quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

INSUBORDINAÇÃO CIVIL

Terá passado um mês desde a tomada de posse do novo director nacional da PSP, um operacional com currículo feito nas Forças Especiais.

Entretanto, tivemos a ocupação ilegal da Segunda Circular por parte de centenas de pessoas alegadamente solidárias com as três vítimas de um acidente automóvel de grande aparato.

E, ontem, após cerco de uma viatura da polícia, um cortejo motard dentro de um cemitério.

Cereja em cima do bolo, o líder da FENPROF tentou, já hoje, invadir o conselho de ministros que se realizou em Bragança.

Não sei o que o ministro da Administração Interna pensa destes actos de insubordinação civil. Mas desconfio que o país gostava de ser esclarecido.

FOLHA COVID-19


— Número de mortos em Itália subiu para 14.

— Espanha regista 15 casos positivos. Um deles afecta um homem que nunca saiu de Sevilha.

— A Arábia Saudita proibiu a entrada de peregrinos em Meca.

— Médicos, enfermeiros e outro staff do NHS (o SNS britânico) têm de cortar a barba para garantir um bom ajustamento das máscaras. Bigodes pequenos são permitidos.

— Com 18 casos confirmados e duas mortes, a França prepara-se para declarar epidemia.

— O Japão encerrou sine die todos os estabelecimentos de ensino.

— Um grupo de dez turistas portugueses não pode sair do Irão porque o seu voo de regresso, marcado para 2 de Março, foi cancelado. Várias companhias aéreas deixaram de voar para o país dos aiatolas. A embaixada de Portugal em Teerão acompanha o caso.

— Alguns países com casos positivos declarados: China, Itália, Coreia do Sul, Alemanha, França, Dinamarca, Grécia, Suíça, Espanha, Áustria, Roménia, Reino Unido, Noruega, Brasil, Japão, Kuwait, Paquistão, Estónia, Macedónia do Norte, Geórgia, Irão, Croácia, Estados Unidos, Malásia, Índia, Cingapura, Filipinas, Nepal, Tailândia, Camboja, Vietname. Se isto não é uma pandemia, é o quê?

— Fontes científicas britânicas alegam que os números facultados pela Itália e pelo Irão não são fiáveis. E explicam porquê.

Na imagem, do Guardian, militares desinfectam uma rua da cidade sul-coreana de Daegu. Clique.

ESTADO DE DIREITO?


O juiz-presidente de um tribunal superior jubila-se, faz um julgamento privado, e cobra 280 mil euros.

Isto não aconteceu num thriller distópico. Aconteceu em Portugal, alegadamente um Estado de Direito.

Clique na imagem do Público.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

COVID-19 OBLIGE


Segundo o New York Times, o navio italiano MSC Meraviglia foi impedido de atracar na Jamaica e nas Ilhas Cayman, duas escalas do cruzeiro.

A bordo seguem 4.500 passageiros e 1.600 tripulantes de várias nacionalidades.

Clique na imagem.

MONTIJO VS AUTARCAS


Uma lei aprovada em 2007, no primeiro Governo Sócrates, exige o parecer favorável das autarquias afectadas pela construção, ampliação ou modificação de um aeroporto. A lei foi alterada em 2010, mantendo o poder de veto dos autarcas. Continua em vigor. Ponto.

Seis das dez autarquias envolventes do Montijo estão contra a transformação da Base Aérea do Montijo (um aeródromo militar) num aeroporto civil. A Base Aérea do Montijo, inaugurada em Janeiro de 1953, continuava activa em 2019. Ponto.

Durante 66 anos, 45 dos quais em democracia, nenhum ambientalista piou de forma audível. Ponto.

Como não nasci ontem, o zelo das autarquias não me comove. Ponto.

O Governo Costa apostou no Montijo, tendo cumprido, by the book, o catecismo ambiental. Azar dos azares, ninguém se lembrou da existência da lei que dá poder de veto às autarquias. Ponto.

Parece que o PS se prepara para modificar a lei. Pedro Nuno Santos, o ministro da tutela, tem razão quando diz que um presidente de Câmara não pode ter o poder de impedir obras de interesse nacional. Nessa medida, o PS deve tentar modificar a lei. Mas, uma vez modificada, não a deve usar no Montijo. Ponto.

Agora o acessório. Embora manhosa, a solução Montijo pareceu-me aceitável. Primeiro: não tinha conhecimento do diploma que faz prevalecer a vontade dos autarcas. Segundo: supunha, como grande parte da opinião pública, que a coisa se faria depressa e a custo residual (o grosso da despesa seria suportado pela ANA, uma empresa privada). Afinal não. São quatro anos e uns quantos milhões do Estado. Quatro anos? Estão a brincar com o pagode?

Em quatro anos faz-se um aeroporto a sério.

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

COVID-19 IN PROGRESS


— DGS esclarece: Portugal tem, neste momento, duas mil camas disponíveis para isolamento.

— Em Tenerife (Canárias), o Hotel H10 Costa Adeje Palace, com 600 quartos, foi blindado. Motivo: um hóspede italiano infectado. Cerca de 1.500 pessoas, entre hóspedes e trabalhadores, estão impedidos de sair. Os hóspedes nem dos quartos podem sair. Os que estavam fora do edifício não podem regressar. O controlo é feito por militares.

— Com 293 infectados e 7 mortos, a Itália prevê aumentar o número de cidades em quarentena, uma vez que o vírus chegou a Florença, Pistoia (ambas na Toscana) e Palermo (na Sicília).

— A ligação ferroviária entre Milão a Bolonha foi suspensa.

— Ainda em Itália, os jogos de futebol vão realizar-se à porta fechada pelo menos nos próximos 90 dias.

— Na China há cerca de 90 mil infectados e cerca de 3 mil mortos.

— No Irão, o número de mortos subiu para 16. O vice-ministro da Saúde está infectado.

— Na Coreia do Sul subiu para 15.

Na imagem, o hotel de Tenerife. Clique.

FEITO


Até que enfim.
Clique na imagem do Público.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

O PORTUGUÊS DO DIAMOND PRINCESS


Quando forem 22 horas em Portugal, serão 7 da manhã no Japão. É de presumir que, por essa altura, o tripulante português do Diamond Princess alegadamente infectado com o Covid-19 seja transferido do navio para um hospital.

Factos: um homem de 41 anos, canalizador, tripulante do navio-fantasma, foi referenciado anteontem como estando infectado. Tal como todos os tripulantes, não esteve em quarentena até ao momento em que lhe foi diagnosticada a doença. Fê-lo nessa altura, por iniciativa sua.

O caso chegou à opinião pública porque sua mulher falou aos media. Terá tentado falar com os responsáveis da empresa do Diamond Princess mas, não o conseguindo, recorreu às televisões. Deu resultado. Sucessivamente, recebeu telefonemas da directora-geral da Saúde, da directora-geral dos Assuntos Consulares e do Presidente da República.

Para quem não sabe, o navio de cruzeiros Diamond Princess está atracado no porto da cidade de Yokohama (área metropolitana de Tóquio) desde o passado dia 3. As autoridades decretaram quarentena obrigatória para os 3.712 passageiros, mas não para a tripulação, composta por cerca de mil pessoas.

Três passageiros morreram. Um grupo de 637 passageiros infectados foi transferido para hospitais de Tóquio. Os restantes foram evacuados no fim da quarentena, regressando a Itália, Reino Unido, França, Ucrânia, Canadá, Estados Unidos, etc., tendo vários sido considerados infectados à chegada aos respectivos países.

O português fez teste e deu positivo. Em princípio, dentro de algumas horas, estará num hospital. A ver vamos.

Clique na imagem.

SEXTO


Morreu esta manhã o sexto paciente italiano.

Clique na imagem do Guardian, que mostra o Duomo encerrado, como todas as outras igrejas (e alguns cemitérios) da Lombardia e do Veneto.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

VENEZA SEM CARNAVAL


Covid-19 oblige, Luca Zaia, presidente da região do Veneto, decretou esta manhã o cancelamento do Carnaval de Veneza.

Clique na imagem da edição italiana do HuffPost.

CERCO


Já são 11 as cidades italianas em regime de quarentena: Codogno, Casalpusterlengo, Castiglione d’Adda, Fombio, Maleo, Somaglia, Bertonico, Terranova dei Passerini, Castelgerundo, Sanfiorano (estas dez na Lombardia) e Vo Euganeo, no Venetto.

Na sua comunicação ao país, Conte declarou que, por enquanto, a Itália não pretende suspender o Acordo de Schengen que garante livre circulação entre 26 países europeus.

A MIDO, a maior feira de material oftalmológico do mundo, que se realiza em Milão, adiou sine die a sua abertura, inicialmente prevista para o próximo dia 29.

Convém lembrar isto porque dezenas de milhares de portugueses visitam a Itália todos os anos. A partir de Lisboa e do Porto estão disponíveis, por dia, dez ligações aéreas directas.

Na imagem do Guardian vemos a principal rua de Codogno, ontem. Clique.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

WUHAN À ITALIANA


O Governo italiano acaba de criar zonas-tampão para tentar conter a propagação do Covid-19 que, até ao momento, afectou 76 italianos.

O primeiro-ministro Giuseppe Conte esclareceu que as forças de segurança (exército incluído), têm instruções para actuar contra quem desrespeite as directivas que vão regular o quotidiano das pessoas, tais como restrições à livre circulação..

O perímetro de segurança abrange a Lombardia e o Venetto.

Na imagem, tuíte do Palazzo Chigi, a sede do conselho de ministros de Itália, em Roma. Clique.

ITÁLIA EM TRANSE


O Governo italiano encontra-se reunido de emergência para fazer face à situação crítica que se vive na Lombardia por causa do Covid-19.

Giuseppe Sala, o presidente da Câmara de Milão, mandou encerrar os serviços públicos.

Por seu turno, o presidente do Governo Regional da Lombardia, Attilio Fontana, confirmou a existência de 39 casos de pessoas infectadas.

Em toda a Itália são 64, com duas mortes nas últimas 24 horas.

O epicentro do surto epidémico é a comuna de Codogno, uma cidadezinha com dezasseis mil habitantes, que vive desde ontem em estado de emergência, tal como outras dez cidades lombardas que mandaram encerrar o comércio (supermercados incluídos), postos de abastecimento de combustíveis, restaurantes, serviços públicos, museus e empresas de serviços não essenciais. As escolas estão encerradas sine die. Os comboios não páram em nenhuma dessas cidades.

Também foram canceladas missas e eventos desportivos. A decisão partiu de Giulio Gallera, responsável máximo da Saúde na Lombardia. Nas farmácias, as máscaras esgotaram.

Entretanto, no Veneto (onze casos), equipas de protecção civil montaram um acampamento em frente a um hospital para rastrear os doentes.

A Feira da Moda de Milão encerra amanhã, como estava previsto, mas regista avultados prejuízos, pois não compareceram mais de mil empresas da China e de outros países da Ásia.

Lembrar que, em 2019, a Itália foi visitada por mais de cinco milhões de turistas chineses.

Lembrar ainda que esta nova estirpe do coronavírus foi identificada a 1 de Dezembro do ano passado, mas a realidade só foi conhecida na China a 27 de Dezembro, e no Ocidente a 5 de Janeiro. Ou seja: o gap de seis semanas em que nada se fez terá sido fatal.

Clique na imagem.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

VASCO PULIDO VALENTE 1941-2020


Morreu hoje Vasco Pulido Valente, historiador, ensaísta e cronista. O mais brilhante cronista da imprensa portuguesa dos últimos 40 anos. Tinha 78 anos.

Da sua extensa bibliografia destaco O Poder e o Povo. A Revolução de 1910 (1975), versão revista da tese de doutoramento defendida em Oxford, O País das Maravilhas (1979), A República Velha: 1910-1917 (1997), Esta Ditosa Pátria (1997), Glória, a biografia romanceada de Vieira de Castro (2001), Marcello Caetano: as desventuras da razão (2002), Um Herói Português: Henrique Paiva Couceiro (2006), Ir pró Maneta: a revolta contra os franceses (2007), De Mal a Pior (2016) e O Fundo da Gaveta. Contra-revolução e Radicalismo no Portugal Moderno (2018).

Licenciado em Filosofia, doutorado em História, oriundo do grupo de católicos progressistas reunidos na revista O Tempo e o Modo, militante do MAR (o Movimento de Acção Revolucionária de Jorge Sampaio), Pulido Valente oscilou sempre entre o PS e o PSD.

Textos seus encontram-se dispersos na imprensa de referência: Diário de Notícias, Expresso, O  Tempo, O Independente, Kapa, Observador, Público e outros.

Investigador-coordenador aposentado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, antigo docente do Instituto Superior de Economia da mesma universidade, do ISCTE e da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, Pulido Valente foi secretário de Estado da Cultura (1980) por escolha de Sá-Carneiro, deputado do PSD (1995) e apoiante da candidatura presidencial de Mário Soares.

Foi ainda guionista de vários filmes, entre eles O Cerco (1970), de Cunha Teles, protagonizado por Maria Cabral, sua primeira mulher e mãe de sua filha, a crítica literária Patrícia Cabral. A seguir viveu três anos com Maria Filomena Mónica, casando outras quatro vezes, duas das quais com a jornalista Constança Cunha e Sá.

A foto é de Nuno Ferreira Santos, para o Público. Clique.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

EUTANÁSIA


A eutanásia foi hoje aprovada na generalidade. Os cinco projectos [PS, BE, PAN, PEV, IL] baixam agora à Comissão para serem fundidos em texto único a aprovar na especialidade, em votação final global. Sete deputados faltaram à sessão.

Imagem do Expresso. Clique.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

COLECÇÕES DO ESTADO


David Santos, 48 anos, historiador e crítico de arte, antigo director do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, bem como do Museu do Neo-Realismo (em Vila Franca de Xira), com larga experiência em curadoria artística, é o novo Curador da Colecção de Arte do Estado.

As novas funções implicam que abandone a direcção-geral do Património, onde, desde Fevereiro de 2016, exercia o cargo de subdirector-geral.

A partir de Março, David Santos terá a responsabilidade de gerir a circulação das cerca de mil e trezentas obras do património artístico público. Ou seja, de acordo com o comunicado do ministério da Cultura, «dar um novo passo no desenvolvimento de uma estratégia pública para a arte contemporânea.» Trata-se, portanto, de agilizar a prometida descentralização das colecções do Estado, em articulação com outros museus nacionais.

O David, de quem sou amigo há trinta anos, é o homem certo no lugar certo.

Clique na imagem.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

PATRIMÓNIO


Não sei se Bernardo Alabaça tem ou não tem perfil para director-geral do Património Cultural, cargo que ocupará a partir do próximo dia 24. Não o conheço.

Entretanto, convinha não misturar alhos com bugalhos. Jornais conspícuos falam dele como de um broker do imobiliário que tivesse saltado directamente da Remax para o Palácio da Ajuda.

Sucede que a nomeação, da responsabilidade do ministério da Cultura, terá tido em conta o facto de Alabaça, mestre em Finanças pelo ISCTE, ter sido anteriormente director-geral de Infraestruturas (no ministério da Defesa) e subdirector-geral do Tesouro e Finanças (no ministério das Finanças). Isto não fará dele o dirigente ideal, admito, mas há que dizer das coisas o que elas são.

Os cargos são poucos para os intelectuais da praça? Paciência.

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domingo, 16 de fevereiro de 2020

SERRALVES A TRÊS DIMENSÕES


Provavelmente o sítio mais cosmopolita do Porto, visitado por turistas de todas as origens, o Museu de Serralves distribui óculos de três dimensões de formato XXL às pessoas (um terço dos quais serão estudantes menores) que vão ver a mostra colectiva Electric.

Existem óculos para todas as pessoas? Não havendo, o museu desinfecta os que tem?

É que anda muita gente a crucificar a directora-geral da Saúde por, alegadamente, ter uma postura soft face ao problema do Covid-19 mas, neste caso concreto, nem um pio. A arte justifica o desleixo?

Clique na imagem da TVI.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

ELECTRIC


Estou há três dias no Porto mas não fui a Serralves ver Electric, a exposição de realidade virtual que junta Anish Kapoor, Nathalie Djurberg, R. H. Quaytman, Hans Berg, Koo Jeong A e Olafur Eliasson.

Ilusionismo bidimensional e realidade tridimensional não são a minha chávena de chá.

A fotografia de Paulo Pimenta inserta no Público mostra o buraco, perdão, a obra de Kapoor onde um visitante italiano do museu caiu de uma altura de dois metros e meio, tendo de ser internado no Hospital de São João, do Porto.

Comentários para quê?

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

BRASIL CENSURA


Chegou a vez de São Paulo. A portuguesa Isabela Figueiredo junta-se a outros autores (Camus, Padura, García Márquez, Harper Lee, etc.) cujos livros não podem ser distribuídos por intermédio da campanha Remissão em Rede, um programa de incentivo à leitura nas prisões do Brasil.

Este acto de censura junta-se à recente decisão dos governos estaduais da Rondônia e de Roraima de proibirem, no ensino público, a divulgação de obras clássicas de autores como Camilo Castelo Branco, Machado de Assis e outros.

Assim vai o mundo.

Na imagem, capa da edição brasileira do livro de Isabela. Clique.

COVID 19


Já todos percebemos que a situação é mais grave do que nos fizeram crer. Estamos noutro patamar.

Entretanto, são cada vez mais as vozes (incluindo médicos de todo o mundo) que exigem o afastamento de Tedros Adhanom Ghebreyesus do cargo de director-geral da OMS, considerado por muitos incapaz de gerir a situação.

O etíope é acusado de usar paninhos quentes para não melindrar Pequim nem beliscar os grandes interesses económicos internacionais. Ontem, finalmente, descobriu que o Covid 19 é o inimigo público número um.

As Nações Unidas já receberam um relatório com mais de trezentas mil assinaturas questionando a actuação de Tedros Adhanom Ghebreyesus:

«Em 23 de Janeiro de 2020, ainda Tedros Adhanom Ghebreyesus se recusava a declarar emergência mundial de saúde o surto de vírus na China. A OMS tem de ser neutra em termos políticos. Sem nenhuma investigação, Tedros Adhanom Ghebreyesus acredita apenas nos dados fornecidos pelo Governo chinês. [...]»

Há quinze dias, com um mês de atraso relativamente aos primeiros casos identificados na China, onde tudo começou a 27 de Dezembro, a nova estirpe de coronavírus estava alegadamente controlada.

Hoje sabemos que não está. Pior: o período de incubação não é de 14 dias, mas de 24. Os números oficiais registam 1.115 mortos até ontem, mas na China nem sempre os números oficiais coincidem com a realidade.

Artigos publicados na imprensa chinesa, quem diria, reportam casos de dezenas de famílias infectadas, em Wuhan, as quais estariam sem qualquer tipo de acompanhamento médico.

Quatro navios de cruzeiros estão em regime de quarentena. E só no Diamond Princess, ancorado em Yokohama (Japão) com 2.670 passageiros e mil tripulantes a bordo, foram registados 174 casos de infecção letal.

Sem as amarras da UE, o Reino Unido (oito casos identificados) já decretou emergência de saúde pública.

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

CASAMENTO GAY EM BELFAST


No dia do sexto aniversário da sua união de facto, Robyn Peoples e Sharni Edwards casaram esta tarde, em Belfast.

Foi o 1.º casamento entre pessoas do mesmo sexo registado na Irlanda do Norte, após a aprovação da lei em Westminster, há sete meses.

A imagem do Guardian mostra o momento em que ambas brindavam no hotel de Carrickfergus onde se realizou o copo-d'água. Clique.

LUCIA BERLIN POR ALMODÓVAR


Pedro Almodóvar aproveitou a passagem por Hollywood para confirmar que ainda este ano rodará dois novos filmes.

Primeiro, uma curta-metragem sobre La Voix Humaine de Cocteau, a interpretar por Tilda Swinton.

A seguir, uma adaptação de Manual para Mulheres de Limpeza, o livro que celebrizou a norte-americana Lucia Berlin (1936-2004) onze anos após a sua morte.

Almodóvar parece o realizador adequado para recriar o universo disfuncional de Lucia Berlin, um compósito de falta de dinheiro, empregos precários como professora, três casamentos falhados, quatro filhos, problemas de saúde muito graves, alcoolismo, toxicodependência e nomadismo compulsivo entre os Estados Unidos, o México, a Argentina e o Chile.

Por todas essas razões, Lucia foi uma outsider dos círculos institucionais da comunidade literária, e só a publicação póstuma do Manual... (2015) fez dela um nome de culto.

Os dois filmes serão rodados em inglês.

Na imagem, Almodóvar e Bong Joon-ho na noite dos Óscares. Clique.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

ÓSCARES 2020


Ontem foi noite de Óscares. O grande vencedor foi o coreano Bong Joon-ho, realizador de Parasitas, que ganhou quatro Óscares: melhor filme, melhor realização, melhor argumento original e melhor filme internacional.

Pela 1.ª vez na história da Academia de Hollywood, o mesmo filme coincide nas categorias de melhor filme e melhor filme internacional (estrangeiro). Ainda pela 1.ª vez, um filme de língua não-inglesa vence o prémio de melhor filme.

O preferido, 1917, de Sam Mendes, levou três Óscares, mas todos em categorias técnicas.

Nas interpretações não houve surpresas: Joaquin Phoenix, Renée Zellweger, Brad Pitt e Laura Dern foram laureados como melhor actor, melhor actriz, melhor actor secundário e melhor actriz secundária.

Clique na imagem.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

NOS 80 ANOS DE YVETTE K. CENTENO


Yvette K. Centeno faz hoje 80 anos. Não é todos os dias que temos o prazer de celebrar o 80.º aniversário de um grande autor. A data está a ser assinalada pela Antena 2. Esta manhã, foi transmitida uma entrevista feita por Paulo Alves Guerra e, ao longo do dia, textos de Yvette K. Centeno serão lidos por Fernando Jorge Oliveira.

Filha de mãe polaca e pai português, Yvette K. Centeno nasceu em Lisboa em 1940. Poeta, ficcionista, dramaturga, ensaísta e tradutora, publicou há poucos meses a sua poesia reunida (1961-2018), Entre Silêncios, editada pela Glaciar.

Professora catedrática jubilada da Universidade Nova de Lisboa, de que foi uma das fundadoras, é considerada a mais importante especialista portuguesa em simbologia. Sirvam de exemplo os seminários que orientou sobre a filosofia hermética em Pessoa. Em 1980 criou o Gabinete de Estudos de Simbologia (UNL) e, em 1994, na Fundação Calouste Gulbenkian, o ACARTE, ou seja, o Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte. Orientou seminários e proferiu conferências em diversas universidades estrangeiras, casos de Harvard, Brown, Massachusetts Dartmouth, Tulane, Oxford, Londres, Berlim, Colónia, Paris, Madrid e outras. Foi ainda co-fundadora do CITAC da Universidade de Coimbra.

Além do supracitado «Entre Silêncios», volume da poesia reunida, destaco da sua vasta bibliografia: Quem Se Eu Gritar (1962), As Palavras Que Pena (1972), Os Jardins de Eva (1998), Do Longe e do Perto (2011, diário), No Rio da Memória (2017, memórias), A Alquimia e o Fausto de Goethe (1982), Fernando Pessoa: o Amor, a Morte, a Iniciação (1984), Literatura e Alquimia (1987), A Arte de Jardinar. Ensaio de Literatura Comparada (1991). Mas sobram as peças de teatro, das quais destacaria As Três Cidras do Amor (1991), os livros de literatura infantil e, naturalmente, muitos mais títulos de ficção e ensaio.

Criadora, professora, estudiosa da mística judaica, consultora de organismos culturais nacionais e estrangeiros, Yvette K. Centeno ainda arranjou tempo para traduzir Goethe, Celan, Brecht, Stendhal, Char, Fassbinder, etc.

Tendo vivido largas temporadas em Paris (onde privou com Prévert e Michaux) e uma parte da infância em Buenos Aires, Yvette K. Centeno foi agraciada ao mais alto nível pela França e pela Alemanha, mas, nem por isso, deixa de ser uma das personalidades mais discretas da vida cultural portuguesa.

Parabéns, Yvette.

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

OS PORQUÊS

A tranquibérnia em torno do Orçamento de Estado tem de ser vista à luz de duas realidades:

— Amanhã começa o Congresso do PSD, onde Rui Rui ainda não tem garantida maioria na composição do Conselho Nacional.

— A partir de Julho, durante um ano, a Assembleia da República não pode ser dissolvida.

Rio tinha de fazer prova de vida. Em vez disso, enredou-se em coreografias Kabuki.

A blindagem da Assembleia da República é um imperativo constitucional: são os últimos seis meses de Marcelo colados aos primeiros seis meses do novo mandato presidencial, seja com Marcelo ou qualquer outro/a.

Acresce a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, entre 1 de Janeiro e 30 de Junho de 2021, período coincidente com a blindagem da AR.

Isto leva-nos à fussanga do PSD e do BE, que viram nesta discussão uma janela de oportunidade para alterar o status quo.

DONE


Assunto arrumado.
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IVA NO OE 2020

Durante o debate do OE 2020 foram chumbadas todas as propostas de redução do IVA da electricidade.

As que previam descida de 23% para 6%. As que previam descida de 23% para 13%. As que previam retroactividade a 1 de Janeiro (PCP). As que previam redução a partir de 1 de Julho (BE). As que previam redução a partir de 1 de Outubro, com contrapartidas (PSD).

O Bloco de Esquerda votou ao lado do CHEGA. Foi o único partido que o fez.

KIRK DOUGLAS 1916-2020


Kirk Douglas morreu ontem, aos 103 anos. Protagonizou cerca de cem filmes, entre 1946 e 2008. Faceta menos conhecida é a de autor: entre 1988 e 2014 escreveu e publicou oito romances, uma autobiografia, um livro de memórias e dois livros de auto-ajuda espiritual. Mas, para a minha geração, continua a ser Spartacus. A foto é de 1950.

Clique na imagem, uma foto de 1950.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

PETS & IRS


Por proposta do PAN, aprovada, os medicamentos para animais passam a ser dedutíveis no IRS.

Por falar nisso: as máscaras anti-coronavírus para animais de companhia entram na categoria de medicamento?

Clique na imagem.

PAN CHUMBA METRO


No passado 5 de Julho, no Parlamento, todos os partidos, contra a vontade do PS, chumbaram a construção da linha do Metro que ligaria o Rato ao Cais do Sodré, com estações na Estrela e em Santos.

Ontem, na discussão do OE 2020, que previa a referida circular, o PAN conseguiu chumbar a proposta do Governo.

Ao lado do PAN votaram o PSD, BE, PCP e CHEGA. O CDS absteve-se. A IL votou ao lado do PS contra a suspensão da obra.

O que quer o PAN? Isto: «A urgente contratação dos trabalhadores necessários à manutenção e ao normal funcionamento do Metropolitano de Lisboa, tendo em conta as diversas áreas onde se verifica carência de pessoal. [...] Um estudo técnico e de viabilidade económica que permita uma avaliação comparativa entre a extensão até Alcântara e a Linha Circular. [...] Estudos técnicos e económicos necessários com vista à sua expansão prioritária para o concelho de Loures. [...] Uma avaliação global custo-benefício, abrangendo as várias soluções alternativas para a extensão da rede para a zona ocidental de Lisboa...»

Parece sensato. O povo agradece e, fosse como fosse, as tias da Lapa não andam de Metro.

Na imagem, a picotado, a extensão chumbada. Clique.

BUTTIGIEG


Homossexual casado com um homem, Pete Buttigieg, 38 anos, protestante, Democrata, poliglota, formado em História e Literatura por Harvard, antigo tenente da Marinha, mayor de South Bend desde 2012 (venceu os Republicanos em duas eleições consecutivas), foi o inesperado vencedor do Caucus do Iowa com 27% dos votos expressos.

É muito cedo para prever o que vai acontecer em Julho, na Convenção Nacional do Partido Democrata que designará o oponente de Trump. Daqui até lá muita água vai correr sob as pontes. E depois em Novembro o pesadelo.

Mas que já ninguém nos tira esta satisfação.

Na imagem, Buttigieg (esquerda) e o marido, Chasten Glezman. Clique.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

GEORGE STEINER 1929-2020


Morreu hoje George Steiner, ensaísta, crítico literário e professor de literatura comparada nas universidades de Genebra, Oxford, Nova Iorque, Harvard e Cambridge.

Steiner nasceu em Neuilly-sur-Seine, um subúrbio elegante de Paris, no seio de uma família de banqueiros judeus-austríacos emigrada em França desde 1924 para fugir ao anti-semitismo dos círculos vienenses. No início de 1940, os Steiner mudaram-se para Nova Iorque. Morreu em Cambridge, na Inglaterra, onde vivia há muitos anos. Tinha 90 anos.

«Gostava de ser lembrado como um bom professor de leitura...», disse numa entrevista em 1994.

Entre os cerca de quarenta livros que escreveu, inclui-se um romance sobre Hitler — The Portage to San Cristobal of A.H., 1981 —, e quatro colectâneas de contos.

Mas é o Steiner ensaísta que fica. Gostaria de destacar quatro títulos: Linguagem e Silêncio (1958), Extraterritorial (1968), Errata (1997, autobiografia), e Gramáticas da Criação (2001). Humanista, preocupava-se com temas tão diferentes como as origens da linguagem, a escrita extraterritorial que caracteriza grande parte da literatura universal, o significado do mito da Torre de Babel, o acto de traduzir, etc. A fama chegou na segunda metade dos anos 1960, quando sucedeu a Edmund Wilson na secção de crítica literária da New Yorker. Um dos volumes da sua vasta obra colige precisamente os textos publicados na revista entre 1967 e 1997.

Como escrevi um dia, ler Steiner é ouvir o turbilhão de um pensamento ágil, articulado nas suas mais subtis harmónicas. Sempre admirável.

Deixa viúva a historiadora britânica Zara Shakow Steiner, com quem casou em 1955.

Na imagem, Steiner em 2008. Clique.

CLUB DES CORDELIERS

No dia em que tem início a discussão na especialidade do OE 2020, a saída de cena do Livre, que perdeu representação parlamentar, muda a composição da Assembleia da República.

O que pensam disto os 56 mil votantes da papoila?

A deputada Joacine Katar Moreira exerce desde esta manhã como independente. Vai mudar de lugar e vê reduzida a subvenção anual do seu gabinete na AR, que passa de 117 mil para 57 mil euros. O partido em cujas listas concorreu mantém intacta a sua subvenção.

Lembrar que ainda ontem, na manif anti-racismo, JKM afirmou: «Nasci para estar ali e é ali que vou estar.» A star is born?

domingo, 2 de fevereiro de 2020

ACABOU O FOLHETIM?

Com a chegada, esta noite (20:20), à base militar de Figo Maduro, dos dezassete portugueses repatriados da China, espero que tenha acabado o folhetim do repatriamento de nacionais.

Pela conferência de imprensa que se seguiu, ficámos a saber duas coisas:

— Todos os repatriados se voluntariaram para ficar em isolamento durante 14 dias, uns no Hospital Pulido Valente, outros no Hospital Júlio de Matos, aka Parque da Saúde, ambos de Lisboa.

— Um avião que fazia a ligação entre Hong Kong e Reykjavik foi proibido de aterrar na Islândia, tendo de ser desviado para os Açores, onde os passageiros desembarcaram.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

A NOVA BAIXA


A revolução que Medina anunciou ontem para a Baixa de Lisboa, uma vasta área que vai do Terreiro do Paço ao Marquês de Pombal, abrangendo todo o Chiado, o Príncipe Real, a Avenida Liberdade, os Restauradores, o Rossio, o Martim Moniz, etc., está programada para Julho próximo.

Grosso modo, consiste em menos faixas de rodagem, passeios mais largos, circulação restrita a transportes públicos e carros 100% eléctricos (excluem-se os híbridos), interdição total de autocarros turísticos, aumento de ciclovias, estacionamento reservado a moradores.

Por junto, entre a Avenida da Liberdade, os Restauradores, o Rossio, o Martim Moniz e o Chiado, desaparecem 600 lugares de estacionamento à superfície, ficando o estacionamento subterrâneo dos Restauradores para uso exclusivo de residentes e assinantes de avença. Tudo isto controlado por pórticos de reconhecimento de matrículas.

A discussão pública decorre até à primeira quinzena de Março.

Nada contra. Mas olho para uma das imagens divulgadas, a da Rua Garrett, e não posso deixar de me surpreender com os canteiros. Mesmo não fazendo barreira horizontal como faziam os que Abecasis mandou construir na Rua do Carmo (impedindo parte do trabalho dos bombeiros no Grande Incêndio de 1988), parecem-me supérfluos.

Haja bom senso na discussão pública.

Clique na imagem da Rua Garrett a devir.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

AT LAST


Hoje é o dia do Brexit.
Na imagem do Guardian, o Mall de Londres. Clique

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

ESCOLHAS DE JANEIRO


Hoje na Sábado.

Lawrence Ferlinghetti fez cem anos em Março de 2019, data que assinalou com o romance autobiográfico Rapazinho, no qual revela a sua atribulada infância com a tia Émilie, que o levou ainda criança para Estrasburgo, o regresso a Nova Iorque, a vida em casa dos Bisland, o colégio, a Marinha de Guerra, a passagem pelas ruínas de Nagasaki, a nostalgia de Paris, o salto para a Califórnia, etc. Poeta, escritor, livreiro, editor e artista plástico, Ferlinghetti deu a conhecer ao mundo a Geração Beat (Ginsberg, Kerouac e outros), foi julgado por obscenidade, tornou-se o símbolo de todas as transgressões, vendeu um milhão de exemplares do seu livro de poesia A Coney Island of the Mind (1958) e, em 1998, foi nomeado Poet Laureate. Em Rapazinho, o mais impressionante é a vitalidade da prosa, o testamento de um grande autor. Admirável. Publicou a Quetzal.

Pouca gente se lembra hoje da inglesa Anna Kavan (1901-1968), morta por overdose de heroína, cuja última e mais conhecida obra, Gelo, agora traduzida, antecipa uma era pós-nuclear centrada em alterações climáticas. O mundo está a ser engolido pelo gelo e a catástrofe traz com ela o autoritarismo: «Além do mais, não há transportes, a não ser para entidades oficiais.» Não sabemos onde isto acontece, nem com quem (o narrador não tem nome), sabemos apenas que há controlo militarizado. Será o colapso da sociedade uma metáfora da disfunção psicossocial da autora? Publicou a Cavalo de Ferro.

História da Violência, do francês Édouard Louis (n. 1992), é o romance de um estupro na noite de Natal. Narrado na primeira pessoa, o livro descreve a violação do autor pelo cabila com quem passou essa noite. A partir do comportamento da irmã, amigos, médicos e polícias, Édouard Louis analisa preconceitos de classe, xenofobia e homofobia, bem como as sequelas da descolonização da Argélia. Publicou a Elsinore.

O penúltimo romance do austríaco Robert Seethaler (n. 1966), Uma Vida Inteira, é uma viagem pelo século XX. Andreas Egger passou por tudo: brutalizado em rapaz pelo parente que o adoptou, fisicamente diminuído, prisioneiro de guerra, operário, guia turístico da região onde mais sofreu, nem por isso perde a esperança e o sentido de humor. Numa linguagem isenta de ênfase, Seethaler faz o relato comovente de uma vida. Publicou a Porto Editora.

A literatura está cheia de personagens com quem crescemos. Alberto Manguel (n. 1948) chama-lhes amigos literários. Juntou-os em Monstros Fabulosos, espécie de dicionário com 38 entradas: Capuchinho Vermelho, Fausto, Super-Homem e outros. Selecção criteriosa, da Bíblia à banda desenhada, passando por Eça de Queirós, pela mitologia e por contos infantis. Ensaios breves, eruditos, ecoando memórias pessoais. Um belo companion de leitura. Publicou a  Tinta da China.

A história de dois ordenhadores de 17 anos que são recrutados pelas Waffen-SS é o tema de Morrer na Primavera, romance do alemão Ralf Rothmann (n. 1953). Não obstante a marca autobiográfica, o leitor lembra-se do facto de Günter Grass ter sido recrutado com a mesma idade por aquela divisão do exército nazi. Culpa é o sentimento dominante: Walter, o narrador, vê-se obrigado a fuzilar o melhor amigo. Para quê? Quando a guerra acaba, a ordenha é feita por máquinas. Publicou a Sextante.

Ilustrar a vida de uma dúzia de escritoras com opiniões fortes é o propósito da jornalista canadiana Michelle Dean (n. 1979), que escolheu Dorothy Parker, Rebecca West, Zora Neale Hurston, Hannah Arendt, Mary McCarthy, Susan Sontag, Pauline Kael, Joan Didion, Nora Ephron, Lillian Hellman, Renata Adler e Janet Malcolm para escrever De Língua Afiada. O layout da edição portuguesa faz supor que se trata de uma colectânea de textos das referidas autoras. Não é. Como o subtítulo indica — Mulheres que fizeram da opinião uma arte —, trata-se de um ensaio biográfico sobre mulheres que marcaram a cena literária. O livro acompanha a onda actual do movimento feminista, embora muitas delas tenham estado em rota de colisão «com as posições políticas do feminismo…» Publicou a Quetzal.

Um dos aspectos menos conhecidos do Holocausto diz respeito à destruição de livros hebraicos. Esse desconhecimento foi ultrapassado com a publicação de Os Homens Que Salvavam Livros, do historiador David E. Fishman (n. 1957). A ocupação da Polónia e da Lituânia, pelos nazis e pelos soviéticos, é o foco do livro. Fishman dá a conhecer os homens e mulheres que fizeram a “Brigada do Papel” no gueto de Vilnius. Além de mapas, o volume inclui portfolio fotográfico. Publicou a Presença.

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RESGATE


Partem hoje de Beja três aviões da Hi Fly com a missão de resgatar cidadãos europeus retidos em Wuhan: o primeiro às 10 da manhã, o segundo às 11 e o terceiro às 15. Foi à companhia da família Mirpuri, especializada no fretamento de aviões comerciais, que a Comissão Europeia, através do Mecanismo Europeu de Protecção Civil, os fretou.

O voo das 10 da manhã será feito por um A-380, o maior avião comercial do mundo, com capacidade máxima para 853 passageiros, embora as companhias que o utilizam (casos da Emirates, Etihad, Quatar, Singapore Airlines, Qantas, Lufthansa, Air France, British Airways, etc.) tenham optado pela versão de 520 lugares em três classes. Desconhece-se a versão a utilizar no voo da Hi Fly.

O avião sai de Beja, único aeroporto português onde o A-380 pode operar, com destino a Paris, para embarcar médicos e outros profissionais de saúde, num total de 30 pessoas. De Paris segue para Hanói, sendo a ligação com Wuhan efectuada por outro avião, provavelmente chinês. O voo das 11 horas segue o mesmo percurso. O das 15 não passa por Paris, mas por Bruxelas. O destino final é sempre o Vietname.

Os dezassete tripulantes são portugueses. A partir de Beja, seguem técnicos da direcção-geral de Saúde.

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

DONE


Por 621 votos a favor, 49 contra e 13 abstenções, o Parlamento Europeu aprovou hoje os termos do Brexit. 

Na imagem do Guardian vêem-se eurodeputados britânicos a celebrar no plenário. Clique.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

PE RENOVADO

A três dias do Brexit, começaram a chegar ao Parlamento Europeu os deputados, oriundos de catorze países, que vão substituir os britânicos. França e Espanha são os Estados-membros mais beneficiados com a redistribuição.

A representação portuguesa não sofre alteração.

O PE já tinha sido desenhado para, a partir das eleições de 2019, ter apenas 705 lugares. Os percalços do Brexit alteraram tudo, uma vez que os britânicos acabaram por ter de votar. Agora que saiem, volta-se ao número de 705.

Portanto, dos 73 lugares do Reino Unido, apenas 27 são preenchidos pelo método da proporcionalidade degressiva, ficando distribuídos assim: França (+5), Espanha (+5), Itália (+3), Países Baixos (+3), Irlanda (+2), Suécia (+1), Áustria (+1), Dinamarca (+1), Finlândia (+1), Eslováquia (+1), Croácia (+1), Estónia (+1), Polónia (+1) e Roménia (+1).

Os restantes 46 desaparecem.

A EROSÃO DO TEMPO


A RTP2 transmitiu ontem um filme que não tinha visto por ocasião do seu lançamento, em 2012. Falo de Amour, de Michael Haneke.

Laureado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Globo de Ouro na mesma categoria, a Palma de Ouro de Cannes, cinco Césares, dois Bafta, etc., narra a história de dois professores de piano aposentados, residentes em Paris, octogenários ambos. Nos papéis de Georges e Anne estão Jean-Louis Trintignant (nascido em 1930) e Emmanuelle Riva (1927-2017). A porteira do prédio é Rita Blanco. Uma história de solidão, doença e eutanásia. Muito deprimente.

Na minha adolescência, fui testemunha do sucesso de Trintignant, um pedaço de homem naquela época. Como actor nunca me entusiasmou: E Deus criou a mulher (Vadim), com a Bardot, filme que só vi nos anos 1960, e Um Homem e Uma Mulher (Lelouch), com Anouk Aimée, são dois exemplos.

Lembro-me da polémica que o filme de Lelouch suscitou em Lourenço Marques, porque Irene Gil abriu a ‘Página da Mulher’ — que coordenava no Notícias — a um debate em que participaram algumas personalidades locais, como Edith Arvelos e outras, mas não os cinéfilos de Esquerda, especializados em Godard e Antonioni, que escreviam noutras páginas.

Irene Gil, mãe dos filósofos Fernando Gil e José Gil, foi de certo modo uma feminista avant la lettre, pois, mesmo nos ominosos anos da censura, usou a coluna que assinava, Daqui e dali, para falar de Betty Friedan, autora do polémico The Feminine Mystique (1963), de Maria Teresa Horta, da ‘invisibilidade’ das mulheres negras na sociedade moçambicana (em 1972), em suma, de temas como relações de classe e etnia, estranhos ao espírito do tempo. Conheci bem Irene Gil e sei as dificuldades que teve em remar contra a maré.

Como disse, Um Homem e Uma Mulher deu azo a uma curiosa polémica, que esteve sempre no meu pensamento enquanto ontem via um Trintignant octogenário perdido no labirinto das escolhas inomináveis.

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

E ENTÃO?


Num comunicado hoje divulgado, os advogados Francisco Teixeira da Mota e William Bourbon confirmaram que Rui Pinto é a fonte do Luanda Leaks.

A documentação que compromete Isabel dos Santos foi entregue ao ICIJ (o International Consortium of Investigative Journalists) há mais de um ano.

Portanto... «A responsabilidade das autoridades é agora agir e abrir as investigações necessárias — já abertas em Angola — e ao mesmo tempo recuperar elevadas somas de dinheiro, mas é preciso dizer que são as mesmas autoridades portuguesas que mantêm Rui Pinto na prisão há quase um ano, sob o pretexto de uma tentativa de extorsão, e que, até este momento, apenas pediram a sua colaboração com o exclusivo intuito de o auto-incriminar. [...]»

Ou muito me engano, ou isto é o primeiro passo para mandar arquivar tudo.

Clique na imagem.

sábado, 25 de janeiro de 2020

CORONAVÍRUS GLOBAL


Por causa do Coronavírus, hoje, dia de Ano Novo chinês, mais de 56 milhões de pessoas estão impedidas de celebrar a data devido às restrições de circulação, não só em Wuhan, mas também em Pequim e noutras cidades.

O que são 56 milhões num país com 1,4 mil milhões de habitantes?, dirão alguns. Em todo o caso, a maior quarentena jamais posta em prática.

Foram cancelados os festejos públicos. A Grande Muralha e a Disneylândia de Xangai foram encerradas por tempo indeterminado, o mesmo acontecendo a templos e feiras de 30 províncias.

Até ao momento, estão reportados casos na China (com 1.372 doentes infectados e 41 mortos), Macau, Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul, Japão, Singapura, Tailândia, Nepal, Malásia, Vietname, Austrália, Estados Unidos e França. 

Vários países, entre os quais Portugal, estão a tomar medidas para retirarem os seus cidadãos (vivem 14 portugueses em Wuhan). O primeiro avião americano, com pessoal médico a bordo e capacidade para 230 passageiros, já aterrou em Wuhan. Mas só nessa cidade vivem mais de mil americanos.

Clique no gráfico do Guardian, que reporta às 15:20 de hoje.

IMPERATIVO CATEGÓRICO

Com o argumento, correcto, de que «a Esquerda democrática não pode deixar de comparecer na eleição presidencial...», Francisco Assis defende hoje no Público a candidatura presidencial de Ana Gomes, 66 anos, diplomata de carreira (exerceu funções em Genebra, Nova Iorque, Tóquio, Londres e Jacarta), eurodeputada durante quinze anos (2004-19), activista dos direitos humanos e militante de base do PS.

Sobre uma sua eventual candidatura, Ana Gomes disse há dias na RTP3 que, por querer trabalhar contra a corrupção, é mais importante ter a liberdade de dizer o que diz «sem os constrangimentos institucionais que qualquer cargo político, incluindo o de Presidente da República, impõe

É pena. Seriam umas eleições muito estimulantes.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

CIDADE SITIADA


Em Wuhan, na China, cerca de 20 milhões de pessoas (onze milhões no centro da cidade) vivem o terror do Coronavírus.

Sem transportes públicos de qualquer espécie, o aeroporto encerrado e as autoestradas bloqueadas, o pesadelo instalou-se. Fechados nos hotéis, os turistas não podem regressar aos seus países. Trata-se da maior operação de quarentena pública de todos os tempos.

Um novo hospital, com mil camas, começou hoje a ser construído. Prazo limite da obra: dez dias. No próximo 3 de Fevereiro terá de receber os primeiros doentes.

A coreografia das escavadoras antecipa a desmesura. É outra a escala chinesa.

Clique na imagem do Financial Times.

COMO VAI SER?

Isabel dos Santos fez ontem uma visita relâmpago a Lisboa. O motivo terá sido agilizar a venda da sua participação (70%) no capital da Efacec.

Vender 70% do capital da Efacec não é o mesmo que vender um andar. Mesmo com comprador à porta e dinheiro na mão, a operação envolve entidades reguladoras (não só a CMVM) e decisões políticas, tornando-se, por essa razão, um processo moroso.

O mesmo se diga do EuroBic, que terá comprador apalavrado desde anteontem (comprador dos 42,5% que a empresária detém no Banco), mas também terá de passar por vários crivos.

Isto leva-nos ao ponto: uma vez consumadas as vendas, qual o destino do dinheiro? Fica congelado em Portugal até decisão dos tribunais? É entregue ao Estado angolano? É transferido para uma das muitas empresas (em países terceiros) da empresária? É transferido para uma das suas contas pessoais, seja em bancos tradicionais seja em offshores?

A ver vamos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

MADRID


Hoje na Sábado.

Madrid me mata

Descobri Madrid há quarenta anos, induzido pela movida de Tierno Galván, o alcaide que fez da capital de Espanha a cidade mais frenética da Europa. Toda a gente ia a Londres fazer compras, ver teatro e museus, mas quem queria “desbocar-se” tinha de ir a Madrid, que naquela época foi uma espécie de Nova Iorque a preço de peseta.

Tenho voltado repetidas vezes. Como no resto do mundo, muita coisa mudou, mas a joie de vivre dos madrilenos continua imbatível, os cafés icónicos ainda lá estão, a oferta gastronómica alinhou pelos padrões europeus mais exigentes, o Prado continua a ser um museu excelentíssimo e, mesmo ao lado, só o mítico Ritz se mantém encerrado há dois anos, alvo de obras de renovação decididas pelo grupo Mandarin Oriental. Por cento e vinte milhões de euros, os novos proprietários garantem devolver à cidade, talvez ainda este ano, o hotel que o rei Alfonso XIII mandou construir pouco depois de casar-se com Victoria de Battenberg.

O Ritz fica no topo do Triângulo de Arte, constituído pelos museus do Prado, o Thyssen-Bornemisza e o Reina Sofía. Com mais de duzentos anos, o Prado é o equivalente espanhol do Louvre. Sem surpresa, Goya e Velázquez estão extensamente representados. A sala de Las meninas (Velázquez) está em permanente engarrafamento. O acervo de pintura europeia inclui Rafael, Bosch, Caravaggio, Rubens, Botticelli, Ticiano, Brueghel, Fra Angelico, Tiepolo, Van Dyck e outros, como o notável Lawrence Alma-Tadema, de quem nunca tinha ouvido falar antes de o descobrir ali. O que saiu do Prado foi Guernica, obra que Picasso pintou em 1937, após o bombardeio da cidade basca. Exposto na Exposição Universal de Paris, enquanto prosseguia a Guerra Civil espanhola, o vasto mural só entrou em Espanha em 1981, ficando exposto no Casón del Buen Retiro, o anexo do Prado onde pela primeira vez o vi. Em 1992 foi transferido para o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, inaugurado nesse ano. Ao contrário do Prado, mandado construir para albergar as colecções reais, o Reina Sofía ocupa as instalações de um antigo hospital, aumentado em 2005 pelo edifício Nouvel. Focado em arte moderna, permite um amplo tour d’horizon do século XX aos nossos dias. Picasso, Dalí, Calder, Lichtenstein, Picabia, Warhol, Baselitz, Tàpies, Poliakoff, Saura, Rothko, Klee, Miró, Pollock, Barceló e muitos outros, incluindo fotógrafos como Cindy Sherman e Man Ray, fazem do Reina Sofía uma das moradas mais procuradas da cidade.

A meio caminho entre o Prado e o Reina Sofía fica o Thyssen-Bornemisza, com origem na colecção privada da família de industriais alemães Thyssen. As vicissitudes da Segunda Guerra Mundial fizeram com que as obras circulassem entre a Alemanha, a Hungria, a Holanda e a Suíça (em 1988 ainda estavam em Lugano). Foi Carmen Cervera, então casada com o barão Hans Heinrich von Thyssen-Bornemisza, quem convenceu Felipe González, presidente do Governo, a negociar a vinda definitiva das obras para Espanha. Assim, em 1992, o Palácio de Villahermosa tornou-se um museu de referência, visitado em 2019 por mais de um milhão de pessoas, atraídas pelo carácter heterogéneo da colecção. Há de tudo, do Renascimento a Balthus, passando por Willem de Kooning, Natalia Goncharova, Arshile Gorky, Frank Stella, Georgia O'Keeffe, Egon Schiele, etc., sem esquecer os flamengos, os impressionistas e os cubistas. Tal como o Prado e o Reina Sofía, mantém ao longo do ano excelentes exposições temporárias.

Mais recente, ocupando as instalações de uma antiga central eléctrica reconvertida em centro cultural, o CaixaForum Madrid destaca-se pelo jardim vertical de Patrick Blanc. Inaugurado em 2008, exibe exposições temporárias ao longo do ano, muitas delas em parceria com o British Museum, de Londres.

Denominador comum às quatro moradas, o Paseo del Prado, imponente avenida que, ultrapassada a Praça de Cibeles, entronca com o Paseo de Recoletos e o Paseo de la Castellana. Em 2002, o arquitecto português Álvaro Siza Vieira ganhou o concurso internacional para a sua “requalificação”, mas o violento clamor público (um movimento cívico liderado por Carmen Cervera) gerado pelo previsto abate de árvores, congelou o projecto sine die. Ainda bem.

Na Praça de Cibeles o que mais impressiona não é a espectacular fonte dedicada à deusa grega da fertilidade. É o palácio que ocupa o lado sudeste. O edifício, um dos mais monumentais da cidade, destaca-se por ter sido construído em pedra branca. Foi sede dos Correios durante 90 anos, albergando actualmente os serviços culturais do município. Dispõe de uma área de exposições temporárias denominada CentroCentro. A dois passos, encontramos a Praça da Independência, dominada pela Puerta de Alcalá, monumento neoclássico que Sabatini desenhou em 1768 por encomenda de Carlos III. Após uma pausa no Cappuccino Grand Café, a Puerta de Alcalá é o ponto de partida ideal para descobrir o privilegiado bairro de Salamanca, epicentro do comércio de luxo, concentrado nas calles Serrano, Claudio Coello, Ayala, Ortega y Gasset, Hemorsilla, Lagasca, Ramón de la Cruz e Goya, esta última com ofertas mais “populares”. A larga maioria dos melhores hotéis, bem como alguns dos restaurantes mais exclusivos, também se encontram no bairro de Salamanca. O mesmo se diga do Museu Arqueológico, na elegante Calle Serrano.

A título de exemplo refira-se a Calle de Jorge Juan, com mais de duas dúzias de restaurantes. Pela qualidade da cozinha e do serviço, mas também pela atmosfera glossy, destaco cinco: o Quintin, o Paraguas, La Máquina, o Graciano e La Bien Aparecida. Não estamos a falar de restaurantes que têm ou tiveram estrelas Michelin. Esses encontram-se espalhados um pouco por toda a cidade, como o magnífico Club Allard, em tempos um clube privado da monarquia e da alta-finança, o glamoroso Coque ou o incontornável Cebo, do chef Aurelio Morales. Localizado no rés-do-chão do Hotel Urban, decorado por Philippe Starck, o Cebo fica muito próximo das Cortes. No outro extremo do paladar, os amantes de tapas podem optar pela tradição ou pela “desconstrução”… No primeiro caso, a Casa Del Abuelo (Calle Goya) é perfeita. No segundo, convém conhecer o Juana La Loca, na Plaza de Puerta de Moros.

Na bifurcação da Calle Alcalá com a Gran Vía, ou seja, na zona de fronteira entre a Madrid Bourbon e o centro histórico, o Círculo de Bellas Artes é ponto de passagem “obrigatório”, quanto mais não seja por ter a melhor esplanada da cidade. Fundado em 1880, o Círculo está equipado com quatro salas para exposições, auditório para concertos e teatro, sala de cinema, centro de documentação e uma das melhores (senão a melhor) livrarias da cidade. No piso térreo encontra-se o café-restaurante La Pecera, todo art déco, onde é possível almoçar a preço módico. Nos anos 1990, ainda o espaço hoje ocupado pelo restaurante era uma varanda larga à altura da copa das árvores. Convém não confundir o Círculo com a Real Academia de Bellas Artes, que também fica na Calle Alcalá, e tem um espólio riquíssimo de pintura espanhola, de perfil paralelo ao do Prado.

Tão importante como visitar os museus é conhecer o Café Gijón, no Paseo de Recoletos. Aberto desde 1888, por lá passou toda a gente que conta, na literatura, na política e nas artes em geral. As suas tertúlias fazem parte da história da cidade (no Museu de Cera existe réplica de uma delas). No Gijón encontramos velhos intelectuais antifranquistas, poetas, turistas cultos, monárquicos, yuppies da era digital, galeristas, etc. Não tem filas à porta, como os cafés de Viena, mas, sem reserva, é impossível arranjar mesa no interior. Na esplanada sim, mas é outro campeonato.

O prolongamento de Recoletos é o Paseo de la Castellana, com início na Praça Colón. Ao longo de seis quilómetros, a avenida vai mudando de perfil. Na primeira secção fica o muito recomendável Museu de Ciências Naturais. Na segunda, denominada Nuevos Ministerios, vários departamentos do Governo. E, na terceira, o CTBA, ou seja, o Cuatro Torres Business Area (os quatro arranha-céus que vemos do ar, muito antes do avião aterrar). Portanto, como o nome indica, uma área de negócios.

Há trinta anos, ainda a Gran Vía era o coração de Madrid: comércio de todo o tipo, teatros, cinemas, cafés, bares, restaurantes, casas de diversão nocturna, hotéis, galerias, edifícios magníficos. Não havia como ignorar o eixo que liga o bairro de Salamanca com o de Argüelles. Nada disso desapareceu (nem os grandes cinemas), as obras modernistas continuam a ser um íman fortíssimo para quem gosta de arquitectura, mas o downsizing é evidente, em especial no comércio e na hotelaria. Sirva de exemplo o Bar Chicote, que nos anos 1970 ainda era considerado um dos dez melhores do mundo, ponto de encontro de celebridades planetárias, e é hoje um antro incaracterístico para os turistas low cost que tornam a circulação da Gran Vía um inferno. Contudo, a comunidade LGBT ainda a utiliza como ponto de passagem para Chueca, o gueto gay do bairro Justicia que tem inspirado livros, filmes e muita lenda urbana.

Outro grande atractivo é a Plaza Mayor, sobrevivente de três incêndios desde o século XVI. Mantém as nove entradas em arco, sendo a Casa de la Panadería o ponto de maior interesse. O “progresso” transformou a praça num conglomerado de restaurantes, esplanadas e lojas sem interesse. A duzentos metros fica outra praça famosa, a Puerta del Sol, centro de manifestações políticas e de festejos do réveillon. Quem quiser ver a estátua do Urso e do Medronheiro, símbolos de Madrid, tem de lá ir. Na Carretera San Jerónimo, que parte da Puerta del Sol, fica o Lhardy, loja gourmet com restaurante no primeiro andar. O estabelecimento tem quase duzentos anos, e ainda me lembro do tempo em que, ao domingo, antes do almoço, toda a gente lá ia comer (aliás beber, pois era servido em almoçadeiras) consommé. Hoje, os turistas fazem filas homéricas à porta da loja.

No centro histórico merecem visita o Mosteiro das Descalças Reais (com obras esplêndidas de Zurbarán, Murillo e Ribera), o Museu Cerralbo, que acolhe a colecção particular do marquês do mesmo nome (notável sobretudo pelas peças de arqueologia), bem como o Teatro Real, ou seja, a Ópera. E na Calle de los Cuchilleros, o Botín, que hoje se chama Sobrino de Botín. Estamos a falar do restaurante mais antigo do mundo, aberto desde 1725. Em quatro pisos, um labirinto de salas, algumas com uma única mesa, serve comida tradicional, valendo sobretudo pela experiência.

Como escrevi um dia, é mais fácil viver nestas cidades que conservam os seus cafés, a sua vegetação e a sua loucura.

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TURNING POINT


Acusada de corrupção, branqueamento de capitais e apropriação indevida de fundos da Sonangol, Isabel dos Santos foi constituída arguida num processo-crime instaurado pela procuradoria-geral de Angola, divulgado em directo na televisão angolana, ontem à noite, pelo PGR do país.

Ela e quatro colaboradores portugueses: Mário Leite da Silva, CEO do Banco de Fomento de Angola, Sarju Raikundalia, ex-administrador financeiro da Sonangol, e Paula Oliveira, administradora da NOS.

Entretanto, o quarto arguido, Nuno Ribeiro da Cunha, ex-director do private banking do EuroBic, foi encontrado morto, em Lisboa, hoje de manhã.

A posição de Isabel dos Santos no Eurobic (42,5%) terá sido vendida nas últimas horas.

O PGR de Angola reúne-se hoje de emergência com Lucília Gago, a PGR portuguesa. Parece estar em cima da mesa um pedido de extradição. Mas como é que se extradita alguém que não reside no país? O pedido terá de ser feito aos Emirados Árabes Unidos, uma vez que a arguida tem residência oficial no Dubai.

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