segunda-feira, 22 de julho de 2019

PITAGÓRICA


Começar bem a semana. Sondagem da PITAGÓRICA divulgada hoje pela TSF e o Jornal de Notícias.

Obtendo 43,2% o PS fica à beira da maioria absoluta. O score corresponde ao dobro do PSD, que fica em 21,6%.

PS = 43,2% / PSD = 21,6% / BE = 9,2% / CDU = 6,8% / CDS = 6% / PAN = 3,6% 

Sozinho, o PS obtém mais 15,6% que a PAF [PSD+CDS].

Maioria de Esquerda = 59,2%. Em deputados seriam mais de dois terços.

Santana Lopes não consegue ser eleito.

Clique no gráfico da TSF.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

AXIMAGE


Sondagem Aximage divulgada hoje no Correio da Manhã e no Negócios. A continuar assim, está tudo dito.

Clique no gráfico do Negócios.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

VIENA


Impressões minhas de Viena, hoje na Sábado.

A literatura e o cinema ajudam-nos a conhecer as cidades muito antes de as visitarmos. Nova Iorque, Paris e Londres são exemplos extremos, onde nos orientamos com facilidade. Não se pode dizer o mesmo de Viena. Sucede com a capital austríaca o que acontece com certos livros: toda a gente cita sem os ter lido.

Resisti o mais que pude. A minha geração não esqueceu o Anschluss (a conexão nazi), nem, mais tarde, o estatuto de satélite adormecido de Moscovo. Verdade que o Círculo de Viena faz parte do nosso imaginário, não tanto por causa dos fundadores, mas pela irradiação internacional deste grupo de filósofos, cientistas, artistas plásticos e escritores que durante grande parte da primeira metade do século XX fizeram de Viena um dos epicentros da política e da cultura europeia. O domínio do Terceiro Reich alemão e a ideologia nacional-socialista levaram à diáspora os seus membros mais ilustres, mas o mundo académico anglo-americano, que os acolheu, preserva o legado.

Viena, portanto. Ficamos em Hofburg, o anel central da cidade, a dois passos de tudo o que interessa: museus e galerias de arte, grandes hotéis, livrarias sofisticadas, lojas de luxo, três cafés históricos — Mozart, Central e Sacher —, o Loos American Bar, vários dos melhores restaurantes, mercearias gourmet, chocolatarias para todos os gostos, o Palácio Palfy, sala de concertos low cost, a famosa Graben, artéria pedonal com casino e comércio de todo o tipo, a Spanische Hofreitschule (escola de arte equestre), o parque Burggarten e a elegante Kohlmarkt, que desemboca em Michaelerplatz, entrada principal do Palácio Imperial de Hofburg para onde convergem todos os nostálgicos de Sissi, a imperatriz imortalizada por Romy Schneider. Dito de outro modo: explorar Hofburg é conhecer o essencial de Viena.

Por exemplo, é no vasto complexo do Palácio Imperial que estão instalados os museus canónicos: o Kunsthistorisches, ou Museu de História da Arte, e o Museu de História Natural. Situados defronte um do outro, são obra da mesma dupla de arquitectos, Karl von Hasenauer e Gottfried Semper. Em Viena, tudo o que é relevante saiu das mãos deles.

No Kunsthistorisches há sempre grandes exposições temporárias, de Bruegel (embora A Torre de Babel faça parte das colecções permanentes), Rothko, Caravaggio e outros que tais. O acervo é riquíssimo. Há de tudo, do antigo Egipto à pintura flamenga, sem esquecer o mundo grego e romano, os renascentistas italianos, pintura inglesa, joalheria e até o extravagante Arcimboldo. A escadaria central é dominada por Teseu e o Centauro, a monumental escultura de Canova. Os magníficos painéis do tecto são de Klimt, também presente com o célebre Nuda Veritas. Os despojos escultóricos de Éfeso estão depositados no Castelo Novo, denominado Ephesos Museum, uma extensão do Kunsthistorisches, onde funciona a Biblioteca Nacional Austríaca.

Mas há mais. Após uma caminhada de cinco minutos, ocupando o espaço outrora reservado aos estábulos imperiais, o Museum Quartier (com cinco entradas viradas à Museumplatz) alberga mais de meia centena de instituições, de que fazem parte quatro museus importantes: o Leopold, incontornável para quem gosta de Schiele, Klimt e restante arte austríaca; o Mumok, de arte moderna e contemporânea; o Kunsthalle, feudo dos performativos abstractos; e o Architekturzentrum, ideal para perceber a evolução da arquitectura. Separados por talvez cem metros, o Leopold e o Mumok são edifícios modernos, muito diferentes entre si, construídos de raiz no vasto pátio central, coberto de neve no Inverno e de esplanadas no Verão.

No Leopold tive a grata surpresa de descobrir a obra de Richard Gerstl, o primeiro modernista da Áustria, suicidado aos 25 anos quando Schönberg rompeu a ligação amorosa de ambos e o expulsou do Círculo de Viena. Quem prefere Schiele a Klimt, como acontece comigo, encontra no Leopold a razão dessa preferência. Ainda no Leopold, Ferdinand Georg Waldmüller foi outra descoberta auspiciosa. Como notou um amigo atento, Waldmüller é uma espécie de Henrique Pousão ‘mais luminoso’. O Mumok acolhe parte da obra de Ernst Caramelle. No Kunsthalle há muita fotografia e vídeos: Andrzej Steinbach, Ingel Vaikla, Joanna Piotrowska (que tem uma galeria em Lisboa), Peter Wächtler, Tobias Zielony, Ian Wallace e outros. À chegada ou partida do Museum Quartier deve visitar-se o MQ Point, que tem uma das melhores livrarias de arte que me lembro de ter visto dos dois lados do Atlântico. Infelizmente não é para todas as bolsas. Saí de mãos vazias e a ranger os dentes: o álbum de Lucian Freud custa 750 euros.

Mais afastado, mas ainda em Hofburg, instalado no Palais Erzherzog Albrecht, o Museu Albertina é do melhor que há na Europa: Dürer, Chagall, Lichtenstein, Magritte, Kandinsky, Degas, Kirchner, Rubens, Bosch, Monet, Picasso, Warhol (o retrato Mao), Brassaï, Rafael e Leonardo são alguns dos artistas melhor representados. Estes e a nata da arte austríaca, que inclui o pouco citado mas insigne Kokoschka. O museu fica em Albertinaplatz — morada do Café Mozart, onde Graham Greene, nos seus tempos de espião, marcava encontros com outros agentes do MI6 —, e é porventura o melhor museu ‘moderno’ de Viena.

Na fronteira de Hofburg temos Stephansdom, a imponente catedral medieval de Santo Estevão. Assombrosa, com uma nave espectacular, fica ‘entalada’ entre edifícios vulgares. Portanto, a melhor forma de apreciar a torre gótica e as telhas de vidro colorido que forram o telhado é ir tomar um copo ao bar do 6.º andar do DO&CO, mesmo em frente.

Pelo contrário, a Karlskirche, igreja barroca dedicada a Carlos Borromeu, mandada construir por Carlos VI, imperador do Sacro Império Romano, está enquadrada pelo cenário desafogado de Karlsplatz. Lá dentro, os frescos de 1726 que Johann Michael Rottmayr pintou na cúpula são impressionantes. Uma estrutura metálica, com elevador, leva-nos a uma plataforma elevada a mais de trinta metros que permite apreciar os detalhes. Quem não queira subir, vê os frescos reflectidos em dois globos transparentes de grande diâmetro. Na Karlskirche também se realizam concertos de música clássica: no dia em que fomos era Ave Maria, de Schubert.

Karlsplatz é um parque de grandes proporções que tem na sua moldura a fabulosa Karlskirche, a Universidade Técnica de Viena, o Wien Museum, o cubo de vidro que serve de extensão ao Kunsthalle e, do lado oposto, já em Innere Stadt, a Musikverein, sede da Filarmónica de Viena, conhecida sala de concertos que toda a gente identifica por causa da gala de Ano Novo. Não confundir com a Staatsoper (imagem ao alto), a mítica ópera de Viena, que domina Ringstrasse e fica ali perto. A enorme mais-valia de Viena é essa: podermos ir a quase todo o lado a pé, sem necessidade de táxis ou metro. Por falar em ópera: não é um espectáculo barato em lado nenhum, a Staatsoper tem uma programação invejável, mas pratica preços de extorsão, superiores aos de Nova Iorque e Londres.

Voltando a Karlsplatz, o discreto Wien Museum é muitíssimo recomendável. Vimos uma notável exposição documental e fotográfica sobre a implosão do Império Austro-Húngaro (1918) e subsequente proclamação da República (1919), organizada por Anton Holzer: Die erkämpfte Republik. As maquetas da cidade, desde 1400, são outro atractivo. A sala dedicada aos indígenas ilustres dá a medida daquilo que Viena representou até 1940.

No outro extremo de Karlsplatz, já em Friedrichstrasse, fica a Wiener Secession, fundada em 1897 por Klimt, Moser e outros adversários da arte conservadora que então dominava. Conhecido simplesmente como ‘a Secessão’, trata-se de um dos edifícios mais pequenos e belos de Viena, rapidamente identificado pela cúpula dourada de Olbrich (a sua efígie está cunhada nas moedas austríacas de 50 cêntimos). Serviu de escola de arte e ofícios de artistas novos. É lá que podemos ver os famosos murais de Klimt, bem como exposições temporárias vanguardistas, como são as de Kris Lemsalu, Ed Ruscha e Philipp Timischl. Pelo tipo de visitantes percebe-se que estamos num museu muito exclusivo. Se atravessar a rua encontra o confortável Café Museum, poiso de Musil e outros intelectuais da cidade.

Não é despiciendo falar de cafés, traço distintivo da cultura vienense. A UNESCO classificou-os como património imaterial da humanidade. Já referi o Mozart, o Central e o Sacher, que têm filas homéricas à porta (assunto que se resolve fazendo reserva online), mas o Sperl, o Frauenhuber e o Landtmann são igualmente de visita “obrigatória”. Acoplado ao hotel homónimo, o Sacher serve a famosa tarte e, dizem os entendidos, a melhor melange da cidade. Além de bolos, o Mozart serve pratos da cozinha local, como Wiener Schnitzel com salada de batata e compota de framboesas, ou Tafelspitz, o prato preferido do imperador Francisco José, com puré de maçã. No Central come-se um Goulash decente e Apfelstrudel aquecido a nadar em creme de baunilha. A cozinha mais elaborada é a do Landtmann. Habitué, Freud tinha a mesma opinião. Paul McCartney e Hillary Clinton corroboram. Se quer ver rapaziada jovem e descontraída tem de ir ao Sperl, fora do anel central.

Os restaurantes propriamente ditos são outra coisa. Mesmo ao lado do Landtmann fica o Burgtheater, o esplêndido teatro ‘alemão’ desenhado por Hasenauer e Semper. É no Burgtheater, virado à Universitätsring e ao Rathaus (a Câmara Municipal de Viena), que fica o Vestibül, um dos melhores restaurantes da cidade, elegante, formal, absolutamente Habsburgo, porém acessível a bolsas portuguesas — tal como o Dstrikt, o DO&CO, o Eight e o feérico Palmenhaus, que fica na antiga estufa imperial, mesmo atrás do Museu Albertina. Noutro patamar, com preços proibitivos, o Steirerek, do chef Heinz Reitbauer, divide com o Opus, de Stefan Speiser, o pódio dos eleitos. Mas Le Ciel, de Toni Mörwald, e Konstantin Filippou, do próprio, também estão em alta. Conseguem todos a proeza de serem mais caros que os equivalentes de Londres.

A visita não ficaria completa sem conhecer o Palácio de Schönbrunn, residência de Verão dos Habsburgos, situado em Hietzing, a cerca de oito quilómetros do centro de Viena. A comparação com Versailles torna-se inevitável, mas, apesar das suas mil e quinhentas divisões, a casa de Maria Tereza ganha em escala humana. No topo dos jardins, a Gloriette, epifania absoluta. Quem não queira ir tão longe tem muito para ver no Belvedere, em especial no Belvedere Superior, que acolhe arte moderna (Klimt, Gerstl, Kokoschka) em alas de estatuária barroca. Os jardins do Belvedere estão no centro da cidade, e são, juntamente com o Prater — o parque de diversões onde se realizou a Exposição Mundial de 1873 —, dois hot spots durante a Primavera e o Verão. Em 1949, Orson Welles filmou ali, na roda gigante do Prater, O Terceiro Homem

Não vi centros comerciais, mas decerto haverá. O mais parecido foram as arcadas Freyung e Ferstel, com lojas de gama alta e pequenos cafés, ambas em Herrengasse. Também não vi sinais da comunidade LGBTI ou fumadores.

Aquela que foi a última fronteira entre o Ocidente e a Cortina de Ferro mantém-se suspensa no tempo. Se lá voltasse, Graham Greene encontraria quase tudo na mesma. O século XXI ainda não chegou ali.

Clique na imagem da Staatsoper.

THEROUX & BARNES


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição de Viagem por África, de Paul Theroux (n. 1941), autor de uma obra muito extensa, conhecido sobretudo pelos livros de viagem. Vem muito a propósito, na medida em que entre 2002 e a actualidade nada mudou no quotidiano dos povos que vivem de Norte a Sul do continente. Utilizando o comboio, camionetas e carros de toda a espécie, a viagem começa no Cairo e acaba na Cidade do Cabo. Durante o percurso — ele chama-lhe safari —, Theroux confirmou os perigos de visitar países como a Etiópia, o Quénia e a Zâmbia, a bipolaridade religiosa do Sudão, a falta de estradas no Congo e na Tanzânia, a ditadura dos «senhores da guerra» na Somália, as sequelas do Ruanda após o genocídio de 1994 (em três meses, membros da etnia hutu chacinaram um milhão de membros da etnia tutsi), as ocupações selvagens no Zimbabué, a relativa acalmia em Moçambique e a “prosperidade” da África do Sul, malgré a criminalidade urbana que afecta Joanesburgo. Teroux não é um colono saudosista, embora tenha vivido e trabalhado no Malawi e no Uganda. Conhece bem os países que descreve e, se não tem ilusões acerca da violência como modo de vida, da fome e das epidemias (em especial a Sida), também não as tem acerca do papel do voluntariado “humanitário” praticado pela maioria dos funcionários das poderosas ONG internacionais, toleradas, decerto não por acaso, pelas plutocracias nacionais. Por exemplo, sobre a devastação de Moçambique provocada pelos quinze anos de guerra civil (1977-1992) que sucederam à independência, diz que, ao arrepio da retórica mediática, as ONG nada fizeram: «Eu suspeitava de que tinham inventado este sucesso para justificar a sua própria existência.» Contudo, são muito interessantes as páginas dedicadas ao país. A estação ferroviária de Maputo, com a abóboda de bronze (e não de ferro) desenhada por Eiffel, é considerada «a mais bela de África». A narrativa inclui relatos de conversas com (e comentários sobre as respectivas obras) o egípcio Naguib Mahfouz e a sul-africana Nadine Gordimer, dois Prémios Nobel da Literatura que não abandonaram os países de origem. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre A Única História, o romance mais recente de Julian Barnes (n. 1946). Os incondicionais do autor, entre os quais me incluo, atribuem-lhe a responsabilidade de, em 2011, ter salvo a reputação do Man Booker Prize. Porquê? Porque um júri presidido por Stella Rimington fez dele o vencedor. Vai nisto alguma dose de ironia, mas o facto é que Barnes nunca decepciona. A intriga é velha como o mundo: rapaz de 19 anos torna-se amante de mulher casada, com mais do dobro da sua idade, e duas filhas mais velhas do que ele. A acção tem lugar no Sussex, região dilecta das classes altas inglesas ou com pretensões a sê-lo. Tudo se passa nos azougados anos 60 britânicos, pretexto para analisar o amor e o sexo à luz dos códigos e tiques dos súbditos de Sua Majestade. Para Susan Macleod, Paul é um brinquedo muito apetecido com prazo de validade curto (como descobrirá mais tarde). Não acaba bem, mas a mordacidade e o virtuosismo de Barnes valem a leitura. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

GRANDES DEVEDORES

Sabemos hoje que entre 2010, no Governo Sócrates, e 2012, no Governo PAF, os grandes devedores passaram de seis para dezassete. Um deles, identificado com o número de código 088, é responsável por perdas efectivas de 542 milhões de euros, o correspondente a 40% do total de 1.334 milhões de euros perdidos em créditos pela CGD.

Que raio andaram as equipas da troika (constituída pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu) a fazer em Portugal, entre 2011 e 2015? Para as contas dos Bancos não olharam. Nem sequer para as da Caixa Geral de Depósitos, que pertence ao Estado.

Serviram de bode expiatório para o guião PSD-CDS que aumentou os impostos de forma brutal, cortou subsídios, incluindo o de doença e o de reinserção social (sujeito a condição de recursos), taxou os reformados e os aposentados com a famigerada CES, fez disparar o desemprego para 15%, etc. Não nos esquecemos.

terça-feira, 16 de julho de 2019

QUEM RESPONDE POR ISTO?


E ninguém é responsável?

Clique na notícia e imagem do Expresso.

URSULA CONFIRMADA


Por 383 votos a favor, 327 contra, 22 abstenções e um nulo, o Parlamento Europeu confirmou Ursula von der Leyen, ministra alemã da Defesa, como Presidente da Comissão Europeia.

É a primeira vez que uma mulher ocupa o cargo.

Depois do discurso desta manhã, em que prometeu este mundo e o outro (neutralidade carbónica até 2050, salário mínimo europeu, taxar os gigantes tecnológicos a operar na União Europeia, flexibilização da política fiscal, respeito inalienável pelo Estado de Direito, apoio efectivo aos imigrantes, etc.), era difícil não obter a confirmação.

Ficou-me no ouvido a frase: «a economia existe para servir os cidadãos». Sobre um eventual salário mínimo europeu, aguardar para ver.

Clique na imagem do jornal belga Le Soir.

IMPASSE NA MONCLOA


Espanha está muito perto de novas eleições legislativas ainda neste Verão. Em Abril, o PSOE foi o partido mais votado. Mas 28,7% e 123 deputados são insuficientes para a maioria absoluta. Mesmo juntando os 42 deputados do PODEMOS, a Esquerda institucional fica aquém. Só juntando os votos dos pequenos partidos autonómicos isso se consegue.

Desde a primeira hora, Sánchez foi claro: o PSOE aceita o apoio parlamentar do PODEMOS, mas recusa um Governo de coligação. Faz muito bem. Isto anda a ser repetido há três meses. No limite, o PSOE aceita que o PODEMOS indique personalidades independentes, de reconhecido prestígio, para ocupar lugares na máquina do Estado, ao nível de director-geral.

Neste momento, com 123 deputados, o PSOE está empatado com a Direita: os 66 do PP mais os 57 de CIUDADANOS. Para já, PP e CS recusam aliar-se à extrema-direita do VOX, que tem 24 deputados. Também não servia para nada, neste momento, mas pode servir para investir Casado ou Rivera após novas eleições.

A votação da investidura de Sánchez está marcada para o próximo dia 22. Sem maioria, repete-se a 23. E numa terceira e última oportunidade, a 25. A abstenção de um grande grupo (o PP ou o CS) seria suficiente para trocar as voltas à teimosia de Pablo Iglésias. A ver vamos.

Havendo novas eleições em Setembro, receio que aconteça ao PODEMOS o mesmo que aconteceu ao SYRIZA grego. Os espanhóis estão fartos de tanta coreografia. O impasse vai sair caro à Esquerda.

Clique na imagem.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

GORDIEVSKY POR MACINTYRE


A capa engana. Reproduz a edição original hardcover, mas nem por isso deixa de parecer um bestseller série B. Nada mais errado. The Spy and the Traitor: The Greatest Espionage Story of the Cold War (2018), do historiador britânico Ben Macintyre, é uma excelente biografia de Oleg Gordievsky, ex-coronel do KGB que trabalhou para o MI6 britânico entre 1974 e 1985. Com outra identidade, Gordievsky, actualmente com 80 anos, vive hoje algures na Inglaterra.

O livro é viciante. Macintyre não é Le Carré, mas anda lá perto. Condenado à morte após a deserção para Londres, Gordievsky sobreviveu em 2007 a uma tentativa de envenenamento quando vivia no Surrey. O volume inclui dezenas de fotografias e uma minúcia informativa pouco comum em obras do género. Da bibliografia de Macintyre constam livros sobre (entre outros) Eddie Chapman, o famoso agente Zigzag, e Kim Philby, o mítico espião britânico oriundo do grupo de Cambridge que desertou para Moscovo em 1963.

Se gosta de thrillers, este tem a vantagem de ser sobre factos verídicos.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

EUROSONDAGEM


PS sozinho obtém mais do que a PAF [PSD+CDS]. PSD fica 15 pontos abaixo do PS.

Maioria de Esquerda = 57% 

PAN igual ao CDS, que cai quase para metade.

Clique na imagem do Expresso.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

CESARINY BIOGRAFADO


Hoje na Sábado escrevo sobre O Triângulo Mágico, a biografia de Mário Cesariny escrita por António Cândido Franco, professor de linguistica e literatura na Universidade de Évora. Biógrafo de Agostinho da Silva, autor de romances histórico-biográficos, estudioso do surrealismo, especialista em Pascoaes e editor da revista libertária A Ideia, Franco encarregou-se de fazer a tão esperada biografia de Cesariny, poeta e pintor, nome maior do surrealismo português.

O volume inclui quadro genealógico, Portaló, doze capítulos, um epílogo, vários anexos, portfolio fotográfico, índice de abreviaturas e uma extensa tábua bibliográfica activa e passiva. Franco, que conheceu pessoalmente o seu biografado, teve acesso a importantes acervos de correspondência (sendo o mais importante o do artista plástico Cruzeiro Seixas), tendo conversado com testemunhas idóneas do percurso de Cesariny. Índice onomástico não há. O texto acompanha a cronologia, mas tem múltiplas derivas. Muito bem documentada toda a história do Grupo Surrealista de Lisboa.

Numa narrativa de cunho próprio, isenta de hagiografia, Franco não deixa de fora nenhum dado importante: nascimento (1923) na Rua da Palma, brevíssima passagem pelo liceu, início da amizade (1935) com Cruzeiro Seixas, passagem pela Escola António Arroio, estudos de música com Lopes Graça, primícias literárias (1944) à boleia do neo-realismo, amizade com Isabel Meyrelles, descoberta (1947) do surrealismo, o Café Gelo, primeiros quadros e colagens, ruptura (1948) com O’Neill e o Grupo Surrealista de Lisboa, estreia em livro — Corpo Visível, 1950 —, morte do amigo António Maria Lisboa, anos de liberdade vigiada (1953-58) pela polícia a pretexto da condição homossexual, primeira exposição individual em Lisboa (1958), cumplicidade electiva com Natália Correia, publicação de Nobilíssima Visão (escrito em 1945 mas só publicado em 1959), diatribes de e com Jorge de Sena e Gastão Cruz, elogios de Gaspar Simões, amizade com Maria Helena Vieira da Silva e Árpád Szenes, bolseiro da Gulbenkian, viagem a Paris (onde esteve preso) e largas estadias em Londres a partir de 1964, zanga com Luiz Pacheco, organização da representação nacional à Exposição Surrealista Mundial de Chicago (1976), visita à Pirâmide do Sol em Teotihuacan, tença por mérito cultural atribuída pelo Estado, publicação do volume antológico Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial (1977), tentativa gorada de obter o lugar de adido cultural na embaixada de Portugal na Cidade do México por alegado veto do embaixador José Fernandes Fafe, suicídio de Ricarte-Dácio (1995), republicação sistemática da obra pela Assírio & Alvim, Grande Prémio de Arte da Fundação EDP (2005), Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, cancro, morte (2006) e a surpresa do testamento: espólio artístico para a Fundação Cupertino de Miranda, mais de um milhão de euros em dinheiro vivo para a Casa Pia de Lisboa.

Entre outros, O Triângulo Mágico tem o mérito de deixar claro o motivo pelo qual um poeta com obra de tal envergadura nunca recebeu um prémio literário. Verdade que, num gesto simbólico, a Associação Portuguesa de Escritores lhe atribuiu, praticamente no leito de morte, o Grande Prémio Vida Literária. Tudo o afastava do establishment literário: de origem proletária, refractário aos salões bem pensantes, viveu de costas voltadas para a Academia, fez apostasia com o neo-realismo, teve problemas com a polícia de costumes, escreveu em jornais de Direita (O Dia, Jornal Novo, O Diabo) contra os militares e a Esquerda marxista, insultou gente influente e, pecado maior, nunca escondeu a sua predilecção por marujos. Valeram-lhe os amigos, sobretudo Cruzeiro Seixas, mesmo durante a longa ausência deste em Angola; Ricarte-Dácio, generoso mecenas dos anos de Londres; Alberto de Lacerda, a quem ficou a dever o conhecimento da capital britânica e, por arresto, contactos preciosos; Helder Macedo e Luís Amorim de Sousa, anfitriões das escapadas inglesas — a sequência de Poemas de Londres contém alguns dos melhores poemas que escreveu —; e, já no fim da vida, Manuel Hermínio Monteiro e Manuel Rosa. Poderá não ser a biografia definitiva, mas não pode ser ignorada. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

IRLANDA DO NORTE MAIS LIVRE

Por 383 votos a favor e 73 contra, o Parlamento britânico aprovou ontem o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Irlanda do Norte.

E por 332 a favor e 99 contra, a interrupção voluntária da gravidez. Nada disto era possível na Irlanda do Norte. O aborto até podia ser punido com prisão perpétua.

As duas votações foram livres, isto é, autónomas da disciplina parlamentar.

Entretanto, Westminster estuda a possibilidade de alargar as civil partnerships (uniões de facto) aos casais heterossexuais.

RACISMO É CRIME

Nos termos do alínea b) do n.º 2 do artigo 240.º do Código Penal, a associação SOS Racismo vai apresentar hoje ao Ministério Público uma queixa-crime contra a historiadora Maria de Fátima Bonifácio.

«O racismo é crime, não é uma opinião. E o texto de Fátima Bonifácio é um manifesto racista!», sublinha o comunicado da SOS Racismo.

Afirmações de MFB que estão na origem da queixa-crime:

— os “ciganos” e os “africanos” não pertencem a uma “entidade civilizacional” que a autora denomina de “cristandade”

— os “ciganos” e os “africanos” não “descendem” da Declaração Universal do Direitos do Homem

— os ciganos são “inassimiláveis”

— os ciganos manifestam “comportamentos disfuncionais” incompatíveis com as “regras básicas de civismo”

— os ciganos forçam as suas adolescentes ao abandono escolar e ao casamento

— os “africanos e afrodescendentes” são “abertamente racistas” e “detestam-se” entre si e aos ciganos.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O CARTOON DE MFB

O artigo que Maria de Fátima Bonifácio publicou anteontem no Público é execrável. Ponto. Sobre isso estamos conversados.

A indignação nacional vazada nas redes sociais — e o editorial de Manuel Carvalho, director do jornal — dão a medida da heresia.

Mas verifico com espanto que o direito à liberdade de expressão irrestrita deixou de estar em pauta. Vamos ver porquê.

Lembram-se da polémica internacional provocada pela publicação, a 30 de Setembro de 2005, de doze caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês Jyllands-Posten? O jornal reivindicava o direito a «desafiar, blasfemar e humilhar o Islão...».

Em Janeiro de 2006, tablóides noruegueses, suíços, franceses, espanhóis, italianos, húngaros e polacos solidarizaram-se com o jornal dinamarquês, publicando alguns desses cartoons. Em Fevereiro, o Die Welt, o El País e o Monde, três jornais de referência, aderiram discretamente à cruzada. Em Portugal, pelo menos dois jornais, o Público e o Expresso, fizeram o mesmo, demarcando-se ambos, em editorial, da afronta anti-Islão. Em França, o proprietário do France Soir despediu o editor do jornal. O mundo de língua inglesa ignorou o assunto.

Por que razão o Jyllands-Posten publicou os doze cartoons? Porque um dinamarquês de nome Kaare Bluitgen, conhecido pela sua islamofobia, escreveu um livro sobre a vida de Maomé, destinado às crianças e juventude, onde apresenta o profeta como pedófilo e criminoso de guerra. Nenhum desenhador quis ilustrar a obra e Bluitgen queixou-se do facto. Vai daí, o Jyllands-Posten, jornal popular de grande circulação, deu eco às queixas, convidando 40 caricaturistas a fazer cartoons de Maomé. Doze aceitaram. Deu no que deu.

A tranquibérnia durou mais de um ano: crise diplomática entre a Dinamarca e o mundo árabe (reunião da Liga e da Conferência Islâmica, embaixadores retirados de Copenhaga), embaixada da Dinamarca em Beirute destruída, embaixadas da Dinamarca e da Noruega vandalizadas e incendiadas em Damasco, ataques a igrejas católicas, atentados contra diplomatas, etc., saldou-se em mais de duzentos mortos. Ao pé disso, os ataques ao Charlie Hebdo, em 2011 e 2015, embora letais, não levaram tão longe a discussão da liberdade de expressão irrestrita.

Com os blogues no auge em Setembro de 2005, as discussões foram homéricas. Nove em cada dez bloggers defendiam a tese da liberdade de expressão irrestrita. Fui dos poucos a contrariar a tese, o que me valeu insultos, mal-entendidos e cortes de relações. Continuo a pensar como pensava.

Na época, dei como exemplo: «Se, por hipótese, em vez do livro sobre Maomé, o sr. Bluitgen tivesse publicado uma versão do Kama Sutra em que a figura da rainha da Dinamarca fosse o móbil, o coro solidário atingia estas proporções?» O post é de 4 de Fevereiro de 2006, e pode ser lido no meu livro de crónicas Intriga em Família, de 2007.

Dito de outro modo: há causas boas e más. Ainda bem. O argumento da liberdade de expressão irrestrita é que se mantém maleável em matéria de pesos e medidas.

MITSOTAKIS ABSOLUTO


Com maioria absoluta, Mitsotakis é o novo primeiro-ministro grego.

Entretanto, os neo-nazis da Estrela Dourada perderam representação parlamentar, uma vez que não conseguiram o score mínimo de 3% para entrar.

Mas em seu lugar entraram dez deputados da Solução Grega, partido de extrema-direita apoiado pela igreja ortodoxa, que em Maio elegeu deputados para o Parlamento Europeu.

Clique no gráfico de El País.

domingo, 7 de julho de 2019

GRÉCIA


Uma sondagem à boca das urnas feita após as eleições de hoje, dá a vitória, com maioria folgada, previsivelmente absoluta, ao partido Nova Democracia (centro-direita), actualmente liderado por Kyriakos Mitsotakis, 51 anos, antigo banqueiro, deputado desde 2004.

Mitsotakis é filho do antigo primeiro-ministro Konstantinos Mitsotakis.

O Syriza de Tsipras ficaria em segundo lugar, a uma distância de doze pontos.

Clique no gráfico do Guardian.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

CIRCULAR CHUMBADA


Com a abstenção do PS, e o voto favorável de todos os partidos, o Parlamento chumbou hoje a construção da linha do Metro que ligaria o Rato ao Cais do Sodré, com estações na Estrela e em Santos.

Em vez disso, os deputados preferem dois prolongamentos diferentes:

— ligação do Areeiro a Braço de Prata, com estações em Chelas e Marvila.

— ligação de Sete Rios a Alcântara, com estação intermédia em Campolide.

A mim continua a fazer-me confusão o desinteresse por Campo de Ourique, que nunca constou de plano nenhum.

Clique na imagem para ver o detalhe.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

MENASSE & VENTRELLA


Hoje na Sábado escrevo sobre A Capital, do austríaco Robert Menasse (n. 1954), vencedor do Prémio Livro Alemão em 2017. Nascido no seio de uma família judaica, autor de uma obra muito extensa, na ficção e no ensaio, fez agora a sua estreia na edição portuguesa com este romance bem esgalhado sobre o modus operandi da Comissão Europeia. Para o escrever, Menasse instalou-se em Bruxelas, onde passou seis anos a “espremer” altos funcionários da UE — os énarques e os outros —, a consultar arquivos e a ler documentação de índole diversa, em especial os tratados de Maastricht, Schengen e Lisboa. Também estudou os mecanismos de funcionamento da Comissão, enquanto investigava as rotinas e a vida pessoal dos funcionários do edifício Berlaymont, sobretudo os da direcção-geral de Educação e Cultura, um departamento sem dinheiro ou qualquer espécie de influência. A partir daí, ficcionou o ‘Big Jubilee Project’ que teria por objecto colocar as memórias de Auschwitz no centro das comemorações do 50.º aniversário do Tratado de Roma. Misturar o Holocausto com a burocracia transnacional europeia («as nações, as identidades nacionais, tudo isso passou ali a ser uma noção sem efeito») parece-me uma metáfora excessiva, mas temos de a levar à conta de sarcasmo. O mesmo se diga do modo como evoca Musil e O Homem sem Qualidades. Menasse coreografa bem as personagens que decidem a vida dos europeus. Bem vista as coisas, são todos iguais: alemães, gregos, franceses ou húngaros. Os episódios pícaros matizam a narrativa, e têm eficácia instrumental, mas prevalece o juízo reticente. Sirva de exemplo a síntese da adesão austríaca: «A Áustria aderira à UE e durante bastante tempo os representantes dos interesses nacionais não entenderam que lhes fora montada uma armadilha.» Nada que não tivesse dito num livro de 2012 sobre “a fúria” dos europeus. Doravante, ninguém poderá dizer que a União Europeia não inspirou o guião de uma ópera bufa que nem sequer deixa de fora o consabido conflito Norte/Sul, ilustrado pelas divergências entre o presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu, homens de nacionalidades diferentes e culturas antagónicas. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre História de Uma Família Decente, da italiana Rosa Ventrella. Quem gosta do universo ficcional de Elena Ferrante vai com certeza apreciar esta saga. Não confundir universo ficcional com registo semântico. Em vez de Nápoles, Bari, também no Sul miserável de Itália, mas na outra costa. A Apúlia não é a Campânia, embora os problemas sejam os mesmos. Infelizmente, os desapossados das margens são iguais em toda a parte. Ventrella usa o discurso, sempre fluente, para dar voz às mulheres. Maria, por exemplo. Tem 12 anos, conhecem-na por Malacarne, ferrete da avó Antonietta, e todos os dias sofre o abuso da pobreza. Em plena sala de aula, Pasquale não hesita: «Com a altura que tens estás mesmo a jeito para me abocanhares a pichota.» O trivial, naquele bairro. A tradição tem muita força (eram os anos 1980) e os mais fracos submetem-se à opressão. Romance de formação e, de certo modo, de redenção social, História de Uma Família Decente é uma grata surpresa. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

O ESSENCIAL

A Direita e a a extrema-direita não têm grandes razões para andarem satisfeitas.

Com o veto à nomeação de Frans Timmermans, o Grupo de Visegrado aqueceu-lhes a alma. Mas a realidade crua é esta: não conseguiram pôr Manfred Weber, líder do PPE, a presidir à Comissão Europeia, nem Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, a presidir ao Banco Central Europeu.

Chama-se a isto uma derrota em toda a linha.

Portanto, não vale a pena chorar sobre o leite derramado. As escolhas foram cinzentas? Talvez. Mas os falcões foram travados.

UM PORTUGUÊS NA VICE-PRESIDÊNCIA

O Parlamento Europeu tem 14 vice-presidentes. Catorze. É obra! Resta-nos a consolação de saber que um dos eleitos é português, o socialista Pedro Silva Pereira.

E, com 557 votos, foi o segundo mais votado dos catorze. Só a irlandesa Mairead McGuiness lhe passou à frente, com 618 votos.

ITÁLIA GANHA PE


Por 345 contra 322 votos, o jornalista italiano David-Maria Sassoli, 63 anos, membro do Partito Democratico (centro-esquerda), foi esta manhã eleito Presidente do Parlamento Europeu. Houve 37 votos brancos e nulos. A vitória chegou à segunda volta: na primeira, Sassoli obtivera apenas 325.

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terça-feira, 2 de julho de 2019

PM BELGA NO CONSELHO EUROPEU


Charles Michel, 43 anos, membro do partido liberal Mouvement Réformateur, primeiro ministro-belga em exercício (mas demissionário há sete meses), foi escolhido pelos 28 para substituir Donald Tusk como Presidente do Conselho Europeu.

Tal como acontecerá com Ursula von der Leyen, escolhida para substituir Juncker como Presidente da Comissão Europeia, também Charles Michel terá de ver a sua escolha confirmada pelo Parlamento Europeu.

Terá sido para esse lugar que António Costa estava convidado, mas recusou, porque o seu compromisso é com Portugal. Há muito que os rumores circulavam, mas só ontem o primeiro-ministro confirmou a existência do convite para um lugar de topo.

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URSULA


Ursula von der Leyen, 60 anos, oriunda de uma família aristocrática, médica, ministra alemã da Defesa, democrata-cristã, foi escolhida pelos 28 para substituir Jean-Claude Juncker como Presidente da Comissão Europeia. Será a primeira vez que uma mulher ocupa o cargo.

É filha de um antigo director-geral da Comissão, actual ministro-presidente da Baixa Saxónia.

Membro da CDU desde 1990, antiga ministra de Estado, tem larga experiência governativa nas áreas da Defesa, Trabalho, Segurança Social, Família e Juventude.

Natural de Bruxelas, Ursula é casada com um professor de medicina que também é CEO de uma empresa de engenharia médica. O casal tem sete filhos.

Depois do veto do Grupo de Visegrado (Eslováquia, Hungria, Polónia, República Checa) à nomeação do social-democrata Frans Timmermans, Ursula foi a solução.

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LAGARDE NO BCE


Christine Lagarde, 63 anos, francesa, advogada, directora executiva do Fundo Monetário Internacional, foi escolhida pelos 28 para substituir Mario Draghi como presidente do Banco Central Europeu.

Madame Lagarde foi três vezes ministra: Comércio Externo, Agricultura, Economia.

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ANDRÉ CALDAS NA OPART


André Caldas é o novo presidente da OPART, a empresa que gere o São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado. A sua equipa inclui a violinista Anne Vitorino d'Almeida e o economista Alexandre Miguel Santos.

André Caldas, advogado e mestre em História do Direito, é docente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Até hoje, ocupou as funções de chefe de gabinete de Mário Centeno (estava no cargo desde 2015). Na área da Cultura, passou pela direcção da Associação Musical Lisboa Cantat (2001-03), a cujo coro sinfónico pertenceu. E foi ainda um excelente presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, cargo que abandonou para ocupar a tempo inteiro o lugar no gabinete do ministro das Finanças.

O facto de sermos amigos não me inibe de manifestar publicamente satisfeito com esta nomeação.

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sábado, 29 de junho de 2019

STONEWALL, 50 ANOS


Para a maioria das pessoas, os motins de Stonewall não dizem nada. Mas foi com eles que nasceu a cultura gay, hoje estudada em todas as universidades que se prezam.

Resumidamente: faz agora 50 anos que os motins de Stonewall mudaram tudo. Começaram no dia do funeral de Judy Garland — 27 de Junho de 1969 —, ícone da comunidade gay, falecida em Londres mas trasladada para a América, ocasião para centenas de homossexuais levarem o caos a Greenwich Village, um bairro de Nova Iorque.

Durante três dias consecutivos, entre 27 e 29 de Junho, homens e mulheres fizeram frente ao assédio moral e à reiterada prática de chantagem da polícia, fazendo ver à sociedade americana, e em especial às autoridades, que uma democracia não pode permitir que uns sejam mais iguais do que outros. O ponto de partida das hostilidades foi o bar gay Stonewall Inn, em Christopher Street. Nunca mais nada foi como dantes.

A literatura sobre homossexualidade tem mais de três mil anos: o saco sem fundo da antiguidade clássica, os poetas da antologia grega (onde Safo tem lugar cativo), as contribuições de Homero, Virgílio e Petrónio, o Épico de Gilgamesh, epítome do amor viril, as estrofes espirituais de São João da Cruz, os poetas do Islão, desde o tempo em que as fronteiras do Islão chegavam a Silves, os poetas chineses Hsü Ling e Wu Chün, a decantada Chanson de Roland, os poetas turcos e persas dos divã — fonte do Westöstlicher Divan de Goethe, tal como do Diván del Tamarit de Lorca —, os infernos de Rimbaud e Verlaine, os estudos precursores de John Addington Symonds, Edward Carpenter e Henry Havelock Ellis e, naturalmente, as obras centrais de Whitman, Kavafis, Wilde, Gide, Botto, Gunn e muitos outros.

Contudo, ia ser necessária uma década de intervalo para que pudesse irromper e afirmar-se publicamente uma verdadeira geração de escritores gay pós-Stonewall. É o caso do grupo do Violet Quill Club, de que fazem parte, entre outros, Edmund White, Andrew Holleran e Felice Picano. É a partir daí que nasce a cultura gay. Para uma perspectiva de conjunto, ver The Violet Quill Reader (1994). A cultura gay distingue-se por afirmar a sua condição política sem recurso às madalenas de Proust.

A partir daqui parece-me fútil perguntar das razões das marchas do orgulho gay, iniciadas em 1970, em Nova Iorque, e hoje realizadas em mais de 60 países (em Portugal começaram em 2000). Mandela, por exemplo, participou numa das marchas sul-africanas. A mim, o que me faz confusão, é o défice de políticos e personalidades públicas portugueses capazes de darem a cara.

Na imagem, o livro editado em 1994 por David Bergman (na St Martin Press) sobre a emergência da literatura gay pós-Stonewall. Clique.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

HÉLIA CORREIA


Com Um Bailarino na Batalha (2018), Hélia Correia venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.

Recorde-se que a autora recebeu em 2015 o Prémio Camões.

Nascida em Fevereiro de 1949, Hélia Correia é autora de doze romances, duas novelas, uma colectânea de contos, dois livros de poesia, cinco peças de teatro e um livro de histórias infantis.

Constituído por Clara Rocha, Cristina Robalo Cordeiro, Fernando Pinto do Amaral, Maria de Lurdes Sampaio, Salvato Teles de Menezes e, em representação da APE, José Manuel de Vasconcelos, o júri deliberou por unanimidade.

Parabéns, Hélia!

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quinta-feira, 27 de junho de 2019

QUE SE PASSA COM MERKEL?


Fiquei muito impressionado ao ver o tremor violento que acometeu Angela Merkel esta manhã, durante a posse (conferida pelo presidente Frank-Walter Steinmeier) da nova ministra alemã da Justiça.

No espaço de onze dias, é a segunda vez que tal acontece em público. Algo de grave se passa com a saúde da Chanceler.

Na imagem, Merkel já tem os braços cruzados. Neste momento vai a caminho de Osaka para a Cimeira do G20.

Clique na imagem da CNN.

SOPHIA & MdC


Hoje na Sábado escrevo sobre Sophia, de Isabel Nery. Está visto que o filão mais recente da vida literária portuguesa são as biografias de escritores. No momento em que o país celebra o centenário do seu nascimento, chegou a vez de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Entrevistada por Vanessa Fidalgo para o Correio da Manhã, Isabel Nery, a biógrafa, revelou ter levado dois anos a «visitar todos os locais» por onde Sophia passou. A fase de pesquisa para a sua «reportagem biográfica» incluiu visitas à Torre do Tombo, recolha de testemunhos de escritores, amigos e família (não sabemos se de viva voz ou por escrito), consulta de correspondência trocada com Jorge de Sena, leitura de jornais e teses académicas, bem como visionamento de filmes e documentários feitos por João César Monteiro, João Bénard da Costa e Manuel Mozos. Sendo as biografias o veículo ideal para ilustrar uma época, Isabel Nery fez um tour d’horizon a partir da chegada a Portugal, em 1840, de Jan Hinrich Andresen. Sophia nasce no Porto em 1919, passa a infância no Campo Alegre, faz férias na Granja («a praia mais aristocrática do país»), publica o primeiro livro em 1944, vem para Lisboa, casa e torna-se mãe de cinco filhos. Segue-se a fase “pública”. Saberemos que foi interrogada pela PIDE em Agosto de 1959, que o marido esteve preso dois anos (1966-68), que a estratégia do primeiro congresso do Partido Socialista foi delineada por Soares na casa do n.º 57 da Travessa das Mónicas, e que lhe foi maçante a participação como deputada à Assembleia Constituinte. Saberemos ainda a razão da recusa dos cargos de secretária de Estado da Cultura e de embaixadora de Portugal em Paris: a doença do filho mais novo. A partir de então, afasta-se da política activa. Sobrou apenas, até ao fim da vida, a amizade por Soares e Maria Barroso. Em 1962, o congresso da Comunità Europea Degli Scrittori, realizado em Florença, exacerba o lendário ódio de Sophia por Natália Correia. Nem Soares, que em 1969 as juntou na CEUD (a lista da oposição democrática), conseguiu apaziguar Sophia: «Se ela vai, eu não vou!» Na Itália, rodeada de escritores com quem não tinha afinidades, valeu-lhe a companhia de Agustina. Sobre a amizade de ambas, é interessante cotejar os pontos de vista das respectivas biógrafas. Para Isabel Rio Novo, biógrafa de Agustina, uma amizade isenta de mácula. Para Isabel Nery, uma relação de picardias mútuas. Aliás, tomando à letra o livro de Isabel Nery, o círculo de amizades de Sophia no meio literário e artístico era extremamente restrito: Torga, Sena e poucos mais. A pintora Graça Morais, que conheceu em 1988 durante uma viagem à Grécia, na comitiva presidencial de Soares, é uma excepção. O casamento com Francisco Sousa Tavares é descrito com minúcia: «A atracção pelo jogo, que abalava as frágeis finanças do casal […] as recorrentes infidelidades de Francisco e os feitios incompatíveis…» Assim, em 1986, após 40 anos de vida em comum, o casal separa-se, divorciando-se dois anos depois. Um escândalo de ilícitos cambiais, de que seria absolvido, levou Sousa Tavares à demissão de ministro da Qualidade de Vida no IX Governo Constitucional (1983-85). Sophia deu xeque-mate, ele casou com Amélia Clotilde Brugnini Garcia Lagos. Trinta páginas de notas remissivas servem de apoio à narrativa. Bibliografia não há, estando erradas algumas “referências bibliográficas” (a editora Assírio & Alvim não é do Porto). A cronologia começa antes da Revolução Francesa, mas omite o 25 de Abril, acto falhado que deixa de fora a tonitruante presença de Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo, onde, a pedido de Salgueiro Maia, falou à multidão. Gralha antipática, a data da substituição de Salazar por Caetano antecipa em meses o AVC do ditador. À excepção de Manuel Alegre, nenhum poeta ou escritor consta do portfolio fotográfico. A árvore genealógica começa em 1816, mas deixa os netos de fora. Também não se compreende a ausência de índice onomástico. Publicou a Esfera dos Livros.

Escrevo ainda sobre O Que Eu Ouvi na Barrica das Maçãs, de Mário de Carvalho (n. 1944), romancista e contista dos mais notáveis que surgiram depois de 1974. Agora, o autor reuniu em volume algumas das crónicas que publicou a partir de 1987, tendo o cuidado de deixar de fora as que reportam «a temas que já não são actuais». O título remete para Stevenson. São quarenta, agrupadas em quatro secções: Divagando, Intervindo, Oficiando, Rememorando. Começo pelo núcleo de memórias, Uma bandeira na varanda, retrato de Portugal nos tempos ominosos do fascismo, primeiro a prisão do pai (era o autor adolescente), depois a sua, ao tempo do serviço militar obrigatório. Texto enxuto, sem delíquios, a exactidão da ignomínia contada por quem não prescinde do direito de falar. Até por serem factos que devem ser fixados em letra de forma. Noutro registo, O povo é sábio — desconstrução da mentalidade pavloviana — e Com Pessoa não se brinca!, dão a medida de um escritor atento ao mundo. Francisco Belard assina o prefácio. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

A BOLHA


Como é que isto é possível se, em Portugal, a Lei proíbe pagamentos em dinheiro a partir de três mil euros ou, sem sinalizar a origem do dinheiro, depósitos a partir de cinco mil?

Clique na imagem do Público.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

AXIMAGE, HOJE


Sondagem da Aximage para o Correio da Manhã e o Negócios, divulgada hoje.

PS = 35,6%

PSD = 23,1% / BE = 9% / CDU = 6,9% / CDS = 6,6% / PAN = 4,2%

Sozinho, o PS tem mais do que a soma do PSD com o CDS.

Em termos de popularidade, Assunção Cristas está no fim da lista, mesmo depois de André Silva .

Clique no gráfico do Negócios para ver na íntegra.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

DUELO FINAL


Com 160 votos [61%], Boris Johnson ganhou esta tarde o 5.º round da votação para líder do Partido Conservador e futuro primeiro-ministro do Reino Unido.

Jeremy Hunt ficou com 77 votos [33%]. Michael Gove, que até aqui se mantivera sempre à frente de Hunt, obteve apenas 75, sendo excluído.

O duelo final será portanto entre Boris Johnson, 55 anos, ex-MNE, e Jeremy Hunt, 52, actual MNE.

Votaram 312 dos 313 deputados, não havendo votos nulos ou brancos.

A ITV já anunciou um debate nacional para 9 de Julho.

Clique na imagem da ITV.

BORIS REFORÇA


No 4.º round, realizado hoje de manhã, Boris Johnson reforçou a liderança, colocando-se como mais provável líder do Partido Conservador e futuro primeiro-ministro do Reino Unido.

Votaram todos os 313 deputados, não havendo votos nulos ou brancos.

Resultado final: Boris Johnson 157
/ Jeremy Hunt 59 / Michael Gove 61 / Sajid Javid 34

Sajid Javid foi assim afastado do próximo round que se realiza ainda hoje.

Restam portanto 3 candidatos.

Clique na imagem do Guardian.

PÚBLICO VS PRIVADO

O Presidente da República promulgou ontem o diploma do Governo que autoriza os funcionários públicos a faltarem justificadamente no 1.º dia do ano lectivo, para acompanhamento de menores de 12 anos a seu cargo.

Parte da opinião pública, mas também o PR, gostaria que o regime fosse extensivo ao sector privado. Mas, exactamente por se tratar de sector privado (grande parte do qual é suportado pelos nossos impostos), nenhuma iniciativa do Governo deve ignorar a concertação social.

Não podemos querer regime estatal nuns casos e liberal noutros.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

BORIS, AGAIN


Realizou-se esta tarde a terceira volta para eleger o novo líder do Partido Conservador e futuro primeiro-ministro do Reino Unido.

Votaram todos os 313 deputados, não havendo votos nulos ou brancos. Pela terceira vez, Boris Johnson venceu.

Resultado final: Boris Johnson 143 /Jeremy Hunt 54 / Michael Gove 51 / Sajid Javid 38 / Rory Stewart 27.

Stewart já foi afastado do próximo round. Restam portanto 4 candidatos dos 11 iniciais.

Clique na imagem do Guardian.

SONTAG & GREENE


Hoje na Sábado escrevo sobre Histórias, de Susan Sontag (1933-2004). Nos intervalos dos ensaios que fizeram dela um ícone da cultura americana, Sontag escreveu quatro romances, quatro peças de teatro e vários contos, oito dos quais foram compilados em 1978 no volume I, etcetera. O título remete para a natureza autobiográfica do conteúdo. Porventura para contrariar essa leitura, Benjamin Taylor acrescentou três textos ao conjunto, chamou-lhes Histórias e, no prefácio escrito em 2017, sublinha de forma ambígua o seu carácter ficcional: «Os contos representam as suas obras mais íntimas.» O organizador do volume não quer que o livro seja lido como autobiografia da autora de Notes on Camp (1964), mas os textos acrescentados, mais as alterações feitas na ordem sequencial, deixam incólume o juízo de há quarenta anos. Até do ponto de vista cronológico, não há como escapar da leitura pessoal, memorialística, destes onze textos. Por exemplo, os factos narrados em “Peregrinação”, texto de abertura, remontam a 1947, ano da visita a casa de Thomas Mann, que à época vivia (como tantos outros artistas e intelectuais europeus fugidos à guerra) no Sul da Califórnia. Susan fez a visita na companhia de um namoradinho, sendo o conto um pretexto para discretear sobre A Montanha Mágica. Um ensaio convencional não andaria longe. Sem resquício de ficção, o suicídio de Susan Taubes, amiga íntima de Sontag, que foi quem identificou o corpo da amiga afogada em Long Island, deu origem a “Declaração”. O assédio em meio académico surge em “Doutor Jekyll”, um retrato da realidade: «Mas o tipo é um porco! Meu Deus, quando penso naquela história horripilante que me contaste em que ele te pediu para…». Apesar do registo experimental, “Projeto para uma viagem à China” é uma espécie de diário: «Missionários, conselheiros militares estrangeiros. Negociantes de peles no deserto de Gobi, entre eles o meu pai ainda novo.» E assim sucessivamente. Ao contrário, o último texto, “A maneira como vivemos agora”, ilustrando o quotidiano dos novaiorquinos no auge da epidemia de sida, obedece à estrutura clássica de uma novela. Originalmente publicado na New Yorker, teve publicação autónoma em livro. Três estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre Santos e Pecadores, uma recolha de ensaios de Graham Greene (1904-1991), conhecido sobretudo como romancista, um dos maiores do século XX. Mas Greene foi também um ensaísta brilhante. Em boa hora Pedro Mexia seleccionou, a partir de cinco colectâneas, um conjunto de vinte ensaios escritos entre 1939 (“O homem irado”) e 1984 (“Ruminações aos oitenta anos”), com a quota dos anos 1950 a dominar. Greene, que trabalhou largos anos para os serviços secretos britânicos, foi o «católico paradoxal» por excelência: preferia o pecado à virtude, sublinha Mexia. Qualquer que seja o móbil do ensaio, o grau de corrosão do ponto de vista não belisca nunca a excepcional elegância da prosa. Kim Philby, Simone Weil, Fidel Castro, G. K. Chesterton, o Papa João XXIII e Evelyn Waugh são alguns daqueles a quem dedica textos magníficos. Pode-se dizer o mesmo do muito que escreveu sobre cinema, ele que, tendo visto tantos dos seus livros transformados em filmes, foi ainda guionista e crítico: «A ideia de fazer crítica de filmes veio-me num cocktail depois do perigoso terceiro martíniCinco estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

terça-feira, 18 de junho de 2019

MAIS UM


Patrick Shanahan, 56 anos, Secretary of Defense (o equivalente a ministro da Defesa) dos Estados Unidos, abandonou hoje o cargo que ocupava desde 1 de Janeiro.

Shanahan sucedeu ao general Jim Mattis, mas estava há seis meses a aguardar nomeação definitiva. Suspeitas de violência doméstica no anterior casamento puseram fim às pretensões políticas de Shanahan, o homem que durante dois anos foi o número dois da Defesa americana.

Mark Esper parece ser o senhor que se segue.

Logo hoje, o dia em que Trump vai anunciar a sua recandidatura à Casa Branca.

Clique no retrato de Shanahan.

O QUE SE PASSOU?


Imagino as dúvidas com que se debate a família de Ruben de Carvalho. O jornalista e programador cultural que inventou a Festa do Avante, foi internado no Hospital de Santa Maria (Lisboa), com dores na vesícula, mas morreu em consequência de uma queda. Terá batido com a cabeça onde não devia e, menos de uma hora depois, entrou em coma, estado em que se manteve até morrer ao fim de três semanas. Tinha 74 anos.

O Ministério Público abriu inquérito para apurar se houve negligência médica.

Sofri as mesmas dúvidas em Setembro de 2016. Minha Mãe, internada numa unidade de cuidados continuados que nos ominosos anos PAF ‘exportou’ catorze enfermeiros para Inglaterra, também morreu na sequência de uma queda sofrida no banho. Transferida no mesmo dia para o Hospital de Leiria, o mais próximo, sobreviveu dezassete dias em estado de grande sofrimento. Sim, tinha 96 anos. Mas a dúvida persiste.

Clique na imagem da Blitz.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

MAIS DO MESMO

O CDS não aprendeu nada. Como é que um homem inteligente como Adolfo Mesquita Nunes insiste no discurso que levou à humilhação eleitoral do CDS?

O país não quer saber do guião catastrofista (incêndios) nem do assassínio de carácter do primeiro-ministro. O povo de Direita quer perceber com que alternativas pode contar. Não quer saber de melodramas de faca e alguidar.

Como é que um partido que ainda há um mês estava disposto a hipotecar as contas públicas ao fundamentalismo corporativo da Fenprof, tem autoridade para criticar uma eventual melhoria salarial dos funcionários do Estado, ou seja, de médicos, enfermeiros, professores, polícias, militares, diplomatas, magistrados, investigadores, trabalhadores do regime geral, etc.? Como?

AGORA SÃO POUCOS?

Nos últimos trinta anos, o estribilho preferido da Direita tem sido: A Função Pública tem gente a mais. Um milhão, vociferavam os mais atrevidos. Na realidade, o pico nunca chegou a 600 mil (sendo 25% professores). Fizeram-se estudos comparativos e o facto é que temos o mesmo rácio dos países europeus com população equivalente à nossa.

A excepção é o Reino Unido, onde magistrados, polícias, militares, professores, médicos, etc., não são funcionários públicos.

Sócrates apertou a regra do funil (uma única admissão por cada duas saídas) e Passos induziu reformas antecipadas no ensino básico e secundário. E assim se chegou à situação de reconhecer que há necessidade de admitir 50 mil novos funcionários para manter oleada a máquina do Estado.

Isto não tem nada a ver com a semana de 35 horas de trabalho, como quis fazer crer Marques Mendes no seu programa da SIC.

Desde 1979 que a carga horária da Função Pública correspondia a 35 horas por semana. E nessa altura toda a gente bramava com o excesso de funcionários. Foi o Governo de Passos & Portas quem aumentou a carga horária (ao mesmo tempo que cortava subsídios e fazia disparar a carga fiscal para níveis obscenos), e foi o Governo actual quem repôs a semana de 35 horas sem que, como devia, tivesse alterado de forma eficaz a grelha fiscal.

O programa do PS para as próximas Legislativas prevê mexidas sérias na Função Pública (salários e contratações), como anunciou António Costa. A ver vamos.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

ESTUÁRIO


Com Estuário (2018), Lídia Jorge acaba de vencer o Grande Prémio de Literatura DST.

Faz hoje exactamente um ano, publiquei na Sábado um texto de que transcrevo um breve excerto:

«A ficção portuguesa sofreu uma guinada quando Lídia Jorge publicou o primeiro livro. É bom verificar que, ao fim de 38 anos, a obra permanece incólume. O título mais recente, ‘Estuário’, mantém a pujança inaugural. Dominando na perfeição todos os recursos narrativos, a autora constrói o romance a partir da figura de Edmundo Galeano, um jovem regressado do inferno de Dadaab, um dos campos de refugiados que o ACNUR mantém no Quénia [...] Lídia Jorge é muito hábil na forma como ilustra o contraponto das premências. De um lado, os equívocos da ajuda humanitária. Do outro, o desajuste das famílias. [...]»

Parabéns, Lídia.

Foto de António Pedro Ferreira para a Visão. Clique.

PASSO IMPORTANTE

Com os votos favoráveis do PS, BE, PSD, PCP, PEV e PAN, a Assembleia da República aprovou hoje o fim das taxas moderadoras nos Centros de Saúde e nas consultas e exames prescritos por médicos ao serviço do SNS.

O CDS votou contra.

O MUNDO ESTÁ PERIGOSO


Guterres chegou à capa da Time, um feito até hoje só conseguido por Salazar, Dean of Dictators, 1946, Spínola, Coup in Portugal, 1974 e, sob o título Red Threat in Portugal (1975), os rostos de Otelo, Vasco Gonçalves e Costa Gomes dentro de uma foice e um martelo.

Até hoje, nenhum escritor, músico, cientista ou artista plástico.

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quinta-feira, 13 de junho de 2019

SUCESSÃO DE MAY


A primeira volta das eleições para líder dos tories, hoje efectuada, deu este resultado:

Vencedor, Boris Johnson, com 114 votos.

Os outros: Jeremy Hunt, 43 / Michael Gove, 37 / Dominic Raab, 27 / Sajid Javid, 23 / Matt Hancock, 20 / Rory Stewart, 19.

Por não terem obtido o score mínimo de 17 votos para poderem passar à segunda volta, foram eliminados:

Andrea Leadsom, antiga líder da Câmara dos Comuns, 11 / Mark Harper, 10 / Esther McVey, 9.

Após três voltas reservadas a deputados e membros do Governo, a votação final será feita por todos os militantes do partido.

Clique na imagem do Guardian.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O FOLHETIM


Temendo o que aí vem (estamos a falar do senhor ou da senhora que substituirá Theresa May como líder dos tories e, nessa qualidade, chefe de Governo), o Labour e alguns conservadores pró-europeus da Escócia e dos Verdes apresentaram hoje nos Comuns uma moção visando impedir um Brexit sem acordo.

Dito de outro modo, quiseram travar o passo a Boris Johnson, que promete sair sem acordo e sem pagar. Foram derrotados por 309 contra 298 votos.

Por mais voltas que dêem, a realidade é uma: eles querem sair, e querem fazê-lo sem acordo. May era um empecilho. Mas a Fronda continua.

Clique na imagem.

SEIS. PORQUE SIM.


Hoje, na Sábado, um apanhado de escolhas pessoais. Quem gosta de ler fica bem servido. Que melhor ocasião para falar de vários livros de uma assentada senão o período da Feira? 

Escolhi seis, todos com justa causa. Chico Buarque, o mais recente vencedor do Prémio Camões, regressa com Tantas Palavras, volume que reúne as letras de todas as canções. Regresso a Reims, de Didier Eribon, é um amargo ajuste de contas. A reedição de O Nu na Antiguidade Clássica, de Sophia de Mello Breyner Andresen, surge no ano das celebrações do centenário da autora. Less, de Andrew Sean Greer, recebeu o Pulitzer de Ficção 2018. A Morte é um Acto Solitário, um thriller de Ray Bradbury, mantém-se aliciante. Last but not least, Serotonina, de Michel Houellebecq, traz de volta o único romancista francês contemporâneo capaz de ombrear com os mais notáveis dos seus pares noutros idiomas.

Compositor, letrista, cantor, ficcionista e dramaturgo, o brasileiro Chico Buarque (n. 1944) reuniu em Tantas Palavras as letras escritas entre 1964 e 2017. Pretexto para recordar Cálice, hino de protesto contra a ditadura militar, proibido durante cinco anos: «Como é difícil acordar calado / Se na calada da noite eu me dano…» O songbook inclui portofolio fotográfico e uma reportagem biográfica feita pelo jornalista Humberto Werneck. O livro foi lançado em 1989, com o título Chico Buarque: Letra e Música, mas foi revisto e actualizado para esta nova edição. Quatro estrelas. Editou a Companhia das Letras.

Chegou finalmente a Portugal o polémico Regresso a Reims, autobiografia do sociólogo francês Didier Eribon (n. 1953), biógrafo de Foucault. A partir das suas origens proletárias, Eribon analisa as relações no seio da família, a vergonha social, a construção de identidades e, tema central, a traição de classe: «uma parte de mim que eu tinha recusado». Mas também algumas razões que levaram os operários franceses a trocar o Partido Comunista por Le Pen. A morte do pai serve de pretexto à catarse. Homossexual assumido, teórico da cultura gay, o autor regressa aos lugares da infância e adolescência para desatar o nó górdio dos equívocos. Não é amável. Cinco estrelas. Editou a Dom Quixote.

Os leitores de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) que não tenham lido O Nu na Antiguidade Clássica, ensaio que fixa a visão da autora sobre a Grécia, têm agora oportunidade de o fazer, com uma vantagem suplementar: o volume inclui uma antologia de poemas sobre a Grécia e Roma, organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares. Seria pleonástico sublinhar a excelência do texto e dos poemas. Diversa iconografia ilustra a obra. Cinco estrelas. Editou a Assírio & Alvim.

As idiossincrasias da vida literária e os empecilhos da meia-idade são os temas de Less, o romance mais recente de Andrew Sean Greer (n. 1970). Nenhum deles é novo em literatura, mas o registo humorístico soa a novidade. Brincando com a sua própria carreira por interposto Arthur Less, o anti-herói (um escritor gay, obscuro, à beira de completar 50 anos), Greer questiona os mecanismos de legitimação dos seus pares. Podia ter sido um tiro no pé, mas saiu-lhe o Pulitzer. Três estrelas. Editou a Quetzal.

A maioria dos leitores continua a associar o nome de Ray Bradbury (1920-2012) a Fahrenheit 451, romance distópico a partir do qual Truffaut fez um filme mítico. Mas quem gosta de policiais à moda antiga deve ler A Morte é um Acto Solitário. Tem crimes por decifrar, um detective chamado Elmo Crumley e uma série de personagens bem esgalhadas. Tudo se passa nos anos 1940, em Venice, o subúrbio de Los Angeles onde o autor vivia nessa época. Quatro estrelas. Editou a Cavalo de Ferro.

No tom desbocado que fez a fortuna da obra e a lenda do autor, o último romance de Michel Houellebecq (n. 1956), Serotonina, elege a decadência europeia como razão de todos os males. O protagonista é um engenheiro agrónomo, francês, dependente de antidepressivos, cuja namorada, japonesa, frequenta «serões libertinos» registados em vídeos escabrosos. O conceito de elevador social é ilustrado por um imigrante português, Joaquim da Silva, outrora pedreiro, actual proprietário de uma tabacaria bem localizada, ou seja, um privilegiado face aos agricultores franceses. Houellebecq está longe do seu melhor, mas continua a honrar as tradições da literatura. Três estrelas. Editou a Alfaguara.

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