quinta-feira, 22 de outubro de 2020

TORRE LITERÁRIA


Abriu na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, a Torre Literária / Louvor e Simplificação da Literatura Portuguesa, exposição permanente (museu) dedicada à literatura portuguesa. Ocupa catorze salas espalhadas por quatro pisos do edifício, estando organizada do presente para o passado: do século XX ao século XV.

Na secção Photomaton os visitantes podem ser retratados «através do uso de algoritmos de visão computacional e de técnicas generativas não deterministas [...] usando apenas elementos tipográficos, mais especificamente letras.» Cada retrato será único e irrepetível.

Lembrar que no mesmo edifício encontra-se instalado o Centro Português do Surrealismo, dotado de um excelente museu.

A Torre Literária abre de segunda-feira a sábado. Encerra aos domingos, feriados nacionais, Páscoa, Natal e Ano Novo.

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NOVA TEMPORADA

Começou a nova temporada de Sei onde enfiaste o Covid. Com a progressão de casos a Norte, os caciques do costume voltaram ao destrambelho. 

Isto deixa mal as pessoas do Norte, que não têm culpa nenhuma, e deviam estar representadas por políticos sensatos.

Quando, no início do Verão, uma vaga de infecções (com origem em núcleos de imigrantes hospedados em condições degradantes) alastrou na Grande Lisboa, nenhum autarca da região veio rasgar as vestes para a televisão.

Não vale a pena chover no molhado: a pandemia instalou-se, afecta gente de todos os estratos sociais, não distingue geografias nem etnias específicas. Os chiliques napolitanos estavam na moda nos anos 40 do século passado, mas hoje ninguém dá para esse peditório.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

PRIVADOS & COVID-19


Se dúvidas houvesse... Mas, pelos vistos, meio milhar de milhão de euros saídos dos nossos bolsos são amendoins para a caterva que capturou as televisões.

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terça-feira, 20 de outubro de 2020

O CÉU É O LIMITE

O BE quer um novo Orçamento de Estado. Ora bem! E eu quero quadruplicar a minha pensão líquida e trocar (sem encargos) o Volkswagen por um Bentley.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

INTERCAMPUS

Sondagem da Intercampus hoje divulgada no Negócios e no Correio da Manhã

PS 37,5% / PSD 24,8% / BE 11% / CHEGA 7,7% / CDU 4,3% / PAN 4,1% / CDS 4,1% / IL 2,4%.

domingo, 18 de outubro de 2020

MÉDICOS

O BE exige a contratação de mais médicos. Parece-me bom que haja mais médicos, embora Portugal já ocupe um dos melhores lugares (o terceiro) no ranking europeu de médicos por cada cem mil habitantes.

Isto dito, gostaria de saber se existem médicos desempregados no nosso país. Como presumo que não existam, vamos contratar esses médicos onde?

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

CÂNONE


Organizado por António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, professores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Fundação Cupertino de Miranda editou, e a Tinta da China imprimiu, O Cânone.

A partir de autores nascidos entre 1391 e 1939 — ou seja, entre Dom Duarte e Luiza Neto Jorge —, a obra estabelece quem são os 50 nomes centrais da literatura portuguesa. Mas também analisa grupos, escolas, movimentos, revistas e palavras importantes.

Além dos organizadores, o volume conta com a colaboração de diversos críticos, tais como, entre outros, Abel Barros Baptista, Gustavo Rubim e Pedro Mexia.

Foi lançado anteontem e, como ainda não vi, não posso comentar, excepto dizer que a lista dos 50 me parece sensata.

São, por ordem alfabética, os seguintes: Agustina Bessa-Luís, Alexandre Herculano, Alexandre O’Neill, Almada Negreiros, Almeida Garrett, Antero de Quental, António José da Silva, António Nobre, António Vieira, Aquilino Ribeiro, Bernardim Ribeiro, Bocage, Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha, Carlos de Oliveira, Cesário Verde, Dom Duarte, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Fiama Hasse Pais Brandão, Florbela Espanca, Frei Luís de Sousa, Gil Vicente, Gomes Leal, Herberto Helder, Irene Lisboa, João de Deus, Jorge de Sena, José Régio, José Rodrigues Miguéis, José Saramago, Júlio Dinis, Luís de Camões, Luiza Neto Jorge, Maria Judite de Carvalho, Mário Cesariny, Mário de Sá-Carneiro, Miguel Torga, Oliveira Martins, Raul Brandão, Ruben A., Ruy Belo, Sá de Miranda, Teixeira de Pascoaes, As Três Marias, Vitorino Nemésio.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

A rentrée trouxe novidades há muito aguardadas. Entre elas, a edição em volume único da autobiografia de Ruben A., a edição da poesia reunida de Leonor de Almeida, romances novos de Colson Whitehead, David Grossman e Bernardine Evaristo, mas também a oportuna reedição do clássico de Daniel Defoe sobre a Grande Peste de Londres.

No ano do centenário do nascimento de Ruben A. (1920-2020), o mais secreto dos grandes autores portugueses, reeditam-se num único volume os três tomos de O Mundo À Minha Procura, autobiografia publicada entre 1964 e 68. Natural de Lisboa, Ruben Alfredo Andresen Leitão morreu em Londres, cidade onde viveu vários anos. Em Setembro de 1975, um ataque de coração impediu que assumisse o cargo de Senior Fellow no St Antony’s College de Oxford. Tinha 55 anos e uma obra dividida entre ficção (contos e romances), dramaturgia, narrativa de viagem, diarística e História. Salazar chamava-lhe “o maluco”. Não obstante, após ter trabalhado cerca de 20 anos na embaixada do Brasil em Lisboa, foi administrador da Imprensa Nacional e director-geral dos Assuntos Culturais do ministério da Educação e Cultura. A Torre da Barbela, romance de 1964, é um dos títulos centrais do cânone nacional. Escrito em registo desembaraçado e culto, O Mundo À Minha Procura conta agora com um prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa. 

Leonor de Almeida (1909-1983) é hoje um nome ignorado por quase toda a gente. Em boa hora decidiu Vladimiro Nunes reunir os quatro livros que constituem a sua poesia completa. Na Curva Escura dos Cardos do Tempo é o resultado desse trabalho, com o detalhe de seriar os livros por ordem inversa à da publicação original. Estabelecendo, no prefácio, o guião da recepção crítica da poeta, Ana Luísa Amaral estranha a desatenção de que Leonor de Almeida, uma feminista avant la lettre, tem sido alvo. Publicada quase em simultâneo, a monografia biogáfica Tatuagens de Luz, de Cláudia Clemente, ilumina a personalidade de uma autora que urge descobrir.

Quem acompanha a ficção norte-americana não ignora Colson Whitehead (n. 1969), duas vezes laureado com o Pulitzer de Ficção — proeza até ao momento apenas lograda por Tarkington, Faulkner e Updike —, primeiro com A Estrada Subterrânea, agora com Os Rapazes de Nickel, acabado de traduzir. Voltamos à escavação do passado, neste caso aos horrores da Dozier School, o reformatório da Flórida onde desde 1899 rapazes negros foram torturados e enterrados num cemitério secreto. O romance ficciona essa realidade macabra, descoberta por estudantes universitários de arqueologia. Dito de outro modo: a experiência pessoal de Elwood transforma o terrorismo racial em Literatura. 

O mais recente romance do israelita David Grossman (n. 1954), A Vida Brinca Comigo, confirma-o como uma das grandes vozes actuais. O livro inspira-se em factos verídicos, em particular nos vividos por uma sobrevivente de Goli Otok, a ilha croata do Mar Adriático que serviu de prisão e campo de trabalhos forçados. Quando as personagens do romance (Vera, Nina, Guili e Rafi) visitam o local, é todo o passado que regressa. Não obstante a secura da linguagem, A Vida Brinca Comigo é o relato envolvente e doloroso da história de duas famílias.

Com o vibrante Rapariga, Mulher, Outra, a britânica Bernardine Evaristo (n. 1959) venceu, ex-aequo com Margaret Atwood, o Man Booker Prize de 2019. Bernardine, filha de pai nigeriano, constrói um mosaico com 12 personagens principais (Amma, Yazz, Dominique, Carole, Bummi, LaTisha, Shirley, Winsome, Penelope, Megan-Morgan, Hattie, Grace) através de cujas vidas, cosidas num patchwork multicultural, vão sendo abordadas questões pós-coloniais e de identidade de género. É pena que Nzinga, feminista radical e rainha do vodu, não tenha direito a capítulo próprio. Logo a abrir, não é difícil identificar em Amma, uma dramaturga lésbica negra, o alter-ego da autora. Nem todas são jovens habitantes de Londres. Hattie, por exemplo, tem 93 anos e mora no Norte da Inglaterra. Em suma, um retrato muito nítido do Reino Unido contemporâneo.

Pelas piores razões, vem a propósito a reedição de Diário do Ano da Peste, o clássico que Daniel Defoe (1660-1731) publicou em 1722 a seguir ao sucesso planetário de Robinson Crusoe. Defoe era uma criança quando a peste bubónica dizimou 200 mil pessoas em Londres, mas o livro faz um relato impressivo da epidemia, incluindo listas com as directivas impostas pelo Lord Mayor para controlo de danos. Precursor do romance moderno inglês, Defoe foi, além de homem de negócios, um político muito interventivo e ocasional espião. Rui Tavares assina o prefácio.

CALAMIDADE


O país entrou hoje em estado de Calamidade. A situação implica novas medidas, uma delas o uso de máscaras na rua, sempre que não haja distanciamento físico.

«Recomendar o uso de máscara ou viseira a pessoas com idade superior a 10 anos, para o acesso, circulação ou permanência nos espaços e vias públicas [...] sempre que o distanciamento físico recomendado pela Autoridade de Saúde Nacional se mostre impraticável ou o respetivo uso seja incompatível com a atividade que as pessoas se encontram a realizar

— Resolução do Conselho de Ministros n.º 88-A/2020, de 14 de Outubro, in Diário da República n.º 200, Série I, 1.º suplemento.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

SÃO ESCOLHAS


José Alberto de Carvalho caiu na ratoeira de fazer (mais) um frete descarado ao bastonário da Ordem dos Médicos. Sem surpresa, Marta Temido deu-lhe um baile. Receio que JAC não tenha percebido o óbvio: São escolhas.

Elementar. Bravo, senhora ministra.

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DRAWING ROOM LISBOA


Abre hoje ao meio-dia, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, a terceira edição do Drawing Room Lisboa. Desde o início da pandemia é a primeira feira de arte contemporânea com presença de público.

Estão representadas vinte galerias (na visita online são quarenta) e dezenas de artistas de várias gerações, de Paula Rego a Pedro Barateiro, passando por Manuel San-Payo, Helena Almeida, Sergio Mora, Marlene Stamm, Rui Ferreira, Maria Condado, Pedro Tudela, Rosana Ricalde, Martinho Costa, Sara Mealha, José Loureiro, Vera Mota, Nuno Gil, Pedro Calapez e outros.

Mónica Álvarez Careaga, a directora, e Ivânia Gallo, responsável pelas relações institucionais, estão novamente de parabéns. Encerra domingo.

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terça-feira, 13 de outubro de 2020

UMA FOTO, MIL PALAVRAS


Imagem distópica da audiência, ontem, no Comité Judiciário do Senado, no âmbito da nomeação de Amy Coney Barrett como juíza do Supremo. A juíza, católica fundamentalista, levou com ela o marido e seis dos sete filhos, que se vêem à esquerda da imagem.

Foto de Erin Schaff para o New York Times. Clique.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

OE 2021 & CULTURA

Na Cultura, o OE 2021 contempla um reforço de 11% relativamente ao Orçamento em vigor.

São cerca de 49 milhões de euros (verba insuficiente para comprar uma mansão discreta em Mayfair ou um apartamento decente no Upper East Side) com dois destinos: 35,6 milhões para o ministério de Graça Fonseca e o restante para áreas culturais não tuteladas pelo ministério da Cultura, tais como o ensino artístico não superior, as Faculdades de Belas Artes, o cinema e o audiovisual, as actividades artísticas do Instituto Camões, etc. A ver vamos a sua execução.

O diploma é hoje entregue na Assembleia da República.

domingo, 11 de outubro de 2020

MAIS SAÚDE EM ALVALADE


Foi anteontem inaugurada a Unidade de Saúde Familiar de Alvalade. José António Borges foi o anfitrião da cerimónia, em que participaram Marta Temido, Fernando Medina, Luís Pisco (o presidente da ARS Lisboa e Vale do Tejo), Eunice Carrapiço e outras personalidades.

Instalada no vasto parque do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa e coordenada por Mariana Freire, a USF Alvalade vai dar cobertura total do serviço de medicina familiar a dezassete mil utentes.

As fotos são da Junta de Freguesia de Alvalade. Clique.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

UK APERTA FRONTEIRAS


A partir de Outubro de 2021, nenhum cidadão entra no Reino Unido sem passaporte. A exigência, comunicada ontem pelo Governo britânico (ver imagem), afecta em especial os cidadãos da UE, mais os da Noruega, Islândia, Suíça e Liechtenstein. Cartões de cidadão e bilhetes de identidade deixam de ser aceites.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

AS MILÍCIAS DE TRUMP


No Michigan, o FBI acusou treze homens (e prendeu seis) por tentativa de sequestro da governadora democrata Gretchen Whitmer. Os presos são Adam Fox, Kaleb Franks, Brandon Caserta, Ty Garbin, Daniel Harris e Barry Croft.

Segundo o FBI, existem provas de treino de armas de fogo, exercícios de combate e construção de explosivos.

Os treze indivíduos, membros do Wolverine Watchmen, uma milícia supremacista branca, foram acusados ​​de conspirar para invadir o Capitólio do Estado e iniciar uma guerra civil antes do dia da votação presidencial. O plano previa sequestrar a governadora na sua casa de férias, efectuando de seguida um julgamento popular por traição. Recorde-se que, em Abril, Gretchen Whitmer contrariou as directivas de Trump sobre gestão da pandemia, tornando-se um alvo a abater pelos grupos extremistas.

Faltam 25 dias para a eleição presidencial.

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NOBEL DA LITERATURA 2020


A norte-americana Louise Glück, 77 anos, poeta, ensaísta, professora e, desde 2004, escritora-residente da Rosenkranz da Universidade de Yale, venceu o Nobel da Literatura 2020.

Nascida (1943) em Nova Iorque, Louise Glück tem ascendência judaico-húngara. Frequentou duas universidades, Sarah Lawrence e Columbia, mas não concluiu nenhum curso. O livro de estreia saiu em 1968, depois do primeiro divórcio.

Eleita Poet Laureate em 2003, recebeu, entre outros, o Prémio Pulitzer, o Bollingen, o PEN, o Lannan, o National Book Critics Circle Award, o Prémio da Academia Americana de Poetas e a Medalha Nacional de Humanidades conferida por Obama em 2015.

The Triumph of Achilles (1985) e Averno (2006) são dois dos seus melhores livros. A antologia Poems 1962-2012, principal recolha da obra, é uma boa abordagem de conjunto. Quem conheça o Oxford Book of American Poetry, a Norton Anthology of Poetry ou a Columbia Anthology of American Poetry, reconhece o nome de Louise Glück. Não conheço traduções da sua poesia em Portugal.

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OS VICES


Pandemia, relações com a China, emprego, fiscalidade, mudanças climáticas e acesso a cuidados de saúde, foram os tópicos principais do debate, civilizado, que ontem à noite juntou Kamala Harris e Mike Pence no fórum de Salt Lake City.

Kamala fez questão de deixar claro que não é tão liberal como a pintam. Pence não parou (com mentiras pelo meio) de elogiar Trump, sem ter feito nenhum gesto para afastar a mosca que permaneceu dois minutos na sua cabeça. Kamala não respondeu à pergunta sobre a legitimidade de Trump em nomear Amy Coney Barrett para a vaga de Ruth Bader Ginsburg. À questão, argumentou que Trump nunca nomeou um juiz federal negro.

Clique na imagem do NYT.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

NOBEL DA LITERATURA


Atribuído desde 1901 pela Academia Sueca, o Nobel da Literatura ignorou autores do quilate de Lev Tolstoi (1828-1910), Marcel Proust (1871-1922), Robert Frost (1874-1963), Virginia Woolf (1882-1941), James Joyce (1882-1941), Franz Kafka (1883-1924), Jorge Luis Borges (1899-1986), Vladimir Nabokov (1899-1977), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Simone de Beauvoir (1908-1986), John Updike (1932-2009), Philip Roth (1933-2018) e outros. Cito apenas uma dúzia de mortos inquestionáveis.

Pode-se levar isto a sério? Pode, mas não do ponto de vista da Literatura. A geopolítica é determinante, mas também os idiomas dominantes, a militância de causas, o ar do tempo (vejam-se os prémios atribuídos durante a Guerra Fria), o poder dos lobbies transnacionais, etc. O resto não conta.

O gráfico ilustra bem a realidade. Clique.

FOLHETIM ENCERRADO


Costa e Marcelo deixaram a Direita xicona e os ressabiados do costume a falar sozinhos. Vingou a tese do mandato único para responsáveis judiciais, inaugurada com a não recondução da PGR Vidal. Ontem mesmo, o primeiro-ministro propôs e o Presidente da República nomeou José Fernandes Farinha Tavares, juiz conselheiro, como presidente do Tribunal de Contas.

José Fernandes Farinha Tavares chegou a ocupar cumulativamente os cargos de director-geral do Tribunal de Contas (1995-2020), presidente do Conselho Administrativo do TC, secretário-geral do Conselho de Prevenção da Corrupção, e chefe de gabinete do presidente cessante. Um homem da casa, portanto.

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terça-feira, 6 de outubro de 2020

A APP DE RUI RIO


As pessoas compram todos os gadgets que a publicidade ou a manipulação política lhes impinge, e depois queixam-se sem razão. Foi o que aconteceu com Rui Rio.

Clique no Twitter do líder do PSD.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

KENZO 1939-2020


Vítima de Covid-19 morreu ontem em Paris o estilista japonês Kenzo, radicado na capital francesa desde 1964.

Após a morte do seu companheiro, em 1993, Kenzo vendeu a marca ao conglomerado LVMH Moët Hennessy-Louis Vuitton, mantendo-se porém como estilista-chefe até 1999, ano em que abandonou a moda e foi substituído por Humberto Leon e Carol Lim, que se mantiveram na casa até Julho de 2019. Desde então, a marca Kenzo é da responsabilidade do português Felipe Oliveira Baptista, natural dos Açores.

Kenzo tinha 81 anos.

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sábado, 3 de outubro de 2020

SONDAGEM ICS & ISCTE

E é isto. A sondagem hoje divulgada pelo Expresso foi realizada pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa associado ao ISCTE.

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TRUMP INTERNADO

Apesar dos esforços da Casa Branca em minimizar a situação, Trump foi levado de avião, ontem ao fim da tarde, para o Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, onde permanecerá por tempo indeterminado. Entretanto, foi cancelada toda a agenda da campanha presidencial.

Sean P. Conley, médico pessoal do Presidente, informou que Trump recebeu uma dose única (oito gramas) de um compósito de anticorpos policlonais, mais zinco, vitamina D, Melatonina, Aspirina e Famotidina. Também tomou Remdesivir, medicamento já aprovado pela FDA para doentes hospitalizados. Segundo fontes da West Wing, os sintomas leves da versão oficial traduzem-se por tosse persistente, congestão e febre, sintomas que foram piorando ao longo do dia.

Sabe-se hoje que já na quarta-feira Trump testou positivo, mas o facto foi ocultado para que o Presidente pudesse fazer campanha na quarta e na quinta-feira. E só ao início da manhã de sexta foi divulgada a informação. Trump teve de ser evacuado para o hospital porque nessa tarde (sexta) terá tido um episódio sério de falta de ar, resolvido com oxigénio, ainda na Casa Branca.

Se a situação se agravar, o Presidente pode, nos termos da 25.ª Emenda, transferir temporariamente os seus poderes para o vice-Presidente.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

TRUMP INFECTADO


Eram 05:54 da manhã quando Trump anunciou no Twitter que ele e Melania estão infectados: «Tonight I tested positive for COVID-19. We will begin our quarantine and recovery process immediately. We will get through this TOGETHER!» Melania também deu a notícia no Twitter.

Foram canceladas as deslocações à Flórida, Wisconsin e Arizona previstas para este fim-de-semana. Ainda não se sabe se (como pretendem alguns dos seus conselheiros) fará hoje uma comunicação ao país.

Recorde-se que, até ontem, os Estados Unidos tinham registados cerca de oito milhões de infectados e mais de 212 mil mortos.

Imagem: NYT.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

QUINO 1932-2020


Praticamente cego e vítima de AVC, morreu ontem Quino, i.e., Joaquín Salvador Lavado Tejón, o argentino que criou a Mafalda, personagem de banda desenhada que marcou sucessivas gerações. Tinha 88 anos.

Publicado e traduzido em todo o mundo, Quino era filho de pais espanhois, expressando-se em dialecto andaluz até à adolescência. Mafalda nasceu por causa de uma campanha publicitária (1962) aos frigoríficos e máquinas de lavar roupa Mandsfield, trabalho rejeitado que o levou a publicar cartoons na imprensa, em plena ditadura militar de Onganía.

O ciclo Mafalda vai de 1964 a 1973, caracterizando-se pelo pacifismo (a Guerra do Vietname estava no auge), o feminismo, a crítica ao consumismo e a insatisfação das juventudes rebeldes. A “morte” de Mafalda coincide com o regresso de Perón ao poder e consequente exílio (na Itália) de Quino, que continuou a publicar livros até 2016 e a colaborar semanalmente com o jornal El País durante mais de vinte anos.

Cidadão espanhol desde 1990, Quino deixou de viver em Espanha em 2014, ano em que recebeu o Prémio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades. Antimonárquico de formação, tornou pública a sua admiração por Felipe VI.

A imagem mostra Quino em Setembro de 2014, sentado ao lado de Mafalda, Manolito e Susanita, obra de 2009 do escultor Pablo Irrgang. O banco encontra-se no bairro de San Telmo, em Buenos Aires.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

BIDEN VS TRUMP


Nenhuma surpresa no primeiro debate entre Trump e Biden, realizado a noite passada na Case Western Reserve da Universidade de Cleveland.

Como de costume, Trump desatinou. Biden viu-se grego para argumentar, a tal ponto que Chris Wallace, o moderador, teve de intervir para que Trump deixasse falar o opositor. Isto na Fox News, estação radical-trumpista. Caos total.

Durante hora e meia esgrimiram-se insultos num patamar de agressividade nunca visto no país. Biden classificou Trump como palhaço, mentiroso, irresponsável e racista. O Presidente recusou-se a condenar os grupos supremacistas brancos (os quais serviriam de contrapeso aos Antifa), apresentou-se como paladino da luta contra a pandemia, voltou a insistir na iminente fraude eleitoral e não se coibiu de comentar a vida pessoal e profissional dos filhos de Biden, um por ter sido toxicodependente, outro por causa dos negócios. Também atribuiu a Biden afirmações feitas por Hillary Clinton em 1996 (e o moderador não corrigiu). Ainda houve tempo para falar de impostos e do clima, mas sempre num tom de zaragata. Deplorável.

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LOBBY


Se dúvidas houvesse acerca do que está em jogo no negócio das vacinas, a nomeação de Durão Barroso para presidente da Gavi-The Vaccine Alliance (a organização de Bill e Melinda Gates) não podia ser mais eloquente.

Em Portugal, a Gavi-The Vaccine Alliance irá monitorizar a distribuição de vacinas contra a Covid-19 (se e quando elas vierem a existir). Recorde-se que Durão Barroso ocupa o cargo de presidente não executivo da Goldman Sachs International.

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terça-feira, 29 de setembro de 2020

DESASTRE

Teve consequências menos gravosas do que inicialmente se supunha o desabamento, na Praça de Espanha, de uma galeria do metropolitano de Lisboa.

Apesar dos mais de trezentos passageiros a bordo, e do pânico gerado, não houve mortos, sendo os feridos (vítimas de ansiedade) apenas quatro.

Tudo aconteceu por volta das 14:20 e a circulação da Linha Azul foi imediatamente interrompida. Vai aliás manter-se interrompida, no troço compreendido entre a Praça de Espanha e São Sebastião, nos próximos três dias.

A VIDA COMO ELA É


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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

JORGE SALAVISA 1939-2020

Morreu hoje o bailarino e programador cultural Jorge Salavisa, antigo director do Ballet Gulbenkian (1977-96) e do Teatro Municipal de São Luiz (2002-10). Antes de regressar a Portugal, em 1977, Salavisa trabalhou cerca de vinte anos fora de Portugal, ao lado dos nomes mais importantes do bailado contemporâneo: Margot Fonteyn e Roland Petit são apenas dois entre dezenas, em companhias tão diferentes como a Ópera de Paris, o Grand Ballet du Marquis de Cuevas, o London Festival Ballet, o New London Ballet (onde chegou a director-assistente), o Scottish Ballet (Glasgow), o Performing Arts Research and Training Studios (Bruxelas) e outras.

Durante catorze anos, entre 1984 e 1998, foi professor-coordenador da Oficina Coreográfica da Escola de Dança do Conservatório Nacional. Entre 1998 e 2001 foi Director da Companhia Nacional de Bailado.

Publicou as memórias no volume Dançar a Vida (Dom Quixote, 2012), obra na qual expõe publicamente a sua condição de homossexual.

Foram seus alunos alguns dos mais destacados bailarinos portugueses, como, entre outros, Rui Horta, Clara Andermatt, João Fiadeiro, Vera Mantero, Paulo Ribeiro e Benvindo Fonseca.

Homem extensamente culto e afável, faria 81 anos no próximo mês de Novembro.

CUF TEJO ABERTO

Começam hoje a funcionar algumas valências do novo hospital. A saber: ambulatório, consultas e exames, análises clínicas e de imagiologia, o hospital de dia oncológico. Até ao Natal abre o bloco operatório, composto por dez salas, sendo uma híbrida e outra de cirurgia robótica; a unidade de cuidados intensivos, com catorze camas; a área de internamento com 213 camas; as salas de exames especiais e o atendimento permanente (urgências) de adultos.

O novo hospital do Grupo Mello Saúde está dotado de Centro de Neurociências, Centro de Coração e Vasos, Centro de Oncologia, Centro de Cirurgia e Patologia Digestiva, Centro da Criança e do Adolescente, Centro da Mulher, Dermatologia, Oftalmologia, Endocrinologia e Nutrição, Urologia, Cirurgia Plástica e Estética, Prevenção e Envelhecimento, Ortopedia Músculo-Esquelético, Otorrinolaringologia, Pulmão, Neurocirurgia, Cirurgia Robótica, Radiologia de Intervenção, Medicina geral, etc.

Os 75 mil metros quadrados do edifício albergam ainda um hospital-escola, um Centro de Simulação (realidade aumentada), um anfiteatro cirúrgico, um auditório com 108 lugares, uma biblioteca digital e outros espaços.

Com seis pisos acima do solo, quatro pisos subterrâneos e estacionamento para 800 viaturas, o edifício desenhado por Frederico Valssassina veio alterar o perfil de Alcântara e, presumo, o fluxo de trânsito na zona.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

EUROPA NA AR

Marcelo vetou o diploma no passado 10 de Agosto, mas o PS e o PSD aprovaram esta manhã a redução dos debates parlamentares sobre a União Europeia. Doravante serão apenas dois por semestre. Todos os outros partidos votaram contra.

LE BUREAU DES LÉGENDES


A série de Eric Rochant chegou este ano à quinta temporada. Pode ser vista na RTP-2 como A Agência Clandestina.

Mathieu Kassovitz, o protagonista, não tem o gabarito de Alec Guinness (o memorável George Smiley de Tinker Tailor Soldier Spy, mini-série da BBC de 1979), mas tenho empatia com a persona de Malotru — i.e., Paul Lefèvre ou Guillaume Debailly ou Pavel Lebedev —, o agente mal-amado da DGSE francesa por ele interpretado.

Óptimo entretenimento para quem, como eu, gosta de histórias de espionagem. Não tem a secura dos ingleses, mas os serviços secretos franceses têm um longo historial de intervenção externa, cinismo equivalente ao dos britânicos e know-how q.b. neste tipo de enredos, mesmo se Rochant não é Chabrol.

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terça-feira, 22 de setembro de 2020

MICHAEL LONSDALE 1931-2020


Morreu ontem Michael Lonsdale, um dos maiores actores da sua geração. Filho de mãe francesa e pai inglês, Lonsdale fez cinema, teatro e televisão durante mais de sessenta anos, mas, para o público mais distraído, foi um actor “invisível”. Isto apesar de papéis memoráveis e de ter trabalhado com todos os realizadores que contam. Tinha 89 anos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O DIA DOS PRODÍGIOS


Por iniciativa da respectiva Junta de Freguesia, a 4.ª edição de Alvalade Capital da Leitura é dedicada a Lídia Jorge, que este ano celebra 40 anos de vida literária.

A autora de O Dia dos Prodígios (1980) será homenageada entre hoje e o próximo dia 26. Tudo começa daqui a pouco, com uma sessão na Biblioteca Nacional de Portugal, na qual participam, entre outros, Carlos Reis, Fernando Pinto do Amaral, Guilherme d’Oliveira Martins, Isabel Pires de Lima, António Carlos Cortez, Pierre Léglise Costa, José Cândido Oliveira Martins e Isabel Cristina Rodrigues. 

Depois de amanhã, dia 23, Ana Luísa Amaral, Filipa Leal e Isabel Rio Novo juntam-se no Centro Cívico Edmundo Pedro para falar de Literatura e Identidade de Género. O debate será moderado por Pilar del Rio. A sessão é antecedida por um momento musical: fados de Mísia e um recital a quatro mãos interpretado por Mariana Soares e Manuela Fonseca. 

Carlos Vaz Marques é o comissário desta 4.ª edição de Alvalade Capital da Leitura. 

Haverá mais, mas por agora fico por aqui.

Por estar fora de Lisboa não poderei estar presente, nem na BN nem no jantar de logo à noite, mas deixo aqui um grande abraço a Lídia Jorge e os parabéns a José António Borges, responsável pela iniciativa.


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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

ALVALADE MILLENNIAL


O que eu penso sobre o bairro onde vivo há 23 anos. Texto publicado no n.º 21, Setembro-Novembro de 2020, da revista da Junta de Freguesia.

Quando em 1997 me mudei para Alvalade encontrei uma realidade diferente daquela a que estava habituado. Cascais, onde vivia, tem praias e população jovem. Lembro-me de, no primeiro dia, sentado numa antiga e muito conhecida pastelaria da Rua de Entrecampos, ter sentido quão diferente era o território.

A mudança trouxe vantagens, e ter passado a fazer a pé o trajecto entre casa e o ministério não foi coisa pouca. Por outro lado, em vinte anos, muito mudou. O ciclo da vida renovou gerações e a organização administrativa da cidade, agregando o Campo Grande e São João de Brito a Alvalade, faz com que a realidade de 1997 não coincida com a de 2020.

Com os seus espaços verdes, campus universitários, equipamentos culturais, gastronomia global, comércio de todo o tipo e mais de 30 mil habitantes, Alvalade é provavelmente a parcela mais “moderna” de Lisboa. Decerto João Faria da Costa, o urbanista que desenhou Alvalade na segunda metade dos anos 1940, ficaria satisfeito com a qualidade dos continuadores.

Afinal, parte significativa do edificado (escolas, blocos de apartamentos, núcleos residenciais como as Estacas ou São Miguel, etc.) que marca o perfil da freguesia saiu dos ateliers de Ruy d’Athouguia, Formosinho Sanchez, José Segurado, Filipe Nobre Figueiredo, Miguel Jacobetty Rosa e Porfírio Pardal Monteiro. Dito de outro modo, uma visita guiada à arquitectura portuguesa não pode ignorar Alvalade.

O novo século viu desaparecer lugares míticos, como os cinemas Quarteto e Londres, o primeiro com quatro salas e ciclos de cinema alternativo, o segundo com duas salas e o glamour das estreias. Não foram os únicos a desaparecer, mas são porventura os que perduram no imaginário popular.

Nenhuma cidade está imune à mudança e Lisboa não é excepção. A diferença está toda em Alvalade, que tem sabido resistir ao ar do tempo, sucessivamente Estado-Novista, burguesa desalinhada, covil do Cinema Novo, soixante-huitard, eternamente janota…

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

PRESIDENCIAIS INTERCAMPUS

Sondagem da Intercampus para o Negócios e o Correio da Manhã divulgada hoje.

Marcelo 60,3% / Ana Gomes 14% /

André Ventura 9,4% / Marisa Matias 6,2% / João Ferreira (PCP) 2,9% / Tiago Mayen Gonçalves (IL) 0,5%.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

PAUSA NO SUL


As tardes emolientes do Sul.
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terça-feira, 8 de setembro de 2020

VICENTE JORGE SILVA 1945-2020


Morreu hoje Vicente Jorge Silva, fundador do Público (1990) e seu director até 25 de Setembro de 1996. Ficou célebre o editorial Geração rasca?, publicado em Maio de 1994, no auge das manifestações dos alunos do ensino secundário que se realizaram em Lisboa como consequência da introdução de provas globais no 10.º ano de escolaridade, uma decisão de Manuela Ferreira Leite, então ministra da Educação.

Além do Público, Vicente Jorge Silva deixou a sua marca noutros títulos, em particular no Comércio do Funchal (1966-74) e no Expresso (1974-90), cuja revista criou. Mas foi igualmente colunista no Diário de Notícias e no Económico, comentador da SICN, etc. Além de jornalista, realizou seis filmes.

Em paralelo foi deputado do PS eleito pelo círculo de Lisboa.

Faria 75 anos em Novembro próximo.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

7 DE SETEMBRO DE 1974


Passam hoje 46 anos sobre uma das datas mais trágicas vividas em Lourenço Marques, actual Maputo. Ainda lá vivia e tenho presentes esses dias de caos universal. Respigo do meu livro de memórias Um Rapaz a Arder, publicado em 2013 na Quetzal:

«[...] Do ponto de vista das expectativas individuais, o 25 de Abril dividiu a população branca em dois grandes grupos: os que queriam a independência branca, como na Rodésia de Ian Smith; e os que queriam a independência sob tutela da Frelimo. Entalado entre os dois, sem expressão numérica relevante, o núcleo dos que acreditavam numa solução de compromisso, com exclusão das teses federalistas. Era o meu caso. A ilusão durou pouco.

A tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974 foi um episódio tenebroso com ramificações nunca devidamente esclarecidas. Nesse sábado, foi assinado em Lusaca o acordo que definia os termos e condições da independência de Moçambique, tendo Mário Soares e Samora Machel como principais signatários. Assim que o facto foi divulgado, um grupo de antigos colonos reunidos no denominado Movimento de Moçambique Livre ocupou as instalações do Rádio Clube e fechou o aeroporto da cidade. Eram seis da tarde. Fiz alguns telefonemas e percebi que a situação era muito grave. Horas antes, um grupo de insurrectos tinha invadido a penitenciária e libertado os pides.

A situação ficou fora de controlo. Jornais pró-independência, como o Notícias e A Tribuna, foram tomados de assalto, o mesmo acontecendo às instalações da Associação Académica. O Diário foi o único jornal que saiu no domingo. Entre alusões patrióticas e recados aos vendilhões de feira (o alvo era Soares), apoiava a secessão. Os Democratas de Moçambique, cujo bureau fora destruído, deixaram as suas casas no Sommerschield e na Polana e foram refugiar-se no Caniço. Rui Knopfli foi para casa de José Craveirinha. Os transportes públicos deixaram de circular, grande parte dos restaurantes encerrou e, durante quatro dias, os cinemas não funcionaram.

O Movimento de Moçambique Livre confiava no apoio do Presidente da República, mas Spínola não abriu a boca. E contava também com Jorge Jardim, mas o ideólogo do federalismo desapareceu de cena. Apesar do apoio da BOSS, a polícia política sul-africana, o golpe não teve repercussão noutras cidades de Moçambique, nem sequer na Beira, feudo de Jorge Jardim. Mesmo assim, o MML galvanizou os sectores mais reaccionários de Lourenço Marques.

A cidade mergulhou num caos sem precedentes. Enquanto a tranquibérnia durou, não me atrevi a ir mais longe que o Parque José Cabral, a cem metros de minha casa. O Jorge estava retido em Boane, na escola de oficiais milicianos. Os rostos visíveis do MML eram Manuel Gomes dos Santos, o locutor Manuel; Victor Hugo Vellez Grilo, dirigente do PCP até às purgas de 1940 (vivia em Lourenço Marques desde 1942); Gonçalo Mesquitela, líder da direita, vogal do Conselho Ultramarino e deputado à Assembleia Nacional; Arlindo Malosso, Vasco Cardiga, Vasco Ferreira Pinto, Pires Moreira e o comandante de milícias Daniel Roxo.

Uma companhia de comandos oriunda do Niassa reabriu o aeroporto e desocupou o Rádio Clube na tarde do dia 10. Soube-se que a opera buffa tinha acabado quando as arengas de Gomes dos Santos e Vellez Grilo foram substituídas pelo grito «Galo, galo, galo. Amanheceu. Galo, amanheceu». Para uns, a senha da Frelimo visava apaziguar o Caniço. Para outros, foi o tiro de partida da desforra que se manifestou de forma assaz violenta nas vilas da Machava e da Matola. Parte significativa da população branca via esboroar-se o sonho de uma secessão de perfil rodesiano. O êxodo foi imediato. Entre os dias 10 e 12, as autoridades da África do Sul e da Suazilândia facilitaram a passagem de mais de cinquenta mil brancos, a maioria sem passaporte. Muitos regressaram ao fim de semanas. [...]»

Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013.

domingo, 6 de setembro de 2020

CIDADANIA

Tenho o mail e o messenger entupidos com o Manifesto em Defesa da Educação para a Cidadania e respectiva petição. Não assinei nem tenciono fazê-lo. Por princípio, não assino petições (não confundir com abaixo-assinados), sejam propostas por quem forem. Nesta, a natureza abstrusa da prosa segue o protocolo de regra. O que me surpreende é o seu objecto.

Porquê? Porque não vi, até ao momento, nenhum órgão de soberania pôr em causa a legitimidade da Educação para a Cidadania. Nem tenho conhecimento de nenhum projecto legislativo contra a disciplina. E também desconheço a existência de decisão judicial sobre a matéria.

Se fizéssemos petições de cada vez que um mamífero estaciona o carro em cima do passeio ou sacode tapetes à janela, etc., etc., não fazíamos outra coisa senão redigir petições.

Nessa medida, parece-me bizarro protestar contra uma decisão individual. Faltaram às aulas? Perdem o ano por faltas. Ponto. As pessoas são livres de agir em conformidade com a sua consciência e de proferir os disparates que entenderem. Ao Estado e aos tribunais (não confundir com redes sociais) compete fazer cumprir a Lei. O resto são frioleiras e uma forma de caucionar a pulsão tablóide que tomou conta da agenda política.

sábado, 5 de setembro de 2020

O DIA DOS PRODÍGIOS


Lídia Jorge em conversa com José António Borges, Presidente da Junta de Freguesia de Alvalade. O encontro, realizado hoje na Feira do livro de Lisboa, deu o tiro de partida para Alvalade Capital da Leitura, este ano dedicado ao 40.º aniversário da publicação de O Dia dos Prodígios, livro de estreia da autora, que será homenageada a partir do próximo dia 21, em sessões que terão lugar na Biblioteca Nacional, na Galeria 111 e outras instituições de referência situadas em Alvalade.

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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

SEIS SUGESTÕES


Hoje na Sábado.

Os prelos continuam activos e, apesar do Verão, há novidades de todo o tipo. Além de nova tradução da Eneida, o mais famoso épico latino, merecem destaque um romance autobiográfico de Édouard Louis, memórias de Patti Smith, o relato de Malaparte feito a partir de Leninegrado, o ensaio colérico que Bernard-Henri Lévy dedica à pandemia e a biografia política de Amália escrita pelo jornalista Miguel Carvalho.

Não é a primeira vez que os doze livros da Eneida de Virgílio são vertidos para português. Agostinho da Silva já o havia feito, mas a nova tradução de Carlos Ascenso André, além de anotações ao poema, tem a vantagem de lhe acrescentar uma introdução em forma de exegese (acção, personagens, modelo neotérico), auxiliar precioso para o leitor menos versado em cultura latina. Quem não conhece a epopeia do troiano encontra nestes quase dez mil hexâmetros heróicos, extremamente fluentes na língua de chegada, a suma de uma vida. Imprescindível. Esta edição segue de perto a de Jacques Perret. Editou a Cotovia.

Com poucos meses de intervalo foram traduzidos dois romances autobiográficos do francês Édouard Louis (n. 1992), sendo o mais recente Quem Matou o Meu Pai. Ao contrário do anterior, o foco não são os preconceitos de classe nem as várias formas de xenofobia e homofobia. O autor responsabiliza directamente quatro presidentes (Chirac, Sarkozy, Hollande e Macron) pela morte do pai: «Porque é que nunca se dizem estes nomes numa biografia?...» Citado assim, parece um panfleto. Longe disso. Quem Matou o Meu Pai é uma evocação pungente dos desencontros entre pai e filho. As “reformas” que partiram a espinha à classe trabalhadora francesa explicam o título. Setenta páginas de um libelo seco, sem resquício de auto-complacência. Editou a Elsinore.

Foi agora traduzido O Ano do Macaco, terceiro volume das memórias de Patti Smith (n. 1946). O mais recente ano do macaco foi 2016, aquele em que Patti fez 70 anos e Trump foi eleito: «O fanfarrão urrou. E o silêncio tomou conta de todos. […] Um grande viva à apatia americana.» Patti tinha razão: «quem decide são os que estão quietos e calados…» Aproveitou para viajar. Entre Manhattan e Venice Beach, a errância incluiu Lisboa, «cidade das noites calcetadas», com um punhado de páginas dedicadas a Pessoa. Vagabundagem, recordações de amigos moribundos (Sam Shepard, Sandy Pearlman) e, claro, a velha obsessão com os sonhos. Patti nunca desilude. Editou a Quetzal.

Actualmente já poucos se lembram do italiano Curzio Malaparte (1898-1957), autor de uma obra muito vasta, em vários géneros. Escritor maldito, cinco anos em degredo por delito de opinião, misto de repórter, diplomata e agente secreto, Malaparte publicou Kaputt em 1944, logo após a queda de Mussolini. A história de como fez chegar o manuscrito (dividido em três partes) a Milão ilustra bem o melindre da situação. Kaputt narra o cerco a Leninegrado visto a partir do lado alemão, enquanto correspondente do Corriere della Sera. Palavras suas: «A guerra é a paisagem objectiva deste livro.» Pese embora a quota ficcional, os factos estão lá. Traduzido em todo o mundo, Kaputt deu ressonância planetária a Malaparte. Editou a Cavalo de Ferro.

Os leitores de Bernard-Henri Lévy (n. 1948) não ficaram surpreendidos com a ira do filósofo perante a gestão política da pandemia Covid-19, Este Vírus Que Nos Enlouquece. O «medo que se abateu sobre o mundo» seria uma consequência irracional da ascensão do poder médico. Lévy exorciza os novos aprendizes de feiticeiro, o confinamento das sociedades, a lamentável combinação de «maus sentimentos e maus reflexos», o inevitável «regresso dos bufos à antiga», a rapidez com que o Ocidente se deixou subjugar pelo totalitarismo chinês. Controverso, decerto. Ou não seria BHL. Editou a Guerra & Paz.

No ano do centenário de Amália, o jornalista Miguel Carvalho (n. 1970) publicou uma minuciosa biografia da fadista — Amália. Ditadura e Revolução. O autor desconstrói a lenda que “amarra” Amália ao Estado Novo. Quem não sabe, fica a saber que Amália apoiou as famílias de presos políticos, militantes comunistas na clandestinidade e até sequazes de Humberto Delgado. As revelações não ficam por aqui. Bem documentada, essa “história secreta” é narrada com desenvoltura. Miguel Carvalho entrevistou cerca de cem pessoas, cotejou fontes e fez uma síntese de seiscentas páginas. O volume inclui cronologia, bibliografia, portfolio fotográfico e índice onomástico. Um documento para a História. Editou a Dom Quixote.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

CIDADANIA

A pretexto da birra de uma família de Famalicão que proibiu os filhos de frequentar a disciplina de Educação para a Cidadania — objecção de consciência, dizem —, várias personalidades da Direita (Cavaco Silva, Passos Coelho, Adriano Moreira, Ribeiro e Castro, David Justino, o cardeal Manuel Clemente, etc.), às quais se juntou o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto, divulgaram o manifesto Em defesa das liberdades de educação.

Alega a família de Famalicão que compete aos pais, e não ao Estado, educar os filhos em matérias como comportamento cívico, Direitos Humanos, educação ambiental, educação rodoviária, educação para o desenvolvimento sustentável, saúde e sexualidade, igualdade de género, segurança e defesa nacional, voluntariado e outras.

Tendo faltado a todas as aulas da disciplina, os alunos chumbaram. O caso chegou a tribunal. E o Presidente da República recebeu em audiência (ontem) os professores Braga da Cruz e Mário Pinto, primeiros subscritores do referido manifesto.

Então e se agora todos achássemos que compete às famílias, e não ao Estado, ensinar física e matemática?

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A ORDEM NÃO PIA?


Por causa do que se passou no Lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, instituição onde morreram 18 pessoas, a Ordem dos Médicos, controlada pelo PSD, tentou provocar uma crise política.

Agora que morreram 16 pessoas nas Residências Montepio, um lar de luxo situado na Rua do Breiner, no Porto, não se ouve um pio, embora a situação seja do conhecimento da ARS NORTE desde 4 de Agosto.

Nada de novo. A Ordem dos Médicos também ignorou a tragédia do Lar do Comércio de Matosinhos, onde morreram 24 pessoas.

Em vez de se preocuparem com festas, onde só vai quem quer, as pessoas deviam preocupar-se com a situação dos Lares (em todo o país existem 60 com surtos infecciosos), instituições onde 747 pessoas, utentes e trabalhadores, estão infectados.

Não esquecer que, do total de óbitos verificados até anteontem em Portugal, 39% correspondem a utentes de Lares.

Clique na imagem do Público.

domingo, 30 de agosto de 2020

E.M. DE MELO E CASTRO 1932-2020


E. M. de Melo e Castro, poeta e ensaísta, morreu ontem em São Paulo, no Brasil.

Engenheiro têxtil de formação e antigo professor de design, Melo e Castro foi um dos fundadores — e porventura o nome mais mediático — do Experimentalismo na poesia portuguesa.

Conheci-o pessoalmente em Agosto de 1986, nas terceiras Jornadas Poéticas de Cuenca, onde ambos participámos juntamente com Al Berto. O autor de Caralhamas (1975) revelou-se um homem afável.

Anos mais tarde partiu para o Brasil, onde se doutorou em Letras e leccionou literatura comparada em várias universidades. Foi casado com a escritora Maria Alberta Menéres. Em 2006, uma grande retrospectiva da sua obra (videopoesia, poesia concreta, infopoesia, um ciclo de imagens fractais) foi apresentada no Museu da Fundação de Serralves. Tinha 88 anos.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

NIKIAS SKAPINAKIS 1931-2020


Morreu ontem Nikias Skapinakis, um dos nomes centrais da pintura portuguesa do século XX. Está agora a fazer um ano que pela última vez o vi em Descontinuando, a exposição de pintura e desenho inaugurada na galeria do Teatro da Politécnica a 11 de Setembro de 2019.

Filho de pai grego e mãe portuguesa, Skapinakis nasceu em Lisboa, frequentou arquitectura, mas abandonou o curso para dedicar-se a tempo inteiro à pintura. Representado nas colecções e museus mais importantes do país, pode ainda ser visto na Brasileira (café do Chiado) e no metropolitano de Lisboa (estação de Arroios). Além de revistas literárias, ilustrou livros de Aquilino e Nemésio. Entre as várias retrospectivas da sua obra, destacam-se as da Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação de Serralves, Museu do Chiado, Museu Berardo, Centro Cultural de Cascais e Fundação Carmona e Costa.

Talvez esteja na altura da RTP repor Nikias Skapinakis: O Teatro dos Outros (2007), documentário de Jorge Silva Melo sobre o conjunto da obra.

Várias vezes premiado e nobilitado (Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, etc.), o seu nome consta do memorial às vítimas da ditadura instalado em 2019 na estação Baixa-Chiado do metropolitano de Lisboa.

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terça-feira, 25 de agosto de 2020

PENSIONISTAS RESSARCIDOS

Com a publicação em Diário da República da Lei n.º 48/2020, de 24 de Agosto, os pensionistas com pensões atribuídas, com atraso, entre Janeiro de 2017 e Outubro de 2019, podem agora requerer a rectificação das declarações de rendimentos referentes a esses anos. Podem fazê-lo a partir do próximo dia 24 de Setembro, data de entrada em vigor da Lei.

Trata-se de regularizar o IRS cobrado no acto das atribuições (atrasadas) daquele período de tempo, as quais, por força dos retroactivos, sofreram mudança de escalão e consequente subida do valor retido na fonte.

Uma boa notícia para quem se reformou naquelas condições.

domingo, 23 de agosto de 2020

DEPLORÁVEL

No final da entrevista dada pelo primeiro-ministro ao Expresso, a conversa prosseguiu off the record, tendo António Costa dito o que muitos portugueses pensam acerca dos médicos de Reguengos de Monsaraz que, alegadamente, recusaram trabalhar no Lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, onde morreram 18 pessoas.

É precisamente essa parte da conversa em off que chegou às redes sociais em forma de vídeo. Bem pode o Expresso bramar contra o Whatsapp, o Facebook, o Twitter, o Youtube, blogues, etc. O mal está feito. Nunca o jornalismo português desceu tão baixo.

sábado, 22 de agosto de 2020

FOLHETIM


Como é que o primeiro-ministro, um político inteligente e um homem avisado, anuiu a dar uma entrevista em folhetim? Quem não sabe, fica a saber: a “entrevista” hoje publicada é o lead, em forma de teaser, de uma entrevista a publicar na íntegra no próximo dia 29.

Os inconvenientes são óbvios: durante uma semana, toda a especulação é possível.

Deplorável.

Clique na imagem do Expresso.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

VACINAS

Serei só eu a considerar irrealista falar de encomendas — efectuadas por dezenas de países, entre eles o nosso — de «vacinas Covid-19» para o fim do ano? E logo 6,9 milhões de doses? Mas quais vacinas?

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

AGITPROP CORPORATIVO

O país está à mercê dos humores das Corporações profissionais. Só não vê quem não quer ou anda muito distraído.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

REGUENGOS

Uma das responsáveis pelo Lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, onde morreram 18 pessoas, fez ontem uma boa pergunta. Cito de cor: «Os médicos e enfermeiros que deram informações à Ordem dos Médicos não actuaram...? Viram o que dizem ter visto e nada fizeram...?» Na mesma peça, da TVI, um médico é confrontado com a saída do Lar no auge do surto.

Numa cronologia dos factos, o Expresso regista, com data de 3 de Julho, data em que as vítimas mortais eram oito: «Médicos hospitalares deixam de prestar apoio presencial.» Porquê? Por ordem de quem? Com que intuito?

Ainda a cronologia: a 10 de Julho, com dezasseis mortos, «Médicos verificam que em várias ocasiões houve medicação que não foi administrada a múltiplos doentes.» Verificaram. Mas fizeram o que deviam? Ou foram a correr escrever o paper da Ordem?

Disse ao Expresso o presidente da Administração Regional de Saúde do Alentejo que, alegando falta de condições para prestar cuidados aos 84 utentes, «os médicos recusaram-se a trabalhar

Por que razão a Ordem dos Médicos, tão pressurosa em Reguengos de Monsaraz, assobiou para o lado durante o gravíssimo surto do Lar do Comércio, em Matosinhos, onde morreram 24 pessoas?

Tudo isto levanta uma série de interrogações. Cabe ao DIAP de Évora esclarecer o imbróglio. Face à gravidade do ocorrido, o modus operandi do gabinete da ministra é um detalhe absolutamente irrelevante.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

MUDANÇA DE CICLO


Soube-se hoje: em Setembro, Manuel Alberto Valente abandona o cargo que ocupa há doze anos no Grupo Porto Editora (o de director da Divisão Editorial Literária de Lisboa). Palavras suas:

«A Porto Editora proporcionou-me 12 anos de trabalho editorial quando outros me consideravam já “velho” para me adaptar às novas realidades desse mundo. Só isso bastaria. Mas ajudar a salvar ou recuperar chancelas como a Sextante, a Assírio & Alvim e a Livros do Brasil — e fazê-lo sem constrangimentos de qualquer espécie e com o apoio e a cumplicidade de todos — foi realmente a cereja no topo do bolo

Manuel Alberto Valente, de quem sou amigo há quase trinta anos, marcou como poucos a edição portuguesa: primeiro na Editorial Inova (1969-1981), depois como director editorial da Dom Quixote (1981-1991), a seguir como director-geral da Asa (1991-2008), desde 2008 na Porto Editora. A partir de Setembro será consultor do Grupo.

Para o seu lugar entra Vasco David, o editor que garantiu o padrão de qualidade da Assírio & Alvim. Dispensa mais apresentações.

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CAÇA


Começou a caça à ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. O país beato e hipócrita não tolera que Ana Mendes Godinho tenha tido a franqueza de dizer o óbvio, ou seja, que não leu o relatório da auditoria feita pela Ordem dos Médicos no Lar de Reguengos de Monsaraz, um estabelecimento da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva.

Para ler relatórios existem os assessores. Sempre assim foi e será. Os assessores da ministra e os assessores dos secretários de Estado responsáveis pela área em pauta: Gabriel Bastos, da Segurança Social, Ana Sofia Antunes, da Inclusão das Pessoas com Deficiência, e Rita da Cunha Mendes, da Acção Social. E a seguir os directores-gerais. Chama-se hierarquia.

O que se terá passado no Lar de Reguengos de Monsaraz tem de ser investigado, claro que sim, e rapidamente, mas pelo Ministério Público. Ou será que a referida Fundação tem imunidade?

O que o Governo devia fazer era aproveitar o pretexto para inspeccionar todos os lares da terceira idade, chamem-se Casa de Repouso, Clube Sénior ou outra coisa qualquer, sejam propriedade de quem forem (Santa Casa, Igreja, Bancos, Empresas públicas e privadas, Associações, empresários em nome próprio, Estado, sindicatos, Fundações, etc.) e, em consequência, agir. O busílis, diz quem conhece bem o sector, é que uma inspecção a sério levaria ao encerramento imediato de 6 em cada 10 estabelecimentos existentes no país. E falo apenas dos legais.

O único erro de Ana Mendes Godinho foi ter dado a entrevista a quem deu. O resto é chicana política.

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domingo, 16 de agosto de 2020

RITZ & SILLY SEASON


A pandemia não acabou com a silly season. Este ano as televisões apostaram no ‘faça férias cá dentro’ em formato publicitário. Restaurantes do Portugal profundo, resorts exclusivos que há seis meses não queriam saber dos portugueses para nada, empresas de turismo fluvial, e por aí fora.

Ontem, a TVI dedicou largo espaço ao Ritz de Lisboa, que reabriu no passado dia 1 após quatro meses de encerramento.

Não me lembro de ter ouvido nenhuma referência a Pardal Monteiro, o arquitecto que desenhou o hotel inaugurado há 60 anos. Estamos a falar do arquitecto do Instituto Superior Técnico, da Biblioteca Nacional, da Reitoria e das Faculdades de Direito e de Letras da Universidade de Lisboa, do Instituto Nacional de Estatística, da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, da Estação Ferroviária do Cais do Sodré, do edifício onde funcionou (entre 1940 e 2016) o Diário de Notícias, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, do Hotel Tivoli, etc. Dito de outro modo, do arquitecto que fixou a imagem da Lisboa moderna. Qualquer das obras mencionadas faria boa figura em Berlim, Londres, Paris, Madrid e qualquer outra cidade europeia. Só me recordo de ouvir dizer: «O hotel ocupa um quarteirão inteiro... nestes corredores cabe um carro... » Se for um Smart cabem dois, diria eu.

Também não me recordo de ouvir referir o nome de nenhum dos artistas (e são dezenas) com obras espalhadas pelo átrio, paredes, salões, galerias, bar, restaurante, escadarias e quartos. Assim de repente, lembro-me de Almada Negreiros, cujas tapeçarias são uma das imagens de marca do hotel, Sarah Afonso, Carlos Botelho, Querubim Lapa, Sá Nogueira, Lagoa Henriques, Jorge Vieira, Carlos Calvet, Martins Correia e Bartolomeu Cid dos Santos. Mas sobram muitos, muitos mesmo. São poucos, em Portugal, os lugares em que a arte portuguesa está representada a este nível.

Alguém devia ter dado uma cábula ao autor da peça. É curto dizer que o hotel aproveitou o confinamento para «fazer barulho», metáfora usada para as obras de remodelação dos terraços e renovação total do restaurante Varanda «a caminho de uma estrela Michelin» e de todos os quartos.

Não tenho nada contra a publicidade, neste caso focada na certificação Clean and Safe. Mas o essencial ficou de fora. E tanto que havia para dizer.

Na imagem, a sala que serve de antecâmara do restaurante. Clique.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

MANOBRAS

E se tudo não passar de manobra de branqueamento do Chega antes da Grande Aliança da Direita?

Haveria, haverá, sabemos que há, pior do que o partido do deputado Ventura. Portanto, a manobra visaria reforçar o contraste. Até aqui, nada de novo. Faz parte dos manuais. Pode ser que me engane, mas devemos considerar a possibilidade.

Compete aos serviços de informações desatar o nó górdio, investigando, aconselhando as autoridades em matéria de protecção dos visados pela ameaça, actuando no âmbito das suas competências.

Sobre o tema, o Presidente da República devia guardar de Conrado o prudente silêncio (cf Boileau). E quem diz o PR diz todos os órgãos de soberania.

A indignação mediática gera audiências mas não tem eficácia prática.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

TAP NAS MÃOS DA BCG


A TAP escolheu a consultora Boston Consulting Group para elaborar o plano de reestruturação que tem de ser apresentado à Comissão Europeia. O plano visa a redução de rotas, aviões e pessoal. O próximo CEO (o actual é interino) também será escolhido pela BCG.

A ver vamos quando e como acaba a saga.

Clique na imagem.

KAMALA HARRIS


Kamala Harris, 55 anos, senadora, antiga procuradora-geral da Califórnia, antiga promotora pública de São Francisco, filha de imigrantes (a mãe, cientista e especialista em cancro da mama, nasceu na Índia; o pai, professor emérito de economia na Universidade de Stanford, nasceu na Jamaica), foi a escolha de Biden para a vice-Presidência.

Recordar que Ms Harris, uma progressista moderada, foi a mais dura opositora de Biden nas Primárias do Partido Democrata (está na memória de todos a forma como embaraçou o antigo vice-Presidente nas questões raciais), tornando-se, com esta nomeação, a quarta mulher em toda a História dos Estados Unidos a ser escolhida como candidata a eleições presidenciais. Isto depois de ter sido a segunda mulher não branca eleita para o Senado.

Infelizmente, Trump deve ser reeleito, mas fica aberto o caminho para 2024, então já como candidata a Presidente.

Imagem: NYT. Clique.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

ABATE DE VELHOS


Todos os dias regredimos um passo. Agora discute-se se o direito de voto deve ser interdito a partir dos 70 anos. Parece anedota, mas não é.

O n.º 141 da Philosophie Magazine (Agosto, 2020) publica sobre o assunto uma entrevista com Andrei Poama, docente da Universidade de Leiden. Síntese: «Avec ce système, on passerait de Une Personne, Une Voix... à Un Futur, Un Vote

Em pauta, distinguir direitos em função da idade. Raciocínio: se os mais velhos participam em maior escala, face à apatia dos mais jovens, então o escrutínio reflecte as opções dominantes dos soi disant idosos. O Brexit e Trump seriam exemplos. E esta?

Ao longo da entrevista são citados filósofos, politólogos e scholars de várias nacionalidades, como Philippe Van Parijs, Richard Posner, William MacAskill, Robert Goodin, Douglas Stewart, Silvano Möckli e Alexandru Volacu.

Imagem: Philosophie Magazine. Clique.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

TVI & DGS

Quatro dirigentes da Direcção-Geral de Saúde interromperam as suas comissões de serviço.

Uma morreu. Outra, tendo concorrido a um cargo na ONU, foi exercer as suas novas funções (internacionais). O antigo subdirector-geral havia pedido em 2019 para regressar ao lugar de origem. O quarto caso é análogo e também está documentado.

Por que raio a TVI insiste na chicana tablóidesca, falando com aleivosia de coincidências...? Nem os mortos escapam?

Já agora: o que é um dirigente de topo...?

TWILIGHT ZONE


Caiu perto da barragem do Lindoso, mas já em território de Espanha, um avião anfíbio Canadair que participava no combate aos fogos do Gerês. O piloto português morreu, o co-piloto espanhol ficou ferido em estado grave. Tudo aconteceu anteontem.

Narrativa dos media: socorros do INEM chegaram ao fim de três horas.

Fita do tempo: socorro do INEM chegou em oito minutos.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

AÇORES

Em acórdão hoje divulgado, o Tribunal Constitucional é claro: o Governo Regional não tem competência para impor quarentenas obrigatórias, matéria exclusiva da Assembleia da República.

Trata-se, sublinha o TC, de «uma restrição desproporcional de direitos fundamentais imposta pelo Governo açoriano, que não tem competências para tal...»

Recorde-se que todos os que chegavam aos Açores eram obrigados a ficar de quarentena num hotel. Até ao dia em que três pessoas se queixaram. O Tribunal Judicial da Comarca dos Açores deu-lhes razão, deixando-os regressar à vida normal. O MP recorreu e o TC pôs os pontos nos ii.

O Governo Regional dos Açores pode vir a ser obrigado a pagar indemnizações a todos os que foram obrigados a quarentena.

BEIRUTE, O HORROR


Subiu para mais de cem o número de mortos da tragédia ocorrida ontem. Entretanto, aos mais de quatro mil feridos somam-se centenas de pessoas desaparecidas.

Desde o 11 de Setembro que não se viam imagens tão terríveis em cenário urbano.

A foto é de Wael Hamzeh para o NYT. Clique.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

TRAGÉDIA EM BEIRUTE


Cerca de 80 mortos e mais de quatro mil feridos é o balanço, até ao momento, de duas explosões registadas hoje ao fim da tarde na capital do Líbano. A segunda explosão, ouvida e sentida em Chipre, teve magnitude equivalente a um sismo de grau 3,3 na escala de Richter. Tudo terá começado com um incêndio num armazém onde estavam guardadas 2.750 toneladas de nitrato de amónio.

Num raio de vários quilómetros ficaram destruídos dezenas de edifícios e milhares de automóveis. O Hospital St George, um dos maiores da cidade, com todos os andares danificados, teve de ser evacuado.

Nizar Najarian, secretário-geral do Kataeb, partido político democrata-cristão, encontra-se entre os mortos. O partido, conhecido no Ocidente como Falange, estava reunido ao mais alto nível no momento das explosões.

Entre os feridos estrangeiros estão militares (capacetes azuis) da ONU, uma portuguesa, e pessoal de várias embaixadas.

Imagem: NYT. Clique.