sexta-feira, 25 de março de 2022

A ÚLTIMA FRONTEIRA


Estamos todos a pagar a factura da nossa indiferença face à anexação da Crimeia pela Federação Russa em Março de 2014. Quando isso aconteceu, fazendo tábua rasa do direito internacional, a Europa e a administração Obama assobiaram para o lado. O que está em jogo na Ucrânia é o nosso futuro como civilização.

Trinta dias de confronto deram origem a seis milhões de deslocados no seu próprio país, quatro milhões de refugiados no Ocidente, meio milhão de deportados para a Rússia, milhares de civis mortos, corredores humanitários atacados à bomba, cidades destruídas, tráfico de seres humanos, crise económica planetária, etc. Kiev ainda não caiu. Só cairá se a Rússia adoptar a solução final. Se isso acontecer, a NATO intervirá. Não pode ficar de braços cruzados como ficou há oito anos.

Um dia saberemos o que levou Putin a supor que a invasão da Ucrânia seria um remake da libertação de Paris, em Agosto de 1944, quando os franceses receberam os militares americanos com flores, beijos e canções. Quem terá convencido Putin dessa ilusão?

A “operação especial militar” que visava “desnazificar” a Ucrânia foi prevista para durar umas horas, porque, julgavam os idiotas de todos os matizes, a chegada do primeiro tanque ao Donbass levaria Zelensky a fugir para o Ocidente e a população ucraniana a receber os “libertadores” em triunfo. Nada disso aconteceu. A Ucrânia resiste, a Ucrânia vai continuar a resistir, para desgosto dos “pacifistas” que apelam à capitulação de um Estado soberano.

A guerra na Europa atrapalha o querido mês de Agosto? Paciência. 

Na imagem, Tetiana Chornovol, uma militar ucraniana, carrega um míssil anti-tanque. Clique.

quinta-feira, 24 de março de 2022

CIMEIRA DA NATO


A Cimeira da NATO decidiu reforçar todas as suas fronteiras a Leste (em especial nos países bálticos, na Polónia e na Roménia), com mais quarenta mil homens, bem como meios aéreos e navais significativos, aumentando a sua prontidão para ameaças químicas, biológicas, radiológicas e nucleares.

Jens Stoltenberg, secretário-geral da NATO, foi claro: «Concordámos em fornecer à Ucrânia equipamentos e treino que os habilitem a lidar com as consequências de um possível ataque russo com armas químicas, biológicas ou mesmo nucleares

Recordar que Sergei Shoigu, ministro russo da Defesa, não é visto desde o passado dia 11.

Imagem: foto oficial da Cimeira, em Bruxelas. Clique.

ZELENSKY NA CIMEIRA DA NATO


Depois do Conselho da Europa (Estrasburgo), Londres, Otava, Berlim, Washington, Jerusalém, Roma, Tóquio, Paris e Estocolmo, Zelensky dirigiu-se aos 30 líderes da NATO — entre eles António Costa —, reunidos neste momento em Bruxelas.

A Suécia e a Finlândia participam da Cimeira como «observadores», como tem acontecido desde a invasão da Ucrânia.

Biden chegou ontem à capital belga, deslocando-se amanhã a Varsóvia.

O edifício da organização tem as bandeiras a meia-haste em homenagem a Madeleine Albright, falecida ontem.

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quarta-feira, 23 de março de 2022

A EQUIPA


Aqui temos os rostos do novo Governo. A Direita estrebucha com aquilo a que chama o défice de sociedade civil face ao aparelho do Partido.

Queriam o quê? Que António Costa fosse recrutar quadros da CIP e membros do Turf Club?

Não sei se repararam, mas deixou de haver ministros de Estado.

Se as minhas contas estão certas, seis dos dezassete ministros nem militantes do PS são, sendo os seis personalidades destacadas da sociedade civil.

Tenho pena que Alexandra Leitão e Tiago Brandão Rodrigues tenham saído, mas, tudo visto, a equipa inspira confiança técnica e política. A ver vamos quem são os/as escolhidos/as para as 38 secretarias de Estado.

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domingo, 20 de março de 2022

GASTÃO CRUZ 1941-2022


Mais um amigo que parte. Morreu hoje Gastão Cruz, poeta, crítico, ensaísta, teórico do grupo de Poesia 61, mas também encenador de teatro e tradutor de Cocteau, Strindberg, Tchekhov e outros.

Autor de uma obra parcimoniosa, balizada entre A Morte Percutiva (1961) e Existência (2017), Gastão Cruz nasceu em Faro e veio para Lisboa aos dezassete anos. Na Faculdade de Letras conheceu Fiama Hasse Pais Brandão, com quem viria a casar. Data desse tempo o seu interesse pelo teatro: integrou o Grupo de Teatro de Letras, tendo mais tarde dirigido o Grupo de Teatro Hoje/Teatro da Graça. Entre outras, adaptou ao teatro o romance Uma Abelha na Chuva de Carlos de Oliveira.

Foi professor do ensino secundário e, durante seis anos (1980-86), leitor de português no King’s College de Londres.

Tendo, durante três décadas, colaborado largamente na imprensa cultural, coligiu parte desses textos nos volumes A Poesia Portuguesa Hoje (1973) e A Vida da Poesia (2009). Coordenou colecções de poesia, organizou antologias, presidiu à Fundação Luís Miguel Nava, dirigiu a revista Relâmpago e recebeu todos os prémios que havia para receber. Em 2019 foi agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique.

Vítima de doença degenerativa, estava internado no hospital Egas Moniz, de Lisboa.

Até sempre, Gastão.

PASCOAES


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi À Minha Musa de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), poeta maior do Saudosismo português que Cesariny considerava superior a Fernando Pessoa.

Natural de Amarante, Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos passou à posteridade com o pseudónimo de Teixeira de Pascoaes. Filho de um agricultor abastado (e culto) que foi deputado às Cortes, Pascoaes formou-se em Direito e chegou a juiz na sua terra natal.

Estreou-se em livro em 1895, com a colectânea poética Embriões. Mais tarde, dirigiu durante quatro anos A Águia, revista de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social, órgão teórico do movimento da Renascença Portuguesa.

Eremita, místico, espírito filosófico, foi eleito membro da Academia de Ciências de Lisboa em 1923. Além de poesia, publicou ensaios, uma autobiografia [Livro de Memórias, 1928], duas novelas, mas também biografias romanceadas de São Paulo, São Jerónimo, Santo Agostinho, Camilo Castelo Branco e Napoleão.

Pascoaes não gostava de Pessoa e considerava António Nobre a nossa maior poetisa.

O poema desta semana pertence a Senhora da Noite (1909). A imagem foi obtida a partir de Poesia de Teixeira de Pascoaes, antologia organizada por Mário Cesariny, editada por António Cândido Franco e publicada pela Assírio & Alvim em 2002.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neill, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Miguel Torga, Ângelo de Lima, Pedro Tamen, António Ramos Rosa, José Régio, Antero de Quental e Pedro Homem de Mello.]

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sexta-feira, 18 de março de 2022

PORQUÊ?

O grande dilema dos historiadores que, no futuro, tentarem perceber a invasão da Ucrânia de 2022 radica no móbil que terá levado Putin a ordenar uma guerra em moldes que, sendo plausíveis há 80 anos ou mais anos, não fazem hoje sentido.

Admitindo que alguém o tenha convencido de que Zelensky fugia para o Ocidente assim que os tanques entrassem no Donbass, mesmo nessa hipótese absurda, havia que contar com a resistência de um povo determinado. Se Zelensky fosse abatido, ou fugisse (como em 2014 fugiu Víktor Yanukóvytch), outro ucraniano anti-Moscovo ocuparia o seu lugar. O mito dos russófilos que receberiam as tropas russas de cravos na mão foi engendrado por quem?

Tentar ocupar a Ucrânia, um país maior do que a França, com 150 mil homens (desconhecedores do terreno) e divisões panzer, ultrapassa toda a lógica. Claro que, como tem estado a ser feito, o país pode ser arrasado de Leste a Oeste e de Norte a Sul. Mas de que servirá uma tão vasta extensão de terra queimada?

Sim, há que contar com os mísseis. E não podemos descartar a hipótese de que, para vergonha de todos nós, Kiev venha a ser a nova Hiroshima. 

«Vou cumprir até ao fim todos os meus objectivos, e sei como fazê-lo», reiterou ontem Putin, no Estádio Luzhniki, de Moscovo, durante o comício em que celebrou a anexação da Crimeia.

segunda-feira, 14 de março de 2022

JORGE SILVA MELO 1948-2022


Vítima de doença prolongada, morreu esta noite Jorge Silva Melo, actor, encenador, dramaturgo, editor dos Livrinhos de Teatro, realizador de cinema, guionista, tradutor, cronista, memorialista, crítico, professor na Escola Superior de Teatro e Cinema e director da companhia de teatro Artistas Unidos.

Natural de Lisboa, Silva Melo passou a infância e o início da adolescência em Angola, onde seus pais estavam radicados. Frequentou a Faculdade Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1969, a London Film School. Fez teatro em Berlim, Paris e Milão. 

Antes de partir para Inglaterra foi um dos fundadores do Grupo de Teatro de Letras. Mais tarde (1973) fundou com Luís Miguel Cintra o Teatro da Cornucópia, onde permaneceu até 1979. Como bolseiro da Gulbenkian estagiou em Berlim com Peter Stein, em Paris com Jean Jourdheuil e em Milão com Giorgio Strehler. Em 1995 fundou os Artistas Unidos (verdadeira escola de teatro), exigente companhia que dirigiu até morrer.

Como realizador de cinema integrou a cooperativa Grupo Zero (1975-79), tendo realizado mais de uma dúzia de filmes, entre eles o mítico António, Um Rapaz de Lisboa (2000). Como actor de cinema trabalhou com Manoel de Oliveira, Paulo Rocha, João César Monteiro, Alberto Seixas Santos, Joaquim Pinto, Manuel Mozos, José Álvaro Morais, João Botelho e outros. Da sua filmografia constam filmes sobre diversos artistas plásticos: António Palolo, Nikias Skapinakis, Álvaro Lapa, Sofia Areal, Joaquim Bravo, Ângelo de Sousa e Fernando Lemos.

Deixa-nos dois excepcionais livros de memórias: O Século Passado (2007) e A Mesa Está Posta (2019). Da restante bibliografia consta o libreto de Le Château dês Carpathes de Philippe Hersant. Entre outras, traduziu obras de Pasolini, Goldoni, Pirandello, Brecht, Oscar Wilde, Harold Pinter, H.P. Lovecraft, Georg Büchner, Heiner Müller e Ramón Gómez de la Serna.

Em Maio de 2021 foi doutorado honoris causa pela Universidade de Lisboa.

Muito mais haveria a dizer, mas a morte de um amigo deixa-nos sempre interditos. Até sempre, Jorge.

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domingo, 13 de março de 2022

WILLIAM HURT 1950-2022


Vítima de cancro na próstata, morreu este domingo, na sua casa de Portland, no Oregon, o actor William Hurt. Faria 72 anos no próximo dia 20.

Um dos melhores actores da sua geração, notabilizou-se com Noites Escaldantes (1981), recebendo, quatro anos depois, o Óscar de Melhor Actor Principal pela sua interpretação no filme de Hector Babenco O Beijo da Mulher Aranha, de 1985.

Outros êxitos planetários foram Os Amigos de Alex (1983), Filhos de Um Deus Menor (1986), Edição Especial (1987), O Turista Acidental (1988), Uma História de Violência (2005) e O Bom Pastor (2006).

Além de filmes, fez muito teatro em Nova Iorque. No cinema, mesmo quando fazia papéis secundários, e fez vários ao longo dos mais de 40 anos de uma carreira extremamente exigente, a sua presença era decisiva.

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PEDRO HOMEM DE MELLO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Fria Claridade de Pedro Homem de Mello (1904-1984), o poeta que escreveu poemas imortalizados por Amália, entre eles o famoso Povo Que Lavas No Rio.

Natural do Porto, nascido no seio de uma família de aristocratas, Homem de Mello passou grande parte da sua vida em Afife.

Foi professor do ensino secundário, subdelegado do Procurador da República e estudioso do folclore nacional. Além de poesia, escreveu ensaios sobre tradições portuguesas e diversas obras para o ensino. Estreou-se em livro com Caravela ao Mar (1934) e recebeu todos os prémios que havia para receber antes de 1974. Colaborou assiduamente na imprensa e na televisão. O Rapaz da Camisola Verde continua sendo um grandes poemas da poesia portuguesa.

Conotado com o Estado Novo, passou a última década de vida sem que a crítica lhe desse atenção. Contudo, David Mourão-Ferreira, Natália Correia e Vasco Graça Moura, para citar apenas três grandes nomes, nunca lhe regatearam elogios.

O poema desta semana pertence a Eu, Poeta e Tu, Cidade (2007), obra publicada pelas Quasi Edições a partir da qual a imagem foi obtida.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neill, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Miguel Torga, Ângelo de Lima, Pedro Tamen, António Ramos Rosa, José Régio e Antero de Quental.]

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NOVO PATAMAR


Esta madrugada, quando eram 03:45 em Portugal, a base militar ucraniana de Yavoriv, formalmente designada como Centro Internacional de Manutenção da Paz e Segurança, foi vítima de uma blitz de mísseis russos. A base situa-se a 25 quilómetros da fronteira com a Polónia.

Dito de outro modo, a guerra está a 25km da fronteira da NATO. Até ao momento estão identificados 35 mortos e cerca de 150 feridos. As vítimas são de nacionalidade ucraniana, polaca, norte-americana, britânica, alemã, francesa e australiana. Especula-se que no local também estivessem quatro consultores portugueses.

Consta nos círculos russófilos que o CIMPS estaria a servir de base logística para treino e equipamento dos voluntários estrangeiros que estão a chegar à Ucrânia para lutar ao lado do exército ucraniano.

O eco do bombardeamento ouviu-se em Lviv, onde estilhaçaram os vidros de alguns edifícios. Recordar que foi para Lviv, cidade situada a 80 quilómetros da fronteira polaca, que se transferiram todas as representações diplomáticas estrangeiras, cujo staff foi reduzido ao mínimo.

O ataque representa uma sinistra mudança de paradigma na condução da guerra.

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sábado, 12 de março de 2022

VIOLINOS PELA PAZ


Em apoio do povo da Ucrânia está disponível no YouTube um vídeo realizado pela violinista britânica Kerenza Peacock que junta 94 violinistas de 29 países. 

Colaboram no vídeo a London Symphony Orchestra, a Tokyo Symphony, a Oslo Philharmonic e a Orquestra de Câmara de Munique.

Participam violinistas do Reino Unido, Japão, Noruega, Alemanha, Portugal [Elisabete Gomes], Espanha, França, Bélgica, Irlanda, Países Baixos, Dinamarca, Suécia, Israel, Polónia, República Checa, Moldávia, Geórgia, Índia, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Colômbia, África do Sul, Estados Unidos, Canadá, Ucrânia e outros.

Os ucranianos actuaram a partir dos bunkers onde se encontram refugiados.

O vídeo é patrocinado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

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segunda-feira, 7 de março de 2022

CULTURA VS GUERRA


O que penso acerca da eficácia ou ineficácia da Cultura como sanção. Acabado de pôr em linha pela Página Um.

Transcrevo na íntegra

Cultura highbrow como arma de guerra?

Perguntam-me se Putin pode ser derrotado pelo ostracismo da cultura russa. Admitindo que a cultura russa estivesse a ser ostracizada pelos adversários de Putin (e não me parece que esteja), o tema não afecta o quotidiano da larga maioria do povo russo, elites de Moscovo e São Petersburgo incluídas.

As quebras de contrato que atingiram a soprano Anna Netrebko e o maestro Valery Gergiev, a primeira afastada da Metropolitan Opera de Nova Iorque, o segundo da Filarmónica de Munique, são desaires que afectam a carreira de ambos, artistas de reputação planetária. Mas nenhum deles detém o monopólio da cultura russa.

Dir-me-ão que não são casos isolados. Pois não: atletas russos foram impedidos de participar nas Paralimpíadas de Pequim, universidades de prestígio cancelam cursos de literatura russa, cineastas russos são afastados de festivais de cinema para os quais haviam sido convidados, e até a Federação Felina Internacional proibiu gatos russos de participarem nas competições agendadas para este ano.

Todos os dias surge uma nova forma de boicote. É deprimente, mas não será por aí que Putin verga. O grande mistério radica na razão que terá levado Putin a desencadear uma guerra que terá consequências no quotidiano da população da Rússia, hoje completamente ocidentalizada, dependente do vasto arsenal de bens de consumo que moldam o dia-a-dia da geração pós-Perestroika.

Aparentemente, terá julgado que a ocupação da Ucrânia durava umas horas, graças a hordas de ucranianos russófilos desejosos de afastar Zelensky. Nada disso aconteceu. No trágico ínterim em que todos estamos mergulhados, o povo russo descobre, estupefacto, estar a um passo de regredir cinquenta anos.

A classe trabalhadora russa não quer saber da visibilidade internacional da sua cultura highbrow. Quer saber se vai poder continuar a manter o padrão de vida dos povos das nações industrializadas, a começar pelos seus vizinhos da Finlândia.

domingo, 6 de março de 2022

ANTERO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Justitia Mater de Antero de Quental (1842-1891), o ideólogo da Geração de 70.

Natural de Ponta Delgada, nos Açores, Antero nasceu no seio de uma família da velha aristocracia micaelense. Em 1858 foi estudar Direito para Coimbra, tornando-se, com a primeira edição de Odes Modernas, o arauto da Questão Coimbrã. 

Herdeiro de uma fortuna, viajou por França e pelos Estados Unidos, envolvendo-se na política do seu tempo: fundou associações operárias, publicou panfletos revolucionários, dirigiu jornais republicanos e organizou, em Lisboa, as Conferências do Casino (1871). Ficou célebre a que proferiu sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. O cancelamento compulsivo das conferências afasta-o da vida pública.

Vive uns tempos em Paris, radicando-se de seguida em Vila do Conde.

Como reacção contra o Ultimato Britânico de 1890, aceitou presidir à Liga Patriótica do Norte.

Antes de regressar aos Açores viveu uma temporada em Lisboa. Deprimido (sofria de distúrbio bipolar), suicida-se com dois tiros de pistola num banco de jardim de Ponta Delgada. Tinha 49 anos.

O poema desta semana pertence a Odes Modernas (1875). A imagem foi obtida a partir de Poesia I, edição crítica de Luiz Fagundes Duarte para a colecção de Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, publicada em 2016 pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neill, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Miguel Torga, Ângelo de Lima, Pedro Tamen, António Ramos Rosa e José Régio.]

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sexta-feira, 4 de março de 2022

CARA A CARA


Em vez de ouvirmos Emmanuel Macron a reportar conversas telefónicas com Putin, estratagema porventura útil à campanha presidencial francesa, quem já devia ter ido a Moscovo era o secretário-geral da ONU.

Exactamente, António Guterres. Fosse qual fosse o resultado da conversa, o testemunho do secretário-geral da ONU — que tem a obrigação de zelar pela paz — seria ouvido em todo o mundo.

Com o mundo à beira do precipício ou, na melhor das hipóteses, com uma catástrofe de proporções inimagináveis no centro da Europa, o protocolo das sessões do Conselho de Segurança (onde a Rússia detém o poder de veto) obedece a uma coreografia viciada.

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quarta-feira, 2 de março de 2022

ATÉ QUE ENFIM


A SPA sente-se «Revoltada com a grave situação militar e política vivida nestes dias pelo povo ucraniano, invadido pelas forças armadas russas...» 

Honra à Sociedade Portuguesa de Autores, primeira instituição cultural portuguesa a manifestar-se contra a invasão da Ucrânia.

Como seu representado, teria preferido uma tomada de posição entre os dias 25 e 26 de Fevereiro, mas antes tarde que nunca.

Imagem: primeiro parágrafo do comunicado da SPA. Clique.

E VÃO SETE DIAS


Prevista para durar menos de 24 horas, a invasão russa vai no sétimo dia sem que o Governo de Zelensky tenha caído.

O intelligence russo já não é o que era? Quem convenceu Putin de que a operação ficaria resolvida em poucas horas?

Como é que alguém pôde pensar subjugar, de um dia para o outro, um país com mais de quarenta milhões de habitantes (sendo russos 17%), Governo eleito, forte tradição de resistência e apoio de todo o Ocidente?

O que pretende Moscovo fazer de um território maior do que a França depois de destruir todas as suas infraestruturas?

Por exemplo, a cidade de Kharkiv, a segunda maior do país, sob destruição metódica desde o início do conflito, é um importante centro cultural e científico, com treze universidades classificadas entre as melhores da Europa, indústria electrónica de ponta, etc. Comparada com Kharkiv, Lisboa é uma cidade de província.  

O que acontecerá se uma das centrais nucleares ucranianas — nem precisa de ser a de Zaporizhzhia, a maior da Europa — for alvo (intencional ou por dano colateral imprevisto) de um acidente idêntico ao de Chernobyl?

Imagem: fragmento do míssil que atingiu o SBU de Kharkiv, hoje. Clique.

terça-feira, 1 de março de 2022

A VER SE A GENTE SE ENTENDE

Durante a Guerra Colonial (1961-1974), uma larga maioria de portugueses solidarizou-se, sob diversas formas, com os povos das Colónias que lutavam pela independência.

Não quero acreditar que, salvo por parte dos sociopatas do costume, essa solidariedade traduzisse ódio pelos portugueses nascidos e/ou radicados nas Colónias.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia coloca a mesma questão: a nossa solidariedade com o povo ucraniano em nada diminui igual solidariedade com o povo russo.

É dever dos intelectuais não assobiar para o lado.

SEQUELAS NO MILIEU ARTISTE

UPDATE DO SEXTO DIA DA INVASÃO DA UCRÃNIA

— Kirill Savchenkov e Alexandra Sukhareva, os artistas plásticos escolhidos para representar a Rússia na Bienal de Veneza 2022, desistiram de participar, alegando: Não há lugar para arte quando civis são mortos sob o fogo de mísseis, quando cidadãos da Ucrânia vivem escondidos em abrigos, quando manifestantes russos anti-guerra estão ser amordaçados e presos.

Raimundas Malasauskas, curador do pavilhão russo, também se retirou, subscrevendo a posição de Savchenkov e Sukhareva.

— A Filarmónica de Munique demitiu Valery Gergiev do cargo de maestro-chefe. Amigo pessoal de Putin, Gergiev também viu cancelada a sua presença no Scala de Milão, no Carnegie Hall de Nova Iorque e no Festival de Edimburgo.

— A soprano russa Anna Netrebko, que deveria actuar no MET (Nova Iorque) em Abril, já não o poderá fazer. A senhora escreveu no Instagram o seguinte: «Forçar artistas, ou qualquer figura pública, a expressar as suas opiniões políticas em público, denunciando a sua pátria, é errado.» Peter Gelb, responsável máximo do MET, não se comoveu. A Turandot terá outra solista.

— A Royal Opera House de Londres cancelou a temporada de Verão do Bolshoi Ballet.

— O Festival de Música da Primavera, que se realiza todos os anos em Lucerna (Suíça), este ano dedicado a Mendelssohn e com início marcado para o próximo 8 de Abril, cancelou a presença de todos os artistas russos.

— A Grécia vai suspender a colaboração com todas as organizações culturais russas.

— A Rússia foi expulsa da Eurovisão.

— A Warner Bros, a Disney e a Netflix cancelaram a distribuição de filmes (e as emissões por cabo) na Rússia.

Imagem: o pavilhão da Rússia no Giardini della Biennale, em Veneza.

PEN INTERNACIONAL



Claro que os intelectuais têm de tomar posição. Assinada por mais de mil escritores de todo o mundo (entre eles Joyce Carol Oates, Salman Rushdie, Margaret Atwood, Orhan Pamuk, Svetlana Alexievich, Jonathan Franzen, Lyudmila Ulitskaya, Colm Tóibín, Olga Tokarczuk e Paul Auster), a carta do PEN internacional é clara: solidariedade com o povo da Ucrânia (em especial com os artistas, escritores e jornalistas), condenação da invasão russa e apelo para o fim imediato das hostilidades.

Aos meus pares que não saibam como o fazer, o contacto é este: Aurelia.dondo@pen-international.org

Imagem: excerto das assinaturas, por ordem alfabética (apelido). Clique.