Sábado, Junho 02, 2012
Sexta-feira, Junho 01, 2012
FAZER A MÃO
Não sei de quem partiu a ideia de criar a 15/25. Sei que foi uma ideia inteligente. Há muitas maneiras de fazer uma revista literária. Uma delas é fazer uma revista escrita pelas mesmas três pessoas que a lêem. Nunca ninguém as encontra em lado nenhum mas dão imenso panache. Outra é fazer uma revista normal, isto é, o tipo de publicação que a gente compra no quiosque da esquina. A LER, que se publica desde 1987, pertence ao segundo grupo. E agora decidiu abrir as suas páginas aos mais novos, criando para tal uma nova secção, a 15/25.
A 15/25 é herdeira do Juvenil, que se publicou no Diário de Lisboa entre 1967 e 1973, ou seja, até ao dia em que Marcelo Caetano se cansou de ter os miúdos à perna. Entre outros, os miúdos eram Eduardo Prado Coelho e José Pacheco Pereira. Foi dirigido por Mário Castrim e, em 1998, a jornalista Maria José Oliveira fez uma monografia sobre o suplemento: Lugar de Ensaio para uma Nova Poesia Portuguesa.
A 15/25 é também herdeira do DN Jovem, que o Diário de Notícias publicou durante quase 25 anos. Primeiro em papel, como deve ser (1983-1996), depois em edição online (1996-2007). Foi dirigido por Manuel Dias, que em Outubro de 2004 foi agraciado por Jorge Sampaio com a Ordem do Mérito. Pelo DN Jovem passaram muitos dos que hoje são jornalistas, críticos, poetas e escritores. Para citar apenas os que têm obra publicada em volume, lembro António Manuel Venda, Carlos Ademar, Dóris Graça-Dias, Fernando Sobral, Isabela Figueiredo (i.e., Isabel Almeida Santos), João Luís Barreto Guimarães, Joaquim Cardoso Dias, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, José Riço Direitinho, José Tolentino Mendonça (assinava como Tiago Hulsenn), José Vegar, Margarida Vale de Gato, Pedro Mexia e Rui Manuel Amaral.
E agora a 15/25, que tem o José Mário Silva a fazer as vezes de Mário Manuel Castrim Dias.
Eu também tive o meu. Chamava-se Santos Ribeiro e era jornalista sénior do Notícias de Lourenço Marques. Não sei se a ideia de criar o Diálogo foi dele, se foi da direcção do jornal. Sei que era o editor-in-chief do suplemento, que saía ao domingo e durou menos de dois anos (acabou no início de 1970). Publicava contos, poemas, desenho e fotografia. Uma vez sem exemplo organizou uma mesa-redonda sobre o movimento hippie, em que participei com os poetas Heliodoro Baptista (1944-2009), Cartaxo e Trindade (1945-1989) e S. Saskia (i.e., Sónia Lavinas). Eu era o mais novo. O Cartaxo era o único com obra publicada: o seu livro Terceiro Sexo Seixo (1968) alvoroçou as elites da Colónia, mesmo as de esquerda. Assim que saiu a 2.ª edição, a Pide retirou-o do mercado. O debate foi documentado em formato Broadsheet (não me quero lembrar dos disparates que disse), mas a fórmula morreu ali.
Ainda em 1968, o Diálogo convidou os colaboradores a responder ao célebre questionário de Proust. As respostas que dei passaram incólumes. O funcionário da censura não fazia a mínima ideia de quem fora Maria Stuart ou de quem era Régis Debray, que então andava pela Bolívia com Che Guevara. (Não era inocente, em plena guerra colonial, citar ícones da rebeldia independentista.) Em 2007, respondendo ao mesmo questionário, mantive a rainha da Escócia, mas o filósofo francês deu lugar a Lady Ottoline Morrell, patrona dos Bloomsberries. A idade tem destas coisas: torna-nos esquisitos nas marcas de uísque e nas afinidades electivas.
Foi no Diálogo que publiquei os primeiros poemas. Uns quantos sobrevivem no primeiro livro que publiquei, embora a larga maioria não tenha resistido ao crivo do bom-senso. Mas é justamente para isso que servem os suplementos de jovens.
LER 114
Etiquetas: Nova LER
Quinta-feira, Maio 31, 2012
RUI ZINK
Etiquetas: Crítica literária, revista Sábado
Quarta-feira, Maio 30, 2012
O BUSÍLIS
Jorge Silva Carvalho, antigo director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), vulgo Secretas, pediu a sua desvinculação do segredo de Estado antes de falar em tribunal. É impressão minha ou essa desvinculação pode vir a incomodar muita gente ao mais alto nível?
A ver se a gente se entende. Por aquilo que a imprensa tem veiculado, as Secretas portuguesas são uma anedota. Mas alguém deixou que fossem uma anedota, e não foi com certeza o homem do talho. Talvez seja bom esclarecer por que é que meses depois da sua exoneração das Secretas, Jorge Silva Carvalho, já então um alto quadro da Ongoing, continuou a ter acesso a informação privilegiada e, fazendo fé na imprensa, a elaborar relatórios sobre A ou B.
Lembrar às virgens ofendidas que a CIA tem nos seus arquivos relatórios detalhados sobre John Lennon, que até era cidadão estrangeiro! Um exemplo entre mil. Uma das funções das Secretas é coligir informação. O que ninguém percebe, e tem de ser explicado com clareza, é a razão pela qual essa informação faz parte dos arquivos pessoais dos senhores X ou Y. Se Jorge Silva Carvalho os fez ou mandou fazer, não foi para os guardar numa gaveta.
Etiquetas: Secretas
Terça-feira, Maio 29, 2012
CITAÇÃO, 408
«[...] Quando o poder reside na detenção e gestão do segredo e na sua eventual comunicação, já não estamos em “democracia”, estamos naquilo que, à falta de melhor, se pode designar por “bufocracia”. Um regime em que, no circuito dos poderosos, oficiais ou fácticos, ninguém é livre: todos podem condicionar todos e todos podem acusar todos. É o “bufo”, potencial ou actual — mas não o povo —, quem mais ordena. É o espectáculo do segredo. [...]»
[Imagem: dossiês da Stasi, a polícia secreta da RDA, embalados para destruição em 1992. Foto Regis Bossu. Clique.]
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CITAÇÃO, 407
«[...] Para que servem hoje os serviços de informações portugueses? Se tivermos em conta as notícias que temos lido nos últimos meses, a resposta é fácil: os serviços de informações servem exclusivamente como exército privado ao serviço do partido que domina o aparelho de Estado num determinado momento e são usados para a recolha de informação privada ou reservada ao serviço de interesses particulares e para o exercício de pressões para servir os mesmos interesses.
No fundo, servem apenas para que umas quantas pessoas com poder e sem escrúpulos aumentem o seu poder e a sua conta bancária e intimidem os seus rivais e adversários graças ao trabalho de serviços públicos pagos por si e por mim.
[...] O Governo, Passos e sus muchachos, Relvas e os seus aventais, continuam a sua marcha, indiferentes ao lodo que se lhes cola às pernas e ao nome. Desde que o país empobreça e definhe, tudo está bem.
Há, no meio de tudo isto, algo positivo: saber-se que Francisco Pinto Balsemão foi objecto de uma investigação que não se coibiu de recolher informações sobre a sua vida íntima. Não porque o acto não seja ignóbil, como é. Mas porque só a evidência da absoluta falta de escrúpulos das pessoas que se apoderaram do aparelho de Estado poderá levar os restantes a obrigá-los a arrepiar caminho. [...]»
[Imagem: Junta militar chilena, 1974.]
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OS TROCOS DE LAGARDE
Sexta-feira, Maio 25, 2012
NOVELA MEXICANA
«[...] Numa primeira avaliação jurídica, o nosso advogado ressalvou que o crime de ameaça implica uma ameaça credível contra a vida, a integridade física, a liberdade pessoal e os bens patrimoniais — e que este não era o caso. Neste primeiro contacto, Teixeira da Mota distinguiu claramente a questão jurídica da questão ética e política, e sublinhou a diferença entre ameaçar divulgar um dado da vida privada que é “íntimo”, “desconhecido”, “secreto” ou “embaraçoso”, e divulgar um dado que, sendo “pessoal”, é de fácil acesso público, sendo que, no seu entender, os jornalistas têm que aceitar um maior grau de exposição e escrutínio do que os cidadãos comuns. Francisco Teixeira da Mota não viu consistência na frase do ministro que justificasse uma actuação legal. Uma semana depois, a sua avaliação mantém-se.»
Clique na imagem para ler melhor.
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Quinta-feira, Maio 24, 2012
ZHANG JIE
Escrevo ainda sobre Agora: Uma história de amores próprios, romance de Pedro Boucherie Mendes (n. 1970). Retrata uma classe, e são palavras do autor, «que julgo que não está representada na nossa literatura.» Que classe é essa? A avaliar pela leitura, a das pessoas que arranjam convites à borla, frequentam tarólogos, bebem sangria de espumante com Lorenins, fazem sexo frouxo e estão sempre à coca de descobrir um gay nas redondezas. Editou a Oficina do Livro.
Etiquetas: Crítica literária, revista Sábado
Quarta-feira, Maio 23, 2012
O ESTADO A QUE ISTO CHEGOU
Etiquetas: Austeridade, Crise do euro, Portugal
Terça-feira, Maio 22, 2012
SECRET AID PROPS UP GREEK BANKS
Etiquetas: BCE, Crise do euro, Grécia
CAMÕES PARA DALTON TREVISAN
Entre 1989 e 2012, o Prémio Camões (cem mil euros) foi atribuído a dez portugueses, dez brasileiros, dois angolanos, um moçambicano e um caboverdiano. Até hoje, foi recusado uma única vez: em 2006, pelo angolano Luandino Vieira.
Etiquetas: Prémio Camões
Segunda-feira, Maio 21, 2012
QUEM DIRIA
Etiquetas: Crise do euro
Sexta-feira, Maio 18, 2012
CITAÇÃO, 406
«[...] A imprensa económica anglo-saxónica, de resto, não se interessa pelo charabiá da França. O que lhe interessa é o “contágio”. Ou, mais precisamente, pela velocidade com que a situação da Grécia se reproduzirá em Portugal, na Espanha e na Itália (para não falar da Irlanda, de certa maneira um caso à parte). Existe ou não existe um plano para nos proteger do colapso da Grécia? Existe ou não um plano para nos “tirar” do euro, sem uma excessiva miséria e brutalidade, se for absolutamente necessário? “Lá fora” perguntam isso. Chegou a altura dos portugueses fazerem a mesma pergunta ao seu querido governo.»
[Imagem: rua de Atenas, foto de Stefanos Kyriazis. Clique.]
Etiquetas: Citações, Crise do euro
Quinta-feira, Maio 17, 2012
DONNA SUMMER 1948-2012
Etiquetas: In Memoriam, Música
SALÁRIOS DA FUNÇÃO PÚBLICA
A cena dos funcionários públicos é igual. Ontem, a televisão não se cansou de repetir que o salário médio mensal da Função Pública, no 1.º trimestre de 2012, correspondeu a 1600 euros. E se apenas tivermos em conta a administração central, esse valor sobe para 1754 euros.
O que a televisão não disse, e devia ter dito, é que “Função Pública” é uma classe que engloba os funcionários propriamente ditos, mais os “Corpos Especiais”, ou seja: diplomatas (média mensal: 8115 euros; inclui despesas de representação), adjuntos e assessores dos gabinetes ministeriais, juízes e outros magistrados, catedráticos, dirigentes (directores-gerais, presidentes de Institutos, directores de serviço, etc.), professores dos vários graus de ensino, médicos, enfermeiros, inspectores, chefes de repartição de Finanças, militares, polícias, etc. Metendo tudo no mesmo saco, não admira que o salário médio mensal da Função Pública, no 1.º trimestre de 2012, tenha sido aquele que foi repetido à exaustão. Um funcionário-funcionário (sem licenciatura) terá hoje um salário médio à volta de 700 euros, e um técnico superior (licenciado) terá o dobro. Espanta-me sempre ver profissionais como José Alberto Carvalho, da TVI, repetirem estas frioleiras sem as contextualizarem.
Etiquetas: Função Pública, Nonsense, Salários
PESSOA BY CAVALCANTI FILHO
Escrevo ainda sobre as crónicas que Pedro Mexia (n. 1972) reuniu em O Mundo dos Vivos. Há de tudo: Rupert Murdoch, Monica Lewinsky, Machado de Assis, Thomas Mann, Roman Polanski, Chico Buarque, Nicolas Sarkozy, Lindsay Lohan, etc. Podia escolher outras: em regra, são todas muito boas. Uma edição Tinta da China.
Etiquetas: Crítica literária, revista Sábado
COMEÇOU
Etiquetas: Crise do euro, Grécia
Quarta-feira, Maio 16, 2012
Terça-feira, Maio 15, 2012
CARLOS FUENTES 1928-2012
Etiquetas: In Memoriam
ACABOU A ERA SARKO
[Foto de Fred Dufour, AFP.]
Etiquetas: Crise do euro, França
Segunda-feira, Maio 14, 2012
ZONA DE CONFORTO
Manuel Faria de Oliveira, Galp
2010: 1.337.000 / 2011: 1.642.600 / Média: 1.489.800 milhões
José Honório, Portucel
2010: 1.532.491 / 2011: 1.425.895 / Média: 1.479.193 milhões
Zeinal Bava, PT
2010: 1.416.959 / 2011: 1.355.943 /Média: 1.386.451 milhões
Pedro Queiroz Pereira, Semapa
2010: 983.000 / 2011: 1.386.888 / Média: 1.184.944 milhões
Paulo Azevedo, Sonae
2010: 1.122.871 / 2011: 1.143.020 / Média: 1.132.945 milhões
António Mexia, EDP
2010: 1.043.541 / 2011: 1.034.840 / Média: 1.039.190 milhões
Ângelo Paupério, Sonaecom [Público]
2010: 1.004.800 / 2011: 1.027.100 / Média: 1.015.950 milhões
Ricardo Salgado, BES
2010: 1.222.000 / 2011: 801.000 / Média: 1.011.500 milhões
Etiquetas: Austeridade, PSI-20, Salários
Sábado, Maio 12, 2012
Sexta-feira, Maio 11, 2012
BERNARDO SASSETTI 1970-2012
Etiquetas: In Memoriam
Quinta-feira, Maio 10, 2012
DEBORAH MOGGACH
Hoje na Sábado escrevo sobre O Exótico Hotel Marigold — que no original se chama These Foolish Things —, de Deborah Moggach (n. 1948). A capa do livro reproduz os retratos dos principais actores do filme que John Madden fez. Sem razão lógica, Deborah Moggach tem sido ignorada pelos editores portugueses. Em 2000 saiu A Febre das Tulipas, e depois esqueceram-se dela. É pena. Ainda bem que a Porto Editora a recuperou. O Exótico Hotel Marigold / These Foolish Things é uma brilhante comédia de costumes sobre a forma como a sociedade britânica lida com o problema do envelhecimento. Em pleno século XXI, o Serviço Nacional de Saúde britânico desintegra-se «sob os efeitos combinados da falta de financiamento, da escassez de funcionários e do colapso moral.» A parte indiana do livro (e do filme) corresponde à quota de humor. Além de romancista, Deborah Moggach é autora do guião para cinema de Orgulho e Preconceito (versão Joe Wright, 2005), a obra-prima de Jane Austen, bem como de adaptações para televisão de obras de Nancy Mitford.
Escrevo ainda sobre O Lustre, o segundo romance de Clarice Lispector (1920-1977), só agora publicado em Portugal. Trata-se de um longo monólogo interior e a sua estrutura aleatória, acentuada por uma escrita que rompe com as noções de representação convencionais, faz lembrar Maria Gabriela Llansol. Uma edição Relógio d’Água.
Etiquetas: Crítica literária, revista Sábado
Quarta-feira, Maio 09, 2012
E AGORA, ALEXIS?
Como nem os conservadores (Nova Democracia, com 108 deputados: 58 por eleição directa, 50 por indexação ao partido mais votado), nem os socialistas (PASOK, 41 deputados), nem os independentes de direita (Anexartitoi Ellines, 33 deputados), nem os comunistas (KKE, 26 deputados) aceitam coligar-se, não se vê como Tsipras possa formar governo.
Os nazis da Aurora Dourada, com 21 deputados, e a Nova Esquerda, com 19, não foram tidos nem achados nas conversações.
A menos que Karolos Papoulias suspenda o Parlamento, deixando Tsipras governar sem escrutínio, ou que se realizem novas eleições dentro de poucas semanas. A ver vamos.
Etiquetas: Grécia
Segunda-feira, Maio 07, 2012
O IMBRÓGLIO GREGO
Etiquetas: Eleições gregas
A ESQUERDA DE VOLTA AO ELISEU
Etiquetas: Eleições presidenciais francesas































