sábado, 21 de abril de 2018

A INVICTA


Tendo visitado o Porto umas seis dúzias de vezes, nunca ali tinha permanecido cinco dias seguidos. Gostei francamente da experiência. O Porto que me era familiar circunscreve-se ao eixo Campo Alegre/Foz, porque é lá que moram os amigos e, por essa razão, a deslocação para o downtown revelou outra cidade. Verdade que o downtown de 2018 não é o de 1988. Obras de reordenamento urbano, limpeza, recuperação de edifícios, comércio de qualidade, oferta de hotéis, cafés restaurados com bom gosto, esplanadas, tudo contribui para fazer do Porto actual uma cidade convidativa.

Fiquei fã da zona de Sá da Bandeira. E descobri a Rua das Flores, onde fica a Ourivesaria Alliança, durante décadas a maior da Península Ibérica. Os lisboetas conhecem a Alliança da Rua Garrett, mas a casa-mãe, fundada em 1925, embora já não disponha dos cinco andares originais, tem uma elegante casa de chá no piso térreo. Quem for avesso a baixelas e cristais pode ir ao Mercador Café fazer uma refeição ligeira ou beber um copo em ambiente simpático e civilizado. Os bibliófilos encontram dois alfarrabistas, sendo um deles o famoso Chaminé da Mota. A Igreja da Misericórdia merece uma visita, bem como o MMIPO (museu da Misericórdia) e a Chocolataria das Flores. Uma dúzia de barzinhos frequentados por malta nova, trendy, e franceses estruturalistas, dão um toque de cosmopolitismo soixante-huitard. No topo Sul fica o Largo de São Domingos, com esplanadas e a cara lavada. Dois restaurantes merecem atenção: o Traça e o LSD, especialmente o primeiro, que entrou para a minha lista portuense.

É evidente que o centro histórico do Porto não se resume à Rua das Flores, mas foi a zona mais agradável que visitei. Quanto à Rua de Santa Catarina, outrora aprazível, está transformada numa espécie de Chinatown, não tanto pelas lojas, pois há de tudo, mas pelo tipo de esquizofrenia universal. Numa altura em que a cidade se renova, é incompreensível o estado de decadência do magnífico edifício do antigo Cinema Batalha. A reabilitação prevista para 2019 avança? Oxalá. Do outro lado da praça, o Teatro de São João está um brinco.

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quinta-feira, 19 de abril de 2018

MEXIA & SEBALD


Hoje na Sábado escrevo sobre Lá Fora, de Pedro Mexia (n. 1972). Ao contrário da percepção geral, a crónica não é um género muito praticado entre nós. As pessoas confundem crónica com panfleto. Crónica é outra coisa. E Mexia é dos raros cultores avisados. Avisado no sentido de discreto e sensato, qualidades que não beliscam a ironia, a emoção e, sem pose, a costela de erudito. Lá Fora, a colectânea mais recente, reúne textos publicados entre 2006 e 2017. O texto mais antigo, A sauna da democracia, é o retrato nítido do Parlamento. Se tivesse sido escrito pelo Eça a pretexto do estado da Nação sob Hintze Ribeiro, não seria diferente do estado da Nação sob Sócrates. Em flashes breves, Mexia sinaliza os pares da República. Por exemplo: «Nuno Melo lembrava o entusiasmo de um magala que vai às meninas. […] Bernardino Soares nunca foi novo.» O livro é um conjunto de evocações, viagens, afinidades electivas. Por serem momentos decisivos da vida do autor, o texto sobre o encerramento do Tribunal da Boa Hora estabelece uma ponte com o da deslocalização do ‘Diário de Notícias’ para fora do edifício de Pardal Monteiro. No primeiro, Mexia evoca o tempo em que cumpria com tédio o estágio de advocacia; no segundo, os primeiros anos inteiramente dedicados à escrita. Em registo oposto, Uma noite no Lux é um dos textos melhor conseguidos do livro. O mito da discoteca do Cais da Pedra não resiste à mordacidade do noctívago acidental: os «moços com pulôveres amarelos e dentes a mais», os projectores de luz «comprados nuns saldos da Stasi», etc. Sobre a Figueira da Foz, um texto comovido: «Aqui aprendi tudo e não aconteceu nada.» Mas também Maputo, aliás Lourenço Marques, reconstruída a partir de «autobiografias de terceiros». Porque foi a cidade colonial que Mexia tentou ‘encontrar’. A paleta de temas inclui assuntos tão diferentes como a polémica em torno da estátua de Catarina de Bragança, em Nova Iorque; a relação de Leonard Cohen com Marianne Ihlen; o terror metódico de Auschwitz; os judeus sefarditas de Amesterdão; o massacre de Utoya, na Noruega; e outros que o autor expõe com igual brilho. Quatro estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre a reedição de Pátria Apátrida, do alemão W.G. Sebald (1944-2001), colectânea de ensaios que dá a medida do sucesso do autor num país que só o descobriu depois de morto. Figura incontrornável do academismo alemão, ensaísta brilhante, Sebald notabilizou-se junto do grande público por intermédio das suas reflexões sobre decandentismo, identidade e memória. Os ensaios reunidos em Pátria Apátrida detêm-se com especial minúcia numa plêiade de autores de língua alemã, casos de, entre outros, Franz Kafka, Hermann Broch, Peter Handke, Charles Sealsfield, Leopold Kompert e Joseph Roth. Em consequência, a questão judaica é um tema em pauta: Para leste, para oeste. Aporias das histórias de gueto em língua alemã é, dos textos coligidos, um dos mais aliciantes. Sebald faz close reading das obras e autores estudados, com remissões de vária ordem (sociológica, política, literária), mas a clareza da escrita, sempre fluente, induz a leitura. Vejamos, sobre O Castelo, de Kafka: «O fado da família Barnabas é uma sociologia sinóptica do povo judeu. Na sua consequência mais extrema, a conclusão é que a minoria oprimida…» Um leitor menos apetrechado, mas não fútil, procurará inteirar-se do quadro geral. E só tem a ganhar. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

sábado, 14 de abril de 2018

MILOS FORMAN 1932-2018


Após doença breve, morreu ontem à noite, na sua casa do Connecticut, o realizador checo Miloš Forman, naturalizado americano desde 1968. Autor de filmes que ficaram no imaginário popular, como foi o caso de, entre outros, O Baile dos Bombeiros (1967), proibido após a invasão de Praga pela URSS, Voando Sobre um Ninho de Cucos (1975, cinco óscares), Amadeus (1984, oito óscares) e Valmont (1989), Forman, que também era actor, tornou-se um nome de referência da história do cinema. Filho de pais judeus, praticamente não os conheceu, pois foram mortos num campo de concentração nazi. Tinha 86 anos.

COMEÇOU


Por volta das duas da madrugada, hora portuguesa, os Estados Unidos, o Reino Unido e a França bombardearam os arredores de Damasco e outra localidade a Norte da capital síria. Sabemos como começou, não sabemos como irá acabar. O Senado americano, o Parlamento britânico e o Senado francês autorizaram a operação.

A imagem do New York Times mostra o momento em que os mísseis sobrevoavam Damasco. Clique.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

IDENTIDADE DE GÉNERO


Por 109 contra 106 votos, o Parlamento aprovou hoje a nova lei de identidade de género, baixando para 16 anos a idade para mudar de sexo no Cartão do Cidadão. Acaba também a obrigatoriedade de apresentar relatório médico. Votaram a favor: PS, BE, PAN, PEV e Teresa Leal Coelho, do PSD. Votaram contra: PSD e CDS. O PCP absteve-se.

LITERATURA SEM NOBEL?


Sara Danius, secretária permanente e porta-voz da Fundação Nobel, demitiu-se ontem na sequência da demissão de Katarina Frostenson, poeta, membro da Academia Sueca, casada com o fotógrafo Jean-Claude Arnault, acusado de assédio sexual por dezoito mulheres. O escândalo rebentou em Novembro, e o apoio de Sara Danius a Katarina Frostenson levou à demissão, a semana passada, de três membros da Academia. Agora que Katarina bateu com a porta, Sara foi forçada a fazer o mesmo. O busílis é que a Academia ficou sem quorum para decidir sobre o Nobel da Literatura. A eleição de novos membros está vedada enquanto não for resolvido o processo que opõe dois membros (ausentes das votações dos últimos anos) à direcção da Academia. O rei Carlos XVI acompanha a situação de perto.

Na imagem, Sara Danius. Clique.

TORTURA

Carlos Botas, capitão, ex-comandante da GNR de Santiago do Cacém, foi ontem condenado pelo Tribunal de Setúbal a 4 anos e 6 meses de prisão efectiva por, em 2011, ter chicoteado repetidamente quatro suspeitos de assaltos na Comporta. «Na minha zona ninguém rouba», reiterou. Em Portugal, terá sido a primeira condenação de um militar/polícia por tortura.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

CORTÁZAR & MÃE


Hoje na Sábado escrevo sobre o romance de estreia de Julio Cortázar (1914-1984), Os Prémios, finalmente traduzido. Não foi o primeiro que o autor escreveu, mas foi o primeiro a ser publicado, antecipando O Jogo do Mundo (1963), o livro da consagração, epítome da ruptura com o modelo clássico da ficção latino-americana. A trama é simples: os vencedores da lotaria têm direito a um cruzeiro. O destino é desconhecido e há regras a cumprir. Depois de um encontro no café London, de Buenos Aires, um grupo de contemplados aceita embarcar num cargueiro misto da Magenta Star. Como o embarque se faz às escuras, desconhecem o nome do navio, Malcolm. Deveras enigmático. Nenhum deles tem afinidades entre si: nem origem social, nem profissão, nem convicções ideológicas, nem conta bancária, nem sequer as razões pelas quais aceitaram o prémio. A partir daí, tudo gira em torno do quotidiano de Lucio, Nora, Medrano, Paula, Raúl, Claudia, Felipe, Persio e outros. Idiossincrasias, equívocos, sexo (área em que Cortázar revela exemplar à-vontade), rancores, pusilanimidades, intrigas, decepções, arrivismo, prosápia intelectual, atritos, tudo contribui para fazer daquele peculiar microcosmo um retrato da sociedade da época. Persio, provável alter ego de Cortázar, parece ser o único com a chave dos acontecimentos. Medo e perplexidade face ao desconhecido. A existência de tifo a bordo piora a situação. Por que motivo o navio foi autorizado a partir com tripulantes doentes? Porquê a inexplicada ancoragem? A proibição de aceder à ponte tem a ver com o tifo? A tripulação nada esclarece e o seu mutismo provoca um motim entre os passageiros. O desfecho pícaro quadra de viés com a retórica existencialista. A grelha semântica seria afinada com O Jogo do Mundo, mas, por enquanto, largas passagens são redundantes. Filho de um diplomata argentino, Cortázar nasceu na Bélgica, poucas semanas após a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Mais tarde viveu na Argentina, onde publicou contos e outros textos. Em 1951, descontente com o regime de Perón, fixa-se em Paris como tradutor da Unesco. Em 1981, em protesto contra a ditadura militar de Videla e Viola, solicita e obtém a nacionalidade francesa. Quatro estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrevo ainda sobre Publicação da Mortalidade, a poesia reunida de Valter Hugo Mãe (n. 1971). Mais conhecido como ficcionista, o autor voltou à poesia. Melhor dito, reuniu num único volume os poemas definitivos. Os livros originais foram agrupados sem referência à primeira publicação. Nenhuma introdução ou simples nota indica os critérios da recolha. O leitor terá de descobrir por si os poemas omissos ou de tal modo alterados que devêm inéditos. Valter Hugo Mãe tinha dez livros de poesia publicados quando o primeiro de sete romances fez dele um autor mediático. Portanto, o grande mérito desta poesia reunida consiste na demonstração do conseguimento do autor enquanto poeta (em detrimento do ficcionista, entenda-se). Numa época em que a narrativa vive refém da retórica mais adiposa, a sua poesia não tem medo da elipse: «vem ver-nos / tarda nada chega a primavera / e as flores que plantámos no / quintal vão florir como / símios loucos aos teus pés». A lição modernista é recuperada com brio. Noutro registo, a sequência «os olhos encaracolados de sonho» (um extenso poema) dá a medida do fôlego do poeta. Quatro estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

RECUO?

A reviravolta indicia que alguém tomou as rédeas em Washington. Depois das ameaças que fizeram subir a tensão para níveis incomportáveis, Sarah Huckabee Sanders, porta-voz da Casa Branca, esclareceu que, existindo outras opções, não está iminente um ataque à Síria. Antes assim. Não obstante, Theresa May mantém para hoje uma reunião de emergência do Governo britânico com vista a acertar detalhes da intervenção. Se formos optimistas, podemos concluir que alguém fez um desenho ao Presidente.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

SÍRIA

Parece estar iminente um ataque aéreo à Síria por parte dos Estados Unidos. A aviação civil já foi avisada para a ocorrência de perturbações na área do Mediterrâneo oriental. Há porém um sério busílis: havendo, como parece haver, militares e equipamento russo em todas as instalações militares sírias, um ataque à Síria será também um ataque à Rússia. Para já não falar do Irão.

Claro que a Síria é um pretexto. O vasto mundo, a Ocidente e a Oriente, a ONU, a NATO e a UE borrifam-se para a tragédia síria. Mas Trump tem de distrair a opinião pública das declarações de duas mulheres: Karen McDougal, ex-modelo da Playboy, alega ter tido durante um ano (2006) uma relação amorosa com o Presidente e de, em conformidade, ter recebido 150 mil dólares; e Stephanie Clifford, actriz porno conhecida como Stormy Daniels, recebeu 130 mil dólares para garantir que mantinha a boca fechada durante a eleição presidencial de 2016. Bem pode Trump dizer que tudo não passa de... A total witch hunt, que Robert S. Mueller III, o Procurador, não se comoveu. Agentes do FBI invadiram e revistaram o gabinete do advogado pessoal do Presidente, Michael D. Cohen, recolhendo provas dos pagamentos e outras acusações. Tudo isto explica a urgência do ataque à Síria. A ver vamos.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

ORBÁN REELEITO


A reeleição de Viktor Orbán para um terceiro mandato consecutivo deve fazer a Europa reflectir. O outdoor da imagem ilustra o enfoque da campanha eleitoral: Stop à emigração. Com este slogan, o partido de Orbán, o Fidesz, ou Magyar Polgári Szövetség, elegeu 70% dos deputados do Parlamento húngaro. O mundo está perigoso.

Clique na imagem.

domingo, 8 de abril de 2018

BRASIL

Se, como tudo parece indicar, Bolsonaro for o próximo Presidente do Brasil, a maioria silenciosa que caucionou a prisão de Lula vai acabar como os aristocratas franceses que festejaram a execução de Luís XVI. Na carroça, que é como quem diz no camburão.

Jair Bolsonaro, 63 anos, olho azul sibilino, militar na reserva, apoiante declarado da ditadura militar, defensor da legalização da tortura policial e da pena de morte, deputado (o mais votado no Rio de Janeiro), católico fundamentalista, activista anti-LGBT e anti-aborto, é considerado o político brasileiro mais influente nas redes sociais.

Os media que comparam Lula a Capone, e as classes médias blasé, vão sentir o pau. Não haverá vaselina que chegue.

ACABOU


Sábado, 7 de Abril. Fixar a data. Eram 18:42 em São Bernardo do Campo quando Lula da Silva saiu do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e entrou no carro da polícia que o conduziu à sede da Polícia Federal em São Paulo. Ali fez exame de corpo de delito, seguindo depois para o aeroporto de Congonhas, onde um avião da Força Aérea Brasileira o levou até Curitiba. Passava das 22:00 quando deu entrada na Superintendência da Polícia Federal da capital do Paraná. Para milhões de brasileiros da classe trabalhadora, e um número residual de estudantes, artistas e intelectuais da classe média, acabou o sonho de um Brasil mais justo.

Clique na imagem do Diário de Notícias.

sábado, 7 de abril de 2018

A LÍNGUA


Leio revistas brasileiras desde miúdo. O Cruzeiro era uma revista muito popular em Moçambique, e minha Mãe fez uma assinatura creio que em 1956. Machado de Assis e Érico Verissimo também foram leituras precoces. Assim fui descobrindo palavras novas, e gabarito foi a primeira que adoptei. Dito de outro modo: desde cedo percebi que a língua portuguesa extravasa o paroquialismo das selectas.

Vem isto a propósito de quê? No momento que o Brasil atravessa, o hábito de ler jornais brasileiros intensificou-se: era um de manhã, sempre o mesmo, agora são vários. Todos os dias descubro palavras novas. Nada a ver, de facto, com o vocabulário tuíteiro de 9 em cada 10 jornalistas e colunistas portugueses. Lemos cenas do ódio a roçar o totalitarismo, mas o cânone da língua permanece intacto.

IMPASSE


Lula da Silva continua nas instalações do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Significa isto que não cumpriu o prazo dado por Sérgio Moro, o justiceiro de Curitiba que lidera a Operação Lava Jato. Lula não se entregou, mas também não fugiu. E há meses que o podia ter feito. Não faltam países sem acordo de extradição com o Brasil para onde poderia ter fugido. Acho bem que não o tenha feito. Se o querem prender, têm de o ir buscar. É a diferença entre um estadista e um palhaço.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

DÚVIDA


Alegadamente por questões de segurança, Lula da Silva não tenciona deslocar-se de São Bernardo do Campo, onde permanece, a Curitiba, onde deverá ficar preso. A dúvida é saber se a Polícia Federal invade as instalações do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde Lula dormiu a noite passada, ou se o ex-Presidente vai entregar-se em São Paulo, que fica apenas a 19km. A ver vamos.

Clique no mapa.

O FIM?


Menos de 18 horas após o veredicto do STF, o juiz Sérgio Moro exarou despacho de prisão contra Lula da Silva:

«[...] Relativamente ao condenado e ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, concedo-lhe, em atenção à dignidade do cargo que ocupou, a oportunidade de apresentar-se voluntariamente à Polícia Federal em Curitiba até as 17:00 do dia 06/04/2018, quando deverá ser cumprido o mandado de prisão. Vedada a utilização de algemas em qualquer hipótese. [...]»

Neste momento ainda não se sabe se Lula vai entregar-se voluntariamente. Logo, quando forem 20:00 em Portugal, saberemos.

Clique na imagem do jornal Globo.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O FOLHETIM

Considerando que o referendo e a declaração unilateral de independência da Catalunha não envolveram violência, o Tribunal Superior Regional de Schleswig-Holstein entendeu que o crime de rebelião não deve ser considerado na extradição de Puigdemont. Desse modo, após pagar uma fiança de 75 mil euros, o catalão aguardará em liberdade a tramitação do processo de extradição pelo crime de desvio de fundos públicos (está acusado de desviar 1,6 milhões de euros). Aguardar os próximos capítulos do folhetim.

ELIZABETH STROUT


Hoje na Sábado escrevo sobre Tudo É Possível, da norte-americana Elizabeth Strout (n. 1956), autora que faz parte de um grupo que, por uma ou outra razão, se mantém arredio à edição portuguesa. E não devia. O romance mais recente, laureado com o Story Prize de 2018, acaba de ser traduzido. A autora tem sido aclamada pela crítica mais exigente, indiferente ao facto de vários dos seus livros serem bestsellers e, entre outros prémios, recebeu o Pulitzer de Ficção em 2008. Quem tenha lido O Meu Nome é Lucy Barton (2016) identifica a personagem central de Tudo É Possível. O romance pode ser lido como uma sequência de contos unidos pelo mesmo fio condutor. Denominador comum: o sexo. O plot gira em torno do regresso de Lucy Barton à vila do Illinois que a vira partir, adolescente ‘excluída’, para Nova Iorque. Regressa como escritora, e esse regresso, a pretexto do lançamento do seu livro de memórias, vai iluminar os recessos mais negros do passado dos habitantes de Amgash. Embora as situações sejam diferentes, como não pensar em Dürrenmatt e A Visita da Velha Senhora? Na terra todos conhecem as histórias de todos. Algumas são terríveis, como a infância devastadora de Sebastian, repetidamente estuprado pelo pai. Outras fúteis, como a mexeriquice acerca da frigidez de Patty, mulher de Sebastian e filha da mulher que protagonizou um adultério gravado nos anais Amgash. Chegados à velhice ou à meia-idade, o rancor deixara de pedir licença. O regresso de Lucy potencia várias formas de atrabílis. No capítulo Irmã, ela própria tem o seu momento de catarse. Em conversa com os irmãos, sofre um ataque de pânico e vê-se obrigada a partir. Elizabeth Strout compõe as personagens com precisão não isenta de subtileza. Por exemplo, Charlie, o homem «da dor indizível», antigo combatente no Vietname, sofre de stress pós-traumático. Linda vive longe, num meio glittering em tudo oposto ao da irmã (Patty) e dos outros. Crime, travestismo, compaixão, voyeurismo, luta de classes, homossexualidade, tudo perpassa nesta constelação de vidas interligadas. Toda a vulnerabilidade será castigada? Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

LULA


Por 6 votos contra 5, o Supremo Tribunal Federal recusou habeas corpus preventivo a Lula da Silva. Após a votação, a defesa de Lula fez uma última tentativa para impedir a prisão até estarem transitados os recursos, mas o Tribunal rejeitou o pedido por 8 votos contra 2. Assim, embora tenha recursos pendentes, o antigo Presidente pode entrar na prisão a qualquer momento.

O que fez o homem? Em 2010, Lula e a segunda mulher, Marisa Letícia (1950-2017), falecida o ano passado, compraram um triplex em Guarujá, cidade do litoral do Estado de São Paulo. O juiz da Operação Lava Jato alega que a compra é fictícia. Quem de facto pagou os 550 mil euros terá sido a construtora OAS, a troco de contratos com a Petrobras. No primeiro julgamento, Lula foi condenado a 9 anos de prisão efectiva. Após recurso, a pena subiu para 12 anos e 1 mês. Agora, tudo depende do juiz da Lava Jato.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

DGARTES

Miguel Honrado já se demitiu? Com apoio ou sem apoio do ministro da tutela e do próprio primeiro-ministro, o secretário de Estado da Cultura não tem condições para continuar no cargo. Já não se trata só do desastre que representa o financiamento das actividades artísticas dependentes de apoio do Estado. É toda a estrutura da direcção-geral das Artes que deve ruir.

LULA & OS GENERAIS


A situação no Brasil está por um fio. O Supremo Tribunal Federal decide hoje se Lula da Silva é preso imediatamente ou, como pretende a defesa, tem direito a habeas corpus preventivo. A sessão começa quando forem 17:00 em Portugal.

As manifestações sucedem-se. Em mais de 50 cidades, centenas de milhares de pessoas têm-se manifestado a favor (a maioria) ou contra a prisão do antigo Presidente. Mas isso dura há meses. A novidade é que o Exército tomou posição.

Já hoje, o general Eduardo Villas Boas, Comandante do Exército Brasileiro, escreveu no Twitter:

«Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade [...] O Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais. Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?»

Menos formal, por estar na reserva, o general Luis Gonzaga Schroeder declarou: «O dever das Forças Armadas é restaurar a ordem. Temos os sabres prontos.» Até ao momento, são seis os generais de topo que se têm manifestado a favor da prisão de Lula.

Clique nos tuítes de Villas Boas.

terça-feira, 3 de abril de 2018

OS DIAS DO FIM


O procurador-geral de Schleswig-Holstein recomendou ao Tribunal Superior Regional a extradição de Puigdemont. O procurador-geral faz notar que o crime de rebelião, conforme a lei espanhola, corresponde ao crime de alta traição, conforme a lei alemã. Tal como a organização de um referendo ilegal, o crime de desvio de fundos públicos (o ex-dirigente catalão está acusado de desviar 1,6 milhões de euros) também está contemplado na lei alemã. Enquanto o pau vai e vem, Puigdemont continua na prisão.

Clique na imagem do jornal catalão La Vanguardia.

CÁFILA

Não há dinheiro para a Cultura mas sobra para os contratos de associação entre o Estado e o ensino privado. Lembram-se da pouca vergonha das manifs pelo ‘direito de escolha’ organizadas por colégios ditos privados, porém subvencionados com os nossos impostos?

Então é assim. Cinco administradores do grupo GPS estão acusados de desviar 35 milhões de euros, usando-os em proveito próprio: carros de luxo, seguros pessoais, viagens, jantares gourmet, etc. Uma parcela desse dinheiro (meio milhão de euros) saiu dos pagamentos feitos pelos alunos na papelaria e no bar dos colégios São Mamede, da Batalha, e Miramar, de Mafra. Juntamente com o Bando dos Cinco, o Ministério Público acusou José Manuel Canavarro, ex-secretário de Estado Adjunto e da Administração Educativa, e José Maria de Almeida, ex-director regional de Educação, ambos do PSD, dos crimes de burla qualificada, abuso de confiança, corrupção, peculato e falsificação de documentos.

Quando é que um Governo terá a coragem de acabar com os contratos de associação?

segunda-feira, 2 de abril de 2018

TIANGONG


A estação espacial chinesa Tiangong-1 caiu no Pacífico Sul, perto da costa chilena. Lá se foi a fantasia minhota, fabricada pela TVI, SIC e outros media nacionais, do fogo de artifício de sarrabulhos entre Seixas e Ponte de Lima.

Clique no tuíte do 18.º Esquadrão de Controlo Espacial americano.

domingo, 1 de abril de 2018

SKRIPAL

E se o caso Skripal não passasse de uma manobra, perigosa, para adiar o Brexit sine die?

sexta-feira, 30 de março de 2018

PLÁGIO, DIZ ELA


Como é que um realizador com os pergaminhos de João Botelho se mete numa alhada destas? Plot: o filme mais recente de Botelho chama-se A Peregrinação, mas pouco tem a ver com Fernão Mendes Pinto. Em compensação, tem tudo a ver com O Corsário dos Sete Mares, romance histórico de Deana Barroqueiro sobre a vida de Fernão Mendes Pinto.

A leviandade não termina aqui. O crítico de cinema Nuno Pacheco, escrevendo no Ípsilon, fala de personagens e cenas inventadas por Deana Barroqueiro como se fossem da Peregrinação. Botelho diz agora que não conseguiu contactar Deana Barroqueiro porque na LeYa ninguém atende telefones. Então ficamos assim.

Os media portugueses todos calados. 

Clique na imagem do jornal Hoje Macau

CADÊ O JE SUIS?


Os charlies brasileiros exigem que a Netflix cancele a série O Mecanismo. Inspirada na Operação Lava-Jato, a série de José Padilha, mazinha, embora divertida, ilustra a cultura de corrupção que move as ‘elites’ empresariais e políticas do Brasil. A Esquerda mais exaltada acusa o realizador e roteirista de assassinato de carácter de Lula e Dilma. Mas Lula e Dilma são engolidos pelo thriller, e tinham ficado melhor na fotografia se não esperneassem como andam a espernear por causa disto (o antigo Presidente ameaça processar a Netflix). Então o je suis é só para francês ver?

quarta-feira, 28 de março de 2018

BELLOW & MONGINHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Cartas e Recordações, de Saul Bellow (1915-2005). Seria pleonástico enfatizar a importância do autor, mas, no momento em que chega às livrarias portuguesas o volume que colige parte da sua correspondência, convém recordar o óbvio: algumas correspondências são, de facto, Literatura. É o caso desta. Por razões facilmente compreensíveis, a presente edição não contempla as 708 cartas do original americano. No prólogo, Salvato Telles de Menezes, o tradutor, explica ter privilegiado temas representativos («ideias literárias, ideias político-sociais, religiosas…»), bem como interlocutores familiares ao leitor português, como são os escritores e os políticos internacionalmente conhecidos. Não obstante, no fim de algumas cartas, existem verbetes sucintos das pessoas citadas. A vida íntima não foi esquecida, uma vez que a selecção abrange cartas para os filhos e para as ex-mulheres (casou cinco vezes). E também inclui cópia de uma carta enviada em 1972 à Century Association, um clube elitista de Manhattan, propondo com vigor a não-admissão do homem que, em sua opinião, era responsável pela decadência da Partisan Review. Oriundo de uma família de judeus russos, os Belo, Saul Bellow nasceu no Quebeque, para onde o pai tinha fugido após problemas em São Petersburgo. Foi para Chicago com 9 anos feitos, mas só aos 28 obteve a cidadania americana. Estudou antropologia e sociologia antes de enveredar pela carreira literária. O primeiro romance, Na Corda Bamba (1944) despertou de imediato a atenção de Edmund Wilson, o crítico mais influente da América. Quando, em 1976, recebeu o Nobel da Literatura, era já um autor consagrado no país que adoptou como seu e sobre o qual escreveu de forma admirável. Iconoclasta, adversário confesso do multiculturalismo académico, ficou célebre a boutade, em directo na televisão, acerca de nunca ter lido nada do ‘Proust da Papua-Nova Guiné’… Uma conferência sobre o papel dos escritores na universidade exacerbaria os ânimos. Mas esse era o lado para que Bellow dormia melhor. O arco cronológico desta compilação vai de 1932 a 1982. São muito interessantes as opiniões sobre as mulheres que amou, a obra de outros escritores, os países que visitou e os factos políticos de que foi testemunha. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre Um Muro no Meio do Caminho, de Julieta Monginho (n. 1958), magistrada do Ministério Público e romancista. Em 2016, a autora voluntariou-se para trabalhar num campo de refugiados da ilha grega de Chios. O resultado foi  o seu livro mais recente. O leitor lembra-se logo do verso famoso, Tinha uma pedra no meio do caminho, de Drummond de Andrade. Contra a evidência, Um Muro no Meio do Caminho é um romance. Os escritores têm a capacidade de transmudar a realidade em ficção, e foi o que autora fez, a partir da sua experiência na Grécia: «Este é um livro de ficção. Nenhuma das personagens, excepto J., corresponde a uma pessoa real.» Não será abusivo supor que J. seja a própria autora. As ‘histórias’ são pontuadas com factos concretos e directivas oficiais sobre populações deslocadas: «Angela Merkel decidiu apoiar a visão segundo a qual reenviar as pessoas para a Hungria era logisticamente impossível e moralmente injustificável.» Por intermédio destes inserts, a autora ilustra o pano de fundo da tragédia. Estamos perante um testemunho que nos alerta para a urgência de um problema que arrisca ser a vergonha deste século. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

segunda-feira, 26 de março de 2018

A VIDA COMO ELA É

O juiz do Tribunal de Neumünster decidiu que Puigdemont fica em prisão preventiva enquanto decorrer o processo de extradição para Espanha.

MERKEL: A ESPANHA O QUE É DE ESPANHA


Steffen Seibert, porta-voz do Governo alemão, depois de uma reunião com Merkel e vários ministros: 

«O Governo apoia de forma clara as acções do Governo espanhol, de forma a garantir a ordem legal e constitucional. A Espanha é um Estado constitucional e democrático. O conflito na Catalunha deve ser resolvido dentro da ordem jurídica e constitucional espanhola

O mapa mostra o local onde Puigdemont foi interceptado pela polícia alemã logo após ter atravessado a fronteira dinamarquesa. Realizada a partir de Helsínquia, a operação conjunta dos serviços secretos espanhois (CNI) e alemães, presentes na área de serviço onde a BKA efectuou a detenção, terminou com a entrada de Puigdemont na prisão da cidade de Neumünster.

Entretanto, Barcelona está ao rubro. Nas manifestações de ontem ficaram feridas mais de cem pessoas, sendo detidas seis.

MANUEL REIS 1946-2018


Morreu ontem à noite o Manuel Reis, o homem que inventou a movida de Lisboa, trocando o trabalho no check-in da TAP pela refundação do Bairro Alto. Primeiro na Loja da Atalaia, situada actualmente no Cais da Pedra, espaço que deu visibilidade a vários designers, depois, sucessivamente, no Pap’Açorda, no Frágil, na Bica do Sapato, no Lux-Frágil, no Rive-Rouge. Bom gosto, elitismo, modernidade e multiculturalismo foram os traços distintivos. Com o seu desaparecimento, Lisboa fica mais pobre. O corpo estará em câmara ardente no Teatro Thalia.

domingo, 25 de março de 2018

CLARA PONSATÍ


A polícia escocesa aguarda que Clara Ponsatí se entregue às autoridades de livre vontade. Acusada de rebelião, a antiga dirigente catalã fez parte do grupo que, em 27 de Outubro, acompanhou Puigdemont para Bruxelas. Em Janeiro renunciou ao mandato de deputada e partiu para a Escócia, retomando o lugar de professora em St Andrews.

Clique na imagem.

ACONTECEU


Eram 11:19 quando Puigdemont foi detido na autoestrada A-7, no Estado alemão de Schleswig-Holstein. Puigdemont ia a caminho de Bruxelas, depois de ter estado em Helsínquia. A visita à Finlândia foi interrompida assim que Madrid reactivou o mandado europeu de prisão. As autoridades alemãs já notificaram o Governo espanhol.

Clique na imagem do Expresso.

sexta-feira, 23 de março de 2018

OS DIAS DO FIM


Pablo Llarena, juiz do Tribunal Supremo de Espanha, decretou a prisão imediata, sem direito a fiança, de Carme Forcadell, Jordi Turull, Raül Romeva, Dolors Bassa e Josep Rull. Estão todos acusados de rebelião. Turull, Romeva, Bassa e Rull também estão acusados de desvio de fundos públicos (o financiamento do referendo e actos em prol da independência).

Turull foi o homem que ontem falhou a eleição para presidente da Generalitat, depois das tentativas falhadas de eleger Puigdemont, Junqueras e Sànchez.

Lembrar que Carme Forcadell, antiga presidente do Parlamento catalão, esteve presa umas horas, no dia 9 de Novembro de 2017, mas saiu em liberdade após pagar fiança. Anteontem renunciou ao mandato de deputada. Hoje foi presa de forma incondicional.

TERROR


A França de novo mergulhada no terror. Em nome do Daesh, um homem mantém reféns num supermercado de Trèbes (Carcassone). Até ao momento, dois mortos.

Clique na imagem do Libèration.

CATALUNHA


O Tribunal Supremo de Espanha formalizou hoje a acusação contra 25 independentistas catalães. Na imagem estão os 13 mais influentes.

Acusados de rebelião e desvio de fundos públicos: Carles Puigdemont, Oriol Junqueras, Joaquim Forn, Jordi Turull, Raül Romeva, Clara Ponsatí, Josep Rull, Antoni Comin e Dolors Bassa.

Acusados apenas de rebelião: Carme Forcadell, Marta Rovira, Jordi Sànchez e Jordi Cuixart.

Acusados de desobediência e desvio de fundos públicos: Meritxell Borràs, Lluis Puig, Carles Mundó, Santi Vila e Meritxell Serret.

Acusados apenas de desobediência: Llus Maria Corominas, Lluis Guinó, Anna Simó, Ramona Barrufet, Joan Josep Nuet, Mireia Boya e Anna Gabriel.

Jordi Turull, que ontem não conseguiu ser eleito presidente da Generalitat, e está neste momento a ser ouvido pelo juiz, deve ficar preso.

Entretanto, Marta Rovira, secretária-geral da ERC, fugiu para parte incerta.

Clique na imagem do jornal catalão La Vanguardia.

TRAPAÇAS

Já toda a gente percebeu que os fogos de Junho e Outubro do ano passado têm sido utilizados como arma de arremesso político. A Comissão Técnica Independente incumbida pela Assembleia da República de analisar os incêndios de 2017, produziu dois relatórios. O primeiro, sobre Pedrógão Grande, não suscitou controvérsia: o Governo adoptou as medidas propostas. O segundo, sobre a catástrofe de 15 de Outubro, foi divulgado anteontem. Contém informação alegadamente falsa veiculada por Albino Tavares, tenente-coronel, antigo membro da Autoridade Nacional de Protecção Civil.

Face à reacção imediata do deputado Jorge Gomes, secretário de Estado da Administração Interna que saiu do Governo em Outubro, o presidente da Comissão Técnica Independente, João Guerreiro, afirmou ontem:

«No meio de um trabalho de doze pessoas, [a CTI é formada por doze peritos] poderá haver qualquer coisa que não esteja totalmente clara. Percebo as questões colocadas pelo dr. Jorge Gomes, portanto tem todo o sentido que estas questões sejam cabalmente esclarecidas, tem todo o sentido que a Comissão Técnica Independente, neste domínio, analise um bocadinho, com maior profundidade, esta troca de documentos. Tudo o que sejam questões que possam não estar bem esclarecidas no relatório, acho que temos o dever de clarificar isso rapidamente para não complicar a discussão sobre os reais problemas que estão presentes, porque esses é que interessam

Analise um bocadinho, com maior profundidade...? Um bocadinho?

O que é extraordinário é que só agora, depois de elaborado o segundo relatório, a CTI tenha ‘descoberto’ que não analisou em profundidade, nem fez o contraditório.

quinta-feira, 22 de março de 2018

ARAMBURU & TORRES


Hoje na Sábado escrevo sobre Pátria, do espanhol Fernando Aramburu (n. 1959). Com apenas dois livros traduzidos entre nós, o autor regressa com este romance várias vezes premiado, com enfoque no período mais turbulento do independentismo basco. A trama gira em torno das sequelas da execução de um empresário de nome Txato. Estamos no auge da vaga de assassinatos perpetrados pela esquerda abertzale. Dito de outro modo, no centro do terror euskadi, tema recorrente na obra de Aramburu. A partir de uma vila imaginária da província basca de Guipúzcoa, acompanhamos as reacções das vítimas do independentismo. Em 2011, quando a ETA pôs fim à luta armada, Bittori, a mulher de Txato, vai à campa do marido falar com ele. Inibida de esquecer, vê-se obrigada (como outros sobreviventes) a coexistir com os algozes. É tarde quando Jose Mari lhe confessa o crime. Não está sozinha. Como ela, outras viúvas, pais, filhos, irmãos, amantes, amigos. Vidas destruídas pela intolerância de uma quadrilha de ‘iluminados’. Pátria é um fresco de três décadas de ódio e trapaças. Aramburu não ficou pelo panfleto, antes compôs uma epopeia onde se cruzam vozes e tensões, nada tem carácter definitivo, e as certezas são poucas. Num estilo sóbrio, a escrita mantém o ritmo adequado à narrativa. Sem ênfase, ou frases de grande efeito, o romance vai fundo no escalpe da realidade. A densidade psicológica das personagens resgata-o da tentação do proselitismo. O facto de viver em Hanôver, na Alemanha, e só ter começado a publicar (excepto os dois primeiros livros de poesia) depois de sair de Espanha, fez de Aramburu um outsider. Isso talvez explique a desatenção dos editores portugueses face a um obra que vai já em oito romances, quatro colectâneas de contos, cinco livros de poesia, quatro de narrativa infantil e um volume de ensaios que, a partir da exegese de terceiros, pode ler-se como autobiografia do autor. Logo ele, que alguma crítica tem comparado a Camus. O volume inclui glossário de termos euskera, que são muitos, causando, aqui e ali, empecilho de leitura. Em nota de rodapé seriam provavelmente mais eficazes. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre A Glória e seu Cortejo de Horrores, da brasileira Fernanda Torres (n. 1965). Actriz e colunista na imprensa, a autora publicou mais um livro de ficção. Trata-se de uma farsa sobre o milieu teatral, com envios retrospectivos à militância de esquerda, ao Cinema Novo, ao «hedonismo lascivo, ébrio, estonteante» provocado pela amnistia de 1979 (era a ditadura militar), mas, sobretudo, ao tempo em que a televisão era o epicentro do Brasil. Mario Cardoso, o protagonista, é um actor de meia-idade, outrora um ídolo de novelas, que, na pior fase da sua vida, decide fazer Shakespeare. Pornochanchada e guerrilha cruzam-se com a degradação do Rio de Janeiro: «No emaranhado de barracos sem água e esgoto […] as AK 47s proliferam, traficadas junto com os papelotes de pó.» Por vezes, o humor tem eficácia, como na cena do filme porno: «Corria nua por uma praia deserta, rolando sôfrega na areia, como um bife à milanesa acometido de depressão.» Como se fora um roman à clef, a narrativa está pontuada de indirectas sobre actores, encenadores e críticos de teatro, ou seja, matéria obscura para quem não conheça o teatro brasileiro. Duas estrelas. Publicado pela Companhia das Letras.

quarta-feira, 21 de março de 2018

DIA DA POESIA

Hoje é Dia da Poesia. Deixo aqui um poema de Guerra Junqueiro (1850-1923) impróprio para almas sensíveis. Junqueiro inspirou-se no escândalo que em 1881 envolveu o 2.º marquês de Valada, D. José de Meneses da Silveira e Castro, conselheiro e amigo do rei, par do Reino, oficial-mor da Casa Real, comendador da Ordem de Cristo e governador civil (substituto) de Lisboa. A polícia encontrou o marquês na cama com um soldado de infantaria, em pleno intercourse, numa casa da Travessa da Espera, no Bairro Alto. As dimensões do membro do soldado foram motivo de conversa em toda a cidade. O marquês andava a ser seguido pela polícia, interessada em derrubar o Governo progressista, como de facto aconteceu. Ontem como hoje, estas coisas não acontecem por acaso.

A TORRE DE BABEL OU A PORRA DO SORIANO

Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar inteiro e o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
Dez séculos!
Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
as nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
Mastro de Leviathan! Eminência revel!
Estando murcho foi a Torre de Babel
Caralho singular! É contemplá-lo
É vê-lo
teso! Atravessaria o quê?
O sete estrelo!!

Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra!
É uma porra, arquiporra!
É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder, da Terra, Eva no Paraíso!!

É uma porra infinita, é um caralho insone
que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.

Oh, caralho imortal! Oh glória destes lusos!
Tu podias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
O Marquês de Valada em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
– Nada, nada contém a porra do Soriano!!

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita??
– Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe há-de abrir talvez um dia um terramoto
para que desagúe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha!!!

A porra do Soriano é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
Onde é que começa?
Onde é que termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento
porque é porra de pardal e porra de jumento??
Porra!
Mil vezes porra!
Porra de bruto
que é capaz de foder Deus no universo e o Cosmos num minuto!!!

DIA DA ÁRVORE


Hoje é Dia da Árvore e Lisboa conta com mais um espaço verde, o Parque Urbano do Vale da Montanha, situado nas traseiras da Avenida Gago Coutinho, estabelecendo um continuum com a Avenida Marechal António de Spínola, o Parque da Bela Vista Sul e a Linha de Cintura Interna junto ao Areeiro. Onze hectares para fruir a natureza, lá onde havia hortas e construções ilegais.

E a partir do meio-dia já pode ir namorar para o Jardim de Santos, que reabre hoje.

A foto é de O Corvo. Clique.

sexta-feira, 16 de março de 2018

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56,5%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 13,1% (e a PAF em 6,5%). A popularidade de António Costa e a aceitação do Governo continuam a subir. Rui Rio fez subir o PSD, o que não acontecia desde Outubro de 2015. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

LAMBDA


Em 2014, quando Moçambique substituiu o Código Penal de 1886 pelo actual, a homossexualidade, a prostituição e o aborto (até à 12.ª semana de gestação) deixaram de ser crime. Isso é História. O que eu não sabia, por uma daquelas distracções sem sentido, era que Moçambique tem uma associação de defesa dos direitos LGBT — a LAMBDA: Associação Moçambicana para a Defesa das Minorias Sexuais —, que publica a revista Cores. Nada disto teria sido possível durante os anos do terror maoísta (1975-1993), mas as coisas mudaram, felizmente para melhor.

Clique na imagem.

quinta-feira, 15 de março de 2018

HUGO MEZENA


Hoje na Sábado escrevo sobre Gente Séria, estreia de Hugo Mezena (n. 1983) no romance. É bom ler um primeiro romance esgalhado em prosa desenvolta. Frases enxutas, e em regra curtas, mergulham o leitor no seio de uma família em ambiente rural. Isenta de retórica, a intriga flui com naturalidade. Nenhum malabarismo semântico belisca o discurso: «Talvez o avô Jorge tenha começado a ficar senil no dia em que andou aos gritos pela casa.» Tendo boa noção dos tempos do discurso, bem como do efeito de distanciação, o narrador evita todo o tipo de enxúndia. A literalidade tem os seus óbices, mas é sempre preferível a metáforas patetas. Hugo Mezena não está sozinho na descrição da vida e hábitos rurais. Tiago Patrício, autor da mesma geração, dissecou esse peculiar universo em dois romances bem conseguidos. Contudo, o autor de Gente Séria tem a seu favor a ausência de ademanes ‘poéticos’. Dizer as coisas como elas são poderá não ser amável, mas tem o mérito da exactidão: «Quando cuspia do pátio para o quinteiro, o avô esforçava-se para acertar com os escarros uns em cima dos outros.» A história do narrador é contada por interposta família, dando a ler uma espécie de romance de formação aleatório. Não me parece despicienda a ideia de flashback contínuo, ou mesmo de romance-em-pretérito. Tudo aconteceu já. Narração autodiegética, portanto. Sem rodeios, os factos sucedem-se com meridiana clareza. Sirva de exemplo o estimulante episódio do autocarro: aos 17 anos, no Porto, joelho contra joelho de uma rapariga, o tio Alexandre excita-se com a possibilidade de sexo rápido. A fantasia não tem pés para andar e, com a braguilha a rebentar, o rapaz acaba na cama de uma balzaquiana da Foz, «uma mulher que sabia aquilo em que um homem pensava e deixava tudo isso acontecer. […] Uma mulher sem princípios.» Em dois andamentos, o percurso do engate prende o leitor. Infelizmente, pouco comum na ficção recente. Verdade que o autor tem experiência de escrita noutros domínios, isso explica o desembaraço do romance. Com efeito, «Há coisas que não param depois de terem sido postas em movimentoQuatro estrelas. Publicou a Planeta.

quarta-feira, 14 de março de 2018

STEPHEN HAWKING 1942-2018


Stephen Hawking morreu hoje de manhã. Tinha 76 anos. Foi o matemático, físico e cosmologista mais conhecido em todo o mundo, infelizmente pela pior razão: a esclerose lateral amiotrófica de que sofria desde 1963. A doença não o impediu de prosseguir investigações científicas decisivas para a humanidade, dar aulas, escrever dezasseis livros (sendo quatro de literatura para crianças) e participar do álbum The Division Bell (1994), dos Pink Floyd. Como tinha o sonho de experimentar a gravidade zero, a empresa Zero Gravity Corp proporcionou-lhe, em 2007, oito mergulhos parabólicos efectuados num avião especial.

Hawking casou duas vezes e foi pai de três filhos. A primeira mulher, Jane Hawking, professora, manteve uma relação extra-conjugal consentida e escreveu dois livros sobre a sua vida com Hawking. A segunda, Elaine Mason, enfermeira, foi acusada de abuso sobre o marido, mas Hawking não apresentou queixa, preferindo divorciar-se e voltar a privar com Jane, mãe dos seus filhos. Cinco dos seus livros, entre eles Breve História do Tempo (1988) e O Universo Numa Casca de Noz (2001), estão editados em Portugal pela Gradiva.

terça-feira, 13 de março de 2018

TILLERSON SAI


Trump anunciou há pouco, no Twitter, a substituição de Rex Tillerson por Mike Pompeo. O director da CIA vai ocupar o lugar de Secretary of State (ministro dos Negócios Estrangeiros), o mais importante da administração americana, num momento particularmente crítico da política internacional. Eu e Pompeo estamos sempre na mesma onda, disse o Presidente, para justificar a súbita escolha. Entretanto, Gina Haspel substituirá Pompeo à frente da CIA. Tillerson, 66 anos, amigo pessoal de Putin, é um influente homem de negócios, identificado com a ala moderada dos Republicanos, Chairman e CEO da ExxonMobil até entrar para a Casa Branca. Pompeo, 54 anos, é um falcão do Tea Party. Está tudo dito.

FRAUDE

Afinal não é só parolice. É mesmo fraude. Feliciano José Barreiras Duarte, secretário-geral do PSD, não ficou pelo CV e pelas badanas dos livros. No relatório sobre a actividade profissional (v.g. tese de mestrado) que apresentou, em 2014, à Universidade Autónoma de Lisboa, visando obter o grau de Mestre em Direito, na variante de ciências jurídicas e políticas, também refere o título de “visiting Scholar” da UC Berkeley, cargo que ocuparia desde 2009. Sabemos hoje que é mentira. Busílis suplementar: existe um documento falso.

Como escreve Nuno Garoupa no Facebook: «[...] Trata-se, portanto, de algo objetivamente falso. Terceiro, nos termos do que foi noticiado, Berkeley diz que nem visiting scholar foi. Evidentemente deve ser investigado pelo MP o dito documento. E com consequências potencialmente muito desagradáveis. Inclusivamente para o grau de mestre

O link para o CV de Barreiras Duarte pode ser consultado em vários murais do FB.

A todas estas, Rui Rio põe um ponto final: Já foi corrigido. Então ficamos assim.

segunda-feira, 12 de março de 2018

HUBERT DE GIVENCHY 1927-2018


Givenchy morreu no sábado, dia 10, mas só hoje a notícia foi divulgada pelo seu companheiro, o estilista Philippe Venet. Tinha 91 anos. Consta que Givenchy e Venet terão casado já este ano. Oriundo da nobreza francesa, Hubert James Marcel-Taffin de Givenchy fez de Audrey Hepburn, a partir de 1953, o ideal da mulher elegante. Foi ela aliás quem lançou o seu primeiro perfume, L’Interdit. Os dois foram grandes amigos até à morte da actriz. Givenchy era o costureiro preferido de algumas das mulheres mais carismáticas do século XX, tais como, entre outras, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Grace Kelly, Jacqueline Kennedy, Farah Pahlavi (imperatriz da Pérsia), Frederica von Stade, Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Wallis Simpson (a duquesa de Windsor) e Jeanne Moreau. Antes de, em 1952, abrir a sua própria Maison, foi director artístico de Elsa Schiaparelli. A morte surpreendeu-o durante o sono, no seu castelo renascentista, Le Jonchet, situado no Vale do Loire. Acabou, definitivamente, uma época.

MÉRITO CULTURAL

O ministério da Cultura repôs a atribuição do subsídio de Mérito Cultural, prática interrompida por Durão Barroso em 2003, quando Pedro Roseta era ministro da Cultura. O subsídio de Mérito Cultural foi instituído em 1982, quando Francisco Lucas Pires foi ministro da Cultura do Governo de Pinto Balsemão. Destina-se a autores e artistas com reconhecidas carências económicas.

sábado, 10 de março de 2018

PONTOS NOS II


Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura, hoje no DN —

«O acordo não é o melhor possível mas está vigente e segui-o para horror e espanto de muitos amigos. Não porque lhe tenha um grande amor, mas porque para mim a ortografia é uma convenção e não considero que a anterior seja a maior das maravilhas. Tudo se pode aperfeiçoar, é a minha opinião. Enquanto estiver em vigor vou segui-lo e lamento os meus amigos que consideram isto uma traição. Há como que uma luta de religiões em torno do acordo, só que eu não tenho religião

É exactamente o que eu penso, embora, por comodismo, continue a escrever como aprendi. Sobre o livro escreverei noutra ocasião e lugar.

sexta-feira, 9 de março de 2018

HOMERO


Homero em português de lei é factor de civilização. O conseguimento é notável, e os encómios vão todos para Frederico Lourenço, o tradutor— Escrevi isto em 2003, na revista LER. Quinze anos depois, a Odisseia ressurge completamente revista, fixada agora a partir da edição de Peter Von der Mühll, e não pela de T. W. Allen, como em 2003. Frederico Lourenço traduziu em verso os doze mil hexâmetros do livro, e desta vez incluiu notas e comentários. A edição segue as normas do novo Acordo Ortográfico. A Quetzal está de parabéns.

DOIS ANOS


Não sou apoiante do Bloco de Esquerda, partido em que nunca votei, mas, nas últimas eleições presidenciais, como é público, apoiei Marisa Matias.

Isto dito, fique exarado que me revejo na forma como Marcelo Rebelo de Sousa tem exercido o mandato de Presidente da República. Os detalhes coreográficos são secundários. Importante mesmo é a presença de um democrata em Belém. Não tenhamos dúvidas: com um nível de aceitação a roçar a unanimidade, outro no seu lugar não hesitaria em plebiscitar uma entorse constitucional. Ter isso presente.

quinta-feira, 8 de março de 2018

DIA DA MULHER


Conheci mulheres admiráveis ao longo da vida, e nem todas eram artistas, professoras, cientistas, juízas, diplomatas, médicas, funcionárias públicas ou escritoras, para dar exemplos que me são próximos. Não cito nenhuma em especial porque seria injusto com as outras. Mas posso citar minha Mãe (1920-2016), mulher admirável sob vários pontos de vista. Por pudor, abstenho-me de os ilustrar. A foto é de 1953, o ano em que, num meio fechado como era o de Lourenço Marques, avançou para o divórcio litigioso. Hoje parece fácil. Hoje.

GONZAGA & KURNIAWAN


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição de Doida Não e Não!, de Manuela Gonzaga (n. 1951), livro que tem por objecto um dos maiores escândalos da sociedade portuguesa das décadas de 1910 e 1920. O adultério de Maria Adelaide Coelho da Cunha fez manchetes nos jornais, deu origem a um belo filme de Monique Rutler e, com enfoques diferentes, a vários outros livros. Tornado público em Novembro de 1918, o adultério de Maria Adelaide foi uma cause célèbre que dividiu o país ao meio e expôs com clareza a subalternidade das mulheres. E esse é o aspecto central. Filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, Maria Adelaide era uma figura estimada da melhor sociedade de Lisboa, anfitriã de recepções lendárias, como as realizadas na Primavera de 1915 a pretexto das suas Bodas de Prata. Culta, emancipada, mãe de um único filho, cometeu a ousadia de abandonar o palácio de São Vicente para juntar-se a Manuel Claro, o motorista. Tinha então 48 anos, e o amante 26. Maria Adelaide adoptou o nome de Maria Romana Claro e refugiou-se com o amante em Santa Comba Dão, onde o marido e o filho os descobriram. Manuel Claro tinha sido despedido no ano anterior. A natureza das relações entre a mulher e o motorista não terão passado despercebidas a Alfredo da Cunha, o influente director do Diário de Notícias que julgava poder acabar com o affaire. Mas o afastamento não impediu encontros em quartos alugados. Uma vez descobertos, Manuel Claro foi preso e enviado para a Cadeia da Relação do Porto, onde cumpriu pena durante quatro anos. Maria Adelaide viu-se internada à força no Hospital Conde de Ferreira, do Porto. Começou assim um episódio sinistro da medicina portuguesa, de que foram cúmplices ‘sumidades’ como  Magalhães Lemos e a trindade da psiquiatria nacional: Egas Moniz, Júlio de Matos e Sobral Cid. Maria Adelaide foi interditada (assim permaneceu até 1944), como era de uso fazer às mulheres. Maria Adelaide e Manuel Claro viveram juntos, no Porto, até morrer. Manuela Gonzaga documenta bem os factos, mas a narrativa teria ganho com uma prosa mais passional. Três estrelas. Publicou a Bertrand.

Escrevo ainda sobre Homem-Tigre, o segundo romance do indonésio Eka Kurniawan. Entre nós, a edição de obras estrangeiras anda a reboque dos prémios mais mediatizados, o que explica a tradução deste livro, cuja edição em língua inglesa colocou Kurniawan entre os nomeados do Man Booker International Prize. Eka Kurniawan nasceu em 28 de Novembro de 1975, o dia em que Timor Leste declarou a independência, e ele gosta de sublinhar o facto, por estar associado à luta contra a opressão. Oriundo de uma família pobre de Java Ocidental, viria a ser activista contra a ditadura de Suharto. Considerado actualmente o escritor mais relevante da Indonésia, Kurniawan subsume a tradição oral dos camponeses, e simbologia correlata, na realidade urbana contemporânea, sem perder de vista o sobrenatural. Tudo isso conflui, em Homem-Tigre, para um inesperado thriller. Animal mítico, o tigre surge travestido de fêmea, encarnando em Margio, o jovem que morde a jugular de Anwar Sadat (não confundir com o presidente egípcio). De forma nem sempre linear, o romance faz o relato retrospectivo das causas do crime. O volume inclui uma excelente introdução de Benedict Anderson, a qual, presumo, fará parte da edição americana. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

terça-feira, 6 de março de 2018

ITÁLIA FASCISTA

Tudo indica que a Itália vá ser governada pela extrema-direita. Só não se sabe ainda quem, entre Luigi Di Maio e Matteo Salvini, será o próximo chefe do Governo. Luigi Di Maio, 31 anos, é o líder do partido mais votado, o M5E. Matteo Salvini, 45 anos, líder da LEGA, encabeça uma coligação de partidos com maioria no Parlamento e no Senado. A ver vamos. Tudo tem que estar decidido até ao próximo dia 23. Di Maio, oriundo de uma família fascista, não gosta da UE mas prefere continuar lá. Salvini, antigo militante da extrema-esquerda, admirador confesso de Putin, Trump, Le Pen e Geert Wilders, quer referendar a saída da Itália da UE. Ambos são anti-emigração. Venha o Diabo e escolha.

OCUPADOS


Se ainda não viu, vá ver. A RTP-2 começou a transmitir no dia 1 a série norueguesa Ocupados, dirigida por Erik Skjoldbjærg a partir de uma ideia original de Jo Nesbø. Plot: a Rússia ocupa a Noruega a pedido da UE. Motivo: dirigida por um primeiro-ministro Verde, a Noruega opta pela energia nuclear e decide cessar a produção de petróleo, gás natural e outros combustíveis fósseis. A UE discorda e pede a Moscovo que tome medidas. Tendo alcançado a independência energética e abandonado a NATO, os Estados Unidos alheiam-se do problema. Lembram-se do Anschluss austríaco de 1938? Pois é. Sentimos um arrepio na espinha.

Vi ontem os três episódios já exibidos, porque, além de verosímil, a antecipação ficcional é viciante. Na imagem, da esquerda para a direita, Eldar Skar, Henrik Mestad e Ane Dahl Torp. O edifício em pano de fundo, sede da Statoil, aparece na série como sede do Governo norueguês. Imperdível.

segunda-feira, 5 de março de 2018

A PALHAÇADA


A vitória do Movimento 5 Stelle instalou o caos. Luigi Di Maio, 31 anos, é o homem por quem terão de passar todos os entendimentos. Lembrar que o M5E, fundado em 2009 por um palhaço, se autodefine como um não-Partido, assumindo a defesa da democracia directa populista, anti-UE e anti-emigração. O Partido Democrata, do actual primeiro-ministro (como também do anterior), colapsou. Nada se resolverá sem uma coligação, mas o M5E (32,4%) recusa coligar-se com quem quer que seja. E os 18,8% do PD retiram-lhe margem de manobra.

Clique no gráfico do jornal italiano La Repubblica.

OSCARES 2018


Não vi os filmes de Guillermo Del Toro (este nem tenciono ver), Frances McDormand, Gary Oldman, Allison Janney e Sam Rockwell. Isto dito, não me pronuncio sobre a justeza dos prémios. Mas, pelo que leio nos jornais, ninguém ficou entusiasmado.

Clique na imagem.

domingo, 4 de março de 2018

TÔNIA CARRERO 1922-2018


Vítima de paragem cardíaca durante uma intervenção cirúrgica numa clínica do Rio de Janeiro, Tônia Carrero morreu ontem à noite. Tinha 95 anos. A actriz sofria de hidrocefalia, razão do seu desaparecimento do espaço público nos últimos seis anos. Mais conhecida, em Portugal, pelas novelas, Tônia Carrero tem um longo historial no teatro, tendo interpretado Shakespeare, Albee, Dürrenmatt, Ibsen, Feydeau, Tchekhov, Pirandello, Sartre, Duras, Tennessee Williams, Bernard Shaw, Noel Coward, Lillian Hellman, Plínio Marcos, William Luce e outros. Também fez cinema (vinte filmes) e performance, como em Quartett, de Heiner Muller. Tônia Carrero era mãe do actor Cecil Thiré.