sábado, 19 de janeiro de 2019

OS DOIS REINALDOS


Em Portugal, quando se fala de Reinaldo Ferreira, nove em cada dez portugueses (intelectuais incluídos) pensa no Repórter X, o mais famoso jornalista português dos anos 1930, também dramaturgo e cineasta. Tão famoso que, em 1986, José Nascimento fez um filme sobre a sua vida, com Joaquim de Almeida, Eunice Muñoz, Jorge Silva Melo, Fernando Heitor, Anamar, José Ribeiro da Fonte e dois terços dos frequentadores do Frágil.

Na História da Literatura Portuguesa, Óscar Lopes refere o Repórter X, ou seja, Reinaldo Ferreira pai (1897-1935), mas, em capítulo diferente, também refere o filho (1922-1959). O seu a seu dono.

Porém, toda a gente se esquece desse filho pródigo, o poeta Reinaldo Ferreira, nascido em Barcelona, onde o pai estava a filmar. Reinaldo foi para Lourenço Marques com 17 anos, ali tendo morrido com 37. Uma lenda da comunidade homossexual moçambicana, deixou uma obra poética incontornável, de que faz parte um dos grande êxitos de Zeca Afonso: Menina dos olhos tristes. Ou o fado-canção Uma casa portuguesa, imortalizado por Amália.

Em todo o caso, a poesia de Reinaldo é outra coisa. Em 1966, Régio não poupou elogios no prefácio que fez para a primeira edição portuguesa (a edição original, publicada em Lourenço Marques em 1960, um ano após a morte do poeta, é da responsabilidade de Eugénio Lisboa) dos seus poemas. Portanto, convinha não confundir Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira com o papá.

Nas imagens, capas das primeiras edições de Poemas (1960) de Reinaldo Ferreira, e de Memórias de um ex-morfinómano (1956) do Repórter X. Clique.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

EGOÍSTA 66


Lugar-comum: a revista Egoísta representa o luxo gráfico da edição portuguesa. Mas, talvez por ser dedicado à literatura infantil — era uma vez —, o número mais recente, o 66, libertou a fantasia dos artistas plásticos convidados.

Pessoalmente tive muita sorte com as ilustrações que Rodrigo Prazeres Saias fez para o meu conto O Menino Malaquias. Mas Rodrigo Prazeres Saias assina outros trabalhos de grande qualidade, como os que acompanham os textos de Lídia Jorge, Mário Claúdio, Inês Pedrosa, Tânia Ganho e Marta Vaz. Também gosto muito Gonçalo F. Santos. Estou a esquecer-me de outros artistas, o que não significa menor estima. E ainda não tive tempo de ler nenhum texto, pois só hoje recebi a revista.

É evidente que nada disto seria possível sem o know-how e o bom gosto da Patricia Reis, sua editora. Parabéns!

Clique na imagem.

BARNIER EM BELÉM


Realizou-se ontem mais uma sessão do Conselho de Estado. Desta vez, o convidado foi Michel Barnier, negociador-chefe da UE para o Brexit.

Durantes os trabalhos, António Costa expôs o Plano de Preparação e de Contingência para a saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo. A intervenção do primeiro-ministro faz todo o sentido. Mas por que carga de água (excepto demonstrar a eficácia da nossa diplomacia) o Presidente da República convidou Mr. Barnier?

Imagem (editada) do site da Presidência da República. Clique.

FOLHETIM PSD


A peixeirada do PSD acabou perto das cinco da manhã. Ironia suprema: a escolha do voto secreto foi feita de braço no ar. Respeitado o procedimento, Rui Rio ganhou por 75 contra 50. Um déjà vu para quem conhece a história do PSD.

Eu não esqueço. Cito do meu livro de memórias:

«Em Abril de 1979, com o país em transe, 37 dos 73 deputados do PSD desvincularam-se do partido, permanecendo no Parlamento como independentes. Ficaram conhecidos como Inadiáveis

Mais: Vítor Direito lançou o Correio da Manhã para ser o porta-voz dos Inadiáveis. Tal como hoje o Observador é o porta-voz da Direita neo-liberal.

Mas esta gajada passista não tem os guts de Magalhães Mota, co-fundador do partido, Sousa Franco, Sérvulo Correia (os três continuaram deputados), Rui Machete, Ernâni Lopes, Jorge Miranda (não eram deputados mas abandonaram o partido), limitando-se a rodopiar para onde sopra o vento.

CRISTINA & CRISTAS


Depois do telefonema de Marcelo, Assunção Cristas foi fazer arroz de atum ao programa de Cristina Ferreira. Quem é o político que, um destes dias, vai à Casa mais badalada do país fazer punhetas de bacalhau?

Clique no Instagram de Cristina.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

BANVILLE & ONDAATJE


Hoje na Sábado escrevo sobre Mrs. Osmond, de John Banville (n. 1945), o irlandês que é actualmente um dos mais importantes autores vivos de língua inglesa. Só um autor como ele podia, sem cair no ridículo, escrever a sequela de Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Fez isso neste seu romance mais recente, prolongamento das aventuras de Isabel Archer, a americana rica que se deixou seduzir por um europeu arrivista. O romance de 1881 é um clássico. Quem não leu James, viu com certeza o filme que Jane Campion fez em 1996, com Nicole Kidman e John Malkovich nos papéis de Isabel e Gilbert Osmond. Mrs. Osmond é um pastiche, com a vantagem suplementar de ‘responder’ ao livro de James, que tem um final ambíguo, coisa que agora não acontece. É provável que alguns jamesianos prefiram a história suspensa. Para muitos deles, é indiferente saber se Isabel volta para Gilbert. Mas esse detalhe hermenêutico vê-se ultrapassado pelo brilho estilístico de Banville, que resgata a intriga das incertezas e equívocos da obra-prima de James, fazendo a transição do romance vitoriano para a narrativa modernista. Isabel continua na Europa, em trânsito pela Inglaterra, França e Itália, porém ligada ao repelente marido. Banville cria novas personagens, sem excluir as de James: o primo Ralph, madame Merle (amante de Gilbert), Henrietta Stackpole e outras. A mais-valia radica no fôlego da escrita, quer se trate de descrições de viagens, factos triviais ou estados de alma: «Além disso, não estava na sua natureza esquivar-se ao dever e às coisas que reclamavam a sua intervenção. Na sua conceção de si mesma, sempre predominara a ideia de que na vida uma pessoa só consegue preservar o que resta da sua honra ao encarar cabalmente as suas más ações e a sua cumplicidade no mal…» O leitor talvez considere excessivo o uso de pronomes possessivos, que têm no texto original um peso diferente daquele que adquirem na língua de chegada, mas a prosódia tem exigências. No confronto com James, Banville dialoga de igual para igual, sobrepondo o virtuosismo da prosa à engrenagem do plot. O resultado é surpreendente. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre A Luz da Guerra, de Michael Ondaatje (n. 1943), poeta consagrado e romancista laureado, conhecido em todo o mundo desde que Anthony Minghella adaptou ao cinema O Paciente Inglês, provavelmente o melhor romance deste canadense nascido no Sri Lanka. A obra mais recente confirma a solidez de uma escrita convencional, porém sedutora. Estamos na ressaca da Blitz londrina, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A primeira frase dá o tom: «Os nossos pais foram-se embora, deixando-nos ao cuidado de dois homens que podiam muito bem ser criminosos.» O motivo da inesperada partida para Singapura foi um mistério para Nathaniel e Rachel. Por que razão a mãe não levou consigo a mala de porão? Qual a natureza do trabalho que precipitou a partida? Serviços secretos? Fuga a segredos indizíveis? Como de regra, Ondaatje é minucioso nos detalhes da recriação de ambientes, mesmo (como aqui) em registo dickensiano. Do seu lugar de narrador autodiegético, Nathaniel conta como foi. Tudo aconteceu num tempo que a memória filtrou, sem os holofotes do presente. Música de câmara perfeita. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

RELER MILLER


Apesar do gelo que transia o São Luiz, gostei muito de ver Do Alto da Ponte. Austera, a encenação de Jorge Silva Melo — relendo tão bem o Arthur Miller dos fifties — é perfeita. O mesmo se diga do sexteto de actores principais: Américo Silva, Joana Bárcia, André Loubet, Vânia Rodrigues, António Simão e Bruno Vicente. Tema central: sexo e delação num gueto novaiorquino de imigrantes ilegais. Como Silva Melo disse numa entrevista recente, «o realismo de Miller é moral». Vendo a peça (traduzida por Ana Raquel Fernandes e Rui Pina Coelho), percebemos porquê.

A fotografia é de Jorge Gonçalves. Clique na imagem.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

MAY SOBREVIVE

Por 325 votos contra 306, foi hoje derrotada, como era de prever, a moção de censura apresentada pelo Labour contra o Governo de Theresa May. A esquizofrenia prossegue.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

IMPASSE


Por 432 votos contra 202, os deputados britânicos rejeitaram o acordo negociado com a UE.

Como tinha avisado, Theresa May reiterou que não há plano B. Sei que rejeitam o acordo, mas não sei o que querem. Brexit significa brexit, sublinhou a primeira-ministra.

Minutos depois da votação, Jeremy Corbyn, líder da Oposição, apresentou uma moção de censura ao Governo que será votada obrigatoriamente amanhã. Como é pouco provável que vença, a incerteza adensa-se.

No Reino Unido, a marcação de eleições gerais é uma prerrogativa do chefe do Governo.

ÁLVARO DE CAMPOS RASURADO


O livro escolar Encontros 12.º ano, da Porto Editora, omite três versos da Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, por se tratar de «versos que têm linguagem explícita e se relacionam com a prática da pedofilia». A versão do mesmo livro destinada aos professores insere o poema na íntegra.

Os argumentos morais do comunicado da equipa de autores do livro [«Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos.»] não merecem comentário.

Imagem: excerto da Ode Triunfal, in Álvaro de Campos, Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 87, edição de Teresa Rita Lopes. Clique para ler melhor.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

MAIORIA ABSOLUTA


Perante a indiferença de 30,9% dos inquiridos, o papão da maioria absoluta do PS ainda assusta 30,7% de potenciais eleitores

Clique na imagem do Expresso.

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 54,7%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 15,2%. E a PAF em 8,1%.

O PSD obtém o pior resultado de sempre. CDU e CDS empatados. O partido de Santana Lopes, sondado pela primeira vez, obtém 4%.

Clique na imagem do Expresso.

VIENA


Cinco dias em Viena deixaram o blogue a hibernar. Gostei da cidade? Não posso dizer que não, mas há meia dúzia de cidades europeias de que gosto mais.

Coisas boas de Viena: a escala humana, apesar da arquitectura imperial / a limpeza geral / a extensa área pedonal / o trânsito disciplinado fora do centro pedonal / os magníficos museus  / o serviço competente em cafés e restaurantes / comércio de luxo, a sério / oferta musical clássica de primeiríssima qualidade / comércio popular decente / os passeios de pedra lisa / ausência total de jeans com buracos nos joelhos / ausência quase total de grafitos nas paredes / os cafés históricos / as livrarias / as galerias de arte / os imensos parques verdes / o palácio imperial de Schönbrunn (a seis quilómetros do centro) / a catedral de Stephansdom / a possibilidade de ir a quase todo o lado sem ter de recorrer a táxis e outros transportes públicos / Etc.

Coisas más de Viena: as ruas sem árvores / a luz fosca / o urbanismo monótono em tom sépia / os taxistas turcos e croatas ostensivamente enfadados / os austríacos com ar de quem sofre de prisão de ventre permanente / a quase total ausência de adolescentes / a quase total ausência de jovens adultos (excepto empregados de mesa) / a iluminação deficiente das ruas principais / Etc.

Na imagem, a fabulosa Karlskirche, igreja dedicada a Carlos Borromeu, fotografada por mim. Clique.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

MORANTE & BUKOWSKI


Hoje na Sábado escrevo sobre A História, da italiana Elsa Morante (1912-1985), tão arredia da edição portuguesa, ao contrário de seu marido, Alberto Moravia. É bom tê-la de volta. O mais famoso dos seus romances foi agora traduzido por José Lima. À data do lançamento, em 1974, no auge dos anos de chumbo italianos, a celeuma em torno do livro dividiu a intelligentsia marxista. Pasolini, de quem Morante era amiga e colaboradora em vários filmes, foi um crítico violento. Nunca mais se falaram até à morte do cineasta. Embora comece antes e acabe depois, A História centra-se na ocupação de Roma pelos nazis e, em particular, na história pessoal de Ida Ramundo, professora, judia, vítima de estupro (em sua própria casa) por um soldado alemão, bêbedo, incapaz de perceber que a epilepsia fizera Ida perder por momentos a consciência. Useppe, o segundo filho, nasceu em resultado. Mas o romance centra-se sobretudo na história da Europa do século XX. Pontuam o livro cronologias detalhadas de convulsões políticas ocorridas entre 1900 e 1967. Como se não fosse possível perceber Ida sem conhecer os porquês das duas Guerras Mundiais, a República de Salò, o estalinismo, as bombas de Hiroxima e Nagasaki, a vitória de Mao Tsé-Tung, o Muro de Berlim, a independência da Argélia, a crise dos mísseis soviéticos em Cuba, a guerra do Vietname, a onda de assassinatos políticos em Itália, o golpe dos coronéis em Atenas, etc. Na sua crueza, na ambiguidade das suas harmónicas («Ela redescobria aquela sensação de realização…»), nem o capítulo da violação dispensa contexto histórico. O relato do conflito é devastador. Morante tem uma escrita seca, precisa, capaz de, sem ênfase retórica, fazer o retrato vívido de personagens secundários (como é o caso de Davide Segre) e, ao mesmo tempo, descrever acontecimentos terríveis em grande angular. Inquéritos e listas valem o que valem, mas, segundo uma pesquisa feita em 1985 pelo jornal Corriere della Sera, A História é (ou era) o mais lido e discutido dos romances italianos contemporâneos. Fora de Itália, é considerado um dos cem romances mais importantes de sempre em qualquer língua. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Os Cães Ladram Facas, uma antologia da poesia de Charles Bukowski (1920-1994) organizada por Valério Romão a partir de vários livros, alguns póstumos. Selecção de 135 poemas traduzidos por Rosalina Marshall. A edição não é bilingue. No prefácio, Valério Romão alerta o leitor para a possibilidade de vários poemas póstumos terem «sofrido modificações consideráveis à mão do editor, John Martin.» Poeta e escritor do realismo sujo, a obra de Bukowski tem sido reavaliada depois da sua morte. Marginal ao sistema literário, desde cedo cantou as vidas dos deserdados e o absurdo da existência: «Somos pássaros moribundos / somos navios que se afundam — / o mundo balança contra nós […] e chamam ao nosso veneno política.» Clichês autobiográficos plasmados na obra: misoginia inata, sexo promíscuo, abuso de álcool e violência indiscriminada. A precariedade das profissões (operário fabril, carteiro, etc.) não o impediu de escrever dezenas de livros, incluindo seis romances e uma dúzia de colectâneas de contos. A Black Sparrow Press tem feito render o espólio. Três estrelas. Publicou a Alfaguara.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

PURGA NO BRASIL

O primeiro acto de Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil, o equivalente a ministro da Presidência, foi exonerar 320 funcionários alegadamente militantes ou simpatizantes do PT. As exonerações foram publicadas ontem no Diário Oficial.

Onyx deu o tiro de partida para a «despetização» da Administração Pública, tornando-a «livre de amarras ideológicas». Igual medida vai ser aplicada em todos os ministérios, tribunais, escolas, universidades, institutos e órgãos oficiais brasileiros, prevendo-se a exoneração de dezenas de milhares de funcionários.

Quem considerava os excessos retóricos de Bolsonaro mera estratégia de campanha, pode agora confrontar-se com a realidade.

O CONGRESSO DA DIVERSIDADE


Ontem foi o Dia Um dos novos eleitos para o Congresso (Senado e Câmara dos Representantes) dos Estados Unidos. Dez novos senadores, sendo 3 mulheres Democratas; e 101 novos congressistas, sendo 64 Democratas. No seu conjunto, o Congresso tem agora mais de cem mulheres: 38 são Republicanas.

Nunca o Congresso americano teve tanta diversidade: homossexuais e lésbicas assumidas, imigrantes, uma mulher muçulmana, hispânicos, negros, representantes de tribos índias, dois antigos oficiais da CIA, um ex-Boina Verde, mulheres veteranas militares (nunca até agora ex-militares haviam concorrido), antigos assessores de contraterrorismo, etc.

Nancy Pelosi, 78 anos, Democrata, foi eleita Speaker, cargo que já ocupara entre 2007 e 2011. Não vai ser fácil a vida de Trump nesta segunda metade do seu mandato.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

BRANQUEAR O FASCISMO

Mário Machado, líder do movimento de extrema-direita Nova Ordem Social, esteve hoje no programa de Manuel Luís Goucha, na TVI. Mote: Precisamos de um novo Salazar?

Machado acha que sim. Bruno Caetano, alegado repórter sem carteira profissional de jornalista, autor do formato, também acha. Goucha fez notar que não foi responsável pelo convite.

Numa rápida pesquisa sobre Machado, encontro referências a condenações em 1997 (caso Alcindo Monteiro), 2008 e 2010. Goucha passou ao lado.

Se, como diz Goucha, temos de ouvir todas as partes, convém fazer primeiro o trabalho de casa. E confrontar o entrevistado com eventuais contradições. Neste caso foram várias.

MARÍAS & JONES


Hoje na Sábado escrevo sobre Berta Isla, o romance mais recente do espanhol Javier Marías (n. 1951). Trata-se de um thriller de espionagem que recupera Peter Wheeler, um dos personagens da trilogia O Teu Rosto Amanhã. O protagonista, Tom Nevinson, podia ser o alter-ego do autor, pois ambos, em determinado momento das suas vidas, trocaram Espanha por Oxford, pautando o dia a dia por idiossincrasias britânicas. Como em obras anteriores, a acção de Berta Isla — o nome da mulher de Tom — desenrola-se tendo a História europeia como pano de fundo. Desta vez, o leitor acompanha a turbulência de 1968 (o Maio francês, a ocupação de Praga pelos tanques do Pacto de Varsóvia) e o colapso da URSS em 1991, depois de passar pela guerrilha do Ulster, a guerra das Malvinas e a queda do Muro de Berlim. Sem esquecer a ditadura franquista, pretexto para Marías lembrar os ominosos tempos do caudilho, em especial os métodos de actuação das polícias espanholas. Em Oxford, Tom, cujos dotes de linguista e de mimo eram reconhecidos, vê-se compelido a ser espião ao serviço do MI6. Filho de pai inglês e mãe espanhola, reunia as condições «para ser útil ao país e o servir com as suas capacidades excepcionais.» Tom recusa a sugestão de Wheeler, mas um episódio macabro (uma mulher com quem fez sexo aparece estrangulada) coloca-o entre duas escolhas: acusação de assassinato ou tornar-se infiltrado com base em Madrid. A originalidade da intriga radica no facto de cruzar os incidentes da vida conjugal com os segredos da profissão. Por exemplo, Berta não sabe por que razão foi um dia atacada por um casal de activistas do IRA. O que queriam com ela os irlandeses? Embora se trate de um thriller, um dos aspectos mais interessantes e melhor resolvidos relaciona-se com a solidão de Berta (o meu marido é o meu marido?, interrogava-se), que foi mantendo breves casos extra-conjugais, mas durante vinte anos não desistiu de ver Tom de regresso a casa. Oportunas citações de Shakespeare (o contraponto de Thatcher com Henrique V em Agincourt, em 1415, é um achado) e T.S. Eliot, pontuam a narrativa. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Aquilo Que Encontrei na Praia, romance do escritor galês Cynan Jones (n. 1975). A vida dos que vivem no limite da sobrevivência é o tema central. Podia ser um thriller policial, na medida em que tudo começa com a descoberta do corpo de um homem com «um buraco na cara, um túnel até à nuca», homem a quem faltavam quase todos os dedos de uma das mãos. O livro foi publicado em 2011, no auge da crise europeia. No centro da intriga, Grzegorz, imigrante polaco, e Hold, um pescador. Tráfico de droga, chantagem, contabilidade paralela, expedientes que põem em risco o visto de Grzegorz, pretextos para Cynan Jones falar dos efeitos da desregulação do mercado, dos monopólios da cadeia alimentar e da globalização. Não é inocente que Grzegorz seja polaco: quando os britânicos se queixam dos estrangeiros que hoje em dia ocupam a generalidade das profissões pouco qualificadas, estão a pensar em polacos. Grzegorz lê o grafito todos os dias: «Polacos fora». Mas o medo é o que «mantém as pessoas na linha». Três estrelas. Publicou a Elsinore.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

CENTENO, THE BEST


Mário Centeno, ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, foi considerado Ministro das Finanças do Ano, na Europa, pela revista inglesa The Banker.

A revista destaca a bem-sucedida resolução de negociações delicadas envolvendo os ministros das Finanças da zona euro, o acerto na gestão e prevenção de futuras crises financeiras (com sucesso em dezenas de assuntos), bem como as significativas reformas na área da moeda única.

Contra as previsões inquinadas dos avençados do apocalipse, Centeno, o menino feio que resgatou o PS da sina do despesismo, fez a quadratura do círculo. A caterva de comentadores de economês com lugar cativo nas televisões e outros media, bem pode limpar as mãos à parede.

The Banker pertence ao grupo Financial Times.

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ESPANHA


Se as eleições se realizassem hoje em Espanha, o PSOE seria o partido mais votado, mas seria a Direita a governar com o apoio da extrema-direita. Uma geringonça à espanhola, portanto.

A soma do PP, CIUDADANOS e VOX representa 50,9% das intenções de voto (e a possibilidade de 189 deputados), enquanto a soma do PSOE e do PODEMOS apenas representa 38,4% (e a possibilidade de 143 deputados). Os pequenos partidos não contam: a soma de todos não chega para colmatar o gap.

Vendo os três gráficos, verificamos que o VOX, de extrema-direita, praticamente não existia há seis meses, e hoje consegue mobilizar quase treze por cento do eleitorado.

É evidente que uma coligação PP+PSOE+CIUDADANOS evitaria ter a extrema-direita a governar, mas a ortodoxia de uns e outros vai optar pela pior solução.

A sondagem foi divulgada hoje por El Mundo. Clique na imagem.

SINISTRO


Fui ler o discurso de posse de Bolsonaro.

Highlights

Hoje, aqui estou, fortalecido, emocionado e profundamente agradecido a Deus [...]

Vamos restaurar e reerguer nossa Pátria, libertando-a definitivamente do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade económica e da submissão ideológica [...]

Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã [...]

Vamos combater a ideologia de género... O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas [...]

O cidadão de bem merece dispor de meios para se defender, respeitando o referendo de 2005, quando optou pelo direito à legítima defesa [...]

Contamos com o apoio do Congresso Nacional para dar o respaldo jurídico aos policiais para realizarem seu trabalho. [...]

Nossas Forças Armadas terão as condições necessárias para cumprir sua missão constitucional de defesa da soberania, do território nacional e das instituições democráticas, mantendo suas capacidades dissuasórias para resguardar nossa soberania e proteger nossas fronteiras [...]

À margem do discurso: Bandeira vermelha acabou / Nosso país liberta-se hoje do socialismo / Marxismo cultural dos mídia e das universidades vai acabar / Politicamente correcto nunca mais.

Há um ano, isto era uma anedota. Hoje é a realidade. Como a imagem demonstra, o homem tomou mesmo posse, sufragado por dois terços dos eleitores brasileiros.

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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

BOLSONARO, DIA UM


Quando forem 16:45 em Portugal, Bolsonaro toma posse como 38.º Presidente do Brasil.

Estão milhares de pessoas na Esplanada dos Ministérios em Brasília, onde o longo cerimonial de investidura já teve início. O esquema de segurança é o maior da história do país. Três partidos representados no Congresso recusaram participar no acto: o PT, o PSOL e o PCdoB.

Com Bolsonaro tomam posse o vice-Presidente, general Hamilton Mourão, o presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, e 22 ministros.

Tereza Cristina, ministra da Agricultura, e Damares Alves, evangélica radical [Está na hora de dizer à nação que é a hora da Igreja governar], ministra da Família, Assuntos da Mulher e Direitos Humanos, são as únicas mulheres.

O executivo conta ainda com um almirante, três generais, um tenente-coronel astronauta (Ciência), um teólogo colombiano (Educação), um diplomata de extrema-direita (MNE) e o juiz Moro à frente da Justiça e Segurança Pública.

Martín Vizcarra, Presidente do Peru, que já estava em Brasília, regressou ao seu país.

Marcelo, único Chefe de Estado europeu presente, Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, e Mike Pompeo, secretário de Estado (MNE) americano, são os convidados de maior destaque.

Esta manhã tomaram posse os 27 governadores estaduais eleitos.

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