quinta-feira, 29 de agosto de 2019

LEVY & SÖNMEZ


Hoje na Sábado escrevo sobre O Custo de Vida, a segunda parte da autobiografia de Deborah Levy (n. 1959), escritora britânica nascida na África do Sul, país que abandonou aos 9 anos de idade, na companhia dos pais, activistas dos direitos humanos e membros do ANC empenhados na luta anti-Apartheid. Deborah vive na Inglaterra desde então. Sobre O Custo de Vida pode dizer-se que é uma autobiografia feminista, um manifesto cru da dificuldade de ser mulher num mundo dominado por homens: maior intolerância, mais competição e toda a sorte de preconceitos. Nos interstícios da prosa, ecos de Simone de Beauvoir. A primeira parte desta autobiografia está disponível no nosso país com o título Coisas Que não Quero Saber, editado também pela Relógio d'Água. Por volta dos 50 anos, Deborah divorcia-se e vai viver com as duas filhas para um bairro “proletário” do norte de Londres. O Custo de Vida é o relato, por vezes elíptico, dessa mudança: «Nesse mês de Novembro, mudei-me com as minhas filhas para um apartamento que ficava num sexto andar de um grande prédio de aspecto desmazelado [adequado] a esses tempos de desintegração e de rutura.» Sucedem-se as faltas de água e electricidade, Deborah não tem espaço para escrever, os livros continuam nas caixas, os corredores estão revestidos por plástico cinzento usado nas obras. Muito difusas, memórias da casa de família na África do Sul. A situação melhora quando a viúva de Adrian Mitchell (o poeta e dramaturgo falecido em 2008), sua vizinha, lhe aluga o anexo do fundo do jardim onde o marido escrevia: «Toda a gente merece ter um anjo da guarda como Celia.» Numa linguagem despojada, Deborah fala de Freud, de incomunicabilidade, do ofício de escrever (citando Elena Ferrante, James Baldwin, Doris Lessing, etc.), de episódios caricatos como o da galinha atropelada, de uma viagem a Paris efectuada no Eurostar, da doença e morte da mãe, do seu romance Nadar para Casa, da cultura colonial branca na África do Sul, dos atritos do ciclismo urbano, de livros e filmes de Marguerite Duras, bem como de outros temas e incidentes pessoais. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

Escrevo ainda sobre Istambul, Istambul, de Burhan Sönmez (n. 1965), escritor turco actualmente radicado no Reino Unido, país onde escreveu e publicou este romance. O regime turco tem afastado do país muitos intelectuais desafectos de Erdoğan. Um deles é Sönmez. O romance é anterior ao putsch militar de 2016. Porém, os seus dez capítulos antecipam as sequelas do golpe falhado. Cada capítulo corresponde a um dia. Os narradores são quatro presos políticos, enclausurados numa cela subterrânea, escura e minúscula: um médico, um estudante, um barbeiro e um velho revolucionário que «falava no tom dos poetas delirantes». Ao longo de dez dias, nos intervalos dos interrogatórios e das sessões de tortura, contando histórias uns aos outros, narram memórias da cidade. Até que, de acordo com as respectivas idiossincrasias, cada um deles passa a discutir os efeitos da repressão: «Na cela, a vida repetia-se. À medida que a escuridão girava lentamente por cima de nós, as nossas palavras descreviam a mesma pessoa…» Podia ser um thriller. Mas é o retrato de uma ditadura. Três estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

DONE


No conselho privado de Balmoral, Sua Majestade aprovou a suspensão de Westminster até 14 de Outubro, conforme solicitação do primeiro-ministro.

A suspensão do Parlamento determina a queda imediata de toda a legislação pendente.

Clique na imagem.

WESTMINSTER SUSPENSO


Boris Johnson vai hoje de manhã a Balmoral pedir à rainha a suspensão do Parlamento até 14 de Outubro, data em que a soberana fará o habitual discurso de abertura do ano parlamentar.

A suspensão do Parlamento é um privilégio real, mas o pedido do primeiro-ministro é um pro forma, uma vez que Sua Majestade não interfere nas decisões do Governo.

Clique na imagem do Guardian.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

DANCOR 10


O DANCOR 10 (comprimidos) está esgotado há meses. Quem tem mesmo de o tomar vai a Espanha comprar.

Sucede que o DANCOR não é uma marca de rebuçado. Contendo nicorandilo, o DANCOR é um activador dos canais do potássio, ou seja, aumenta o fluxo de sangue através dos vasos do coração, melhorando o funcionamento do músculo, etc. Da bula: «É utilizado em doentes adultos que não toleram ou não podem tomar medicamentos para o coração chamados bloqueadores beta e/ou antagonistas do cálcio

Alegadamente, o DANCOR 20 estará disponível a partir de 9 de Setembro. Mas o busílis é o DANCOR 10.

Isto não se passa no Sudão. Acontece num país da UE e ainda não vi nenhum partido questionar o Infarmed sobre as razões dos laboratórios.

Clique na imagem.

AMAZÓNIA

Todos os dias as televisões repetem que Bolsonaro enviou 44 mil militares para combater os fogos da Amazónia. Mas a Amazónia tem condições logísticas para que 44 mil militares actuem no combate ao fogo? Quarenta e quatro mil militares é um pequeno exército.

Aliás, o que leio na imprensa brasileira, é que o Governo brasileiro decidiu «mobilizar militares para combater o fogo [...] mas não está claro como as Forças Armadas serão utilizadas e se o seu papel será eficaz

Convinha não confundir os verbos mobilizar e enviar.

sábado, 24 de agosto de 2019

LO QUE PASA?


Vivemos num mundo estranho. Lembram-se da crise venezuelana?

Este ano, a Venezuela monopolizou as manchetes planetárias durante quatro meses consecutivos: de Fevereiro a Maio, ninguém falava de outra coisa senão do braço-de-ferro entre Guiaidó e Maduro, de populações deslocadas por força da fome generalizada (os media internacionais mais conspícuos referiram três milhões de pessoas), de ajuda humanitária impedida de entrar no país, de carência alarmante de medicamentos, de prisões arbitrárias, dissensões nas Forças Armadas, avisos temerários de Trump, apagões durante dias seguidos, Caracas mergulhada em violência e caos, exigência de novas eleições por parte da UE, ameaças do Grupo de Lima (Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia), navios e aviões russos prontos a neutralizar uma eventual intervenção americana, etc. Era o Apocalipse na terra.

E de repente a Venezuela saiu do mapa.

Guiaidó continua no país? Em caso afirmativo, mantém o cargo de Presidente interino? A fome passou? Os refugiados voltaram? A oposição que se manifestava em modo contínuo volatilizou-se?

Tudo isto é muito estranho. Ou talvez não seja, porque a guerra civil líbia, cada vez mais violenta, também não consta dos alinhamentos noticiosos.

Clique na imagem.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

FRIOLEIRAS, CHECKS AND BALANCES


No momento em que a parte brasileira da Amazónia arde mais uma vez, naquela que é a pior onda de incêndios dos últimos sete anos (segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Bolsonaro desdobra-se em alarvidades inenarráveis. Trump não faria pior.

Pego no assunto porque me enganei nas previsões que fiz sobre o Presidente evangelista. Previ que Bolsonaro dissolvesse o Congresso Nacional, ou seja, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, nos primeiros três ou quatro meses do seu mandato (não aconteceu); previ a prisão de Dilma e Haddad (e só o segundo está em vias de); previ a repressão violenta dos media (não aconteceu); previ a interdição de temas fracturantes na programação da Globo (não aconteceu), etc. A parte em que acertei foi no regime de teocracia escolar e na concessão de luz verde ao arbítrio policial.

O mais curioso é que o “travão” sejam os militares, desde logo os que estão no Governo. Não esquecer que o vice-Presidente é o general Hamilton Mourão, opositor, dizem-me amigos bem informados, da linha autoritária.

Verdade que Bolsonaro diz muitos disparates. Mas o Brasil, para surpresa nossa, tem um sistema de checks and balances que “trava” o Planalto.

Veja-se o caso da tentativa de nomeação do filho, Eduardo Bolsonaro, para embaixador do Brasil em Washington. Vários Procuradores federais interpuseram um processo em tribunal, alegando que o deputado não tem a experiência necessária para exercer qualquer cargo diplomático. Desse modo, a formalização do acto ficou para já bloqueada. Significa isto que a Lei brasileira prevê a interferência de magistrados na esfera de actuação do Presidente (em matéria que em princípio seria de seu exclusivo alvedrio), algo impensável em Portugal e no resto da Europa.

Portanto, aguardar para ver.

VERÃO VEZES SETE


Verão vezes sete hoje na Sábado.

Ainda me lembro do tempo em que, nos inquéritos de Verão da imprensa, os happy few da cena pública afirmavam levar Adorno e Wittgenstein para reler na praia (reliam sempre). Mantendo o prazer da leitura, prefiro descer o patamar sem perda de qualidade.

Comecemos pela selecção das crónicas que Elena Ferrante (n. 1943) publicou no Guardian, compiladas na colectânea A Invenção Ocasional, ilustrada por Andrea Ucini. São 51 textos publicados ao longo de um ano, sobre arte, doença, religião, escrita feminina, populismo — designadamente o de Salvini, Le Pen, Trump, Orbán, o Movimento Cinquestelle —, tabagismo, ficções, homens e sexo, Tarkovsky versus Kubrick, talento e outros temas: «O futuro das nossas obras é ainda mais obscuro do que o nosso.» Ideal para férias. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Saltar para Pandemia, do americano Robin Cook (n. 1940), significa mudar de registo. Cook faz parte da extensa genealogia de médicos romancistas, e o livro pertence à série centrada nas figuras de Jack Stapleton, legista num hospital de Nova Iorque, e Laurie Montgomery, sua mulher. Um thriller sobre tráfico de órgãos humanos e crimes relacionados com biotecnologia genética a partir da edição de genes CRISPR/CAS9. Longe de ser exaltante, mas os fiéis são muitos. Duas estrelas. Publicou a Bertrand.

Para leitores exigentes, Tríptico da Salvação, de Mário Cláudio (n. 1941), traz de volta um autor que aposta com sageza no virtuosismo da prosa. Um tríptico alusivo à Crucificação, Deposição e Ressurreição de Cristo serve de pretexto ao plot que opõe o amanuense Hans Kunsperger a Lucas Cranach (o Velho), o pintor que privou com Lutero. Em suma, uma biografia romanceada, género em que Mário Cláudio é exímio, quer no rigor histórico, quer no apuro da linguagem. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Nos antípodas do género, Um Inverno Sete Sepulturas, do dinamarquês Christoffer Petersen. Vá-se lá saber porquê, a edição portuguesa inverteu a ordem do título. Petersen é mais um nome a juntar à cada vez maior lista de autores nórdicos de romances policiais. O cenário e a fauna da costa leste da Gronelândia não serão os mais aliciantes, mas a personagem de David Maratse, um ex-polícia presente em livros anteriores, corresponde ao padrão-tipo. Quem leu À Sombra da Montanha recorda-se de alguns episódios. Três estrelas. Publicou a Quetzal.

Os apreciadores de contos devem escolher o modernista japonês Ryūnosuke Akutagawa (1892-1927), de quem agora foi traduzida a colectânea Rashómon e Outras Histórias, que reúne alguns dos seus melhores textos de ficção. Antes de suicidar-se aos 35 anos, Akutagawa traduziu Yeats e escreveu cerca de duzentos contos. Traduzido do inglês, este volume reúne dezoito, o primeiro dos quais (e, não por acaso, titular) foi adaptado ao cinema por Akira Kurosawa, levando o realizador a ganhar o Leão de Ouro de Veneza em 1951 e, no ano seguinte, um Óscar honorário. Para todos os efeitos, Akutagawa é um clássico. Quatro estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

Voltando a romances, o australiano Peter Carey (n. 1943), há décadas radicado em Nova Iorque, aborda em Longe de Casa a questão sempre melindrosa das identidades étnicas. Tudo se passa nos anos 1950, na Austrália, tendo Irene Bobs e Willie Bachhuber como protagonistas de um vertiginoso on the road contado a duas vozes. O livro é um pretexto para retratar os complexos rácicos na Austrália do pós-guerra, e Carey faz isso muito bem, sem as “cautelas” de obras anteriores. Cinco estrelas. Publicou a Sextante.

Last but not least, com o intuito de assinalar 50 anos de obra literária, José Amaro Dionísio (n. 1947) reuniu em volume único — O Nome do Mundo — cinco livros publicados entre 1978 e 2008, aos quais juntou três núcleos autónomos, de prosa e textos poéticos, um deles inédito. Ficaram de fora as reportagens que o notabilizaram, como por exemplo uma sobre a guerra colonial em Moçambique e outra sobre a Amazónia. Todo o Alfabeto dessa Alegria (1985) continua sendo a magnum opus deste autor avesso às convenções. Quem não conhece, devia. Quatro estrelas. Publicou a Companhia das Ilhas.

Clique na imagem.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

ITÁLIA FASCISTA


Matteo Salvini, secretário-geral da Lega Nord e vice primeiro-ministro de Itália — cargo que acumula com o de ministro do Interior —, vai ganhar o braço-de-ferro com Conte, o alegado primeiro-ministro. Conte não conta. É apenas um nome respeitável para UE ver.

Salvini, um gangster fascista, ganhará as próximas eleições. Mesmo coligado com os palhaços, Renzi não tem força nem condições para voltar ao Poder.

Cada novo barco com refugiados são mais cem mil votos a favor de Salvini.

Sergio Mattarella, o Presidente, pode atrasar o calendário, mas não conseguirá impedir uma nova República de Saló.

É trágico (e vergonhoso), mas é a realidade.

domingo, 18 de agosto de 2019

ACABOU


E às 19:40 do 7.º dia, foi desconvocada a greve dos motoristas de matérias perigosas.

Clique na imagem do Público.

NÃO ESQUECER


Mário não pode ficar em Lisboa. Se não puder fazer uma digressão nacional, tem pelo menos de ir ao Porto.

As pessoas têm de saber como era, terem consciência de um tempo em que homens e mulheres eram internados à força (e, em muitos casos, lobotomizados) por serem “diferentes”. Aconteceu com o bailarino Valentim de Barros e com dezenas de outros. Podia ter sido um de nós.

Mário ficciona a vida de um artista que esteve internado durante 38 anos consecutivos. O texto de Fernando Heitor faz um tour d'horizon ao país hipócrita que foi o nosso entre os últimos anos da Primeira República e a queda do Estado Novo. É preciso saber como era. E não esquecer.

Flávio Gil, actor de excepção, dá o corpo e a voz ao monólogo perturbador que Fernando Heitor encenou com alto conseguimento.

No São Jorge até 1 de Setembro.

Clique nos dois instantâneos de Flávio Gil fotografado por Rui Olavo.

sábado, 17 de agosto de 2019

MÁRIO


Tenho tido a sorte de ver grandes actores e actrizes em cena, aqui e lá fora. Mas nunca a performance de alguém me arrasou tanto com a de Flávio Gil, em Mário.

Durante 70 minutos, sozinho no palco, Flávio Gil faz o retrato da repressão homofóbica que foi a imagem de marca de Portugal durante o Estado Novo.

A partir da biografia do bailarino Valentim de Barros (1916-1986), internado no Hospital Miguel Bombarda, de Lisboa, por decisão de um tribunal, o actor e encenador Fernando Heitor escreveu e encenou a peça que está em cena no São Jorge — Mário.

Acusado de «psicopatia homossexual e pederastia passiva», vítima de lobotomia executada por Egas Moniz, o malogrado bailarino esteve preso naquele hospital durante 38 anos consecutivos: entre 1948 e 1986. Foi a partir destes factos que Mário — a peça de Fernando Heitor a que Flávio Gil dá corpo — nasceu.

Um monólogo perturbador servido por um actor de excepção.

Clique na imagem de Flávio Gil fotografado por Fernando Heitor.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

LEI DE BASES DA SAÚDE

O Presidente da República promulgou hoje sete diplomas. O mais importante é a Lei de Bases da Saúde, que revoga a Lei n.º 48/90, de 24 de Agosto, e o Decreto-Lei n.º 185/2002, de 20 de Agosto.

Advertência: «O presente diploma não corresponde, na sua votação, ao considerado ideal, nomeadamente por dela excluir o partido com maior representação parlamentar. Mas, ao invés, preenche o critério substancial determinante da decisão presidencial: o não comprometer, em nenhum sentido, as escolhas futuras do legislador, dentro do quadro definido pela Constituição. [...]»

Também promulgou a 11.ª alteração ao Decreto-Lei n.º 113/2011, de 29 de Novembro, «que dispensa a cobrança de taxa moderadora nos cuidados de saúde primários e demais prestações de saúde...»

A VIDA COMO ELA É

Os motoristas de matérias perigosas são mal pagos? São. A remuneração que recebem (salário e horas extraordinárias) comporta truques inadmissíveis? Sim. Travestir as horas extraordinárias em ajudas de custo configura fraude fiscal? Sim. Os trabalhadores são afectados na doença e na reforma a reboque da trapaça fiscal? São.

Isto tudo é verdade.

Há um pequeno detalhe: em Portugal, com excepção dos banqueiros, juízes e magistrados tout court, advogados de topo na área dos negócios e quadros superiores de meia dúzia de grandes empresas, todas as profissões são mal pagas, e algumas vergonhosamente mal pagas, como é o caso dos médicos e enfermeiros.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

SIMM DESCONVOCA

Depois da FECTRANS ter aceitado rever o acordo colectivo, ontem, também o SIMM, o sindicato de camionistas, abandonou esta noite a greve.

Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas e Habitação, recebeu os representantes do SIMM e da ANTRAM, formalizando o fim da greve por parte destes trabalhadores.

Os motoristas do Pardal continuam, mas sozinhos.

NOVO TIANANMEN?


Ao fim de dez semanas de protestos, a situação em Hong Kong está prestes a atingir o turning point.

A imagem mostra uma parte das centenas de blindados chineses na cidade de Shenzhen, ou seja, na linha de fronteira que separa Hong Kong do resto da China.

Os 300 mil cidadãos britânicos residentes em Hong Kong têm constituído um factor dissuasor, mas vamos ver até quando. As declarações proferidas hoje em Londres pelo embaixador chinês não auguram nada de bom. Trinta anos passados irá Pequim repetir a tragédia?

Clique na imagem do Guardian.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

DONE

Um acordo entre a FECTRANS — o sindicato de motoristas afecto à CGTP — e o patronato acaba de estabelecer a revisão da convenção colectiva de trabalho. Entre outros detalhes, os salários dos motoristas sobem 120 euros por mês (valor mínimo) a partir do próximo mês de Janeiro. O sindicato do Pardal ficou de fora.

Mas, como toda a gente sabe, ou devia saber, a Lei geral determina que a anuência de um único sindicato da mesma área profissional é suficiente para alterar os acordos colectivos. Foi o que foi feito.

Pedro Nuno Santos, o ministro das Infraestruturas e Habitação, terá mediado as negociações.

A GREVE

Preso por ter cão, preso por não ter cão. Na greve da Primavera, caiu o Carmo e a Trindade porque, gritou a Oposição e sublinharam os media, o Governo não tinha tido pulso contra os motoristas de matérias perigosas.

Agora que o Governo tomou todas as medidas necessárias para minimizar o impacto de uma greve assente nos salários de 2022 (repito: 2022), aqui-d’el-rei que o primeiro-ministro impôs mão de ferro. É o diz o BE e sublinham alguns comentadores, sendo um deles Pacheco Pereira.

À cautela, o PCP lamenta a tentativa de enfraquecer os direitos dos trabalhadores tout court, mas, em simultâneo, vai dizendo que a luta dos motoristas tem contornos «obscuros» e é contra o interesse público.

PSD e CDS estão a banhos.

A bem ou a mal, este conflito tem de resolver-se. E o Governo (o actual, sem esperar pelas próximas eleições) tem a obrigação de arrancar com a construção do um oleoduto que garanta o abastecimento do aeroporto de Lisboa. Custa 40 milhões de euros? Paciência.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

NONSENSE


O Brexit serve de desculpa para tudo. Agora é o anunciado cancelamento de vôos da TAP para o London City, o aeroporto da realeza, dos banqueiros, dos homens de negócios, dos políticos de Bruxelas e dos muito ricos com avião privado.

A TAP continuará a voar para os aeroportos de Heathrow e Gatwick, mas, para London City, que fica a 11 quilómetros do centro da cidade, não. Pouca procura, alega a companhia. É evidente. Até os nossos homens de negócios se retraem com as tarifas praticadas para aquele destino.

Em contrapartida, a partir de 2020 haverá ponte aérea Lisboa-Madrid e Porto-Madrid.

Clique na imagem do Público.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

QUEBRAR O TABU


O imbróglio da Ota, no primeiro Governo Sócrates, deixou o PS refém da esquizofrenia direitista do novo aeroporto de Lisboa. Alcochete, que era uma boa solução, a meu ver melhor do que a Ota, ficou pelo caminho por causa da crise da dívida.

Mas não podemos estar eternamente amarrados ao tabu.

Inaugurado em 1940, o aeroporto da Portela não dá resposta adequada a 30 milhões de passageiros e 214 mil movimentos por ano (números de 2018). Desde 1961 que os sucessivos governos, do Estado Novo e da II República, estudam uma alternativa à Portela. Repito: desde 1961.

Regressei ontem a Lisboa depois de cinco dias em Madrid. A partida de Barajas fez-se com 70 minutos (01:10) de atraso. Até aqui, problema da TAP. Mas nada justifica que o avião, por congestionamento de tráfego aéreo na aproximação a Lisboa, tendo tido que dar voltas sobre a península de Setúbal durante 20 minutos. Aqui o problema já é do aeroporto.

E ao atraso temos de acrescentar as inenarráveis condições do desembarque, com mais de 150 passageiros compactados numa carrinha que levou 10 minutos a percorrer (a uma velocidade inqualificável, perigosa para os passageiros que viajavam de pé) o trajecto, cheio de curvas, entre Figo Maduro e o local onde nos despejaram.

Não havia mangas disponíveis? Errado. Havia várias. Para agravar a situação, o aeroporto não dispõe de passadeiras rolantes, obrigando quem chega a percorrer a pé, cerca de meia hora, fazendo gincana entre os utentes das lojas e manjedouras.

Venha o Montijo, e depressa.

Imagem: maquete do futuro (2021 ou 22) aeroporto do Montijo. Clique.