terça-feira, 17 de julho de 2018

AMÉRICA EM TRANSE


Trump excedeu-se a si próprio. Na conferência de imprensa após o encontro com Putin, deixou claro que, no tocante à interferência de Moscovo nas presidenciais americanas de 2016, prefere a versão do czar russo em detrimento das conclusões da CIA corroboradas pelo procurador-especial Robert Mueller.

Dito de outro modo, Trump foi a Helsínquia desautorizar a Justiça e os serviços secretos americanos. As ondas de choque são de tal ordem que os Democratas podem ficar de braços cruzados.

Tratando o Presidente por imbecil, John O. Brennan, ex-director da CIA, escrevendo no Twitter, acusou-o de cometer traição. Paul Ryan, presidente da Câmara dos Representantes, declarou, com ênfase, que, contrariamente às afirmações do Presidente, a Rússia não é aliada dos Estados Unidos. Até os mais reaccionários comentadores da Fox News estão contra o seu ídolo.

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

HABITAÇÃO


Onze edifícios da Segurança Social, até agora ocupados por serviços, são hoje cedidos à Câmara de Lisboa para serem colocados no mercado de habitação, a preços controlados (rendas entre 200 e 600 euros). Em Outubro ou Novembro, os funcionários transitam para um edifício único, na Avenida 5 de Outubro.

Esses 11 edifícios estão situados na Rua Rosa Araújo, Rua Mouzinho da Silveira, Avenida da República, Avenida Visconde Valmor, Entrecampos, Avenida dos Estados Unidos, Campo Grande, Avenida Manuel da Maia e Alameda D. Afonso Henriques. Por junto, são 500 fogos, variando as tipologias entre T0 e T4. A Câmara de Lisboa vai gastar 23 milhões de euros a requalificar os 500 fogos. As primeiras casas serão entregues em Janeiro de 2019 e as últimas no ano seguinte.

Na imagem, o n.º 57 da Rua de Entrecampos, um dos edifícios visados, mesmo ao lado da pastelaria Granfina. Clique.

PENSÕES DA SEG SOCIAL

Foi hoje publicada no Diário da República a Portaria que actualiza os coeficientes de cálculo das pensões atribuídas pela Segurança Social.

Disso resulta uma actualização média de 1,42%. O diploma estabelece que os pensionistas de 2018 vão receber retroactivos reportados a 1 de Janeiro.

sábado, 14 de julho de 2018

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 57,2%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 14,7% (e a PAF em 7,2%). Em termos de popularidade, António Costa tem 34,2% contra 10,9% de Rui Rio. Entronização só com Marcelo: 64,2%. Nem quero imaginar o que outro PR, com este suporte de popularidade, já teria feito.

Clique no gráfico do Expresso.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

LAURA SOVERAL 1933-2018


Vítima de esclerose lateral amiotrófica, Laura Soveral morreu hoje. Lembro-me de a ver actuar em Lourenço Marques, salvo erro em 1969, ao lado de Jacinto Ramos. Além de teatro, Laura Soveral fez muito cinema e televisão. Casada com um dos filhos de Marcelo Caetano, nem por isso deixou de ser respeitada por todos os quadrantes ideológicos. Tinha 85 anos. Era, de facto, uma grande actriz. Não haverá cerimónias fúnebres.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

DESPEJOS SUSPENSOS

O Presidente da República promulgou hoje a Lei que suspende temporariamente (até 31 de Março de 2019) os despejos de pessoas com idade igual ou superior a 65 anos, ou com deficiência de grau não inferior a 60%, ou que sejam arrendatárias e residam no mesmo locado há quinze ou mais anos.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

SESINANDO


Hoje na Sábado escrevo sobre Obra Perfeitamente Incompleta, de José Sesinando (1923-1995), aliás José Palla e Carmo, autor de culto largamente desconhecido dos mais jovens. Coube a Abel Barros Baptista e Luísa Costa Gomes estruturar o acervo indisciplinado desta obra de difícil acesso, disperso por publicações avulsas, bem como por edições artesanais, privadas. Integrado na colecção de Ricardo Araújo Pereira, ao lado de títulos de Hasek, Diderot, Gontcharov e outros, Obra Perfeitamente Incompleta colige três livros de Sesinando: Obra Ântuma (1986), prosa humorística e poesia, e mais dois que nunca chegaram às livrarias — Olha, Daisy (1985) e Heteropsicografia (1985), variações sobre poemas de Fernando Pessoa, «dois livros extraordinários, sem comparação na posteridade pessoana», sublinha Baptista. Ensaísta, crítico e tradutor, Sesinando é um caso singular. A mordacidade assenta numa profunda cultura literária. Por exemplo: «O poeta é um rabujador / Que pega o touro pelos cornos» vale como retrato a traço grosso de Ary dos Santos. Quatro estrelas. Publicou a Tinta da China.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

AGITPROP PAROLO

Percebo que as pessoas comuns acreditem piamente no que dizem os jornais. A soldo de agências de spin e dos partidos do arco parlamentar, os jornais (atolados de notícias plantadas) facultam hoje uma informação residual. As pessoas comuns são livres de acreditarem no que quiserem porque não têm responsabilidades políticas. O que me deixa atónito é ver deputados a alinharem pelo mesmo diapasão.

Um exemplo na ordem do dia: os deputados, em especial os do BE e os do CDS, querem ouvir Medina sobre o contrato estabelecido entre Madona e a Câmara de Lisboa. A frota da cantora virou assunto de Estado. Mas por que raio esses deputados, antes do foguetório, não foram informar-se?

É que o espaço alugado a Madona esteve cedido, até Dezembro de 2017, ao Instituto de Conservação e Restauro José de Figueiredo, tutelado pela Direcção-Geral do Património Cultural. Nessa altura não importava acautelar os interesses da população? Isto para não falar dos outros dezanove contratos similares em vários pontos da cidade.

sábado, 30 de junho de 2018

MADONA & MEDINA


Começa a ser penoso ler jornais portugueses. Nem me refiro ao alinhamento ideológico ou à falta de cultura de 7 em cada 10 jornalistas (estou a ser generoso). Falo de desleixo. Os revisores de texto acabaram. Ponto. Mas sobram as fotografias.

Para ilustrar uma peça sobre Madona, e um hipotético favor de Medina, o Expresso publica uma fotografia da área das Janelas Verdes, assinalando o local onde seriam estacionados os quinze carros da cantora e respectivo staff.

Sucede que o espaço assinalado não existe há pelo menos dois anos. No seu lugar foi construído um edifício de apartamentos, signé Aires Mateus & Valsassina. Nas traseiras fica o jardim do condomínio. À direita fica o acesso ao estacionamento da embaixada do Luxemburgo.

Portanto, para dizer mal do Medina, não é preciso inventar. Aliás, na mesma página, outra fotografia desmente a imagem (muito antiga) do Google Earth.

Clique na imagem.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

MIGRAÇÕES


Depois de vencer quatro etapas, derrotando sucessivamente os outros candidatos, António Vitorino, 61 anos, membro do PS, antigo comissário europeu, foi eleito por aclamação director-geral da Organização Internacional das Migrações.

Com sede em Genebra, a OIM foi criada em 1951 para dar resposta ao caos provocado pelas populações deslocadas (onze milhões de pessoas) na sequência de Segunda Guerra Mundial. Actualmente tem como prioridade os refugiados da Síria e da Líbia.

PLATAFORMAS DE DESEMBARQUE


Este gráfico é eloquente. Sobre o fundo da questão: eram 04:30 da madrugada quando os líderes da UE acordaram estabelecer, fora de território europeu, centros de acolhimento de imigrantes. A ideia é facilitar a triagem: os imigrantes à procura de trabalho são devolvidos à origem, os refugiados políticos que comprovarem essa condição (e só esses) podem candidatar-se a visto de entrada na UE. A monitorização dos centros seria feita pelo ACNUR.

Cereja em cima do bolo: os países da UE ficam obrigados a tomar «todas as medidas internas necessárias para impedir o movimento de migrantes...» Dito de outro modo, a filosofia do Espaço Schengen não se aplicará, doravante, a imigrantes.

Os países terceiros com que a UE conta são os países do Magreb. Mas a Argélia, Marrocos e a Tunísia já fizeram saber que recusam. A Albânia, país europeu, também não quer. E a Itália vai deixar de subvencionar a Turquia, que até aqui tem sido generosamente financiada pela UE para acolher imigrantes em campos de onde não podem sair.

Deste modo, o Grupo de Visegrado (Eslováquia, Hungria, Polónia e República Checa), opositor firme das migrações, vê as suas teses caucionadas à outrance.

Clique no gráfico de El País.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

FONSECA & RUSHDIE


Hoje na Sábado escrevo sobre Calibre 22, de Rubem Fonseca (n. 1925), decano dos escritores brasileiros, gigante da literatura de língua portuguesa. Desta vez errou a pontaria. Acontece aos melhores. Fonseca foi polícia durante seis anos, e grande parte da obra aproveita essa experiência, instalando o mal no interior da própria linguagem. Ninguém o fez como ele. Infelizmente, Calibre 22, uma colectânea de 29 ‘contos’, devia ter ficado na gaveta. Os vindouros pelam-se por inéditos. Curiosa ironia. A Sextante tem vindo a publicar toda a obra de Rubem Fonseca. Mas, no momento de redefinir o seu catálogo (o que aconteceu há dois meses), a editora mudou também o layout dos volumes. Ou seja, o novo formato diz-nos que este é um livro diferente. Fonseca foi sempre excepcional nos contos. Os romances são bons, mas nessa área o Brasil tem melhor. Os contos sim, ímpares, sem equivalente em muitas línguas, daí a expectativa com Calibre 22. A decepção é um murro no estômago. A larga maioria destes ‘contos’ são breves crónicas, simples crónicas medíocres, e chamar-lhes assim roça o elogio, porque a maior parte delas são aquilo a que chamamos posts. Seria pleonástico explicar que conto, género de grande exigência, é outra coisa. Vejamos Ópera, foder e sanduíche de mortadela. Não é ficção, é para-ensaio memorialístico: «Ópera? Acho que não tem nem mesmo no Scala de Milão. Outro dia eu li no jornal […] Mas li errado, não enxergo muito bem…» O texto prolonga o desfasamento com a realidade: «As pessoas não fodem mais […] só os pederastas fodem […] metade da população do mundo é de lésbicas, gays, transexuais e por aí fora. […] Então eu podia imaginar o sofrimento do Evaristo quando descobriu que o filho ia virar filha e não lhe daria netos.» É triste ver um autor deste gabarito cair tão fundo. Numa prosa sibilina, Paulo Francis escreveu coisas tão disparatadas como estas (um autor tem direito a entesourar os seus equívocos), mas nunca lhes chamou contos. Os géneros literários perderam as balizas fundadoras? São os editores que decidem? Em suma, torna-se penoso ler Calibre 22. O problema é mesmo a prosa chilra. Uma estrela. Publicou a Sextante.

Escrevo ainda sobre A Casa Golden, de Salman Rushdie (n. 1947). Passaram trinta anos sobre a fatwa de Khomeini sobre o autor. É provável que muitos dos seus actuais leitores desconheçam o facto e suas sequelas. Rushdie vive hoje em Nova Iorque, e o seu romance mais recente, A Casa Golden, é um fresco da América actual. Abre com a ‘inauguração’ de Obama e a chegada a Manhattan, após o sangrento ataque ao Taj Mahal Palace Hotel, de um magnata de Mumbai acompanhado dos três filhos. Além da família de Nero Golden, cabe tudo no romance: centenas de filmes, actores e realizadores, dezenas de citações literárias, a homofobia de Rushdie, a caricatura das questões identitárias, o Tea Party, a cultura pop, a controvérsia do Gamergate, a xenofobia, a political correctness, o envenenamento de Litvinenko, o colapso do comunismo, as Primaveras árabes e mais uma dúzia de acontecimentos planetários. Até Trump, nomeado como Gary Green Gwynplaine, vulgo Joker, e com cabelo verde-lima. Uma parábola do admirável mundo novo? A escrita é brilhante, mas Rushdie confunde sarcasmo com reaccionarismo. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

SUÍÇA VAI FECHAR


Está explicado o anunciado encerramento da Suíça, a pastelaria. Os proprietários chegaram a acordo com o fundo internacional que adquiriu o quarteirão inteiro que separa o Rossio da Praça da Figueira, e decidiram cessar actividade. No quarteirão apenas vão permanecer a Casa da Sorte e a Ourivesaria Portugal.

Entretanto, a Câmara de Lisboa vai propor 44 lojas e estabelecimentos de Lisboa, a juntar aos 126 já classificados, para designação de ‘Loja com História’. Quatro exemplos: o restaurante Gambrinus, a Garrafeira Nacional, a Papelaria Fernandes e o restaurante Vá-Vá. A Suíça estava inscrita mas desistiu.

O vereador Ricardo Robles, do BE, sublinhou que «a cidade não se faz só de lojas com história, faz-se também de lojas normais.» Assino por baixo.

Lisboa não perde nada com o encerramento da Suíça. Não faz sentido manter aberto um estabelecimento que, na praça mais nobre da cidade, encerra às 22 horas.

terça-feira, 26 de junho de 2018

TEDH & CASA PIA


Estava escrito nas estrelas.
Clique na manchete do Expresso.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

VERO?

DIÁRIO DE NOTÍCIAS —  Ex-secretário-geral da NATO Javier Solana barrado na fronteira dos EUA [...] foi obrigado a tomar um avião de volta. — Errado.

Solana não foi barrado na fronteira dos Estados Unidos.
Solana não apanhou nenhum avião de volta.

O que sucedeu foi que o antigo secretário-geral da NATO e alto-Representante europeu de Segurança e Negócios Estrangeiros não obteve visto electrónico para entrar nos Estados Unidos por, no decurso das suas viagens oficiais, ter estado num, ou vários, dos países da lista negra: Irão, Iraque, Síria, Sudão, Líbia e Somália. Sem visto, não saiu de Madrid.

Isto acontece a toda a gente. Ainda recentemente aconteceu com uma jornalista portuguesa muito conhecida.

O computador está programado para emitir (ou recusar) visto em determinadas circunstâncias. O senhor Solana deve fazer o que fazem as pessoas nas suas circunstâncias: vai à embaixada explicar quem é. Ele não esteve para aí virado e não foi. Pode esperar sentado.

domingo, 24 de junho de 2018

MARCELO

Ontem, o Presidente da República desmaiou no Santuário do Bom Jesus. Uma nota da Presidência da República esclarece:

«Os exames efetuados no Hospital de Braga confirmaram que o Presidente da República sofreu uma gastroenterite aguda. Os médicos recomendaram hidratação e repouso [...]»

Não esquecer que, há seis meses, o PR foi operado de urgência a uma hérnia umbilical. Esteve internado três dias, embora este tipo de cirurgia seja feita (salvo em casos de especial gravidade) em regime ambulatório. Não ficou no Curry Cabral para ver passar os comboios, ficou porque o seu estado de saúde o exigiu. A saúde do Chefe do Estado não é assunto do foro privado. A Casa Civil fez bem em esclarecer, porque a especulação mediática envenena a realidade.

Agora convinha esclarecer a urgência da viagem a Washington. O primeiro-ministro diz que é muito importante. Porquê? A NASA vai montar uma rampa de lançamento em Belém?

sexta-feira, 22 de junho de 2018

GRÉCIA LIMPA

Apesar das reticências de Berlim, o Eurogrupo acaba de disponibilizar 15 mil milhões de euros à Grécia, a juntar aos 275 mil milhões recebidos desde 2010, para facilitar o regresso do país aos mercados, a partir de 1 de Agosto, data do fim do terceiro resgate.

Centeno dixit: «A dívida grega é sustentável daqui para a frente.» Com outro presidente, que não Centeno, o Eurogrupo teria este comportamento?

FIZZ

Por causa do Caso Fizz, o processo abstruso que envolve procuradores e advogados portugueses, mais o antigo vice-presidente de Angola, o Ministério Público criou um caso político sem precedentes, exigindo que Manuel Vicente fosse julgado em Portugal. Luanda reagiu, retirando o seu embaixador de Lisboa (acto de grande melindre) e adiando sine die visitas a Angola de Marcelo e Costa. No seu discurso de posse como PR, em 26 de Setembro de 2017, o general João Lourenço citou duas dúzias de países amigos, mas Portugal não fazia parte da lista. Marcelo estava na tribuna. Dezenas de milhares de trabalhadores e centenas de empresários portugueses radicados em Angola viram congeladas as transferências dos seus salários para fora do país (e cortado o acesso a divisas). Entretanto, no passado 10 de Maio, o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu que Portugal não tinha competência para julgar Manuel Vicente, que tem imunidade até Setembro de 2022, e pode a qualquer momento ser indultado.

Cereja em cima do bolo: ontem, o MP pediu absolvições e penas suspensas para os arguidos do Caso Fizz. Quanto custou tudo isto ao erário público?

quinta-feira, 21 de junho de 2018

KLOBUCKA & STEINBECK


Hoje na Sábado escrevo sobre O Mundo Gay de António Botto, de Anna M. Klobucka. Como escrevi na introdução de Canções e Outros Poemas (2008), António Botto foi sempre, por razões que a sociologia da literatura decerto explicará, um caso mal resolvido. Passados quase 60 anos da morte do poeta, atropelado no Rio de Janeiro em 1959, Klobucka publicou o estudo que fazia falta. Não é despiciendo que o tenha feito, na medida em que Botto foi, nos anos 1920, um percursor da poesia de inscrição homossexual. Verdade que Wilde e Gide, oriundos de tradições literárias fortes, eram lidos e alvo de controvérsia em todo o mundo. Botto contou quase só com Fernando Pessoa, que publicou a segunda edição de Canções, escreveu ensaios em seu louvor e, por interposto Álvaro de Campos, invectivou os universitários de Lisboa por ocasião do auto-de-fé de 5 de Março de 1923 (exemplares de Canções foram apreendidos pelo Governo Civil de Lisboa e queimados no Rossio). Além de Pessoa, Aquilino Ribeiro foi o único autor a repudiar publicamente a campanha ultramontana. No seu estudo, Anna M. Klobucka faz um minucioso tour d’horizon à vida do poeta, sem esquecer as origens humildes, a conhecida «propensão para a autoinvenção ficcionalizante», a celeuma das traduções, as amizades virtuais, o casamento, a partida para o Brasil, a conversão religiosa, a doença e a morte. Nada disto é novidade, mas os factos são dissecados à luz do que Klobucka considera ser, por antecipação, o perfil queer do poeta. Com recurso ao espólio depositado na Biblioteca Nacional, a autora ilumina os doze anos de permanência (1947-59) de Botto no Brasil. Tal como acontece com a obra de Florbela Espanca, a de Botto tem sido (apesar dos encómios de Pessoa, Régio e Sena) subestimada. Fossem eles autores de expressão inglesa, e seriam hoje ícones dos movimentos feministas e LGBTI. Klobucka não o diz desta forma, mas a sua análise dos poemas, contos, peças de teatro e cartas, muito próxima da close reading, passe o pleonasno, ajuda a perspectivar Botto sob enfoque gay/queer. Indispensável. Cinco estrelas. Publicou a Documenta.

Escrevo ainda sobre Um Diário Russo, de John Steinbeck (1902-1968). Como muitos escritores cujas carreiras atravessaram a Guerra Fria, também Steinbeck foi ver como era a União Soviética. Entre nós, são relativamente recentes as publicações dos ‘diários russos’ de Gabriel García Márquez e Urbano Tavares Rodrigues. Steinbeck teve a enorme vantagem de fazer a viagem na companhia de Robert Capa, o célebre fotógrafo. As fotografias, em regra muito boas, foram incluídas no volume. Visitar a URSS em 1947, dois anos após o fim da guerra, não era fácil. Por exemplo, Estalinegrado continuava um monte de ruínas, e necessitava com urgência de «meia dúzia de escavadoras». O périplo incluiu a Ucrânia e a Geórgia, então parte do território russo. Steinbeck não fez proselitismo pró-russo nem alinhou na fronda anti-soviética. Sem perder objectividade, o relato é caloroso, na medida em que o autor se preocupou com as condições de vida das pessoas comuns. Quatro estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

BASTA


É altura de dizer basta aos métodos das autoridades americanas de fronteira. A actual política migratória da administração Trump traz de volta velhos fantasmas. O texto supra, da autoria de Richard Zimler, foi subscrito por dezenas de escritores e editores de língua portuguesa.

Clique nas imagens para ler o manifesto e o nome dos signatários, entre os quais me encontro.