão), de Asghar Farhadi
Melhor documentário, OJ: Made in America, de Ezra Edelman

La La Land, que não vi nem tenciono ver, recebeu seis dos catorze óscares para que estava nomeado. De Moonlight vi os primeiros doze minutos. É impossível estar numa sala (Corte Inglês) com gente a falar como se estivesse no bazar e telemóveis a apitar. Pode ser que um dia, em casa.

Na imagem, da esquerda para a direita, Mahershala Ali, Emma Stone, Viola Davis e Casey Affleck. Clique para ver melhor.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

CAIS DO SODRÉ 2017


O Cais do Sodré actual. E ainda há quem barafuste com as obras na cidade.
Clique na imagem para ver melhor.

DISCURSO DIRECTO, 44

José Pacheco Pereira, A afronta de nos tomarem por parvos, ontem no Público. Excertos, sublinhado meu:

«[...] O que sabemos sobre o dinheiro saído para os offshores durante a governação PSD-CDS? Sabemos que foi muito, muitos milhares de milhões de euros, de que os dez mil milhões de que se fala agora são apenas uma parte. Sabemos que uma parte saiu legalmente e também sabemos, por vários processos em curso, que outra parte saiu ilegalmente. [...] Desde Passos Coelho, furioso e malcriado na Assembleia, até ao passa-culpas do anterior secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, até ao silêncio da ex-ministra das Finanças que acha que não é nada com ela, todos estão a tomar-nos por parvos. Afinal, a culpa foi dos serviços que não fizeram a estatística devida, ou dos procedimentos informáticos, que, pelos vistos, foram modernizados só para um dos lados do escalão de rendimentos, mas que parecem funcionar muito mal no topo dos rendimentos, porque, tanto quanto eu saiba, não foram os funcionários públicos, nem os reformados, nem os empregados do comércio, nem os operários, nem os enfermeiros, nem os polícias, que colocaram o dinheiro em offshores. Aliás, já não é a primeira vez que este tipo de implausibilidades acontecem nas finanças do Governo PSD-CDS, como foi o caso da “lista VIP”, já muito esquecido. Mas há pior: o secretário de Estado quer-nos convencer de algo muito mais grave: é de que não deu por ela que lhe faltavam os números do dinheiro que ia para os offshores. Das duas, uma: ou foi grossa negligência, ou preferiu olhar para o lado, visto que os números eram incómodos para o Governo. Mas, mesmo que seja assim, de novo a mera sensatez obriga-nos a considerar como absolutamente implausível que ele responsável pelo fisco, nunca se tenha perguntado, mesmo numa conversa casual: “Olhe lá, senhor director-geral, quanto dinheiro está a sair do país para os offshores?”. E Passos e a ministra também nunca sentiram sequer curiosidade sobre esse aspecto crucial da nossa economia, para verificarem que, afinal, não havia a estatística? Presumir que tenha sido assim é tomar-nos por parvos, insisto. E eu não gosto

sábado, 25 de fevereiro de 2017

REN HANG 1987-2017


Com apenas 29 anos, suicidou-se ontem em Pequim o fotógrafo chinês Ren Hang. O artista atirou-se de uma janela do prédio onde vivia com o companheiro. Conhecido internacionalmente (ainda o mês passado expôs em Amesterdão e Estocolmo), manteve presença regular em galerias de Nova Iorque, Londres, Paris, Roma, Bruxelas, Moscovo, Tóquio, Los Angeles, Miami, Arles, Milão, Frankfurt, Vilnius, Atenas, Basileia, Viena, Copenhaga, Istambul, Banguecoque, Hong Kong, Xangai, Pequim, etc. Monografias suas estão publicadas em vários países. Motivo alegado: depressão.

LIDO


José Azevedo Pereira, então director-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, tentou, por três vezes, publicar os dados (como a Lei obriga) relativos aos famosos dez mil milhões de euros transferidos para offshores. Mas Paulo Núncio, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, meteu o processo na gaveta durante ano e meio. O director-geral da AT «nunca foi autorizado a proceder à divulgação dos dados». Mais detalhes nos jornais de hoje.

A imagem é do Diário de Notícias. Clique.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

LACÃO, TS & CAVACO

Afinal foi Jorge Lacão, e não Teixeira dos Santos, quem no dia 6 de Abril de 2011 anunciou que o Estado português ia pedir ajuda externa. Fê-lo no Plenário da Assembleia da República, após falar com o primeiro-ministro. Lacão era ministro dos Assuntos Parlamentares, estando a sua intervenção registada no Diário da Assembleia da República. Antes de o fazer, informou o ministro das Finanças.

O que é extraordinário é que tenha sido necessário esperar seis anos para desfazer o equívoco do statement de Teixeira dos Santos. Reza a lenda, até agora nunca desmentida, de que terá sido o antigo ministro das Finanças (em conversa com o Jornal de Negócios) a precipitar os acontecimentos. Podemos concluir que, conhecendo a agenda de Lacão, Teixeira dos Santos deu um passo em frente.

Tudo isto se soube agora porque Lacão desmente Cavaco Silva em três passagens das suas memórias: o OE 2011, o pedido de ajuda externa e o BPN.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Em Viagem pela Europa de Leste, de Gabriel García Márquez (1927-2014), volume que compila onze crónicas publicadas em 1957 na revista Cromos, de Bogotá, as quais deram origem, em 1978, ao livro ora traduzido. Se alguém tivesse encomendado a um anticomunista um panfleto anti-URSS, o teor de corrosão ficaria àquem. No Verão de 1957, acompanhado de uma francesa e um italiano, García Márquez partiu de Frankfurt para uma viagem pela “Cortina de Ferro”. O périplo começa em Berlim, onde ainda não havia Muro, e era possível residir no sector russo e trabalhar no sector americano. Premonitório, escreve: «dentro de cinquenta, cem anos, quando um dos sistemas tiver prevalecido sobre o outro, as duas Berlins serão uma única cidade.» Seguem-se Praga, Varsóvia, Moscovo e Budapeste, a capital húngara que no ano anterior tinha sido ocupada pelos tanques soviéticos. García Márquez não arranja desculpas para a pobreza, nem ignora a cólera das populações: «No campo de concentração comia mal, mas era mais feliz do que aqui», diz o empregado de um bar em Berlim Leste. Fantasmagórico é o adjectivo mais benigno que me ocorre. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ARMANDO, OF COURSE


Com A Sombra do Mar (2015), Armando Silva Carvalho, 79 anos, poeta e ficcionista, venceu o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído hoje no decorrer da sessão de abertura do festival Correntes d’Escritas. O júri era constituído por Almeida Faria, Ana Gabriela Macedo, Carlos Quiroga, Inês Pedrosa e Isaque Ferreira. Da shortlist faziam parte livros de Nuno Júdice, Luís Filipe Castro Mendes, António Carlos Cortez, Daniel Jonas e Miguel-Manso. O Presidente da República e o ministro da Cultura assistiram à cerimónia. Com obra publicada desde 1965, Armando Silva Carvalho é um dos mais importantes poetas portugueses contemporâneos.

TIMOTHY GARTON ASH


«Agora somos todos vizinhos. Existem mais telefones do que seres humanos e cerca de metade da humanidade tem acesso à Internet. [...] O que o Facebook fizer tem um impacto mais amplo do que qualquer coisa que seja feita pela França, e a Google mais do que a Alemanha. São superpotências privadas

Isto vem logo na primeira página do livro mais recente de Timothy Garton Ash, 61 anos, historiador britânico, professor em Oxford e Stanford, colaborador regular do Guardian e da New York Review of Books. Muitos dos seus artigos são publicados na imprensa internacional. Quanto sei, Free Speech: Ten Principles for a Connected World, traduzido por Jorge Pereirinha Pires, é o terceiro dos seus livros a ser publicado em Portugal. Os outros são The File: A Personal History, 1997, e History of the Present, 1999. Seria pleonástico insistir na importância do autor.

Já agora, uma nota da página 435: «No segundo trimestre de 2015, o Facebook reportou 1,49 mil milhões de utilizadores activos (os que lá deram entrada pelo menos uma vez por mês), enquanto a população da China estava calculada em 1,3 mil milhões

Publicou a Temas e Debates.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

GEDEÃO


Faz hoje vinte anos que morreu António Gedeão (1906-1997), o poeta e escritor que foi também, com o nome de baptismo, Rómulo de Carvalho, um eminente professor e pedagogo, além de historiador e divulgador da Ciência. Gedeão chegou tarde à cena literária. Em 1956, com 50 anos feitos, publicou Movimento Perpétuo, o primeiro livro de poesia. Seguiram-se Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Linhas de Força (1967), Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990). 

Por quatro vezes a sua poesia foi reunida em volumes que coligem a obra precedente: em 1964, 1968, edição que inclui o famoso prefácio de Jorge de Sena, 1990, em edição de luxo ilustrada por Pomar, e em 2001. O conjunto da obra literária foi dado à estampa em 2004: Obra Completa reúne poesia (incluindo juvenilia), narrativas ficcionais, teatro, ensaios literários, bem como parte da extensa correspondência trocada com Sena entre 1958 e 1977. Recordar que Gedeão foi casado com a romancista Natália Nunes, sua viúva.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

VAN DINE & NOVÍSSIMOS


Hoje na Sábado escrevo sobre A Morte da Canária, de S. S. Van Dine (1888-1939), novo título da Colecção Vampiro, que entre 1947 e 2007 publicou centenas de obras de literatura policial em formato livro de bolso, e capas inconfundíveis, ora expressionistas ora surrealistas, na sua maioria de Cândido Costa Pinto. Após um hiato de dez anos, a colecção regressou com Os Crimes do Bispo, do mesmo Van Dine, pseudónimo do crítico de arte Willard Huntington Wright, um dos mais populares autores policiais de sempre. Acumulando a crítica de arte com os romances policiais, Van Dine publicou em 1928 um importante ensaio sobre o thriller, ainda hoje um texto de referência para os estudiosos do género. Não obstante a aparente trivialidade da história que o detective Philo Vance tem de resolver (a Canária, famosa cantora da Broadway, aparece morta em casa após receber a visita de vários homens; o assassino tanto pode ser um gangster como um notável da alta sociedade de Manhattan), A Morte da Canária tem outra ambição. Van Dine tem um tipo de raciocínio e uma escrita sofisticada. Veja-se a forma como, na introdução, deixa no ar a possibilidade de Margaret Odell ter sido uma personagem real: a «impenetrabilidade do crime transformaram-no num dos mais singulares e assombrosos casos ocorridos nos anais da Polícia de Nova Iorque…» O romance está pontuado de remissões de natureza política e cultural, traço distintivo da obra de Van Dine e, por extensão, da personalidade de Philo Vance, o detective com pretensões a integrar o círculo dos Four Hundred… Além de Van Dine, o catálogo da nova série já inclui obras de Ellery Queen, Dashiell Hammett, Raymond Chandler e Rex Stout. Para os mais jovens, que descobriram o thriller há meia dúzia de anos por intermédio da saga Millennium, do sueco Stieg Larsson, a Colecção Vampiro ilustra a diferença entre a tradição clássica, ou seja, anglo-americana, e a deriva pós-punk do imaginário escandinavo. Seria muito aliciante se autores como James Hadley Chase, Conan Doyle, William Riley Burnett, Patricia Highsmith, James Mallahan Cain, Chester Himes, Horace Mac Coy, e outros, viessem a integrar a colecção. Quatro estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

Escrevo ainda sobre Naquela Língua, antologia de dezoito poetas brasileiros novíssimos. Portugueses e brasileiros deixaram de ler os poetas da outra margem do Atlântico. Salvo académicos, os brasileiros pararam em Pessoa e os portugueses em Drummond. Um ou outro episódio de marketing não muda a realidade. Por isso é de saudar a edição desta antologia de poetas nascidos entre 1974 e 1990, muitos deles com livros editados pela 7 Letras e pela Oficina Raquel, editoras de referência do Rio de Janeiro. Numa breve nota introdutória, Francisco José Viegas, responsável pela selecção, sublinha que são poetas «com obra publicada exclusivamente no século XXI», mas não os enquadra no contexto da tradição brasileira, nem faz juízos hermenêuticos. Alinhou os autores por ordem alfabética, com micro-verbete biobibliográfico a anteceder os poemas. A tarefa de avaliar a importância relativa de cada um fica por conta do leitor. Destaco quatro em particular: Annita Costa Malufe (n. 1975), Maria Rezende (n. 1978), Caco Ishak (n. 1981) e Diego Callazans (n. 1982), boas surpresas para quem sabe pouco, ou mesmo nada, sobre quem chegou depois de Antonio Cícero, Ana Cristina Cesar e Eucanaã Ferraz, um trio de excepção. O volume inclui vinte e cinco poemas inéditos. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.