terça-feira, Setembro 16, 2014

NÚMEROS OFICIAIS

 
A Comissão Eleitoral das Primárias do PS, acto marcado para o próximo dia 28, divulgou estes números. A imagem é do Público. Clique.

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segunda-feira, Setembro 15, 2014

O SENHOR QUE SE SEGUE


Eduardo Stock da Cunha, 51 anos, director no Lloyds em Londres, é o senhor que se segue à frente do Novo Banco. Substitui Vítor Bento, que provavelmente regressará ao Conselho de Estado, onde o seu lugar permanece vago, e à docência na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Seria estranho que voltasse à SIBS, embora o site oficial da empresa continue a ter o seu nome inscrito como presidente do Conselho de Administração.

Em sua defesa, muita gente (até Sócrates) diz que ele tinha as mãos e os pés atados, porque quem de facto manda no Novo Banco é o Fundo de Resolução. Mas o CEO de uma empresa é alguém mandatado para executar a política dos accionistas. É para isso que servem as assembleias-gerais. Não pode ser um “iluminado” a brincar aos Rothschild. Sucede que os accionistas do Novo Banco são dois: o Estado, que meteu mais de quatro mil milhões de euros no Novo Banco; e o Fundo de Resolução, o sindicato de bancos que lá meteu perto de mil milhões. Bento não podia fugir à realidade: a ministra das Finanças tutela em nome do Estado, o governador do Banco de Portugal monitoriza do Fundo. Não compreender isto é surpreendente. Bento demitiu-se porque não quer chatices, e está no seu direito. Um homem que em 2011 não aceitou ser ministro das Finanças de um governo suportado por uma maioria parlamentar, não tem guts para gerir o imbróglio Novo Banco vs BES. O resto é conversa fiada.

Se não acontecer nada de extraordinário, Eduardo Stock da Cunha tomará posse esta semana como CEO do Novo Banco. Tem contactos e larga experiência na finança internacional, e obrigação de saber ao que vem: vender o Novo Banco, de preferência até ao Natal. Traz com ele três homens de confiança: Jorge Freire Cardoso, administrador executivo da Caixa Geral de Depósitos; Vítor Fernandes, que fez parte da equipa de Carlos Santos Ferreira no Millenium BCP; e José João Guilherme, que liderou o BIM, em Maputo, e era agora gestor de empresas não-financeiras. Vêm todos com “acordos de cedência” (ou seja: licenças sem vencimento) dos lugares de origem. A ver vamos.

[Imagem: foto de Nuno Fox, Expresso, Clique.]

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sexta-feira, Setembro 12, 2014

CITAÇÃO, 498


Vasco Pulido Valente, Primarismos, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«O jovem José Seguro tem um génio quase miraculoso para fazer asneiras sem remédio. Explicar, por exemplo, num debate de televisão que se demitiria se tivesse de aumentar impostos não passava pela cabeça de ninguém, excepto talvez pela cabeça de uma criança de oito anos, um pouco atrasada. Promover este extraordinário indivíduo a secretário-geral do PS ou a primeiro-ministro seria uma rematada loucura e poria rapidamente Portugal inteiro numa crise de nervos. As coisas que ele pode dizer, capazes de meter o país num indescritível sarilho, achando que está a exibir a sua grande virtude ou beneficiar o PS e a Pátria. Não tem equilíbrio, nem prudência, nem sensatez. Como, de resto, provou à primeira oportunidade quando Costa o desafiou. [...] Esta querela do PS é muito mais dramática e muito mais perigosa do que se pensa.»

[Imagem: foto de Nuno Ferreira Santos, Público. Clique.]

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quinta-feira, Setembro 11, 2014

 
Vi a seguir ao almoço o debate de ontem à noite na SIC entre Costa e Seguro. Não me vou alongar porque teria de ser desagradável, isto é, rasteiro ao nível de Seguro. Não me apetece. A tirada da janela (Costa não faria outra coisa senão estar à janela) dá a medida do carácter do actual secretário-geral do PS. Não podemos ter um gajo com este perfil à frente do maior partido da Oposição. Seria pleonástico sublinhar que Costa, sem nunca perder o sangue-frio (o 6½ valeu o debate), atirou o dinky toy borda fora.

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MEG WOLITZER


Hoje na Sábado escrevo sobre Os Interessantes, de Meg Wolitzer (n. 1959), autora que não faz parte do selecto grupo de autores americanos com vénia garantida na Europa. A crítica anglo-americana não tem poupado elogios, comparando a autora a John Updike, Philip Roth, Tom Wolfe, Jonathan Franzen e Jeffrey Eugenides, o que me parece excessivo. Franzen e Donna Tartt chegavam e sobravam. Os Interessantes é um romance de iniciação sem pretensões de ruptura conceptual. A história começa no Verão de 1974, quando, num campo de artes visuais e performativas no Massachusetts, meia dúzia de adolescentes de ambos os sexos fazem um pacto para a vida. O discurso, ora mordaz, ora divertido, adequa-se a cada situação concreta: «Sim, a questão da bichice já tinha sido decidida muito tempo antes, mas Jonah era protector em relação às suas próprias predilecções, defendendo-as e mantendo-as sempre debaixo de olho.» A linguagem “solta” e o tom despretencioso podem dar uma ideia errada, mas este nono romance de Wolitzer é de facto a epopeia da geração que perdeu a inocência a reboque do caso Watergate. A narrativa alimenta-se de remissões subtis sobre costumes, a contracultura dos anos 1970, arte, música, literatura, sexo (em todas as variantes e sempre descrito com naturalidade), disfunções sociais, terapia grupal, etc. A ironia é de regra. Certo “darwinismo” explica o destino dos membros do grupo, cujas origens sociais são sublinhadas a traço grosso.

Escrevo ainda sobre Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante. O volume colige três romances: Um Estanho Amor (1999), Os Dias do Abandono (2002), considerado a sua obra-prima, e A Filha Obscura (2006), cada um com seu tradutor. Elena Ferrante é o pseudónimo de alguém que escreve em italiano mas não se sabe se é mulher ou homem. O conspícuo L’Unità sustenta desde 2006 que Ferrante é um pseudónimo do encenador e escritor Domenico Starnone. Quem quer que seja, Ferrante assina uma obra portentosa, sem paralelo na literatura italiana contemporânea. James Wood fixou a lápide definitiva: «Comparado com Ferrante, Thomas Pynchon é um exibicionista devasso.» Um português dirá: comparado com Ferrante, Luiz Pacheco é um menino de coro. Isto dá a medida da crueza da prosa. A nitidez gráfica e vocabular das cenas de sexo, bem como o modo transgressor como a maternidade é vista, tornam a leitura uma vertigem. Publicou a Relógio d’Água.

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quarta-feira, Setembro 10, 2014

FLOP

 
Não gostei do debate entre Costa e Seguro, que vi em diferido. Judite de Sousa não fez perguntas, fez discursos. O tratamento por tu, iniciado por Seguro, é inadequado. Costa resistiu mas acabou por entrar no jogo. Ao contrário da expressão serena de Costa, Seguro manteve um sorrisinho sacana, parecia um rufia pimpão de novela mexicana. Costa esteve bem quando lembrou que muita água passará sob as pontes (e se calhar também sobre), aqui e no vasto mundo, antes de poder dizer o que fará em matéria fiscal se e quando chegar ao governo. Seguro deu um tiro no pé quando disse que se demite caso a realidade o obrigue a subir impostos: «Não aumentarei a carga fiscal. Assumo que me demitirei se não houver alternativa.» Quem é que vota num homem que à primeira dificuldade bate com a porta?

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CITIUS

 
Em 2012, os responsáveis pelo Citius, o sistema informático sem o qual os tribunais não funcionam, foram peremptórios: a entrada em vigor do novo mapa judiciário tornaria o sistema inoperante. Era necessário mexer na plataforma. Os procedimentos constam de um documento de 43 páginas entregue à ministra da Justiça há mais de dois anos. Paula Teixeira da Cruz teria de escolher uma de três soluções. Em vez disso, assobiou para o lado. Entretanto, dez técnicos da equipa que geria o Citius demitiram-se em Fevereiro de 2013. Isto não aconteceu na Mauritânia. Até ver, ainda pertencemos à Europa.

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terça-feira, Setembro 09, 2014

FOLHETIM


Em Setembro de 2009, Noronha Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, tendo concluído que as escutas a Sócrates eram irrelevantes para o processo Face Oculta, decretou a sua nulidade e destruição imediata. Mas João Marques Vidal, o procurador titular da investigação, considerou que as escutas indiciavam um crime de atentado ao Estado de Direito. (Modere o riso.) E não cumpriu a ordem do Supremo Tribunal.

Em Abril de 2010, o juiz de instrução criminal de Aveiro que tinha a responsabilidade do processo, exarou o seguinte despacho:

«Procedi a nova análise dos produtos a destruir, podendo afirmar, com absoluta segurança que os mesmos não possuem qualquer conexão, remota que seja, com os factos e/ou arguidos investigados nestes autos

Não é necessária grande argúcia para perceber o óbvio: se as escutas fossem mesmo relevantes (e relevante, aqui, significa incriminar Sócrates), há muito que teriam sido transcritas no Correio da Manhã.

Porém, como João Marques Vidal revelou em Novembro de 2010, as escutas continuavam por destruir. Entretanto, Noronha Nascimento cessou as funções de presidente do Supremo Tribunal de Justiça em Junho de 2013, seis meses antes de atingir o limite de idade.

Só ontem, 8 de Setembro de 2014, no gabinete de Raul Cordeiro, juiz-presidente do colectivo de Aveiro, as famosas escutas foram destruídas, a x-acto, tesoura e máquina trituradora. E porquê? Porque, como reza o acórdão, as referidas escutas «nada têm a ver com a matéria dos autos, sendo absolutamente estranhas ao objecto do processo...» Cinco anos depois, cumpriu-se o despacho de Noronha Nascimento. Se isto é um processo exemplar, não imagino o que seja o seu contrário.

Com base na destruição dos DVD e CD, os advogados de dois arguidos vão pedir a anulação do processo.

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segunda-feira, Setembro 08, 2014

FRACTURA

 
Rezava a lenda que António José Seguro tinha o aparelho na mão. Porém, este fim-de-semana realizaram-se eleições para as Federações do PS, tendo os apoiantes de António Costa obtido vitória em 10 e os de Seguro em 9. A maioria dos presidentes de Concelhia também apoia Costa. Se a isto juntarmos o apoio declarado por 85 presidentes de Câmara (em 150), e o de 53 deputados (numa bancada de 74), bem como o dos históricos, como Soares, Sampaio, Alegre e outros, vemos como Seguro perdeu o partido. Mesmo que as Primárias do próximo dia 28 tragam alguma surpresa, acabará por sair da pior maneira, por culpa sua. Não esquecer que o folhetim só termina no Congresso.

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sábado, Setembro 06, 2014

MENTIRA


A criação do Novo Banco tem várias pontas soltas? Tem. A excelente entrevista que o advogado Miguel Reis deu ao jornal i no passado dia 1, contém revelações que dão que pensar? Contém. Mas dizer, como diz Margarida Bon de Sousa, hoje, no jornal i, a enquadrar uma notícia que envolve o grupo Jerónimo Martins, que um dos factores de quebra de confiança tem a ver com o facto, e cito a jornalista, «de se deixar de conseguir gerenciar as contas do Novo Banco na plataforma digital, o que obriga as empresas e os particulares a deslocarem-se aos balcões do Novo Banco ou a um multibanco para conseguirem fazer uma simples transferência bancária ou carregarem telemóveis...» é uma mentira que não resiste a qualquer verificação. É uma mentira que envergonha o jornal. E um disparate («uma simples transferência bancária...») que a realidade desmente. Não faço a mínima ideia do que passa nos departamentos de crédito, títulos, leasing, livranças, etc., mas sei por experiência própria que nunca a plataforma digital nunca deixou de funcionar nos exactos moldes em que sempre funcionou. Lamentável. Foi para isto que o jornal mudou de direcção?

Parece anedota, mas não é. A edição online do jornal i mantém, hoje, às 10 da manhã, a imagem da capa de 4 de Agosto. A de hoje inexiste. Para quem que se queixa de plataformas digitais...

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sexta-feira, Setembro 05, 2014

BILIÃO DO BCE OU DA RESERVA FEDERAL?

 
A manchete do Diário de Notícias segue a norma europeia ou americana? Na Europa, bilião é um número com doze zeros à direita do 1. Nos EUA, bilião é um número com nove zeros à direita do 1. Faz toda a diferença. Clique na imagem.

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quinta-feira, Setembro 04, 2014

CITAÇÃO, 497


Não vi a entrevista que António Costa deu à TVI24, mas chegou-me a reprodução de parte dela. Cito duas passagens:

«Acha que eu sei o que é que se passa numa secção? Agora, quem é responsável pelos ficheiros, que é o caso de António Galamba e Miguel Laranjeiro, esses têm obrigação de saber. E, detectando problemas desses, têm uma outra obrigação, que é corrigir. E têm uma outra obrigação ainda, que é não ocultar, não esconder, quem são os responsáveis por essas acções

«É um pouco extraordinário, acho eu, que ao fim destes três anos seja mais clara a demarcação entre a doutora Manuela Ferreira Leite e o actual Governo do que entre a direcção do PS e o actual Governo

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VIRGINIA WOOLF


Hoje na Sábado escrevo sobre um volume de Ensaios Escolhidos de Virginia Woolf (1882-1941), reconhecida sobretudo pela obra ficcional, embora tenha escrito largamente na imprensa sobre livros e cultura em geral. Os textos ora reunidos são uma pequena amostra dessa actividade. Virginia nunca deixa de surpreender. Os adeptos da prosa abstrusa têm aqui a prova de que o Modernismo não obliterou a clareza de raciocínio. Para alguém cuja imagem está associada ao glamour do grupo de Bloomsbury, a forma como discreteia sobre Montaigne, Defoe, Conrad, Hardy, Sterne, Whitman, Henry James ou Jane Austen, e temas tão diversos quanto o romance gótico, a “personagem” na ficção, o ensaio moderno ou a arte da biografia, estes ensaios são deveras reveladores de um espírito nos antípodas da pessoa «isolada, mal informada e pouco sensata» que confessa ser em Mr. Bennett and Mr. Brown. O volume omite o nome do editor responsável pela selecção, podendo presumir-se que a tarefa coube a Ana Maria Chaves, a tradutora. Vários destes ensaios ilustram a desenvoltura crítica da autora. Três exemplos: Como se deve ler um livro?, de 1925; Eu sou Christina Rossetti, escrito no ano do centenário da famosa pré-Rafaelita; e Os romances de Turgenev, de 1933. Mas há muito por onde escolher.

Escrevo também sobre A Casa da Aranha, de Paul Bowles (1910-1999), autor que em 1947 trocou Nova Iorque por Tânger, onde permaneceu durante mais de 50 anos. A obra ficcional tem sido sobrevalorizada, o que não é de admirar, tendo em vista a lenda alimentada por uma dúzia de biografias indiscretas. Ao invés, a de compositor é relativamente ignorada. A Casa da Aranha é o mais linear dos seus romances. Ao contrário dos anteriores, tem balizas definidas: colonização francesa e nacionalismo árabe. Os fios da História (exílio do Sultão, dogmas do Islamismo, etc.) apoiam uma intriga bem urdida. A tradução de Jorge Pereirinha Pires é uma mais-valia. Editou a Quetzal.

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terça-feira, Setembro 02, 2014

A VIDA COMO ELA É

 
O auditor não conhece o valor dos activos que passaram para o Novo Banco. Repito: não conhece. Bento conhecerá?

[Imagem: capa do ECONÓMICO com foto de Paulo Alexandre Coelho. Clique.]

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segunda-feira, Setembro 01, 2014

ISTO NÃO VAI ACABAR BEM

 
Entrevista explosiva do advogado Miguel Reis ao jornal i (conduzida por Margarida Bon de Sousa), sobre o colapso do BES. Miguel Reis representa os pequenos accionistas do BES, que detinham cerca de 80% do capital do banco. Excertos. Sublinhados meus:

«[...] ao longo dos meses, o Banco de Portugal garantiu que o Banco Espírito Santo era uma entidade segura, utilizando nuns momentos a expressão liquidez e noutros, solidez. E fê-lo com tanta veemência que foi reproduzido pelo próprio Presidente da República em Seul. Ora é muito estranho que a entidade a quem incube a fiscalização do sistema financeiro não soubesse o tipo de problemas que foram revelados a 3 de Agosto, da sua gravidade. Na minha opinião, aconteceu uma de duas coisas: ou não sabia e temos de chegar à conclusão que o sistema financeiro português não está regulado, que é uma selva e que o regulador é um irresponsável ao ponto de levar o Presidente da República a dizer expressamente que o banco era sólido e de confiança porque isso lhe foi garantido pelo governador, ou se sabia e tinha indícios de que haviam irregularidades, não podia ter mentido nem ao mundo nem ao chefe de Estado. E se mentiu tem de ser responsabilizado por isso.

Se o governador sabia que a situação no BES justificava uma medida de resolução, temos de concluir que agiu no quadro adequado à prática de um crime de burla [...] É inaceitável que se tenha chegado ao ponto que se chegou sem que houvesse conhecimento dos factos em que se baseou a resolução. [...]

É absolutamente impossível fazer em 24 horas uma operação de cisão de um banco. Teria sido uma operação mais simples se se tratasse apenas da transmissão de activos, passivos e elementos extra patrimoniais de um banco para o outro. Desde 1831 que Portugal tem leis comerciais que estabelecem regras de contabilização dos movimentos entre comerciantes. Qualquer movimento de um crédito, de uma transferência, de um débito ou de um valor de bens do negócio de uma entidade tem de ser contabilizado na escrita da sociedade de onde ele sai e na de onde entra, diariamente. O que desde logo pressupõe o respeito por uma norma de higiene na separação dos livros da escrita. Do mesmo modo que antes da informatização não era lícito a quem recebia um bem tomar conta do livro da escrita de quem o cedia, é absolutamente inaceitável nos nossos dias que a entidade cessionária se aproprie dos computadores da entidade cedente e dos respectivos dados. Não se pode assaltar a escrita. A escrita mercantil goza de protecção especial adequada, de forma a garantir a verdade dos lançamentos contabilísticos e o rigor das relações jurídicas entre os comerciante e terceiros.

[...] É impossível fazer uma contabilização desta natureza em 24 horas. Depois há um outro problema. Veio agora a saber-se que as contas do BES de 2014 não foram aprovadas por ninguém nem assinadas pelo auditor. Quais são os valores pelos quais se fizeram as transferências? Não são coisas que se possam fazer ao molhe. Cada uma é uma relação jurídica que tem de ser lançada individualmente, de acordo com as regras da escrita. E o que vemos, nomeadamente na relação do BES com os clientes, é que mudou o nome mas na realidade continua tudo na mesma. [...]

A ministra das Finanças é responsável pela supervisão não prudencial do sistema financeiro, nos termos do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras. E são responsáveis porque tudo isto é também uma enorme mentira política. O Fundo de Resolução não é do sistema financeiro ou dos bancos. É uma pessoa colectiva de direito público que pertence ao Estado e que é governada por um conselho constituído por um representante do ministro das Finanças e dois do Banco de Portugal. Os bancos não têm nenhuma intervenção e muito menos alguma titularidade deste fundo. Estão obrigados a contribuir com prestações na medida do que está na lei e têm contribuído, mas é uma ninharia em comparação com aquilo que o fundo empenhou neste processo. Que em bom rigor é um processo de nacionalização enviesado, completamente artificial. O fundo não tem dinheiro, quem capitalizou, se é que capitalizou, foram os outros bancos. Mas não se conhece nenhum contrato entre o Fundo de Resolução e o Estado. A que título é que o Estado entrou neste fundo e com que garantias? E também não há nenhuma certeza de que venha a receber o que está a emprestar. Não se sabe de nada. De que conta saiu o dinheiro e para que conta? Onde estava e foi para onde? É um mistério quase tão grande como o local e o destino do ouro do Banco de Portugal. O Banco de Portugal tem uma série de segredos por explicar. Por isso não admira muito que todo este processo do BES esteja no segredo dos deuses. Há uma série de situações que carecem de explicação, mas há uma coisa clara e inequívoca no meio disto tudo: o fundo tinha cerca de 150 milhões de euros nos seus cofres, o que não dá para fazer cantar um cego.

Não se pode pensar na transição de volumes e passivos desta natureza com uma invasão da entidade intervencionada e ocupando-lhe tudo, até os livros. E pressupõe que a administração do banco do qual se retiraram os valores tenha poderes, credibilidade e representatividade para defender os interesses das pessoas a quem são retirados esses valores. No caso do BES, há um primeiro momento em que nem sequer foram dadas explicações convincentes. Foi quando dois dos accionistas de referência propuseram uma alteração aos estatutos do BES e do seu Conselho de Administração. Na sequência dessas propostas, no conselho de administração alargado do BES, houve um grupo de administradores que renunciou para facilitar que fossem cooptados três novos gestores: Vítor Bento, João Moreira Rato e José Honório. O que significa que esta recomposição foi feita pelo BES na base de uma relação de confiança do conselho de administração nestas três pessoas cooptadas. A seguir é adoptada a medida de resolução e todos os administradores foram suspensos. Mas alguns passaram para o Novo Banco, o que é de legalidade mais do que duvidosa. Foram conduzidos a cuspir na sua própria sopa. Há outra coisa ainda mais paradoxal. Decorrente da medida de resolução, que devia determinar com precisão quais os créditos, os débitos e os valores a transferir para a nova instituição, foi nomeada para proceder a essa avaliação a entidade fiscalizadora do Novo Banco, a PwC. Ou seja, é o beneficiado que vai avaliar os valores? Isto não ofende os princípios da ética republicana naquilo que de mais estruturante se quer num regime democrático? Não é chocante?

[...] Quanto é que o Novo Banco está a pagar pela utilização de tudo o que era do BES? As pessoas ou reagem e se preparam para pedir indemnizações ou vão perder tudo.

[...] Há pessoas que investiram 30, 40 anos de poupanças em acções e noutros produtos do BES e que estão desesperadas. Isto é uma coisa de tal dimensão que posso dizer que é uma nacionalização ao contrário. Está-se numa onda política de confisco que não se sabe onde vai acabar. E que eu não acredito que seja facilmente travada. Acho que neste momento é politicamente correcto lesar os outros e tirar a cada um o que é seu. [...]

Não consigo compreender, porque a informação é insuficiente, esta medida de resolução. Se comparar os balanços do BES com os de outras instituições financeiras, e à luz do que se sabe, é tudo incompreensível. O BES tinha 32 mil milhões de euros em depósitos e tinha uma exposição à dívida pública de mais de 3,5 mil milhões. Agora aparecem irregularidades e imparidades das quais não se conhecem os montantes. Não significa que a medida não tenha fundamento, mas não existe até agora informação suficiente para a compreender. [...]

[...] Levantam-se problemas de inconstitucionalidade mas também de direito europeu. [...] É uma coisa imprescindível para as várias sociedades de advogados que estão neste momento a representar os pequenos accionistas.

Há o chamado recurso prejudicial que é suscitado perante o tribunal nacional que obriga este a questionar o Tribunal de Justiça Europeu sobre se uma determinada acção respeita o ordenamento europeu. Isso vai acontecer, quase de certeza.

Está a ser estabelecido um consórcio que envolve várias sociedades e estamos a chegar a um entendimento no que toca a alguns princípios da advocacia militante. Vamos tentar evitar que esses pequenos accionistas fiquem pior do que já estão, apesar de, neste caso, isto já ser tão mau que pior não pode ficar. [...]

Vamos impugnar a medida de resolução nos tribunais administrativos, com um recurso prejudicial para o Tribunal Europeu. Há aqui indícios de crimes que vão desde a burla, a insight trading, à falsificação de documentos, passando por favorecimentos pessoais e de negação de justiça. Vamos pedir que haja uma investigação judicial em queixas-crime colectivas. Depois há indícios de fraudes de várias naturezas, nomeadamente as que se basearam no engano de que as pessoas foram vítimas. Quando a crise já estava ao rubro, já depois do aumento de capital, houve clientes que foram convencidos, de forma fraudulenta e enganosa, a transformar depósitos em acções, com base nas sucessivas declarações do Presidente da República e do governador do Banco de Portugal. E aí é preciso investigar e apurar a responsabilidade de todos os envolvidos, desde os gerentes, aos dirigentes do banco e das pessoas que deram a cara e garantiram ao país que a instituição era sólida.

E tem de ser investigado com muito rigor. Foi o gerente que agiu com vontade de enganar? Foi o Presidente da República? Foram os administradores? Foi o governador do Banco de Portugal? Não podemos excluir ninguém porque há pessoas que perderam tudo porque lhes garantiram que era seguro. Em paralelo, é essencial que os tribunais investiguem e recolham provas, nomeadamente para efeitos de responsabilidade civil. Que haja uma análise cuidadosa aos lançamentos que foram feitos no BES, no Novo Banco e com as restantes entidades. Essas acções vão ser interpostas junto do Tribunal do Comércio. [...]»

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domingo, Agosto 31, 2014

É ISTO A REFORMA DO ESTADO?

 
Um total de 3606 professores pediu rescisão por mútuo acordo. Mas Crato indeferiu 1717 pedidos. A imagem (clique) é do Diário de Notícias.

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sábado, Agosto 30, 2014

QUAL É O ESPANTO?


Na sua edição de hoje, o magazine du Monde dedica sete páginas ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, em França, país onde a lei vigora há quinze meses: Le mariage gay épouse les traditions. Raphaëlle Bacqué, 50 anos, repórter do jornal e autora do artigo, deplora: Conformiste, bourgeois, romantique. A senhora queria o quê? Bacanais romanas?

Recorde-se que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal na África do Sul, Argentina, Bélgica, Brasil, Canadá, Cidade do México, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Islândia, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, País de Gales, Portugal, Suécia, Uruguai, bem como em vinte Estados norte-americanos: Califórnia, Connecticut, Delaware, District of Columbia, Hawaii, Illinois, Iowa, Maine, Maryland, Massachusetts, Minnesota, New Hampshire, New Jersey, New Mexico, Nova Iorque, Oregon, Pennsylvania, Rhode Island, Vermont, Washington (não confundir com Washington DC) e ainda em dez tribos índias.

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quinta-feira, Agosto 28, 2014

CITAÇÃO, 496


Ana Luísa Amaral, Banco bom, banco mau, ou parábola..., hoje no Público. Excertos. Sublinhados meus:

«Espelho meu, espelho meu, haverá banco de espírito mais santo do que o meu? Isto perguntava o rei, enquanto se mirava e remirava em frente do seu espelho luzidio, agora rasgado ao meio, uma brecha em ziguezague, muito bem concebida pelos seus ministros e depois executada pelos lacaios que ronronavam, felizes, passeando pelo palácio, de barriguinha cheia, porque eram autorizados a comer os restos do faisão e das perdizes assadas que sobravam da mesa real.

Mas o espelho, cindido que estava, respondia a duas vozes. Ora dizia, do seu lado mais aforístico, e até razoavelmente culto: “O teu banco tem o espírito mais santo de todos, o teu banco é rico, logo, tu também o és”, ora afirmava, em tom cortante e incisivo: “O teu banco é mau.” [...]

Porém, para qualquer camponês (ou camponesa, bem entendido, mas a partir de agora tudo surgirá no masculino, até porque esta é uma história politicamente incorrecta), saber que havia um “banco mau” e um “banco bom” era motivo de desassossego [...] O que mais desassossegava os camponeses era precisamente a resposta a duas vozes. Como podia um banco onde se reflectiam espíritos e santos partir-se ao meio, como o espelho do palácio real, e tornar-se “banco bom” e “banco “mau”? Isto se perguntavam, sem resposta. É que eles sabiam pouco de sacos de moedas trocados de mão em mão, debaixo de mesas e de tronos, ou de favores a convidar a mais favores, ou de como era possível fazer guerras para encher ainda mais os sacos de moedas. Bom e mau, na língua dos camponeses, que eram a esmagadora maioria das criaturas que viviam naquele reino, eram palavras muito simples, que queriam dizer exactamente isso: ou seja, bom queria dizer bondoso, ou quase perfeito, e mau queria dizer maldoso, ou condenável. [...]

Esta história não tem muito fim, nem é politicamente correcta, para desassossego de quem a possa um dia ouvir. Porque, à semelhança da imagem que aparece a meio, a do círculo vicioso, que em linguagem popular se diz pescadinha de rabo na boca, o fim é quase sempre igual e repetido. O rei continuou a olhar-se ao espelho, mais ou menos cindido, e a perguntar do seu espírito e do seu banco. Noutros reinos, outros reis iriam perguntar-se o mesmo. E, depois de um pouco de inquietação, todos descansariam com as respostas ouvidas, que diriam os seus bancos santos e de espírito promissor, mesmo podendo ser maus. E nada disto seria incongruente para eles, nem para os ministros, que haviam de descansar também, como os lacaios, espreitando atrás de portas, esperando colher as migalhas das mesas reais.

Nada mudaria. Só os camponeses  —  e a mudança neles era mais uma questão de intensidade. Ou seja, ficariam cada vez menos instruídos, mais rudes e mais pobres, uns já sem Cruzadas para onde partir, porque os reinos eram todos mais ou menos parecidos, e isto aconteceria de uma forma global, os outros presos para sempre à gleba, até ao fim das suas vidas.

A não ser que, um belo dia, mas isso só acontece nas histórias de fim imoral, pegassem nas enxadas e nas foices e nos ancinhos, e em tudo aquilo que estivesse à mão, e despedaçassem de vez todos os espelhos. Isto, claro, se conseguissem entrar nos palácios, o que era muito, muito difícil, e quase inverosímil. Mas não impossível

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CHRISTIAN CARYL

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Estranhos Rebeldes, de Christian Caryl. O autor não é um historiador no sentido clássico do termo. É senior fellow para assuntos internacionais no MIT e no Legatum de Londres. O livro defende uma tese curiosa: o século XXI começou em 1979. Ele explica porquê. Bem documentada, e com assinalável fluência, a obra estabelece um patchwork de acontecimentos em torno de quatro figuras-chave que moldaram o mundo actual: Khomeini, Thatcher, Karol Wojtyla (o Papa João Paulo II) e Mao Tsé-Tung. É a primeira vez que os vemos como parte do mesmo processo. A arquitectura dos factos é conhecida, mas Caryl acrescenta informação extremamente detalhada, permitindo uma visão de conjunto que filtra e matiza os clichês da vulgata historicista. Os leitores portugueses dispõem agora de uma obra que ajuda a perceber o triunfo do regime teocrático de Teerão, a real influência de Wojtyla no colapso do império soviético, a forma como Thatcher partiu a espinha ao movimento sindical e enterrou as certezas do pós-guerra, e as consequências da “desconstrução” póstuma de Mao, num país onde, em nome da Revolução Cultural, dezassete milhões de estudantes tinham sido enviados para campos de reeducação (o ensino superior esteve suspenso durante dez anos). Entre outros, os perfis de Ahmad Shah Massoud, o líder afegão que expulsou o exército da URSS; e de Deng Xiaoping, inventor do “socialismo de mercado” que transformou a China numa potência económica, tornam a leitura aliciante. Imprescindível para quem queira perceber a realidade.

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terça-feira, Agosto 26, 2014

OBESIDADE MÓRBIDA

 
Gorduras do Estado. Eram para cortar, lembram-se? Foi trave-mestra da campanha eleitoral do PSD/CDS em 2011. Mas ainda anteontem soubemos que o Governo vai renovar a frota automóvel de 56 chefes de gabinete e secretários de Estado. Um milhão de euros. O que é isso?, perguntará um céptico. Afinal, um T4 nas Avenidas Novas custa mais do que isso. A imagem fala por si. Foi retirada de um conjunto mais vasto, do Público. Clique para ler melhor.

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domingo, Agosto 24, 2014

EDUARDO COSTLEY-WHITE 1963-2014

 
De doença, morreu hoje em Maputo o poeta moçambicano Eduardo Costley-White. Tinha 50 anos. Várias vezes premiado, White, que passou a assinar Costley-White, era natural de Quelimane. Estreou-se em 1984, com Amar sobre o Índico, início de uma obra que se prolongaria por mais quinze títulos. Escrevi sobre Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1990), na Colóquio-Letras, e sobre Os Materiais do Amor seguido de O Desafio à Tristeza (1997), na LER. Com prefácio de Inez Andrade Paes, o livro mais recente  —  Bom dia, Dia  —  foi lançado há poucas semanas.

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sexta-feira, Agosto 22, 2014

A JÓIA DA COROA

 
A seguradora Tranquilidade, do Grupo Espírito Santo, valia 700 milhões de euros no princípio de Agosto. Ontem, o Novo Banco vendeu-a à norte-americana Apollo Global Management LLC por 50 milhões. A exposição ao GES terá determinado o valor da operação. Quando eu era pequenino, chamava-se a isto um negócio da China. 

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quinta-feira, Agosto 21, 2014

PM DO LUXEMBURGO PRETENDE CASAR COM DESTENAY

 
Xavier Bettel, primeiro-ministro do Luxemburgo, anunciou para breve o seu casamento com o arquitecto Gauthier Destenay, seu companheiro há muitos anos. Em 2011, quando foi eleito burgomestre da cidade do Luxemburgo, já Bettel havia assumido publicamente a sua homossexualidade.

Recorde-se que o Luxemburgo legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Junho. Neste momento, na Europa, estão em funções dois primeiros-ministros declaradamente homossexuais: Bettel e Elio Di Rupo, o PM da Bélgica.

[Imagem: foto de Pascal Le Segretain. Bettel, de gravata azul, e Gauthier Destenay, quando chegavam ao casamento do príncipe Guilherme, grão-duque herdeiro de Luxemburgo, com a condessa Stéphanie de Lannoy, da Bélgica, em Outubro de 2012. Clique.]

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HERMANN HESSE

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Contos Maravilhosos, de Hermann Hesse (1877-1962). Clássico da literatura, não admira que os seus livros sejam sucessivamente reeditados. A partir da edição da Surhkamp Verlag de 2001-02, o tradutor Paulo Rêgo optou por alterar, relativamente à tradução feita em 1990 por Isabel de Almeida e Sousa, a seriação dos textos, bem como os títulos de doze dos vinte contos coligidos. O leitor comum tende a dar pouca importância a estes detalhes, mas daqui resulta que estamos em presença de livros diferentes. Escritor de ideias, romancista, contista, poeta e ensaísta, além de aguarelista profícuo, Hesse trocou o país natal (a Alemanha) pela Suíça, onde viveu a partir de 1912 e obteve a respectiva nacionalidade em 1923. Siddhartha, romance sobre a filosofia budista publicado após uma temporada passada na Índia, fez dele o autor alemão mais lido em todo o mundo. Em 1946, quando recebeu o Nobel da Literatura, era já um nome inquestionável. Os contos seleccionados, uma pequena amostra dos que publicou, dão a medida da grandeza do autor. A antologia fecha com Os Dois Irmãos, escrito quando tinha apenas dez anos. Uma adenda final dilucida vários aspectos da tradução.

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sábado, Agosto 16, 2014

GENTE BEM INFORMADA

 
O seu telefone não tocou três vezes? Azar. A operação foi efectuada a 26 de Maio, mas Xavier Musca só a comunicou ao regulador a 15 de Julho. A cacha é do jornal i. Clique.

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