quarta-feira, 26 de junho de 2019

A BOLHA


Como é que isto é possível se, em Portugal, a Lei proíbe pagamentos em dinheiro a partir de três mil euros e depósitos a partir de cinco mil?

Clique na imagem do Público.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

AXIMAGE, HOJE


Sondagem da Aximage para o Correio da Manhã e o Negócios, divulgada hoje.

PS = 35,6%

PSD = 23,1% / BE = 9% / CDU = 6,9% / CDS = 6,6% / PAN = 4,2%

Sozinho, o PS tem mais do que a soma do PSD com o CDS.

Em termos de popularidade, Assunção Cristas está no fim da lista, mesmo depois de André Silva .

Clique no gráfico do Negócios para ver na íntegra.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

DUELO FINAL


Com 160 votos [61%], Boris Johnson ganhou esta tarde o 5.º round da votação para líder do Partido Conservador e futuro primeiro-ministro do Reino Unido.

Jeremy Hunt ficou com 77 votos [33%]. Michael Gove, que até aqui se mantivera sempre à frente de Hunt, obteve apenas 75, sendo excluído.

O duelo final será portanto entre Boris Johnson, 55 anos, ex-MNE, e Jeremy Hunt, 52, actual MNE.

Votaram 312 dos 313 deputados, não havendo votos nulos ou brancos.

A ITV já anunciou um debate nacional para 9 de Julho.

Clique na imagem da ITV.

BORIS REFORÇA


No 4.º round, realizado hoje de manhã, Boris Johnson reforçou a liderança, colocando-se como mais provável líder do Partido Conservador e futuro primeiro-ministro do Reino Unido.

Votaram todos os 313 deputados, não havendo votos nulos ou brancos.

Resultado final: Boris Johnson 157
/ Jeremy Hunt 59 / Michael Gove 61 / Sajid Javid 34

Sajid Javid foi assim afastado do próximo round que se realiza ainda hoje.

Restam portanto 3 candidatos.

Clique na imagem do Guardian.

PÚBLICO VS PRIVADO

O Presidente da República promulgou ontem o diploma do Governo que autoriza os funcionários públicos a faltarem justificadamente no 1.º dia do ano lectivo, para acompanhamento de menores de 12 anos a seu cargo.

Parte da opinião pública, mas também o PR, gostaria que o regime fosse extensivo ao sector privado. Mas, exactamente por se tratar de sector privado (grande parte do qual é suportado pelos nossos impostos), nenhuma iniciativa do Governo deve ignorar a concertação social.

Não podemos querer regime estatal nuns casos e liberal noutros.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

BORIS, AGAIN


Realizou-se esta tarde a terceira volta para eleger o novo líder do Partido Conservador e futuro primeiro-ministro do Reino Unido.

Votaram todos os 313 deputados, não havendo votos nulos ou brancos. Pela terceira vez, Boris Johnson venceu.

Resultado final: Boris Johnson 143 /Jeremy Hunt 54 / Michael Gove 51 / Sajid Javid 38 / Rory Stewart 27.

Stewart já foi afastado do próximo round. Restam portanto 4 candidatos dos 11 iniciais.

Clique na imagem do Guardian.

SONTAG & GREENE


Hoje na Sábado escrevo sobre Histórias, de Susan Sontag (1933-2004). Nos intervalos dos ensaios que fizeram dela um ícone da cultura americana, Sontag escreveu quatro romances, quatro peças de teatro e vários contos, oito dos quais foram compilados em 1978 no volume I, etcetera. O título remete para a natureza autobiográfica do conteúdo. Porventura para contrariar essa leitura, Benjamin Taylor acrescentou três textos ao conjunto, chamou-lhes Histórias e, no prefácio escrito em 2017, sublinha de forma ambígua o seu carácter ficcional: «Os contos representam as suas obras mais íntimas.» O organizador do volume não quer que o livro seja lido como autobiografia da autora de Notes on Camp (1964), mas os textos acrescentados, mais as alterações feitas na ordem sequencial, deixam incólume o juízo de há quarenta anos. Até do ponto de vista cronológico, não há como escapar da leitura pessoal, memorialística, destes onze textos. Por exemplo, os factos narrados em “Peregrinação”, texto de abertura, remontam a 1947, ano da visita a casa de Thomas Mann, que à época vivia (como tantos outros artistas e intelectuais europeus fugidos à guerra) no Sul da Califórnia. Susan fez a visita na companhia de um namoradinho, sendo o conto um pretexto para discretear sobre A Montanha Mágica. Um ensaio convencional não andaria longe. Sem resquício de ficção, o suicídio de Susan Taubes, amiga íntima de Sontag, que foi quem identificou o corpo da amiga afogada em Long Island, deu origem a “Declaração”. O assédio em meio académico surge em “Doutor Jekyll”, um retrato da realidade: «Mas o tipo é um porco! Meu Deus, quando penso naquela história horripilante que me contaste em que ele te pediu para…». Apesar do registo experimental, “Projeto para uma viagem à China” é uma espécie de diário: «Missionários, conselheiros militares estrangeiros. Negociantes de peles no deserto de Gobi, entre eles o meu pai ainda novo.» E assim sucessivamente. Ao contrário, o último texto, “A maneira como vivemos agora”, ilustrando o quotidiano dos novaiorquinos no auge da epidemia de sida, obedece à estrutura clássica de uma novela. Originalmente publicado na New Yorker, teve publicação autónoma em livro. Três estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre Santos e Pecadores, uma recolha de ensaios de Graham Greene (1904-1991), conhecido sobretudo como romancista, um dos maiores do século XX. Mas Greene foi também um ensaísta brilhante. Em boa hora Pedro Mexia seleccionou, a partir de cinco colectâneas, um conjunto de vinte ensaios escritos entre 1939 (“O homem irado”) e 1984 (“Ruminações aos oitenta anos”), com a quota dos anos 1950 a dominar. Greene, que trabalhou largos anos para os serviços secretos britânicos, foi o «católico paradoxal» por excelência: preferia o pecado à virtude, sublinha Mexia. Qualquer que seja o móbil do ensaio, o grau de corrosão do ponto de vista não belisca nunca a excepcional elegância da prosa. Kim Philby, Simone Weil, Fidel Castro, G. K. Chesterton, o Papa João XXIII e Evelyn Waugh são alguns daqueles a quem dedica textos magníficos. Pode-se dizer o mesmo do muito que escreveu sobre cinema, ele que, tendo visto tantos dos seus livros transformados em filmes, foi ainda guionista e crítico: «A ideia de fazer crítica de filmes veio-me num cocktail depois do perigoso terceiro martíniCinco estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

terça-feira, 18 de junho de 2019

MAIS UM


Patrick Shanahan, 56 anos, Secretary of Defense (o equivalente a ministro da Defesa) dos Estados Unidos, abandonou hoje o cargo que ocupava desde 1 de Janeiro.

Shanahan sucedeu ao general Jim Mattis, mas estava há seis meses a aguardar nomeação definitiva. Suspeitas de violência doméstica no anterior casamento puseram fim às pretensões políticas de Shanahan, o homem que durante dois anos foi o número dois da Defesa americana.

Mark Esper parece ser o senhor que se segue.

Logo hoje, o dia em que Trump vai anunciar a sua recandidatura à Casa Branca.

Clique no retrato de Shanahan.

O QUE SE PASSOU?


Imagino as dúvidas com que se debate a família de Ruben de Carvalho. O jornalista e programador cultural que inventou a Festa do Avante, foi internado no Hospital de Santa Maria (Lisboa), com dores na vesícula, mas morreu em consequência de uma queda. Terá batido com a cabeça onde não devia e, menos de uma hora depois, entrou em coma, estado em que se manteve até morrer ao fim de três semanas. Tinha 74 anos.

O Ministério Público abriu inquérito para apurar se houve negligência médica.

Sofri as mesmas dúvidas em Setembro de 2016. Minha Mãe, internada numa unidade de cuidados continuados que nos ominosos anos PAF ‘exportou’ catorze enfermeiros para Inglaterra, também morreu na sequência de uma queda sofrida no banho. Transferida no mesmo dia para o Hospital de Leiria, o mais próximo, sobreviveu dezassete dias em estado de grande sofrimento. Sim, tinha 96 anos. Mas a dúvida persiste.

Clique na imagem da Blitz.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

MAIS DO MESMO

O CDS não aprendeu nada. Como é que um homem inteligente como Adolfo Mesquita Nunes insiste no discurso que levou à humilhação eleitoral do CDS?

O país não quer saber do guião catastrofista (incêndios) nem do assassínio de carácter do primeiro-ministro. O povo de Direita quer perceber com que alternativas pode contar. Não quer saber de melodramas de faca e alguidar.

Como é que um partido que ainda há um mês estava disposto a hipotecar as contas públicas ao fundamentalismo corporativo da Fenprof, tem autoridade para criticar uma eventual melhoria salarial dos funcionários do Estado, ou seja, de médicos, enfermeiros, professores, polícias, militares, diplomatas, magistrados, investigadores, trabalhadores do regime geral, etc.? Como?

AGORA SÃO POUCOS?

Nos últimos trinta anos, o estribilho preferido da Direita tem sido: A Função Pública tem gente a mais. Um milhão, vociferavam os mais atrevidos. Na realidade, o pico nunca chegou a 600 mil (sendo 25% professores). Fizeram-se estudos comparativos e o facto é que temos o mesmo rácio dos países europeus com população equivalente à nossa.

A excepção é o Reino Unido, onde magistrados, polícias, militares, professores, médicos, etc., não são funcionários públicos.

Sócrates apertou a regra do funil (uma única admissão por cada duas saídas) e Passos induziu reformas antecipadas no ensino básico e secundário. E assim se chegou à situação de reconhecer que há necessidade de admitir 50 mil novos funcionários para manter oleada a máquina do Estado.

Isto não tem nada a ver com a semana de 35 horas de trabalho, como quis fazer crer Marques Mendes no seu programa da SIC.

Desde 1979 que a carga horária da Função Pública correspondia a 35 horas por semana. E nessa altura toda a gente bramava com o excesso de funcionários. Foi o Governo de Passos & Portas quem aumentou a carga horária (ao mesmo tempo que cortava subsídios e fazia disparar a carga fiscal para níveis obscenos), e foi o Governo actual quem repôs a semana de 35 horas sem que, como devia, tivesse alterado de forma eficaz a grelha fiscal.

O programa do PS para as próximas Legislativas prevê mexidas sérias na Função Pública (salários e contratações), como anunciou António Costa. A ver vamos.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

ESTUÁRIO


Com Estuário (2018), Lídia Jorge acaba de vencer o Grande Prémio de Literatura DST.

Faz hoje exactamente um ano, publiquei na Sábado um texto de que transcrevo um breve excerto:

«A ficção portuguesa sofreu uma guinada quando Lídia Jorge publicou o primeiro livro. É bom verificar que, ao fim de 38 anos, a obra permanece incólume. O título mais recente, ‘Estuário’, mantém a pujança inaugural. Dominando na perfeição todos os recursos narrativos, a autora constrói o romance a partir da figura de Edmundo Galeano, um jovem regressado do inferno de Dadaab, um dos campos de refugiados que o ACNUR mantém no Quénia [...] Lídia Jorge é muito hábil na forma como ilustra o contraponto das premências. De um lado, os equívocos da ajuda humanitária. Do outro, o desajuste das famílias. [...]»

Parabéns, Lídia.

Foto de António Pedro Ferreira para a Visão. Clique.

PASSO IMPORTANTE

Com os votos favoráveis do PS, BE, PSD, PCP, PEV e PAN, a Assembleia da República aprovou hoje o fim das taxas moderadoras nos Centros de Saúde e nas consultas e exames prescritos por médicos ao serviço do SNS.

O CDS votou contra.

O MUNDO ESTÁ PERIGOSO


Guterres chegou à capa da Time, um feito até hoje só conseguido por Salazar, Dean of Dictators, 1946, Spínola, Coup in Portugal, 1974 e, sob o título Red Threat in Portugal (1975), os rostos de Otelo, Vasco Gonçalves e Costa Gomes dentro de uma foice e um martelo.

Até hoje, nenhum escritor, músico, cientista ou artista plástico.

Clique na imagem.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

SUCESSÃO DE MAY


A primeira volta das eleições para líder dos tories, hoje efectuada, deu este resultado:

Vencedor, Boris Johnson, com 114 votos.

Os outros: Jeremy Hunt, 43 / Michael Gove, 37 / Dominic Raab, 27 / Sajid Javid, 23 / Matt Hancock, 20 / Rory Stewart, 19.

Por não terem obtido o score mínimo de 17 votos para poderem passar à segunda volta, foram eliminados:

Andrea Leadsom, antiga líder da Câmara dos Comuns, 11 / Mark Harper, 10 / Esther McVey, 9.

Após três voltas reservadas a deputados e membros do Governo, a votação final será feita por todos os militantes do partido.

Clique na imagem do Guardian.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O FOLHETIM


Temendo o que aí vem (estamos a falar do senhor ou da senhora que substituirá Theresa May como líder dos tories e, nessa qualidade, chefe de Governo), o Labour e alguns conservadores pró-europeus da Escócia e dos Verdes apresentaram hoje nos Comuns uma moção visando impedir um Brexit sem acordo.

Dito de outro modo, quiseram travar o passo a Boris Johnson, que promete sair sem acordo e sem pagar. Foram derrotados por 309 contra 298 votos.

Por mais voltas que dêem, a realidade é uma: eles querem sair, e querem fazê-lo sem acordo. May era um empecilho. Mas a Fronda continua.

Clique na imagem.

SEIS. PORQUE SIM.


Hoje, na Sábado, um apanhado de escolhas pessoais. Quem gosta de ler fica bem servido. Que melhor ocasião para falar de vários livros de uma assentada senão o período da Feira? 

Escolhi seis, todos com justa causa. Chico Buarque, o mais recente vencedor do Prémio Camões, regressa com Tantas Palavras, volume que reúne as letras de todas as canções. Regresso a Reims, de Didier Eribon, é um amargo ajuste de contas. A reedição de O Nu na Antiguidade Clássica, de Sophia de Mello Breyner Andresen, surge no ano das celebrações do centenário da autora. Less, de Andrew Sean Greer, recebeu o Pulitzer de Ficção 2018. A Morte é um Acto Solitário, um thriller de Ray Bradbury, mantém-se aliciante. Last but not least, Serotonina, de Michel Houellebecq, traz de volta o único romancista francês contemporâneo capaz de ombrear com os mais notáveis dos seus pares noutros idiomas.

Compositor, letrista, cantor, ficcionista e dramaturgo, o brasileiro Chico Buarque (n. 1944) reuniu em Tantas Palavras as letras escritas entre 1964 e 2017. Pretexto para recordar Cálice, hino de protesto contra a ditadura militar, proibido durante cinco anos: «Como é difícil acordar calado / Se na calada da noite eu me dano…» O songbook inclui portofolio fotográfico e uma reportagem biográfica feita pelo jornalista Humberto Werneck. O livro foi lançado em 1989, com o título Chico Buarque: Letra e Música, mas foi revisto e actualizado para esta nova edição. Quatro estrelas. Editou a Companhia das Letras.

Chegou finalmente a Portugal o polémico Regresso a Reims, autobiografia do sociólogo francês Didier Eribon (n. 1953), biógrafo de Foucault. A partir das suas origens proletárias, Eribon analisa as relações no seio da família, a vergonha social, a construção de identidades e, tema central, a traição de classe: «uma parte de mim que eu tinha recusado». Mas também algumas razões que levaram os operários franceses a trocar o Partido Comunista por Le Pen. A morte do pai serve de pretexto à catarse. Homossexual assumido, teórico da cultura gay, o autor regressa aos lugares da infância e adolescência para desatar o nó górdio dos equívocos. Não é amável. Cinco estrelas. Editou a Dom Quixote.

Os leitores de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) que não tenham lido O Nu na Antiguidade Clássica, ensaio que fixa a visão da autora sobre a Grécia, têm agora oportunidade de o fazer, com uma vantagem suplementar: o volume inclui uma antologia de poemas sobre a Grécia e Roma, organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares. Seria pleonástico sublinhar a excelência do texto e dos poemas. Diversa iconografia ilustra a obra. Cinco estrelas. Editou a Assírio & Alvim.

As idiossincrasias da vida literária e os empecilhos da meia-idade são os temas de Less, o romance mais recente de Andrew Sean Greer (n. 1970). Nenhum deles é novo em literatura, mas o registo humorístico soa a novidade. Brincando com a sua própria carreira por interposto Arthur Less, o anti-herói (um escritor gay, obscuro, à beira de completar 50 anos), Greer questiona os mecanismos de legitimação dos seus pares. Podia ter sido um tiro no pé, mas saiu-lhe o Pulitzer. Três estrelas. Editou a Quetzal.

A maioria dos leitores continua a associar o nome de Ray Bradbury (1920-2012) a Fahrenheit 451, romance distópico a partir do qual Truffaut fez um filme mítico. Mas quem gosta de policiais à moda antiga deve ler A Morte é um Acto Solitário. Tem crimes por decifrar, um detective chamado Elmo Crumley e uma série de personagens bem esgalhadas. Tudo se passa nos anos 1940, em Venice, o subúrbio de Los Angeles onde o autor vivia nessa época. Quatro estrelas. Editou a Cavalo de Ferro.

No tom desbocado que fez a fortuna da obra e a lenda do autor, o último romance de Michel Houellebecq (n. 1956), Serotonina, elege a decadência europeia como razão de todos os males. O protagonista é um engenheiro agrónomo, francês, dependente de antidepressivos, cuja namorada, japonesa, frequenta «serões libertinos» registados em vídeos escabrosos. O conceito de elevador social é ilustrado por um imigrante português, Joaquim da Silva, outrora pedreiro, actual proprietário de uma tabacaria bem localizada, ou seja, um privilegiado face aos agricultores franceses. Houellebecq está longe do seu melhor, mas continua a honrar as tradições da literatura. Três estrelas. Editou a Alfaguara.

Clique na imagem.

terça-feira, 11 de junho de 2019

PUB


A partir de hoje numa livraria perto de si. Ou no stand da Dom Quixote na Feira do Livro de Lisboa. As edições de 2000 e 2007 estão esgotadas. Não é amável, mas a realidade também não.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

A GALILEU


Caroline Tyssen não desiste. Faz ela muito bem. A Galileu merece todo o nosso apoio. Em Novembro de 1975, quando viemos de Lourenço Marques (o Jorge e eu), fomos viver para Cascais. Vinte e dois anos marcantes. A Galileu tornou-se a nossa livraria. Não andarei longe da verdade se disser que por ali passava três em cada sete dias da semana, guiado pela Caroline ou por uma das suas filhas, senão mesmo pelo saudoso Duarte Nuno Oliveira, cavalheiro entre cavalheiros.

Ali me cruzei com Fernando Assis Pacheco, Eugénio Lisboa, Herberto Helder, a Ló e o Garizo do Carmo, David Mourão-Ferreira e tantos outros. Ali levei Rui Knopfli uma vez, para lhe provar que o mundo não acabava na Waterstones. Ainda hoje, sempre que passamos por Cascais, damos um salto ao n.º 24 da Avenida Valbom. Quem tiver tempo, faça o mesmo: encontra preciosidades e conselhos sábios. Também calha encontrar Marcelo, o Presidente da República. Em 2014, a festa do 42.º aniversário foi bonita e juntou amigos queridos.

Sobre a descoberta da Galileu, transcrevo do meu livro de memórias:

«Uma tarde em que fui com o Jorge comer gelados ao Santini [...] descobrimos a Livraria Galileu, fundada por Caroline Tyssen. O que nos chamou a atenção foram as mesas de livros usados colocadas no passeio, cheias de paperbacks ingleses. Os fundos de literatura portuguesa estavam na cave, sobretudo raridades em segunda mão. Rotatividade era um conceito ignorado. Livro que ficasse no andar de cima sem vender, descia, ao fim de meses, para a cave. Nunca era devolvido. Encontrei preciosidades a preços irrisórios. Nessa primeira visita chamou-me a atenção uma prateleira com autores de direita: Agustina Bessa-Luís, António Quadros, Joaquim Paço d’Arcos, Rodrigo Emílio, Pinharanda Gomes e outros. Uma temeridade no Outono de 1975. Facto é que mais depressa se vendiam os poemas de Agostinho Neto que os de Sophia. Dessa visita inaugural trouxe livros de Agustina, largamente ignorada em Moçambique. Ignorada no sentido de pouco lida. As Pessoas Felizes (1975) foi um deles. Romance fulgurante como muito poucos. [...]» — Um Rapaz a Arder, Quetzal, 2013.

A foto foi roubada à Caroline. Clique

sábado, 8 de junho de 2019

RENDAS ACESSÍVEIS

Não me lembro de nenhum Governo português, nenhum (nem o de Sócrates antes de 2010), que tivesse contra si todos os media. É fácil perceber porquê: os media são controlados pela Oposição. Mesmo a RTP, estatal, tem uma gestão predominantemente de Direita. Idónea, mas alinhada à Direita.

Exemplo recente, o Programa de Arrendamento Acessível tem sido ilustrado pelos tectos máximos da tabela aplicados a casas localizadas nas zonas mais caras do país. Se explicassem que os valores médios (repito: médios) correspondem a 4,8 euros por metro quadrado, lá se ia o brilharete.

Quem ler com atenção as portarias publicadas anteontem, verifica que, dentro de tipologias específicas

— a um T1 corresponde uma renda de 301 euros
— a um T2 corresponde uma renda de 387 euros
— a um T3 corresponde uma renda de 458 euros

Com certeza que haverá rendas superiores, para casas de maior dimensão.

Mas quem leia jornais, veja televisão e ouça comentadores, retém apenas o número mágico: São 1.200 euros por um T2 em Lisboa... Ora nem sequer existe uma renda tabelada por concelho.

E assim se vai envenenando a opinião pública.

A questão que devia ser discutida é o valor máximo do rendimento anual colectável que permite às famílias candidatarem-se. O estabelecido é tão baixo que, por exemplo, deixa de fora famílias com rendimento anual 44 mil euros, mais coisa menos coisa. Ou seja, toda a classe média-média.