segunda-feira, 19 de novembro de 2018

TRAGÉDIA NO ALENTEJO


Estão já confirmadas cinco mortes no colapso de parte da estrada que liga Borba a Vila Viçosa. O abatimento desse troço de estrada (ocorrido por volta das 15:40), numa extensão de cerca de duzentos metros, arrastou para dentro de uma pedreira, alagada e com muitos metros de altura, uma retroescavadora, duas viaturas ligeiras e vários operários.

Clique na foto de António Moizão, publicada no Facebook.

domingo, 18 de novembro de 2018

CORBYN & BREXIT


Jeremy Corbyn, líder dos Trabalhistas britânicos, deu hoje uma entrevista à Sky News. Quem esperava encontrar nele um aliado para a tese do segundo referendo, desiluda-se. Um grande balde de água fria para muita gente.

Síntese das suas palavras:

«O referendo aconteceu em 2016, a maioria das pessoas votou para deixar a UE. Não podemos convocar um referendo e pô-lo de parte se não gostamos do resultado

«O artigo 50 foi accionado e isso tem que ser respeitado

«O que podemos fazer é reconhecer as razões pelas quais as pessoas votaram em sair

[Um segundo referendo seria] «uma opção para o futuro, mas não é uma opção para hoje. Se houvesse um referendo amanhã, qual seria a pergunta? Eu não sei como votaria.»

«Vamos votar contra o Acordo porque ele não serve o interesse do Reino Unido

«O Governo tem que voltar a renegociar rapidamente. Há 500 páginas neste documento, muitas das quais são bastante vagas. Onde está a garantia de protecção ambiental? Onde está a garantia de protecção do consumidor? Onde está a garantia sobre os direitos dos trabalhadores

Claro como água.

Clique na imagem do Guardian.

sábado, 17 de novembro de 2018

HORROR


São já 71 os mortos de Paradise, na Califórnia. O número de pessoas desaparecidas ultrapassou as mil. A cidade reduzida a cinzas, mais de dez mil viaturas calcinadas. E os animais de companhia não contabilizados? O horror na sua forma mais exacta.

Clique nas fotos de Josh Edelson, da France Press.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56,5%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 15%. E a PAF em 8%. Em termos de popularidade, Costa tem um saldo positivo de 34,4% contra 9,8% de Rui Rio e 0,2% de Catarina Martins. Entronização só com Marcelo: 64,8%.

Clique no gráfico do Expresso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

MARIA JUDITE & PUCHNER


Hoje na Sábado escrevo sobre o segundo volume das obras completas de Maria Judite de Carvalho (1921-1998), contista e cronista de excepção. É importante que a obra da autora esteja a ser reeditada. Este volume colige duas colectâneas de contos — Paisagem Sem Barcos, 1963, O Seu Amor Por Etel, 1967 — e uma novela, Os Armários Vazios, 1966. Os acidentes biográficos talvez expliquem a rigidez do seu universo ficcional. Vivendo os pais na Bélgica, nasceu em Lisboa por acaso. Longe dos pais, foi educada por tias em ambiente austero. Mais tarde, acompanhou Urbano Tavares Rodrigues, seu marido, num exílio de vários anos em França. A partir de 1959, ano em publicou o primeiro livro, a colectânea de contos Tanta Gente, Mariana (a mais aclamada das suas obras), fixou por direito próprio o lugar que ocupa na Literatura portuguesa. Personalidade apagada, um tanto por contraponto ao perfil mundano do marido, escritor mediático e activista político, outro tanto por motivos de saúde (chegando nos últimos anos à deformação física), a obra reflecte o imaginário recalcado, cinzento, mesquinho e acomodado da sociedade portuguesa dos anos 1950 e 1960: «Uma amálgama de acontecimentos sem interesse e sem sentido.» Em contrapartida, a escrita da autora não tem nada de inócua. Bem pelo contrário. Numa prosa só na aparência desprendida, dominando bem os monólogos interiores, Maria Judite de Carvalho capta as subtis harmónicas do quotidiano, o espírito peganhento do tempo a enredar vidas sem horizonte, o confronto com outras realidades: «O Times é um jornal sério, não mente nem peca por omissão.» A novela Os Armários Vazios faz o retrato nítido do Portugal salazarista visto sob o ângulo da pequena-burguesia urbana, a pobreza envergonhada de Dora Rosário, «viúva de carreira», fumando um cigarro depois do café, vestida de preto durante dez anos, até ao dia em que a sogra lhe disse que o filho pensava viver com outra. Traços distintivos do meio em que Dora se movia, como abulia, resignação e preconceito, são descritos com sarcasmo. À beira dos 40, Dora muda a imagem. A filha fez o liceu, aprendeu línguas, podia perfeitamente ser hospedeira da TAP. O desfecho é absolut sixties. Quatro estrelas. Publicou a Minotauro.

Escrevo ainda sobre a obra mais recente do filósofo e ensaísta alemão Martin Puchner (n. 1969), O Mundo da Escrita. O subtítulo dá a medida da ambição: O poder das histórias que formaram os povos e as civilizações. Especialista em vanguardas e professor em Harvard, Puchner escreveu esta história da literatura universal dos primórdios — Épico de Gilgames, Homero, Bíblia hebraica, etc. — às novas tecnologias da escrita, como propiciadas pela Internet, passando pelo «puré medieval» com que J.K. Rowling molda a saga Harry Potter… Numa prosa envolvente, doseando erudição, humor e uma quota de imprevisto (a introdução aborda alguns aspectos da missão Apollo 8), Puchner faz close reading de obras que são património da humanidade. Entre outros, Cervantes, Goethe, Marx, Akhmátova, Soljenítsin e Walcott são apresentados com brilho. O fio condutor une As Mil e Uma Noites com a literatura pós-colonial, sem ignorar o contexto político de cada época. Uma obra indispensável, que inclui portfolio fotográfico. Cinco estrelas. Publicou a Temas e Debates.

BREXIT


Dominic Raab, 44 anos, ministro da Justiça, ministro da Habitação e Secretário de Estado responsável pela negociação do Brexit — Secretary of State for Exiting the European Union —, demitiu-se 24 horas depois da aprovação, em conselho de ministros, do draft final do documento.

Argumenta ele, em carta dirigida a Theresa May, não poder concordar com o regime regulamentar proposto para a Irlanda do Norte («uma ameaça muito real à integridade do Reino Unido»), nem ao dispositivo híbrido das obrigações aduaneiras futuras («um regime extenso, imposto externamente, sem qualquer controlo democrático sobre as leis a serem aplicadas»). OK.

Já toda a gente percebeu que o cavalheiro está a pôr-se a jeito para substituir a primeira-ministra britânica. Mas, admitindo que os argumentos são sólidos, coloca-se a questão de saber o que andou a fazer durante as negociações. Foi apanhado de surpresa? Então quem negociou e redigiu as 500 páginas do documento?

Na imagem, a carta de demissão de Dominic Raab. Clique.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

MAPUTO


Foi inaugurada anteontem a ponte que liga Maputo à Katembe, a maior ponte suspensa de África, construída pela China Road and Bridge Corporation. Foi também inaugurada uma estrada circular com 187 quilómetros. Custo da obra: 800 milhões de dólares. Situada na periferia Sul da cidade, próximo da Matola, facilitará o acesso à praia da Ponta do Ouro e à fronteira sul-africana de KwaZulu-Natal.

No meu tempo, ia-se de Lourenço Marques para a Katembe (então grafada como Catembe) de gasolina ou ferry boat. A praia não valia nada, mas, além de residências de férias de talvez vinte famílias, havia restaurantes de marisco e uma escola de remo e vela. E muita, muita movida gay aos sábados à noite.

domingo, 11 de novembro de 2018

BRUNO & MUSTAFÁ PRESOS

Esqueçam as celebrações do Armistício, as inundações na região de Lisboa, o avião cazaquistanês que esteve para amarar no Tejo mas conseguiu aterrar em Beja, a carta que Costa escreveu a Alegre, a Convenção bloquista, os incêndios na Califórnia onde não pára de morrer gente, a recontagem de votos na Flórida, o affaire Silvano, e outros temas da actualidade.

Bruno de Carvalho e Mustafá foram presos (17:45), acusados de terrorismo.

Portanto, vamos ter meses de telejornais com a duração de duas horas, debates intermináveis em todos os canais, quiçá reuniões do Conselho de Estado e uma comissão parlamentar de inquérito.

TOURADAS


Excertos da carta do primeiro-ministro António Costa a Manuel Alegre, hoje publicada no Público:

«[...] Prefiro pensar que as civilizações também se distinguem pela forma como tratam os animais. Como se distinguem pela forma como valorizam a dignidade do ser humano, a natureza, ou se relacionam com o transcendente, por exemplo. [...]

Por isso, afirmar que uma certa opção é uma questão de civilização não significa desqualificar o oponente como incivilizado. O diálogo de civilizações exige respeito mútuo, tolerância e a defesa da liberdade. [...]

Por isso, não me receie como “mata-toureiros”, qual versão contemporânea de “mata-frades”. Prefiro conceder a cada município a liberdade de permitir ou não a realização de touradas no seu território à sua pura e simples proibição legal e considero extemporâneo um referendo sobre a matéria. Choca-me que o serviço público de televisão transmita touradas. Mas não me ocorre proibir a sua transmissão. Contudo, reclamo também a minha própria liberdade e defendo a liberdade de quem milita contra a permissão das touradas. [...]

A causa da promoção do bem-estar animal é absolutamente legítima e tem tido, felizmente, progressiva expressão legal, a mais relevante das quais a recente alteração do Código Civil, que deixou de considerar os animais como “coisas”. Ou a limitação à utilização de animais em espectáculos de circo. Como homem da Liberdade tem também de respeitar os cidadãos que, como eu, rejeitam a tourada como manifestação pública de uma cultura de violência ou de desfrute do sofrimento animal. [...]

Bem sei que o novo politicamente correcto é ser politicamente “incorrecto”... Mas então prefiro manter a tradição e defender o que acho certo, no respeito pela liberdade dos outros defenderem e praticarem o contrário. [...]»

Elementar. Eu não diria melhor.

A PRIMEIRA GRANDE GUERRA


Ouve-se dizer com frequência que a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial foi um acto simbólico, uma birra de Afonso Costa. Convém lembrar que Portugal mandou 50 mil homens para França e 30 mil para Angola e Moçambique, colónias que faziam fronteira com a Namíbia e a Tanzânia, à época colónias alemãs. Submarinos alemães atacaram a Madeira, os Açores e Cabo Verde. A opinião pública retém o desastre de La Lys, em Abril de 1918, batalha onde morreram 400 portugueses e 7 mil foram feitos prisioneiros. Mas, para o Corpo Expedicionário Português, a Primeira Guerra Mundial não se resumiu a La Lys. Passaram cem anos. As gerações mais jovens olham para tudo isto (as que olham) como eu olho para Assurbanípal. Pode ser-lhes fatal.

Clique na imagem.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

JON McGREGOR


Hoje na Sábado escrevo sobre Reservatório 13, do britânico Jon McGregor (n. 1976), autor que despertou a atenção da crítica com o seu primeiro romance, rapidamente traduzido entre nós. Tinha então 25 anos. O mais recente chegou agora às livrarias. Confirma os dotes do autor, várias vezes premiado, incensado por pares ilustres. Reservatório 13 parece um thriller em ambiente rural pós-moderno. No centro da intriga, o desaparecimento de uma adolescente, Rebecca Shaw, numa aldeia perto de Manchester. Os treze capítulos do livro sinalizam os anos de busca. Com excepção do primeiro, começam todos com a mesma frase: À meia-noite, na passagem de ano… O dia fatídico permanecerá um mistério. O foco não é tanto a rapariga, que pode ter partido por vontade própria, mas o microcosmo local. Rapidamente esquecemos Rebecca. O romance é sobre as pessoas da terra (solidão, aspirações, sexo voraz, intrigas), os colegas de escola, o quotidiano do Centro Comunitário, a equipa de críquete. McGregor é muito hábil na forma como monta o patchwork. Mas por que será que é sempre uma rapariga a desaparecer? Três estrelas. Publicou a Elsinore.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

BRANCO É, GALINHA O PÕE

Não toleraremos que se repita o uso das Forças Armadas por interesses pessoais ou de grupo e jogos de poder... — disse o Presidente da República no discurso que ontem fez na Avenida da Liberdade.

O recado vai em linha recta para os promotores da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Caso de Tancos, que pretende, por essa via, envolver o Governo e a Presidência da República.

Pode ser que me engane, mas os deputados (interessados em saber quem sabia do encobrimento que afinal não houve, porém desinteressados do alegado roubo) vão ficar a falar sozinhos.

sábado, 3 de novembro de 2018

TOURADAS OUT


Obviamente.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

ABATER, DIZ ELE

Wilson Witzel, 50 anos, membro do Partido Social Cristão, juiz demissionário, novo governador do Rio de Janeiro (eleito com 59,9% dos votos), mandatou as delegacias de polícia para formarem grupos de atiradores — os chamados ‘atiradores designados’ — que terão como função abater criminosos armados.

Flávio Pacca, o principal conselheiro de Witzel, deu uma entrevista em que explica: «O criminoso com fuzil não precisa ter ninguém na mira de uma arma para ser abatido. Quando qualifico o policial eu protejo a comunidade

Por seu turno, entrevistado anteontem pela GloboNews, no programa Estúdio 1, o governador Witzel sublinhou: «Até de helicópteros, quem esteja numa favela portando um fuzil. A aeronave ajuda e preserva vidas nas favelas. Dos moradores e dos policiais. Os traficantes ocupam o tecto das casas e tentam tirar proveito disso. Se temos atiradores preparados podemos inibir ataques às pessoas. A única pessoa que tem que ter medo é o criminoso e não a sociedade

Isto parece uma anedota de mau gosto. Infelizmente, não é.

MORO DUBLÊ DE BERIA


A escolha de Sérgio Moro para ministro da Justiça e da Segurança Pública só espanta quem vive na lua. O juiz da Operação Lava Jato participou sem pudor nas eleições brasileiras a partir do momento em que mandou prender Lula, o homem que liderava todas as sondagens para Presidente.

Bolsonaro quer apenas 15 ministérios (em vez dos 39 de Dilma) e tem estado a fundir vários. Face à nova orgânica — Justiça e Segurança Pública —, Moro vai, além da Justiça, tutelar também a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a Força Nacional, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Departamento Penitenciário, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, a Controladoria Geral da União, a Comissão de Amnistia, a Fundação Nacional do Índio, bem como os organismos responsáveis pela lavagem de dinheiro e fuga de capitais.

Quem aplaudiu a medida e a escolha do titular? Acertou: Fernando Henrique Cardoso.

Desde Beria (URSS) que não se via tamanha concentração de poder num único homem. Comentários para quê?

Clique na imagem do jornal brasileiro Globo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

CABRAL & MORRIS


Hoje na Sábado escrevo sobre Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral (n. 1990). A partir do brutal assassinato de Gisberta Salce Junior, transexual brasileira, o autor escreveu este romance não-ficcional. Quem leu A Sangue Frio, de Truman Capote, identifica o género. Factos: em Fevereiro de 2006, Gisberta, 45 anos, foi encontrada morta no poço alagado de um prédio inacabado da cidade do Porto, conhecido como Pão de Açúcar. Durante três dias, fora repetidamente violada e espancada por catorze rapazes, onze deles sob tutela da Oficina de São José, instituição católica vocacionada para o acolhimento de menores. Apenas um deles era maior de 16 anos. Gisberta foi atirada semi-nua para o poço, na presunção de que não resistira à tortura: pancada, queimaduras de cigarro, penetração com paus de madeira. A autópsia demonstrou que estava viva no momento da queda. Gisberta tinha sida, era toxicodependente, prostituta e sem-abrigo. Montou a sua barraca naquele andar vazio do Pão de Açúcar. Um dos rapazes é filho de uma prostituta que contratara como ama-seca uma mulher amiga de Gisberta. Em Setembro de 2007 todos estavam em liberdade. O caso chocou a opinião pública, mobilizou a comunidade LGBTI e deu origem a manifestações culturais (um documentário, duas peças de teatro, um poema notável de Alberto Pimenta, uma balada de Pedro Abrunhosa também interpretada por Maria Bethânia, vários textos de análise) que têm o seu corolário no romance de Afonso Reis Cabral agora publicado. Ficcionando a persona de Gisberta, foi com este material que o autor lidou. A narrativa centra-se no quotidiano dos rapazes (os da Oficina de São José e os outros três), tentando explicar o caldo de cultura que propiciou a barbárie. A deriva “literária” rouba força ao discurso. Diz o narrador: «Assim em repouso, bateu-me uma falta de ar que era tanto tristeza como excesso de amizade e muita falta de carinho.» O romance é antecedido de uma Nota Antes e fecha com uma Nota Depois. O autor deixa claro que está a lidar com factos verídicos alvo de cobertura mediática. É uma espécie de Balada dos Catorze, bem intencionada e naïve. Três estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Manhattan’45, de Jan Morris (n. 1926). Vários livros da autora têm sido traduzidos entre nós, sendo este o mais recente. Não se trata de um livro de viagens: é um livro sobre como era Manhattam em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Cada um dos sete capítulos tem secções autónomas sobre temas específicos: os transeuntes da Midtown, a fina flor, judeus, celebridades, as ruas, vida ao ar livre, tradições, etc., breves ensaios de recorte sociológico sobre a Nova Iorque de 1945, nas circunstâncias próprias do Armistício. O livro é de 1987, mas esta edição inclui a introdução de 2011. Seja como for, a escrita de Morris é de tal modo envolvente que nos esquecemos do facto central: aquela cidade já não existe. Um exemplo: a Ópera (o Met) não funciona desde 1966 na morada indicada. Uma nota de rodapé sinaliza o detalhe en passant, mas a minuciosa descrição dos programas operáticos e dos seus frequentadores reporta a 1945. Numa escrita de primeiríssima água, Morris doseia cultura, informação, humor, história, memória e idiossincrasias pessoais. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

POESIA


Chegaram hoje da tipografia os primeiros exemplares. Deu-me muito prazer organizar em volume único toda a poesia de António Botto (1897-1959), publicada entre 1921 e 1959. 

São 22 livros: os quinze que compõem Canções — Adolescente / Curiosidades Estéticas / Piquenas Esculturas / Olimpíadas / Dandismo / Ciúme / Baionetas da Morte / Piquenas Canções de Cabaret / Intervalo / Aves de Um Parque Real / Poema de Cinza / Tristes Cantigas de Amor / A Vida Que Te Dei / Sonetos / Toda a Vida —, e ainda Motivos de Beleza, Cartas Que Me Foram Devolvidas, Cantares, O Livro do Povo, Ódio e Amor, Fátima. Poema do Mundo, e o livro póstumo Ainda Não Se Escreveu. Nas suas 815 páginas, o volume inclui também os poemas escritos para o filme Gado Bravo (1934), de António Lopes Ribeiro.

A magnífica foto da capa, que desconstrói por completo a imagem de dandy associada ao poeta, é da autoria de Mário Novais. 

Numa livraria perto de si a partir do próximo 9 de Novembro.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A INDIFERENÇA

O que mais impressiona no resultado das eleições brasileiras não são os 57,8 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro. São os 31,5 milhões de abstencionistas, num país onde o voto é obrigatório. Além dos mais de trinta milhões de brasileiros que recusaram votar, outros 11 milhões boicotaram o acto, votando nulo (8,6 milhões) ou em branco (2,4 milhões). Dito de outra forma, 31% dos eleitores inscritos borrifou-se para as eleições.

Agora é esperar para ver. Os 10,7 milhões de votos que separam Bolsonaro (57.797.466 = 55,2%) de Haddad (47.040.859 = 44,8%) ilustram a bipolarização da sociedade brasileira.

Daqui até 1 de Janeiro, data da inauguração presidencial, muita água vai correr sob as pontes.

domingo, 28 de outubro de 2018

BRASIL VIROU

Consumaram-se os piores prognósticos. Com 99% do apuramento feito, Bolsonaro foi eleito Presidente com 55,2% dos votos válidos. Haddad ficou com 44,8%. A ver vamos se daqui a um ano os 57,7 milhões de brasileiros que votaram Bolsonaro estão de cara levantada.

BRASIL EM TRANSE

Há três semanas, 50 milhões de brasileiros votaram em Bolsonaro. O Brasil tem 50 milhões de fascistas? Não precisa. O fascismo português durou 48 anos (1926-1974). Portugal tinha 10 milhões de fascistas?

O fascismo português começou com a ditadura militar, instaurada nove dias após o pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926 (Gomes da Costa) que pôs termo à Primeira República. Continuou com a ditadura civil, estabelecida com a eleição de Carmona em Março de 1928. Entrou em velocidade de cruzeiro em Julho de 1932, quando Salazar foi nomeado chefe do VIII Governo da Ditadura. Até que, em Abril de 1933, a entrada em vigor de uma nova Constituição instituiu o Estado Novo. Doravante, Salazar seria Presidente do Conselho, cargo que ocupou até 27 de Setembro de 1968. Marcello Caetano encerrou o capítulo em Abril de 1974.

Sem a Guerra Colonial, que durou 13 anos e mobilizou um milhão e meio de homens, o fascismo português teria acabado em 1974?

Relativizar o que se passa no Brasil é muito perigoso.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

TANCOS

Por que será que toda a gente, em especial o CDS, quer saber quem sabia o quê sobre o encobrimento do Caso Tancos? O natural seria quererem saber (como eu também quero) quem roubou o material de guerra, e para quê. Mais: por que razão só apareceu parte do armamento roubado? O que é feito do resto?

Sem esclarecer o pecado original (o roubo), nunca perceberemos a necessidade do encobrimento.

TRÊS MULHERES


Estreia hoje às 22:40 na RTP esta série de Fernando Vendrell, inspirada nos factos que, entre 1961 e 1973, ligaram Natália Correia, Snu Abecassis e Vera Lagoa.

Criada por Fernando Vendrell e Elsa Garcia, com argumento de Fátima Ribeiro e Luís Alvarães, conta com um extenso elenco de que fazem parte, entre muitos outros, Soraia Chaves (Natália), Victoria Guerra (Snu), Maria João Bastos (Vera Lagoa), Cucha Carvalheiro, João Grosso, Pedro Lamares (Sttau Monteiro), Isac Graça, Vicente Wallenstein, Elmano Sancho (Cesariny), Pedro Carraca, Ana Padrão, Manuel Wiborg, Filipa Areosa, Jorge Vaz Gomes (Ary dos Santos), Hugo Franco, Dmitry Bogomolov (Ievtuchenko), Rui Morrison, Lucinda Loureiro, Afonso Lagarto e Fernando Luís. Treze episódios de 50 minutos cada. A ver vamos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

CRISTAS

Os pais fundadores do CDS esforçaram-se por colocar o partido ao centro, rigorosamente ao centro, equidistante dos extremos, sublinhava Freitas.

Hoje, Assunção Cristas deu cabo da herança. «Nestas eleições eu não votaria no Brasil», disse com ênfase a líder do CDS. Ou seja, é-lhe indiferente a vitória de Bolsonaro ou Haddad.

Gratos pelo esclarecimento.

FUTUROLOGIA

Faltam três dias para a segunda volta das eleições no Brasil. Vou dizer por antecipação o que me parece vai acontecer se, como tudo indica, Bolsonaro for eleito.

A velocidade das decisões dependerá do score obtido: muito rápidas se for igual ou superior a 60%; mais lentas se inferior a 55%. Mais lentas quer dizer só em 2019.

O Congresso Nacional (constituído pelo Senado Federal e a Câmara de Deputados) será dissolvido.

Neste momento, o PT conta com seis senadores (em 81), sendo o partido com maior número de deputados: 56 dos 513. Não chega para aprovar ou contrariar lei nenhuma, mas Bolsonaro tudo fará para ter o seu Congresso.

O PT será ilegalizado. Só por milagre Dilma e Haddad não terão o mesmo destino de Lula.

Será aprovado um novo Código Penal, com a possível reintrodução da pena de morte.

Os direitos, liberdades e garantias da população vão regredir a 1964, ano em que os militares afastaram João Goulart.

Será revogada toda a legislação relacionada com igualdade de género, direitos LGBTI, aborto e tudo o que cheire a normas progressistas.

Os media vão sentir, forte e feio, limites à liberdade de expressão, novelas da Globo incluídas.

Oxalá me engane. Fica escrito por antecipação para conferir mais tarde.

HOLLINGHURST & LYNCH


Hoje na Sábado escrevo sobre O Caso Sparsholt, do inglês Alan Hollinghurst (n. 1954), que em trinta anos publicou seis romances. O melhor continua a ser o primeiro. O mais recente acaba de ser traduzido: as quinhentas páginas do costume, o nível semântico a que o autor nos habituou, quotidiano homossexual em registo upper class, transgressão moderada, ambientes sofisticados, códigos de casta e, claro, dezenas de personagens. A fórmula não falha. Dividido em cinco capítulos, o livro cobre várias décadas. O título remete para um escândalo fictício, envolvendo David Sparsholt, o pai do protagonista. Tudo começa em Oxford durante o Blitz de 1940. David era um rapaz muito atraente à beira de completar dezoito anos e de ingressar na Royal Air Force. Freddie Green narra essa primeira parte: «havia uma vontade de sublimar e enobrecer o corpo de Sparsholt para lá da realidade, já de si sublime.» O intróito contextualiza a narrativa. Nascido em 1952, Johnny é filho daquele mesmo David que electrizara o college. Retratista e restaurador de antiguidades, o seu percurso ilustra a evolução de costumes na Inglaterra. Após anos de sexo clandestino, tal como seu pai, gozou a libertação: clubes gays, aplicativos móveis para encontros de natureza sexual (como o Grindr), casamento com outro homem, uma filha gerada por doação de esperma a uma amiga lésbica. Hollinghurst regista o ar do tempo com sentido pedagógico. É deveras interessante a forma como transpõe para a vida de Johnny o quotidiano dos amigos que o pai fizera em Oxford. Omite a sida porque foi assunto foi tratado em romance anterior. Londres substitui Oxford, mas o universo social mantém-se: artistas e escritores oriundos da boa sociedade. Após a morte do marido (vítima de cancro da próstata), Johnny aceita retratar, ao jeito de conversation piece, a família de Bella Miserden, uma «loura pragmática» que conhecera por acaso na National Portrait Gallery. Os Miserdens eram novos-ricos ligados à multimédia, o tipo de gente que Johnny não frequentava. Atento às nuances comportamentais, Hollinghurst sugere nexo de causalidade entre a fase depressiva e a aceitação do trabalho. David praticamente desaparece do plot. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Espaço Para Sonhar, a biografia de David Lynch (n. 1946) escrita por Kristine Mackenna e pelo biografado. A edição portuguesa descobriu o filão biográfico. Ainda bem. Ela redigiu a biografia, ele acrescentou-lhe páginas de memórias. A solução não é comum, mas resultou. Obra a quatro mãos, portanto. Além de cineasta, Lynch também é actor, músico, pintor, fotógrafo, designer de móveis e autor de um livro sobre meditação transcendental que expõe o modo como aprendeu a controlar a sua própria violência. Ou seja, o mais próximo que hoje encontramos de um homem da Renascença. Para melhor compor o retrato, Kristine Mackenna fez mais de cem entrevistas com actores, agentes, amigos, antigas mulheres (Lynch casou quatro vezes), familiares, músicos e colaboradores. O mais interessante são as revelações sobre o móbil de certos filmes. Por exemplo, Lost Highway não existiria sem o caso O.J. Simpson. O fascínio por sangue é um item revelador. O volume inclui dezenas de fotografias, filmografia, cronologia de exposições, bibliografia, notas, e o indispensável índice remissivo. Uma edição cuidada. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

PÓS-DEMOCRACIA


Quem quer que tenha enviado os engenhos explosivos e as cartas com pó branco (antraz?) para as residências de Hillary e Bill Clinton, Obama e família, do antigo procurador-geral Eric Holder, de John Brennan, antigo director da CIA, das congressistas democratas Debbie Wasserman Schultz e Maxine Waters, da redacção da CNN em Nova Iorque, do magnata George Soros (acusado pelos Republicanos de financiar a campanha contra o juiz Brett Kavanaugh), mas também, soube-se entretanto, para Joe Biden, vice de Obama, sabia que apenas os pacotes dirigidos à CNN e a Soros chegariam ao destino. Todos os outros fazem parte de uma lista de personalidades cujo correio é verificado antes de ser entregue.

O objectivo era provocar alarme, e isso foi conseguido com o pacote que chegou à CNN. O edifício teve de ser evacuado, o recado deu a volta ao mundo, Trump viu-se obrigado a comentar o assunto numa sessão da Casa Branca dedicada ao combate ao tráfico de opiáceos, Hillary fez um statement, Andrew Cuomo, governador do Estado de Nova Iorque, e Bill de Blasio, mayor da cidade, deram uma conferência de imprensa a repudiar o sucedido.

A ver vamos o resultado que isto tudo dá.

Na imagem, o engenho enviado à CNN.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

ERDOGAN & KHASHOGGI

Hoje mesmo, dia em que começou a cimeira económica de Riade (versão superlativa do Forum de Davos), Erdogan foi ao Parlamento turco falar sobre o assassinato de Jamal Khashoggi:

«Os serviços de segurança turcos têm provas de que foi um assassinato político premeditado, meticulosamente planeado, executado de forma selvagem. [...] Não duvido da sinceridade do rei Salman. Mas é necessária uma investigação independente, com a participação de vários países. [...] A Turquia e o mundo só ficarão satisfeitos quando os responsáveis superiores e todos os intervenientes directos forem responsabilizados

Não passou despercebida a vénia ao rei saudita. Mohammed bin Salman, o príncipe herdeiro que governa o reino, nunca foi mencionado, mas já toda a gente percebeu que foi ele o cérebro da operação.

É extraordinário ver o Presidente turco tão empenhado no esclarecimento da morte de Khashoggi. Porque, desde a tentativa de golpe de Estado em Julho de 2016, a Turquia mantém presos mais de cem jornalistas (seis foram condenados a prisão perpétua), encerrou jornais, e tem controlo férreo sobre os media e as redes sociais. A explicação de que seria amigo de Khashoggi é curta.

Entretanto, vários países (os Estados Unidos, a França, a Alemanha, a Holanda e o Reino Unido) cancelaram a sua participação na cimeira económica de Riade, uma iniciativa do príncipe Mohammed bin Salman.

IMPORTA-SE DE REPETIR?

Preocupados com o Brasil? Talvez seja altura de nos preocuparmos com Portugal.

A Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda Nacional Republicana afirmou, em comunicado público, ou seja, em documento oficial, que «os criminosos [...] não são merecedores do mesmo respeito e consideração, por parte do Estado e da comunidade, atribuídos ao cidadão comum.» Não se trata de uma opinião isolada. Trata-se de um comunicado da GNR.

Vivemos num Estado de Direito? A sério?

sábado, 20 de outubro de 2018

JAMAL KHASHOGGI


O assassinato de Jamal Khashoggi (1958-2018), um de vários correspondentes estrangeiros do Washington Post, não foi a primeira nem será a última execução de um jornalista. Pondo de lado o horror do episódio (o jornalista terá sido desmembrado em vida, acabando por morrer ao fim de sete minutos, no momento da decapitação), o que surpreende é a pronta reacção da Turquia, país que não é um modelo de liberdades e garantias.

Ontem, após dezassete dias de pressão por parte de Ankara, Washington e Londres, a Arábia Saudita acabou por reconhecer a morte de Khashoggi no interior do consulado saudita em Istambul, onde o jornalista se tinha deslocado, no passado dia 2, para obter documentação necessária ao casamento com uma turca. Segundo as autoridades de Riade, a morte terá ocorrido em consequência de uma luta corpo a corpo. Mas, se é assim, o que os impede de devolver o corpo?

Riade também diz que os responsáveis directos são 18, e estão presos. Três altos funcionários dos serviços secretos sauditas, um deles muito próximo do príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, teriam sido demitidos.

A Turquia avisou os Estados Unidos, com base em gravações de imagem e som: Khashoggi foi desmembrado até morrer. Ou seja: a Turquia assume que monitoriza o interior de instalações diplomáticas estrangeiras. Não é inédito, mas permanece um interdito.

Isto suscita outra questão: os alegados assassinos puderam regressar à Arábia Saudita (existem imagens do embarque) sem serem incomodados pelas autoridades turcas. Porquê?

O próprio empenho de Trump, que mandou um emissário falar com o rei saudita, não deixa de ser curioso. Afinal, a defesa da liberdade de expressão não faz parte dos traços distintivos do presidente americano.

O assassinato de Jamal Khashoggi suscita a repulsa do mundo civilizado, com certeza que sim. O que continua por explicar é o tom da reacção de Ankara e Washgington, porque nenhuma destas ondas de choque bate certo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

REFORMAS ANTECIPADAS


As redes sociais espelham a realidade: uma pessoa escreve branco, mas, lá onde escrevemos branco, quase todos lêem preto. Acontece a todo o momento.

Pelos vistos, acontece o mesmo a deputados em funções. Muitos de nós ouviram Carlos César, Rui Rio (o único que não é deputado), José Soeiro, Diana Ferreira e Assunção Cristas, dizerem que as novas regras das reformas antecipadas não constam do OE 2019. Ontem tive mais que fazer, mas hoje fui consultar a Proposta de Lei 385/2018, de 13 de Outubro, ou seja, a proposta do Orçamento do Estado para 2019.

Na imagem vê-se a página 87, onde aparece o artigo 90.º que regula o tema. O articulado é claro. Os excelentíssimos deputados não sabem ler?

A peixeirada do CDS, a indignação do PCP, a perplexidade do BE e a surpresa do PSD, fazem parte do jogo político. A reacção da bancada parlamentar do PS suscita interrogações.

Em consequência do sururu no PS, Vieira da Silva, o ministro, esclareceu ontem à noite: «Haverá um processo de transição em que os direitos dessas pessoas se manterão durante o tempo necessário.» Dito de outro modo, o articulado vai ser alterado. Muito bonito. Isto não podia ter sido feito antes?

Clique na imagem.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

ROVISCO SAI

O general Rovisco Duarte, Chefe do Estado-Maior do Exército, demitiu-se esta tarde, alegando, em comunicado distribuído às Forças Armadas: «As circunstâncias políticas assim o exigiram.» Exactamente o contrário do que diz o site da Presidência da República: «Invocando razões pessoais, pede a resignação do cargo...»

Não esquecer que, ontem mesmo, Carlos César, membro do Conselho de Estado, presidente do PS e líder da bancada parlamentar socialista, disse à TSF que a saída de Azeredo Lopes não punha um ponto final no caso de Tancos: «Espero consequências do ponto de vista das Forças Armadas, em particular, do Exército

Foi o empurrão decisivo.

THE CHILDREN ACT


Gosta de Emma Thompson? E dos livros de Ian McEwan? Então vá ver The Children Act, ou seja, A Balada de Adam Henry. O livro é de 2014 e está traduzido em Portugal. O filme é de 2017 mas só este ano teve distribuição comercial (estreou em Londres em Agosto). Emma Thompson está superlativa. A realização de Richard Eyre tem um quê de operático, ou não fosse ele quem é. No livro, o grau de ambiguidade é maior, mas o filme tem o registo certo. Magnífico. Face à acelerada infantilização do cinema, filmes como este fazem bem.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

DEMISSÃO ANUNCIADA

Azeredo Lopes demitiu-se esta tarde. Então e as chefias militares? O caso fica resolvido com a demissão do ministro da Defesa? O Presidente da República, que é também comandante supremo das Forças Armadas, considera-se esclarecido?

O 22 DE JULHO DE 2011


Se tem Netflix, veja o filme 22 de Julho, de Paul Greengrass, disponível desde anteontem. Convém não esquecer.

Lembra-se de Anders Behring Breivik? O partido a que pertence, o FrP, ou Fremskrittspartiet e Framstegspartiet, vulgo Partido do Progresso, faz parte do Governo norueguês desde 2013 e tem actualmente 27 deputados no Parlamento de Oslo.

A 22 de Julho de 2011, Anders Behring Breivik fez explodir um carro-bomba junto ao edifício onde funciona o Governo norueguês e, hora e meia mais tarde, abateu a tiro 69 adolescentes reunidos na ilha de Utoya num acampamento da juventude trabalhista. Por junto, Breivik provocou a morte de 77 pessoas e ferimentos graves em 209. No julgamento foi claro: A Europa e a Noruega têm de ser devolvidas aos europeus e aos noruegueses. Somos muitos. Um ano depois, o FrP estava no poder.

O OVO DA SERPENTE

Consoante o grau de proximidade, as afinidades electivas, o conhecimento da História e a noção de inscrição política (não confundir com inscrição partidária), o que se passa actualmente no Brasil provoca angústia, tristeza, pessimismo e indignação. O problema é que a tranquibérnia brasileira nos faz esquecer a realidade à nossa volta.

Sucede que a realidade europeia não é bonita de ver. Neste momento, partidos de extrema-direita têm assento nos parlamentos da Alemanha, Áustria, Hungria, Polónia, Itália, Suíça, França, Holanda, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Grécia, Eslovénia e Reino Unido. E fazem parte dos governos da Áustria, da Noruega, da Hungria e da Itália. Na Turquia, país membro da NATO, vive-se hoje como se viveu em Portugal durante o Estado Novo. Portanto, não custa nada perceber o que está em jogo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

JEAN-PAUL DUBOIS


Hoje na Sábado escrevo sobre A Sucessão, do francês Jean-Paul Dubois (n. 1950). Seguindo à risca o padrão da ficção francesa contemporânea, o autor mete este mundo e o outro no mais recente dos seus romances. Paul Katrakilis, o narrador, é médico, filho e neto de médicos. Nunca exerceu. Em vez disso, tornou-se jogador profissional de pelota basca. Vem de uma família complicada: o avô Spyridon, antigo médico de Estaline, e o tio Jules, relojoeiro, suicidaram-se; a relação da mãe com o irmão roçava o incesto; o pai andava de bata e cuecas pelas alas psiquiátricas do hospital. Foi neste universo que Paul cresceu. Não admira que Miami tenha sido um intervalo de fuga para as suas obsessões. Mas Dubois não consegue alhear-se da Wikipédia. Sirva de exemplo o penúltimo parágrafo da página 144: «Borlin venceu a maratona…» / «Gorbatchev foi recebido…» / «a França de Mitterrand votava a lei…» Oito linhas estranhas ao plot. Há mais. A passagem do avô pela URSS tem momentos deveras surreais. A ideia seria falar de perda, mas o excesso de informação dinamita o propósito. Três estrelas. Publicou a Sextante.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

DRAWING ROOM LISBOA


É hoje inaugurado na Sociedade Nacional de Belas Artes o salão de desenho de Lisboa, uma feira de arte internacional onde estão representadas galerias de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Grécia, Colômbia e Brasil. As portuguesas são a 111, a mais antiga do país, a Módulo, a Miguel Nabinho, a Monumental, a Presença (Porto), a Graça Brandão, a Fonseca Macedo (Açores), a Arte Periférica, a Pedro Oliveira (Porto) e a Carlos Carvalho. Oportunidade para ver, a partir das 17:00, dezenas de obras de artistas contemporâneos. À margem da Feira vão realizar-se conferências.

Hoje é para convidados, de amanhã a domingo para o público.

Portugueses representados, alguns por galerias estrangeiras:

Adriana Molder (1975), Ana Jotta (1946), Cecilia Costa (1971), Fernando Marques de Oliveira (1947), Joana Fervença (1988), Joana Pimentel (1971), João Felino (1962), João Gomes Gago (1991), Jorge Martins (1940), José Loureiro (1961), Luisa Cunha (1949), Luís Nobre (1971), Manuel San-Payo (1958), Marco Pires (1977), Margarida Lagarto (1954), Maria José Cavaco (1967), Martinho Costa (1977), Miguel Palma (1964), Nuno Gil (1983), Nuno Henrique (1982), Paulo Lisboa (1977), Pedro A.H. Paixão (1971), Pedro Cabrita Reis (1956), Pedro Calhau (1983), Pedro Gomes (1972), Pedro Vaz (1977), Rui Moreira (1971), Susana Gaudêncio (1977), Tiny Domingos (1968) e Vera Mota (1982). Mas também há Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992).

Mónica Álvarez Careaga, Maria do Mar Fazenda, Adelaide Ginga (curadora) e Ivania Gallo são quatro das nove mulheres que fizeram o Drawing Room.

A imagem do convite é de Pedro A.H. Paixão, da 111. Clique.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

NONSENSE


Já ouvi mais de uma vez: Isto é campanha, quando chegar a Presidente não faz nada daquilo. Penso exactamente o contrário. Quando chegar ao Planalto vai ser muito pior.

Em vez de mobilizar o país, Haddad foi a Curitiba falar com Lula. Ainda não percebeu que, de cada vez que o fizer, perde votos.

Dilma não está presa, pôde concorrer ao Senado, mas não conseguiu ser eleita. E ainda há quem precise de um desenho para perceber o colapso do PT.

No Estado do Rio de Janeiro, Bolsonaro teve uma média de 60%. No Rio propriamente dito (cidade) teve 58,2%. Quando é que Haddad lá vai? No Estado de São Paulo, Bolsonaro venceu em 629 das 645 cidades.

O que está a acontecer no Brasil é muito grave. Quase tão grave como imaginar que Haddad possa ser a solução. Agora é tarde. A Esquerda brasileira teve seis meses (Lula foi preso a 7 de Abril) para tentar fazer uma frente alargada de democratas. Em vez disso, fez pirotecnia. O resultado está à vista.

Clique no gráfico do jornal brasileiro Globo.

DE 1 PARA 52


Nas eleições de 2014, o PSL, ou seja, o Partido Social Liberal (Bolsonaro), elegeu um deputado. Um. Anteontem elegeu 52 e tornou-se o segundo maior partido com representação parlamentar do Brasil.

Clique no gráfico do jornal brasileiro Globo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

REFERENDO NULO

Fazendo o trabalho sujo do Governo, que tem de manter as aparências em Bruxelas, a igreja ortodoxa romena mobilizou parte da opinião pública numa tentativa de mudar o artigo da constituição que define o casamento: em vez de «o casamento é a união entre duas pessoas», como consta na Lei, queriam «o casamento é a união entre um homem e uma mulher».

Embora o casamento entre pessoas do mesmo sexo não seja permitido na Roménia, os tribunais têm actuado na defesa dos direitos da comunidade homossexual, fazendo frente aos sectores mais retrógrados da sociedade.

Surgiu assim uma petição, assinada por 3 milhões de pessoas (o país tem 21 milhões de habitantes), que levou o Governo e o Parlamento a organizar o referendo, que se realizou sábado e domingo.

Mas os votantes foram apenas 20%, tornando o referendo nulo. As autoridades não revelaram as percentagens dos que votaram a favor ou contra a mudança.

SEGUNDA VOLTA NA CALHA

Com 48,6 milhões de votos (46,5%), Bolsonaro ficou em primeiro lugar. Disputará a segunda volta com Haddad, que obteve 29,9 milhões de votos (28,7%). No próximo 28 de Outubro saberemos o resultado.

Clique na imagem do jornal Estado de São Paulo.

domingo, 7 de outubro de 2018

BRASIL EM TRANSE

Mais de 147 milhões de eleitores recenseados vão hoje escolher o novo Presidente, 27 governadores, 54 senadores e centenas de deputados federais e estaduais. O voto é obrigatório no Brasil. O último Ibope, ontem divulgado, dava 41% a Bolsonaro e 25% a Haddad.

A SEGUNDA DERROTA DE ANITA HILL

Sob um coro de protestos das galerias do Senado, Brett Kavanaugh foi ontem confirmado juiz do Supremo Tribunal, por 50 votos contra 48. O democrata Joe Manchin votou a favor da nomeação. Dois senadores faltaram à votação. Entretanto, foram presas dezenas de activistas do MeToo. Depois da votação, Kavanaugh tomou posse. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos fica agora com cinco juízes conservadores e quatro liberais.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

FOOTBALL LEAKS

Pode ser que me engane, mas é provável que Kathryn Mayorga tenha antecipado o fim da carreira de Ronaldo. Se, como tudo indica, o caso vier a arrastar-se (a professora acusa o jogador de a ter sodomizado em 2009 contra sua vontade), o estendal de revelações obscenas porá fim a uma série de contratos milionários de publicidade. A Nike já está a franzir o sobrolho. É tarde para deter a bola de neve.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

BRASIL PRESIDENCIAL


No próximo domingo, dia 7, o Brasil elege o seu novo Presidente. Comparado com Bolsonaro, Trump é quase um estadista. E, claro, os Estados Unidos têm um sistema (e uma tradição) de checks & balances eficiente. O Brasil vive noutro planeta. Há um ano, imaginar Bolsonaro como candidato era uma anedota brega. Hoje é o que sabemos.

Clique na imagem do jornal Globo, com a mais recente sondagem do Ibop.

DEPUTADOS EM SERRALVES

Se não tiver havido mudança de agulha, os deputados da comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto vão hoje a Serralves ver a exposição de Mapplethorpe, falar com a administração da Fundação e tentar perceber o que se passou para as obras expostas terem sido reduzidas de 179 para 159.

O BE propôs a audição de João Ribas no Parlamento, o requerimento foi aprovado por unanimidade, mas, passados mais de dez dias, nada aconteceu.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

WOOLF & PADGETT


Hoje na Sábado escrevo sobre Viagens, de Virginia Woolf (1882-1941), um livro que a autora nunca escreveu. A partir de excertos do diário, cartas avulsas, artigos e ensaios, Jorge Vaz de Carvalho organizou um volume com este título. Com efeito, a autora de Mrs. Dalloway nunca escreveu um livro de viagens, mas a solução encontrada preenche a lacuna. Ao longo da vida, Virginia fez viagens a Itália, Portugal, Espanha, Grécia, Turquia, Alemanha, França, Irlanda e Holanda, repetindo algumas em anos diferentes. A França, por exemplo, foi dezasseis vezes. Escreveu sobre essas experiências a partir de Novembro de 1904, tinha então 22 anos. Várias delas foram mais tarde transpostas para obras de ficção. As observações sobre Portugal são parcimoniosas. Virginia e o irmão Adrian desembarcam em Leixões, apanhando no Porto o comboio para Lisboa porque uma avaria no navio alterou os planos iniciais. Acerca de Lisboa, diz que é uma cidade «ampla, brilhantemente branca e limpa...». Refere o Hotel Borges, onde ficaram instalados, os eléctricos velozes, o Cais do Sodré, a Praça do Cavalo Preto (o Terreiro do Paço) e uma visita ao cemitério inglês para ver a campa de Henry Fielding, o autor de Tom Jones (1749). A partida para Sevilha deu-se nessa mesma noite. Portugal foi um brevíssimo entreacto. Mas, por comparação com a capital portuguesa, considera Sevilha cheia de defeitos: «É uma cidade a que acho difícil acostumar-me.» Numa carta a Violet Dickinson datada de Abril de 1905, matiza o juízo, mas volta a sublinhar que «Lisboa é uma cidade esplêndida, com pelo menos um belo edifício, a grande igreja em Belém.» Na Primavera de 1925, no extremo Sul da França, acompanhada de Leonard, algures entre Cassis e La Ciotat, sente-se feliz: «Ninguém dirá de mim que não conheci a felicidade perfeita.» O turismo não era o que é hoje, mas Virginia não deixa de reflectir sobre relações entre «pessoas que não se conhecem». Em Maio de 1937, com a guerra no horizonte, Virginia volta a França: «No domingo foi a fête. Pessoas com roupas vivas. Aldeias cheias de homens negros, ali parados.» Um belo patchwork de textos de natureza diferente. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

Escrevo ainda sobre Poemas Escolhidos, do americano Ron Padgett (n. 1942). Uma selecção feita por Rosalina Marshall a partir de quatro livros do autor. O primeiro, Big Cabin, será inédito: não se encontram quaisquer referências a seu respeito, e Rosalina Marshall também o omite da bibliografia e da lista de títulos publicados. Padgett faz parte da segunda geração da denominada Escola de Nova Iorque, que tem Frank O’Hara e John Ashbery entre os seus notáveis. Além de sentido de humor, os poemas de Padgett têm ritmo jazzístico. É assim desde os primeiros livros, mas nota-se de forma clara no mais recente, Sozinho Mas Não Só (2015). Tradutor de Apollinaire e outros poetas franceses, amante de banda desenhada, doseia bem o nonsense e os envios culturais: «Passei toda a vida / a pensar que era um rapaz, / depois um homem […] e talvez um bocadinho borboleta.» A retórica belisca alguns poemas em prosa, e o mesmo sucede com os versos de Tudo Depende. Três estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

sábado, 29 de setembro de 2018

FLOP


Vi esta tarde a exposição de Mapplethorpe no Museu de Serralves. A primeira, desde que me conheço, em Portugal e no estrangeiro, sem legendas. Um panfleto impresso em nano-lettering é tudo o que há. Não substitui as legendas, como implica saber ler mapas.

As exposições não são feitas para intelectuais, nem as pessoas são obrigadas a saber que o autor fez muitos auto-retratos. Entre os fotografados há artistas célebres, galeristas, poetas, actores, modelos, gente que a minha geração conhece, mas os mais novos ignoram. Não se trata, portanto, de haver só 159 retratos (em vez de 179). A exposição está mal montada. Também não há catálogo. Lamentável.

A ver se a gente se entende. Eu gostava de dizer bem da exposição de Mapplethorpe, um artista da minha geração, que frequento desde 1983, dos dois lados do Atlântico. Infelizmente, a exposição, tal como está, é um desastre. A ausência de legendas não é um detalhe menor.

Um exemplo. Um casal jovem comentava a foto de William S. Burroughs com a espingarda, uma foto de 1981, tinha o escritor 67 anos: Esta do velho é porreira. Nenhum deles sabe quem é William S. Burroughs. Ignoram portanto que, em 1951, numa festa onde as lendas de Guilherme Tell eram macaqueadas, Burroughs matou Joan Vollmer (mãe do seu filho) com um tiro na cabeça. Se soubessem, a foto ganhava outro sentido.

Quando pessoas identificam, no acervo exposto, a recriação de A Morte de Marat (1793), de Jacques-Louis David? E assim sucessivamente.

Exemplos como estes multiplicam-se. Portanto, pendurar 159 fotografias sem contexto, não serve para nada.

CORPO, IDENTIDADES


No decurso de Carmina 3 foi lançada uma antologia de poesia sobre o corpo na poesia portuguesa, organizada por Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas. Faço parte dos 40 antologiados. Comigo estão, entre outros, Adília Lopes, Al Berto, Alberto Pimenta, Alexandre O’Neill, Ana Hatherly, Ana Marques Gastão, António Botto, Armando Silva Carvalho, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Florbela Espanca, Gastão Cruz, Helga Moreira, Irene Lisboa, Isabel de Sá, Jorge Sousa Braga, José Carlos Ary dos Santos, Luís Miguel Nava, Luiza Neto Jorge, Maria do Rosário Pedreira, Maria Teresa Horta, Mário Cesariny, Mário de Sá-Carneiro, Natália Correia, Nuno Júdice, Pedro Homem de Mello, Rosa Maria Martelo, Sophia de Mello Breyner Andresen. 344 páginas sem interditos. Ontem, Ana Luísa Amaral, João Rios, Rui Spranger e Isaque Ferreira, leram alguns dos poemas seleccionados. Foi desse modo vibrante que a festa acabou. A Fundação Cupertino de Miranda está de parabéns.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

O SEXO DA POESIA E DA CRÍTICA


Intervenção em Carmina 3, hoje à tarde, na Fundação Cupertino de Miranda.
Clique na imagem. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

CARMINA 3


A partir de hoje vou estar em Vila Nova de Famalicão, a convite da Fundação Cupertino de Miranda, para discutir poesia e identidades. Comigo vão estar Ana Luísa Amaral, Maria Teresa Horta, Rosa Maria Martelo, Livia Apa, Marinela Freitas, Catherine Dumas, Graça Capinha, Anabela Mota Ribeiro, Jorge Sousa Braga, Fernando Aguiar, Helga Moreira e Isabel Pires de Lima.

BALDWIN & OZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Se Esta Rua Falasse, do americano James Baldwin (1924-1987). Vá-se lá saber porquê, o autor só agora teve uma obra sua traduzida em Portugal. Não estou a contar com o ensaio sobre a revolta dos negros americanos inserido em volume colectivo. Romancista, dramaturgo, poeta e ensaísta, Baldwin foi também um empenhado activista dos direitos civis, dentro e fora dos Estados Unidos (viveu dez anos em Paris e, a partir de 1970, em Saint-Paul-de-Vence). Negro e homossexual pobre do Harlem, tudo o afastava do meio literário. Contudo, o carácter autobiográfico do primeiro romance, Go Tell It on the Mountain (1953), colocou-o no radar da crítica americana, inglesa e francesa. Se Esta Rua Falasse, publicado em 1974, chegou agora pela mão de José Mário Silva. «Alonzo, vamos ter um bebé.» Feita por auscultador, a revelação dá o tiro de partida à primeira parte do romance. Clementine e Alonzo, 19 e 22 anos respectivamente, o par de namorados da rua Beale, estão separados por um vidro como de regra nos palratórios das prisões. Alonzo está preso por um estupro que não cometeu. O facto de ser um adolescente com excesso de hormonas não fazia dele o violador de Victoria Rogers, a porto-riquenha que o apontou na line-up da esquadra depois de haver sido «forçada a praticar as mais inimagináveis perversões sexuais.» Alonzo teve o azar de ficar na mira de um polícia racista. Narrada por Clementine, a história segue passo a passo a saga de duas famílias sem recursos, apostadas em provar a inocência de Alonzo. Em síntese, pode-se dizer que Baldwin faz o retrato da comunidade negra na América dos seventies, os anos do racismo puro e duro. Por fim, Alonzo sai em liberdade sob fiança (no dia em que o pai comete suicídio) e a criança nasce. A origem do dinheiro é obscura. O julgamento não cabe no plot. O título é uma parábola da desigualdade social: Se a rua Beale pudesse falar… É isso que Baldwin (antigo membro dos Panteras Negras) quis vincar. Os avanços e recuos cronológicos ajudam a contextualizar o ar do tempo. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Caros Fanáticos, do israelita Amos Oz (n. 1939), autor que dispensa apresentações. Defensor do direito dos palestinianos a um Estado independente, voz incómoda para Tel Aviv, juntou em  três ensaios sobre questões controversas de Israel. Questões de vida ou de morte, diz ele, ao caracterizar as reflexões. O livro abre com o ensaio que dá o título ao conjunto, adaptação alargada de conferências feitas na Alemanha. Centra-se no fanatismo islâmico, da Al-Qaeda ao Daesh, passando pelo Hezbollah e outros grupos radicais. O ódio identitário deu azo a uma «vaga de rejeição do outro», instalando o fanatismo universal. É interessante a forma como introduz comentários a obras suas de ficção, sinalizando temas concretos. O segundo, Luzes e não uma única luz, baseia-se num livro da filha. Judaísmo enquanto cultura «e não apenas como religião, e nação.» É porventura o mais erudito dos três. O terceiro, Sonhos de que Israel se deve libertar rapidamente, estatui de modo peremptório: «Se não houver aqui dois estados, e rapidamente, haverá apenas um.» (E será árabe.) Perturbador? Decerto. Amos Oz sabe do que fala. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

HELENA ALMEIDA 1934-2018


Com 84 anos, morreu esta madrugada Helena Almeida, uma das mais importantes artistas plásticas portuguesas do século XX. Ainda a semana passada vi obras suas na Tate Modern, em Londres. Quem estiver em Madrid encontra novos trabalhos seus na Galeria Helga de Alvear.

Clique na foto de 1976.

SERRALVES & MAPPLETHORPE

Na conferência de imprensa dada esta manhã pelo Conselho de Administração da Fundação de Serralves, terminada há pouco, Ana Pinho foi peremptória:

O Conselho de Administração não mandou retirar quaisquer obras da exposição [...] Todas as fotografias foram escolhidas exclusivamente pelo curador [...] As 20 obras não foram expostas por iniciativa do curador [...] Não haverá complacência com a falta de verdade.

Ana Pinho estava ladeada por Isabel Pires de Lima, José Pacheco Pereira, Manuel Ferreira da Silva e Manuel Cavaleiro Brandão.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

A FALÁCIA DO INFARMED

O tema da transferência para o Porto da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, vulgo Infarmed, ocupa várias páginas do Público. A choradeira de Rui Moreira não me interessa. Só lhe fica mal dizer que levou aquilo a sério. Qualquer pessoa com sentido prático percebia que, sem medidas radicais de logística e tesouraria (e porventura de natureza legislativa), a mudança não era viável. Tudo isso é claro desde 21 de Novembro de 2017, data em que o ministro da Saúde anunciou ao país uma medida que não tinha condições de concretizar a 1 de Janeiro de 2019.

O que me interessa no dossiê do Público são os números do relatório do grupo de trabalho criado pelo Governo para avaliar a viabilidade da mudança, mais os da Porto Business School sobre o funcionamento do Infarmed.

Dizem-nos esses números que as obras de adaptação do edifício onde o Infarmed ficaria instalado no Porto teriam o custo de 4,25 milhões de euros, não ficando prontas em menos de 30 meses (dois anos e meio). Esses 4,25 milhões de euros fazem parte do pacote de 17 milhões de euros que custaria a mudança. Verdade que há números sobre hipotéticas poupanças futuras, mas não vale contar com o ovo no cu da galinha.

O mais importante nem são os milhões para adaptar o edifício da Manutenção Militar (na zona ribeirinha), construir o laboratório e o data center. Nenhuma destas obras está sequer planeada, mas isso não preocupa o autarca-mor da Invicta.

Importantes são as pessoas. Ou seja, os 354 funcionários do Infarmed, dos quais apenas dez mostraram disponibilidade para a mudança. Se o Governo via vantagem na mudança do Infarmed para o Porto, tinha de o explicar. Em seguida, confrontado com recusa geral dos funcionários, devia, logo naquela altura, ter aberto concursos com carácter de urgência para recrutar na área do Grande Porto. Não acredito que ficassem desertos. Mesmo assim, com procedimentos concursais, adjudicações e obras, antes de 2022 nada aconteceria. Se nós tivéssemos uma imprensa atenta, e um jornalista que soubesse contar pelos dedos, o ministro da Saúde teria sido obrigado a esclarecer a natureza falaciosa do calendário.

Se vivêssemos na Coreia do Norte, os funcionários eram arrastados pelos cabelos. Vivendo em democracia, isso não acontece. Transferir 354 funcionários e respectivas famílias, significa obrigar perto de mil pessoas a mudar de vida. Não vale a pena entrar em detalhes de compra ou arrendamento de casa, vagas em escolas e faculdades, gestão de compromissos em Lisboa, etc.

Nas primeiras semanas (ainda em 2017) após a fake new, um punhado de técnicos especializados rescindiu com o Estado e foi trabalhar para o sector privado do medicamento. A sangria estancou quando foi garantido que a mudança não se faria. Mesmo um pólo de natureza administrativa, para manter as aparências, com pessoal reduzido a recrutar in loco, orçaria em seis milhões de euros.

Sobra ainda a posição das associações do sector do medicamento, a indústria farmacêutica, as empresas de dispositivos médicos, etc., todas contra a mudança.

É a Máquina? Claro que é a Máquina. Rui Moreira nasceu ontem?

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

MAPPLETHORPE AGAIN


Se, como revela hoje o Público, João Ribas foi forçado a tirar da parede obras já penduradas, aceitando, do mesmo passo, a substituição do vídeo Still Moving por uma tela que veda quase completamente a entrada numa das salas reservadas, por que razão compareceu ao vernissage...?

Sol na eira e chuva no nabal nunca deu bom resultado.

Clique na foto de António Lagarto.

domingo, 23 de setembro de 2018

NOVELA MAPPLETHORPE


Isabel Pires de Lima, administradora da Fundação de Serralves, deu esta noite uma entrevista ao Expresso online. A antiga ministra da Cultura não podia ser mais clara: foi João Ribas quem pôs de lado 20 fotografias, reduzindo a exposição de 179 para 159 trabalhos. Discurso directo: Surpreende-nos que ele tenha excluído 20 obras. É bastante penalizador para a Fundação, que pagou 179. Também não aceita a alegação de censura porque, desde o início, ficou estabelecido criar uma zona interdita (as fotografias de cariz sexual explícito) a menores de 18 anos não acompanhados.

Como João Ribas ainda não se pronunciou, o que é estranho, ficamos só com um dos lados da história.

Importa lembrar que não é a primeira vez que obras de Mapplethorpe são expostas em Portugal. Em 1985, a Galeria Cómicos (Lisboa), de Luís Serpa, expôs Black Flowers, ainda o autor estava vivo. Em 1993, no Mês da Fotografia de Lisboa, e nos Encontros da Imagem, em Braga, mais obras foram expostas. Verdade que nenhuma destas exposições era uma grande retrospectiva, como a que neste momento está em Serralves.

Clique na imagem.

sábado, 22 de setembro de 2018

INFARMED

Acabou a novela da transferência do Infarmed para o Porto, iniciada em Novembro de 2017. Ouvido ontem no Parlamento, o ministro da Saúde revelou que o Governo suspendeu a medida.

Integrada na candidatura falhada do Porto à sede da Agência Europeia do Medicamento, a transferência do Infarmed não podia fazer-se sem os seus 356 funcionários. Sucede que apenas 19 (nenhum dirigente, nenhum quadro superior, nenhum técnico especializado) manifestaram disponibilidade para se deslocar.

Alguém no seu perfeito juízo acreditou ser possível transferir 356 funcionários e respectivas famílias para mais de 300 quilómetros da sua residência?

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

MAPPLETHORPE CENSURADO

João Ribas, director do Museu de Serralves, e Paula Fernandes, curadora, organizaram a exposição de Mapplethorpe com 179 trabalhos do fotógrafo americano. A publicidade institucional vinca a existência desse conjunto.

Mas a administração da Fundação vetou 20, reduzindo a mostra a 159. Também impôs proibição a menores de 18 anos.

João Ribas demitiu-se esta noite do cargo de director.

A administração da Fundação é composta por Ana Pinho, Manuel Cavaleiro Brandão, Manuel Ferreira da Silva, Isabel Pires de Lima, Vera Pires Coelho, Carlos Moreira da Silva, António Pires de Lima e José Pacheco Pereira.

A decisão de interditar as 20 obras foi tomada por maioria ou por unanimidade? Quem votou a favor da interdição?

De que modo a Fundação de Serralves tenciona ressarcir quem (como eu) comprou ingressos por via electrónica?