quinta-feira, 25 de maio de 2017

BRASÍLIA JÁ ESTÁ A ARDER?

Uma manifestação contra Temer juntou em Brasília, ontem, cerca de duzentas mil pessoas. Foi incendiado o edifício onde estão instalados os ministérios da Agricultura, do Planejamento e da Cultura. Os funcionários receberam ordem para abandonar o local de trabalho a seguir ao almoço. No momento mais crítico da manif, quando a polícia militar entrou em força, bloqueando o acesso ao Congresso, já só estariam no local 35 mil manifestantes. Por decisão de Temer, as Forças Armadas vão assegurar o perímetro de segurança que envolve a denominada Esplanada dos Ministérios.

terça-feira, 23 de maio de 2017

HORROR EM MANCHESTER


Acordo com a terrível notícia do atentado de Manchester: até ao momento, confirmados 22 mortos e 59 feridos graves. Tudo aconteceu no fim do espectáculo da cantora americana Ariana Grande, quando (eram 22:33) um bombista-suicida se fez explodir no foyer do Manchester Arena. Por razões que não vêm ao caso, estive desligado do mundo a partir do princípio da tarde de ontem, razão pela qual só hoje de manhã soube do acontecido.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

PDE

Portugal saiu hoje do Procedimento por Défice Excessivo, situação em que se mantinha desde 2009. Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão Europeia, sublinhou: «Este é um dia importante para Portugal.» A gajada da PAF esgotou todo o stock de Guronsan.

domingo, 21 de maio de 2017

TAPAR OU NÃO TAPAR


Na Arábia Saudita, Melania e Ivanka Trump, respectivamente mulher e filha do Presidente americano, desembarcaram e têm participado dos actos oficiais de cabelos ao léu. Fazem elas muito bem. Michelle Obama, Angela Merkel e Theresa May fizeram o mesmo quando ali estiveram em visitas oficiais. O lado anedótico da questão é que Trump havia criticado duramente Michelle Obama por ter feito, em Janeiro de 2015, o que a mulher e a filha estão a fazer. Clique na imagem para conferir.

sábado, 20 de maio de 2017

TEMER O PIOR

Michel Temer, Presidente do Brasil,  foi ontem formalmente acusado de corrupção, organização criminosa e obstrução à justiça. Rodrigo Janot, procurador-geral da República, considera as provas consistentes e «estarrecedoras». Neste momento, o Congresso tem em carteira um total de doze pedidos de impeachment do Presidente. Ministros de três partidos da coligação que sustenta o Governo já se demitiram, alegando indisponibilidade para fazer parte de um executivo que perdeu toda a legitimidade para governar o Brasil. Nas ruas, o povo ulula.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

TIME


Ironias da História. No momento em que a Casa Branca se encontra capturada por um Presidente xenófobo e isolacionista, a Time faz a capa entre todas improvável. Clique na imagem.

NÃO SAIO, DIZ ELE

O Supremo Tribunal Federal do Brasil vai tornar pública, hoje, a gravação da conversa que compromete Temer. Ficaremos a saber o que disse exactamente o Presidente do Brasil. Para quem não sabe, recordar que tudo começou com as denúncias dos empresários Joesley e Wesley Batista, donos da JBS (uma das cinco maiores empresas mundiais da indústria alimentar), no âmbito da processo Lava Jato. Até ontem à noite, tinham dado entrada no Congresso um total de oito pedidos de impeachment de Temer. Nas ruas, o povo grita como gritou contra Dilma.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

LEIRIA & SZERB


Hoje na Sábado escrevo sobre Ficções, de Mário-Henrique Leiria (1923-1980). A obra acaba de ser reunida num grosso volume de mais de setecentas páginas. Com excepção de Cesariny, o Panteão literário português tem sido avaro com os surrealistas. Nem sequer podemos acrescentar O’Neill, porque a sua passagem pelo movimento foi um ápice. Isso talvez explique a desatenção com o autor. Ficções colige contos, a novela Diapasão, teatro, guiões, outro tipo de textos, e até a famosa banda desenhada Mário e Isabel. O volume conta ainda com ilustrações de Cruzeiro Seixas. Responsável pela edição, Tania Martuscelli, crítica de literatura e professora na Universidade do Colorado, fez um rigoroso trabalho de pesquisa no espólio do autor, não deixando nada de fora, inéditos incluídos. Tendo vivido no Brasil durante nove anos (entre 1961 e 1970, para obviar à perseguição da Pide), Mário-Henrique Leiria é sobretudo conhecido por dois livros famosos: Contos do Gin-Tonic, de 1973, e Novos Contos do Gin, de 1974, ambos anteriores à actual moda do gin. Casos de Direito Galático, de 1975, de índole marcadamente política, perfaz o trio que para a maioria dos leitores constitui a obra canónica, caracterizada por truculência verbal, alto teor de corrosão, escrita automática e humor negro. Mas é muito vasto o corpus disperso por jornais e revistas, como esta edição demonstra. Marginal do Meio literário, Mário-Henrique Leiria parodia os gurus respectivos, bem como modas e rituais do establishment. Sobre Barthes e a deriva estruturalista, desconstrói um excerto hermenêutico, laudatório (não identificado), e conclui: «Que chatice! Este país está uma desgraça. Já nem sequer há intelectuais decentes!» O seu universo era de facto outro. Nos fragmentos de O Mundo Inquietante de Josela, de 1975, o nonsense é de regra: «E então não é que, ao chegar-lhe a vez de se servir, o Zeca pega na faca e zás, no pescoço da Madame! Francamente! A cabeça caiu logo no chão. Ficámos embasbacados.» Problema maior do anfitrião… o corpo de Madame não cabia no triturador do lixo. Infelizmente, uma revisão menos atenta faz com que alguns textos sejam indicados no índice com o número de página errado. Quatro estrelas. Publicou a E-Primatur.

Escrevo ainda sobre Viajante à Luz da Lua, de Antal Szerb (1901-1945). Traduzido directamente do húngaro, chegou finalmente à edição portuguesa este famoso romance. Salvo melhor informação, trata-se do primeiro livro do autor a ser publicado no nosso país. Em Dezembro de 1944, não foi a origem judaica a causa da deportação para o campo de Balf, onde seria espancado até à morte no mês seguinte. Foi o teor do capítulo sobre literatura soviética que escreveu em História da Literatura Mundial (1941), ao arrepio do Diktat do regime comunista húngaro. Académico respeitado, homem do mundo, tradutor heterodoxo (P. G. Wodehouse e outros), Szerb ganhou notoriedade internacional quando, em 1994, Viajante à Luz da Lua foi traduzido para a língua inglesa. Publicado em 1937, o romance conta a história de um casamento falhado e consequente itinerância sexual. Então em voga, a psicanálise explica a personalidade e o comportamento de Mihály a partir da lua de mel em Veneza. As reflexões do autor sobre o ar do tempo são premonitórias da iminência da loucura que iria mergulhar a Europa nas trevas. Seria pleonástico insistir no classicismo da escrita do autor. Quatro estrelas. Publicou a Guerra & Paz.

sábado, 13 de maio de 2017

RANSOMWARE


Já se sabe um pouco mais do ciberataque global de ontem. Foram atacados serviços e empresas de 74 países, sendo os mais afectados a Espanha, o Reino Unido, o Egipto, a China, a Itália, a Rússia, Taiwan, a Ucrânia e a Índia. No Reino Unido, o National Health Service entrou em colapso: os serviços não têm acesso aos dados dos doentes, tendo sido canceladas todas as consultas e centenas de operações. Na Rússia, os computadores no ministério do Interior foram seriamente afectados. Em Espanha, a Telefónica ficou out. Portugal não escapou, tendo os principais alvos sido a EDP e a PT. Por junto, foram afectadas 99 cidades. Tratou-se de um ataque de ransomware, ou seja, de encriptação maliciosa de dados. Segundo o New York Times, os hackers apropriaram-se do WannaCry, um software malicioso desenvolvido na NSA e, com ele, executaram o ciberataque planetário.

Clique na imagem do NYT para ver melhor.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

CIBERATAQUE

Vários países europeus, incluindo Portugal, Espanha e o Reino Unido, estão a ser alvo de um ataque informático em larga escala. Como medida de precaução, a EDP desligou toda a sua rede informática às 15h. Na PT, idem. Vários Bancos fizeram o mesmo. A Telefónica espanhola está out. Há relatos, no Twitter, de terminais de ATM desligados. Aparentemente, o busílis reside nas famosas Clouds, as quais, neste momento, estão em parte incerta. Os hackers pedem resgate em bitcoins. O ciberataque terá origem no Brasil.

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 55,6%. A diferença entre o PS e o PSD continua a ser de dez pontos. E, mesmo sozinho, o PS ultrapassa a PAF, que soma 35,9%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

ALEXANDRE O'NEILL


Hoje na Sábado escrevo sobre Poesias Completas & Dispersos, de Alexandre O'Neill (1924-1986). Não é a primeira vez que a poesia completa do autor chega às livrarias. Esta nova edição, da responsabilidade de Maria Antónia Oliveira, sua biógrafa, inclui sete poemas inéditos, bem como quarenta e dois textos dispersos em jornais, revistas, discos e catálogos de arte. A seriação dos dispersos é cronológica. Na notal final que antecede o posfácio, Maria Antónia Oliveira dá conta do critério adoptado. Alexandre O'Neill foi, durante algum tempo, olhado com um módico de troça, desdém e maledicência por vários dos seus contemporâneos. Nascido no seio de uma família tradicional, teve uma educação liberal e uma avó sufragista que publicou versos, romances e traduções de Dumas. Os Verões passados em Amarante, onde vivia um tio-avô conotado com o reviralho, foram decisivos para a sua formação. Ali privou com Pascoaes e Bento de Jesus Caraça. Isento do serviço militar, começou a trabalhar assim que terminou o liceu. Em 1947, no MUD-Juvenil, conheceu Cesariny, que o juntou ao grupo de fundadores do Surrealismo português. Desse tempo breve ficou A Ampola Miraculosa, narrativa gráfica (1948). O primeiro livro, Tempo de Fantasmas, estabelece a dissidência. Seria preciso esperar pelo segundo, No Reino da Dinamarca (1958), para ser reconhecido como uma das vozes centrais da poesia portuguesa do século XX. Expulso da função pública por recusar luto na morte de Carmona, preso em 1953 por ter ido ao aeroporto esperar Maria Lamas, O’Neill foi tudo menos um acomodado. Em 1950, quando conhece a búlgara Nora Mitrani, tem uma epifania. Mas a mãe intercede junto da Pide para ser negado passaporte ao filho. Ficaram os versos: «Não podias ficar nesta cama comigo / em trânsito mortal até ao dia sórdido / canino / policial / até ao dia que não vem da promessa / puríssima da madrugada / mas da miséria de uma noite gerada / por um dia igual […]» O poema, Um Adeus Português, faz parte do cânone nacional. Fora antologias e narrativas em prosa, deixou-nos onze livros de poesia. Traços distintivos: lirismo autocrítico, desconstrução da tradição pícara e confronto mordaz com o quotidiano português, em particular o modo funcionário de viver. Cinco estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

terça-feira, 9 de maio de 2017

BAPTISTA-BASTOS 1934-2017


Morreu hoje Armando Baptista-Bastos, jornalista e escritor que o país inteiro conhecia simplesmente como Baptista-Bastos. BB, como era tratado no milieu, começou a escrever em jornais em 1953. Escreveu em quase todos, escreveu sobre quase tudo, entrevistou quase toda a gente que conta, fez reportagens, e ainda teve tempo para nos deixar oito romances, colectâneas de crónicas e volumes de ensaio. Também trabalhou na rádio, na televisão e em cinema. Resumindo: durante mais de sessenta anos, nunca esteve parado. Ficou célebre a série de dezasseis entrevistas encomendadas pelo Público, em 1999, com a pergunta famosa: «Onde é que você estava no 25 de Abril?» Com a sua morte desaparece uma das testemunhas centrais do século XX português. Se nunca leu, vá à procura de Cão Velho Entre Flores, romance de 1974. Sim, era um homem de Esquerda, mas até a Direita ultramontana o respeitava. Tinha 83 anos.

VALLS NUNCA DESILUDE

Macron toma posse no próximo domingo, dia 14. Ontem soube-se que o seu movimento, En Marche!, concorrerá às eleições legislativas de Junho com nova designação: La République en Marche. Na qualidade de presidente eleito, Macron abandonou a liderança partidária, sendo substituído interinamente por Catherine Barbaroux. O congresso de meados de Julho confirmará, ou não, a nova direcção.

Frisson do dia: Manuel Valls, antigo primeiro-ministro e candidato derrotado nas primárias do PS, vai abandonar os socialistas e quer concorrer nas listas da... République en Marche:

«Comme j’invite d’ailleurs tous les députés sortants, les progressistes, ceux qui ont appelé à voter Emmanuel Macron avant le premier tour, ceux qui souhaitaient sa victoire, moi je serai candidat de la majorité présidentielle, et souhaite m’inscrire dans ce mouvement qui est le sien, la République en marche».

Sempre achei o homem um videirinho. Parece que tinha razão.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

CAPA & CONTRACAPA


Capa e contracapa do Libé. Mas a ideia não é nova: o Diário de Notícias fez o mesmo em 14 de Junho de 2005, com Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade, que tinham morrido ambos na véspera. Clique na imagem para ver melhor.

FICOU ASSIM


Os números oficiais. Mais de 16 milhões de eleitores (exactamente 16 170 672) preferiram abster-se, votar branco ou nulo. Apesar de tudo, ainda não foi a débâcle da França dos valores europeus. Clique na imagem para ler melhor.

A FRANÇA ACORDOU?


Apesar de uma abstenção alta — 25,4% é um valor elevado para a tradição francesa —, a história acabou bem. No entanto, os 66,06% de Macron significam que um terço dos eleitores (os que votaram Le Pen) continua a rever-se na extrema-direita mais xenófoba. A imagem é do Monde. Clique nela.

domingo, 7 de maio de 2017

MACRON


As primeiras projecções. Imagem do Monde. Clique para ver melhor.

BLASÉ OU OUTRA COISA?

Números oficiais: até às cinco da tarde (em França) tinham votado 65,3% dos eleitores. Na primeira volta, até à mesma hora, tinham votado 69,5%.

MACRONLEAKS


A história repete-se. A exemplo do que aconteceu na campanha de Hillary, quando milhares de documentos internos no comité eleitoral Democrata foram pirateados, chegou a vez de Macron ser vítima de igual devassa. O movimento político En Marche!, que suporta a campanha do candidato, confirmou ter sido hackeado anteontem à noite. Um ataque massivo e coordenado deu origem à difusão de vasta documentação interna, grande parte da qual está a ser manipulada e truncada nas redes sociais e em tablóides europeus, russos e americanos.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

PATRÍCIA REIS


Hoje na Sábado escrevo sobre o romance mais recente de Patrícia Reis (n. 1970), A Construção do Vazio. Toda a literatura é circular. Vários personagens do livro andam connosco há uma década. O ciclo fechou. Patrícia Reis é muito hábil na forma como dá vida ao universo ficcional que construiu a partir de No Silêncio de Deus (2008). Nessa altura chegou Manuel Guerra, entretanto falecido, em casa de quem o manuscrito que agora vê a luz do dia teria sido encontrado. Depois, Por Este Mundo Acima (2011) trouxe Sofia, nascida para ser vítima de humilhação e abuso, obrigada a sobreviver sabendo que nem toda a maldade será castigada. Tentando obliterar os fantasmas da infância, Sofia é uma menina-tesoura enclausurada no vazio em que cresceu. A escrita seca de Patrícia Reis não dá azo a delíquios. Pelo contrário: as palavras têm a exactidão dos factos. Neste caso, o horror da violência em família. Sofia tem dez anos e o pai faz dela o que lhe apetece: «De quatro, como um animal, na casa de banho, amarrada à força do meu pai…». A mãe faz por ignorar. O desfecho indicia outra vida, mas a insegurança persiste. Seguro, só o domínio narrativo da autora. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

terça-feira, 2 de maio de 2017

BURACO NEGRO

Em 2002, no 1.º de Maio, as centrais sindicais francesas juntaram-se e celebraram a data juntas, mobilizando dois milhões de franceses. Ambas foram claras no não a Jean-Marie Le Pen. Como resultado, Chirac foi eleito dias depois com 82,2% dos votos, contra 17,8% do fundador da FN. Ontem, cada central optou por desfilar sozinha, e nenhuma invectivou Marine Le Pen. A mobilização cumpriu os mínimos. Macron foi ignorado. Definitivamente, a França entrou num buraco negro.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

JOHN FANTE


Hoje na Sábado escrevo sobre 1933 Foi um Mau Ano, do americano John Fante (1909-1983), autor pouco conhecido entre nós que deixou uma obra breve mas consistente. Bukowski considerava-o seu mestre e, nos últimos vinte anos, a crítica mais exigente faz-lhe vénia. A novela póstuma 1933 Foi um Mau Ano chegou agora à edição portuguesa. A diabetes que o levou à cegueira e amputação das duas pernas, ao mesmo tempo que explica o seu relativo apagamento da cena literária, é uma razão plausível para o livro ter ficado por concluir. Fante, que nasceu no seio de uma família de Abruzzo, é o celebrado autor do quarteto novelístico Bandini, que abre (embora tenha sido o último a ser publicado) com Estrada para Los Angeles, um dos seus livros traduzidos em Portugal. A escrita sofisticada do autor resgata a intriga da sua aparente trivialidade: vivendo em Roper, no Colorado, Dominic Molise, o narrador, vive emparedado entre o sonho do basebol e as contingências da Grande Depressão que sucedeu ao crash de 1929. Mesmo incompleto, 1933 Foi um Mau Ano não deixa de ser um autêntico Bildungsroman, ou seja, um romance de formação por intermédio do qual o autor põe em pauta uma panóplia de questões identitárias. Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

CONTRA O SILÊNCIO


Como os media portugueses omitem a presença e as palavras de Etienne Cardiles na homenagem que Hollande prestou ao seu companheiro Xavier Jugelé, assassinado pelo Daesh no passado dia 20, deixo aqui excertos dessas palavras. Etienne Cardiles, diplomata, disse:

«Xavier, jeudi matin, comme de coutume, je suis parti travailler et tu dormais encore. […] Tu as pris ton service à 14 heures dans cette tenue de maintien de l’ordre dont tu prenais tant soin parce que ta présentation devait être irréprochable. Tes camarades et toi aviez reçu la mission de rejoindre le commissariat du VIIIe arrondissement. […] On t’a désigné comme point de stationnement le 102 des Champs-Elysées, devant l’institut culturel de Turquie. Ce type de mission, je le sais, te plaisait, parce que c’était les Champs-Elysées et l’image de la France. Parce que c’était aussi la culture que vous protégiez. A cet instant, à cet endroit, le pire est arrivé, pour toi et tes camarades. […] Je suis rentré le soir sans toi avec une douleur, extrême et profonde, qui s’apaisera peut-être un jour, je l’ignore. […] Pour ce qui me concerne, je souffre sans haine. J’emprunte cette formule à Antoine Leiris dont l’immense sagesse face à la douleur a tant fait mon admiration que j’avais lu et relu ces lignes il y a quelques mois. C’est une leçon de vie qui m’avait fait tant grandir qu’elle me protège aujourd’hui. Lorsque sont parus les premiers messages informant les Parisiens qu’un événement grave était en cours sur les Champs-Elysées et qu’un policier avait perdu la vie, une petite voix m’a dit que c’était toi. Et elle m’a rappelé cette formule généreuse et guérisseuse: Vous n’aurez pas ma haine. Cette haine, Xavier, je ne l’ai pas parce qu’elle ne te ressemble pas. Parce qu’elle ne correspond en rien à ce qui faisait battre ton cœur, ni ce qui avait fait de toi un gendarme puis un gardien de la paix. Parce que l’intérêt général, le service des autres et la protection de tous faisaient partie de ton éducation et tes convictions et que la tolérance, le dialogue et la tempérance étaient tes meilleures armes. Parce que derrière le policier, il y avait l’homme, et qu’on ne devient policier ou gendarme que par choix: le choix d’aider les autres, de protéger la société et de lutter contre les injustices. […] C’était la vision que nous partagions de cette profession, mais une facette seulement de l’homme que tu étais. L’autre facette de l’homme était un monde de culture et de joie, où le cinéma et la musique prenaient une immense part. […] Une vie de joie et d’immenses sourires, où l’amour et la tolérance régnaient en maîtres incontestés. Cette vie de star, tu la quittes comme une star. […] Je voudrais dire à tous ceux qui luttent pour éviter que ces événements se produisent, que je connais leur culpabilité et leur sentiment d’échec et qu’ils doivent continuer à lutter pour la paix. […] A toi, je voudrais te dire que tu vas rester dans mon cœur pour toujours. Je t’aime. Restons tous dignes et veillons à la paix et gardons la paix

Entre outras personalidades, assistiram à cerimónia de condecoração póstuma o Presidente da República, Hollande, o primeiro-ministro Bernard Cazeneuve, outros ministros, Anne Hidalgo, maire de Paris, o antigo PM Valls, os candidatos Macron e Marine Le Pen, bem como muitos diplomatas, generais e os mais altos representantes das forças de segurança.

A imagem (e transcrição do texto) é do Libération. Clique nela.

terça-feira, 25 de abril de 2017

NÃO CONTEM COM O MEU ÓDIO

Xavier Jugelé, o polícia morto na fusillade do passado dia 20, em Paris, era casado com um homem. Falando na homenagem que a República prestou a Xavier, olhando todos nos olhos, Etienne Cardiles, o viúvo, foi claro:

Vous n’aurez pas ma haine. Cette haine, Xavier, je ne l’ai pas parce qu’elle ne te ressemble pas.

Estavam lá todos: Hollande, que condecorou Xavier Jugelé a título póstumo; o Governo em peso, Macron, madame Le Pen, diplomatas, generais, os mais altos representantes das forças de segurança, etc. Numa França esfrangalhada, isto também é uma espécie de 25 de Abril.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

UM BANQUEIRO NO ELISEU


A vitória de Macron levanta a questão de saber como é que um homem sem partido (o movimento En marche! não é um partido) formará governo se, como se prevê, vença a segunda volta a realizar a 7 de Maio. Irá buscar personalidades próximas do PS, do qual foi militante entre 2006 e 2009? Vira-se para os Republicanos? Faz um melting pot dos dois? Quem é que indicará para primeiro-ministro? Mundo não lhe falta. Mundo e jogo de cintura. Um homem que foi secretário-geral da Presidência da República (2012-14) e ministro da Economia e da Indústria (2014-16), conhece bem o milieu político e trata por tu a alta-finança internacional. Não esquecer que Macron é uma ‘criação’ da casa Rothschild. Tudo indica que o PS francês vai aproveitar a embalagem para tirar partido da vitória do seu antigo militante.

PRIMEIRO ROUND


Os primeiros resultados oficiais. Gráfico do Guardian. Clique para ler melhor.

domingo, 23 de abril de 2017

DUELO MACRON VS LE PEN


Quando estão contados dois terços dos votos, os resultados das Presidenciais francesas são estes. A imagem é do Monde. Clique para ver melhor.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

FUSILLADE


A três dias da 1.ª volta das presidenciais francesas, um atentado reivindicado pelo Daesh fez um morto (um polícia) e dois feridos graves, nos Campos Elísios, em Paris. O ataque deu-se entre a loja Marks & Spencer e a estação de metro Franklin D. Roosevelt. A avenida continua cortada ao trânsito.

Imagem: Le Monde. Clique.

BRUNO VIEIRA AMARAL



Esta semana, na Sábado, escrevo sobre Hoje Estarás Comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral (n. 1978). Quem tenha lido o que escrevi há cerca de quatro anos sobre o primeiro romance do autor, não ficará surpreendido com o juízo que faço do segundo. Sublinhei então a qualidade da narrativa («o texto é brilhante»), bem como a evidência de que «temos escritor». Tudo se confirma. Bruno Vieira Amaral tem o enorme mérito de não escrever para a academia, nem complexos sobre Realismo. Em suma, as palavras têm vida própria, estão no sítio certo, e o leitor interessado em devaneios metafísicos terá de procurar noutra freguesia. Partindo de uma grelha autobiográfica, porém ficcionada, o autor intercala no plot reflexões de natureza hermenêutica que sinalizam o lugar do narrador. A investigação em torno do assassínio do primo João Jorge permite mergulhar nas remotas memórias da infância e adolescência: pai ausente, ecos da Angola colonial, o bairro em que cresceu, ilustrado com virtuosismo no romance anterior. Não me recordo, na literatura portuguesa das últimas décadas, de descrições tão vívidas dos anos da puberdade: mitos, rituais, erotismo, carências, matraquilhos, almoços de domingo, cromos da bola, a «praia do cagalhão», torneios com caricas, cumplicidades tribais, alcunhas. Verdade que desde As Primeiras Coisas temos o Bairro Amélia inscrito no cânone literário, mas agora podemos vê-lo em cinemascope. Factos reais intercalados com acuidade pontuam a evolução da história. Sirvam de exemplo os anos da fome em Setúbal ou o Caso Dona Branca. A destreza do narrador autodiegético ajuda, mas é o domínio dos recursos narrativos que dá eficácia à trama romanesca, servida por uma escrita limpa e polida até ao osso. De forma natural, o enquadramento histórico (em particular sobre Angola) “explica” a personalidade de vários personagens. Isso e as reminiscências da Luanda pré-independente. O mesmo se diga da reconstrução do assassinato de João Jorge: excertos de notícias de jornal, autos policiais, ressonância da vox populi, mnemónica atinente. Por último mas não em último, sublinhar o carácter identitário do texto, a força de uma prosa isenta de qualquer espécie de floreados retóricos: «Onde é que a história da nossa família contamina a nossa história individual?» A obra responde. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre o oitavo volume da série diarística Dias Comuns, de José Gomes Ferreira (1900-1985), volume que tem como subtítulo Livro das Insónias sem Mestre. Num país sem tradição memorialística — os exemplos de Raul Brandão, Torga, Saramago e Ruben A., não sendo os únicos, estão longe de fazer escola —, o diário de Gomes Ferreira tem, sobre outros, o mérito de ilustrar o comportamento do milieu durante a ditadura do Estado Novo. O autor não insinua nem discreteia em abstracto: cita nomes, datas, prémios, anedotário de café, mexericos, etc. O foco central é o país e a literatura. Apesar da aparente secura, não há azedume na prosa. Gomes Ferreira, que em vida foi um cavalheiro, mantém-se igual a si mesmo. Reportando ao período que vai de Agosto de 1969 a Janeiro de 1970, o volume não ignora as eleições do consulado de Caetano, quem era quem na CEUD e na CDE, a violência dos legionários, o cinismo da Pide, e até o manifesto dos escritores (cortado pela Censura), aqui reproduzido na íntegra, com o nome dos seus 83 signatários. A propósito: por que razão a poesia de Gomes Ferreira anda desaparecida há mais de vinte anos? Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

terça-feira, 18 de abril de 2017

BORA LÁ


Hoje em Lisboa. Clique na imagem.

THERESA ANTECIPA


Para calar os detractores do Brexit, Theresa May anunciou há momentos que haverá eleições gerais antecipadas no próximo 8 de Junho. Com o Labour em frangalhos, e sem que os britânicos tenham começado a sentir os efeitos das negociações «duras» que ela pretende, o momento é ideal.

A imagem é do Guardian. Clique nela.

sábado, 15 de abril de 2017

FRANÇA


A mais recente sondagem do Monde. E não é que Mélenchon, 65 anos, eurodeputado, esquerda dura, anti-UE, chegou aos 20% das intenções de voto? Tecnicamente empatado com Macron, Le Pen e Fillon, tudo pode acontecer. Clique na imagem para ler melhor.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

ORDEM PARA ABATER

Para estabelecer a ordem pública na Chechénia, Putin escolheu Ramzan Kadyrov para presidente. Kadyrov, 40 anos, muçulmano sunita, praticante de wrestling, ex-rebelde separatista, chefe de um exército privado denominado Kadyrovtsy, é filho do antigo presidente Akhmad Kadyrov (1951-2004). Em troca de segurança militar, Putin deu carta branca a Kadyrov para impor um regime totalitário. A criatura está em funções desde Abril de 2007, com aval de Moscovo desde Março de 2011. Em Dezembro de 2015 tornou-se membro da Comissão Consultiva do Conselho de Estado da Federação Russa.

Nos últimos dias, a partir de notícias do jornal russo Novaya Gazeta, a imprensa internacional tem feito eco da existência, na Chechénia, de campos de detenção, tortura e abate de homossexuais. Numa sociedade extremamente conservadora e homofóbica como a chechena, a maioria dos homossexuais casa com mulheres (mantendo vida dupla) para evitar retaliação das próprias famílias. Leia-se: para evitarem ser executados pela própria família, como é aconselhado pelas autoridades e tem acontecido. Mas uns quantos saem de casa para viver a sua vida. São esses que têm sentido a mão pesada dos esbirros de Kadyrov. Os que conseguem sair da Chechénia dão conta do horror generalizado. Activistas dos direitos humanos estão a monitorizar a fuga de dúzias de homossexuais que, tendo saído da Chechénia, ainda se encontram na Rússia, pois a possibilidade de serem repatriados para Grózni é real.

Boris Johnson, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, escreveu no Twitter que a situação na Chechénia é «ultrajante». O Reino Unido já manifestou disponibilidade para acolher esses homens. Curiosamente, as notícias não referem lésbicas. Sobre tudo isto, o que dizem as Nações Unidas? E Mr Guterres, católico, em particular?

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A MÃE DE TODAS AS BOMBAS


A partir de um avião MC-130, a Força Aérea dos Estados Unidos lançou hoje sobre Khorosan, no Afeganistão, uma bomba GBU-43, vulgo MOAB, ou Massive Ordnance Air Blast. Esta ‘Mãe de Todas as Bombas’ tem um índice explosivo superior a onze toneladas de TNT. Foi a primeira vez que foi usada em combate. Khorosan é o epicentro de uma zona de cavernas utilizadas como esconderijos pelo Daesh. Projectada para destruir alvos subterrâneos, a bomba GBU-43 detona antes de atingir o solo e, além do seu poder destruidor, tem enorme impacto psicológico. O general John W. Nicholson, comandante das forças americanas no Afeganistão, disse que o GBU-43, a bomba não-nuclear mais potente, era a munição certa para combater o Daesh.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

BILL BRYSON


Hoje na Sábado escrevo sobre Regresso à Pequena Ilha, de Bill Bryson (n. 1951). Na melhor tradição anglo-americana, Bryson é o autor de livros de viagens por excelência. Mas também escreveu uma biografia de Shakespeare, ensaios sobre a língua inglesa, ciência, História, e um volume de memórias. Americano de nascença, transferiu-se para Inglaterra em 1973, e por lá ficou, primeiro a trabalhar num hospital psiquiátrico, depois como colunista e escritor. Houve um breve intervalo no Iowa natal, mas foi em Inglaterra que casou e nasceram os filhos, tendo obtido a cidadania britânica em Outubro de 2014. Com doze livros publicados em Portugal, tornou-se um autor de culto. Refere o Brexit nestes termos: «A muitos de nós, o voto inglês pareceu uma espécie de loucura.» Como o título induz, Regresso à Pequena Ilha é uma sequela de Crónicas de uma Pequena Ilha, várias vezes trazido à colação, embora o título original, The Road to Little Dribbling, não seja tão óbvio. Em 26 capítulos, Bryson passa em revista o Reino Unido. A displicência é aparente, zurzindo sem dó nas instituições, usos e costumes dos dois lados do Atlântico. Sobre condecorações, o contraponto é hilariante: «Na América o sistema produz a ala de um hospital; na Grã-Bretanha ficamos apenas com um idiota vestido de arminho.» O capítulo dedicado a Londres tem o mérito de ilustrar os estrangeiros: «Nem sequer é uma cidade, mas sim duasWestminster e a City —», concluindo que a inépcia e o cabelo de Boris Johnson (antigo Mayor da cidade) são «um monumento à desordem». Na parte dedicada ao País de Gales temos uma evocação de Dylan Thomas e, coisa rara, elogios francos à estância balnear de Tenby. Muito curiosas as observações sobre centrais nucleares, a partir do acidente de 1957 em Windscale. Evitou-se a catástrofe («os carneiros ficaram incandescentes durante uns tempos»), mas o Lake District permaneceu uma das mais belas paisagens do mundo. Stonehenge tem direito a onze páginas. Etc. O brilho da prosa é equivalente ao grau de corrosão. Mas há uma indisfarçável quota bipolar no binómio EUA vs UK. Remissões inesperadas, como a referência a Frederic Leighton, o pintor mais famoso da Era vitoriana, põem o acento tónico no prazer do texto. Quatro estrelas. Publicou a Bertrand.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA 1925-2017


Morreu hoje Maria Helena da Rocha Pereira, decana dos especialistas portugueses em estudos clássicos. Da sua obra, muito vasta, constam os dois volumes de Estudos de História da Cultura Clássica: o de 1965 dedicado à cultura grega, o de 1984 à cultura romana. Entre outros, traduziu Platão, Sófocles, Eurípides, Píndaro, Anacreonte e Pausânias. Tinha 91 anos.

domingo, 9 de abril de 2017

RAUL BRANDÃO


Não tenho livros de cabeceira por uma razão muito simples: não leio na cama. Mas a expressão tem valor simbólico e, nessa medida, as Memórias de Raul Brandão têm todas as condições para serem livro de cabeceira. Bem andou a Quetzal ao reunir num único tomo (capa dura, 623 páginas) os três volumes de memórias do autor de Húmus.

Brandão, que foi militar entre 1888 e 1911, facto que o não impediu de deixar uma obra literária consistente que inclui historiografia, teatro, ficção, livros de viagens e narrativas diarísticas, escreveu estas memórias enquanto testemunha privilegiada dos últimos anos da monarquia e da implantação da República. Lendo-o, temos uma radiografia nítida de Portugal no período que vai de 1900 a 1930, em especial a primeira metade. Diversa iconografia, como cartazes da época, retratos, fac-símiles de documentos de vária proveniência, etc., serve de apoio ao texto. Brandão põe o acento tónico nos factos, bem documentados, mas não ignora a ‘história da porteira’.

Se quer conhecer aquele tipo de detalhes da vida de D. Carlos que as Histórias canónicas omitem, tem de ler estas memórias. E quem diz o rei diz todos os políticos que deixaram marca no início do século XX português. Está lá tudo. Só assim se percebe o estado a que chegámos. Indispensável. Inclui, naturalmente, índice remissivo.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 55,8%. A diferença entre o PS e o PSD é agora de dez pontos. E, mesmo sozinho, o PS continua a ultrapassar a PAF, que soma 35,7%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

LEITURAS


Hoje na Sábado escrevo sobre quatro livros: O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin; Diário dos Imperfeitos, de João Morgado; O Rio Triste, de Fernando Namora; e Baudolino, de Umberto Eco.

Se fizéssemos uma lista dos dez livros mais controversos do século XX, O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), estaria nela. Escrita em segredo numa quinta da Estónia, nos anos 1960, num esconderijo só tornado público em 1991, a magnum opus do autor saiu clandestinamente da URSS e foi revelada ao Ocidente em Dezembro de 1973, por intermédio da tradução francesa da IMKA. Houve quem notasse que talvez fosse o início da «desagregação do sistema comunista». A edição portuguesa de 1975 nada tem a ver com o livro que agora chegou às livrarias, em tradução directa do russo, da responsabilidade de António Pescada. Ensaio autobiográfico, ou de «investigação literária», como se lê na folha de rosto, cobre o período que vai de 1918 a 1956. As cerca de seiscentas páginas do volume correspondem à edição abreviada que tem sido publicada em todo o mundo nos últimos 44 anos. Dividido em sete partes, a clareza dos títulos respectivos não ilude: A Indústria prisional, Movimento perpétuo, Extermínio pelo trabalho, A alma e o arame farpado, Os trabalhos forçados, O desterro e, a fechar, Não há Estaline. Uma verdadeira enciclopédia do horror. Anna Akhmátova disse do livro que devia ser lido e decorado pelos duzentos milhões de russos. Combatente na Segunda Guerra Mundial, e tendo estudado física, matemática e literatura, tinha apenas 26 anos quando foi preso pela primeira vez. Mais tarde seria condenado a «desterro perpétuo» e trabalhos forçados numa charachka, ou seja, um instituto científico onde os investigadores trabalhavam sob vigilância. A pena terminou em 1953, com a chegada de Khrushchov ao poder. Toda a obra reflecte as experiências de privação de liberdade. Soljenítsin tinha nove livros publicados, e o Prémio Nobel da Literatura atribuído em 1970, quando O Arquipélago Gulag saiu dos prelos em Paris. Em Fevereiro de 1974, menos de dois meses passados sobre a sua publicação, foi preso, acusado de «traição à pátria», privado da cidadania russa e expulso do país. O volume inclui posfácio do autor, prefácio de Natália Soljenítsina, notas ao texto, glossário de abreviaturas e termos, bem como verbetes biográficos sucintos de pessoas citadas. Cinco estrelas. Publicou a Sextante.

Diário dos Imperfeitos, de João Morgado (n. 1965), foi novamente reeditado. Em 2012, quando chegou às livrarias, venceu o Prémio Literário Vergílio Ferreira, instituído pela Câmara Municipal de Gouveia (não confundir com o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, que é um prémio de consagração). A bibliografia do autor inclui romances, alguns dos quais de índole histórica; uma novela, contos, poesia e livros para a infância. Miguel Real considera-o «um Camilo Castelo Branco dos nossos tempos». Construído segundo o prisma das relações de poder, Diário dos Imperfeitos põe em pauta o tema mais antigo da humanidade, o amor: «Quando um casal discute, a cama fica para quem? Para quem domina a relação.» O que desencadeia a trama é um desastre: uma mulher perde o controlo do automóvel e capota depois de embater violentamente num semáforo. Sofre traumatismo craniano e entra em coma. Amnésia dissociativa como corolário. Numa linguagem próxima do showing, ou seja, reduzindo a distância entre o discurso do narrador e os factos narrados, João Morgado explora todos os cambiantes da alma humana. Foco central, a Gaivota, embora sejam muitas as personagens femininas, como Dorinda, Emília, Laura. Por vezes de forma desconcertante, este Diário dos Imperfeitos pretende transmitir várias dimensões do real. «Esquece o cono da mulher… é apenas um aeroporto. Podemos aterrar mil vezes num aeroporto e não conhecer o país, como podemos entrar mil vezes numa mulher e não a conhecer.» La Palisse não concluiria melhor, mas concatenar vagina com aeroporto parece-me uma novidade absoluta, mesmo na peculiar genealogia narrativa em que se insere. É muito vasto o espectro de temas dissecados: enamoramento, desejo, medo, insanidade, casamento, nojo, etc. A cada núcleo corresponde uma das três partes do romance. Embora saiba que «a metáfora é o princípio omnipresente da linguagem» (Richards, 1967), diria que certas imagens, ilustrando aquilo que muitos designam por escrita poética, fragiliza o livro. Três exemplos: «ópio de fêmea», «mãos de bolacha», «bebendo-lhe a pele». O recorte conotativo nem sempre é a melhor alternativa. Pelo contrário, não confundir prosa contaminada pela poesia com escrita poética é meio caminho andado para um bom resultado. Duas estrelas. Publicou a Casa das Letras.

Está em curso de reedição a obra de Fernando Namora (1919-1989), um dos autores portugueses mais traduzidos de sempre. O Rio Triste, o último romance, chegou agora às livrarias. Depois dele publicaria uma colectânea de poesia, outra de crónicas de viagem à URSS, e três volumes da série Cadernos de um Escritor. Por oposição ao ciclo rural que caracteriza a obra publicada até 1950 (médico de profissão, veio nesse ano para Lisboa exercer no Instituto Português de Oncologia), O Rio Triste é um bom exemplo do ciclo urbano. Com acção centrada na Lisboa de 1965, põe em pauta os temas da época: repressão política, emigração, guerra colonial, o Império a colapsar: «Há colonos que, suceda o que suceder, ninguém os arrancará vivos da sua casa ou da sua fazenda.» O epílogo dá um salto ao pós-revolução: «O Castel-Branco bufou de não ter sido convidado, julgava-se com candeia acesa no todo-poderoso MFA.» Bem esgalhada, a arquitectura romanesca inclui narrador omnisciente, excertos de cartas, páginas de um diário, notícias de jornal, exegese genológica (o romance como «enxurrada de vida»), trama policial, etc. Roman à clef ou simples coincidência? Boa ocasião para reavaliar no seu conjunto uma obra alvo de não poucos equívocos. Quatro estrelas. Publicou a Caminho.

Não é fácil fazer uma síntese da obra do italiano Umberto Eco (1932-2016), escritor lato sensu, conhecido sobretudo como medievalista e semiólogo, notável ensaísta de teoria narrativa, estudioso da ‘cultura de massas’, capaz de prender o leitor com toda a sorte de assuntos, das peculiaridades semânticas de P. G. Wodehouse ao percurso das Brigadas Vermelhas. Intelectual interventivo, tomou sempre partido, fosse para denunciar o populismo de Berlusconi, a invasão do Iraque ou o flop das Primaveras árabes. Graças à sua capacidade de transpor para a ficção temas eruditos, os romances — em especial O Nome da Rosa —, alguns dos quais deram origem a filmes, fizeram dele uma figura planetária. É o que sucede com Baudolino, agora reeditado. A trama põe em cena figuras reais com personagens de ficção, na transição dos séculos XII e XIII. Mitómano e autodidacta, Baudolino, o rapaz de Frascheta que a sorte atirou para o vasto mundo, narra a história em flashback, da juventude em Paris, para onde foi estudar retórica com uma tença de Frederico I [o Barbarroxa] do Sacro Império Romano-Germânico, ao saque de Constantinopla. O desembaraço narrativo dá consistência à intriga. Quatro estrelas. Publicou a Gradiva.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

BANNON OUT

Stephen Bannon, 63 anos, militante da ala direita do Partido Republicano, deixou de ser membro permanente do Conselho de Segurança Nacional. O almirante Michael S. Rogers, director do Conselho, bem como os chefes de Estado-Maior, recuperam a influência perdida desde a posse de Trump. Quem terá manobrado nos bastidores para que assim fosse foi o tenente-general H.R. McMaster. A realidade tem muita força.

ARQUIVADO

Lembram-se do Banco Português de Negócios, vulgo BPN, que implodiu no dia 2 de Novembro de 2008? Contas por baixo, nove mil milhões de euros pelo cano. O BPN foi nacionalizado nessa semana pelo Governo de Sócrates. E vendido em Março de 2012 pelo Governo de Passos Coelho (era Vítor Gaspar ministro das Finanças), ao angolano BIC. Vendido pelo preço de um T1 em Massamá. O Ministério Público abriu inquérito. A vox populi trouxe Dias Loureiro para o tablado, obrigando o antigo dirigente do PSD a demitir-se do Conselho de Estado. José de Oliveira Costa foi preso. A opinião pública ficou a saber que Cavaco Silva fora accionista da Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN, tendo obtido ganho de 147 mil euros em acções.

Aqui chegados, soube-se agora: o Ministério Público arquivou o processo contra Dias Loureiro e José de Oliveira Costa por não ter sido possível identificar, «de forma conclusiva, todos os factos suscetíveis de integrar os crimes imputados aos arguidos», mesmo depois da analisar toda a «informação bancária relativa às operações e aos sujeitos intervenientes». Dias Loureiro mostrou-se indignado: «Estou estarrecido. É um arquivamento com insinuações». Pois.

sexta-feira, 31 de março de 2017

TAXAS & TAXINHAS

Lembram-se da histeria do PSD quando a Câmara de Lisboa, a exemplo do que acontece em todas as cidades civilizadas, introduziu a taxa turística em Lisboa? Estão recordados da cena patética de Pires de Lima no Parlamento? Pois bem, agora é o PSD, pela voz de José Eduardo Martins, coordenador do programa autárquico do partido e candidato à Assembleia Municipal, quem propõe o aumento dessa taxa de 1 para 1,5 euros. Em conformidade, Teresa Leal Coelho irá defender esse aumento.

quinta-feira, 30 de março de 2017

JÚLIA NERY


Hoje na Sábado escrevo sobre Ei-los que partem, o novo livro de Júlia Nery (n. 1939), apresentado na capa como sendo o romance da nova emigração portuguesa, embora omita qualquer tipo de razão política. Portanto, nada de desemprego por força do colapso da economia ou do catecismo da Troika. A epígrafe de Ferreira de Castro diz tudo: «Todas as gerações nasciam já com aquela aspiração…» Lília, bióloga, parte porque tem um sonho: tornar a água potável acessível a todos os povos. Nuno, homossexual enrustido, vai-se embora para sair do armário em Notting Hill. Marta para escapar à petite vie. Os outros, auto-designados desenrascas (casos de Valter, Ilse, Paulo, Madalena), partem porque se consideram membros de uma elite sem acesso ao patamar social conforme às suas ambições. Une-os uma amizade de muitos anos. Tiago, o astrofísico que Lília trouxe da Califórnia e acrescentou ao grupo, faz parte de outra galáxia. É no casamento de Ilse com Valter, em Unterreichenbach, na Alemanha, que todos se reencontram, ficando a conhecer Albert, o namorado de Nuno (a revelação da sua identidade sexual é uma surpresa). Marta também veio de Londres, enturmando-se rapidamente com um casal de lésbicas de Unterreichenbach. Paulo e Madalena vieram de Luanda, mas primeiro deixaram o filho em França num curso para estrangeiros. Lília não contou a Ilse que em tempos fora abusada por Valter. Lembram-se do filme de Lawrence Kasdan, Os Amigos de Alex, sobre o reencontro de amigos para um funeral? Aqui, em vez de funeral, é casamento. Ei-los que partem é uma história da diáspora com diáspora dentro. Paulo nasceu em Luanda, de onde a família teve de fugir em 1975, era ele criança, tendo voltado agora como gestor financeiro. São muitas as memórias da descolonização de Angola. Episódios violentos, como os que envolveram a família de Ilse e, em concreto, a sua gestação. Subitamente, tudo rui: Ilse sofre com a personalidade bipolar de Valter; Paulo troca Madalena por uma amante angolana; a promiscuidade de Albert faz da vida de Nuno um inferno; Tiago morre num desastre de avião. Por fim, Ilse, Valter e Madalena voltam para Portugal, Marta impõe-se como artista e Nuno arranja um novo namorado. Lília não desiste de salvar o mundo. Três estrelas. Publicou a Sextante.

quarta-feira, 29 de março de 2017

A CARTA


Tusk colocou no Twitter a foto do momento em que Sir Tim Barrow lhe entregou a carta do Brexit. E o Guardian divulgou o seu conteúdo. Fica aqui a imagem da primeira página. Clique para ler melhor.

DONE


Eram 16:30 de ontem quando Theresa May assinou em Downing Street a carta que será hoje entregue a Donald Tusk, presidente do Conselho europeu, formalizando a saída do Reino Unido da UE. Merkel, Tusk e Juncker foram previamente informados do seu conteúdo. Sir Tim Barrow, embaixador britânico em Bruxelas, entregará a carta no preciso momento (12:30 de hoje) em que a primeira-ministra britânica fará um curto statement na Câmara dos Comuns.

Clique na imagem do Guardian para ver melhor.

terça-feira, 28 de março de 2017

O SICOFANTA

Depois dos socialistas europeus, os eurodeputados dos partidos filiados no PPE (como por exemplo o PSD e o CDS) subscreveram uma carta enviada hoje a Dijsselbloem, exigindo um pedido formal de desculpas e a sua imediata demissão do cargo de presidente do Eurogrupo. E fizeram questão de assinar a carta num acto público, no Parlamento Europeu.

MR KHAN EM BRUXELAS

Antecipando-se aos atritos que se adivinham, Sadiq Khan, mayor de Londres, está hoje em Bruxelas a sensibilizar a Comissão e o Conselho para o futuro dos 3,3 milhões de cidadãos de países da UE que vivem no Reino Unido, e dos britânicos (1,2 milhões) que vivem em países da UE. A preocupação de Sadiq Khan faz todo o sentido. Afinal, Londres é uma realidade autónoma do conjunto do Reino Unido, precisando como nenhuma outra de uma política de imigração flexível, apesar do Brexit.

Amanhã, Theresa May acciona o Artigo 50 com uma breve declaração no Parlamento, ao mesmo tempo que um documento de sete páginas será entregue a Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu. As negociações formais, que devem durar 18 meses, começam em meados de Maio, depois da eleição presidencial francesa.

segunda-feira, 27 de março de 2017

TURQUIA VS GRÉCIA

Se calhar sou eu que ando distraído, mas ainda não vi os media nacionais referirem a escalada de tensão entre a Turquia e a Grécia. O clima azedou com a decisão do Supremo Tribunal grego de rejeitar a extradição de oito oficiais turcos que desertaram para a Grécia na sequência do golpe contra Erdogan. A Turquia voltou a suscitar a questão das ilhas ‘ocupadas’ (em 1996, pelo mesmo motivo, os dois países estiveram à beira de um conflito de grandes proporções), tendo nos últimos dias destacado para o Egeu vários navios de guerra, enquanto aviões sobrevoam diariamente o espaço aéreo grego. O ministro grego da Defesa já declarou: «As forças armadas gregas estão prontas para responder a qualquer provocação.» Chipre pode ser o detonador.

domingo, 26 de março de 2017

SAMPAIO


Num país em que tudo é um jogo de sombras, não me espanta o ‘incómodo’ que tem causado a revelação pública de excertos do segundo volume da biografia de Jorge Sampaio, da autoria do jornalista José Pedro Castanheira. Santana Lopes é o rosto visível dessa incomodidade, tendo chegado ao extremo de desafiar o antigo Presidente para um debate na televisão. Mas Santana tem o mérito de dizer em voz alta o que os outros apenas murmuram. A biografia é excelente: mais de duas mil páginas (1060 + 1063) e centenas de fotografias. O 1.º volume, publicado em 2012, termina com a declaração de Sampaio — Sou o candidato à Câmara Municipal de Lisboa — que em Julho de 1989 deixou o país, e o próprio PS, em transe. O 2.º volume, agora publicado, arranca com a campanha em que defrontou e venceu Marcelo Rebelo de Sousa na autarquia (1990-95), terminando com o fim dos dois mandatos de Presidente da República (1996-2006). José Pedro Castanheira entrevistou cerca de duzentas personalidades e teve acesso ao arquivo pessoal de Sampaio. Não é uma obra hagiográfica. É uma biografia como deve ser: fontes creditadas, notas de contexto, correspondência, índice remissivo, iconografia de vária proveniência, citações, etc. O busílis está nas citações, porque Sampaio, homem de formação anglo-saxónica, não se coibiu de lembrar o que fulano e beltrano (a nata da nata da política portuguesa) disseram em determinadas ocasiões, sobre este e aquele. Mas é assim que se faz a História.

LÚCIA E O COCHICHO

No seu livro mais recente, Amália, uma biografia da cantora que chega às livrarias nos primeiros dias de Abril, Fernando Dacosta faz algumas revelações curiosas. Por exemplo: «Salazar receava vê-la passar-se para a oposição. Amália enfrentou Pinochet recusando uma recepção com que o ditador pretendia cumpliciá-la. Guerrilheiros palestinianos cancelaram um atentado em Beirute porque ela actuava na cidade. A Irmã Lúcia escreveu-lhe a pedir para não cantar O Cochicho da Menina.» Mas como é que a Irmã Lúcia conhecia O Cochicho da Menina? Será o terceiro segredo de Fátima?

quinta-feira, 23 de março de 2017

RUY CASTRO


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição de Carnaval no Fogo, de Ruy Castro (n. 1948). Um acontecimento. O homem que escreveu a história da Bossa Nova, o biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, podia não ter escrito mais nada, porque as duzentas páginas em que nos “explica” o Rio de Janeiro chegam e sobram para fixar o seu nome. Publicado em 2003, Carnaval no Fogo resume a biografia da cidade desde 1555, ano em que o vice-almirante Villegagnon desembarcou na ilha de Serigipe com o propósito de estabelecer uma França Antártica na região da baía da Guanabara (a ocupação durou dez anos). Em 1565, Estácio de Sá correu com os franceses e fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, «em homenagem ao rei de Portugal e ao santo crivado de flechas». Os portugueses ficaram mas persistiu o apetite francês. No século XIX, a imigração francesa deixou marca: «Depois de Paris [o Rio] é a cidade que mais tem estatuária francesa no mundo.» Sabia? O autor não se atém à cronologia histórica. A exemplo do que faz com Ela é Carioca (1999), uma enciclopédia de Ipanema, também aqui nos dá a conhecer usos e costumes; a música popular; a arquitectura (igrejas barrocas, edifícios coloniais, art déco e modernistas, mais os «estrupícios pós-modernos»); a cultura da negritude; o boom dos anos 1930, quando foram construídos os bairros da Glória, do Flamengo, da Urca e de Copacabana; a decisão de arrasar quinhentas casas e três igrejas tricentenárias para rasgar a Avenida Presidente Vargas; personalidades como Chiquinha Gonzaga (a maestrina anti-esclavagista), Nair de Teffé (a caricaturista que casou com o marechal-presidente Hermes da Fonseca) ou Oscar Niemeyer, que em 1941 viu chumbado o seu projecto para o estádio do Maracanã; a demolição do Palácio Monroe por imposição da ditadura militar; o Jardim Botânico, que desde 1808 conserva milhares de espécies vegetais e centenas de espécies de aves; o delírio do visconde de Courcy, que em 1886 propôs implodir o morro do Pão de Açúcar para ventilar o centro da cidade e, como não podia deixar de ser, o Carnaval. Entre reconstituição histórica e crónica, tudo isto compõe um patchwork de leitura compulsiva. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

quarta-feira, 22 de março de 2017

ATENTADO EM LONDRES


Um homem esfaqueou um polícia ao tentar entrar no Parlamento britânico, enquanto, ali a dois passos, na ponte de Westminster, um atropelamento em massa fez um morto e dezenas de feridos. Um polícia morreu. Dois atacantes foram capturados. O Parlamento foi encerrado.

Clique na imagem do Telegraph.

TRUMP & MAY, PARA JÁ


Anteontem foi Trump. Passageiros oriundos ou com destino a treze países não podem transportar computadores portáteis e tablets (vulgo iPads) na cabine do avião. A medida é taxativa para nove companhias de aviação, entre elas a Qatar Airways e a Emirates Airlines, mas, informalmente, foi sugerida a outras. Todos os instrumentos electrónicos de tamanho superior a um vulgar smartphone têm de ir no porão.

Ontem foi Theresa May. No tocante ao número de países, o Reino Unido desceu de treze para seis, mas as companhias visadas são catorze (em vez de nove), sendo britânicas seis: British Airways, EasyJet, Jet2, Monarch, Thomas Cook e Thomson.

A França e o Canadá estudam o assunto para adoptarem medidas equivalentes. É o mundo em que vivemos.

Clique na imagem do Guardian.

COPOS & PUTAS

Sob o efeito da estrondosa derrota do seu partido, o PvdA, ou Partij van de Arbeid (os trabalhistas), que passou de 38 para 9 deputados, o senhor Jeroen Dijsselbloem desatinou. Nele, não admira. Um ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo que atesta no currículo ter um mestrado que nunca fez, é capaz de tudo. Dizer à criatura que, se os povos do Sul gastam tudo em copos e mulheres, é para contrariar os do Norte, que gastam tudo em mefedrona e rapazes.

segunda-feira, 20 de março de 2017

BREXIT


É oficial: Theresa May vai accionar o Artigo 50 no próximo dia 29. Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, já notificou que, em 48 horas, Bruxelas poderá dar início às negociações do Brexit.

A imagem é do Guardian. Clique.

domingo, 19 de março de 2017

GRAÇA MORAIS


Graça Morais tem neste momento uma exposição na Fundação Champalimaud, em Lisboa. O quadro ao alto chama-se 27 Jan 2017, data em foi concluído e coincide com a ordem executiva anti-imigração que Trump tentou impor como Lei. Fica o registo. Graça Morais é uma grande artista, e o facto de não andar ao colo da crítica enfatiza essa realidade.

A imagem é do site da TimeOut. Clique para ver melhor.

sábado, 18 de março de 2017

DEREK WALCOTT 1930-2017


Morreu ontem Derek Walcott, poeta, dramaturgo e ensaísta caribenho, Prémio Nobel da Literatura em 1992. Quanto sei, nenhum livro seu está traduzido em Portugal. O legado colonial e a questão identitária são centrais à sua obra. Em 2009, um pacote anónimo com páginas fotocopiadas de um livro onde é acusado de assédio sexual em Harvard, frustrou a candidatura ao lugar de professor de poesia em Oxford. Morreu em Santa Lúcia, onde nasceu. Tinha 87 anos.

PORQUÊ?

Sou capaz de perceber o ódio que muitos magistrados e professores do ensino básico e secundário votam a Sócrates. A redução das férias judiciais e o sistema de avaliação de docentes explicam a fronda corporativa. Mas o justicialismo militante de grande parte da comunidade jornalística é para mim um mistério. Não estou a falar de estagiários, nem de opinadores avençados. Estou a falar de titulares de carteira profissional que em vez de pensarem pela sua cabeça preferem ser capachos do Ministério Público. É de facto muito estranho.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A CULPA É DO VIZINHO


Pensava que já tinha visto tudo?
Clique na imagem é do Diário de Notícias.

A VIDA COMO ELA É


Clique na imagem do Expresso.

FRANÇA


Sondagem do Monde, hoje.
Clique na imagem para ver melhor.

quinta-feira, 16 de março de 2017

MARGARET ATWOOD


Hoje na Sábado escrevo sobre O Coração é o Último a Morrer, o penúltimo romance de Margaret Atwood (n. 1939), autora que volta a esticar os limites da distopia. Dentro de trinta anos saberemos se ela foi o Jules Verne da transição do século XX para o XXI. Verne publicou nos anos 1860-70 diversas obras de antecipação que preencheram o imaginário de várias gerações. Margaret Atwood investe menos na vertente científica, pondo o acento tónico na mutação civilizacional que tem sido o traço distintivo das últimas décadas: fundamentalismo religioso vs laicismo, totalitarismo vs normas constitucionais, xenofobia vs dissolução de fronteiras, e assim por diante. Quem, tendo lido Órix e Crex (2003) ou O Ano do Dilúvio (2009), tem presente as tramas respectivas, sabe que o colapso da civilização tal como a conhecemos é o foco central da obra da autora. Isto é válido para as questões ambientais e, de forma correlata, para o autoritarismo. Pode parecer-nos absurdo o que acontece com Charmaine e Stan, personagens de O Coração é o Último a Morrer. A questão é: até quando? Até quando isto não rompe o formato de um romance distópico? Charmaine e Stan, vítimas dos Mercados, foram descartados. Ela trabalhava num lar para idosos, ele numa empresa de robótica. O crash deu cabo de tudo, «todo o sistema ruíra», o dinheiro foi pelo cano, mentiras e fraudes fizeram lei: «Na televisão, hordas de peritos de meia-tigela tentavam explicar por que razão aquilo acontecera […] mas tudo isso não passava de suposições da treta.» Agora dormem no carro, um Honda em terceira mão. Servir à mesa, como Charmaine fez durante uma temporada, ou permanecer desempregado por excesso de habilitações, como sucedeu com Stan, não permite alternativa. E depois temos Consiliência, a cidade onde está localizado o Projecto Positrão. Charmaine e Stan tiveram sorte em ser admitidos. Regras simples: mês sim, mês não, cedem a sua liberdade (indo para uma cela de prisão) a troco de uma casa. Não é o romance que inquieta. É o grau de premonição. Quatro estrelas. Publicou a Bertrand.

DOR DE CABEÇA EM HAIA


Elegendo 33 deputados, o partido liberal VVD, de Mark Rutte, primeiro-ministro desde 2010, ficou em primeiro lugar. Mas o PVV, de Geert Wilders, líder da extrema-direita holandesa, ficou em segundo, com 20 deputados. Depois há dois partidos com 19 deputados cada um: os cristãos-democratas do CDA e os anarquistas radical-chic do D66. Como a soma do VVD com o CDA e o D66 não atinge os 76 deputados necessários para a maioria absoluta, Rutte tem duas hipóteses: ou se coliga novamente com os trabalhistas do PvdA (nove deputados), ou com os ecologistas do GL (catorze deputados). Ter no Parlamento 20 racistas assumidos  não é pêra doce, mas podia ter sido pior.

Clique no gráfico do Telegraaf.

quarta-feira, 15 de março de 2017

AKRASIA


Parece uma anedota de mau gosto? Não é.
Clique na imagem é do Expresso.

EM QUE FICAMOS?

Como surgiu o 17 de Março? Contra mim falo, mas sempre supus que Joana Marques Vidal, no despacho de prorrogação de prazo do inquérito a Sócrates, tivesse escrito... até 17 de Março. Afinal não. O que a Procuradora-Geral da República estabeleceu foi um prazo de 180 dias. Ora os 180 dias terminaram à meia-noite de segunda-feira, 13 de Março. Os advogados do antigo primeiro-ministro já requereram à PGR notificação «do despacho de enceramento do inquérito», porque os actos praticados depois do dia 13 são ilegais.

O que me espanta é que, até ao momento, que se saiba, nenhum jornalista tenha ido à PGR perguntar como é. Provavelmente nem se deram ao trabalho de contar pelos dedos.

NEXIT?

Hoje é dia de eleições gerais na Holanda. Concorrem 28 partidos. Por tradição, 14 conseguem eleger deputados. As últimas sondagens dão empate técnico entre o VVD, ou Volkspartij voor Vrijheid en Democratie, de Mark Rutte, primeiro-ministro desde 2010, e o PVV, ou Partij voor de Vrijheid, de Geert Wilders, líder da extrema-direita.

Rutte tem 50 anos, é solteiro e liberal. Wilders, dissidente do VVD, 53 anos, casado, assumidamente xenófobo e anti-imigração, tenciona propor um referendo para a saída da UE.

Nos últimos cem anos, todos os governos holandeses foram de coligação. E nem sempre o primeiro-ministro sai do partido mais votado. Portanto, a menos que o PVV consiga eleger os 76 deputados necessários para a maioria absoluta, Wilders dificilmente será PM. Mas é evidente que uma votação muito expressiva no seu partido influenciará a condução da política holandesa, qualquer que seja o perfil do governo que venha a ser empossado. Estima-se que o PVV (Wilders) eleja 26 deputados, contra 28 do VVD (Rutte). A ver vamos.

terça-feira, 14 de março de 2017

TURQUIA VS UE

A Turquia não autoriza o regresso a Ankara do embaixador da Holanda. Ausente do país, o embaixador preparava-se para regressar ao seu posto. «Não fomos nós que criámos esta crise», disse Numan Kurtulmus, vice-primeiro-ministro e porta-voz do Governo turco.

segunda-feira, 13 de março de 2017

BREXIT EM FORÇA

Esta noite, a Câmara dos Comuns chumbou os diplomas da Câmara dos Lordes sobre o Brexit. Por 335 votos contra 287, foi rejeitada a protecção dos direitos dos imigrantes (incluindo os da UE) residentes no Reino Unido. Por 274 votos contra 135, foi rejeitada a exigência de votação parlamentar no fim das negociações. Theresa May ficou com as mãos livres para fazer o que quiser.

O FOLHETIM

O Ministério Público desistiu de meter Vale de Lobo no pacote de acusações a Sócrates. Inexistência de provas sustentáveis, esclarece Judite de Sousa. Aliás, nem provas nem... agarrem-se, indícios! Nada. Como o antigo primeiro-ministro ainda estava a ser interrogado quando a TVI deu a notícia, pode-se conjecturar tudo. O facto do prazo ir derrapar (a deadline era a próxima sexta-feira, dia 17) não é novidade, mas Judite sublinha que os prazos são meramente indicativos. Portanto, mais um mesito, na melhor das hipóteses. Razão tinha o Presidente da República quando, hoje de manhã, na sessão de abertura da conferência “Justiça igual para todos”, promovida pela Associação 25 de Abril e realizada na Gulbenkian, se manifestou desconfortável com o estado da Justiça. E disse-o com ar sisudo, coisa rara nele.

domingo, 12 de março de 2017

NAPALM

Lembram-se da tirada famosa de Robert Duvall, martelada ao som da Cavalgada das Valquírias, de Wagner? Esta: «Adoro o cheiro de napalm logo pela manhã.» É a frase mais citada de Apocalypse Now, o filme de Coppola. Aplica-se com propriedade à situação actual na Europa. O que está a passar-se entre a Holanda e a Turquia é de uma gravidade extrema. Na prática, os dois países estão com as relações diplomáticas cortadas: embaixadas encerradas em Haia e Ankara, consulados encerrados em Roterdão e Istambul. Um ministro turco impedido de desembarcar em Amesterdão, uma ministra turca impedida de entrar no consulado do seu próprio país, detida e expulsa de Roterdão. Comícios de apoio ao referendo de Erdogan, cancelados e proibidos na Holanda. Motins de rua desde ontem à noite. Erdogan ameaça proibir o acesso de companhias aéreas holandesas à Turquia. É muita coisa junta.

Na Alemanha, a situação mantém-se dentro de limites razoáveis. Foram autorizados trinta comícios, mas Merkel foi ao Bundestag dizer que não admitia comparações com o regime nazi. Os holandeses, que também não gostaram de ouvir Erdogan dizer que eles têm mentalidade e actuam em função de reminiscências nazis, estão a esticar a corda, até porque no próximo dia 15 há eleições gerais.

ESCALADA


Aumenta a tensão entre a Holanda e a Turquia. A embaixada holandesa em Ankara foi encerrada pelas autoridades turcas, bem como o consulado em Istambul. O ministério turco dos Negócios Estrangeiros aconselhou o embaixador holandês a meter férias longas. Entretanto, Fatma Betül Sayan Kaya, ministra turca dos Assuntos Familiares, foi mesmo expulsa da Holanda. Ahmed Aboutaleb, o presidente da Câmara de Roterdão, foi claro: «Ela foi expulsa para o país de onde veio.» Lembrar que Ahmed Aboutaleb, muçulmano, é um imigrante marroquino com dupla nacionalidade. No Twitter, a governante publicou o statement que a imagem mostra. A violência prossegue nas ruas.

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