Sábado, Junho 02, 2012

PESADELO


Sem comentários. O gráfico é do Público. Clique.

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Sexta-feira, Junho 01, 2012

FAZER A MÃO


Agora que o n.º 114, relativo a Junho, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica Fazer a mão, publicada no n.º 113 na minha coluna Heterodoxias:


Não sei de quem partiu a ideia de criar a 15/25. Sei que foi uma ideia inteligente. Há muitas maneiras de fazer uma revista literária. Uma delas é fazer uma revista escrita pelas mesmas três pessoas que a lêem. Nunca ninguém as encontra em lado nenhum mas dão imenso panache. Outra é fazer uma revista normal, isto é, o tipo de publicação que a gente compra no quiosque da esquina. A LER, que se publica desde 1987, pertence ao segundo grupo. E agora decidiu abrir as suas páginas aos mais novos, criando para tal uma nova secção, a 15/25.

A 15/25 é herdeira do Juvenil, que se publicou no Diário de Lisboa entre 1967 e 1973, ou seja, até ao dia em que Marcelo Caetano se cansou de ter os miúdos à perna. Entre outros, os miúdos eram Eduardo Prado Coelho e José Pacheco Pereira. Foi dirigido por Mário Castrim e, em 1998, a jornalista Maria José Oliveira fez uma monografia sobre o suplemento: Lugar de Ensaio para uma Nova Poesia Portuguesa.

A 15/25 é também herdeira do DN Jovem, que o Diário de Notícias publicou durante quase 25 anos. Primeiro em papel, como deve ser (1983-1996), depois em edição online (1996-2007). Foi dirigido por Manuel Dias, que em Outubro de 2004 foi agraciado por Jorge Sampaio com a Ordem do Mérito. Pelo DN Jovem passaram muitos dos que hoje são jornalistas, críticos, poetas e escritores. Para citar apenas os que têm obra publicada em volume, lembro António Manuel Venda, Carlos Ademar, Dóris Graça-Dias, Fernando Sobral, Isabela Figueiredo (i.e., Isabel Almeida Santos), João Luís Barreto Guimarães, Joaquim Cardoso Dias, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, José Riço Direitinho, José Tolentino Mendonça (assinava como Tiago Hulsenn), José Vegar, Margarida Vale de Gato, Pedro Mexia e Rui Manuel Amaral.

E agora a 15/25, que tem o José Mário Silva a fazer as vezes de Mário Manuel Castrim Dias.

Eu também tive o meu. Chamava-se Santos Ribeiro e era jornalista sénior do Notícias de Lourenço Marques. Não sei se a ideia de criar o Diálogo foi dele, se foi da direcção do jornal. Sei que era o editor-in-chief do suplemento, que saía ao domingo e durou menos de dois anos (acabou no início de 1970). Publicava contos, poemas, desenho e fotografia. Uma vez sem exemplo organizou uma mesa-redonda sobre o movimento hippie, em que participei com os poetas Heliodoro Baptista (1944-2009), Cartaxo e Trindade (1945-1989) e S. Saskia (i.e., Sónia Lavinas). Eu era o mais novo. O Cartaxo era o único com obra publicada: o seu livro Terceiro Sexo Seixo (1968) alvoroçou as elites da Colónia, mesmo as de esquerda. Assim que saiu a 2.ª edição, a Pide retirou-o do mercado. O debate foi documentado em formato Broadsheet (não me quero lembrar dos disparates que disse), mas a fórmula morreu ali.

Ainda em 1968, o Diálogo convidou os colaboradores a responder ao célebre questionário de Proust. As respostas que dei passaram incólumes. O funcionário da censura não fazia a mínima ideia de quem fora Maria Stuart ou de quem era Régis Debray, que então andava pela Bolívia com Che Guevara. (Não era inocente, em plena guerra colonial, citar ícones da rebeldia independentista.) Em 2007, respondendo ao mesmo questionário, mantive a rainha da Escócia, mas o filósofo francês deu lugar a Lady Ottoline Morrell, patrona dos Bloomsberries. A idade tem destas coisas: torna-nos esquisitos nas marcas de uísque e nas afinidades electivas.

Foi no Diálogo que publiquei os primeiros poemas. Uns quantos sobrevivem no primeiro livro que publiquei, embora a larga maioria não tenha resistido ao crivo do bom-senso. Mas é justamente para isso que servem os suplementos de jovens.

A 15/25 vai ajudar a fazer a mão de muita gente. Nenhum escritor nasce de geração espontânea...

[Imagem: recorte de um poema de Abril de 1967, publicado no suplemento juvenil Diálogo. O poema tem 40 versos. Ficam três à vista para não causar indigestões. Creio que ilustra o que acima vai dito.]

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LER 114


A LER 114 chegou às bancas e livrarias. Oito páginas com Harold Bloom, entrevistado por Adam Fitzgerald, dispensam grandes comentários. Embora não se trate de um inédito (a entrevista foi publicada na Boston Review em Abril do ano passado), continua a ser um furo! Até porque as fotografias de Mark Mahaney são soberbas. Bloom é simplesmente Bloom. Noutro plano, Carlos Vaz Marques entrevista Nuno Júdice, que recomenda aos detractores que vão dar uma volta ao Jardim da Celeste. A Condessa de Ségur é citada a pretexto de Lenine, num trocadilho típico do humor de Júdice. Uma reportagem de Bruno Vieira Amaral faz o tour d’horizon aos hábitos televisivos de um grupo de autores nascidos entre 1964 e 1978. Estou desolado, nenhum deles vê (ou viu) Damages ou 24 ou The Wire, que são geniais. E depois, as crónicas, críticas, artigos, o diário moscovita de Pedro Rosa Mendes, etc. A minha crónica é sobre sermos pobres: Conta-me como foi. Ah! Já pode comprar as T-shirt da revista. As cuecas (em versão boxer e speedo) é que ainda não.

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Quinta-feira, Maio 31, 2012

RUI ZINK


Hoje na Sábado escrevo sobre Luto Pela Felicidade dos Portugueses, o livro mais recente de Rui Zink (n. 1961). A costela de performer tem o óbice de ocultar o agudo sentido crítico do autor, mas um leitor atento desmonta com facilidade o mecanismo de escape que subverte a real intenção do texto. Neste caso são 45 crónicas. Prova de como os assuntos sérios dispensam a literatice enfatuada.

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Quarta-feira, Maio 30, 2012

O BUSÍLIS


Jorge Silva Carvalho, antigo director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), vulgo Secretas, pediu a sua desvinculação do segredo de Estado antes de falar em tribunal. É impressão minha ou essa desvinculação pode vir a incomodar muita gente ao mais alto nível?

A ver se a gente se entende. Por aquilo que a imprensa tem veiculado, as Secretas portuguesas são uma anedota. Mas alguém deixou que fossem uma anedota, e não foi com certeza o homem do talho. Talvez seja bom esclarecer por que é que meses depois da sua exoneração das Secretas, Jorge Silva Carvalho, já então um alto quadro da Ongoing, continuou a ter acesso a informação privilegiada e, fazendo fé na imprensa, a elaborar relatórios sobre A ou B.

Lembrar às virgens ofendidas que a CIA tem nos seus arquivos relatórios detalhados sobre John Lennon, que até era cidadão estrangeiro! Um exemplo entre mil. Uma das funções das Secretas é coligir informação. O que ninguém percebe, e tem de ser explicado com clareza, é a razão pela qual essa informação faz parte dos arquivos pessoais dos senhores X ou Y. Se Jorge Silva Carvalho os fez ou mandou fazer, não foi para os guardar numa gaveta.

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Terça-feira, Maio 29, 2012

CITAÇÃO, 408


Paulo Rangel, Democracia e bufocracia: o espectáculo do segredo, hoje no Público. Excerto, sublinhado meu:

«[...] Quando o poder reside na detenção e gestão do segredo e na sua eventual comunicação, já não estamos em “democracia”, estamos naquilo que, à falta de melhor, se pode designar por “bufocracia”. Um regime em que, no circuito dos poderosos, oficiais ou fácticos, ninguém é livre: todos podem condicionar todos e todos podem acusar todos. É o “bufo”, potencial ou actual — mas não o povo —, quem mais ordena. É o espectáculo do segredo. [...]»

[Imagem: dossiês da Stasi, a polícia secreta da RDA, embalados para destruição em 1992. Foto Regis Bossu. Clique.]

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CITAÇÃO, 407


José Vítor Malheiros, E não se pode extingui-los?, hoje no Público. Excerto, sublinhado meu:

«[...] Para que servem hoje os serviços de informações portugueses? Se tivermos em conta as notícias que temos lido nos últimos meses, a resposta é fácil: os serviços de informações servem exclusivamente como exército privado ao serviço do partido que domina o aparelho de Estado num determinado momento e são usados para a recolha de informação privada ou reservada ao serviço de interesses particulares e para o exercício de pressões para servir os mesmos interesses.

No fundo, servem apenas para que umas quantas pessoas com poder e sem escrúpulos aumentem o seu poder e a sua conta bancária e intimidem os seus rivais e adversários graças ao trabalho de serviços públicos pagos por si e por mim.

[...] O Governo, Passos e sus muchachos, Relvas e os seus aventais, continuam a sua marcha, indiferentes ao lodo que se lhes cola às pernas e ao nome. Desde que o país empobreça e definhe, tudo está bem.

Há, no meio de tudo isto, algo positivo: saber-se que Francisco Pinto Balsemão foi objecto de uma investigação que não se coibiu de recolher informações sobre a sua vida íntima. Não porque o acto não seja ignóbil, como é. Mas porque só a evidência da absoluta falta de escrúpulos das pessoas que se apoderaram do aparelho de Estado poderá levar os restantes a obrigá-los a arrepiar caminho. [...]»

[Imagem: Junta militar chilena, 1974.]

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OS TROCOS DE LAGARDE


Não quero ser desmancha-prazeres, mas alguma coisa não bate certo na remuneração que a imprensa tem atribuído a Christine Lagarde, directora do FMI. Porque 380 mil euros por ano corresponde a 31,6 mil euros mensais, ou seja, o salário de dezenas de gestores portugueses. Basta verificar esta lista para perceber do que estou a falar. Se o presidente da Galp, Manuel Faria de Oliveira, recebeu 1,3 milhões de euros em 2010 e 1,6 milhões em 2011, significa que o salário médio mensal, nesses dois anos, foi de 124,1 mil euros. Com 31,6 mil euros mensais, Lagarde não pode vestir como veste. Um tailleur Chanel (original) custa mais do que isso, uma carteira Hermès custa metade desse valor, etc. Nada impede a senhora de ter fortuna pessoal (não sei se tem), mas não estou a ver a presidência do FMI a ser remunerada ao nível da RTP. Aliás, basta pensar no nível de vida de DSK, o seu antecessor.

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Sexta-feira, Maio 25, 2012

NOVELA MEXICANA


O folhetim Relvas dura há 10 dias. Hoje, o Público dedica três páginas ao assunto. O artigo de Maria Lopes, com o ser redundante, inclui uma frase que se presta a várias interpretações: «A versão da editora, Leonete Botelho, tem sido mais alargada...» Tem sido? Work in progress...? O texto de Maria Lopes nunca cita a jornalista Maria José Oliveira pelo nome. A nota da direcção do jornal é clara: um excerto pode ser lido na imagem supra. Esse esclarecimento insere o parecer do advogado do jornal, Francisco Teixeira da Mota:

«[...] Numa primeira avaliação jurídica, o nosso advogado ressalvou que o crime de ameaça implica uma ameaça credível contra a vida, a integridade física, a liberdade pessoal e os bens patrimoniais — e que este não era o caso. Neste primeiro contacto, Teixeira da Mota distinguiu claramente a questão jurídica da questão ética e política, e sublinhou a diferença entre ameaçar divulgar um dado da vida privada que é “íntimo”, “desconhecido”, “secreto” ou “embaraçoso”, e divulgar um dado que, sendo “pessoal”, é de fácil acesso público, sendo que, no seu entender, os jornalistas têm que aceitar um maior grau de exposição e escrutínio do que os cidadãos comuns. Francisco Teixeira da Mota não viu consistência na frase do ministro que justificasse uma actuação legal. Uma semana depois, a sua avaliação mantém-se

Clique na imagem para ler melhor.

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Quinta-feira, Maio 24, 2012

ZHANG JIE


Hoje na Sábado escrevo sobre Negros Anos, da escritora chinesa Zhang Jie (n. 1937), segundo volume da saga autobiográfica iniciada com Não há palavras, também editado pela Gradiva. A tradução de ambos é de José Colaço Barreiros, que trabalhou a partir da versão italiana. Zhang Jie é economista e feminista, tendo sido uma vítima da Revolução Cultural Chinesa: esteve três anos (1969-72) num campo de reeducação. Negros Anos relata três conflitos que coincidem no tempo: a ocupação japonesa da China (1937-45), a guerra entre nacionalistas e comunistas, e a Longa Marcha que terminou com a chegada de Mao ao poder, em Outubro de 1949. Tudo isto sob a forma de romance, numa linguagem escorreita, sem concessões de natureza ideológica.

Escrevo ainda sobre Agora: Uma história de amores próprios, romance de Pedro Boucherie Mendes (n. 1970). Retrata uma classe, e são palavras do autor, «que julgo que não está representada na nossa literatura.» Que classe é essa? A avaliar pela leitura, a das pessoas que arranjam convites à borla, frequentam tarólogos, bebem sangria de espumante com Lorenins, fazem sexo frouxo e estão sempre à coca de descobrir um gay nas redondezas. Editou a Oficina do Livro.

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Quarta-feira, Maio 23, 2012

O ESTADO A QUE ISTO CHEGOU



Os números são da OCDE e foram divulgados ontem. As imagens são do Público.

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Terça-feira, Maio 22, 2012

SECRET AID PROPS UP GREEK BANKS


Segundo o Financial Times, o Banco Central Europeu começou ontem a injectar cem mil milhões de euros no sistema bancário grego, de modo a evitar o colapso da moeda única. Caso para dizer que quem tem cu tem medo. Foi preciso chegar a este extremo para o senhor Draghi acordar. Oficialmente, no pasa nada. Na imagem, Alexis Tsipras, o líder do Syriza, ontem em Paris.

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CAMÕES PARA DALTON TREVISAN


Dalton Trevisan, 86 anos  —  «o maior contista brasileiro do século», quem o diz é Abel Barros Baptista  —, venceu o Prémio Camões 2012. O primeiro livro, Sonata ao Luar (1945), foi renegado pelo autor. Tornou-se um escritor popular a partir de Novelas Nada Exemplares (1959, Prémio Jabuti). Por junto, 40 livros, dos quais apenas um  —  A Polaquinha, 1985  —  é um romance. Quanto sei, da sua vasta obra está publicado em Portugal um único título, Cemitério de Elefantes (1964; Relógio d’Água, 1984). Contudo, no vol. 15 do Curso Breve de Literatura Brasileira (Cotovia), dedicado ao conto, Trevisan tem sete contos escolhidos por Alcir Pécora, organizador do volume. Na imagem, uma das raras fotos do autor, provavelmente dos anos 1950.

Entre 1989 e 2012, o Prémio Camões (cem mil euros) foi atribuído a dez portugueses, dez brasileiros, dois angolanos, um moçambicano e um caboverdiano. Até hoje, foi recusado uma única vez: em 2006, pelo angolano Luandino Vieira.

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Segunda-feira, Maio 21, 2012

QUEM DIRIA


Se até ele o diz! A coisa está preta. Inesperada, pela positiva, a entrevista ao i. Passos Coelho e Vítor Gaspar devem ter as orelhas a arder. 

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Sexta-feira, Maio 18, 2012

CITAÇÃO, 406


Vasco Pulido Valente, A pergunta, hoje no Público. Excerto:

«[...] A imprensa económica anglo-saxónica, de resto, não se interessa pelo charabiá da França. O que lhe interessa é o “contágio”. Ou, mais precisamente, pela velocidade com que a situação da Grécia se reproduzirá em Portugal, na Espanha e na Itália (para não falar da Irlanda, de certa maneira um caso à parte). Existe ou não existe um plano para nos proteger do colapso da Grécia? Existe ou não um plano para nos “tirar” do euro, sem uma excessiva miséria e brutalidade, se for absolutamente necessário? “Lá fora” perguntam isso. Chegou a altura dos portugueses fazerem a mesma pergunta ao seu querido governo

[Imagem: rua de Atenas, foto de Stefanos Kyriazis. Clique.]

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Quinta-feira, Maio 17, 2012

DONNA SUMMER 1948-2012


Donna Summer morreu hoje, de cancro. Tinha 63 anos. Quem não se lembra de I Feel Love...? As redes sociais estão ao rubro.

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SALÁRIOS DA FUNÇÃO PÚBLICA


Se o meu vizinho comer 100 gramas de caviar Beluga por mês  —  preço por quilo, em Lisboa: entre 20 e 25 mil euros; o mais caro é o do Irão, uma latinha de 100gr custa 2500 euros  —, e eu zero, as estatísticas dirão que os senhores X e Y comem uma média de 50 gramas de caviar Beluga por mês.

A cena dos funcionários públicos é igual. Ontem, a televisão não se cansou de repetir que o salário médio mensal da Função Pública, no 1.º trimestre de 2012, correspondeu a 1600 euros. E se apenas tivermos em conta a administração central, esse valor sobe para 1754 euros.

O que a televisão não disse, e devia ter dito, é que “Função Pública” é uma classe que engloba os funcionários propriamente ditos, mais os “Corpos Especiais”, ou seja: diplomatas (média mensal: 8115 euros; inclui despesas de representação), adjuntos e assessores dos gabinetes ministeriais, juízes e outros magistrados, catedráticos, dirigentes (directores-gerais, presidentes de Institutos, directores de serviço, etc.), professores dos vários graus de ensino, médicos, enfermeiros, inspectores, chefes de repartição de Finanças, militares, polícias, etc. Metendo tudo no mesmo saco, não admira que o salário médio mensal da Função Pública, no 1.º trimestre de 2012, tenha sido aquele que foi repetido à exaustão. Um funcionário-funcionário (sem licenciatura) terá hoje um salário médio à volta de 700 euros, e um técnico superior (licenciado) terá o dobro. Espanta-me sempre ver profissionais como José Alberto Carvalho, da TVI, repetirem estas frioleiras sem as contextualizarem.

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PESSOA BY CAVALCANTI FILHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Fernando Pessoa uma quase-autobiografia, do brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho (n. 1948). Desobrigado de protocolo académico, num tom fluente, acessível ao leitor comum, o autor cruza a obra do poeta com a sua vastíssima bibliografia. Mas vai mais longe: acrescenta o ponto de vista de pessoanos de renome como Cleonice Berardinelli, Richard Zenith, Yvette Centeno, Teresa Rita Lopes, José Blanco, Teresa Sobral Cunha, Jerónimo Pizarro e outros, por vezes citados na forma de testemunhos pessoais. Um dos aspectos dilucidados é o da putativa homossexualidade de Pessoa: Cavalcanti acha que ele “não praticou”, mas queria... Um cartapácio de 710 páginas que inclui toda a informação relativa aos 127 heterónimos do poeta (os quatro que toda a gente trata por tu, mais 123). O livro saiu no Brasil no ano passado, mas a edição portuguesa foi revista e actualizada. Mesmo que tenha lido as biografias de Pessoa feitas por João Gaspar Simões (1951) e Robert Bréchon (1996), vai ver que encontra novos dados.

Escrevo ainda sobre as crónicas que Pedro Mexia (n. 1972) reuniu em O Mundo dos Vivos. Há de tudo: Rupert Murdoch, Monica Lewinsky, Machado de Assis, Thomas Mann, Roman Polanski, Chico Buarque, Nicolas Sarkozy, Lindsay Lohan, etc. Podia escolher outras: em regra, são todas muito boas. Uma edição Tinta da China.

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COMEÇOU


A primeira página do Guardian diz tudo. Clique. As novas eleições gregas são daqui a um mês. Trinta dias é uma eternidade. Depois dos levantamentos em massa, os bancos gregos estão sem liquidez. Anteontem, o BCE fechou a torneira: para Atenas não vai nem mais um cêntimo. Não era mais limpo acabar com isto de uma vez?

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Quarta-feira, Maio 16, 2012

ASSIM VAI PORTUGAL


A manchete do jornal i dispensa comentários. Clique.

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Terça-feira, Maio 15, 2012

CARLOS FUENTES 1928-2012


O escritor mexicano Carlos Fuentes morreu hoje de paragem cardíaca. Tinha 83 anos. Nasceu no Panamá, estudou na Suíça e nos Estados Unidos, foi embaixador do México em Paris (1975-77), e professor em várias universidades americanas, entre elas Harvard e Princeton. Deixa uma obra muito vasta: 24 romances, 12 colectâneas de contos, 5 peças de teatro, 20 volumes de ensaio e um libreto de ópera. A Porto Editora publicou recentemente Adão no Éden (2009). O Prémio Cervantes, que lhe foi outorgado em 1987, foi um dos dezoito que recebeu.

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ACABOU A ERA SARKO


François Hollande tomou posse esta manhã. A imagem mostra o general Jean-Louis Georgelin no momento da imposição da Légion d’honneur, ritual que referenda o acto. Hollande é o 7.º Presidente da V República Francesa (e o 2.º socialista a ocupar o cargo), sucedendo a De Gaulle, Pompidou, Giscard, Mitterrand, Chirac e Sarkozy. Depois de se ter divorciado de Ségolène Royal, mãe dos seus quatro filhos, Hollande vive em união de facto com a jornalista Valerie Tierweiler. Será ele o homem que vai impedir a implosão do euro?

[Foto de Fred Dufour, AFP.]

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Segunda-feira, Maio 14, 2012

ZONA DE CONFORTO


Comentários para quê? A imagem é do Público, que na página 12 da edição de hoje traz o quadro dos salários anuais auferidos em 2010 e 2011 pelos presidentes das empresas do PSI-20. Oito exemplos:


Manuel Faria de Oliveira, Galp
2010: 1.337.000 / 2011: 1.642.600 / Média: 1.489.800 milhões
José Honório, Portucel
2010: 1.532.491 / 2011: 1.425.895 / Média: 1.479.193 milhões
Zeinal Bava, PT
2010: 1.416.959 / 2011: 1.355.943 /Média: 1.386.451 milhões
Pedro Queiroz Pereira, Semapa
2010: 983.000 / 2011: 1.386.888 / Média: 1.184.944 milhões
Paulo Azevedo, Sonae
2010: 1.122.871 / 2011: 1.143.020 / Média: 1.132.945 milhões
António Mexia, EDP
2010: 1.043.541 / 2011: 1.034.840 / Média: 1.039.190 milhões
Ângelo Paupério, Sonaecom [Público]
2010: 1.004.800 / 2011: 1.027.100 / Média: 1.015.950 milhões
Ricardo Salgado, BES
2010: 1.222.000 / 2011: 801.000 / Média: 1.011.500 milhões

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Sábado, Maio 12, 2012

WATERGATE INDÍGENA


Se até o Expresso o diz na 1.ª página. Clique.

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MUDAR DE VIDA, DIZ ELE


Um quadro eloquente. Clique. A infografia é do Público.

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Sexta-feira, Maio 11, 2012

BERNARDO SASSETTI 1970-2012


Bernardo Sassetti, pianista e compositor, morreu ontem. Tinha 41 anos. Terá caído numa falésia perto do Guincho, o corpo levou horas a ser recolhido, e a notícia só hoje foi divulgada. Era casado com a actriz Beatriz Batarda, de quem teve duas filhas. Compôs muito para cinema, gravou com a London Philarmonic Orchestra (e com Sting), e deixa uma discografia importante, da qual destaco Piano a quatro mãos (2003, com Mário Laginha), Livre (2004), Ascent (2005), Três pianos (2007, com Laginha e Burmester), e Second Life (2009). Como músico, participou no filme O Talentoso Mr Ripley (1999), de Anthony Minghella: era o pianista de jazz do septeto napolitano. Os obituários de imprensa referem todos que era bisneto de Sidónio Pais, o presidente-rei assassinado em 1918 ao chegar à Estação do Rossio.

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Quinta-feira, Maio 10, 2012

DEBORAH MOGGACH


Hoje na Sábado escrevo sobre O Exótico Hotel Marigold — que no original se chama These Foolish Things —, de Deborah Moggach (n. 1948). A capa do livro reproduz os retratos dos principais actores do filme que John Madden fez. Sem razão lógica, Deborah Moggach tem sido ignorada pelos editores portugueses. Em 2000 saiu A Febre das Tulipas, e depois esqueceram-se dela. É pena. Ainda bem que a Porto Editora a recuperou. O Exótico Hotel Marigold / These Foolish Things é uma brilhante comédia de costumes sobre a forma como a sociedade britânica lida com o problema do envelhecimento. Em pleno século XXI, o Serviço Nacional de Saúde britânico desintegra-se «sob os efeitos combinados da falta de financiamento, da escassez de funcionários e do colapso moral.» A parte indiana do livro (e do filme) corresponde à quota de humor. Além de romancista, Deborah Moggach é autora do guião para cinema de Orgulho e Preconceito (versão Joe Wright, 2005), a obra-prima de Jane Austen, bem como de adaptações para televisão de obras de Nancy Mitford.

Escrevo ainda sobre O Lustre, o segundo romance de Clarice Lispector (1920-1977), só agora publicado em Portugal. Trata-se de um longo monólogo interior e a sua estrutura aleatória, acentuada por uma escrita que rompe com as noções de representação convencionais, faz lembrar Maria Gabriela Llansol. Uma edição Relógio d’Água.

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Quarta-feira, Maio 09, 2012

E AGORA, ALEXIS?


Karolos Papoulias, o Presidente da Grécia, não esteve pelos ajustes: convidou Alexis Tsipras, o líder do Syriza, da extrema-esquerda radical, a formar governo. Alexis Tsipras (na imagem) tem 37 anos e é engenheiro civil. O Syriza foi o segundo partido mais votado, com 16,8% dos votos e 52 deputados eleitos. Tsipras não perdeu tempo: tenciona rasgar o acordo com  a troika e exigir uma moratória para a dívida. Mais: pretende responsabilizar criminalmente os deputados envolvidos nas negociações com a troika.

Como nem os conservadores (Nova Democracia, com 108 deputados: 58 por eleição directa, 50 por indexação ao partido mais votado), nem os socialistas (PASOK, 41 deputados), nem os independentes de direita (Anexartitoi Ellines, 33 deputados), nem os comunistas (KKE, 26 deputados) aceitam coligar-se, não se vê como Tsipras possa formar governo.

Os nazis da Aurora Dourada, com 21 deputados, e a Nova Esquerda, com 19, não foram tidos nem achados nas conversações.

A menos que Karolos Papoulias suspenda o Parlamento, deixando Tsipras governar sem escrutínio, ou que se realizem novas eleições dentro de poucas semanas. A ver vamos.

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Segunda-feira, Maio 07, 2012

O IMBRÓGLIO GREGO


Na Grécia, o Χρυσή Αυγή  —  Aurora Dourada  —, partido nazi, elegeu 21 deputados. As primeiras declarações do seu líder, Nikos Mihaloliakis, foram claras: Rua com os estrangeiros! Por seu turno, o Syriza, da extrema-esquerda radical, elegeu 52. O partido de Alexis Tsipras tem como prioridade rever as condições do resgate da dívida. Tsipras, que está na imagem ao alto, e o nazi Mihaloliakis, vão tornar impossível qualquer tentativa de normalidade, uma vez que os conservadores da Nova Democracia e os socialistas do PASOK apenas conseguiram eleger, respectivamente, 108 e 41 deputados, aquém da maioria absoluta (151). Tanto Samaras como Venizelos propõem um governo de unidade nacional, mas não se vê como. Por junto, sete partidos terão assento no Parlamento.

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A ESQUERDA DE VOLTA AO ELISEU


Hollande ganhou, como previsto, mas com margem curta. A ver vamos as legislativas de Junho. Clique na imagem do Libé.

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