sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

SERÁ DESTA?


Em Outubro próximo completam-se 15 anos de encerramento da Feira Popular de Lisboa. Quinze anos em que o terreno tem servido para tudo, desde depósito informal de lixo a gang bangs de todos os géneros. Agora, finalmente, parece ir avançar o ambicioso projecto imobiliário que se vê nas imagens. O estudo do terreno é de Ana Costa e Souto Moura. Os edifícios são Aires Mateus.

Na imagem de cima, perspectiva no sentido Saldanha / Campo Grande. Na de baixo, o inverso.

Clique nas imagens.

PCP & AO90

O PCP pretende o ‘recesso’ do Acordo Ortográfico de 1990, mas o seu projecto foi chumbado. Votaram contra: PS, BE, PSD e CDS. Votaram a favor: PCP, PEV e dois deputados do CDS: Filipe Lobo d'Avila e Ilda Araújo Novo. Abstenções: PAN, uma deputada do PS (Helena Roseta), um deputado do PSD (Miguel Morgado), e três deputados do CDS (Isabel Galriça Neto, Teresa Caeiro e António Carlos Monteiro). O ‘recesso’ significaria que Portugal se desvinculava do AO 90. Foi mais um episódio do folhetim.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

NUNCA EM LIVERPOOL


Os últimos dias de vida de Gloria Grahame (1923-1981) são o tema do filme As Estrelas Não Morrem em Liverpool, de Paul McGuigan, com Annette Bening, Jamie Bell, Vanessa Redgrave e outros. Graças a flashbacks, sabemos o que se passou entre 1979 e 1981, mas o essencial são os últimos dias de vida da actriz, que foi morrer a Nova Iorque, contra vontade (morreu horas depois de desembarcar). Apesar de quarenta filmes, quatro casamentos (um deles com o filho de Nicholas Ray, que fora seu segundo marido), sucesso de bilheteira e um Óscar, Gloria Grahame caiu no esquecimento. O filme é baseado no livro homónimo do actor Peter Turner, que foi seu amante quando tinha 27 anos, e Gloria 56. Como sempre, Annette Bening é magnífica, Jamie Bell tem uma performance notável, e Vanessa Redgrave, que aparece numa única cena de talvez cinco minutos, nunca desaponta. Eu gostei muito.

Annette Bening não recebeu nem está nomeada para nenhum prémio, porque Hollywood não lhe perdoa (a ela e a Warren Beatty, seu marido) a militância leftist.

MOSER & ROTH


Hoje na Sábado escrevo sobre Porquê Este Mundo, a biografia de Clarice Lispector escrita por Benjamin Moser (n. 1976). Moser é um americano do Texas que estudou em Paris e viveu vários anos no Brasil. Os primeiros autores que leu em português foram Machado de Assis e Clarice: nunca mais foi o mesmo depois de ler A Hora da Estrela. A vida de Clarice dava um romance e, nessa medida, não virá mal ao mundo se lermos como tal Porquê Este Mundo. Publicada em 2009, esta biografia revela-nos uma Clarice em grande angular. Sem beliscar o rigor intelectual da pesquisa, a escrita ágil do autor torna a leitura aliciante. Chaya Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia (então território russo), em Dezembro de 1920, no seio de uma família judaica. O desemprego, a fome e os pogroms anti-semitas tornavam a vida insustentável. Impedida de emigrar para os Estados Unidos, a família foi para o Brasil em 1921. Chegados a Maceió, mudaram todos de nome, e Chaya virou Clarice. Assim nasceu aquela que viria a ser uma lenda da vida literária brasileira, a Esfinge, como era conhecida. Moser detalha os pormenores da odisseia migratória, contextualizando a situação política da Europa no pós-Primeira Guerra Mundial. O autor acompanha também o dia-a-dia de Clarice nas suas diversas fases: criança, adolescente, curso de Direito, casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente, mãe, escritora. Os anos no estrangeiro (1944-59) na companhia do marido, os dois filhos, o divórcio (1959), as depressões, o cão Ulisses, o trágico incêndio de 1966 (adormeceu a fumar), a mão inutilizada, a doença e, na véspera de completar 57 anos, a morte por cancro nos ovários. Como disse Paulo Francis, Converteu-se na sua própria ficção. Moser não descura a obra — romances, contos e crónicas —, analisada sob vários ângulos, por vezes em close reading, desde o abalo causado pelo primeiro livro, Perto do Coração Selvagem (1943), autêntico sismo na ficção escrita em português. Mas também os sobressaltos editoriais, a recepção crítica, as traduções, os encontros e desencontros, rumores e mal-entendidos. Uma vida. Além de índice remissivo, o volume inclui 60 páginas de notas, bibliografia e portfolio fotográfico. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Confissão de um Assassino, do austríaco Joseph Roth (1894-1939), autor refractário à edição portuguesa que, num curto lapso, teve dois livros nas livrarias. O mais recente, Confissão de um Assassino, obra de 1936, tem por subtítulo Relato de uma noite. Ainda jovem, Roth trocou Viena por Berlim, e foi na capital alemã que ganhou notoriedade como jornalista. Mas no próprio dia em que Hitler foi nomeado chanceler, Roth embarcou para Paris, cidade onde viveu até morrer. Oriundo de uma família judaica de costumes liberais, homem de esquerda, nunca se recompôs do colapso do Império Austro-Húngaro. Um dos seus livros mais conhecidos, A Marcha de Radetzky (1932), traduzido entre nós, é justamente sobre as consequências do ocaso dos Habsburgos. Confissão de um Assassino ilustra o ambiente febril de Paris nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. As confissões de Golubchik, exilado russo, alegado filho de um príncipe e antigo agente da polícia secreta do czar, servem de pretexto para discretear sobre identidade e natureza humana. Num estilo tenso, Roth denuncia a iniquidade da burocracia totalitária, bem como o equívoco entre vida privada e deveres de Estado. Quatro estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

BALDE DE ÁGUA FRIA


Elina Fraga, a antiga (2014-16) Bastonária da Ordem dos Advogados que apresentou uma queixa-crime contra Passos Coelho e todos os membros do Governo PSD/CDS, foi escolhida por Rui Rio para vice-presidente do PSD. Os apparatchik passistas não querem acreditar. Paula Teixeira da Cruz, alvo privilegiado de Elina Fraga, acusa Rio de traição. Aos 47 anos, a advogada que teve Marinho Pinto como seu Pigmaleão chega ao topo do partido que zurziu de forma implacável nos últimos sete anos. Muito crítica da actuação do Ministério Público, Elina Fraga fica justamente com o pelouro da Justiça.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

DO ENRUSTIMENTO, 2

Miguel Vale de Almeida — «Quando os discursos críticos contra a homonormatividade se transformam em desprezo pelos pequenos gestos e pequenos avanços que beneficiam vidas, e ainda por cima glorificam os armários com uma postura superior de eu estou acima da banalidade dos termos em que vocês colocam as questões [...]»

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

DO ENRUSTIMENTO

Em Portugal, como em toda a parte, existem muitos paneleiros. As pessoas aceitam os paneleiros porque eles fazem parte da ordem ‘natural’ das coisas. Acontece o mesmo com as bichas fluorescentes. O ‘folclore’ não belisca o establishment. O fantasma identitário, o ressabiamento social e a homofobia militante fazem pontaria aos homossexuais tranquilos e ao activismo gay. Dois homens a viverem a sua conjugalidade perturbam o conservadorismo dominante. Por maioria de razão, um activista gay obriga a reflectir. Homem a abater, portanto. Manuel Clemente, o cardeal, subscreveria as teses do enrustimento mais azedo.

FERNANDO LEMOS


Descobri Fernando Lemos quando, em 1963, o Círculo de Poesia da Moraes reeditou Teclado Universal, cuja primeira edição, publicada em 1953 pelos Cadernos de Poesia, não conhecia. Mais tarde foram os extraordinários retratos de O’Neill, Cesariny, Sophia, Vespeira, Glicínia, Arpad & Vieira, Azevedo, Casais, Sena e tantos outros amigos. Não fotografo gente que não conheço bem. A vaidade que o Alberto de Lacerda tinha do retrato que ele lhe fizera. Uma parte da obra de pintor foi-me revelação em 2011, na Fundação Arpad-Vieira.

Ontem, finalmente, pude ver o filme que Jorge Silva Melo levou dez anos a completar — como, não é retrato?. E como valeu a pena! Auditório do CAM da Gulbenkian a rebentar de gente para oitenta minutos de pura magia.

À beira de completar 92 anos, Fernando Lemos é um prodígio de energia. Este homem que Portugal perdeu em 1953, o ano da partida para o Brasil (a convite de Jaime Cortesão), é uma figura incontornável das artes plásticas, também portuguesas, mas sobretudo brasileiras, porque os últimos 65 anos foram brasileiros. Acontece aos melhores: Maria Helena é francesa, Paula inglesa e Lemos brasileiro. Custa, mas é verdade. Não sei se o filme vai ser reposto em sala ou apenas na televisão. A maioria dos portugueses mais novos nunca ouviu falar de Fernando Lemos, fotógrafo excelentíssimo, artista plástico, resistente antifascista, homem de mil interesses. Era bom que o filme o resgatasse do nicho da memória dos happy few.

Imagem: Lemos fotografado por German Lorca. Clique.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

ERIC NEPOMUCENO


Hoje na Sábado escrevo sobre Bangladesh, Talvez, do brasileiro Eric Nepomuceno (n. 1948). O volume, que chegou agora à edição portuguesa, colige contos de livros anteriores do autor, jornalista e tradutor de renome que viveu exilado na Argentina durante os anos da ditadura militar brasileira. A um leitor atento não passarão despercebidas as oscilações de registo discursivo que moldam este conjunto de dezasseis narrativas breves. Persiste, no entanto, a ideia de um patchwork de notas avulsas. Dito de outro modo, de ‘rascunhos’. Veja-se o segundo texto, Dizem que ela existe. Trata-se, de facto, de cinco apontamentos para histórias a haver. O primeiro (sobre o medo da trovoada) cheio de possibilidades, e depois metafísica da porteira. Na segunda parte do livro, se assim se pode dizer, Coisas da Vida resgata o conjunto da toada soixante-huitard. É o texto mais conseguido, e mesmo assim não encontramos nele a garra semântica e o desembaraço transgressor da ficção brasileira. Ao contrário da polifonia que caracteriza os melhores dos seus pares, Nepomuceno tem uma escrita lisa. Ter uma escrita lisa não é defeito. O óbice é ter pouco para contar. Duas estrelas. Publicou a Porto Editora.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

ALBIE SACHS


Por iniciativa da sua Faculdade de Direito, a Universidade Nova de Lisboa atribui hoje a Albie Sachs, antigo juiz do Tribunal Constitucional da África do Sul, o título de Doutor Honoris Causa. A cerimónia tem lugar às 17:00 na Reitoria da Nova. Teresa Pizarro Beleza, directora da Faculdade de Direito, fará o elogio do doutorando.

Com 83 anos, Albie Sachs é um mítico activista dos direitos humanos. Opositor do regime do apartheid, esteve preso várias vezes. Autorizado a partir para o Reino Unido em 1966, leccionou Direito e fez campanha pelo ANC. Em 1977 foi para Moçambique, onde criou uma cátedra de Direito na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo. Nos anos de permanência na capital moçambicana trabalhou com Oliver Tambo, líder do ANC no exílio. Mas, em 1988, o National Intelligence Service (a polícia secreta sul-africana) colocou-lhe uma bomba no carro e Sachs ficou sem o braço direito e a vista de um olho. O atentado de Maputo não o impediu de prosseguir os trabalhos conducentes à futura Constituição da África do Sul, bem como de relatar o sucedido em livro: Soft Vengeance of a Freedom Fighter (1989), do qual existe tradução portuguesa.

De regresso ao país Natal, foi nomeado (1994) por Mandela juiz do Tribunal Constitucional. A nomeação foi alvo de controvérsia na medida em que Sachs não se abstivera de tornar pública a prática de tortura em campos do ANC. Entre outros casos, defendeu no TC a legalidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo, tornando a África do Sul, em 2006, o único país africano onde a Lei estabelece esse direito. Os sul-africanos também lhe devem a abolição da pena de morte, bem como a liberalização, contra a doutrina do presidente Thabo Mbeki, da venda de medicamentos anti-retrovirais para combater a Sida. Da sua bibliografia, um dos títulos mais recentes é The Strange Alchemy of Life and Law (2009). Albie Sachs casou duas vezes e tem três filhos, dois do primeiro casamento e um do segundo. Laureado em vários países, chegou a vez de Portugal reconhecer a estatura deste homem singular.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

NATÁLIA NUNES 1921-2018


Natália Nunes morreu hoje. Tinha 96 anos. Romancista, memorialista, dramaturga, ensaísta e tradutora, Natália Nunes estreou-se em 1952, com o livro de memórias Horas Vivas. Próxima do existencialismo, destacaria da sua vasta obra ficcional Autobiografia de uma Mulher Romântica (1955), Regresso ao Caos (1960), Assembleia de Mulheres (1965), O Caso de Zulmira L. (1967), A Nuvem (1970), Da Natureza das Coisas (1985), As Velhas Senhoras e Outros Contos (1992) e Vénus Turbulenta (1997). A peça de teatro Cabeça de Abóbora (1970) é uma farsa demolidora da burocracia dos Estados totalitários. Na área do ensaio, As Batalhas Que Nós Perdemos (1973) colige estudos sobre Augusto Abelaira, Cardoso Pires e Raul Brandão. Um extenso ensaio sobre Finisterra, de Carlos de Oliveira, foi publicado em 1997: A Ressurreição das Florestas. Num tempo em que o feminismo não era uma profissão, Natália Nunes antecipou-se ao seu tempo, defendendo com desassombro a real emancipação das mulheres. Não o fez em comícios: a Obra responde por si.

Depois de traduzir Dostoievski, Tolstoi, Simonov e Elsa Triolet, Natália Nunes conseguiu a proeza de, em pleno salazarismo, traduzir La Bâtarde, o livro maldito de Violette Leduc, que assim chegou de forma admirável à língua portuguesa. Em 1945 casou com o cientista, pedagogo e professor Rómulo de Carvalho, mais conhecido pelo pseudónimo de António Gedeão. Durante quarenta anos, Natália Nunes colaborou com regularidade nos títulos mais relevantes da imprensa. Foi conservadora da Torre do Tombo (1957-68) e fez parte da última direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores, extinta pelo Estado Novo em Maio de 1965. É mãe da escritora Cristina Carvalho.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

LIÇÃO


Eu não tenho vergonha, nem tenho qualquer problema em ser quem sou. — É desta forma simples que Adolfo Mesquita Nunes, 40 anos, deputado e vice-presidente do CDS, esclarece tudo. Já o havia feito num comício na Covilhã, durante as últimas autárquicas, a pretexto de um cartaz grafitado, mas o assunto morreu.

Hoje, no Expresso, vem tudo em letra de forma numa entrevista de vida. Nada disto é novidade para os duzentos happy few do costume, mas Adolfo Mesquita Nunes deu uma lição a dezenas dos seus pares no Parlamento e nos partidos, incluindo os da esquerda dura, que têm os armários a rebentar pelas dobradiças. É bom saber que há gente com a fibra de Graça Fonseca (PS) e Adolfo Mesquita Nunes. Porque, ao contrário do que defendem alguns, a inscrição pública é um dever para legisladores, governantes, intelectuais, artistas e, grosso modo, formadores de opinião.

Clique na imagem do Expresso.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

HOWARD & KLOUGART


Hoje na Sábado escrevo sobre o primeiro volume do quinteto Os Anos da Inocência, de Elizabeth Jane Howard (1923-2014), uma grata surpresa. Já era altura dos portugueses conhecerem esta romancista inglesa, até agora inédita em Portugal. Autora de romances, ensaios e uma autobiografia corrosiva, Elizabeth Jane Howard foi durante muitos anos vista como ‘a mulher’ de Kingsley Amis, que foi seu terceiro marido. Porém, o enteado, Martin Amis, nunca subestimou a importância da obra da madrasta. E não está sozinho nos encómios. A autora foi vítima do preconceito que menorizava a escrita de mulheres, sobretudo se, como é o caso, os temas centrais não fossem fracturantes (como à época eram os de Simone de Beauvoir). Pelo contrário, Elizabeth Jane Howard preocupou-se em descrever pessoas, hábitos, costumes e situações comuns. E nem por isso deixou de ser uma mulher emancipada. A par de vários casamentos e affairs episódicos, teve ligações amorosas com o poeta Cecil Day-Lewis e Arthur Koestler. A história da família Cazalet, nos anos que vão de 1937 a 1956, preenche os cinco volumes desta saga familiar de classe alta. Por enquanto estamos em 1937-38. O Verão na casa do Sussex foi atribulado. Cada um dos quatro filhos de Kitty e William Cazalet (Hugh, Edward, Rachel e Rupert) tem idiossincrasias muito próprias, e a única rapariga, que é solteira, até tem um segredo. O negócio das madeiras está em declínio, mas, naquele Verão, ninguém quer pensar em desgraças. Nem a sombra da guerra iminente matiza a despreocupação do clã. Um espírito cínico dirá que se trata de um microcosmo à Downton Abbey, actualizado, mas isso não constitui óbice, porque Elizabeth Jane Howard consegue ser, ao mesmo tempo, subtil e penetrante no modo como efabula a intriga e dispõe as personagens. Fazer votos para que sejam rapidamente traduzidos e publicados os restantes volumes: Marking Time (1991), Confusion (1993), Casting Off (1995) e All Change (2013). Entretanto, se lermos com atenção, não será despiciendo encontrar pontos de contacrto entre Elizabeth Jane Howard e Jane Austen. Quatro estrelas. Publicou a Asa.

Escrevo ainda sobre Um de Nós Dorme, da dinamarquesa Josefine Klougart (n. 1985). Este terceiro romance da autora suscitou o entusiasmo da crítica escandinava quando foi publicado. Então com 27 anos, foi saudada como uma nova Virginia Woolf, o tipo de rótulo que tende a defraudar expectativas. Afinal, lá onde Ms Woolf sempre foi subtil, mas exacta, Josefine é aleatória no modo como usa o fluxo da consciência. Não refeita de um desaire amoroso, a narradora sem nome erra pelas neves da Jutlândia. Vai a caminho da casa da infância onde a mãe morre lentamente de cancro. Sincopada, umas vezes na primeira pessoa, outras na terceira, a narrativa é fragmentada pelos efeitos da depressão e o transtorno de personalidade limítrofe da narradora. O monólogo interior ajuda: «Não resta muita realidade no teu corpo. É como se as tuas representações do mundo tivessem assumido o controlo.» Avanços e recuos no tempo compõem o récit. A história vem da fundação dos tempos: mulher encontra homem («Mas ele não percebeu que me sirvo dele para adiar a morte»), vivem dias vibrantes e, de repente, tudo acaba. Tão prosaico como isto. Três estrelas. Publicou a Elsinore.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

CRASH


As 500 pessoas mais ricas do mundo tiveram uma noite negra, e as que conseguiram dormir acordaram um bocadinho mais pobres. Taditas! Tudo porque Wall Street entrou em colapso após o trambolhão do Dow Jones. Nas bolsas asiáticas o pânico é generalizado.

Motivo? Especula-se muito. Hipóteses: o discurso dos «três olhos fechados» teria sido transmitido em directo na CNN; ou, aposto nesta, leram o prognóstico da Economist sobre uma guerra nuclear antes do fim do ano.

Clique na imagem da Bloomberg.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A VIDA COMO ELA É


Isto foi sexta-feira, mas só agora tive acesso à gravação. Miguel Sousa Tavares sem papas na língua no Expresso da Meia Noite, a propósito do famigerado Caso Centeno. Não fica pedra sobre pedra do MP.

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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O GOLPE


O golpe não colou: «Realizado o inquérito, recolhida a prova documental e pessoal necessária ao apuramento dos factos, o MP concluiu pela não verificação do crime de obtenção de vantagem indevida ou qualquer outro, uma vez que as circunstâncias concretas eram suscetíveis de configurar a adequação social e política própria da previsão legal

Alega o MP que não podia ignorar as notícias dos jornais. Portugal está a tornar-se um país perigoso.

A imagem é do Expresso. Clique.

STENDHAL


Hoje na Sábado escrevo sobre O Vermelho e o Negro, a obra-prima de Stendhal (1783-1842). Se as minhas contas estão certas, a presente edição corresponde à sexta tradução feita no nosso país. Iniciada por Rui Santana Brito, entretanto falecido, foi concluída por Helder Guégués. Um trabalho que honra a edição portuguesa. Nascido Henri Beyle numa família burguesa com pretensões aristocráticas, o futuro escritor adoptaria o pseudónimo de Stendhal. Antes disso fez parte dos exércitos de Napoleão (assistiu ao incêndio de Moscovo), foi plenipotenciário do ministério da Guerra e agente duplo. Negado o credenciamento como cônsul em Trieste, o Papa não se opôs que fosse para Civitavecchia. Publicado em Novembro de 1830, O Vermelho e o Negro foi o primeiro dos três romances que fariam dele um nome maior da literatura universal, sendo os outros A Cartuxa de Parma (1839) e Lucien Leuwen, escrito a par dos anteriores, mas só publicado postumamente em 1894. Dividido em duas partes, O Vermelho e o Negro é a história da ascensão e queda de Julien Sorel, um deserdado da sociedade que tentará, por todos os meios, aproveitar-se da Restauração para triunfar. O título é inspirado nas cores da carreira militar (vermelho) e eclesiástica (negro), os dois pólos da intriga. Tudo começa quando Julien, então com 19 anos, é admitido como preceptor dos filhos da família Rênal, notáveis de Verrières. Julien torna-se amante da ‘patroa’, mas o affaire acaba mal. Mais tarde, após uma passagem pelo seminário de Besançon, Julien vai para Paris e seduz a filha do marquês de La Mole, membro da mais alta aristocracia, que o contratara como secretário. A subida na hierarquia social não abafa o profundo rancor de Julien, dando azo ao trágico desfecho. A trama é praticamente decalcada do caso Antoine Berthet, uma cause célèbre de 1828. Nesta edição, o subtítulo original, ‘Crónica do século XIX’, passou para Crónica de 1830. Quando O Vermelho e o Negro saiu, já Stendhal publicara várias obras, tais como estudos sobre Racine e Shakespeare, além do romance de estreia, Armance, (1827), relato da vida nos salões parisienses. Cinco estrelas. Publicou a Guerra & Paz.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

OPERA BUFFA


Ironia suprema: dois foragidos da justiça a invocarem o Estado de Direito.
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NÓ CEGO


Através da rede Signal, parceira da WhatsApp, Puigdemont desabafou com Antoni Comín, um dos acantonados em Bruxelas:

«Estamos viviendo los últimos días de la Catalunya Republicana. Los nuestros nos han sacrificado, al menos a mí. Vosotros seréis consellers (espero y deseo), pero yo ya estoy sacrificado tal como sugería Tardà. [...] El plan de Moncloa triunfa. Solo espero que sea verdad y que gracias a esto puedan salir todos de la cárcel porque si no, el ridículo es histórico. [...] No sé que me queda de vida (¡espero que mucha!), pero la dedicaré a poner en orden estos dos años y a proteger mi reputación. Me han hecho mucho daño, con calumnias, rumores, mentiras, que he aguantado por un objetivo en común. Esto ha caducado y me tocará dedicar mi vida en defensa propia

O advogado de Comín confirmou a recepção das mensagens, às quais o seu constituinte não deu resposta.

A rede Signal é suposta ser mais segura que o WhatsApp mas, como demonstrado neste episódio, só um tolo pode permitir-se a ilusão de driblar a intelligence.

Clique na imagem do jornal catalão La Vanguardia.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

BARCELONA SINE DIE


Em Barcelona, centenas de manifestantes romperam o cordão policial que defendia o Parque de la Ciutadella, em protesto contra o adiamento, sine die, da investidura do próximo Presidente da Generalitat. A intenção é acamparem ali.

Roger Torrent, o Presidente do Parlamento, propôs Puigdemont como candidato único. Mas Puigdemont é um foragido da justiça. E uma investidura à distância (via teleconferência), como o próprio pretendia, seria declarada de efeito nulo nos termos de um acórdão unânime proferido no sábado, dia 27, pelos juízes do Tribunal Constitucional de Espanha. O acto seria considerado nulo e os seus responsáveis incriminados.

Hoje, sem dar conhecimento prévio aos deputados, incluindo os do seu partido, a ERC, Roger Torrent adiou a sessão sine die.

A facção mais exaltada dos independentistas não gostou.

Clique na foto de El País.