sexta-feira, 20 de julho de 2018

ANA IMPUNE?

Em 2014, António Costa, então presidente da Câmara de Lisboa, fez aprovar a taxa turística de chegada aérea: um euro por turista. A medida entrou em vigor em Janeiro de 2015, ano em que a ANA pagou à CML cerca de 4 milhões de euros. Mas em 2016 e 2017 não pagou nada.

Agora, Bruxelas exige paridade entre turistas e residentes. Havendo taxa, pagam todos. E a Câmara de Lisboa optou pela lei do menor esforço: vai abolir a taxa.

O incumprimento da ANA? Fica no limbo? Ninguém pede explicações aos senhores José Luís Arnaut e Thierry Franck Ligonnière?

A título de curiosidade, o movimento (chegadas e partidas) do Aeroporto de Lisboa:

2015 — 20,1 milhões de passageiros
2016 — 22,5 milhões
2017 — 26,7 milhões.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O NOSSO DINHEIRO


Ruínas anteriores aos fogos de Pedrógão Grande foram transformadas em habitações ‘permanentes’ de gente que alterou a morada fiscal para tirar vantagem do estatuto de ‘vítima’. Os dirigentes e técnicos da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro assinaram de cruz?

Entretanto, meio milhão de euros «terá sido canalizado para situações irregulares.» A CCDRC notificou hoje o Ministério Público. Vem tudo na Visão.

Clique na imagem.

ANGELIKA SCHROBSDORFF


Hoje na Sábado escrevo sobre Tu Não És Como as Outras Mães, da alemã Angelika Schrobsdorff (1927-2016), autora inédita no nosso país que além de escritora foi actriz. Oriunda da alta burguesia de Berlim, tornou-se famosa pelo tom ‘promíscuo’ do primeiro romance, Die Herren, publicado em 1961. Mas seria preciso esperar trinta anos para dar à estampa a sua obra-prima, Tu Não És Como as Outras Mães. Trata-se da biografia da mãe, Else Kirschner, mulher inconformista muito à frente do seu tempo, alguém que por norma contrariava as convenções da boa sociedade. Pior: uma judia que desdenhava as tradições da cultura judaica. O destino da avó (morta no campo de Theresienstadt) marcará o espírito de Angelika. Por isso, o livro não perde de vista o horror da Solução Final. A partir dos anos 1910, a narrativa precede, acompanha e ultrapassa o período negro do III Reich, ora em Berlim, ora em Sófia. Else é judia, mas tem dinheiro suficiente para ter também muitos amigos e toda a sorte de recursos. Vista de Dahlem, o bairro mais exclusivo de Berlim, a realidade era outra. Em Else, a ‘excentricidade’ tinha a função de ademane. Fritz Schwiefert, o primeiro marido, iniciou-a nos jogos eróticos. O mundo desaba à volta deles, mas o frívolo círculo de Else procede como se nada acontecesse. Nenhum pormenor escapa à grande angular da autora. Else tem 20 anos quando começa a Primeira Guerra Mundial, mas a família passa incólume. Na qualidade de narradora autodiegética, Angelika intromete-se com frequência na narrativa. Inseridas a contraciclo, as recordações da baronesa Eugenie von Liebig são um bom exemplo. As questões identitárias (o que é ser judeu?) são parte importante da narrativa: «À Palestina não devo nada, e o sionismo é um mau plágio de todas as aspirações do nosso tempo. O que ganharíamos se fôssemos um povo?» — o desabafo consta de uma carta escrita a partir de Portugal. Na companhia da mãe, Angelika Schrobsdorff viveu na Bulgária durante a Segunda Guerra Mundial, e foi casada com o cineasta francês Claude Lanzmann, autor do mítico documentário Shoah (1985). Ambos viveram em Israel durante 25 anos. Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

SUÉCIA ARDE


Com temperaturas superiores a 30 graus a afectarem dois terços do país, a Suécia arde do Círculo Polar Árctico ao extremo Sul. Milhares de pessoas foram e estão a ser evacuadas de suas casas. Uppsala está rodeada de chamas. Jokkmokk é a zona mais crítica. Neste momento, 44 fogos, onze dos quais na parte sueca da Lapónia, obrigaram as autoridades a pedir ajuda internacional. A Noruega e a Itália já estão no terreno. O Governo sueco apela às populações para se voluntariarem.

O mapa é do jornal sueco Expressen. Clique na imagem.

terça-feira, 17 de julho de 2018

AMÉRICA EM TRANSE


Trump excedeu-se a si próprio. Na conferência de imprensa após o encontro com Putin, deixou claro que, no tocante à interferência de Moscovo nas presidenciais americanas de 2016, prefere a versão do czar russo em detrimento das conclusões da CIA corroboradas pelo procurador-especial Robert Mueller.

Dito de outro modo, Trump foi a Helsínquia desautorizar a Justiça e os serviços secretos americanos. As ondas de choque são de tal ordem que os Democratas podem ficar de braços cruzados.

Tratando o Presidente por imbecil, John O. Brennan, ex-director da CIA, escrevendo no Twitter, acusou-o de cometer traição. Paul Ryan, presidente da Câmara dos Representantes, declarou, com ênfase, que, contrariamente às afirmações do Presidente, a Rússia não é aliada dos Estados Unidos. Até os mais reaccionários comentadores da Fox News estão contra o seu ídolo.

Clique na imagem.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

HABITAÇÃO


Onze edifícios da Segurança Social, até agora ocupados por serviços, são hoje cedidos à Câmara de Lisboa para serem colocados no mercado de habitação, a preços controlados (rendas entre 200 e 600 euros). Em Outubro ou Novembro, os funcionários transitam para um edifício único, na Avenida 5 de Outubro.

Esses 11 edifícios estão situados na Rua Rosa Araújo, Rua Mouzinho da Silveira, Avenida da República, Avenida Visconde Valmor, Entrecampos, Avenida dos Estados Unidos, Campo Grande, Avenida Manuel da Maia e Alameda D. Afonso Henriques. Por junto, são 500 fogos, variando as tipologias entre T0 e T4. A Câmara de Lisboa vai gastar 23 milhões de euros a requalificar os 500 fogos. As primeiras casas serão entregues em Janeiro de 2019 e as últimas no ano seguinte.

Na imagem, o n.º 57 da Rua de Entrecampos, um dos edifícios visados, mesmo ao lado da pastelaria Granfina. Clique.

PENSÕES DA SEG SOCIAL

Foi hoje publicada no Diário da República a Portaria que actualiza os coeficientes de cálculo das pensões atribuídas pela Segurança Social.

Disso resulta uma actualização média de 1,42%. O diploma estabelece que os pensionistas de 2018 vão receber retroactivos reportados a 1 de Janeiro.

sábado, 14 de julho de 2018

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 57,2%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 14,7% (e a PAF em 7,2%). Em termos de popularidade, António Costa tem 34,2% contra 10,9% de Rui Rio. Entronização só com Marcelo: 64,2%. Nem quero imaginar o que outro PR, com este suporte de popularidade, já teria feito.

Clique no gráfico do Expresso.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

LAURA SOVERAL 1933-2018


Vítima de esclerose lateral amiotrófica, Laura Soveral morreu hoje. Lembro-me de a ver actuar em Lourenço Marques, salvo erro em 1969, ao lado de Jacinto Ramos. Além de teatro, Laura Soveral fez muito cinema e televisão. Casada com um dos filhos de Marcelo Caetano, nem por isso deixou de ser respeitada por todos os quadrantes ideológicos. Tinha 85 anos. Era, de facto, uma grande actriz. Não haverá cerimónias fúnebres.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

DESPEJOS SUSPENSOS

O Presidente da República promulgou hoje a Lei que suspende temporariamente (até 31 de Março de 2019) os despejos de pessoas com idade igual ou superior a 65 anos, ou com deficiência de grau não inferior a 60%, ou que sejam arrendatárias e residam no mesmo locado há quinze ou mais anos.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

SESINANDO


Hoje na Sábado escrevo sobre Obra Perfeitamente Incompleta, de José Sesinando (1923-1995), aliás José Palla e Carmo, autor de culto largamente desconhecido dos mais jovens. Coube a Abel Barros Baptista e Luísa Costa Gomes estruturar o acervo indisciplinado desta obra de difícil acesso, disperso por publicações avulsas, bem como por edições artesanais, privadas. Integrado na colecção de Ricardo Araújo Pereira, ao lado de títulos de Hasek, Diderot, Gontcharov e outros, Obra Perfeitamente Incompleta colige três livros de Sesinando: Obra Ântuma (1986), prosa humorística e poesia, e mais dois que nunca chegaram às livrarias — Olha, Daisy (1985) e Heteropsicografia (1985), variações sobre poemas de Fernando Pessoa, «dois livros extraordinários, sem comparação na posteridade pessoana», sublinha Baptista. Ensaísta, crítico e tradutor, Sesinando é um caso singular. A mordacidade assenta numa profunda cultura literária. Por exemplo: «O poeta é um rabujador / Que pega o touro pelos cornos» vale como retrato a traço grosso de Ary dos Santos. Quatro estrelas. Publicou a Tinta da China.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

AGITPROP PAROLO

Percebo que as pessoas comuns acreditem piamente no que dizem os jornais. A soldo de agências de spin e dos partidos do arco parlamentar, os jornais (atolados de notícias plantadas) facultam hoje uma informação residual. As pessoas comuns são livres de acreditarem no que quiserem porque não têm responsabilidades políticas. O que me deixa atónito é ver deputados a alinharem pelo mesmo diapasão.

Um exemplo na ordem do dia: os deputados, em especial os do BE e os do CDS, querem ouvir Medina sobre o contrato estabelecido entre Madona e a Câmara de Lisboa. A frota da cantora virou assunto de Estado. Mas por que raio esses deputados, antes do foguetório, não foram informar-se?

É que o espaço alugado a Madona esteve cedido, até Dezembro de 2017, ao Instituto de Conservação e Restauro José de Figueiredo, tutelado pela Direcção-Geral do Património Cultural. Nessa altura não importava acautelar os interesses da população? Isto para não falar dos outros dezanove contratos similares em vários pontos da cidade.

sábado, 30 de junho de 2018

MADONA & MEDINA


Começa a ser penoso ler jornais portugueses. Nem me refiro ao alinhamento ideológico ou à falta de cultura de 7 em cada 10 jornalistas (estou a ser generoso). Falo de desleixo. Os revisores de texto acabaram. Ponto. Mas sobram as fotografias.

Para ilustrar uma peça sobre Madona, e um hipotético favor de Medina, o Expresso publica uma fotografia da área das Janelas Verdes, assinalando o local onde seriam estacionados os quinze carros da cantora e respectivo staff.

Sucede que o espaço assinalado não existe há pelo menos dois anos. No seu lugar foi construído um edifício de apartamentos, signé Aires Mateus & Valsassina. Nas traseiras fica o jardim do condomínio. À direita fica o acesso ao estacionamento da embaixada do Luxemburgo.

Portanto, para dizer mal do Medina, não é preciso inventar. Aliás, na mesma página, outra fotografia desmente a imagem (muito antiga) do Google Earth.

Clique na imagem.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

MIGRAÇÕES


Depois de vencer quatro etapas, derrotando sucessivamente os outros candidatos, António Vitorino, 61 anos, membro do PS, antigo comissário europeu, foi eleito por aclamação director-geral da Organização Internacional das Migrações.

Com sede em Genebra, a OIM foi criada em 1951 para dar resposta ao caos provocado pelas populações deslocadas (onze milhões de pessoas) na sequência de Segunda Guerra Mundial. Actualmente tem como prioridade os refugiados da Síria e da Líbia.

PLATAFORMAS DE DESEMBARQUE


Este gráfico é eloquente. Sobre o fundo da questão: eram 04:30 da madrugada quando os líderes da UE acordaram estabelecer, fora de território europeu, centros de acolhimento de imigrantes. A ideia é facilitar a triagem: os imigrantes à procura de trabalho são devolvidos à origem, os refugiados políticos que comprovarem essa condição (e só esses) podem candidatar-se a visto de entrada na UE. A monitorização dos centros seria feita pelo ACNUR.

Cereja em cima do bolo: os países da UE ficam obrigados a tomar «todas as medidas internas necessárias para impedir o movimento de migrantes...» Dito de outro modo, a filosofia do Espaço Schengen não se aplicará, doravante, a imigrantes.

Os países terceiros com que a UE conta são os países do Magreb. Mas a Argélia, Marrocos e a Tunísia já fizeram saber que recusam. A Albânia, país europeu, também não quer. E a Itália vai deixar de subvencionar a Turquia, que até aqui tem sido generosamente financiada pela UE para acolher imigrantes em campos de onde não podem sair.

Deste modo, o Grupo de Visegrado (Eslováquia, Hungria, Polónia e República Checa), opositor firme das migrações, vê as suas teses caucionadas à outrance.

Clique no gráfico de El País.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

FONSECA & RUSHDIE


Hoje na Sábado escrevo sobre Calibre 22, de Rubem Fonseca (n. 1925), decano dos escritores brasileiros, gigante da literatura de língua portuguesa. Desta vez errou a pontaria. Acontece aos melhores. Fonseca foi polícia durante seis anos, e grande parte da obra aproveita essa experiência, instalando o mal no interior da própria linguagem. Ninguém o fez como ele. Infelizmente, Calibre 22, uma colectânea de 29 ‘contos’, devia ter ficado na gaveta. Os vindouros pelam-se por inéditos. Curiosa ironia. A Sextante tem vindo a publicar toda a obra de Rubem Fonseca. Mas, no momento de redefinir o seu catálogo (o que aconteceu há dois meses), a editora mudou também o layout dos volumes. Ou seja, o novo formato diz-nos que este é um livro diferente. Fonseca foi sempre excepcional nos contos. Os romances são bons, mas nessa área o Brasil tem melhor. Os contos sim, ímpares, sem equivalente em muitas línguas, daí a expectativa com Calibre 22. A decepção é um murro no estômago. A larga maioria destes ‘contos’ são breves crónicas, simples crónicas medíocres, e chamar-lhes assim roça o elogio, porque a maior parte delas são aquilo a que chamamos posts. Seria pleonástico explicar que conto, género de grande exigência, é outra coisa. Vejamos Ópera, foder e sanduíche de mortadela. Não é ficção, é para-ensaio memorialístico: «Ópera? Acho que não tem nem mesmo no Scala de Milão. Outro dia eu li no jornal […] Mas li errado, não enxergo muito bem…» O texto prolonga o desfasamento com a realidade: «As pessoas não fodem mais […] só os pederastas fodem […] metade da população do mundo é de lésbicas, gays, transexuais e por aí fora. […] Então eu podia imaginar o sofrimento do Evaristo quando descobriu que o filho ia virar filha e não lhe daria netos.» É triste ver um autor deste gabarito cair tão fundo. Numa prosa sibilina, Paulo Francis escreveu coisas tão disparatadas como estas (um autor tem direito a entesourar os seus equívocos), mas nunca lhes chamou contos. Os géneros literários perderam as balizas fundadoras? São os editores que decidem? Em suma, torna-se penoso ler Calibre 22. O problema é mesmo a prosa chilra. Uma estrela. Publicou a Sextante.

Escrevo ainda sobre A Casa Golden, de Salman Rushdie (n. 1947). Passaram trinta anos sobre a fatwa de Khomeini sobre o autor. É provável que muitos dos seus actuais leitores desconheçam o facto e suas sequelas. Rushdie vive hoje em Nova Iorque, e o seu romance mais recente, A Casa Golden, é um fresco da América actual. Abre com a ‘inauguração’ de Obama e a chegada a Manhattan, após o sangrento ataque ao Taj Mahal Palace Hotel, de um magnata de Mumbai acompanhado dos três filhos. Além da família de Nero Golden, cabe tudo no romance: centenas de filmes, actores e realizadores, dezenas de citações literárias, a homofobia de Rushdie, a caricatura das questões identitárias, o Tea Party, a cultura pop, a controvérsia do Gamergate, a xenofobia, a political correctness, o envenenamento de Litvinenko, o colapso do comunismo, as Primaveras árabes e mais uma dúzia de acontecimentos planetários. Até Trump, nomeado como Gary Green Gwynplaine, vulgo Joker, e com cabelo verde-lima. Uma parábola do admirável mundo novo? A escrita é brilhante, mas Rushdie confunde sarcasmo com reaccionarismo. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

SUÍÇA VAI FECHAR


Está explicado o anunciado encerramento da Suíça, a pastelaria. Os proprietários chegaram a acordo com o fundo internacional que adquiriu o quarteirão inteiro que separa o Rossio da Praça da Figueira, e decidiram cessar actividade. No quarteirão apenas vão permanecer a Casa da Sorte e a Ourivesaria Portugal.

Entretanto, a Câmara de Lisboa vai propor 44 lojas e estabelecimentos de Lisboa, a juntar aos 126 já classificados, para designação de ‘Loja com História’. Quatro exemplos: o restaurante Gambrinus, a Garrafeira Nacional, a Papelaria Fernandes e o restaurante Vá-Vá. A Suíça estava inscrita mas desistiu.

O vereador Ricardo Robles, do BE, sublinhou que «a cidade não se faz só de lojas com história, faz-se também de lojas normais.» Assino por baixo.

Lisboa não perde nada com o encerramento da Suíça. Não faz sentido manter aberto um estabelecimento que, na praça mais nobre da cidade, encerra às 22 horas.

terça-feira, 26 de junho de 2018

TEDH & CASA PIA


Estava escrito nas estrelas.
Clique na manchete do Expresso.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

VERO?

DIÁRIO DE NOTÍCIAS —  Ex-secretário-geral da NATO Javier Solana barrado na fronteira dos EUA [...] foi obrigado a tomar um avião de volta. — Errado.

Solana não foi barrado na fronteira dos Estados Unidos.
Solana não apanhou nenhum avião de volta.

O que sucedeu foi que o antigo secretário-geral da NATO e alto-Representante europeu de Segurança e Negócios Estrangeiros não obteve visto electrónico para entrar nos Estados Unidos por, no decurso das suas viagens oficiais, ter estado num, ou vários, dos países da lista negra: Irão, Iraque, Síria, Sudão, Líbia e Somália. Sem visto, não saiu de Madrid.

Isto acontece a toda a gente. Ainda recentemente aconteceu com uma jornalista portuguesa muito conhecida.

O computador está programado para emitir (ou recusar) visto em determinadas circunstâncias. O senhor Solana deve fazer o que fazem as pessoas nas suas circunstâncias: vai à embaixada explicar quem é. Ele não esteve para aí virado e não foi. Pode esperar sentado.

domingo, 24 de junho de 2018

MARCELO

Ontem, o Presidente da República desmaiou no Santuário do Bom Jesus. Uma nota da Presidência da República esclarece:

«Os exames efetuados no Hospital de Braga confirmaram que o Presidente da República sofreu uma gastroenterite aguda. Os médicos recomendaram hidratação e repouso [...]»

Não esquecer que, há seis meses, o PR foi operado de urgência a uma hérnia umbilical. Esteve internado três dias, embora este tipo de cirurgia seja feita (salvo em casos de especial gravidade) em regime ambulatório. Não ficou no Curry Cabral para ver passar os comboios, ficou porque o seu estado de saúde o exigiu. A saúde do Chefe do Estado não é assunto do foro privado. A Casa Civil fez bem em esclarecer, porque a especulação mediática envenena a realidade.

Agora convinha esclarecer a urgência da viagem a Washington. O primeiro-ministro diz que é muito importante. Porquê? A NASA vai montar uma rampa de lançamento em Belém?

sexta-feira, 22 de junho de 2018

GRÉCIA LIMPA

Apesar das reticências de Berlim, o Eurogrupo acaba de disponibilizar 15 mil milhões de euros à Grécia, a juntar aos 275 mil milhões recebidos desde 2010, para facilitar o regresso do país aos mercados, a partir de 1 de Agosto, data do fim do terceiro resgate.

Centeno dixit: «A dívida grega é sustentável daqui para a frente.» Com outro presidente, que não Centeno, o Eurogrupo teria este comportamento?

FIZZ

Por causa do Caso Fizz, o processo abstruso que envolve procuradores e advogados portugueses, mais o antigo vice-presidente de Angola, o Ministério Público criou um caso político sem precedentes, exigindo que Manuel Vicente fosse julgado em Portugal. Luanda reagiu, retirando o seu embaixador de Lisboa (acto de grande melindre) e adiando sine die visitas a Angola de Marcelo e Costa. No seu discurso de posse como PR, em 26 de Setembro de 2017, o general João Lourenço citou duas dúzias de países amigos, mas Portugal não fazia parte da lista. Marcelo estava na tribuna. Dezenas de milhares de trabalhadores e centenas de empresários portugueses radicados em Angola viram congeladas as transferências dos seus salários para fora do país (e cortado o acesso a divisas). Entretanto, no passado 10 de Maio, o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu que Portugal não tinha competência para julgar Manuel Vicente, que tem imunidade até Setembro de 2022, e pode a qualquer momento ser indultado.

Cereja em cima do bolo: ontem, o MP pediu absolvições e penas suspensas para os arguidos do Caso Fizz. Quanto custou tudo isto ao erário público?

quinta-feira, 21 de junho de 2018

KLOBUCKA & STEINBECK


Hoje na Sábado escrevo sobre O Mundo Gay de António Botto, de Anna M. Klobucka. Como escrevi na introdução de Canções e Outros Poemas (2008), António Botto foi sempre, por razões que a sociologia da literatura decerto explicará, um caso mal resolvido. Passados quase 60 anos da morte do poeta, atropelado no Rio de Janeiro em 1959, Klobucka publicou o estudo que fazia falta. Não é despiciendo que o tenha feito, na medida em que Botto foi, nos anos 1920, um percursor da poesia de inscrição homossexual. Verdade que Wilde e Gide, oriundos de tradições literárias fortes, eram lidos e alvo de controvérsia em todo o mundo. Botto contou quase só com Fernando Pessoa, que publicou a segunda edição de Canções, escreveu ensaios em seu louvor e, por interposto Álvaro de Campos, invectivou os universitários de Lisboa por ocasião do auto-de-fé de 5 de Março de 1923 (exemplares de Canções foram apreendidos pelo Governo Civil de Lisboa e queimados no Rossio). Além de Pessoa, Aquilino Ribeiro foi o único autor a repudiar publicamente a campanha ultramontana. No seu estudo, Anna M. Klobucka faz um minucioso tour d’horizon à vida do poeta, sem esquecer as origens humildes, a conhecida «propensão para a autoinvenção ficcionalizante», a celeuma das traduções, as amizades virtuais, o casamento, a partida para o Brasil, a conversão religiosa, a doença e a morte. Nada disto é novidade, mas os factos são dissecados à luz do que Klobucka considera ser, por antecipação, o perfil queer do poeta. Com recurso ao espólio depositado na Biblioteca Nacional, a autora ilumina os doze anos de permanência (1947-59) de Botto no Brasil. Tal como acontece com a obra de Florbela Espanca, a de Botto tem sido (apesar dos encómios de Pessoa, Régio e Sena) subestimada. Fossem eles autores de expressão inglesa, e seriam hoje ícones dos movimentos feministas e LGBTI. Klobucka não o diz desta forma, mas a sua análise dos poemas, contos, peças de teatro e cartas, muito próxima da close reading, passe o pleonasno, ajuda a perspectivar Botto sob enfoque gay/queer. Indispensável. Cinco estrelas. Publicou a Documenta.

Escrevo ainda sobre Um Diário Russo, de John Steinbeck (1902-1968). Como muitos escritores cujas carreiras atravessaram a Guerra Fria, também Steinbeck foi ver como era a União Soviética. Entre nós, são relativamente recentes as publicações dos ‘diários russos’ de Gabriel García Márquez e Urbano Tavares Rodrigues. Steinbeck teve a enorme vantagem de fazer a viagem na companhia de Robert Capa, o célebre fotógrafo. As fotografias, em regra muito boas, foram incluídas no volume. Visitar a URSS em 1947, dois anos após o fim da guerra, não era fácil. Por exemplo, Estalinegrado continuava um monte de ruínas, e necessitava com urgência de «meia dúzia de escavadoras». O périplo incluiu a Ucrânia e a Geórgia, então parte do território russo. Steinbeck não fez proselitismo pró-russo nem alinhou na fronda anti-soviética. Sem perder objectividade, o relato é caloroso, na medida em que o autor se preocupou com as condições de vida das pessoas comuns. Quatro estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

BASTA


É altura de dizer basta aos métodos das autoridades americanas de fronteira. A actual política migratória da administração Trump traz de volta velhos fantasmas. O texto supra, da autoria de Richard Zimler, foi subscrito por dezenas de escritores e editores de língua portuguesa.

Clique nas imagens para ler o manifesto e o nome dos signatários, entre os quais me encontro.

CANNABIS LIVRE

Por 52 votos contra 29, o Senado do Canadá aprovou o uso da cannabis para fins recreativos. Mas fica interdito a menores. Pode-se cultivar em casa. Na rua, cada pessoa não poderá transportar consigo mais do que 30 gramas.

A cannabis será vendida em supermercados e mercearias de bairro, como as hortaliças e os tremoços. O processo de preparação para venda (embalagens, secção da loja, preço, etc.) não pode exceder as próximas 12 semanas, mas terá uma data definida pelo Governo antes desse limite.

Isto só acontecia no Uruguai. Agora também vai acontecer no Canadá.

terça-feira, 19 de junho de 2018

OS ANOS KENNEDY


Le Consulat, o hotel do topo do Largo do Camões, tem a partir de amanhã expostas ao público as 160 fotografias dos Kennedy Years, oriundas do Museu JFK de Boston, acervo organizado por Frédéric Lecomte-Dieu. Abriu hoje, para convidados do American Club de Lisboa. Fica até Setembro, na galeria de arte do hotel, ao lado do bar do primeiro piso. Vale a pena.

Clique na imagem.

TRANSEXUALIDADE


A Organização Mundial de Saúde retirou a transexualidade da lista de transtornos psicológicos. Dito de outro modo, reconhece que a identidade de género transexual não é uma doença. Já não era sem tempo.

Clique na imagem com o aviso da OMS.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

RANKING FT

Do ranking 2018 do Financial Times, agora divulgado, fazem parte três escolas portuguesas. Portuguesas? Vero?

São elas a Nova School of Business and Economics, classificada em 21.º lugar; a Católica-Lisbon, em 23.º e, a seguir, o ISCTE Business School, em 27.º (o ranking reporta às 30 melhores, em todo o mundo). Já sei que as aulas são dadas em inglês, mas faz-me muita confusão ver as escolas oficialmente designadas em língua estrangeira.

A tudo isto, os adversários contumazes do AO90 dizem nada. É claro que as consoantes mudas são mais importantes. Obviously!

AXIMAGE


Maioria de Esquerda = 54,5%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 9,2% (e a PAF em 2,9%). Centeno é considerado o melhor ministro. Tiago Brandão Rodrigues o pior.

Partido a partido: PS 37% / PSD 27,8% / BE 10,3% / CDU 7,2% / CDS 6,3%. 

Sondagem publicada no Correio da Manhã. Clique na imagem.

domingo, 17 de junho de 2018

AFFAIRE AQUARIUS


Agora vamos ficar todos contentes, porque esta coreografia foi pensada ao milímetro para não perturbar os espíritos sensíveis.

Foi assim:

Distribuídos por três embarcações, o navio Aquarius e dois vasos da Marinha de Guerra italiana, chegaram hoje a Valência os 629 imigrantes que andavam à deriva no Mediterrâneo.

O primeiro chegou quando eram 05:50 em Portugal, e os restantes com intervalos de três horas. O Aquarius foi o último a chegar. Sob orientação da Cruz Vermelha, uma equipa de 2.300 pessoas, formada por polícias, funcionários da Emigração, tradutores, stewards, enfermeiros, médicos e advogados, está a monitorizar o desembarque. Cem jornalistas foram autorizados a permanecer no local. Equipados com macacões de corpo inteiro, luvas, termómetros infravermelhos e máscaras apropriadas para situações de catástrofe e pandemia, os médicos e enfermeiros foram os primeiros a subir a bordo.

Os imigrantes receberam três formulários: um para solicitar autorização de permanência em Espanha, até ao limite de 45 dias, ou seja, um proforma para formalizar o desembarque; outro para solicitar asilo em Espanha; outro para solicitar asilo num país terceiro (a França está disposta a receber os muito qualificados). Entre os 629 imigrantes estão 43 argelinos e 11 marroquinos, grupo que vê o seu futuro com grande preocupação.

Nenhum dos 629 imigrantes está documentado.

Clique na imagem de El País.

sábado, 16 de junho de 2018

ÉTICA, DIZEM ELES

No 11 de Setembro, os media americamos fizeram um pacto: respeito pelas vítimas, familiares e amigos das vítimas; respeito pelos leitores e, portanto, pela profissão de informar. Nenhum jornal publicou fotografias de pedaços de corpos despedaçados ou queimados: mamas abertas ao meio, um braço, uma tíbia, um pé, uma cabeça, troncos separados dos membros inferiores, o horror de gente atirar-se para o vazio antes da derrocada final. E são aos milhares. Uma criteriosa selecção desse acervo de pesadelo consta do álbum de grande formato (31x22cm), cerca de novecentas páginas, e muitos quilos, editado pela Scalo em 2002, com o patrocínio da Volkart Foundation. Um documento para os vindouros: Here is New York. A democracy of photographs.

Vem isto a propósito de quê?

Hoje, a capa do Público ultrapassa todos os limites da decência. Pedrógrão Grande foi uma tragédia, com certeza. Querem fazer dela instrumento político? É simples: fundam um partido e concorrem às eleições. Basta de agitprop à custa de algumas famílias destroçadas.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

MANAFORT FOI DENTRO

Por decisão de Amy Berman Jackson, juiza do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia, o advogado Paul Manafort, ex-director de campanha de Trump, deu hoje entrada na cadeia, acusado de obstrução à justiça.

Manafort aguardava julgamento em prisão domiciliária, sob fiança de dez milhões de dólares. Porém, promotores da equipa de Robert Mueller (o antigo director do FBI que, desde Maio de 2017, exerce o cargo de Procurador Especial para o caso da alegada interferência russa nas presidenciais americanas de 2015) provaram que Manafort tentou, já este ano, manipular testemunhas do processo.

Sob custódia desde 30 de Outubro de 2017, Manafort é também acusado de ter feito lobby a favor de Viktor F. Yanukovych, o antigo presidente ucraniano pró-russo.

CANNABIS

Com os votos favoráveis do PSD, PS, BE, PCP, PEV e PAN, o Parlamento aprovou hoje de manhã a utilização de cannabis para fins medicinais. O CDS absteve-se. O diploma aprovado em votação final global subsume os projectos do BE e do PAN. O Infarmed supervisionará os medicamentos feitos com cannabis, e terá de ser um médico a prescrever.

AQUARIUS, AGAIN

Se tudo correr bem, os 629 imigrantes que estavam a bordo do Aquarius chegarão a Valência no próximo domingo. Espanha ofereceu-se para os receber porque o Aquarius permanecia à deriva junto ao limite das águas territoriais italianas. Mas não os vai aceitar como residentes. Magdalena Valerio, ministra do Trabalho, Migrações e Segurança Social, já desautorizou Mónica Oltra, assessora do PSOE com o pelouro da Igualdade e Políticas Inclusivas, que tem falado como se os 629 imigrantes tivessem garantida a condição de refugiados. Nada disso, esclareceu a ministra. Os embarcados serão enviados para um centro de acolhimento (e para hospitais os que estão doentes) controlado pelas autoridades migratórias, onde cada um será avaliado em função de diversos parâmetros. Para a larga maioria, Valência será uma escala antes do regresso ao país de origem. É evidente que, com o bruá do Mundial, os imigrantes vão ser devolvidos à Líbia num ápice.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

PARLAMENTO EUROPEU

Um dos receios do Brexit era a diminuição das quotas nacionais de deputados no Parlamento Europeu. Portugal continuaria com 21 lugares? Como as eleições são em Maio de 2019, dois meses depois da saída formal do Reino Unido (na prática tudo funciona já como se os Estados-membros fossem apenas 27), havia que aprovar o novo quadro. Aconteceu ontem: por 566 votos a favor, 94 contra e 31 abstenções, foi aprovada em votação final global a composição do Parlamento Europeu pós-Brexit. Com a saída dos brits, o Parlamento que vai a votos no próximo ano reduz de 751 para 705 os seus deputados, mas Portugal mantém a quota de 21. Lembrar que Pedro Silva Pereira, vice-presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais do PE, viu a sua proposta aprovada sem qualquer alteração.

LÍDIA & BUZZATI


Hoje na Sábado escrevo sobre Estuário, de Lídia Jorge (n. 1946). Tendo a ficção portuguesa sofrido uma guinada quando a autora publicou o primeiro livro, é bom verificar que, ao fim de 38 anos, a obra permanece incólume. O título mais recente mantém a pujança inaugural. Dominando na perfeição todos os recursos narrativos, Lídia Jorge constrói o romance a partir da figura de Edmundo Galeano, um jovem regressado do inferno de Dadaab, um dos campos de refugiados que o ACNUR mantém no Quénia, lá onde «o passado estava a extinguir-se e o futuro surgia com a configuração deprimente de uma civilização alimentada de pó.» Edmundo voltou com a mão direita praticamente reduzida ao indicador, mas nem por isso deixou de querer escrever um livro sobre o quotidiano atroz desses povos desapossados. A maior dificuldade era mesmo como chamar-lhe. A autora é muito hábil na forma como ilustra o contraponto das premências. De um lado, os equívocos da ajuda humanitária. Do outro, o desajuste das famílias. No plot, leva a melhor o lado da guerrilha familiar, cada irmão cada pulsão, segredos, mentiras, dribles e compromissos, a Titi entre uma cadeira e a cama, o velho armador em vias de perder os dois navios que restavam, o primogénito cheio de si, a mana azarada, o advogado falido e o cavalo Imortal, mais os outros todos. É uma família portuguesa, com certeza. Acerca de nós todos já a autora provou saber. Sirvam de exemplo dois romances sintomáticos: O Dia dos Prodígios (1980), parábola do desencontro entre o país rural e a ‘vanguarda abrilista’, e A Costa dos Murmúrios (1988), sobre sequelas da guerra colonial em Moçambique. O regresso de Edmundo à casa do Largo do Corpo Santo, no Cais do Sodré, onde o pai acabaria por enforcar-se, coincide com o desmoronar da família Galeano: os navios fundeados em Abidjan foram arrestados, Sílvio vendeu o iate BlowUp, tudo rui à volta deles. Só o livro continua por escrever. Talvez por isso surjam, como tentames literários, excertos truncados da Ode Marítima, de Fernando Pessoa, da Ilíada, o poema épico atribuído a Homero, e de uma citação de Philippe Jaccoter. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Sessenta Contos, de Dino Buzzati (1906-1972). A Cavalo de Ferro traz de novo o autor à edição portuguesa. Sessenta Contos, a famosa colectânea de 1958, é uma excelente oportunidade para dar a conhecer um nome incontornável da literatura italiana. Autor de romances, contos, libretos de ópera, peças de teatro, crónicas e poemas, Buzzati tornou-se mundialmente conhecido quando publicou O Deserto dos Tártaros. Os contos aqui reunidos foram extraídos de três obras: Os Sete Mensageiros (1942), Pânico no Scala (1949) e A Derrocada da Baliverna (1954). Buzzati tão depressa salta do surrealismo para a antecipação científica, como do realismo mágico para o existencialismo. Era Proibido é um dos textos mais conhecidos: «Desde que a poesia foi proibida, a vida é certamente muito mais simples entre nós […] A produtividade é a única coisa que verdadeiramente interessa…» A lembrança do totalitarismo mussoliniano permaneceu viva na memória do autor, que foi correspondente de guerra na Etiópia e na Itália antes de ganhar notoriedade como jornalista de crimes e suicídios, mas também como crítico de arte. O resultado são estes contos tão diferentes entre si. Cinco estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

PSOE MUDA MINISTROS


Màxim Huerta demitiu-se hoje de ministro da Cultura de Espanha. Motivo: entre 2006 e 2008 defraudou o fisco em 257 mil euros. Homossexual assumido, Màxim Huerta, 46 anos, é o tipo de provocador e intelectual público com tribuna nas redes sociais.

Sánchez já o substituiu por José Guirao, 59 anos, actual director-geral da Fundación Montemadrid, e antigo gestor do Centro de Arte Reina Sofía (1994-2001) e da Casa Encendida (2002-14).

Nas imagens, Huerta de casaco azul, Guirao de casaco caqui.

JUSTIÇA FRANQUISTA?


Iñaki Urdangarin, 50 anos, campeão olímpico de andebol, cunhado do rei de Espanha, já está em Palma, onde cumprirá 5 anos e 10 meses de prisão. O antigo duque de Palma (o título foi-lhe retirado quando os tribunais deram como provado o seu envolvimento em desvios de dinheiro), que tem vivido em Genebra desde que o escândalo rebentou, tem agora cinco dias para entrar na prisão. Não se sabe se a infanta Helena e os quatro filhos continuam na Suíça.

Em Portugal, um homem como Urdangarin nunca seria preso. Portanto, quem gosta de classificar a justiça espanhola como franquista, devia olhar à sua volta.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

TWILIGHT ZONE


Quatro horas passadas desde o gesto de boa-vontade de Sánchez, o Aquarius, navio fretado pela SOS Mediterranee (Médicos Sem Fronteiras) que estava à deriva no Mediterrâneo com 629 imigrantes a bordo, continua parado junto ao limite das águas territoriais italianas. Há jornalistas a bordo: a fotografia que junto é uma das muitas que Oscar Corral fez. Aparentemente, a organização não está interessada em seguir para Espanha. Itália, ou nada. O desembarque em Valência punha ponto final no problema. Isso interessa?

Clique na imagem de El País.

AQUARIUS EM ESPANHA


Por razões humanitárias, o Governo espanhol decidiu acolher o navio Aquarios, fretado pela SOS Mediterranee, que estava à deriva no Mediterrâneo com 629 imigrantes a bordo. Valência será a cidade de acolhimento. A decisão de Sánchez reage à proibição decretada pela Itália e por Malta.

Clique na foto de Oscar Corral, para El País.

IMOBILIÁRIO

Há mais de um ano que os jornais especulam com a bolha imobiliária nacional. Sucede que, fora das páginas especializadas de economia, o imobiliário é um não-assunto. Os jornais publicam anúncios de venda de casas como se fossem notícias. Hoje, no Diário de Notícias, o descaramento é tão gritante que dá que pensar.

A publicidade encapotada não foi inventada ontem. Nem a manipulação do mercado. Mas devia haver mínimos de decência. Este tipo de manchetes e notícias serve exclusivamente os interessas das imobiliárias, em especial das três ou quatro que dominam o mercado. Criando a ilusão dos preços demenciais, julgam predispor a sociedade para o disparate. Não estou a dizer que não se fazem negócios absurdos. Claro que sim. Não faltam novos-ricos parolos e estrangeiros incautos. Mas a regra desmente o agitprop dos media.

AQUARIUS


Pela boca de Matteo Salvini, vice-presidente do Governo, a Itália proibiu a entrada do navio Aquarius nas suas águas territoriais. A bordo estão 629 imigrantes africanos, sendo 123 menores desacompanhados, onze crianças e sete mulheres grávidas. Luigi Di Maio, o outro vice-presidente, líder do 5 Stelle, tentou matizar a decisão, mas Salvini, líder da Liga, o partido de extrema-direita que integra a coligação, é para todos os efeitos o chefe do Governo. Giuseppe Conte, o tecnocrata que bateu com a porta mas depois voltou, chefia o Governo para UE ver (não esquecer que foi escolhido e imposto pela Liga). Salvini argumenta que a Itália não tem que aceitar o que Malta, a Espanha e a França não aceitam. A decisão não surpreende. As autoridades de Palermo, capital da Sicília, bem como as de Nápoles, estariam dispostas a receber o Aquarius, mas a Guarda Costeira já fez saber que cumpre ordens de Roma e apenas de Roma.

Clique na imagem de La Repubblica.

sábado, 9 de junho de 2018

ÁREAS DE SERVIÇO


Nas autoestradas estamos razoavelmente servidos de áreas de serviço. Melhores que as de Espanha, por exemplo. Mas, para mal dos nossos pecados, descobri ontem (e só ontem porque nos últimos dois anos temos evitado a A1, optando pela A8) que a de Santarém deixou de ter terminais de multibanco, deixou de vender jornais, revistas e lotaria, a loja deixou de vender gelados, o balcão dos cafés fechou, e no self-service, que reduziu a oferta para um terço, não se pode comer um hambúrguer depois das 14h. Isto não é uma anedota. Infelizmente é a realidade. As empregadas explicaram que a gerência mudou em Janeiro, em todas as áreas da A1, sendo a empresa comum. Cartelização, portanto. Só parámos nesta, que por acaso era a melhor de todas antes da mudança. Não faz sentido sob nenhum ponto de vista. Estas coisas, que deviam interessar os jornais, nunca são publicamente discutidas. E deviam.

Esta foto não é de Santarém. Foi tirada por mim mas nem sequer no nosso país. Era assim que as áreas de serviço da A1 deviam ficar: vazias. Uma área que não presta serviços básicos como multibanco e venda de jornais e revistas, serve para quê? Estranho capitalismo. Clique na imagem.

DA FAMA

O foguetório mediático é um ersatz medíocre do reconhecimento crítico. Escrevi sobre isto mais de uma vez. Por isso, continua a surpreender-me o número dos meus pares que, já não tendo 18 anos, sofrem com a desatenção dos media. Não vale a pena. Já não valia no tempo em que uma plêiade de jornalistas culturais (Alexandra Lucas Coelho, Ana Marques Gastão, António Mega Ferreira, Clara Ferreira Alves, Fernando Assis Pacheco, Fernando Dacosta, Francisco Belard, Francisco José Viegas, Isabel Coutinho, Luís de Miranda Rocha, Maria Augusta Silva, Tereza Coelho) honrava o métier e, por maioria de razão, agora que o jornalismo cultural foi extinto. Este agora tem 20 anos. A importância do foguetório mediático traduz-se na inconfidência que passo a relatar.

Sendo obrigado, todos os anos, a desfazer-me de livros para os quais não tenho espaço em casa, encaminho-os para instituições de solidariedade social. Um dos critérios de escolha assenta em desfazer-me de obras que os jornais, e alguns intelectuais públicos, em determinada altura, consideraram fundadores de uma nova literatura. Terá sido aí que nasceu o termo incontornável. Encheram-se páginas broadsheet com retratos e loas. Lixo. Nenhum daqueles livros acrescentou nada. E o espaço faz-me falta.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

ANTHONY BOURDAIN 1956-2018


Suicidou-se hoje Anthony Bourdain, o chef roqueiro que a televisão tornou mundialmente conhecido. Bourdain foi encontrado enforcado, hoje de manhã, pelo seu amigo Eric Ripert, no quarto que ocupava em Le Chambard, um exclusivo hotel de Kaysersberg-Vignoble, a 75 quilómetros de Estrasburgo. No próximo dia 25 faria 62 anos.

Na imagem, Bourdain e António Lobo Antunes, no Bairro Alto, em 2011. Clique

quinta-feira, 7 de junho de 2018

MÁRIO DE CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos, de Mário de Carvalho (n. 1944). Tomando de empréstimo um verso de Cesariny, o autor juntou onze contos novos nesta colectânea. Estamos de volta à comédia humana conforme Balzac a formatou. Valor acrescido, neste caso, uma vez que é de nós que o autor trata. Perdido o lastro marxista do opróbrio, o que é hoje um burguês? Um trabalhador com pelo menos três salários mínimos no bolso, apetência por tectos falsos e WC social com música ambiente? Papás ciclistas com a ninhada a tiracolo? Gestoras obcecadas com o próximo team building…? As mulheres que o narrador nos apresenta põem os cornos aos maridos, mesmo as que o fazem por omissão. Algumas, como Leonor, praticam intercaladamente, ora com um magano desempoeirado, ora com um relapso. Afinal, Leonor «presisava de folguedo, mas também de drama. Não era uma alma simples…» O cinismo é de regra, mas não há outra forma de dizer as coisas. As boas intenções dão má literatura, e estes contos podem ser acusados de tudo excepto de deliquescência. Sirva de exemplo O fim da lista, texto amargo, porém isento de melodrama. Na realidade, o fim da linha, com flashback jubilatório: «os tempos em que a relva do Estádio Universitário era afago de abraços espojados…» Na sua exactidão, terrível a imagem de Luísa Fróis em contraluz. Como disse um dia Montherlant, «O mundo dos que vão viver e o mundo dos que vão morrer não tem medida comum.» Sob a fina camada dos sketches passionais que a maioria dos leitores vai reter, é sobretudo de envelhecer que este livro trata. O excelente Por onde tens andado? talvez seja o exemplo óbvio porque nem tudo se expõe com igual clareza. São muitos os temas ilustrados. Destaco a engenharia social, o sexo, doença, o arrivismo, o refluxo ideológico, a fraude bancária (em Transes bancários, como não ver o transe do Banco Privado Português?). Esgalhados em português de lei, estes contos são quase todos magníficos. Cinco estrelas. Publicou a Porto Editora.

terça-feira, 5 de junho de 2018

PSOE NA MONCLOA


Este é o núcleo duro do Governo do PSOE. De cima para baixo e da esquerda para a direita: Sánchez, o Presidente; Carmen Calvo, vice-presidenta, com os pelouros da Igualdade e das relações com a Corte; José Luis Ábalos, ministro do Fomento; María Jesus Montero, ministra da Fazenda; Teresa Ribera, ministra do Ambiente; Josep Borrell, ministro dos Negócios Estrangeiros; Margarita Robles, ministra da Justiça; Meritxell Batet, ministra da Administração Territorial; Pilar Cancela, ministra do Interior. Faltam outros nove.

Carmen Calvo, 60 anos (a partir de dia 7, quinta-feira), vice-presidenta, catedrática em Direito constitucional, tem sido responsável pelas políticas da Igualdade no PSOE. O novo MNE, Josep Borrell, 71 anos, várias vezes ministro, foi vice-presidente do Parlamento Europeu. É catalão anti-independência e um declarado inimigo de Puigdemont.

Clique na imagem de El País.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

RACISMO NA FEIRA DO LIVRO


Não assisti, mas confio no relato de Bárbara Bulhosa. Sábado, um debate sobre racismo, organizado pela editora Tinta da China a pretexto do livro Racismo no País dos Brancos Costumes, da jornalista Joana Gorjão Henriques, foi sabotado por uma assalariada da APEL, de seu nome Beatriz Reis. Fardada com uma camisola da associação, a mulher referiu-se aos membros da mesa (Ana Tica, Beatriz Dias, Mamadou Ba, Raquel Rodrigues e a autora do livro) como «esta gente», várias vezes os interrompeu com comentários de mau gosto e, a dez minutos do final da sessão, interpelou Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, com um intempestivo «Vê lá se te despachas!» A sessão terminou ali. A mulher continuou: «Com a Tinta da China é sempre isto, quem julgam que são?» Isto no meio de um «chorrilho de insultos». Abominável.

Bárbara Bulhosa apresentou queixa, naturalmente.

A foto foi roubada do seu mural do Facebook. Clique

sábado, 2 de junho de 2018

CATALUNHA SAI DO COMA?

Pondo fim a sete meses de vazio, tomaram hoje posse em Barcelona os membros do executivo autonómico da Catalunha, chefiado por Quim Torra. A cerimónia ocorreu duas horas depois da posse do novo Presidente do Governo de Espanha. Com a entrada em funções do novo Govern, cessou a aplicação do artigo 155 da Constituição. Foram empossados: Pere Aragonès, Elsa Artadi, Àngels Chacón, Ernest Maragall, Miquel Buch, Josep Bargalló, Alba Vergés, Damià Calvet, Laura Borràs, Ester Capella, Chakir El Homrani, Jordi Puigneró e Teresa Jordà. O Govern está neste momento reunido, naquela que é a primeira reunião do executivo catalão desde 24 de Outubro de 2017.

SEM BÍBLIA & CRUCIFIXO


Na presença do rei, Sánchez tomou hoje posse como Presidente do Governo de Espanha (cargo que exerce, de facto, desde ontem). Ao contrário dos seus seis antecessores, Sánchez fez saber que não aceitava o exemplar da Bíblia e o crucifixo que tradicionalmente fazem parte dos adereços de cena. Era ele e a sua palavra, ponto. Nunca tal tinha acontecido na Zarzuela.

Clique na imagem de El País.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

ACABOU A SAGA?


A procuradoria-geral alemã instou o Tribunal Regional Superior de Schleswig-Holstein a extraditar imediatamente Puigdemont para Espanha, sob acusação de rebelião e desvio de fundos.

Clique na imagem do Bild.

DONE!


Com os votos do PSOE, mais os de PODEMOS, ERC, PNV, PDeCAT, Compromís, Bildu e Nueva Canarias, perfazendo um total de 180, a moção de censura foi aprovada. Rajoy caiu. Pedro Sánchez, 46 anos, economista, líder do PSOE, é o novo Presidente do Governo de Espanha desde as 10:29 desta manhã, hora portuguesa.

Clique na imagem de El País.

A HORA DE SÁNCHEZ


A menos que aconteça um imprevisto, o PSOE regressa hoje ao poder. Na pessoa de Pedro Sánchez, quem diria?, os socialistas são os senhores que se seguem na Moncloa. A votação da moção de censura tem início quando forem 10 horas em Portugal. Contrariamente ao que sucede entre nós, em Espanha, a vitória de uma moção de censura (e todas chumbaram até hoje) obriga o proponente a constituir e chefiar novo Governo. A ver vamos.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

RAJOY CAI MESMO


Os nacionalistas bascos do PNV desfizeram o tabu: vão votar favoravelmente a moção de censura do PSOE, que começou hoje a ser debatida nas Cortes. Desfeita a dúvida, Rajoy cai mesmo. O actual primeiro-ministro abandonou o hemiciclo assim que Aitor Esteban, porta-voz do PNV, anunciou o sentido de voto do seu partido. Pedro Sánchez, líder do PSOE, assumirá imediatamente o cargo de primeiro-ministro. O que ainda não se sabe é se Sánchez tenciona marcar eleições para daqui a três meses, como pretende Rivera, o líder de Ciudadanos dado como vencedor em todas as sondagens, ou se vai ficar os dois anos que faltam para terminar a legislatura.

Imagem de El País, com gráfico da votação de amanhã. Clique.

AEROPORTO DE LISBOA


Anda toda a gente muito entusiasmada com o turismo. Mas esta galinha de ovos de ouro tenderá a virar múmia se o Governo não romper o tabu do novo aeroporto de Lisboa. Nos anos de Sócrates, a Direita conseguiu mobilizar a opinião pública contra o aeroporto da Ota, que não era, de facto, a localização ideal. Mas em Janeiro de 2008 havia consenso para fazer o novo aeroporto em Alcochete.

Estavam de acordo o LNEC, a CIP, a Ordem dos Engenheiros, os peritos em ambiente e todas as entidades institucionais ligadas ao turismo. Alcochete custaria menos três mil milhões de euros do que a Ota, tendo a vantagem suplementar de ficar a 20 minutos do centro de Lisboa. Abandonar o projecto foi um erro.

Sendo uma alternativa canhestra, o Montijo é preferível a coisa nenhuma. Mas tem de ser já. Em 2017, a Portela movimentou 27 milhões de passageiros. O 1.º trimestre de 2018 fechou com um significativo aumento em relação a igual período do ano passado. No Verão não vamos poder aceitar centenas de voos, conforme esclareceu a ANA. É isso que querem?

Na imagem, o projecto do Montijo. Clique.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

MÁRIO CLÁUDIO


O retrato do autor na capa do livro faz supor que as Memórias Secretas a que reporta o título sejam as de Mário Cláudio (n. 1941). Errado. Trata-se de um conjunto de ficções elaboradas a partir das ‘biografias’ de três personagens de banda desenhada: Corto Maltese, Bianca Castafiore e o Príncipe Valente. O conseguimento releva do consabido à-vontade com que Cláudio manipula o género. Parece-me pleonástico enumerar os romances-biografia que fizeram a fama do autor, por regra inspirados em terceiros, casos de, entre vários outros, Amadeo de Souza-Cardoso e Camilo Castelo Branco, ou na sua própria pessoa, caso de Astronomia, engenhosa autobiografia dada à estampa em 2015.

Memórias Secretas retoma o processo. Numa escrita desenvolta, pontuada por envios ora culturalistas ora populares, Cláudio refaz os universos de Pratt, Hergé e Foster, intrometendo-se no plot em nome próprio e registo memorialístico, porventura efabulado, nas introduções a cada uma das três secções do romance.

Bianca é um prodígio de ironia. Sirva de exemplo a imagem do primeiro vagido da Castafiore, «lancinante como uma sirene que profetizasse o rebentamento próximo da Grande Guerra…», cruzando-se com o de Tito Gobbi, «ressonante como o dobre a finados» da Itália. Imaginar o pirata Jack Rackham, o Terrível, reduzido a fricassé pelo chevalier François d’Haddock, é outro exemplo da imaginação delirante do autor.

Como sucede na transcrição das memórias do Rouxinol de Milão, também as efabulações de Corto e do Valente dão azo a textos de prosa escarolada. Cláudio suspende as personagens no tempo, sem com isso lhes retirar actualidade, ao mesmo tempo que conduz bem a narrativa autodiegética. Sendo o principal traço distintivo da obra a sua capacidade de transfigurar a realidade, e outra coisa não se espera de um escritor, veja-se o capítulo ‘A Borla do Pó-de-Arroz’. Em época de rarefacção vocabular, deve sublinhar-se o mérito de recaptura da língua portuguesa. Pode ser que muitos jovens desconheçam o significado de tísica, passamanarias, chufas, alfobre, decúbito dorsal, gorgomilos, etc., e não virá mal ao mundo, antes pelo contrário, se considerarem útil socorrer-se de dicionário. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

VERGONHA

Podemos extinguir a PIDE mas a PIDE continua activa no ADN de milhões de portugueses. Hoje, a capa do jornal i é uma vergonha. Era o que faltava não podermos dizer em voz alta o que pensamos.

Muito estranha a concepção de democracia destes jornaleiros.

terça-feira, 29 de maio de 2018

EUTANÁSIA

Foram chumbados os quatro projectos-lei discutidos e votados hoje no Parlamento. Um deputado faltou à votação. Os deputados do PCP e do CDS foram os únicos a votar contra todos os projectos. O deputado do PAN e os deputados do BE foram os únicos a votar a favor de todos os projectos.

Seguem-se os resultados obtidos por cada projecto-lei.

PS
115 contra
110 a favor
4 abstenções

BE
117 contra
104 a favor
8 abstenções

PEV
117 contra
104 a favor
8 abstenções

PAN
116 contra
102 a favor
11 abstenções

segunda-feira, 28 de maio de 2018

VIDA


Não sou militante do PS, mas votei sempre no PS, com três excepções: nas autárquicas de 1982 (vivia em Cascais, votei em Helena Roseta contra o actor que o PS apresentou) e 2005 (vivia em Lisboa, votei branco, contribuindo para a derrota de Manuel Maria Carrilho), bem como nas presidenciais de 2016, ocasião em que apoiei publicamente e votei em Marisa Matias.

Em 2009 fiz parte do grupo de intelectuais e artistas que apoiaram António Costa para a presidência da Câmara de Lisboa. Em 2014 inscrevi-me para as directas do PS, votando Costa contra Seguro. Não me arrependi de nenhuma destas opções. Estou muito satisfeito por ter António Costa como primeiro-ministro, de cuja comissão de honra faço parte.

Isto dito, estou à-vontade para dizer o que penso.

E penso que o actual Governo, vencedor em domínios importantes como o défice, a dívida pública, o emprego, a descompressão da sociedade portuguesa e o respeito internacional, não pode continuar a olhar para o Serviço Nacional de Saúde como uma prioridade de segunda linha.

Entre 2011 e 2015, o Governo PSD/CDS tentou fazer do SNS uma obra assistencial, vocacionada para pessoas com rendimento inferior ao indexante de apoios sociais (429 euros mensais). Os outros, os que pagam impostos, teriam de recorrer à medicina privada. O actual Governo estancou a hemorragia, mas não repôs o valor do desfalque acumulado. Pior: a área dos Cuidados Continuados colapsou em 2011 e, aparentemente, ninguém se preocupa com o facto. Unidades prontas (edifícios e equipamentos) continuam fechadas há sete anos. Não pode ser. Temos uma carga fiscal de nível dinamarquês e uma rede de cuidados continuados que nos envergonha. Dois terços da população portuguesa não tem condições para suportar os cuidados continuados dos seus ascendentes. Convém não confundir cuidados continuados com asilos de morte.

No momento em que uma parte da classe política se prepara para votar a eutanásia, a omissão do Governo na área dos Cuidados Continuados é uma afronta. Não se admite.

A foto é de Margarida Martins. Mostra o momento do nosso (meu e de outros) encontro com António Costa em 2009. Clique.

COM AVAL DE BERLIM & BRUXELAS


Sergio Mattarella, o Presidente da República, não aceitou que Paolo Savona fosse ministro das Finanças e Economia no executivo chefiado por Giuseppe Conte. E Conte bateu com a porta, sob aplauso dos partidos que iriam formar Governo, a Liga e o 5 Stelle. Isto foi ontem.

Mattarella diz que não é um simples notário, e tem razão, mas o indigitado primeiro-ministro não gosta de ter um chefe de Estado temente a Berlim e Bruxelas, e tem duas vezes razão. O caos está instalado. Paolo Savona, o homem rejeitado pelo eixo Berlim/Bruxelas, é um economista de 81 anos que não gosta do euro, nem da UE.

Melodramático, Luigi Di Maio, 31 anos, vice-presidente da Câmara de Deputados e líder do 5 Stelle, vai propor o impeachment de Mattarella.

Entretanto, o senhor que se segue é Carlo Cottarelli, 64 anos, antigo director do FMI. Mattarella indigitou-o para formar Governo de gestão. Se o executivo passar no Parlamento, Mattarella compromete-se a convocar eleições antecipadas em 2019. Se chumbar, como se prevê, haverá novas eleições já em Outubro. Os dois partidos que até ontem tinham Governo pronto (a Liga e o 5 Stelle) prometem pôr Roma a ferro e fogo.

Na imagem, Carlo Cottarelli. Clique.

sábado, 26 de maio de 2018

ABORTO NA IRLANDA


Resultado oficial final do referendo:

SIM 66,4% — 1,4 milhões / NÃO 33,6% — 720 mil

O sim venceu mesmo nos distritos ultra-conservadores de Sligo-Leitrim, Cork East e Donegal.

Como em Portugal e na maioria dos países da UE, o aborto a pedido da mulher será livre até à 12.ª semana de gravidez.

Prazo maior só em caso de malformação do feto ou risco de vida. Mas quatro países da UE têm legislação e práticas mais liberais: a Islândia permite até às 16 semanas, a Suécia até às 18, a Holanda até às 22 e o Reino Unido até às 24. Por seu turno, o aborto é crime, em todas as circunstâncias, em três países da UE: na Polónia, Chipre e Malta.

ESPANHA EM TRANSE


Rajoy está por um fio. A sentença do Caso Gürtell acabou com o jogo de sombras dos últimos 11 anos. O PP não tem como escapar ao juízo público, e o actual primeiro-ministro devia convocar eleições. Como não o fará, e o rei não deve interferir, o PSOE registou ontem nas Cortes uma moção de censura. Se vencer a votação prevista para a semana, Sánchez terá de formar governo. Ao contrário de Portugal, as moções de censura em Espanha obrigam o proponente a governar. Mas o líder do PSOE não tem de (nem deve) ficar até ao fim da legislatura. Pode tomar posse e convocar eleições para dali a 60 dias, como pretende Rivera, o líder de Ciudadanos. A ver vamos se os dois se entendem. Seja como for, o tempo de Rajoy expirou. A sua ausência, hoje, na final da Champions, em Kiev, é sintomática.

A imagem de La Vanguardia mostra 8 dos 29 acusados. Clique.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

QUEERQUIVO


André Murraças criou um arquivo LGBTI a que chamou Queerquivo. Ali se publicam testemunhos pessoais sobre personalidades queer portuguesas. Como este que escrevi sobre Guilherme de Melo.

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Tinha 12 anos quando foi anulado o casamento de Guilherme de Melo. O Guilherme tinha então 30 anos e a família era amiga da minha. A revelação caiu como uma bomba em Lourenço Marques. Como era hábito, os jornais publicavam placards junto aos cafés mais movimentados da cidade (o Continental e o Scala) sempre que uma notícia de última hora o justificava. Foi o que aconteceu a meio da tarde daquele dia de 1961: a Santa Sé dissolvera e anulara, por non consummatum, o casamento do influente jornalista. Nunca esqueci as ondas de choque que o facto provocou.

Embora fosse um miúdo, estava consciente da minha condição homossexual. À época, por força da diferença de idades, as relações com o Guilherme eram nulas: uns vagos cumprimentos em festas de aniversário e pouco mais. Mas, a partir daquele dia, o meu interesse aumentou. Lembrava-me de histórias nebulosas, comentadas aqui e ali, bem como de conversas com uma das irmãs do Guilherme (a propósito de me saber diferente). Excitando a imaginação de todos, a Casa dos Rapazes era a minha preferida. Que casa era essa? Era uma instituição informal que acolhia rapazes sem família e outros a quem chamaríamos hoje problemáticos. Acabou por pressões junto das autoridades, em especial as movidas pela mulher com quem o Guilherme ainda estava casado. E foi por esse motivo, soube muito mais tarde, que a decisão de pôr fim ao casamento foi tomada. O acidente de carro em que o Guilherme quase perdeu a vida era outro episódio que alimentava o gossip. Afinal, era ela que ia ao volante…

Os detalhes vieram com a nossa amizade, cimentada a partir de 1967, ano em que comecei a ser convidado para as famosas festas de sábado à noite. Em Lourenço Marques, a comunidade homossexual tinha por hábito juntar-se nos parties de fim-de-semana. A eclosão da guerra colonial encheu a cidade de militares em trânsito para o Norte, e uma grande parte desses rapazes alinhou com a transgressão. Por volta de quarta-feira, o Guilherme perguntava aos mais próximos o que preferiam para o party dessa semana: Fuzos? Páras? Comandos? Polícias militares?… E lá eram convidados catorze ou quinze centuriões dispostos a tudo. Foi a época de ouro da liberdade sexual. Os rótulos não tinham minado a itinerância das identidades, e em Moçambique, que fica do outro lado do mundo, os mancebos portugueses descobriam que há muitas moradas no céu.

O que fez do Guilherme uma figura única foi o à-vontade com que, a partir de 1961, numa sociedade fechada como era Lourenço Marques, impôs as suas escolhas à opinião pública. Para adolescentes como eu, foi um exemplo. Saber que aquele homem, um jornalista muito influente, tão depressa estava numa esplanada com “um amante”, sem disfarçar a natureza da relação entre ambos, como era convidado para as recepções da Ponta Vermelha, era a prova provada de que podíamos romper a normatividade.

Quando o Guilherme veio para Portugal, em Outubro de 1974, já essas pontes tinham sido queimadas. Mas se há precursores da cultura gay em Portugal, ele é um deles.


[Guilherme de Melo, 1931-2013, foi jornalista e escritor. Publicou nove romances, dois volumes de contos, dois ensaios sobre homossexualidade, uma compilação de reportagens sobre a guerra colonial, um livro de poesia e a biografia romanceada de Gungunhana.]

A imagem é de André Murraças. Clique.