quinta-feira, Novembro 27, 2014

P. D. JAMES 1920-2014


P. D. James morreu hoje em Oxford. Tinha 94 anos. Tendo começado a escrever tarde, deixa uma obra parcimoniosa: vinte e dois títulos, sendo romances dezanove. Vários foram adaptados à televisão e ao cinema.

Notabilíssima autora de thrillers (não confundir com literatura escandinava sobre juventude disfuncional e violência urbana), baralhou a crítica e os leitores com três livros “desalinhados” do género: Innocent Blood (1980), The Children of Men (1992) e Death Comes to Pemberley (2011). O inspector-poeta Adam Dalgliesh não terá o carisma de Poirot, mas os catorze romances que protagoniza são do melhor que Phyllis Dorothy James escreveu.

Formada em administração hospitalar, e viúva de um médico, trabalhou durante vinte anos na Segurança Social britânica e, mais tarde, no âmbito da Scotland Yard, em medicina legal, facto que explica as minuciosas descrições de dissecação de cadáveres dos seus romances.

Feita baronesa de Holland Park, ingressou na Câmara dos Lordes em 1991.

Metade da obra encontra-se publicada em Portugal, em edições de má qualidade, com excepção do recente Morte em Pemberley, que Tânia Ganho traduziu no ano passado para a Porto Editora. Convinha fazer novas traduções do restante.

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RUBEM & MÁRIO DE CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Amálgama, a obra mais recente de Rubem Fonseca (n. 1925), unanimemente considerado o maior escritor brasileiro vivo. O volume colige trinta e quatro textos: 29 são contos, e poemas são 5. O virtuosismo dos contos não surpreende. Os poemas sim. A propósito de genologia: o chamado Poema da vida é de facto um conto, naco de prosa em louvor da vagina. Rubem prefere chamar-lhe boceta, como é de uso comum no Brasil. Nenhuma grosseria ou expressão vulgar maculam essas duas páginas. Logo a abrir, um murro no estômago. O filho deixa entrever o olhar duro de quem, tendo visto muito (não esquecer a carreira do autor na polícia), dispensa o álibi da indignação: «Então jogou o bebê na lata de lixo. O bebê era aleijado. Só tinha um braço. Ela não ia dar de mamar nem ninguém ia querer comprar aquela coisa.» A mesma secura para descrever a decisão de um pai que mata o filho de 15 anos com uma bomba por si fabricada: «Coloquei a bomba na sua mão. [...] Eu amava o meu filho.» Nem tudo é tragédia grega. E a ironia impõe-se até nos textos mais negros, matizando-os de forma impressiva. Certa obsessão com anões e pais ausentes servirá de pasto a teses académicas, mas não é disso que aqui tratamos.  O espectro de temas é muito amplo e todos servem para iluminar a prosa dúctil: quotidiano, sexo, transtorno obsessivo-compulsivo, bandidagem, solidão, pé-rapados, ofício de escritor, crendices, voyeurismo, mulheres, engenharia social, criminalidade, indiferença, psicanálise, má-língua literária: «Clara Bela tinha dinheiro, pagava para que escrevessem resenhas dos seus livros» (um incêndio reduziu a cinzas a casa de Clara Bela, e o narrador de O aprendizado contempla o desastre com alegria). Será Clara Bela quem julgamos ser? Aqui chegados, não é fácil isolar uma dúzia de contos em detrimento de outros. Ciente da futilidade do exercício, destaco, além dos citados, os seguintes: Segredos e mentiras, Decisão, Isto é o que você deve fazer, O ciclista, Escrever, A festa, Best-seller, Sonhos, Fábula, Premonição e Os pobres e os ricos. Amálgama é uma festa da língua e seria pleonástico sublinhar a riqueza vocabular e os ritmos polissémicos da voz do autor.

Escrevo ainda sobre Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, um guia prático de escrita de ficção que Mário de Carvalho (n. 1944) em boa hora publicou. A obra exonera-se de pretensões académicas ou mantra escolástico. Coloquial, o tom está repassado de ironia. Atente-se no equívoco entre «writer» e «escritor», pretexto de reflexões assisadas, isentas de remoques enviesados. O livro divide-se em seis secções: Pontos de Ordem (direitos e deveres do escritor, cânone, etc.), Pontos de Mira (o leitor, estrutura, etc.), Pontos de Referência (a acção ou a personagem?, coisas práticas, etc.), Pontos de Vista (enredo, mise en abîme, etc.), Pontos Radiantes (dramatis personae, tipos de narrador, etc.) e Pontos de Luz (estranhamento, originalidade, etc.). Cito dois temas por secção, mas convém multiplicar por cinco. Nada escapou ao tour d’horizon. Sendo escassas as citações de autores vivos («Pior para o autor destas linhas, que reteve a ocasião de elogiar»), Mário de Carvalho apoia-se em remissões pertinentes. Lembrar Rodrigues Lapa não é despiciendo. Deveras pedagógica, como várias outras passagens do livro, a análise da «prosa pataqueira e patchuli a armar ao pingarelho». Está lá tudo. Em suma, um manual doravante imprescindível. Edição Porto Editora.

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STATEMENT


Ontem à noite, Sócrates enviou aos media uma declaração com oito parágrafos. Cito em baixo os últimos três:

 «[...] Defender-me-ei com as armas do Estado de Direito — são as únicas em que acredito. Este é um caso da Justiça e é com a Justiça Democrática que será resolvido.

Não tenho dúvidas que este caso tem também contornos políticos e sensibilizam-me as manifestações de solidariedade de tantos camaradas e amigos. Mas quero o que for político à margem deste debate. Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia.

Este processo só agora começou

Não tenho nada a acrescentar.

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quarta-feira, Novembro 26, 2014

SAKHAROV 2014

 
O Prémio Sakharov, instituído pelo Parlamento Europeu para distinguir pessoas ou organizações que dedicaram a sua vida e/ou actividade na defesa da liberdade de pensamento e dos direitos humanos, foi este ano atribuído ao médico ginecologista congolês Denis Mukwege (n. 1955), especialista no tratamento de mulheres violadas, em especial as que têm sido vítimas de milícias armadas. Nem tudo é mau à nossa volta.

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terça-feira, Novembro 25, 2014

ESPERAR PARA VER


Setenta e duas horas depois de ter sido detido para interrogatório, José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal entre 12 de Março de 2005 e 20 de Junho de 2011, seguiu para uma cadeia de Évora reservada a magistrados, militares e polícias, onde fica em prisão preventiva, indiciado por crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.

A medida de coacção imposta causa perplexidade e acorda velhos fantasmas.

Como não podemos fugir ao valor simbólico das datas, lembrar que, com um intervalo de 39 anos, a noite de 24 para 25 de Novembro voltou a levar o país ao estupor.

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domingo, Novembro 23, 2014

CITAÇÃO, 505


Pedro Marques Lopes, Uma crise de Regime, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhados meus:

«1. Esta crónica já estava escrita, chamava-se “Telegramas do Manicómio”. Era acerca da única e exclusiva responsabilidade de Carlos Costa na solução encontrada para o BES e do facto dum Governo ter prescindido de ter uma palavra num assunto que dizia respeito a cerca de 20% da economia nacional, dum alto responsável da Administração Pública ter aparentemente sido constituído arguido por ter recebido um par de garrafas de vinho e alguém ter dito que se lhe devia dar uns euros, dum vice-primeiro-ministro que mostrou não saber distinguir um partido político duma empresa, dum presidente duma comissão parlamentar que combateu com um secretário de Estado pelo acesso a um microfone e de dois partidos que mudaram de opinião sobre um assunto em 24 horas.

Entre as 23h45, momento em que pus o ponto final na dita crónica, e a meia-noite e pouco, hora em que soube da detenção de José Sócrates, o país mudou. Melhor,  passamos a estar no meio da maior crise de Regime desde a normalização da nossa democracia.

O principal pilar duma democracia liberal é o de ninguém estar acima da lei. Ninguém. Nem quem a faz, nem quem a aplica, nem quem a fiscaliza. Mas, de boa-fé, não se pode pensar que é exatamente a mesma coisa deter um responsável por uma polícia, um ex-primeiro-ministro ou um cidadão que não tem, ou teve, responsabilidades nos destinos da comunidade. [...]

Até por isto se percebe que, sim, a lei é igual para todos mas que não há nada mais injusto do que tratar de igual modo situações diferentes. O que está, sobretudo, em questão na detenção do ex-primeiro-ministro é a possibilidade duma comunidade ter sido representada e conduzida por alguém que não tinha condições pessoais para o fazer, alguém que enganou os cidadãos ou a incapacidade dum sistema judicial fazer cumprir a lei, ou pior, esse sistema criar um caso desta gravidade sem indícios realmente sérios.

Qualquer uma destas situações é duma gravidade sem paralelo conhecido em Portugal.

[...] Bem gostava de em consciência pensar que seria possível ver as instituições a funcionar regularmente, de não assistir à construção de barricadas, de ver toda a gente preocupada em descobrir a verdade e não a sua verdade, mas estou cético, como, estou convencido, muita gente está. É também esse ceticismo generalizado sobre o resultado futuro deste e doutros casos, qualquer que seja o sentido, que mostra o quão estamos doentes como comunidade.

Qualquer que seja o desenlace deste processo as instituições democráticas saem fortemente abaladas. Agora sim, estamos perante uma verdadeira crise, a pior delas: uma crise do Regime. Nada ficará como dantes.

2. O homem mais poderoso do país deixou de ser um político ou um empresário. O homem que manda nisto tudo, o novo DDT, é Carlos Alexandre, o juiz ligado aos casos BPN, Furacão, Monte Branco, Vistos Gold e, agora, Sócrates. O poder político criou o Ticão e deu todo este poder a quem o dirige. É demasiado poder concentrado neste ou em qualquer outro homem

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CITAÇÃO, 504


Clara Ferreira Alves, A Justiça a que temos direito, ontem no Expresso. Sublinhados meus:

«A Justiça é antes de mais um código e um processo na sua fase de aplicação. Ou seja, obediência cega, essa sim cega, a um conjunto de regras que protegem os cidadãos da arbitrariedade. Do abuso de poder. Do uso excessivo da força. Essas regras têm, no seu nó central, uma ética. Toda e qualquer violação dessa ética é uma violação da Justiça. E uma negação dos princípios do Direito e da ordem jurídica que nos defendem.

Num caso de tanta gravidade como este, o da suspeita de crimes graves e detenção de um ex-primeiro-ministro do Partido Socialista, verifico imediatamente que o processo foi grosseiramente violado. Praticou-se, já, o linchamento público. Como?

1) Detendo o suspeito numa operação de coboiada cinemática, parecida com as de Carlos Cruz e Duarte Lima, a uma hora noturna e tardia, num aeroporto, quando não havia suspeita de fuga, pelo contrário. O suspeito chegava a Portugal. Porque não convocá-lo durante o dia para interrogatório ou levá-lo de casa para detenção?

2) Convidou-se uma cadeia de televisão a filmar o acontecimento. Inacreditável.

3) Deram-se elementos que, a serem verdadeiros, deviam constar em segredo de Justiça. Deram-se a dois jornais sensacionalistas, o Correio de Manhã e o Sol, que nada fizeram para apurar o que quer que seja. Nem tal trabalho judicial lhes competia. Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.

4) Leio, pela mão da jornalista Felícia Cabrita, no site do Sol, pouco passava da hora da detenção, que Sócrates (entre outros crimes graves) acumulou 20 milhões de euros ilícitos enquanto era primeiro-ministro. Alta corrupção no cargo. Milhões colocados numa conta secreta na Suíça. Uma acusação brutal que é dada como certa. Descrita como transitada em julgado. Base factual? Fontes? Cuidado no balanço das fontes, argumentos e contra-argumentos? Enunciado mínimo dos cuidados deontológicos de checking e fact-checking? Nada. Apenas «o Sol apurou junto de investigadores». O Sol não tem editores. Tem denúncias. Violações de segredo de Justiça. Certezas. E comenta a notícia chamando «trituradora» de dinheiro aos bolsos de Sócrates. Inacreditável.

5) Verificamos apenas, num estilo canhestro a que a biógrafa de Passos Coelho nos habituou (caso Casa Pia, entre outros) que a notícia sai como confirmada e sustentada. Se o Watergate tivesse sido assim conduzido, Nixon teria ido preso antes de se saber se era culpado ou inocente. No jornalismo, como na justiça, há um processo e uma ética. Não neste jornalismo.

6) Neste momento, não sei nem posso saber se Sócrates é inocente ou culpado. Até prova em contrário é inocente. In dubio pro reo. A base de todo o Direito Penal.

7) Espero pelo processo e exijo, como cidadã, que seja cumprido à risca. Não foi, até agora. Nem neste caso nem noutros. Isto assusta-me. Como me assustou no caso Casa Pia. Esta Justiça de terceiro mundo aterroriza-me. Isto não acontece num país civilizado com jornais civilizados. Isto levanta-me suspeitas legítimas sobre o processo e a Justiça, e neste caso, dada a gravidade e ataque ao regime que ele representa, a Justiça ou age perfeitamente ou não é Justiça.

8) Verifico a coincidência temporal com o Congresso do PS. Verifico apenas. Não suspeito. Aponto. E recordo que há pouco tempo um rumor semelhante, detenção no aeroporto à chegada de Paris, correu numa festa de embaixada onde eu estava presente. Uma história igual. Por alturas da suspeita de envolvimento de José Sócrates no caso Monte Branco. Aponto a coincidência. Há um comunicado da Procuradoria a negar a ligação deste caso ao caso Monte Branco. A Justiça desmente as suas violações do segredo de Justiça. Aponto.

9) E não, repito, não gosto de José Sócrates. Nem desgosto. Sou indiferente à personagem e, penso, a personagem não tem por mim a menor simpatia depois da entrevista que lhe fiz no Expresso há um ano. Não nos cumprimentamos. Não sou amiga nem admiradora. É bizarro ter de fazer este ponto deslocado e sentimental mas sei donde e como partem as acusações de «socratismo» em Portugal.

10) As minhas dúvidas são as de uma cidadã que leu com atenção os livros de Direito. E que, por isso mesmo, acha que a única coisa que a Justiça tem a fazer é dar uma conferência de imprensa onde todos, jornalistas, possamos estar presentes e fazer as perguntas em vez de deixar escorregar acusações não provadas para o Correio da Manhã e o Sol. E quejandos. Não confio nestes tabloides para me informarem. Exijo uma conferência de imprensa. Tenho esse direito. Vivo num Estado de Direito.

11) Há em Portugal bom jornalismo. Compete-lhe impedir que, mais uma vez, as nossas liberdades sejam atropeladas pelo mau jornalismo e a manipulação política.

12) Vou seguir este processo com atenção. Muita. Ou ele é perfeito, repito, ou é a Justiça que se afundará definitivamente no justicialismo. Na vingança. No abuso de poder. Na proteção própria. O teste é maior para a Justiça porque é o teste do regime democrático. E este é mais importante que os crimes atribuídos a quem quer que seja. Não quero que um dia, como no poema falsamente atribuído a Brecht, venham por mim e não haja ninguém para falar por mim. A minha liberdade, a liberdade dos portugueses, é mais importante que o descrédito da Justiça. A Justiça reforma-se. A liberdade perde-se. E com ela a democracia

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sábado, Novembro 22, 2014

DETIDO

 
Ontem, às 22:42, ao chegar de Paris, Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa pelo procurador Rosário Teixeira e por agentes da Autoridade Tributária. O antigo primeiro-ministro será hoje presente ao juiz de instrução. Ao longo do dia (sexta-feira) já haviam sido detidas mais três pessoas. Em causa estarão crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.

Pode ler aqui o comunicado que a Procuradoria-Geral da República divulgou hoje.

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quinta-feira, Novembro 20, 2014

TRAMBOLHÃO & BAILE


O jornalista Miguel Pinheiro, autor da mais detalhada biografia até hoje conhecida sobre Francisco Sá Carneiro (a obra foi publicada em 2010 e resume em 770 páginas a vida do fundador do PPD, o homem que deu a primeira vitória à Direita depois da queda da ditadura), voltou ao terreno da investigação histórica  —  A Noite Mais Longa faz o relato minucioso das treze horas que abalaram o Estado Novo no Verão de 1968. Ou seja, do que de facto aconteceu entre as 8 da noite de 6 de Setembro e as 9 horas da manhã seguinte.

Salazar caiu da cadeira, no Forte de Santo António do Estoril, quando se preparava para ler os jornais. Até aqui, nenhuma controvérsia. Porém, na imprensa, nos mentideros, nos círculos da Oposição, mesmo nos bastidores do Regime, quase ninguém se entendia com a data exacta do acidente. Conforme a fonte, teria ocorrido a 3 ou 4 ou 5 de Agosto. Mas uma carta do calista de Salazar, arquivada na Biblioteca Nacional, cujo fac-símile Miguel Pinheiro insere no livro, põe termo à querela: o trambolhão do ditador ocorreu no dia 1 de Agosto de 1968.

Salazar seria operado na noite de 6 para 7 de Setembro, data em que Beatriz e Antenor Patiño receberam na sua casa de Alcoitão os cerca de dois mil convidados daquela que foi considerada, à escala portuguesa, a festa do século. Literalmente: o jet set aterrou em Lisboa. Vieram actrizes, príncipes, duquesas, milionários e empresários de várias nacionalidades. A alta sociedade portuguesa fez-se representar ao mais alto nível. Poucos membros do governo obtiveram convite. O Presidente da Câmara Corporativa pediu autorização prévia para o aceitar. As filhas de Américo Thomaz também foram. Vera Franco Nogueira, mulher do ministro dos Negócios Estrangeiros, tinha prometido a Salazar que o punha ao corrente de todos os pormenores. Vera Lagoa e João Coito foram os únicos jornalistas admitidos nessa qualidade. Entraram mais dois ou três (um deles Nuno Rocha), mas disfarçados. Balsemão, então no Diário Popular, não conta. Era um convidado natural.

Miguel Pinheiro tece um hábil patchwork entre o que nessa noite se passou no Forte de Santo António do Estoril, no Hospital da Cruz Vermelha (onde Salazar começou a ser operado às 4 da madrugada), e na festa do “rei do estanho”. Um dos aspectos mais curiosos do relato diz respeito ao antagonismo entre Eduardo Coelho, médico pessoal de Salazar, e António Vasconcelos Marques, o neurocirurgião que chefiou a equipa que operou o Presidente do Conselho. A atrabílis chegou aos tribunais, estando Vasconcelos Marques morto há três anos quando, em 1999, o Supremo Tribunal de Justiça, contrariando as instâncias anteriores, considerou que Vasconcelos Marques havia ofendido «o bom nome» de Eduardo Coelho.

Tal como na biografia de Sá Carneiro, Miguel Pinheiro fez uma investigação exaustiva, dentro e fora da Torre do Tombo, onde filtrou documentação. Também entrevistou familiares e amigos de Eduardo Coelho, Vasconcelos Marques, Anselmo Costa Freitas e outros; tendo falado com Pinto Balsemão, André Gonçalves Pereira (advogado de Patiño), o neurocirurgião João Lobo Antunes e outros médicos, o historiador Rui Ramos, o politólogo António Costa Pinto, os filhos de Marcello Caetano, jornalistas que cobriram os acontecimentos de 1968, etc. Mais de cinquenta páginas de notas creditam as citações. Um manuscrito inédito de Anselmo Costa Freitas, o último secretário de Salazar, é tornado público pela primeira vez. De tudo resulta um testemunho ágil como num script para cinema, não tanto na descrição da festa Patiño, mas na recriação do ambiente que se terá vivido no hospital onde Salazar foi operado.

Publicou a Esfera dos Livros. Clique na imagem.

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E VÃO 35

 
O Montana legalizou ontem, com efeitos imediatos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Junta-se assim ao Alaska, Arizona, Califórnia, Colorado, Connecticut, Delaware, Hawaii, Idaho, Illinois, Indiana, Iowa, Maine, Maryland, Massachusetts, Minnesota, Nevada, New Hampshire, New Jersey, New Mexico, Nova Iorque, North Carolina, Oklahoma, Oregon, Pennsylvania, Rhode Island, Utah, Vermont, Virginia, Washington (não confundir com Washington DC) e West Virginia. Além destes Estados, e de doze nações índias, dezanove cidades do Kansas efectuam casamentos entre pessoas do mesmo sexo. O mesmo acontece na capital do Missouri. Na Carolina do Sul e na Flórida, apesar de aprovadas, as leis respectivas ainda não entraram em vigor.

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quarta-feira, Novembro 19, 2014

O FOLHETIM TAP

 
A notícia é do jornal i. Fica para memória futura. Depois do flop Efromovich (o brasileiro de origem boliviana que há dois anos não deu as garantias financeiras exigidas), temos Lorenzo na calha. Clique na imagem.

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domingo, Novembro 16, 2014

CITAÇÃO, 503


Vasco Pulido Valente, Temos muita sorte, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«O dr. Cavaco acha que não há uma crise política na República e que tudo corre normalmente. O primeiro-ministro Passos Coelho concorda com ele. Claro que, por aqui e por ali, houve um ou outro percalço. Nada de importante.

A sra. ministra da Justiça permitiu que se criasse uma enorme trapalhada nos tribunais por causa da “plataforma” Citius e continua por aí a ameaçar os putativos culpados, que não aparecem. Mas Passos Coelho gosta muito dela e quer que ela fique descansadíssima no seu lugarzinho. O ministro da Educação, Nuno Crato, presidiu à mais confusa abertura do ano lectivo em vinte anos, mas, como sempre, o seu querido chefe e amigo não se quis separar dele e até, para que não ficasse a mais leve dúvida sobre o assunto, o elogiou em público. [...]

Anteontem, soubemos com espanto que a polícia suspeitava de corrupção, de peculato e de branqueamento de capitais de 11 personalidades de consequência, entre as quais: o director nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o presidente do Instituto de Registos e Notariado e a secretária-geral do Ministério da Justiça.

Mais de 200 agentes da PJ revolveram e tornaram a revolver 60 escritórios de altos dirigentes da administração do Estado. Não se sabe o que por lá encontraram. Seja como for, o ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, que conhecia alguns dos presumíveis patifes, resolveu, com senso de responsabilidade e decência, apresentar a sua demissão. O primeiro-ministro disse logo que não, que não era capaz de viver sem ele e que, evidentemente, a actual situação, sendo inteiramente normal e quase feliz, não justificava um gesto tão drástico. De Belém não veio um murmúrio. Temos muita sorte

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sexta-feira, Novembro 14, 2014

HERBERTO INTEGRAL


Como deve ser, hardcover incluída, estão finalmente disponíveis os Poemas Completos de Herberto Helder. Em 759 páginas, o volume colige a poesia que o autor publicou entre A Colher na Boca (1961) e A Morte Sem Mestre (2014). Como não vejo razão para alterar o que escrevi em 2008 a pretexto de A Faca Não Corta o Fogo, aqui fica um excerto do ensaio que pode ser lido no meu livro Aula de Poesia, de 2010

Herberto Helder voltou. E com ele o cortejo do desassossego. [...] Não é fácil falar de Herberto, porque Herberto queima pontes, dando a ler uma suma com um pé no romantismo alemão, outro no imagismo russo, fora tradições inesperadas como a dos ameríndios. [...] Afinal, se Herberto fosse um poeta igual a tantos que vicejam nos departamentos de literatura, Novalis refulgiria intacto nos interstícios da voz. Mas Herberto dribla, nunca fez outra coisa senão trocar as voltas à close reading. Sabe que «a vida inteira para fundar um poema, / a pulso, / um só, arterial, com abrasadura, / que ao dizê-lo os dentes firam a língua, / que o idioma se fira na boca inábil que o diga». Sabê-lo exige um idioma assim. Lembrar, muito a propósito, o verso famoso: «Não posso escrever mais alto». A minha geração cresceu com Herberto, repetindo versos irrepetíveis...

Numa livraria perto de si.

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quinta-feira, Novembro 13, 2014

FOLLETT & KUNDERA


Hoje na Sábado escrevo sobre No Limiar da Eternidade, de Ken Follett (n. 1949), romance que fecha a trilogia O Século. A tradução portuguesa coincidiu com o lançamento mundial. Depois de A Queda dos Gigantes, que cobre o período de 1911 a 1924, e de O Inverno do Mundo, sobre os anos de 1933 a 1949, estamos agora no período que vai da construção do Muro de Berlim (1961) até ao seu derrube (1989). O epílogo do romance está datado de 4 de Novembro de 2008, o dia em que Obama foi eleito pela primeira vez. A sua inserção pode sugerir um futuro quarto volume, que transformaria a trilogia em tetralogia. Trata-se de uma saga histórica, na medida em que a quota ficcional está enredada nos factos concretos que moldaram a sociedade contemporânea. Este terceiro volume dá especial atenção aos anos da Guerra Fria, até ao dia em que a URSS perdeu o controlo da situação, e milhões de pessoas em todo o mundo ouviram Günter Schabowski anunciar em directo na televisão que as fronteiras da RDA estavam a partir daquele momento abertas a quem quisesse, «sem a exibição de pedido de visto prévio nem a demonstração de necessidade de viajar ou de relações familiares.» O resto é História. Acompanhamos famílias russas, americanas, alemãs, britânicas e polacas, cada uma delas com os seus fantasmas e peculiaridades. Por se tratar da recriação de um mundo desaparecido, a minuciosa descrição do quotidiano de Moscovo e Berlim Leste nos anos 1960-80 faz com que os Dvorkin-Peshkov e os Franck polarizem a nossa curiosidade. Figuras históricas como os irmãos Kennedy, Khrushchev, Hoover, Jaruzelski, Walesa, Gorbachev e muitas mais, surgem por vezes em discurso directo. Os leitores de Ken Follett sabem à partida com o que contam: romances competentes (embora, neste caso, o português em que o lemos nem sempre satisfaça, mas isso talvez não seja culpa dele), onde a intriga flui com naturalidade. No Limiar da Eternidade não é excepção. Pelo contrário.

Escrevo ainda sobre A Festa da Insignificância, de Milan Kundera (n. 1929). O tom bem-humorado do livro pode surpreender alguns leitores, habituados à subtil ironia que o distinguiu. Contudo, em momento algum a quota de humor rasura a preservação da memória contra o esquecimento. Dissidente comunista, Kundera tornou-se um pária quando, em 1968, os tanques russos ocuparam Praga. Obras como A Valsa do Adeus (1976) e O Livro do Riso e do Esquecimento (1979), entre outras, dão testemunho de uma vida em contraciclo ideológico. Agora, Kundera permitiu-se um divertissement acerca da sociedade actual, dissertando logo a abrir sobre a importância do umbigo na erótica. A partir daí, sem dar por isso, o leitor é arrastado para a finitude da existência. A parábola das perdizes entre Kruchtchev e Estaline parece-me forçada, mas um criado paquistanês de nome Caliban é um achado de ressonâncias identitárias. Quem leu Shakespeare sabe porquê. Publicou a Dom Quixote.

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CRIME, DIZ A ORDEM

 
«A sabotagem do Citius foi uma invenção do ministério da Justiça para manipular a opinião pública a seu favor, criando bodes expiatórios. Uma manobra política que correu mal, tendo por objectivo queimar duas pessoas na praça pública.»  —  Mais vírgula menos vírgula, é esta a acusação da Ordem dos Advogados para justificar o eventual «crime de denúncia caluniosa». Paula Teixeira da Cruz está sob fogo da Magistratura e de deputados de todas as bancadas. A forma como a ministra da Justiça se referiu ontem no Parlamento aos “subalternos” dos serviços que tutela, diz muito do estado a que “isto” chegou. Lembrar que a plataforma informática Citius esteve bloqueada durante sete semanas.

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quarta-feira, Novembro 12, 2014

AS TAXAS

 
A polémica à volta das taxas de turismo que a Câmara de Lisboa pretende fixar para a entrada de estrangeiros na cidade, a partir de 2015, e para as respectivas dormidas a partir de 2016 (um euro por noite até um máximo de sete), é reveladora da má-fé de quem fala em «matar a galinha dos ovos de ouro». Podia ser ignorância, mas não passa de agitprop parolo. Dezenas de países e cidades cobram aos turistas taxas da mais diversa índole. Por experiência própria, assim de repente lembro-me de Nova Iorque, Veneza, Roma, Amesterdão e Barcelona, mas também me lembro de ter pago um balúrdio no aeroporto de Medellín para poder deixar a Colômbia. Nas ilhas das Caraíbas, a taxa de partida é comum. Na Itália, são mais de 40 as cidades que cobram taxas aos visitantes. Países tão diferentes como os Emirados Árabes Unidos, a Áustria, a Tailândia, a Eslovénia, a República da Maurícia, a Holanda, a Suíça, a Rússia, etc., cobram taxas sobre o preço das dormidas. E então Berlim? Esta malta nunca lá foi? A lista não fica por aqui. António Costa não descobriu a roda. Clique na imagem porque vale a pena.

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segunda-feira, Novembro 10, 2014

CINCO MORTOS

 
Verdade? Então, uma de duas: 1. O Bastonário consultou o professor Karamba. 2. A Ordem dispõe de dados que a opinião pública desconhece. Em que parte entra a mão humana invocada pelo ministro da Saúde? De caminho, descobrimos que Castelo Branco, com dois casos confirmados, pertence ao concelho de Vila Franca de Xira. A imagem é do jornal i. Clique.

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A VIDA COMO ELA É

 
Era difícil prever um flop desta dimensão. Num universo de 6,3 milhões de potenciais eleitores, foram votar 2,2 milhões. Significa isto que dois terços dos residentes na Catalunha se alhearam da questão independentista. As duas perguntas obtiveram resultados diferentes, sendo maior o número dos que querem «um Estado catalão» no quadro jurídico de Espanha e menor o daqueles que querem «a independência da Catalunha». Obtendo a média de ambas, cerca de 1,6 milhões de votantes escolheram o SIM. Além dos mais de quatro milhões que se abstiveram, as duas perguntas foram rejeitadas por mais de meio milhão dos que foram votar. Artur Mas devia tirar consequências da consulta. A imagem é de El País. Clique.

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domingo, Novembro 09, 2014

IMBRÓGLIO


Anulado pelo Tribunal Constitucional de Espanha, o referendo catalão transformou-se numa consulta informal, espécie de mega-sondagem que hoje terá lugar naquela região. Os ziguezagues de Artur Mas, presidente da Generalitat, dão a medida do equívoco. Esperar para ver o que acontece nas mesas de voto instaladas em locais sob tutela do Estado, como por exemplo escolas e repartições. A independência da Catalunha parece-me um erro, mas os que acreditam nela devem estar profundamente decepcionados com o malabarismo de Artur Mas.

[Foto de Albert Garcia, El País. Clique.]

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BERLIM 1961-1989

 
Faz hoje 25 anos que isto acabou. Faço parte da geração que esperou pelo 9 de Novembro de 1989. Lembrar que tudo começou com a precipitação de Günter Schabowski, ao anunciar em directo na televisão que as fronteiras da RDA estavam a partir daquele momento abertas a quem quisesse.

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quinta-feira, Novembro 06, 2014

DAVID TOSCANA

 
Hoje na Sábado escrevo sobre O Exército Iluminado, de David Toscana (n. 1961), cujo traço distintivo é o nonsense em forma de escrita alegórica. Neste romance, Toscana dá uma versão delirante da História do México, a partir da obsessão do professor Ignacio Matus com a «vergonha nacional» que representaria a transmissão da soberania do Texas para outro país, neste caso os Estados Unidos da América. Convém não esquecer que, após a colonização espanhola, o Texas foi parte do Estado mexicano até 1836, sendo “anexado” pelos EUA apenas em 1845. No intervalo houve de facto e “de jure” uma República do Texas, tutelada e boicotada de várias formas por Washington, através da emigração maciça de aventureiros. A ideia de organizar um exército para reconquistar o Texas traduz-se numa odisseia quixotesca, sublinhada de forma alucinante, na medida em que um tal exército incorpora crianças com deficiência mental. E como tudo isto se passa em 1968, não há limite para a fantasia. Mas quem leu Santa Maria do Circo, um dos livros do autor publicados em Portugal, não tem de admirar-se com a deriva provocatória.

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segunda-feira, Novembro 03, 2014

MACHADO & OUTROS

 
A editora Glaciar, de Jorge Reis-Sá, pôs no mercado uma colecção de clássicos brasileiros, com o aval da Academia Brasileira de Letras e o apoio da Gulbenkian. Para já estão disponíveis quatro volumes, todos com capa dura: Os Romances, de Machado de Assis, Dialética da Colonização, de Alfredo Bosi, Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Poesia Completa, de João Cabral de Melo Neto. Os volumes incluem estudos inéditos. O primeiro volume, dedicado a Machado de Assis, colige em 1552 páginas os dez romances do autor. A colecção inclui ficção, poesia e ensaio, mas apenas de membros da Academia. De qualquer modo, um acontecimento. Clique na imagem.

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sexta-feira, Outubro 31, 2014

TIM COOK

 
Tim Cook, presidente da Apple, saiu ontem do armário: «Ser gay foi um dos maiores presentes que Deus me deu Amanhã, 1 de Novembro, a celebração do seu 54.º aniversário vai com certeza ser diferente das anteriores.

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quinta-feira, Outubro 30, 2014

RAY BRADBURY

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Teremos Sempre Paris, colectânea de contos de Ray Bradbury (1920-2012), autor que associamos à ficção científica e, sobretudo, a Fahrenheit 451, o romance distópico sobre o Macarthismo que Bradbury publicou em 1953 e Truffaut levou ao cinema em 1966. Infelizmente, Bradbury não tem tido fortuna na edição portuguesa, estando embora traduzidos os dois ou três livros mais conhecidos. O livro junta 21 contos, escritos entre a juventude e a velhice, fechando com um poema que faz a radiografia do estado actual do mundo: «Nós somos o sonho que as outras pessoas sonham. [...] Que idiotas!, dizem os recém-chegados do Chade. / Vocês são loucos!, gritam os iraquianos. [...] Dez mil pessoas surgem todas as semanas / Na vossa costa, / E vocês não sabem a razão dos gritos deles [...] Vocês são o sonho que as outras pessoas sonham.» Como o traço distintivo desta colectânea tardia é o carácter ambíguo da maioria dos textos, o poema faz um contraponto radical. O conto que dá o título ao conjunto é um dos melhores. Mas quem nunca leu Bradbury, e leia agora contos como “Massinello Pietro”, “A Visita”, “A Mamã Perkins Veio Para Ficar”, “Vem Comigo”, “Últimas Gargalhadas” e “Um Encontro Literário”, percebe que descobriu um grande autor.

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ACTA EST FABULA IV


Depois do primeiro e do terceiro, é hoje lançado o quarto volume de Acta Est Fabula. Memórias IV  —  Peregrinação (1976-1995), de Eugénio Lisboa. Nele podemos acompanhar as andanças do autor por Joanesburgo, Paris, Estocolmo e por último Londres, cidade onde viveu cerca de dezoito anos, exercendo o cargo de conselheiro cultural na Embaixada de Portugal.

A obra será apresentada por Otília Pires Martins, da Universidade de Aveiro. A sessão terá lugar pelas 18:30, no Centro Nacional de Cultura, ali ao Chiado. Clique na imagem para ler mais detalhes do convite. Editou a Opera Omnia.

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terça-feira, Outubro 28, 2014

A GRÃ-CRUZ

 
Um antigo secretário de Estado de um governo do PS escreveu uma carta aberta ao Presidente da República questionando-o pela não atribuição da Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo a José Sócrates. Ontem, Manuel Alegre enfatizou a indignação. A referida Grã-Cruz tem sido atribuída a todos os primeiros-ministros cessantes. Sócrates é a excepção.

Uma tal omissão envergonha o Estado, mas não podemos admirar-nos. Cavaco Silva interpreta o protocolo de Estado ao sabor dos seus humores. Sócrates devia pedir contenção aos seus camaradas.

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segunda-feira, Outubro 27, 2014

DILMA, AGAIN

 
Com cerca de 55 milhões de votos, número que corresponde a 51,7% do total, Dilma Rousseff foi reeleita. É uma boa notícia. Clique na imagem.

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quinta-feira, Outubro 23, 2014

MURO DA VERGONHA

 
A foto de José Palazón que hoje faz capa do El Mundo dispensa comentários. Em Melilla, a poucos metros de um clube de golfe, emigrantes ilegais tentam saltar o muro que os separa de Espanha e do sonho europeu. Entre o muro e o green existe uma vala profunda. Nada que perturbe os golfistas. Clique na imagem.

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A SAÚDE A QUE TEMOS DIREITO

 
Pensava que já tinha visto tudo? Evidência: quanto mais se bate no fundo, mais o fundo cede. A cacha é do Diário de Notícias. Clique.

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ELEANOR CATTON

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Os Luminares, da neozelandesa Eleanor Catton (n. 1985), que com este segundo romance ganhou o Man Booker Prize 2013. A carapaça de historicismo que envolve o thriller, porque de um thriller se trata, empresta ao tema uma aura de “respeitabilidade”. Os amantes de astronomia encontram aqui farta matéria de reflexão. Em nota prévia, a autora explica a influência dos equinócios (em particular nas latitudes do Sul, pois a região de Hokitika é o centro da acção) no desenrolar da intriga. Catton dá especial atenção à Era de Peixes, «uma era de espelhos, de tenacidade, de instinto, de geminação e de coisas ocultas.» Com uma excepção, a tábua de personagens divide-as em estelares e planetárias. As do segundo grupo têm indexada a influência dominante: razão, desejo, força, etc. Embora associados aos doze signos, os homens «reunidos no salão de fumo do Hotel Crown» não estão ali por acaso. Que segredo convocou um grupo tão heterodoxo? E terá sido fruto do acaso a inesperada loquacidade do fleumático Moody? Nada disto retira fluência à escrita de Catton, que domina bem os diferentes níveis narrativos. A focalização omnisciente enfatiza a descrição de ambientes e o perfil psicológico das personagens. Tudo é detalhado ao mais ínfimo pormenor. Porém, lá onde Dickens faria o mesmo com um terço dos recursos, Catton sente necessidade de provar que “sabe”. E para trazer de volta o romance vitoriano, conceptualizado de forma a mobilizar leitores contemporâneos, novecentas páginas parece-me excessivo. Sem perder de vista a influência dos astros em cada situação concreta, Catton constrói uma intricada rede de identidades trocadas, corrida ao ouro, violência passional, antros de ópio, prostituição, fraude, chantagem, roubo, morte, espiritismo, etc., em pleno século XIX (1865-66), numa longínqua ilha da Nova Zelândia. Na sua aparente toada dickensiana, a trama progride apoiada numa cerrada estrutura de significados que tem o óbice de secundarizar a tensão dramática. Em todo o caso, não se assuste com as trezentas e oitenta páginas da Primeira Parte do livro, pois, à medida que a história avança, elas encolhem. Sem contar com os mapas astrológicos a servir de ornamento (quantos leitores os sabem interpretar?), a Décima Primeira e a Décima Segunda partes têm apenas duas páginas cada uma.

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