segunda-feira, 12 de agosto de 2019

QUEBRAR O TABU


O imbróglio da Ota, no primeiro Governo Sócrates, deixou o PS refém da esquizofrenia direitista do novo aeroporto de Lisboa. Alcochete, que era uma boa solução, a meu ver melhor do que a Ota, ficou pelo caminho por causa da crise da dívida.

Mas não podemos estar eternamente amarrados ao tabu.

Inaugurado em 1940, o aeroporto da Portela não dá resposta adequada a 30 milhões de passageiros e 214 mil movimentos por ano (números de 2018). Desde 1961 que os sucessivos governos, do Estado Novo e da II República, estudam uma alternativa à Portela. Repito: desde 1961.

Regressei ontem a Lisboa depois de cinco dias em Madrid. A partida de Barajas fez-se com 70 minutos (01:10) de atraso. Até aqui, problema da TAP. Mas nada justifica que o avião, por congestionamento de tráfego aéreo na aproximação a Lisboa, tendo tido que dar voltas sobre a península de Setúbal durante 20 minutos. Aqui o problema já é do aeroporto.

E ao atraso temos de acrescentar as inenarráveis condições do desembarque, com mais de 150 passageiros compactados numa carrinha que levou 10 minutos a percorrer (a uma velocidade inqualificável, perigosa para os passageiros que viajavam de pé) o trajecto, cheio de curvas, entre Figo Maduro e o local onde nos despejaram.

Não havia mangas disponíveis? Errado. Havia várias. Para agravar a situação, o aeroporto não dispõe de passadeiras rolantes, obrigando quem chega a percorrer a pé, cerca de meia hora, fazendo gincana entre os utentes das lojas e manjedouras.

Venha o Montijo, e depressa.

Imagem: maquete do futuro (2021 ou 22) aeroporto do Montijo. Clique.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

TONI MORRISON 1931-2019


Morreu ontem à noite no Montefiore Medical Center, de Nova Iorque, a escritora norte-americana Toni Morrison, Nobel da Literatura em 1993. A notícia só foi divulgada hoje à tarde. Tinha 88 anos.

Master of Arts pela Cornell University, e professora de inglês em Princeton, Morrison publicou doze romances, três colectâneas de contos, nove volumes de ensaio, uma compilação de crónicas, cinco livros para a infância e o libreto de uma ópera.

Além do Nobel e de dezenas de outras distinções, recebeu o prémio do National Book Critics Circle (1977), o Pulitzer de Ficção (1988) e a Medalha Presidencial da Liberdade (2012) atribuída por Obama. Foi doutorada honoris causa por várias universidades.

Beloved (1987), que em Portugal mantém o título original, é o seu livro mais famoso.

Activista política desde sempre, pela causa negra, dos direitos humanos e do feminismo, Morrison publicou em 2016, na New Yorker, um violento artigo contra a eleição de Trump, que acusou de supremacista branco.

Antes de tornar-se uma autora consagrada, foi editora na Random House entre 1965 e 1983. Foi casada com um arquitecto de quem teve dois filhos.

Está na altura da RTP2 transmitir o filme Imagine. Toni Morrison Remembers (2015), da BBC.

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TAMBÉM?


Leitão Amaro, deputado, vice-presidente do PSD e antigo secretário de Estado da Administração Local, tem-se destacado pelo fundamentalismo moral. Mas a empresa da família (a Arbogest, uma empresa de recolha, transporte e comercialização de resíduos florestais), continuou a fazer contratos com o Estado: autarquias do PSD, Governo Regional da Madeira, etc. Por junto, o portal do Governo regista dezoito contratos com um valor total de 5,8 milhões de euros. «Todos estes contratos teriam ditado, pela lei, a perda do mandato como governante», sublinha o Observador.

Além dos contratos com o Estado, outro de mais de um milhão de euros com a REN, empresa totalmente privatizada em 2014.

Leitão Amaro não é melhor nem pior do que dezenas de outros titulares de cargos políticos de todos os quadrantes ideológicos. Escusava era de chatear a malta com o puritanismo dos iluminados.

Agora é fácil dizer... Lei é lei. Se é assim, é assim, porque ficou fora das listas das próximas eleições.

Clique na imagem do Observador.

domingo, 4 de agosto de 2019

NONSENSE


A pretexto da sua saída da Câmara de Lisboa, o arquitecto Manuel Salgado deu uma entrevista de oito páginas ao Expresso. A partir do link de outro jornal, centrado numa única afirmação, as redes sociais entraram em polvorosa.

O argumento de Salgado deixou-me estupefacto. Não faz sentido argumentar com a volumetria do novo Hospital da CUF.

O edifício Pedro Álvares Cabral, de João Simões Antunes, que abriga hoje a Fundação Oriente, bem como a correnteza dos antigos armazéns frigoríficos do bacalhau (obras de 1939), têm a mesma volumetria. Se há parede contra o rio, ela existe há 80 anos. O novo hospital é só mais um.

Foi um erro construir um hospital ali, numa zona de estrangulamento rodoviário. Já o escrevi há um ano. Mas o erro tem que ver com a natureza do uso intensivo do futuro hospital. A volumetria não belisca o local. Argumentar com a privação de “vistas” a partir do Miradouro das Necessidades é puro nonsense. No auge da polémica fui de propósito ao miradouro e pude ver tudo o que há para ver, rio incluído.

Aliás, nos terrenos que vão dos barracões do LxFactory até à Avenida da Índia, uma área de 4,3 hectares, começou (ou está para começar) a construção de onze edifícios de sete e oito pisos acima do solo, destinados a escritórios, comércio e habitação. A obra, que vai mudar a face de Alcântara, é do arquitecto Frederico Valsassina.

Em doze anos, Salgado mudou a imagem de Lisboa. A cidade degradada e suja dos anos 1990 está hoje muito melhor. Tomou decisões menos felizes? Claro que sim. Mas o saldo é largamente positivo. O arrependimento pela volumetria do hospital é um acto falhado. O erro está em ter um hospital ali. O resto são frioleiras.

Clique na imagem do Expresso.

sábado, 3 de agosto de 2019

FMI


Kristalina Georgieva, a búlgara que Guterres derrotou na corrida à liderança da ONU, será a próxima directora-geral do FMI, em substituição de Christine Lagarde.

Mas antes disso vai ter de ser alterada a lei orgânica do Fundo, que inibe tomadas de posse a partir dos 65 anos, e Georgieva faz 66 no próximo dia 13.

Detalhe curioso: foi eleita com 55% dos votos, mas os estatutos obrigam a 65%. Face a um possível impasse, o FMI aceitou o resultado.

Doutorada por Harvard, actualmente directora executiva do Banco Mundial, a cujo quadro pertence desde 1993, Georgieva entrou na alta-roda da política internacional em 2007, ao assumir o cargo de directora do Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial. Foi comissária da UE para o Orçamento e Recursos Humanos entre 2014 e 2016.

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ALARMISMO


O agitprop alarmista em torno da provável greve dos motoristas de matérias perigosas (a pretexto dos salários de 2022), com início previsto para o próximo dia 12, é uma manobra infame.

É uma mentira grosseira dizer que há postos sem combustíveis. Num posto onde estive, o responsável explicou: «Assim que o nosso depósito chega a 30%, pedimos imediatamente reforço. Se fizermos o pedido até às quatro da tarde, o reforço é feito no próprio dia

Portanto não vale a pena inventar histórias de famílias munidas de jerrycans (como disse uma mulher na televisão) e de postos a zero.

Clique na imagem da RTP.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

MIRÓBRIGA


Visitei ontem pela primeira vez as ruínas da cidade romana de Miróbriga (século II a.C), na periferia de Santiago do Cacém.

O interior do museu, inaugurado em 2000, continua em bom estado de manutenção. Mas a antiga cidade romana, espalhada por mais de dois quilómetros quadrados, é pouco mais que um matagal. Sirva de exemplo o que resta da fachada do Templo de Vénus, na imagem ao alto. É uma pena.

Já sabemos que o Estado não tem dinheiro, mas a autarquia devia esforçar-se por arranjar apoios privados. Com ingressos a três euros (séniores e estudantes pagam metade), nem verba há para limpar (repito: limpar) a grelha de ripas da fachada do edifício do museu. Lamentável.

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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

BOA NOTÍCIA


Centeno autoexcluiu-se da votação, a realizar amanhã, para o cargo de director-geral do FMI.

Os nomes dos seus (e das suas) putativos substitutos à frente do ministério das Finanças não eram tranquilizadores. E o PS não deve partir para eleições sem um activo da sua envergadura.

Na imagem, tuíte em que o ministro explica a decisão. Clique para ler melhor.

LIMA & COHEN


Hoje na Sábado escrevo sobre o volume de Obra Reunida de Manuel de Lima (1915-1976), o escritor, musicólogo, crítico e artista plástico a quem chamavam o careca evidente. Hoje quase ninguém se lembra dele. Depois de se formar no Conservatório de Lisboa, Manuel de Lima foi violinista de salão em navios da marinha mercante das carreiras de África e do Brasil. A carreira literária é posterior. Mas o exílio na Venezuela contribuiu para o descaso. Os contos que escreveu foram agora coligidos em Obra Reunida, volume de apuro irrepreensível, como são por regra os que saem das mãos de Vladimiro Nunes. Surrealista mal amado pela crítica, Lima deixou obra escassa. Estreado em 1944 com o conto Um Homem de Barbas, prefaciado por Almada Negreiros (a reedição de 1973 acrescentou novos contos), publicaria mais tarde Malaquias ou a História de Um Homem Barbaramente Agredido (1953), A Pata do Pássaro Desenhou uma Nova Paisagem (1972) e a novela O Clube dos Antropófagos (1973), que começara por ser, em 1965, uma peça de teatro. Não confundir com a peça escrita em co-autoria com Natália Correia — Sucubina ou a Teoria do Chapéu, 1952 —, omissa do presente volume. A vida errática terá contribuído para o afastar dos círculos dominantes. Depois de anos de ligação amorosa, zangou-se com Natália Correia. Almada Negreiros também se afastou depois do patrocínio inicial. O grupo do Café Gelo desfez-se. Com Cesariny e Luiz Pacheco manteve sempre uma relação bipolar. Os panfletos incomodaram muita gente. João Gaspar Simões e Óscar Lopes, gurus da crítica, não gostavam dos seus livros. Absurdizante, diziam. Era demasiado humor negro e nonsense para os hábitos indígenas. Por fim, a partida para a Venezuela “apagou-o” da vida literária portuguesa. Além dos quatro livros, o volume inclui uma extensa e muito esclarecedora introdução de Vladimiro Nunes (com Luiz Pacreco, editor e amigo de Lima, no papel de deep throat…), retratos, desenhos, correspondência, fac-símiles de manuscritos, da certidão de nascimento e do assento de óbito, bem como reproduções de pinturas suas que fazem parte do espólio do Museu Carlos Machado, de Ponta Delgada. Este belo volume resgata do esquecimento a obra e a vida deste surrealista esquecido. Quatro estrelas. Publicou a Ponto de Fuga.

Escrevo ainda sobre Chama, o livro póstumo de Leonard Cohen (1934-2016). Muita gente nunca terá tido a noção exacta, mas este canadiano de origem judaica não foi só um cantor extraordinário. É também um grande poeta do amor e do desespero. Além de dois romances, publicou quinze colectâneas de poemas. «Escrever era a sua razão de ser», lembra o filho, Adam, que editou o livro e assina o prefácio. Chama é um testamento: o volume colige poemas, desenhos, autoretratos corrosivos, canções, versos dispersos, entradas de diário, fac-símiles e o discurso de aceitação do Prémio Príncipe das Astúrias, que recebeu em 2011. Existe índice de poemas e letras. À laia de apêndice, os versos originais estão agrupados a partir da página 301. Poeta, escreveu versos que ficaram gravados na nossa memória: «Tive de enlouquecer para te amar / Tive de descer até ao abismo […] Tive de ser pessoas que odiava / Tive mesmo de não ser ninguém». Sim, a voz, inconfundível, faz falta. Mas só faz falta porque não nos esquecemos. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

PADEIRO VS MANICURE

Noto que a defesa de género, da sua dignidade, não entrou no folhetim das golas. E devia. Porque mete um alegado padeiro.

Explico: se em vez de um padeiro fosse uma manicure, as manchetes e o comentariado universal fariam pontaria a ligações de natureza passional. Como é que a gaja lá chegou...? É fácil adivinhar os adjectivos se fosse uma mulher a saltar das profissões proletárias para um gabinete ministerial...

Mas como é homem, a possibilidade não se lhes colocou.

Isto não tem importância nenhuma. Prova apenas o óbvio.

MULTIDADOS


Esta sondagem da Multidados divulgada ontem à noite pela TVI coloca o PAN à frente da CDU.

Já não me admiro com nada. Por norma, em Portugal vota-se contra, raramente a favor. Um bom exemplo: dois terços dos meus amigos e conhecidos de Direita vota no BE, não porque concorde com a ideologia bloquista, mas para, dizem eles, impedir a vitória do PS. Começaram a fazer isso em 1975 com o PCP e o MDP-CDE. E nos últimos dez anos fazem com o BE. 

Em todo o caso, uma maioria de Esquerda de 55,8%. E o PS com mais 15,2% que o PSD.

A confirmarem-se as sucessivas sondagens, o CDS passa a partido tuk-tuk.

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domingo, 28 de julho de 2019

MANTRA

Por que carga de água toda a gente começou de súbito a especular nos media sobre a  muito previsível maioria absoluta do PS?

Os estudos de opinião mais favoráveis oscilam entre 38 e 40%. Ora, pelo método de Hondt, a maioria absoluta obtém-se algures entre 44 e 45% (conforme a distribuição dos votos). Salvo se — a ressalva é decisiva — o primeiro partido obtiver o dobro do segundo. Seria preciso o PSD não passar de 21 ou 22%.

Eu sou a favor de maiorias absolutas (o Tribunal Constitucional existe para lhes pôr travão, como aconteceu nos ominosos anos passistas), o PS merecia, mas não me parece que isso vá acontecer.

sábado, 27 de julho de 2019

À FARTAZANA

As conclusões da sindicância feita pelo Ministério da Saúde à Ordem dos Enfermeiros é um susto, parecendo haver razões para dissolver a sua direcção. O ministério entregou um relatório à Polícia Judiciária, estando a ultimar o documento final que será entregue ao Ministério Público.

A bastonária, Ana Rita Cavaco, terá tido parte activa nas greves — a Lei não permite — que paralisaram os blocos operatórios em todo o país, mas isso são amendoins.

Segundo o Observador, a sindicância da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde terá encontrado «os documentos que provam a apropriação ilegal de quantias durante a investigação sobre a participação da bastonária Ana Rita Cavaco na greve dos enfermeiros e configuram os gastos como violação de normas e regras inerentes à realização da despesa

As despesas sem justificação ultrapassam a imaginação mais delirante. Entre outros dados, o relatório da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde, ontem divulgado pela SIC no Jornal da Noite, refere «seis mil euros em restaurantes, mais de três mil euros em levantamentos, cerca de cinco mil em compras no estrangeiro, cerca de oito mil em Via Verde, setenta mil euros em cartão de crédito, deslocações em viatura própria com despesa média de 2.600 euros mensais... [...]» Mas também gastos exorbitantes com vestuário e cabeleireiros.

A classe dos enfermeiros revê-se nisto?

quinta-feira, 25 de julho de 2019

NOVAS ELEIÇÕES?


Pedro Sánchez voltou a falhar a investidura como Presidente do Governo de Espanha. Esgotadas as duas votações (a do passado dia 22 e a de hoje), começa a contar o prazo de sessenta dias para a terceira e última votação. Se voltar a falhar a 23 de Setembro, o rei dissolve as Cortes e marca novas eleições para 10 de Novembro.

A teimosia do PODEMOS em querer entrar no Governo tem ditado o seu comportamento. Mas Sánchez não cede e já toda a gente percebeu que o PSOE prefere novas eleições.

A partir daqui tudo é possível. O senhor Iglesias tem que ter a noção das proporções.

Clique na imagem de Sánchez.

POLLOCK & ANA CRISTINA SILVA


Hoje na Sábado escrevo sobre Banquete no Paraíso, do americano Donald Ray Pollock (n. 1954), um autor que não tem pressa. Publicou o primeiro livro, uma colectânea de contos, aos 54 anos, e o mais recente, este Banquete..., em 2016. Antes de voltar a estudar e dedicar-se à escrita foi camionista. Para já, a bibliografia reduz-se a três títulos, mas a recepção crítica tem sido boa e revistas de prestígio pedem-lhe textos. Também foi traduzido e premiado em França. O carácter sombrio dos três livros que escreveu não constitui óbice. Antes pelo contrário. Sem surpresa, os círculos literários mais sofisticados continuam a olhar para ele como um intruso. Ele paga-lhes na mesma moeda, causticando os árbitros do gosto e caricaturando o establishment. O livro é um western. Isso vale para o imaginário, personagens, violência, lixo, sordidez, truques, vício, amoralidade, prostitutas, jogadores, banditismo e outros lugares-comuns. Estamos em 1917, algures na «fronteira que separa a Geórgia do Alabama», mas os cem anos de intervalo nada significariam se tudo decorresse na actualidade. Afinal, a história dos três irmãos Jewett podia ser hoje. O título, Banquete no Paraíso, remete para o estado de espírito dos irmãos após a morte do pai durante um acesso de diarreia. Para Cane, Cob e Chaminé, o equivalente de ‘agora tudo é possível’. Doravante seriam um bando implacável, uma lenda viva. A Primeira Guerra Mundial e, em concreto, a luta contra os alemães, funciona como metáfora da natureza humana. As actividades ilegais do Bando Jewett servem de fio condutor do plot e de pretexto para Donald Ray Pollock inserir estórias laterais (e muitas referências literárias, Shakespeare incluído) na narrativa central. Sirva de exemplo a personagem do tenente Vincent Bovard, um homossexual recalcado cuja presença parece corresponder à necessidade de introduzir um tema fracturante: «A Europa destroçada pela guerra, com os seus governantes consaguíneos e preconceitos vetustos, ia dar-lhe […] uma morte pela qual valia a pena lutar.» O autor tem uma mente fértil, mas a quota de transgressão não corresponde ao que foi escrito sobre o romance anterior, The Devil All the Time, publicado em 2011. Três estrelas. Publicou a Sextante.

Escrevo ainda sobre As Longas Noites de Caxias, o romance mais recente de Ana Cristina Silva (n. 1964). Decorridos quase 50 anos da queda da ditadura, começa a fazer-se a história da polícia política. Sirva de exemplo este livro. Se outro mérito não tivesse, faz luz sobre uma realidade pouco conhecida: o das mulheres torturadoras. O quotidiano de Caxias confronta Laura com Maria Helena, uma agente da PIDE que chegou a chefe de brigada. O mais interessante não radica no sadismo, traço de carácter sem género. O que dá singularidade à narrativa é o modo como Maria Helena “sobrevive” ao 25 de Abril: prisão, fuga para Madrid (onde Barbieri Cardoso lhe arranja emprego), regresso a Portugal, nova prisão, julgamento, pena simbólica — a democracia nunca julgou os seus verdugos — e, por fim, um cancro que não a impede de dizer: «Não, nunca me arrependi de nada. Os tempos da PIDE foram os mais felizes da minha vida.» A radiografia de Ana Cristina Silva tem a nitidez das evidências. Quatro estrelas. Publicou a Planeta.

CARNIFICINA


Uma vez empossado primeiro-ministro e primeiro lorde do Tesouro, Boris Johnson não perdeu tempo. Fez a maior remodelação ministerial de que há memória no Reino Unido, garantindo que a 31 de Outubro haverá Brexit sem ses e sem mas. Está tudo preparado: sistema bancário, serviço de saúde e stocks farmacêuticos, portos e aeroportos, distribuição alimentar, indústria, agricultura, etc. Quanto ao famigerado backstop na Irlanda do Norte, foi claro: «Esqueçam. A atribuição de culpas acaba aqui.» Temos homem!

Michael Gove é o novo vice PM. Para ministro dos Negócios Estrangeiros foi Dominic Raab. As Finanças ficam com Sajid Javid. Nos assuntos do Brexit continua Stephen Barclay. O novo chief whip (o todo poderoso líder parlamentar que tem assento no conselho de ministros) é Mark Spencer. E assim sucessivamente. São dezassete brexiteers da linha dura. A cereja em cima do bolo foi a nomeação de Dominic Cummings para primeiro-conselheiro.

Aguardar para ver. Clique na imagem.

terça-feira, 23 de julho de 2019

BORIS CHEGOU A PM


Com 92.153 votos, nada menos que 66,4% dos votantes, Boris Johnson foi eleito líder do Partido Conservador. Isso faz dele, a partir de hoje, o primeiro-ministro designado do Reino Unido.

Jeremy Hunt, o seu rival, obteve 46.656 votos. Votaram 87,5% dos 159 mil tories que podiam votar.

Boris fala esta tarde em Westminster. Amanhã, Theresa May apresenta à rainha a sua renúncia e o nome do novo PM. De seguida, Boris desloca-se a Buckingham para ser formalmente empossado.

Boris Johnson, 55 anos, natural de Nova Iorque, historiador, deputado desde 2001, formou-se na Escola Europeia de Bruxelas, em Eton e no Balliol College, de Oxford. Entre 1999 e 2005 foi editor da Spectator, a mais influente revista política inglesa. Foi Mayor de Londres durante nove anos: de 2007 a 2016. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2016 e 2018. Publicou uma dúzia de livros — de História e ensaio político —, sendo The Dream of Rome (2006) um dos mais aclamados. É pai de seis filhos e está separado da segunda mulher.

Por muito que isto custe a aceitar aos seus detractores, Boris é hoje o único intelectual à frente de um Governo.

Clique na imagem do Telegraph.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

DONE


A Pátria pode dormir descansada.

A Procuradoria de Clark County rejeitou a acusação de violação apresentada por Kathryn Mayorga contra Cristiano Ronaldo:

«Tendo em conta a informação disponível, as alegações de violação contra Cristiano Ronaldo não podem ser provadas, por não serem inequívocas. Não serão feitas mais acusações.»

Clique na imagem.

EVOLUÇÃO


A ver vamos até Outubro.
Clique no gráfico da TSF.

PITAGÓRICA


Começar bem a semana. Sondagem da PITAGÓRICA divulgada hoje pela TSF e o Jornal de Notícias.

Obtendo 43,2% o PS fica à beira da maioria absoluta. O score corresponde ao dobro do PSD, que fica em 21,6%.

PS = 43,2% / PSD = 21,6% / BE = 9,2% / CDU = 6,8% / CDS = 6% / PAN = 3,6% 

Sozinho, o PS obtém mais 15,6% que a PAF [PSD+CDS].

Maioria de Esquerda = 59,2%. Em deputados seriam mais de dois terços.

Santana Lopes não consegue ser eleito.

Clique no gráfico da TSF.