domingo, 23 de setembro de 2018

NOVELA MAPPLETHORPE


Isabel Pires de Lima, administradora da Fundação de Serralves, deu esta noite uma entrevista ao Expresso online. A antiga ministra da Cultura não podia ser mais clara: foi João Ribas quem pôs de lado 20 fotografias, reduzindo a exposição de 179 para 159 trabalhos. Discurso directo: Surpreende-nos que ele tenha excluído 20 obras. É bastante penalizador para a Fundação, que pagou 179. Também não aceita a alegação de censura porque, desde o início, ficou estabelecido criar uma zona interdita (as fotografias de cariz sexual explícito) a menores de 18 anos não acompanhados.

Como João Ribas ainda não se pronunciou, o que é estranho, ficamos só com um dos lados da história.

Importa lembrar que não é a primeira vez que obras de Mapplethorpe são expostas em Portugal. Em 1985, a Galeria Cómicos (Lisboa), de Luís Serpa, expôs Black Flowers, ainda o autor estava vivo. Em 1993, no Mês da Fotografia de Lisboa, e nos Encontros da Imagem, em Braga, mais obras foram expostas. Verdade que nenhuma destas exposições era uma grande retrospectiva, como a que neste momento está em Serralves.

Clique na imagem.

sábado, 22 de setembro de 2018

INFARMED

Acabou a novela da transferência do Infarmed para o Porto, iniciada em Novembro de 2017. Ouvido ontem no Parlamento, o ministro da Saúde revelou que o Governo suspendeu a medida.

Integrada na candidatura falhada do Porto à sede da Agência Europeia do Medicamento, a transferência do Infarmed não podia fazer-se sem os seus 356 funcionários. Sucede que apenas 19 (nenhum dirigente, nenhum quadro superior, nenhum técnico especializado) manifestaram disponibilidade para se deslocar.

Alguém no seu perfeito juízo acreditou ser possível transferir 356 funcionários e respectivas famílias para mais de 300 quilómetros da sua residência?

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

MAPPLETHORPE CENSURADO

João Ribas, director do Museu de Serralves, e Paula Fernandes, curadora, organizaram a exposição de Mapplethorpe com 179 trabalhos do fotógrafo americano. A publicidade institucional vinca a existência desse conjunto.

Mas a administração da Fundação vetou 20, reduzindo a mostra a 159. Também impôs proibição a menores de 18 anos.

João Ribas demitiu-se esta noite do cargo de director.

A administração da Fundação é composta por Ana Pinho, Manuel Cavaleiro Brandão, Manuel Ferreira da Silva, Isabel Pires de Lima, Vera Pires Coelho, Carlos Moreira da Silva, António Pires de Lima e José Pacheco Pereira.

A decisão de interditar as 20 obras foi tomada por maioria ou por unanimidade? Quem votou a favor da interdição?

De que modo a Fundação de Serralves tenciona ressarcir quem (como eu) comprou ingressos por via electrónica?

PIRUETAS

Desde 9 de Janeiro, dia em que Francisca Van Dunem defendeu na TSF a eficácia de mandato único para o cargo de Procurador-Geral da República, a Direita entrou em ebulição. A carta que Passos Coelho publicou ontem à noite no Observador faz a síntese do desapontamento de quantos, nos últimos oito meses, fizeram da recondução de Joana Marques Vidal o turning point do Governo.

Marcelo não pode ceder a Costa, repetiram dirigentes nacionais e apparatchik locais do PSD e do CDS, articulistas encartados, comentadores avençados e eurodeputados metediços. Não houve cão nem gato que não defendesse a continuação de Joana Marques Vidal, titular do cargo desde 2012. Marques Mendes, o oráculo do regime, afiançou que o assunto estava arrumado. Sábado passado, o Expresso fez manchete de uma fake new estridente. Nas audiências feitas pela ministra da Justiça aos partidos com representação parlamentar, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa também se manifestaram a favor da recondução de Joana Marques Vidal.

No centro do furacão, o primeiro-ministro escolheu Lucília Gago, comunicou a escolha ao Presidente da República, foi a Angola, veio a Lisboa trocar os jeans Paul Smith pelo fato Huntsman & Sons (Savile Row) e, sem perder a compostura, partiu para a cimeira da UE em Salzburgo.

Mas, quem ler hoje os jornais da manhã, fica com a sensação de que não aconteceu nada.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

LUCÍLIA GAGO


Por escolha do primeiro-ministro, Lucília Gago, 62 anos, especialista em Direito de Família e Menores, é a nova Procuradora-Geral da República. O Presidente da República já formalizou a nomeação.

António Costa não cedeu à chantagem da Direita nem aos pontos de vista do PCP e do BE, e não reconduziu Joana Marques Vidal.

MACHADO & MÓNICA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado (n. 1986). Por regra, os escritores fortes constroem a sua persona. Mas o processo era lento, e só dávamos por isso a meio da carreira. Agora não. O protocolo das redes sociais mudou tudo. Assim que publica o primeiro livro, o escritor apressa-se a divulgar as idiossincrasias. É o modus operandi de Carmen, filha de emigrantes cubanos e autora residente da Universidade da Pensilvânia, que usa o Twitter para pôr tudo em pratos limpos. Os contos reunidos em O Corpo Dela e Outras Partes dão notícia de uma voz poderosa, sem necessidade de mais nada, porque nos fala do corpo, de sexo, violência, paixão e morte. E fica tudo dito com apreciável grau de conseguimento. Como meta-linguagem, a literatura dispensa folclore. Neste caso, folclore significa o aproveitamento que tem sido feito do seu livro por parte do movimento MeToo. Sucede que a qualidade desta escrita passa bem sem muletas ideológicas. As questões identitárias são centrais à obra? É evidente que sim: «Ela movia-se com uma descontracção masculina e dura […] Fiquei molhada.» Neste conto, um casal de duas mulheres tem um bebé. Lesbianismo, portanto. É a circunstância de Carmen, casada com uma mulher. Um escritor sério escreve sobre o que conhece. A economia discursiva é uma vantagem. Carmen descreve cenas de sexo com natural parcimónia: «Não sei muito bem o que ele vai fazer, só quando o faz. Está duro, quente e seco, e cheira a pão e, quando me rasga, grito e agarro-me a ele como se estivesse perdida no mar.» Os textos mais agressivos, a roçar a pornografia, assina-os como Olivia Glass, o pseudónimo hard. Um dos textos corresponde a 272 sketches escritos a partir das doze temporadas da série de televisão Lei & Ordem. Um inventário de fantasia sem limites. Aqui é um conto, mas este núcleo constitui o livro de estreia: Especialmente Abominável (2013). Uma forma de colagem como qualquer outra. A ficção de Carmen não tem fronteiras, e por vezes aproxima-se da plenitude, como em As Mulheres de Verdade Têm Corpo. Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Nunca Dancei Num Coreto, da socióloga Maria Filomena Mónica (n. 1943). As crónicas são um género nobre, entre nós muitas vezes confundido com panfleto político. A autora reuniu neste volume as que escreveu a partir de 2011. Maria Filomena Mónica tem a enorme vantagem de pensar pela sua cabeça. Temas prosaicos ou eruditos, o desembaraço é de regra. Com brilho, a autora salta dos efeitos corrosivos da burocracia para as idiossincrasias de Christopher Hitchens, da redução de salários do Estado para a cultura do desenrascanço, dos bastidores da vida académica para a gentrificação do bairro da Lapa, do crash do Lehman Brothers para os direitos das mulheres, da escola pública para a regressão das liberdades individuais, de Sócrates (o antigo primeiro-ministro) para as casas de banho de hotel, da banlieue de Paris para Obama, da farsa independentista de Puigdemont para a guerrilha geracional, do pianista Claudio Arrau para Marcelo (o Presidente), da desigual repartição de sacrifícios para os graffiti, da doença para o esplendor da relva. Deveras estimulante. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

MAPPLETHORPE EM SERRALVES


É hoje inaugurada em Serralves uma exposição de Robert Mapplethorpe. Junta 179 trabalhos do autor, incluindo as fotografias de cariz sexual que têm sido boicotadas por museus dos dois lados do Atlântico. Comissariada por João Ribas e Paula Fernandes, arrisca-se a ser o acontecimento cultural mais importante do ano em Portugal. Mapplethorpe (1946-1989) é um dos artistas mais importantes do século XX, e quem não conhece tem aqui uma boa oportunidade. Não voltei a vê-lo desde o Whitney, lá terei que voltar à Marechal Gomes da Costa. Vale uma ou várias deslocações ao Porto. Fica até 6 de Janeiro de 2019.

Clique na imagem.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

PREC TAXISTA


Em protesto contra a legalização das plataformas online de táxis (casos da Uber, Cabify, Taxify e Chaffeur Privé), os taxistas estão a bloquear Lisboa. Desde as 5 da manhã que a Praça dos Restauradores está intransitável. Além dos Restauradores, estão ocupadas, e nalguns casos cortadas ao trânsito, a Avenida da Liberdade, o Marquês de Pombal, a Avenida Fontes Pereira de Melo, o Saldanha e a Avenida da República.

No Porto e em Faro decorrem acções semelhantes.

E depois admiram-se com o extremismo das populações.

Na imagem, interior do Cab londrino (os melhores táxis do mundo) onde circulei na tarde de sábado, 15 de Setembro. Clique

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

BOWLES & SHEPARD


Na edição desta semana da Sábado escrevo sobre Deixa a Chuva Cair, o segundo romance do americano Paul Bowles (1910-1999). Autor de uma obra extensa, Bowles sobrevive como nome de culto. O facto de ter-se expatriado em Tânger logo após a Segunda Guerra Mundial cimentou a lenda do escritor “maldito”. Escreveu quinze colectâneas de contos, seis romances, uma novela, cinco livros de poesia, dois de viagem e uma autobiografia em quatro volumes, mas, na realidade, foram os incidentes biográficos que fixaram o interesse e a avaliação dos contemporâneos. Quantos dos seus leitores sabem que foi um notável compositor de música erudita e de scores para a Broadway? Sem o halo de transgressão que marcou o exílio marroquino, como teria sido a recepção crítica? Além de compositor, ficcionista, poeta e memorialista, Bowles foi tradutor de Sartre e Genet, mas também dos contos orais do pintor Mohammed Mrabet. Metáfora omnipresente, o céu. A epígrafe do Macbeth, de Shakespeare, dá o tiro de partida. O plot ilumina os primeiros tempos de Bowles em Marrocos. Nas suas linhas gerais, a história de Dyar, o bancário que troca Manhattan («Qualquer outra vida seria melhor do que esta») pelos expedientes da zona internacional de Tânger, assenta no impulso que levou Bowles a deixar a América. Nova vida: outra gente, novos padrões morais, a mesma solidão. Dyar é um homem enredado nas contradições do desconhecido e numa sucessão de azares. Bowles teve um percurso diferente, sabemos que sim, mas não é das minudências do quotidiano que falamos. O conflito entre despaisamento e a nova realidade assenta na experiência do autor. É curiosa a insistência num cenário sombrio, por vezes macabro, por parte de alguém que escolheu viver ali mais de meio século. Se, em romances posteriores — A Casa da Aranha é um bom exemplo —, Bowles meteu na ficção acontecimentos políticos concretos (a colonização, o exílio na Córsega imposto pelos franceses ao sultão Maomé V, o avanço da cultura pan-islâmica, o nacionalismo árabe, os dogmas do Islamismo), em Deixa a Chuva Cair é a própria circunstância do autor que está em pauta. Três estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre a novela Espião na Primeira Pessoa, o livro póstumo de Sam Shepard (1943-2017). Conhecido sobretudo como actor de cinema, Shepard é autor de mais de cinquenta peças de teatro, algumas das quais encenou e interpretou, dezenas de contos e um romance. Vítima de esclerose lateral amiotrófica, Shepard foi obrigado a ditar parte deste livro derradeiro, constituído por 37 capítulos muito breves. Patti Smith, amiga de longa data, editou a versão final da obra. Texto de despedida, narra o ocaso de um homem que passa os dias a ler, num alpendre, enquanto come queijo e bolachas e bebe chá gelado. Um vizinho espia a progressão da doença. Por trás da tensa arquitectura discursiva, é nítida a mão do dramaturgo que sempre foi. (Em 1979, Shepard ganhou o Pulitzer com a peça Buried Child.) Tentativa de captura do tempo, «Como uma crosta muito estaladiça, muito pequena, que se arranha. Está um pouco turvo, este tempo. Não está muito claro para mim.» Sem escapatória: Espião na Primeira Pessoa é o epitáfio deste narrador anónimo. Notável. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

IMBRÓGLIO SUECO

Os números oficiais contrariam as sondagens, mas a tendência foi corroborada:

Direita — 158 deputados
Esquerda — 129 deputados
Extrema-direita — 62 deputados

O Socialdemokraterna, vulgo Partido Operário Social-Democrata da Suécia, vencedor de todas as eleições desde 1917, foi outra vez o partido mais votado (28,4%), mas obteve o pior resultado desde 1908. Tem agora 101 deputados. Perdeu 12.

O Moderaterna, vulgo Partido Moderado, mantém o segundo lugar (19,8%), mas perdeu 14 deputados. Tem agora 70.

O Sverigedemokraterna, vulgo Democratas Suecos, chegou aos 17,7%. Tem agora 62 deputados, mais 13 do que tinha. O establishment sueco não pode continuar a ignorar o partido de Jimmie Åkesson. Sessenta e dois deputados são três BE e ainda sobram cinco.

Os Verdes perderam 10 deputados.

Concorreram 15 partidos. Oito conseguiram representação parlamentar.

Os 349 deputados estão assim distribuídos:

Social-democratas, 101
Moderados, 70
Democratas (extrema-direita), 62
Centristas, 31
Comunistas, 28
Democratas-cristãos, 23
Liberais, 19
Verdes, 15

domingo, 9 de setembro de 2018

O FIM DA SOCIAL-DEMOCRACIA?


Os suecos podem acordar amanhã noutro país. Tudo depende do resultado das eleições deste domingo.

Prevê-se que o Socialdemokraterna, vulgo Partido Operário Social-Democrata da Suécia, fundado em 1889, tenha o pior resultado desde 1930. Os Verdes e os Liberais devem ter resultados insignificantes.

Entretanto, o Sverigedemokraterna, vulgo Democratas Suecos, actualmente o terceiro partido, está à frente em todas as sondagens.

Liderado por Jimmie Åkesson, 39 anos, o Sverigedemokraterna tem o apoio da extrema-direita e dos antigos comunistas. Tem um programa que galvaniza cada vez mais suecos. Quer fechar as fronteiras a emigrantes; quer o exército a assegurar a ordem pública nos subúrbios das grandes cidades; quer agravar o sistema penal; quer o fim da iniciativa privada na Saúde, na Educação, na distribuição de Energia e na rede viária; quer o encerramento das escolas privadas e religiosas; quer diminuir a carga fiscal dos altos rendimentos; e também quer um referendo para tirar o país da UE. Os esperados 25% nas eleições farão com que nenhum partido consiga formar governo sem o seu apoio. Jimmie Åkesson vai fazer pagar caro o desprezo dos partidos tradicionais.

À sua direita, o Nordiska Motståndsrörelsen, vulgo Movimento Nórdico de Resistência, órgão do neo-nazismo escandinavo, pode ter um resultado surpreendente. O MNR é liderado por Simon Lindberg, 35 anos, várias vezes preso por incitamento ao ódio racial e de género, activista anti-LGBT, xenófobo radical e neo-nazi declarado: O Holocausto nunca existiu. O partido tem extensões na Noruega, Finlândia e Islândia.

No gráfico do Guardian, a evolução das intenções de voto nos Democratas Suecos. Clique.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

FOI DEUS, DIZ ELE


Adélio Bispo de Oliveira, 40 anos, servente de pedreiro, missionário evangélico, esfaqueou Jair Bolsonaro durante uma acção de campanha em Juiz de Fora (Minas Gerais). O líder da extrema-direita brasileira ficou com o intestino perfurado em três sítios e o fígado afectado, estando internado no Hospital da Santa Casa, onde foi sujeito a uma melindrosa intervenção cirúrgica.

Um segundo homem, alegado cúmplice de Adélio, foi entretanto preso.

Bolsonaro, 63 anos, deputado (o mais votado no Rio de Janeiro), olho azul sibilino, militar na reserva, apoiante declarado da ditadura militar, defensor da legalização da tortura policial e da pena de morte, católico fundamentalista, activista anti-LGBT e anti-aborto, é o político brasileiro mais influente nas redes sociais e, com Lula fora da corrida, o candidato presidencial que lidera as sondagens.

Na foto do Estadão, Bolsonaro a ser retirado do local após o ataque. Clique.

PAGLIA & CUSK


Hoje na Sábado escrevo sobre Mulheres Livres Homens Livres, de Camille Paglia (n. 1947). Cada novo livro da autora é sempre um acontecimento. Mesmo que seja uma compilação de textos de natureza diversa sobre sexo, género e feminismo: ensaios académicos, conferências, recensões, capítulos de outras obras. Mulheres Livres Homens Livres é uma visão alargada sobre a sociedade contemporânea e a cultura ocidental (arte e decadência). Quem leu Personas Sexuais, a obra-prima que em 1990 projectou o nome da autora para fora da Academia, sabe do que falo. Palavras suas: «As ideias fundamentais deste livro são a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão.» Oriunda do feminismo radical e dos círculos académicos mais exigentes, Paglia nunca evitou chocar de frente com o establishment: «Permanece um mistério a razão pela qual um psicanalista trapaceiro, cínico e verborreico como Jacques Lacan […] se tornou o ídolo de tantas feministas anglo-americanas.» Com o sarcasmo de regra, os temas abordados reportam à crise do sistema de ensino universitário americano, ao retrato que Mapplethorpe fez de Patti Smith, a sexo nas escolas, à violação, ao aborto, aos equívocos da candidatura presidencial de Hillary Clinton, à série de televisão The Real Housewives, a cirurgia plástica, à prática do masoquismo por parte das classes médias educadas, à «mistela bafienta» do pós-estruturalismo, à regressão dos grupos feministas, etc. Paglia nunca desilude. A desenvoltura da sua escrita, empenhada, envolvente, apoiada numa vasta erudição e num desprezo total pela mentalidade dominante, fazem de cada livro uma provocação. Em O espelho cruel: tipos físicos e imagens do corpo tal como os reflecte a arte, a digressão sobre arte (escultura, pintura, fotografia, design publicitário) tem como contraponto a aridez do registo dos media: «Para o bem e para o mal, o corpo tornou-se um indicador identitário fundamental…» Entre vários outros, são recuperados os artigos dedicados a Nefertiti e Madona: «Madona é a verdadeira feminista. Ela põe a nu o puritanismo e a ideologia sufocante do feminismo americano […] Madona é o futuro do feminismo.» Isto foi publicado em 1990 no New York Times. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre o penúltimo romance de Rachel Cusk (n. 1967), Trânsito, que corresponde ao livro do meio da trilogia Outline, a história de uma escritora divorciada, com dois filhos, decidida a reformar uma casa em ruínas. A casa existe. Os amantes de parábolas têm aqui o relato escarolado do que seja reconstruir uma vida reduzida a cacos. A prosa irrepreensível de Cusk transfigura o quotidiano mais prosaico no tipo de narrativa que prende o leitor da primeira à última página. A acção decorre em Londres, numa zona isenta de glamour. A intriga salta com naturalidade de cenas da vida doméstica para reflexões sobre cães, formação de adolescentes, idiossincrasias literárias (a escrita onde ‘nada acontece’), responsabilidade social, trabalho precário, gentrificação, imigrantes, multiculturalisno, conjugalidade entre casais do mesmo sexo: «Não era propriamente a primeira vez que presenciara a homossexualidade: era a primeira vez que tinha presenciado amor.» O fluxo da consciência nunca derrapa. Trânsito respeita a arquitectura da trilogia, mas tem vida própria. Nenhum óbice para quem não tenha lido A Contraluz, o primeiro volume da vida de Fay. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

AXIMAGE


Sondagem da AXIMAGE para o Correio da Manhã e o Jornal de Negócios.

Maioria de Esquerda = 54,8%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 15,8% (e a PAF em 6,6%). O PSD cai três pontos. O CDS consegue ultrapassar o BE e passa a ser o terceiro partido com assento parlamentar.

Clique no gráfico do Negócios.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

FEAR


Aguardo com expectativa o novo livro de Bob Woodward, Fear, com lançamento previsto para o próximo dia 11. A data escolhida pela Simon & Schuster é uma metáfora macabra?

Se, por um lado, as revelações são preocupantes (disfunção total na West Wing e no gabinete de crise), por outro confirmam o que já se sabia: Trump é o boneco de uma administração sem rosto. A ver vamos.

Clique no retrato de Bob Woodward.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

GOOGLE


O Google faz hoje vinte anos. Graças a ele, a vida dos povos mudou mais que nos cem anos precedentes. Ter nascido antes ou depois do aparecimento do Google faz toda a diferença. Sou do tempo em que o Google Earth e o Google Maps eram coisa de ficção científica. E quem diz esses diz o Gmail e o sistema Android e o YouTube. As nossas vidas nunca mais foram as mesmas.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

RIO EM CHAMAS


Ardeu por completo o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Das mais de vinte milhões de peças do espólio, apenas escapou o meteorito Bendegó, uma pedra de 5,6 toneladas descoberta em 1784 no interior da Bahia. Por decisão do imperador Dom Pedro II, o meteorito estava no museu desde 1888.

O palácio da Quinta da Boa Vista foi residência da família real portuguesa (1808-21) e da família imperial brasileira (1822-89). O museu foi fundado em 1818, por D. João VI, mas só em 1892 foi transferido para o palácio da Quinta da Boa Vista. Era um dos mais importantes museus de história natural e antropologia da América Latina. Agora acabou. Ainda bem que o visitei em 1982.

Clique na imagem de El País.

domingo, 2 de setembro de 2018

MUDANÇA DA HORA

Segundo a Pordata, a população da UE corresponde a 512 milhões de pessoas. Daqui a seis meses, com a saída do Reino Unido, seremos 460 milhões. Não obstante, a Comissão Europeia deu por bom um inquérito em que alegadamente participaram 4,6 milhões de cidadãos dos Estados-membros.

Não sei o que aconteceu nos outros países. Em Portugal praticamente não se ouviu falar do inquérito à mudança da hora. Não vi publicidade institucional na televisão ou na imprensa (estou a falar de publicidade, não confundir com artigos de opinião), não dei por nenhum debate no Parlamento, não recebi nenhum sms sobre o assunto (como recebo para a provável ocorrência de fogos ou a vacinação contra a gripe), o Partido Ecologista Os Verdes não deu um pio, o Governo não se pronunciou, e até o Presidente da República, que emite opinião sobre tudo, fez silêncio sobre o tema. Anteontem, o Observatório Astronómico de Lisboa deu um parecer favorável à continuação da mudança da hora. Dito de outro modo, o inquérito europeu foi, entre nós, um interdito.

Por aquilo que leio nas redes sociais, a maior parte dos portugueses que “participaram” fê-lo de forma errada. Estava em pauta saber se a «mudança» da hora era para manter. Mais nada. Bruxelas quer acabar com a mudança e promoveu este circo. Mas muita gente achou que se tratava de escolher a hora preferida. Nonsense.

Vamos cumprir o que Bruxelas decidir. O circo era escusado.

VERDES ANOS


Estive ontem no primeiro dos três encontros programados para o ciclo dedicado ao bairro de Alvalade: Os Cafés e outras Constelações de Encontro da Avenida de Roma. Falou-se de quando o cinema português era novo. Foi no café-restaurante Vá-Vá, e nem fazia sentido que fosse noutro sítio, pois foi por ali que passaram as gerações que nos anos 1960 e 70 mudaram a paisagem de parte importante da vida cultural portuguesa.

Na imagem, da esquerda para a direita, Aquilino Machado, organizador dos encontros (e respectivos itinerários pedonais), Alfredo Barroso, Isabel Maria Mendes Ferreira, Isabel Ruth e Lauro Antonio. Um belo fim de tarde.

Clique na imagem.

sábado, 1 de setembro de 2018

LULA EMBARGADO


Por seis votos contra um, o Tribunal Superior Eleitoral não aceita o registo da candidatura presidencial de Lula. Argumento: o antigo Presidente «está enquadrado na Lei da Ficha Limpa». Ficam só os da Ficha Suja.

Clique na imagem do Estadão.

VANDALISMO


Isto admite-se? Clique nas imagens.

DESCONTINUADO?


Este sinal na esquina da Rua José Carlos dos Santos com a Avenida da República foi descontinuado pela Câmara Municipal de Lisboa?

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

LISBOA VANDALIZADA


A criatura está identificada. Até dá entrevistas ao jornal Corvo. Então e a Câmara de Lisboa assobia para o lado? A administração do Metro não limpa os placards? A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária mantém os sinais de trânsito vandalizados? Estão todos com medo de fazer uso da autoridade? Isto vai durar até quando? Até começar a aparecer Geco gravado nas viaturas oficiais? Talvez fosse boa ideia. Acordavam de vez.

Clique na imagem para ler melhor.

LACERDA & MENDELSOHN


Hoje na Sábado escrevo sobre Labareda, antologia da obra poética de Alberto de Lacerda (1928-2007). A distância rasura. Foi o que aconteceu com Lacerda, ausente de Portugal desde 1951. Lisboa foi um intervalo fugaz entre Lourenço Marques e Londres. O périplo americano e as peculiares idiossincrasias do autor acentuaram a fractura com os media e a universidade portuguesa. Injustiça óbvia, porque falamos de um grande poeta. No ano em que Lacerda faria 90 anos, Luís Amorim de Sousa organizou esta antologia a que chamou Labareda. O volume inclui poemas seleccionados dos onze livros publicados em vida do autor, um dos quais, Sonetos, sem distribuição comercial. Este núcleo inclui os dois tomos de Oferenda (1984 e 1994) que, por sua vez, coligem cinco livros até então inéditos. Acolhe ainda 28 poemas inéditos que o antologiador foi buscar ao espólio. Mas antes surgem outros quatro, extraídos de dois títulos omissos da bibliografia: O Pajem Formidável dos Indícios, datado de 2010, e A Luz Que Se Escondeu no Escuro, de 2016. Publicados onde? As datas reportam a quê? Sobre eles, a cronologia de Luís Amorim de Sousa faz silêncio. Mesmo que façam parte de livros organizados em vida do autor, seria mais correcto tê-los incluído na secção de inéditos. Quem conhece a obra publicada é por ali que começa. É estranho que, num acervo tão vasto («deixou inéditos para cima de mil poemas», lê-se no prefácio), Luís Amorim de Sousa tenha escolhido os 28 poemas que escolheu. Foi o melhor que encontrou? Não teria sido preferível ater-se à obra publicada? Um dos mais importantes livros de Lacerda, Mecânica Celeste, está representado com 14 poemas. Todos sabemos que antologiar significa seleccionar, mas Luís Amorim de Sousa conseguiu a proeza de deixar de fora os poemas mais significativos de Mecânica Celeste. O leitor desta antologia não tem oportunidade de ler Depois de veres Guerra e Paz de Sergei Bondarchuk, Vem, Vimos, Vietnam, Os pés nus correspondem em grinalda e outros. Porquê? Porque os versos falam de merda, caralhos, cus, conas, orgasmos, putas relaxadas, escarros e, last but not least, do Império britânico cagando...? Porquê insistir no transcendental? Duas estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre Uma Odisseia, do norte-americano Daniel Mendelsohn (n. 1960). Escrever para o grande público sobre literatura grega e romana não está ao alcance de todos. Como demonstra este livro, Mendelsohn é dos melhores. Professor de Humanidades no exclusivo Bard College de Annandale-on-Hudson, Mendelsohn descreve um seminário académico sobre a Odisseia onde teve a surpresa de encontrar o pai, professor de matemática, então com 81 anos. Isso explica o subtítulo: Um pai, um filho, uma epopeia. A partir dessa experiência de 2011, Mendelsohn escreveu este curioso livro de memórias que é, ao mesmo tempo, uma close reading do poema de Homero. Não se trata de ensaio: são memórias com nomes alterados e detalhes modificados. O autor socorre-se de todos os recursos narrativos de forma a que o leitor não sinta o peso da erudição. Para sinalizar o plot, cita Aristóteles na breve nota que serve de proémio. Depois do seminário, que dura 16 semanas, Mendelsohn e alunos (o pai incluído) partem num cruzeiro pelo Mediterrâneo. A exegese do poema de Homero suscita questões identitárias que o autor desenvolve com elegância. Cinco estrelas. Publicou a Elsinore.

domingo, 26 de agosto de 2018

CATORZE VEZES


Cristina Margato assina no Expresso um extenso artigo sobre os candidatos portugueses ao Nobel da Literatura. Vale a pena ler. A jornalista consultou os arquivos da Academia Sueca disponíveis na Internet (neste momento até 1968; a partir do próximo Janeiro disponíveis até 1969, e assim sucessivamente) e descobriu coisas deveras interessantes. Também falou com algumas pessoas: Clara Rocha (a filha de Torga), António Valdemar, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, etc. O foco do artigo é a guerrilha que, em 1959 e 1960, dividiu a intelligentsia portuguesa em dois grupos: os que apoiavam Torga contra os que apoiavam Aquilino. Do lado de Torga estavam Sophia Andresen e um punhado de escritores que depois do 25 de Abril se identificariam com o PS (casos de O’Neill, David e outros). Do lado de Aquilino estavam Óscar Lopes e outros intelectuais que já nessa altura eram militantes do PCP, casos de Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite Carvalho e Abel Manta. Mário Soares, José Cardoso Pires e Vergílio Ferreira também apoiaram Aquilino. Pano de fundo: a PIDE apreendeu durante cinco dias o oitavo volume do Diário de Torga; Aquilino foi levado a Tribunal Plenário por ter escrito Quando os Lobos Uivam (1958). A querela fixou dissensões e ódios para a vida.

Escreve Cristina Margato: «A parte mais estranha desta história é que nem Torga nem Aquilino aparecem na lista da Academia Sueca como escritores propostos ao Prémio Nobel da Literatura, durante o ano de 1960

Ando há anos a bater na mesma tecla: as candidaturas ao Nobel têm protocolo próprio, não se fazem nas páginas dos jornais. O caso Torga vs Aquilino é paradigmático

Revelação verdadeiramente espantosa é esta: Maria Magdalena Valdez Trigueiros de Martel Patrício (1883-1947), que assinava Maria Magdalena Martel Patrício — o jornal inverte os apelidos —, escritora portuguesa, foi catorze vezes candidata ao Nobel da Literatura, a última das quais em 1947. Não se tratou de campanha de imprensa: o seu nome consta dos arquivos da Academia Sueca.

Conhece a autora? Então é assim: de origem aristocrática, Maria Magdalena Martel Patrício publicou, entre 1915 e 1944, cerca de trinta livros de poesia, ficção e ensaio. E em 1922 colaborou no primeiro número da Contemporânea (clique nas imagens). Hoje ninguém sabe quem foi a única mulher portuguesa nomeada para o Nobel da Literatura. E nomeada catorze vezes! À atenção das nossas estudiosas de literatura no feminino.

Tudo isto diz muito da relatividade da fama.

Imagens obtidas a partir do meu exemplar da Contemporânea.

sábado, 25 de agosto de 2018

CHIADO


Faz hoje 30 anos e não esqueço o 25 de Agosto de 1988. À época vivia em Cascais, mas trabalhava em Lisboa, onde cheguei por volta das oito da manhã. Para me pôr no Campo Pequeno tive que sair do comboio em Alcântara e apanhar o autocarro do Largo do Calvário que ia sempre a abarrotar com estudantes da Nova. Estupefacção geral. O horror era aquilo, na sua forma mais exacta.

Transcrevo do meu livro de memórias:

Nesse dia fui acordado muito cedo pelo Jorge — O Chiado está a arder. [...] O espectáculo dos Armazéns do Chiado a ruir era indescritível. Aconteceu o mesmo ao Grandella, mas dali não se via. A discoteca Valentim de Carvalho e a Ferrari ficaram reduzidas a carvão. O Martins & Costa, a melhor loja gourmet da cidade, desapareceu do mapa. Havia gente a chorar. [...] Voltei para o ministério com um nó na garganta. À noite, as imagens da RTP estavam longe de transmitir o horror. Durante anos, as pessoas subiam e desciam o Chiado em passadiços de ferro que foram montados na Rua do Carmo e na Rua Garrett. À hora do rush, essas plataformas oscilavam com o peso da multidão. Nos dias de chuva, o Chiado reproduzia o cenário fantasmático de Blade Runner. A reconstrução levou dez anos. Nesse intervalo, uma das poucas razões para voltar ao Chiado era o teatrinho que Mário Viegas dinamizou num anexo do Teatro São Luiz. Nuno Krus Abecasis, o presidente da câmara, convidou Siza Vieira a pôr de pé o novo Chiado, mantendo o desenho das fachadas originais. [...] — Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013.

Fogo posto, disseram todos: bombeiros, especialistas e polícia. Nunca ninguém pagou pelo crime.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

LUÍS AMARO 1923-2018


Vítima de pneumonia, morreu hoje de manhã o investigador e poeta Luís Amaro, o homem a quem, nos últimos 50 anos, toda a gente recorreu para obter ou certificar uma informação bibliográfica. O Luís sabia tudo.

Oriundo da Portugália, ingressou nos quadros da Fundação Calouste Gulbenkian em 1970. Durante os vinte anos em que trabalhou na revista Colóquio-Letras, o seu número de telefone era disputado no milieu. Colaborou nas mais importantes revistas literárias do século XX português, e publicou dois livros: Dádiva (1949) e Diário Íntimo (2006). Sobre a sua poesia escreveram, entre outros, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Vítor Silva Tavares e Gastão Cruz.

Homem avesso a holofotes, conheceu toda a gente que foi gente a partir de 1940, o que lhe permitia desatar o nó de controvérsias intrincadas. Se fosse inglês (era alentejano) teria publicado memórias explosivas. Tinha 95 anos. Até sempre, Luís.

Clique no belíssimo retrato feito por Luis Manuel Gaspar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

PRECONCEITO


A transferência, para a SIC, de Cristina Ferreira, apresentadora e directora de conteúdos não informativos da TVI, tem provocado toda a sorte de comentários. No meu mural de Facebook apaguei os de teor xenófobo.

A ver se a gente se entende: eu não vejo os programas de Cristina Ferreira do mesmo modo que não vejo os de Catarina Furtado ou Manuel Luís Goucha. É o tipo de programas que não me interessa. Faz-me confusão o montante envolvido na transferência (um milhão de euros por ano), mas essa confusão decorre de ouvir dizer, em círculos bem informados, que a SIC se debate com graves problemas de tesouraria. Portugal é um mistério insondável.

Agora o que importa. Cristina Ferreira tem 40 anos e origens humildes. Nunca escondeu essas origens, ou seja, nunca escondeu que ajudava os pais, que eram feirantes na Malveira. Portanto, não está na televisão por ter um papá muito cá dos nossos. Licenciada em História e, mais tarde, em Ciências da Comunicação, foi professora do ensino secundário durante dois anos, em Colares e Casal de Cambra. Trabalha em televisão desde 2002. Desde 2013 é directora de conteúdos não informativos da TVI. Lançada em Março de 2015, a revista Cristina é a única revista portuguesa do género que pode medir-se com equivalentes estrangeiros.

Agora vai para a SIC como apresentadora e consultora executiva da direcção-geral de entretenimento (a primeira grande contratação de Daniel Oliveira). Dito de outro modo: sai de um lugar de direcção na TVI para um lugar de direcção na SIC. Vai ganhar mais do que qualquer homem, detalhe que irrita o mulherio.

Fora dos programas que a televisão produz para o povão, Cristina Ferreira é outra pessoa. Eu arriscaria dizer que é mais culta que muitos sabichões de rede social. As pessoas ficaram agarradas à persona que ela criou. Vê-se que não percebem nada de branding.

CRISTINA


É a maior transferência televisiva de sempre. Além de apresentadora, Cristina Ferreira vai ser consultora executiva da direcção-geral de entretenimento da SIC. Um milhão de euros por ano, ou seja, 83 mil euros por mês. Abençoado país que tais artistas tem.

Clique na imagem do Expresso.

DYHOUSE & HILL


Hoje na Sábado escrevo sobre Uma História do Desejo Feminino, de Carol Dyhouse (n. 1948), historiadora social britânica. Como evoluiu o desejo das mulheres? Foi para tentar responder à questão que a autora escreveu este livro. A partir de um vasto elenco de actores, cantores pop e, grosso modo, homens célebres, Carol Dyhouse estabelece, a partir dos anos 1920, uma cartografia do desejo feminino. Sendo certo que o cinema e a música popular foram grandes detonadores da emancipação sexual, não é de estranhar que a autora dedique atenção a homens que fazem parte do imaginário universal (como, entre outros, Rodolfo Valentino, Liberace ou Elvis Presley), bem como a fenómenos de massa, caso da Beatlemania. Uma das conclusões mais curiosas radica no facto de Carol Dyhouse notar, com sageza, que o padrão ideal da masculinidade tem sido associado à figura de actores homossexuais: Richard Chamberlain e Rock Hudson alimentaram as fantasias de donas de casa em todo o mundo, tal como, num registo menos popular, sucedeu com Dirk Bogarde e Montgomery Clift. Noutro plano, o cinema fez de Mr Darcy, protagonista masculino de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, um arquétipo do herói romântico. Mas nem só o cinema e as bandas rock serviram de indutor e escape do desejo. No início do século XX, a imprensa feminina estabeleceu protótipos: «sheiks, sultões e príncipes estrangeiros, empresários, estrelas de cinema, aristocratas e aviadores.» Beau Brummell, o dândi por excelência, foi imortalizado no cinema por John Barrymore. É um entre vários exemplos de homens públicos que marcaram a representação do desejo das mulheres. As relações entre mulheres brancas e homens negros é outro tópico abordado. Servem de exemplo as ligações amorosas de Paul Robeson, barítono e activista político, com mulheres da alta sociedade britânica (Nancy Cunard e outras), mas também o affair que juntou Leslie Hutchinson, artista de cabaré, e Edwina Mountbatten, mulher do último vice-rei da Índia. Com relevo para a linhagem de mulheres escritoras, o estudo vai até E.L. James e As Cinquenta Sombras de Grey. Inclui iconografia e índice remissivo. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre Nix Fantasmas do Passado, o romance de estreia de Nathan Hill (n. 1978). Distinguir a verdade da mentira é o móbil do romance. A narrativa cobre o período que vai dos motins estudantis da Primavera de 1968, até ao aparecimento do Occupy Wall Street, no fim do Verão de 2011. Hill levou dez anos a concluir o livro. O resultado é um tour d’horizon pela América actual. Um dos personagens é o político republicano Sheldon Packer, em quem todos identificam a representação literária de Trump. Tal como na vida real, a ‘verdade’ de Packer não coincide com os factos. E Packer também não tolera imigrantes. Samuel Andresen-Anderson, o protagonista, é um escritor falhado que volta a saber da existência da mãe quando as televisões dão notícia de que, «num ataque pérfido», uma professora radical hippie tinha atingido a córnea direita do governador Packer. Para alguém que ocupava 40 horas por semana a jogar World of Warcraft, o atentado de Grant Park, em Chicago, muda tudo. A contracultura já não é o que era. Três estrelas. Publicou a Presença.

PANTEÃO?

A Sociedade Portuguesa de Autores quer ver José Afonso no Panteão. A família do cantor desconhecia a démarche e está contra. A SPA não tem mais que fazer? Resolver o imbróglio dos direitos de autor em sede de IRS, por exemplo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

TRUMP & COHEN


Michael Cohen, advogado de Trump, confirmou ao Tribunal Federal de Manhattan ter pago o silêncio de duas mulheres com quem o actual Presidente manteve relações: Stormy Daniels, actriz porno, e Karen McDougal, modelo da Playboy. Participei nesta conduta com o objectivo de influenciar a eleição, disse.

Tudo se passou durante a campanha de 2016. Cohen é acusado de financiamento ilícito e fraude fiscal. Como o dinheiro era de Trump, e os pagamentos foram efectuados por sua ordem, a confissão (obtida no âmbito de um acordo com a Justiça) coloca o Presidente em situação delicada.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

DESEMPREGO


Desde Julho de 2002 que não havia tão poucos desempregados (inscritos nos centros de emprego) em Portugal. Nessa altura eram 326 mil, hoje são 330 mil. Não esquecer que, entre 2012 e 2014, foram cerca de um milhão.

Clique na imagem do Expresso.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

ELE TAMBÉM


Asia Argento, uma das treze mulheres que em 2017 acusaram o produtor Harvey Weinstein de abuso sexual, quis comprar o silêncio do menor abusado por ela, em Maio de 2013. A vítima, o actor e músico de rock Jimmy Bennett, tem hoje 22 anos. Mas no dia do abuso tinha 17, ou seja, era um menor face à lei da Califórnia, onde a autodeterminação sexual só se atinge aos 18. Depois de ajudar a fundar o movimento MeToo, a viúva de Anthony Bourdain tentou subornar Jimmy com 380 mil dólares. Perturbado com a repercussão traumática do caso Weinstein, o jovem actor exige agora uma indemnização de 3,5 milhões de dólares, a título de «sofrimento emocional, assalto e agressão». Asia Argento, que se gabava de liderar o campo de caça a Weinstein, tem oportunidade de provar o próprio veneno.

Clique na imagem do New York Times.

domingo, 19 de agosto de 2018

AINDA LE PEN

Leio por aí que Marine Le Pen não pode ter tratamento diferente do concedido a Yanis Varoufakis, que veio a Lisboa defender os seus pontos de vista. Inteiramente de acordo. Há um porém: que eu saiba, o antigo ministro grego não onerou a fazenda nacional. Veio a convite de uma agremiação política.

O que sucederia com a líder do Rassemblement National era outra coisa. Porquê? Porque a Web Summit é largamente subsidiada pelo Estado português. O senhor Paddy Cosgrave não escolheu Lisboa por gostar de sardinhas. Escolheu Lisboa porque, aqui, gasta um terço do que gastaria em Madrid ou um sexto do que gastaria em Londres. É tão simples como isso.

Os contribuintes portugueses não têm de subsidiar os statements da senhora Le Pen, nem, evidentemente, os de Varoufakis. No dia em que uma instituição privada, ou um conjunto de cidadãos reunidos em crowdfunding, decidir convidar a senhora, o caso muda de figura. Eventos patrocinados com os nossos impostos e as nossas taxas camarárias é que não.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O RESTAURANTE


A RTP2 transmitiu hoje o 10.º e último episódio da primeira temporada da série sueca Vår tid är nu, dirigida por Harald Hamrell, exibida entre nós como O Restaurante

Não é Bergman, já sabemos, mas tem qualidade muito acima da média. Pano de fundo da intriga, a reconstrução da sociedade sueca após 1945: avanço da social-democracia (Olof Palme surge neste 10.º episódio como jovem sindicalista de 24 anos; noutros episódios surgem também Per-Albin Hansson e Tage Erlander, antigos primeiros-ministros), evolução dos costumes, desvios à normatividade sexual, arranque da segurança social, ascensão dos sindicatos, paridade de género, etc. Cronologicamente, esta primeira temporada termina em 1951.

Mas a série tem trinta episódios, divididos por três temporadas, exibidas na Suécia em 2017.

A RTP comprou apenas a primeira? Porquê? E se comprou as três, por que raio não exibe tudo seguido? Pergunto isto porque, na programação do próximo dia 20, está outra no seu lugar.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

KUSHNER & MURDOCH


Hoje na Sábado escrevo sobre O Quarto de Marte, o romance mais recente de Rachel Kushner (n. 1968). O marketing tomou conta da literatura. Autora de três romances e uma colectânea de contos, a autora foi comparada a Dickens. Não havia necessidade. Com o apoio de James Wood, Jonathan Franzen, George Saunders e outros, passa bem sem os ditirambos. Quem quiser conhecer alguma coisa acerca do sistema prisional da Califórnia, deve ler o livro. Não se assuste com o título, é apenas o nome de um clube de lap dance. Sobre prisões, Ms Kushner terá investigado tudo o que havia para investigar. O resultado não é exaltante, pese embora o excepcional conseguimento da tradução de José Miguel Silva. Romy Leslie Hall, a protagonista, tem 29 anos. Em 2003 ainda cumpre duas ‘perpétuas’ na penitenciária feminina de Stanville. O inventário dos procedimentos é um empecilho, mas os relatos em flashback, em especial os episódios de sexo, estão bem esgalhados. Romy destaca-se das mulheres que compõem o universo prisional. Quem leu Orange Is the New Black: My Year in a Women’s Prison (2010), o livro de memórias da lésbica radical-chic Piper Kerman, acusada de tráfico de drogas e fraude fiscal, conhece a fonte de Ms Kushner, colaboradora de revistas selectas, como New Yorker ou Paris Review e, portanto, merecedora de todos os créditos. A estrutura narrativa apoia-se numa sucessão de histórias almodóvarianas em clave americana, como as que vimos na série da Netflix feita a partir do livro de Piper Kerman. O ponto é esse: com todos os seus pergaminhos literários, Ms Kushner não acrescenta nada ao já lido e visto sobre wrong gender, mulheres abusadas e violência extrema do sistema policial e penitenciário (as mulheres são quase todas negras e pobres). Lyndon B. Johnson, o presidente que jurou a Constituição ao lado do corpo de Kennedy, e Richard Nixon, o presidente demitido após o Caso Watergate, fazem parte da intriga, o primeiro por causa de chuveiros genitais, o segundo a pretexto de música country. E também Dostoievski, presumo que para dar espessura. Três estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre O Sonho de Bruno, de Iris Murdoch (1919-1999), romancista e académica na área da filosofia. As questões morais foram sempre decisivas na obra. O Sonho de Bruno, um dos seus romances mais aclamados, foi agora publicado. Narrado na terceira pessoa, conta a história de Bruno, um homem de idade avançada deformado pela doença: «Ele sabia que se tornara um monstro.» Espera pela morte em casa de Danby, o genro viúvo. Intriga em família, portanto. À beira da morte, tudo gira em torno da essência da vida. Bruno tem duas obsessões: aranhas e selos. Estudou as primeiras, coleccionou os segundos. Faz vista grossa à aversão que suscita, em particular na enfermeira e na empregada doméstica, mas continua a preocupar-se com os impostos (a quem doar a colecção de selos?). A narrativa apoia-se num compósito de doença, sexo, traição, arrivismo, segredos e acidentes naturais. Fora do huis clos, o filho Miles, de quem Bruno se afastou no dia em que o viu casar com uma indiana, que entretanto morreu. Sem surpresa, Murdoch manipula tudo de forma admirável. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

TRAGÉDIA EM GÉNOVA


Era meio-dia na Itália quando colapsou uma secção de 200 metros da Ponte Morandi, que liga o centro da cidade ao aeroporto. Até ao momento estão confirmados 11 mortos, mas a polícia local diz que o número é cinco vezes superior. Dezenas de pessoas continuam debaixo dos escombros. O tabuleiro, que ruiu de uma altura de 45 metros, caiu numa área ocupada por prédios de apartamentos, centros comerciais, instalações fabris e uma linha férrea, arrastando camiões, autocarros e outro tipo de viaturas.

À esquerda da imagem vê-se um camião parado à beira do precipício. Clique na foto de El País.

AQUARIUS, AGAIN

Lembram-se da saga do Aquarius, que teve um final feliz porque, acabado de empossar, o novo Governo espanhol tinha de passar uma imagem simpática?

Pois bem, a SOS Méditerranée, que fretou o navio, voltou à carga. Anda há quatro dias à deriva, porque nem a Itália, nem Malta, nem a França, nem sequer a Espanha, autorizam atracação. A bordo, 141 migrantes.

Hoje, por decisão do Governo britânico, Gibraltar retirou a bandeira ao navio. Argumento: estando registado como navio de investigação, não pode resgatar migrantes.

Assim vai o mundo, dizia o Pessa.

sábado, 11 de agosto de 2018

V. S. NAIPAUL 1932-2018


V.S. Naipaul, escritor britânico de origem indiana, morreu na noite deste sábado. Faria 86 anos no próximo dia 17. Natural de Trinidad e Tobago, uma antiga Colónia britânica, Naipaul radicou-se em Londres em 1954. Na ficção e no ensaio, bem como nas memórias, escreveu extensamente sobre identidades em trânsito e o pós-colonialismo.

Uma Vida Pela Metade, romance de 2001, tem acção centrada em Maputo. Acusado de violência sexual por uma das suas amantes, politicamente incorrecto (em especial sobre o Islão e o colonialismo), misógino, cínico, fizeram lenda as querelas com vários dos seus pares. A rainha fê-lo cavaleiro em 1989. A obra mais aclamada continua a ser Uma Casa Para Mr Biswas, romance de 1961. Nobel da Literatura em 2001, Naipaul tem grande parte da obra traduzida em Portugal.

domingo, 5 de agosto de 2018

SHORT RENTING

O Presidente da República reconhece que o Parlamento tem produzido legislação de forma atabalhoada. Exemplo maior, o diploma sobre alojamento local. Mas então, se é assim, e qualquer pessoa reconhece que sim, por que razão o promulgou? Para proteger os centros históricos das cidades? Salvo esse detalhe (zonas de contenção a definir pelas autarquias), quase tudo o resto fica dependente de legislação a produzir no espaço de dois anos.

É o caso dos direitos dos condóminos em prédios onde coexista habitação permanente com short renting. Fica suspenso por dois anos e, não sendo alterada a redacção do actual diploma, as autarquias podem contrariar a decisão dos condóminos. Isto admite-se?

O Presidente considera questionável e desconexo, tem razão, mas promulgou. Porquê?

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

SAVIANO & VALE FERRAZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Os Meninos da Camorra, do jornalista e escritor italiano Roberto Saviano (n. 1979), celebrizado pelos artigos que publicou sobre a Camorra napolitana e, em especial, pelo romance Gomorra, êxito planetário que deu origem a um filme e a uma série de televisão. Desde que o livro saiu, Saviano ficou com a cabeça a prémio, vivendo actualmente em Nova Iorque sob protecção policial. Decalcando factos reais, Os Meninos da Camorra prolonga a temática com enfoque no recrutamento de adolescentes. O título original, La paranza dei bambini, refere apropriadamente a ‘rede de pesca de arrasto’ (a paranza) que os traz à luz crua da morte. Os meninos são onze. Contra toda a evidência, fazem frente aos padrinhos das grandes famílias do crime. Violência, crime, escatologia, Maquiavel, WhatsApp, lugares-comuns. Como se o bestseller de 2006 estivesse a ser republicado em série. Agora são rapazes. O próximo será com mulheres? Por vezes, os diálogos soam convencionais. Dito de outro modo: não conseguimos ouvir um adolescente do submundo. O jargão é um adereço se a construção sintáctica não corresponder. Três estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre a reedição de Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz (n. 1946), pseudónimo literário de um oficial dos Comandos. Ao contrário do que se diz, a guerra colonial não está ausente da literatura portuguesa. Uma série de obras menores aumentaram a bibliografia a partir de 1975, mas um leitor exigente encontra com facilidade dez títulos de referência. Estou a falar de ficção. Um desses títulos é Nó Cego, publicado pela primeira vez em 1982. Escrito a partir da sua experiência no terreno, com acção centrada em Moçambique no tempo em que Kaúlza de Arriaga era o chefe militar do território, o romance progride com a cadência adequada, transfigurando em literatura a mais importante campanha militar verificada naquela antiga Colónia, a Operação Nó Górdio (1970). Investigador de História contemporânea, o autor sabe dosear a intriga sem beliscar a realidade. Indispensável. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

ROBLES SAI DE CENA


O óbvio ululante depois da marretada de Luís Fazenda.
Clique na imagem do Expresso.

APARTHOTEL ROBLES


Na sua forma actual, o Prédio Robles é um aparthotel. Dispõe de 10 aparts de dimensão variável (entre 28 e 38 metros quadrados), e uma suíte júnior com 41 metros quadrados.

Podia ser um lar da terceira idade, podia, mas para isso era necessária consciência social. Prédio para famílias viverem não é. O descritivo do anúncio da Christie’s é muito claro.

Clique na imagem.

domingo, 29 de julho de 2018

PRÉDIO ROBLES


Apartamentos prontos para serem utilizados em Short Term Rental — com maiúsculas e tudo —, sublinha, em português e inglês, o anúncio da Christie’s relativo à venda do Prédio Robles.

Ninguém está a dizer que isto não é legal. Ninguém está a dizer que isto não é o trivial do arrivismo gauchiste. Ninguém está a dizer que isto não é o sonho de todos os merceeiros enriquecidos. Há um porém: Catarina Martins, líder do BE, não pode vir dizer que os media inventaram o negócio. O anúncio esteve em linha desde Outubro de 2017. Só agora desapareceu.

Clique nas imagens.

sábado, 28 de julho de 2018

AINDA ROBLES


Pronto. O Prédio Robles foi comprado pelo vereador do BE numa hasta pública do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, ao tempo em que Pedro Mota Soares (CDS) era ministro. Fica sanada a minha perplexidade quanto a transacções deste tipo efectuadas sem concurso.

A base de licitação foi de 286 mil euros. Robles arrematou por 347 mil. E depois gastou 650 mil a restaurar e requalificar.

Quem avaliou o prédio por 286 mil euros, em 2014, não suspeitava que o valor de mercado, após restauro, fosse dezasseis ou dezassete vezes superior? Os peritos do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social não consultam as páginas das grandes imobiliárias?

Confirma-se ter sido a Caixa Geral Depósitos (Estado) a financiar o negócio?

Entretanto, o prédio foi grafitado com slogans iguais aos que o BE usa. Clique na imagem.

CASO ROBLES


Li o extenso statement que Ricardo Robles, vereador do BE na Câmara de Lisboa, publicou às 19:09 de ontem no esquerda.net (antes havia lido praticamente tudo o que há para ler sobre a compra e venda do prédio de Alfama de que é co-proprietário com a irmã emigrada na Bélgica). Acho curioso saber que o prédio foi comprado à Segurança Social, um organismo do Estado que, pelos vistos, pode vender património a privados, sem concurso público.

A partir daqui... não me interessa saber se comprou por 347 mil euros e pretende vender por 5,7 milhões. Nem que decidiu «colocar o imóvel em propriedade horizontal, de forma a poder dividir as frações entre mim e a minha irmã.» Nem o que combinou ou deixou de combinar com os inquilinos. Também não me interessa saber se tem, noutra freguesia de Lisboa, um apartamento de 85 metros quadrados colocado no mercado de arrendamento por 1.300 euros mensais.

Porém, a confirmar-se, interessa-me saber por que razão a Autoridade Fiscal avaliou o prédio em 314 mil euros, ou seja, um valor inferior ao da compra. A juntar aos 347 mil pagos pelo prédio degradado, as obras de restauro e requalificação terão custado 650 mil euros. Então e a AF avalia em 314 mil o que vale 997 mil? Porquê?

Isto dito, lembrar que a actividade política tem custos. Como cidadão, Ricardo Robles tem todo o direito a especular no imobiliário. Como político, não tem. Ainda que fosse um daqueles de quem ninguém sabe o nome. Sucede que Ricardo Robles é um conhecido activista anti-gentrificação. Em que ficamos?

quinta-feira, 26 de julho de 2018

MOLINA & CANETTI


Hoje na Sábado escrevo sobre Como a Sombra Que Passa, do espanhol Antonio Muñoz Molina (n. 1956). Pela segunda vez, Lisboa está no centro de uma obra do autor. Aconteceu com o terceiro livro, acontece com o penúltimo. O livro acompanha o percurso de James Earl Ray, o assassino de Martin Luther King que passou nove dias em Lisboa, em Maio de 1968, antes de viajar para Londres, onde seria finalmente preso. A partir do assassinato de Luther King, influente pastor protestante e activista dos direitos dos negros norte-americanos, Molina mistura reminiscências pessoais com factos reais: «Passei demasiadas horas imerso na sua vida, dias inteiros, desde que cheguei a Lisboa.» A introspecção em torno do romance O Inverno de Lisboa (o terceiro livro) acompanha os detalhes desse intervalo lisboeta de Ray. Uma coisa serve a outra. Molina tenta imaginar Ray à deriva na capital portuguesa: um americano pobre, racista, alegadamente sem amigos ou qualquer espécie de contactos em Portugal. Faz isso à boleia da sua experiência de jovem escritor de visita a Lisboa, em 1987 (com apenas dois livros publicados, Molina era então funcionário subalterno da Câmara Municipal de Granada). Terreno escorregadio: dose elevada de autobiografia, dose residual de ficção e ‘reportagem’, nos interstícios uma da outra. Nada que o autor não tenha feito antes. O narrador, Molina himself, cita autores, filmes, actrizes, realizadores, músicos, canções, exegeses de Nabokov, lembranças de Juan Carlos Onetti a pretexto de Lolita, etc., sem que esse estendal de ‘erudição’ tenha relevância para a intriga. Nem sequer serve para contextualizar o caldo de cultura de onde surgem homens como Ray. Mas o exercício deve estar na moda, porque Salman Rushdie faz exactamente o mesmo no seu último romance. Não havia necessidade. A pulcritude de Lisboa é outro óbice. O retrato de Ray é contraditório. Não é plausível ver um fugitivo a encher a bagagem com livros. Um homem que nem tinha a noção de quem era Luther King. Matou-o porque era negro, e os tribunais do Tennessee tendiam a ser benevolentes com assassinos de negros. Em suma, não faz sentido. Três estrelas. Publicou a Ponto de Fuga.

Escrevo ainda sobre O Archote no Ouvido, segundo volume da autobiografia do búlgaro Elias Canetti (1905-1994). Não obstante o Nobel da Literatura, e o facto de ser um dos grandes autores de língua alemã dos últimos cem anos, Canetti tem uma presença discreta na edição portuguesa. O Archote no Ouvido, agora traduzido, é uma boa oportunidade para compreender a sua vida e obra. Este volume reporta aos anos que vão de 1921 a 1931, entre Frankfurt, Viena, Berlim e de novo a capital austríaca. Antes disso tinha havido Manchester, Lausanne e Zurique, cidades onde Canetti viveu a infância, mas O Archote… começa com a chegada à Alemanha, onde o autor fará a sua formação. Descendente de judeus sefarditas, Canetti foi toda a vida um nómada. Em 1938, o Anschluss provocou a fuga de Viena para Londres, tornando-se cidadão britânico em 1952. Massa e Poder (1960), estudo do domínio da multidão sobre o indivíduo, fez de Canetti um nome de referência. Desembaraçadas, eruditas, fluentes, estas memórias corroboram o prazer do texto. Ler Canetti é ler o mundo. Cinco estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.