quinta-feira, 15 de julho de 2021

GUERRA CIVIL NO HORIZONTE?


Com dez mil soldados na rua, a África do Sul começou a convocar reservistas, o que não acontecia desde os anos 1990. Após sete dias de tumultos e desordem generalizada, o número de mortos subiu para 117, tendo sido efectuadas mais de três mil prisões. Nosiviwe Mapisa-Nqakula, a ministra da Defesa, quer em acção 25 mil efectivos do Exército.

Tudo começou no passado dia 9, nas províncias de KwaZulu-Natal e Gauteng, quando o antigo Presidente Jacob Zuma se entregou à polícia para cumprir a pena de prisão de quinze meses a que foi condenado por ter recusado comparecer perante a Comissão Zondo, um colectivo nomeado para investigar alegados actos de corrupção durante os nove anos (2009-18) em que foi Presidente. 

Neste momento a violência atinge várias regiões do país, com as principais autoestradas cortadas, dezenas de centros comerciais saqueados e incendiados, milhares de lojas vandalizadas, distribuição de alimentos à beira da ruptura desde que a Tiger Brands suspendeu a actividade, postos de combustíveis abandonados e outras infraestruturas críticas nas mãos dos insurrectos. A refinaria de petróleo Sapref, a maior da África Subsariana, também suspendeu a operação.

A prisão de Zuma terá sido o detonador da profunda crise económica que afecta a África do Sul, país que se debate com uma taxa de desemprego de 32% (superior a 50% nos menores de 30 anos), corte dos subsídios estatais que vigoraram até 2019 e, agora, os efeitos da pandemia: 2,3 milhões de infectados, mais de 65 mil mortos.

Com cerca de 60 milhões de habitantes (sendo brancos 8%), a África do Sul é a segunda maior economia de África e a 32.ª a nível mundial. A oposição responsabiliza Cyril Ramaphosa, o actual Presidente, de ter negligenciado os repetidos avisos dos serviços secretos.

Sabemos como começou, não sabemos como vai acabar. Guerra civil no horizonte?

Na imagem, uma rua de Joanesburgo no passado dia 11. Clique.

CHRISTIAN BOLTANSKI 1944-2021


Christian Boltanski morreu ontem em Paris, no Hospital Cochin. A causa não foi determinada, há quem fale de cancro, mas Annette Messager, sua mulher, não confirma.

Autodidacta, tornou-se um dos mais importantes artistas visuais franceses, célebre do Japão à Patagónia, conhecido pelas instalações provocatórias — como a pirâmide de roupas usadas que em 2010 ocupou o Grand Palais —, os vídeos escatológicos, a fotografia e os filmes autobiográficos. No ano passado, quando a pandemia encerrou os museus franceses, o Centro Pompidou exibia desde o Outono de 2019 uma grande retrospectiva da sua obra.

Menschlich (1994), um dos seus livros mais conhecidos, reúne mil e trezentos retratos dos anos 1970-80, tendo como denominador comum o horror do Holocausto. Boltanski tem origem judaica, tendo seus pais (uma escritora e um médico) sofrido a violência da França ocupada.

Começou pela pintura (1957-68), mas seria nas artes visuais que se notabilizaria, estando representado em museus de Paris, Grenoble, Madrid, Nova Iorque, Quebec, ilha japonesa de Teshima, etc. Em 2010, em troca de uma choruda renda vitalícia, “vendeu” a sua vida a um milionário australiano, ficando este com o direito de filmar Boltanski 24 horas por dia.

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quarta-feira, 14 de julho de 2021

MAIS ALVALADE


Hoje ao fim da tarde, como previsto, lá nos juntámos todos no Parlatório do Jardim Mário Soares, ali no Campo Grande, para apoiar a recandidatura de José António Borges ao cargo de Presidente da Junta de Freguesia de Alvalade. A data não podia ter sido melhor escolhida.

Muito boa intervenção do incumbente, após Luís Nazaré e Fernando Medina terem feito o balanço do mandato que termina em Setembro.

Quadro do Banco de Portugal desde 2013, membro da Comissão Política Nacional do PS, antigo adjunto ministerial, licenciado em Direito pela Universidade Nova de Lisboa e a terminar um mestrado de Economia e Políticas Públicas no ISCTE, José António Borges tem feito um trabalho notável na Freguesia a que preside.

Como amigo e membro da sua Comissão de Honra, faço questão de assinalar a minha satisfação em vê-lo prosseguir esse trabalho.

Na imagem, José António Borges no uso da palavra, vendo-se, sentados à direita, Luís Nazaré e Fernando Medina. Clique.

terça-feira, 13 de julho de 2021

CULTURA VS PATRIMÓNIO

A minha recente visita a Tomar deu azo a que publicasse no Facebook fotografias do património histórico da cidade. Uma delas, da Janela do Capítulo (Convento de Cristo), gerou uma onda de indignação. A «incúria» da Direcção-Geral do Património Cultural foi apontada, por quase toda a gente, como causa do «estado miserável, vergonhoso, etc.» da referida janela.

Onde é que eu quero chegar? Quem me conhece, ou simplesmente lê o que escrevo à margem da literatura — entre 2005 e 2011 este blogue foi dos mais lidos —, sabe que discordo da existência de ministérios da Cultura, coisa muito apreciada em França, na antiga URSS, em Cuba, na China e afins. Digo-o com o à vontade de quem é ou foi (alguns morreram) amigo de vários titulares do cargo. Um deles, na primeira entrevista que deu após a posse, até me citou a esse respeito. Adiante.

Manda a verdade dizer que o interior do Convento de Cristo se encontra em muito bom estado de conservação. Mas não é isso que me interessa.

Como em tudo na vida, não podemos comer o bolo e ficar com ele. Ou há dinheiro para apoiar o teatro, o cinema, a música, as bolsas de criação literária, as artes performativas, as mil e uma Fundações culturais que existem de Norte a Sul do país, os arraiais temáticos, etc., ou para restaurar e conservar o Património. Para as duas coisas nunca houve: uns remendos aqui, outros ali, queixas de todos os lados.

Enquanto não houver um ministério do Património, com orçamento adequado, o pouco dinheiro do ministério da Cultura terá como prioridade subvencionar, em registo de esmola (ou seja, em termos análogos aos do rendimento social de inserção), um reduzido núcleo de actores, encenadores, músicos, bailarinos, cineastas, performers, etc., negligenciando museus — o MNAA e o MNAC já têm catálogo? —, monumentos, igrejas, bibliotecas públicas, palácios de reconhecido interesse histórico, castelos, pelourinhos, aquedutos (o de Pegões nem sinalizado está), pontes romanas, edifícios classificados, etc. Para tudo não há.

A opção é justa: entre pessoas e pedras, primeiro estão as pessoas. Mas temos de saber, com clareza, aquilo que queremos.

domingo, 11 de julho de 2021

NATÉRCIA FREIRE


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Braços Longos de Natércia Freire (1919-2004), poetisa que durante vinte anos coordenou a página de Artes & Letras do Diário de Notícias, lugar de que foi afastada no imediato pós-25 de Abril. Foram mais de mil páginas, onde colaboraram todos os nomes que, entre 1954 e 1974, contavam na Literatura portuguesa.

Natural de Benavente, Natércia Freire estudou música (canto e composição), fez o curso do Magistério Primário e leccionou antes de dedicar-se por inteiro à vida literária. Além de poesia escreveu contos, tendo-se estreado com Castelos de Sonho (1935). Recebeu duas vezes o Prémio Antero de Quental (1947 e 1952), o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa (1955) e, em 1971, o Prémio Nacional de Poesia. Era irmã da escritora Maria da Graça Freire.

Entre 1971 e 1974 fez parte da Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian.

Pedro Sena-Lino, seu neto, organizou — juntamente com Alexandre Nave e José Félix Duque — O Livro de Natércia, publicado em 2005. Volume de evocação da autora, com prefácio de Jorge Sampaio, conta com a colaboração de 51 poetas (um deles eu próprio) e 21 artistas plásticos.

No centenário do seu nascimento (2019) foi nobilitada a título póstumo com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

O poema desta semana integra Anel de Sete Pedras (1952). A imagem foi obtida a partir do 1.º volume da Terceira Série de Líricas Portuguesas, a mítica antologia organizada por Jorge de Sena, publicada pela Portugália [este primeiro volume] em 1972.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro e José Gomes Ferreira.]

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quinta-feira, 8 de julho de 2021

CARDOSO PIRES BIOGRAFADO


Hoje na Sábado

Chegou finalmente às livrarias a tão aguardada biografia de José Cardoso Pires (1925-1998), nome maior da ficção portuguesa. Bruno Vieira Amaral, o biógrafo, escolheu um título certeiro — Integrado Marginal. Ao contrário de muitos dos seus pares, Cardoso Pires foi uma personalidade de certo modo “secreta”, razão acrescida para o interesse suscitado pelo livro de Amaral.

Sem perder de vista a vida cultural e política do país ao longo de seis décadas, bem como a boémia tão do agrado de Cardoso Pires, o biógrafo ilustra as origens rurais do biografado, o estertor da Primeira República, o tédio precoce pelo quotidiano pequeno-burguês, as primícias literárias, as amizades com Pomar, Castro Soromenho, Luiz Pacheco e outros, a iniciação sexual das «matinées-segóvia», uma viagem a África como tripulante de navio (curiosos os flashes da sua estadia em Lourenço Marques em 1945), o MUD Juvenil, a passagem pelo PCP, a “tutoria” de Mário Dionísio, o primeiro livro em 1949, os anos em que foi guia-intérprete da TAP, experiências como editor, a revista Eva, a cumplicidade com Maria Lamas, atritos com a crítica, apreensão pela PIDE do segundo livro, a morte do irmão, o casamento com Edite («o rochedo da família»), as filhas, desilusão com o Movimento Para a Paz, os retiros na Caparica, a parceria com Figueiredo Magalhães, a consolidação da obra — a partir de O Anjo Ancorado, de 1958 —, o Golpe da Sé, a direcção do Almanaque, o crime da praia do Guincho (móbil de Balada da Praia dos Cães), a fuga para Londres em 1960, a temporada brasileira, o congresso em Itália da Comunità Europea Degli Scrittori, o prémio para O Hóspede de Job, a extinção da SPE, a publicidade, consagração com O Delfim (1968), leitor e depois escritor residente no King’s College de Londres, o Diário de Lisboa, passagem pela Câmara de Lisboa, a ida ao Camboja, o Prémio da União Latina e o Grande Prémio da APE, o reconhecimento institucional, o apagão cerebral de 1995 e um De Profundis por antecipação.

Bruno Vieira Amaral calibra bem a vasta informação de que dispõe, analisa com argúcia a obra de Cardoso Pires e abstém-se de especulações laterais. Apenas lamento a ausência de uma bibliografia activa do biografado. No mais, Integrado Marginal cumpre com brio o protocolo do género.

Publicou a Contraponto. Clique na imagem.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

LFV PRESO

Foi preso o presidente do Benfica. Desde Sócrates que não havia, no país, uma detenção tão importante. A diferença é que a de hoje não foi em directo.

A NOVELA DE TANCOS


Durante mais de três anos, a pretexto do alegado desaparecimento de material de guerra dos paióis de Tancos, Azeredo Lopes foi enxovalhado por todos os media, acabando por demitir-se do cargo de ministro da Defesa Nacional do XXI Governo Constitucional.

Ontem, o Ministério Público pediu a absolvição de Azeredo Lopes da trapalhada em que o envolveram.

Em simultâneo, o MP pediu penas para 12 dos restantes 22 arguidos do caso que, quando começou, metia no mesmo saco o alegado tráfico de armas, terrorismo, associação criminosa e denegação de justiça.

Antigo director da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa do Porto, terá sido a sua passagem pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social, da qual foi presidente entre 2006 e 2011, que fez dele um alvo a abater.

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segunda-feira, 5 de julho de 2021

RECANDIDATURA FORMALIZADA


Na presença do primeiro-ministro, Fernando Medina formalizou há pouco, na Estufa Fria do Parque Eduardo VII, a sua recandidatura à Câmara de Lisboa. António Costa abriu a sessão, sublinhando o apoio incondicional do PS.

Medina falou a seguir: «Nenhuma acção nos distrairá do fundamental: auxiliar os mais necessitados, apoiar a economia e o emprego, promover a testagem em massa, apoiar a aceleração da vacinação. Nada nem nenhuma campanha nos distrairá

Ora bem.

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MOBILIDADE


É hoje assinado o protocolo para a construção da nova linha de metro de superfície entre Odivelas e Loures, numa extensão de 12,1 quilómetros.

A futura linha terá dezoito estações, servindo uma população de cerca de 180 mil pessoas, distribuídas por oito freguesias. Se não surgir nenhum percalço, começará a funcionar no Outono de 2025.

Clique na imagem do Público.

domingo, 4 de julho de 2021

NOVE MILHÕES


Incomoda a caterva dos tremendistas, mas é um facto. O número de inoculações ultrapassou hoje a fasquia de nove milhões: até ao fim da tarde, em Portugal, foram inoculadas 9.060.568 doses.

O mapa é do passado dia 1 e já nos colocava acima da média da UE. Clique.

JOSÉ GOMES FERREIRA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Viver sempre também cansa de José Gomes Ferreira (1900-1985), publicado em 1931, no n.º 33 da revista Presença. Lutador antifascista, a obra oscila entre o neo-realismo e uma certa ideia de surrealismo. Reunida em três volumes, a sua obra poética completa leva o título de Poeta Militante.

Natural do Porto, veio para Lisboa aos 4 anos de idade. Após a formatura em Direito, foi cônsul de Portugal na cidade norueguesa de Kristiansund entre 1926 e 1930. Afastado pela ditadura de todos os cargos públicos, foi jornalista e, sob pseudónimo, tradutor de filmes.

Estreado em 1918 com Lírios do Monte, a obra canónica arranca de facto em 1948. Colaborou nas mais importantes publicações do seu tempo, tendo escrito, além de poesia, contos, ensaio, teatro, crónicas, memórias e um diário publicado em vários volumes.

Em democracia, foi o primeiro presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

O poema desta semana integra Poesia I (1948). A imagem foi obtida a partir de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, organizada por Jorge Reis-Sá e Rui Lage, publicada pela Porto Editora em 2009.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura e Fernanda de Castro.]

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ANA LUÍSA AMARAL NO Y


Excelente entrevista de Ana Luisa Amaral, conduzida por Luís Miguel Queirós, publicada hoje no Público

Ao longo de sete páginas, Ana Luísa fala da obra, da traumática ida para o Norte quando tinha 9 anos (nasceu em Lisboa, vive em Leça da Palmeira desde 1965), do doutoramento em Dickinson, dos anos americanos, da docência, do prémio Reina Sofia de Poesia Ibérica que lhe foi atribuído há dois meses, de feminismo, da famosa despensa, do poema-panfleto de Amanda Gorman e do nonsense que representa a obrigatoriedade de ser uma mulher negra a traduzir, da cadela Milly, etc. Vale a pena ler.

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sexta-feira, 2 de julho de 2021

COMEÇA HOJE


Restrições à circulação entre as 23h e as 5 da manhã. Mas convém não confundir dever de [a Resolução com força de lei: «devem abster-se»] com obrigação. Ainda vivemos em democracia.

Imagem: recorte da Resolução do Conselho de Ministros n.º 86-A/2021, in Diário da República n.º 126/2021, 3.º Suplemento, Série I, de 1 de Julho.

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quinta-feira, 1 de julho de 2021

RESILIÊNCIA

Com os bares e discotecas de todo o país de portas fechadas há 15 meses, a sobrevivência do sector (empregados e proprietários) é um mistério.

Se as estatísticas estão correctas, cerca de 70% da hotelaria nacional esteve encerrada entre 2020 e 2021, conforme os casos, entre seis e oito meses. Porém, algumas unidades fecharam de vez.

Quanto se sabe, um terço dos restaurantes, de Norte a Sul, encerrou a sua actividade logo no ano passado, uns durante o primeiro confinamento, outros no Outono. Mesmo podendo fazê-lo, vários restaurantes do eixo Lisboa-Cascais deixaram de servir jantares, encerrando às 20h (não estou a falar de pequenas unidades familiares, mas de estabelecimentos altamente profissionalizados). Apesar do layoff, os despedimentos sucedem-se.

Alegadamente, o alojamento local sofreu um rombo superior a 60%.

Com tudo isto, era de supor uma correcção de preços e regras. Mas em Portugal acontece exactamente o contrário. Reservas que podiam ser canceladas até à antevéspera, ficam agora bloqueadas com oito dias de antecedência. Os hotéis subiram as tarifas. Tradicionalmente feito no checkout, o pagamento passou a ser efectuado no acto da reserva. A maioria dos restaurantes aumentou os preços. Mesmo nos matos mais desleixados, tudo o que seja campestre, seja lá o que isso for, faz-se pagar ao nível de Mustique (ilhas Granadinas). A TAP ainda não reembolsou passageiros impedidos por lei de viajarem para o Brasil em Fevereiro. E por aí fora.

É bem verdade que as leis do mercado não correspondem, entre nós, ao bom senso.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

EM QUE FICAMOS?

O Presidente da República não percebe, e eu também não, que o primeiro-ministro tenha que estar em isolamento profiláctico por ter tido contacto com um membro infectado do seu gabinete.

De facto: inoculado com duas doses de vacina há mais de um mês, o PM testou negativo. Diz Marcelo, e diz bem, que isto descredibiliza as vacinas.

Acrescento eu: e quem viaja para Berlim ou Londres, vacinado, teste na mão (redundância), e mesmo assim fica obrigado a quarentena?

Alguém, na OMS e na DGS, terá de explicar tudo muito bem.

terça-feira, 29 de junho de 2021

ACONTECEU


O país já tem como curar a ressaca da saída do Euro 2020: prenderam o inimigo público número um.

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domingo, 27 de junho de 2021

FERNANDA DE CASTRO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi O Cauteleiro de Fernanda de Castro (1900-1994), poetisa esquecida, mesmo tendo sido uma personalidade destacada da vida literária portuguesa, incansável contadora de histórias, testemunha privilegiada do seu tempo, «sebastianista por nascimento e vocação», espírito superior e feminista avant la lettre.

Natural de Lisboa, Fernanda de Castro notabilizou-se na poesia, ficção, teatro, literatura para a infância, memorialismo e tradução. A vulgata política retém o facto de ter sido mulher de António Ferro, mítico editor da revista Orpheu, criador e ideólogo do Secretariado da Propaganda Nacional (o futuro Secretariado Nacional da Informação), mais tarde ministro de Portugal em Berna e Roma. Razões atinentes ao foro da sociologia da literatura explicam o ónus que fez ricochete na obra da autora.

Aos 12 anos acompanhou a mãe ao encontro do pai, oficial da Marinha de Guerra, então colocado como capitão-do-porto em Bolama, na Guiné. Aos 19, de novo em Lisboa, frequenta os salões de Veva de Lima, de quem talvez se possa dizer que foi, na Lisboa buliçosa dos twenties, uma Lady Ottoline Morrell à escala portuguesa.

Foi através de Veva que Fernanda de Castro acedeu ao millieu literário e artístico da época. Nesse mesmo ano (1919) estreia-se com Ante-Manhã, assinado ainda como Maria Fernanda de Castro e Quadros. Em 1921 começa a escrever no Diário de Lisboa. Em 1922 casa por procuração com António Ferro, ela em Lisboa, na igreja de Santa Isabel, ele no Rio de Janeiro, no Consulado-Geral de Portugal. Gago Coutinho é uma das testemunhas. Depois parte ao encontro do marido, que apresentava no Brasil a peça Mar Alto. Sucedem-se recitais (dela) e conferências (dele) no Rio, São Paulo e outras cidades. A estadia foi marcada pelos ecos da Semana de Arte Moderna de São Paulo e pelo convívio com os modernistas brasileiros.

O casal regressa a Lisboa em Maio do ano seguinte, a tempo do nascimento do primeiro filho, o futuro escritor e filósofo António Quadros (1923-1993). Pouco depois mudam-se para o Bairro Alto, ocupando o 1.º andar do n.º 6 da Calçada dos Caetanos, que fora residência do historiador Oliveira Martins e cenário das tertúlias do grupo dos Vencidos da Vida. Fernanda de Castro e António Ferro instalaram-se a seguir à morte da viúva do autor de Portugal Contemporâneo. Tinham como vizinhos o poeta José Gomes Ferreira, os pintores Fred Kradolfer, Ofélia e Bernardo Marques. O prédio ficou conhecido como Soviete dos Caetanos. Mais tarde, Mircea Eliade, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Amália e Ary dos Santos tornam-se habitués.

Em 1937, durante a Exposição Internacional de Paris, Fernanda de Castro priva com Pirandello, Larbaud, Maeterlinck, Colette, Valéry e outros grandes nomes da cultura europeia. São anos de intenso labor, durante os quais, a par de obra própria, traduz Sófocles, Rilke, Pirandello, Ionesco, Katherine Mansfield, etc. Pouco antes de completar 56 anos, Fernanda de Castro fica viúva e, durante seis anos, não publica poesia.

Nesse intervalo, associada a Mariana Avillez, abre em Cascais um pequeno hotel de charme, o Solar D. Carlos, onde Marguerite Yourcenar e Grace Frick estiveram hospedadas dois meses.

Entre outras actividades, deu corpo a um projecto de educação artística para crianças, ‘O Pássaro Azul’, no qual colaboram Sarah Affonso, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Ana Máscolo, Águeda Sena, Júlia d’Almendra, Arminda Correia, Nina Marques Pereira, Germana Tânger e outras. Faz entretanto uma longa viagem a Moçambique, com passagem pelo Parque Selvagem da Gorongosa, de que resultará Fim de Semana na Gorongosa, romance de aventuras para a juventude.

No regresso de Moçambique, cria (1963) o Teatro de Câmara António Ferro. A seu lado estão jovens artistas, encenadores e poetas, entre eles Ary dos Santos, Vasco Wellenkamp, Norberto Barroca e João Perry. Mais tarde, a partir do Castelo de Silves, organiza os Festivais do Algarve, iniciativa em que participam inúmeros poetas e actores, como António Manuel Couto Viana, Isabel Ruth, Ary dos Santos, Manuela de Freitas, João Perry, Lídia Franco, João d’Ávila, além de amigas inseparáveis como Amália, Edith Arvelos e Inês Guerreiro.

A queda do Estado Novo arrastou o silenciamento de Fernanda de Castro, que não abjura o pensamento e, em consequência, paga o preço do desassombro. Em 1981, um acidente vascular cerebral afecta de forma irreversível a sua mobilidade. É por essa altura que começa a ditar as memórias, cobrindo o período que vai de 1906 a 1987 e publicadas em dois volumes.

Em 1990, o Círculo Eça de Queiroz presta homenagem à sua vida e obra, Natália e David organizam na Calçada dos Caetanos uma festa de jubilação, e a Fundação Calouste Gulbenkian atribui-lhe o Grande Prémio de Literatura Infantil.

Com a idade do século, Fernanda de Castro morreu a 19 de Dezembro de 1994. O romance Tudo É Princípio, inédito à data da sua morte, teve publicação póstuma em 2006, ano em que organizei para o Círculo de Leitores as suas Obras Completas, publicadas em dezasseis volumes.

O poema desta semana integra Asa no Espaço (1955), livro escrito durante os anos que viveu em Roma. A imagem foi obtida a partir de Poesia II (1969), edição da autora.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos e Vasco Graça Moura.]

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sábado, 26 de junho de 2021

TERRORISMO OU SIMPLES ESTUPIDEZ?

A forma como todos os canais de televisão têm estado a fazer a cobertura da pandemia ficará nos anais como epítome de abjecção.

O agitprop político percebe-se. É lamentável, mas faz parte do jogo democrático. O espírito pidesco é outra coisa. Vem isto a propósito dos checkpoints montados na Gare do Oriente (e outras partes) a pretexto das normas de circulação, aos fins-de-semana, na Área Metropolitana de Lisboa.

Vamos admitir que os assalariados de serviço, tendo nascido todos depois de 1974, não conheceram o Portugal da ditadura. Não é desculpa para terem um polícia dentro da cabeça. E é isso que tenho visto, pessoas a serem inquiridas como se estivessem numa Esquadra, o mesmo acontecendo a agentes da PSP e da GNR que, em vez de um seco não respondo (a perguntas idiotas), aturam a caterva.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado

Começar pelo princípio: Marilynne Robinson (n. 1943), voz maior da literatura norte-americana, está de volta com Jack. Com acção em Gilead, a cidade que empresta o nome ao título do romance que a fez vencer o Pulitzer de Ficção em 2005, o livro conta a história de Jack Boughton, filho “problemático” de um pastor presbiteriano. Já o conhecemos de Gilead, Home e Lila, os romances anteriores da tetralogia. O ponto crítico está na ligação amorosa de um homem branco com uma mulher negra, na América dos anos 1950. Ser professora e filha de um bispo metodista influente na comunidade negra não isenta Della Miles dos interditos da lei. Mas a vexata quaestio nem sequer reside aí. Para Marilynne Robinson, a questão central é pôr em pauta o tipo de país em que a América se transformou. O dilema de Hamlet paira como uma sombra nas discussões “teológicas” de Jack e Della. Notável. Publicou a Relógio d'Água.

Finalmente podemos ler Luto em português. Trata-se do romance mais traduzido e premiado do guatemalteco Eduardo Halfon (n. 1971), judeu mizrahim que nos faz mergulhar no horror de um país destroçado pela guerra civil. No Verão de 1981, antes de completar dez anos, o narrador muda-se com os pais para os Estados Unidos. O relato será feito a partir da Flórida, a pretexto da memória de um tio que nunca conheceu: «Chamava-se Salomón. Morreu aos cinco anos, afogado no lago Amatitlán.» Filtrada pelas raízes familiares — polacas por parte da mãe, libanesas do lado paterno —, a escavação do passado expõe o conflito entre culpa e curiosidade. Publicou a Dom Quixote.

A Trilogia da Cidade de K. traz de volta os livros mais famosos de Agota Kristof (1935-2011), a escritora que fugiu para a Suíça após o fracasso da Revolução Húngara de 1956. Radicada em Neuchâtel, tornou-se cidadã helvética e publicou a obra em francês. Reunidos em volume único, O Caderno Grande (1986), A Prova (1988) e A Terceira Mentira (1992) contam a história de dois gémeos amorais, vítimas da guerra e toda a espécie de iniquidades. Escrito em capítulos muito curtos, O Caderno… suscitou controvérsia quando foi publicado, dando origem a um processo judicial (as cenas de sexo e crime foram consideradas pornográficas). Os outros dois romances têm uma estrutura mais convencional, desdizendo, cada um a seu modo, as “verdades” do Caderno… Publicou a Relógio d'Água.

Sessenta anos após a sua primeira publicação, Chamada Para o Morto volta às livrarias, desta vez com uma introdução escrita para assinalar a data pelo próprio John le Carré (1931-2020). O livro marca o “nascimento” de Smiley, o espião improvável com quem Le Carré cresceu e amadureceu. Chamada Para o Morto é o primeiro de nove romances centrados na figura desse erudito da cultura alemã que fará dos serviços secretos a sua razão de vida (a mulher, Lady Ann Sercomb, trocou-o por um piloto cubano de Fórmula Um). O plot gira em torno do alegado suicídio de Samuel Fennan, funcionário do Foreign Office britânico. Foi o primeiro, mas já era vintage. Publicou a Dom Quixote.

Condensar a história inglesa entre o século V e o fim dos anos 1990 numa síntese rigorosa, foi o que fez Simon Jenkins (n. 1943) ao escrever esta Breve História de Inglaterra. Em menos de quatrocentas páginas, o autor faz um tour d’horizon deveras estimulante, que nos leva da Alvorada Saxónica ao legado de Thatcher, dissecando temas tão importantes como a Reforma religiosa (o conflito com o Papa) ou o Estado-Providência criado em 1945. A obra inclui uma cronologia de datas-chave, bem como a lista de todos os soberanos e primeiros-ministros do Reino Unido. Publicou A Esfera dos Livros.

A morte de Marcelino da Mata, controverso oficial dos Comandos, acordou velhos fantasmas da Guerra Colonial. Um deles, porventura o mais polémico, foi a invasão falhada da Guiné-Conacry, em Novembro de 1970. Efectuado por via marítima, o golpe visava capturar Amílcar Cabral, líder do PAIGC, libertar prisioneiros portugueses, levar os oposicionistas de Sékou Touré ao poder, e destruir os caças russos Mig. Operação Mar Verde, de António Luís Marinho, expõe os factos com exemplar minúcia: Amílcar Cabral não foi encontrado, não havia Migs no aeroporto de Conacry, os oposicionistas da FLNG não conseguiram eliminar Sékou Touré. Portugal desmentiu tudo. Prefaciado por Guilherme Alpoim Calvão, responsável pela tentativa desse coup d'État, o volume inclui dezenas de fotografias, índice onomástico e, em anexo, documentação militar. Um documento para a História. Publicou a Temas & Debates.

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