Quinta-feira, Julho 09, 2009

AGNI OUT


Até aqui, eram os “empresários” do Vale do Ave. Um dia desapareciam, deixando no desemprego 200 ou 300 trabalhadores. Eles continuavam na maior. Não tenho notícia de nenhuma prisão por falência fraudulenta.

Agora foi o grupo malaio Agni, uma empresa “modelo”, que trouxe consigo o pedigree de um acordo com o programa MIT-Portugal, mas procedeu como os bimbos dos Ferraris do Vale do Ave. Fechou portas, deixou cerca de 80 milhões de euros de dívidas, e dezenas de doutorados no desemprego (além de outro pessoal indiferenciado). Os fornecedores ficaram a ver navios. Crise global, dizem eles. Prepara-se um folhetim igual ao da Quimonda: há interessados na compra dos activos da Agni, mas deve ser novela para tv ver.

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INTERNAR À FORÇA



A propósito da Gripe A, uma professora de direito da saúde na Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, Paula Lobato Faria, insurge-se contra o facto de a lei portuguesa não permitir o internamento compulsivo de cidadãos doentes sem prévia autorização de um juiz. (Vários responsáveis de saúde pública discordam de Paula Lobato Faria.) Segundo a Constituição, o internamento compulsivo só é permitido no foro da psiquiatria. As doenças contagiosas exigem que um juiz o decida. Para ser franco, não tenho opinião formada sobre o assunto. Se calhar, o razoável seria que, a partir de determinado momento — estado de sítio decretado por acordo entre o governo e o Chefe de Estado, a pretexto de declaração oficial de pandemia —, prevalecesse a opinião clínica, cessando as restrições constitucionais. Aliás, se o assunto é tão importante, os nossos deputados têm com que se entreter para mudar a lei.

Mas parece que não podem, porque a produção legislativa terá ficado reduzida em 90 dias (os últimos 90 de cada legislatura; fui eu que percebi mal, ou foi isto mesmo que o Chefe de Estado disse anteontem?), vamos ter de esperar pela próxima legislatura para decidir num sentido ou noutro.

Nisto tudo, há uma parte engraçada. De cada vez que o actual governo regulamentou isto ou aquilo (a polémica à volta da ASAE é um bom exemplo, o cartão do cidadão e a lei do tabaco foram vistos como atropelos intoleráveis, o chip nos carros idem, etc.), a oposição esperneou com a ditadura iluminada, porque, dizem, o Estado não pode intrometer-se na vida das pessoas só porque alguns distribuidores têm carne podre armazenada e, numa democracia, cada um tem direito à porcaria que lhe aprouver. OK.

Com a saúde o caso fia mais fino, e acho bem que se tomem medidas para mudar a lei em vigor — Lei n.º 2036/1949, de 9 de Agosto —, porque em 60 anos muita coisa mudou. Até porque desde 1995 o Código Penal penaliza a transmissão intencional de doenças contagiosas.



[Imagem de Joel Nakamura.]

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Quarta-feira, Julho 08, 2009

NOS 30 ANOS DA ANTÍGONA


A Antígona fez 30 anos. Não é vulgar uma editora com o seu perfil de exigência manter-se tanto tempo sem abdicar das suas particularíssimas idiossincrasias. A Angelus Novus está a dedicar ao acontecimento uma série de textos. Neste, por exemplo, o editor Luís Oliveira, responsável pela Antígona, responde a perguntas de vários autores. Convém ler todos os posts para ficar com uma perspectiva de conjunto. Editores refractários, dizem eles. E bem!

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BOICOTE AD HOMINEM


A Assembleia Municipal de Lisboa, de maioria social-democrata, voltou a inviabilizar um empréstimo de 120 milhões de euros, negociado com o Banco Europeu de Investimento, necessário à reabilitação urbana da cidade. Paula Teixeira da Cruz (PSD), presidente da Assembleia Municipal, votou ao lado de António Costa: «Tenho pena que o meu partido tenha inviabilizado o empréstimo [...] era uma boa solução para Lisboa.» A maioria dos nossos autarcas onde estava bem era na Somália. Desde que ninguém os incomode nos seus assépticos condomínios privados, o resto que se lixe.

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JESUSALÉM VS JERUSALÉM



Ler aqui a minha crónica Jerusalém.


Adenda. Quem ler essa crónica verificará que houve erro de simpatia. O facto de o livro vir citado em jornais de referência como, por exemplo, o Diário de Notíciasver edição de 29 de Junho —, como Jerusalém, em vez de Jesusalém, não desculpa a minha gaffe involuntária, corroborada por dezenas de pessoas que, como eu, tresleram o título. Resta-me pedir desculpa a Mia Couto, a Gonçalo M. Tavares e à Caminho.

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GRANDE PRÉMIO DE POESIA DA APE


Com O Amante Japonês, publicado no ano passado, Armando Silva Carvalho (n. 1938) venceu por unanimidade o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, patrocinado pelos CTT, no valor de cinco mil euros. Maria João Reynaud, Gastão Cruz e Carlos Mendes de Sousa integraram o júri nomeado pela APE. O Amante Japonês é a obra mais recente do autor, tendo ficado de fora do volume O Que Foi Passado A Limpo (2007), reunião da poesia publicada entre 1965 e 2005. Além de poesia, Armando Silva Carvalho escreveu contos, romances, uma novela, textos “fisiológicos”, e um livro a quatro mãos com Maria Velho da Costa. Também traduziu, entre outros, Mallarmé, Duras, Beckett, Césaire e Genet. Parabéns, Armando!

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Leituras


O texto lido pelo Tiago Bartolomeu Costa na apresentação do meu romance O Mundo Sólido em Lisboa, na livraria Bulhosa de Entrecampos, a 23 de Abril, está disponível no blogue da Deriva — ou, mais concretamente, aqui —, onde também constam outras leituras da mesma obra.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Distinções


A revista Obscena está de parabéns. À beira de fazer chegar às livrarias o seu vigésimo número (sobre o qual falarei nos próximos dias), foi contemplada com uma menção honrosa na primeira edição do Prémio Internacional de Jornalismo Festival de Almada. Segundo o júri, constituído por representantes da Câmara Municipal de Almada, do Clube de Jornalistas, do Sindicato dos Trabalhadores dos Espectáculos, do Sindicato de Jornalistas e da Sociedade Portuguesa de Autores, mereceu especial destaque a edição referente aos meses de Junho e Julho de 2008 (o número duplo 13/14), pela «extensa e qualificada abordagem […] feita ao Festival de Almada, contribuindo para o aumento do seu prestígio». A par do prémio principal, atribuído ao jornalista Manuel Sesma, pela autoria do texto publicado na revista Primer Acto – Cuadernos de Investigación Teatral, e de uma menção honrosa para Maria José Oliveira, jornalista do Público, o galardão foi hoje entregue ao Tiago Bartolomeu Costa, director da Obscena, às 19:00h, no Fórum Romeu Correia, em Almada.

Entretanto, o Tiago também está de parabéns, porque foi o seleccionado português para participar num encontro de líderes culturais de todo o mundo, a decorrer em Londres, nos próximos dias 8 e 9 de Julho. Denominado Liderança Cultural Internacional (Cultural Leadership International, ou apenas CLI), este programa faz parte do British Council e, de acordo com a nota de imprensa, «tem como objectivos ajudar os futuros líderes culturais a desenvolverem as capacidades e a visão necessárias para fortalecer o sector cultural e o seu papel na construção de uma sociedade aberta, tolerante e integrada». A escolha do Tiago Bartolomeu Costa deveu­‑se, naturalmente, ao seu excelente trabalho como fundador e director da Obscena, destacada como uma das primeiras publicações a fazer parte da rede europeia de revistas TEAM Network.

No seu regresso a Portugal, o Tiago passará ainda por Avignon, para participar num debate, a 13 de Julho, sendo esta a primeira vez que um crítico português é convidado para tal evento.

CITAÇÃO, 175


Valupi: Esmagador.



«Santos Silva esmagador é a norma. Ele tem as informações, a boa-fé e a literacia. Não precisa de mais para anular opositores que não comungam destes mínimos. Num Prós & Contras em que estava só contra 4, acabou fresco e a malhar forte e feio em adversários reduzidos à impotência. Desconcertante.

Morais Sarmento é aflitivo. Não faz a menor ideia da imagem de fragilidade e confusão que passa à audiência ao tentar raciocinar em directo. Representa muito bem o PSD pós-Cavaco, e por isso tem feito parte do núcleo duro do partido desde Barroso. É também por comparação com ele, e figuras como Aguiar-Branco, que se louvam as qualidades de Paulo Rangel; ou seja, a sua suposta excelência nasce, afinal, de não ser politicamente indigente como os colegas de partido.

Luís Fazenda é um tractor ideológico. Inútil conversar com este mecanismo, o seu rumo está traçado e há uma batalha da produção demagógica para vencer. Deve deitar-se todas as noites com o sentimento do dever cumprido. Coloca a cassete com cuidado na mesinha de cabeceira e adormece em paz.

Carlos Carvalhas chocou-me pela sua caducidade. Desconheço se há algum quadro clínico que a explique, ou se é fenómeno natural. Seja como for, o PCP ficou muito mal representado.

Nuno Melo é um bronco. O bronco queque, beto, cagão, armado ao pingarelho, rebentando de vaidade e acinte. Fiel sucessor de Portas, é mais um coveiro do CDS.»

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Segunda-feira, Julho 06, 2009

B:MAG#01


Acaba de sair o primeiro número do B:MAG#01 (clique!), que colige em suporte digital os textos inseridos na secção de Opinião do Blogtailors, onde, entre outros, escrevem regularmente Francisco José Viegas, Manuel Alberto Valente, Maria do Rosário Pedreira, Possidónio Cachapa, Vasco Teixeira, Pedro Rolo Duarte, António Manuel Venda, Carla Maia de Almeida e eu próprio. Também há versão em papel, mas muito reduzida e só para happy few...

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Poesia e artes visuais


Apesar de datado de Outubro de 2008, o número 23 da revista Relâmpago só terá chegado às livrarias já este ano. Nada de grave, pois vale bem a pena esperar por uma edição tão cuidada, como tem sido hábito, e com tantos motivos de interesse. Dedicado à relação entre a poesia e as artes visuais, este número, com direcção de Carlos Mendes de Sousa, apresenta um vasto dossiê, composto pela colaboração de diversos poetas portugueses e brasileiros, que enviaram um poema inédito, uma imagem (onde se incluem reproduções de pinturas, gravuras, fotografias, fotogramas, reproduções de esculturas ou de peças de design, entre outras) e um breve depoimento, versando o tema do volume, comentando o poema enviado ou estabelecendo conexões entre este e a imagem escolhida. O resultado é amplamente estimulante, não apenas pela qualidade dos poemas enviados, mas também pelos interessantes comentários que aí se encontram. Ao mesmo tempo, é curioso descobrir que imagem escolheu cada autor e perceber como essa opção reflecte, de algum modo, características da sua obra (no caso, evidentemente, de essa obra ser conhecida do leitor deste número da revista).

Numa segunda etapa, surgem três ensaios sobre a relação entre a poesia e as artes visuais. Eunice Ribeiro inseriu o seu texto no campo da muito ampla reflexão sobre o Laocoonte, com uma incursão pela poesia de Vasco Graça Moura (um dos autores constantes na primeira parte da revista). Joana Matos Frias, num ensaio significativamente intitulado «Ut Pictura Poesis no Erit» (que tem o condão de elencar todas as referências fundamentais a ter em conta quando se fala das relações entre poesia e artes visuais, fazendo­‑o através de um discurso simultaneamente elegante e rigoroso), propôs uma análise detalhada do conceito de ekphrasis, distinguindo­‑a com nitidez do epigrama; para a autora, «na ekphrasis só o objecto verbalmente criado tem existência», assumindo­‑se assim como «um epigrama sem o objecto que o acompanha» (p. 163). No último texto desta série, Rosa Maria Martelo analisa as ligações entre a poesia e o cinema, com especial enfoque na poesia portuguesa contemporânea (principal objecto de estudo desta ensaísta), utilizando com eficácia conceitos tão operativos como as célebres noções deleuzianas de image­‑mouvement e image­‑temps.

A fechar este número, a Relâmpago ocupa toda a sua habitual secção de crítica com uma recensão do também poeta Luís Maffei ao volume A Faca não Corta o Fogo, de Herberto Helder, onde são igualmente questionadas as ligações desta torrente verbal com o mundo e as suas imagens.

ASSIM É QUE É


A inadmissibilidade ética de candidaturas duplas, assunto que havia comentado aqui, imposta agora por decisão (muito acertada) de Sócrates, traz em polvorosa alguns socialistas: Leonor Coutinho e Sónia Sanfona, por ex., não concordam. Ana Gomes já disse que, se ganhar Sintra, manda Bruxelas às urtigas. (Embora passe a auferir um terço do salário que ganharia no Parlamento Europeu; mas a noção de serviço público é isso.) O caso de Elisa Ferreira é diferente, porque Elisa Ferreira teve a infelicidade de dizer o que lhe ia na alma. Fatal. Estamos a mais de três meses das autárquicas de 11 de Outubro, vai muito a tempo de desistir. Manter «até ao fim», como diz, a candidatura ao Porto, parece um acordo tácito para manter Rui Rio na Invicta. Não é a primeira vez que, no PS, a ideia de impossibilitar duplas candidaturas foi tentada. Mas nem Constâncio nem Guterrres tiveram força. Só Sócrates a conseguiu impor agora. Houve aliás dois socialistas de peso, António Costa e Paulo Pedroso, que já tinham dado um passo em frente: vão lutar apenas por Lisboa e Almada, respectivamente. E o actual presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, o socialista Fonseca Ferreira, anunciou há meses que vai abandonar o cargo para se candidatar à Câmara de Palmela. Assim mesmo é que é. A vida é feita de opções.

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Domingo, Julho 05, 2009

LISBOA A VOTOS. 3ª PREVISÃO


Autárquicas Lisboa. Estudo do CESOP, da Universidade Católica, para o Diário de Notícias, a RTP, a Antena Um e o Jornal de Notícias:


António Costa / PS — 38%
Pedro Santana Lopes / PSD+CDS-PP+PPM+MPT — 37%
Luís Fazenda / BE — 9%
Ruben de Carvalho / CDU — 7%
Helena Roseta / Cidadãos por Lisboa — 6%


Desta vez, Fazenda ultrapassa Ruben.

Não esquecer o flop dos institutos de sondagens para as Europeias de 7 de Junho.

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LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Ando há imenso tempo para falar desta Antologia do Humor Português, criteriosamente organizada por Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos. Cobre o período 1969-2009 — para sermos exactos, termina por volta da hora do almoço de 18 de Abril de 2008, o mais tardar... —, coligindo apenas o que foi publicado em volume. A excepção é o Soneto ao Deputado Morgado, de Natália Correia, dito no plenário da Assembleia da República. Critério de escolha: «Ficam de fora os textos para televisão, as peças de teatro, as letras de canções, as crónicas de jornal, os blogues, que não tenham sido compilados e editados em livro. Ficam de fora igualmente cartoons, tiras e BD que, por terem imagem, fazem parte de outro universo.» Porquê começar em 1969? Porque nesse ano saiu a Antologia do Humor Português de Fernando Ribeiro de Mello (Afrodite), com prefácio de Erneto Sampaio, «cuja leitura nunca será de mais recomendar». O que o Nuno e a Inês fizeram foi seleccionar o que apareceu a partir de 1969. O índice é extenso: de José Gomes Ferreira (1900-1985) a Ricardo Araújo Pereira (n. 1974), passando por Armando Silva Carvalho (n. 1938) e Adília Lopes (n. 1960), sem esquecer Cesariny (1923-2006), O’Neill (1924-1986), Alberto Pimenta (n. 1937), Fernando Assis Pacheco (1937-1995), Manuel António Pina (n. 1943), Miguel Esteves Cardoso (n. 1955), Clara Ferreira Alves (n. 1956), Rui Zink (n. 1961), Nuno Markl (n. 1971), Pedro Mexia (n. 1972), Nuno Costa Santos (n. 1973), etc., o anónimo de O Meu Pipi, algumas obras colectivas — Gato Fedorento, O Defunto Elegante, Pornex, o Inimigo Público, etc. —, o surpreendente (nesta área) Jorge de Sena (1919-1978) e o incontornável José Sesinando (1923-1995). Em semanas recentes, que foram para mim complicadas do ponto de vista familiar, a sua leitura foi o escape possível para momentos de sombra. Diverti-me como não supunha possível com quase todas as 447 páginas desta magnífica Antologia do Humor Português.


Ler o manifesto Por uma Cultura para o Século XXI, assinado por uma centena de personalidades.


Importante. Comprar o Diário de Notícias de hoje para ler a entrevista de Miguel Sousa Tavares, conduzida por Catarina Carvalho: fala de Cavaco («não tem dimensão de estadista»), de Sócrates, da Justiça, do caso PT/TVI, de futebol, do Jornal da MMG, dos políticos que preferem ganhar dinheiro a servir o bem público, de MFL, de blogues e até da possibilidde de emigrar para o Brasil. Imperdível.


João Galamba «Enquando o mundo passa pela maior crise económica desde a grande depressão, Louçã lembra-se de acusar o Governo de ter rasgado a sua principal promessa eleitoral: a criação de 150 mil empregos. Isto é demagogia em estado puro. Infelizmente, tiradas deste calibre fazem parte do foguetório rasteiro a que se convencionou chamar luta política. Ser oposição é uma actividade performativa formal, sem qualquer conteúdo. Não interessa o que se diz, desde que se diga. Louçã, o mesmo que supostamente pensa a crise, é, enquanto deputado e líder do BE, um simples demagogo, que não tem qualquer pudor em recorrer a artifícios retóricos desonestos para atingir os seus fins políticos (leia-se: atacar, com ou sem razão, quem está no poder). Das duas, uma: ou Louçã acha que um ataque se justifica a si próprio ou então toma-nos a todos por parvos. A primeira opção reduz a política a um combate de boxe, onde a razão pouco importa; a segunda é mais grave, porque insulta a inteligência dos portugueses. Em democracia a palavra pode ser uma arma, mas não é um martelo. Ou melhor, não devia.»

Paulo Gorjão: «[...] Hoje, porém, este texto que se baseia igualmente em fontes anónimas não gerou a mais leve reacção ou indignação. A única diferença é que desta vez as tais fontes anónimas fazem parte da tribo de Pacheco Pereira. Como o vento sopra na direcção “certa” está tudo bem.»

Tomás Vasques: «Maria João Pires anunciou que vai renunciar à nacionalidade portuguesa. Quer tornar-se cidadã brasileira porque está farta dos “coices e pontapés” que recebeu do Governo português. A empregada doméstica do meu prédio, uma brasileira jeitosa, há meia dúzia de dias, quando nos cruzámos na escada, disse-me que estava à beira de adquirir a nacionalidade portuguesa. Está farta dos “coices e pontapés” que o Governo brasileiro lhe dá — confidenciou-me. Esteve desempregada durante 3 anos. Troca por troca, prefiro a brasileira. Não toca piano, nem fala francês, mas as escadas do meu prédio estão exemplarmente limpas. Temos por cá muitas primas-donas

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FLIP 2009


A PNET Literatura é Patrono Oficial da FLIP 2009, e tem lá, como enviada especial, a Sílvia Chueire. Acompanhe na PNET Literatura os quatro textos já publicados por Sílvia. Haverá um 5.º, hoje?

A Isabel Coutinho, do Público, também está a cobrir a 7.ª Festa Literária Internacional de Paraty, e esperam-se a todo o momento revelações quentes.

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Sábado, Julho 04, 2009

A LENDA, OS FACTOS


Agora que o n.º 82 [Julho] da LER já está na rua, aqui fica a crónica A Lenda, os Factos, que publiquei na minha coluna Heterodoxias, no n.º 81.



Há dois meses, numa conferência que fiz sobre António Botto, a pretexto do cinquentenário da sua morte, um dos presentes quis saber em que circunstâncias, em 1927, o autor de Canções tinha passado uma temporada em Itália na companhia do príncipe Luis Fernando de Orleans e Bourbon. Se tinham partidos juntos de Lisboa ou se o poeta fora ter com Sua Alteza a Capri.

Isto leva-nos às biografias de escritores. Em Portugal, o género tem duas balizas: as biografias de Fernando Pessoa (1950) e Alexandre O’Neill (2007), feitas, respectivamente, por João Gaspar Simões e Maria Antónia Oliveira. No intervalo cabem as de Camilo Castelo Branco (1961), Raul Brandão (1979) e Eça de Queirós (2001), feitas por Aquilino Ribeiro, Guilherme de Castilho e Maria Filomena Mónica. Cinco títulos em quase 60 anos. O que sobra conta pouco.

Nos anos 1970, a Editora Arcádia manteve uma colecção sobre a vida e obra de vários escritores, mas o protocolo biográfico cedia à deriva ensaística. Em todo o caso, o volume dedicado a José Régio (1976), da autoria de Eugénio Lisboa, continua sendo o mais detalhado relato biográfico que se conhece sobre o poeta de A Chaga do Lado.

As biografias representam sempre um grande investimento: exigem tempo (o tempo custa dinheiro), perseverança e distância crítica. O biógrafo não tem estados de alma: parte pedra. Maria Antónia Oliveira andou cinco anos a escavar no O’Neill. Não havia outra forma. Edmund White mudou de país e durante seis anos não fez outra coisa senão desconstruir o Genet. Não é pêra doce. O tipo de empresa contra a qual opomos um puritanismo inato, preguiça homérica e fraca tesouraria. Leitores parece que há: o vasto mundo gosta de indiscrições.

O crivo dos costumes permite fotobiografias de aparato, correspondência inócua, cronologias em colecções de obra completa, memórias filtradas à luz das conveniências, diários rasurados, verbetes de dicionário, um ou outro ensaio dado ao biografismo, arremedos de autobiografia com controlo de danos colaterais. Aqui e ali, o esqueleto aguenta-se. Biografia sem restrições, como as que Maria Filomena Mónica e Maria Antónia Oliveira fizeram do Eça e do O’Neill, só quando o rei faz anos.

A gente olha em volta e fica a pensar na enxurrada de informação (social, política, literária) que representariam as biografias de Manuel Teixeira-Gomes, Aquilino Ribeiro, Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros, Florbela Espanca, António Ferro, António Botto, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Vitorino Nemésio, João Gaspar Simões, Miguel Torga, Joaquim Paço d’Arcos, Ruy Cinatti, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Namora, Jorge de Sena, Raul de Carvalho, Natércia Freire, Agustina Bessa-Luís, José-Augusto França, José Saramago, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Mário Cesariny, Bernardo Santareno, José Cardoso Pires, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Herberto Helder, Rui Knopfli, Ruy Belo, José Carlos Ary dos Santos, Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Eduardo Prado Coelho, Al Berto e Luís Miguel Nava. (Nesta lista de 40 autores nascidos entre 1860 e 1957, há quatro vivos, o mais novo tendo agora 78 anos.) Nem todas urgentes, com certeza, porque a importância relativa das obras e o grau de intervenção pública nem sempre coincide. Mas uma dúzia bem escolhida faria a história do século XX português. Os seus equivalentes ingleses, americanos e franceses estão todos biografados, alguns mais de uma vez. No Brasil, por exemplo, há Paulo Coelho em versão autorizada, não-autorizada e For Dummies. O que não quer dizer nada, porque os herdeiros de Manuel Bandeira e Guimarães Rosa blindaram tudo.

E nós por cá? Nós por cá talvez preferíssemos trocar a lenda — «Há sempre muita lenda à volta das pessoas», dizia David — pelas biografias a que temos direito.


[Na imagem, caricatura de James Boswell, de 1786, da colecção Bettmann.]

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CITAÇÃO, 174


Miguel Abrantes, Cavaco:


«José Eduardo Martins insultou Afonso Candal no plenário da Assembleia da República. Não foi uma coisa que lhe tivesse saído da boca para fora sem pensar, porque repetiu vezes sem conta a expressão “Vai para o caralho”. O mesmo José Eduardo Martins insultou Sócrates num debate quinzenal. Ambas as situações foram transmitidas pelas televisões.

As cenas lamentáveis na Assembleia Legislativa da Madeira são o pão nosso de cada dia. O próprio Presidente da República foi enxovalhado ao não lhe ter sido permitida a entrada no parlamento regional.

É o Presidente da República que, depois de nunca se ter pronunciado sobre todas estas situações, tem o topete de
se pronunciar sobre o caso Pinho. E é tanto mais deslocada a sua declaração quanto Pinho foi imediatamente demitido, não havendo, portanto, mais nada a acrescentar.»


Adenda minha. Ontem, na SIC, Maria Filomena Mónica, insuspeita de simpatia pelo actual PS, considerou um disparate a demissão de Manuel Pinho, lembrando o episódio, ocorrido no plenário do Parlamento Europeu, quando Raul Rosado Fernandes, Prof. Catedrático Jubilado de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboa, então deputado do CDS-PP (1995-99), agrediu um colega sem quaisquer consequências.

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Sexta-feira, Julho 03, 2009

LER 82


A LER n.º 82 (Julho) está na rua. Vasco Pulido Valente, entrevistado por Carlos Vaz Marques, fala de Portugal, arte, literatura, música, política e, sobretudo, do triunfo do trash. Doze páginas de puro prazer. Brevíssima citação:

«José Saramago é uma derivação da literatura da América Latina. É uma prosa admissível nas Caraíbas ou num português que tivesse vivido a vida inteira nas Caraíbas. Mas assim não faz sentido nenhum. O Lobo Antunes é um escritor. Não me interessa nada, mas é um escritor. Ele publica constantemente. Se tivesse escrito quatro ou cinco livros talvez tivesse sido um grande escritor. Aquilo acaba é por ser uma pasta. É como a Agustina. É uma literatura que acabrunha, sem caminho. Sem... sem... sem... Eu ia dizer a coisa mais horrível: sem forma

E depois o costume, que é variado e bom (passe a imodéstia da minha quota), incluindo dezenas de notas de leitura, recensões críticas, a pré-publicação de um trecho do novo livro de Eduardo Lourenço, uma bibliografia da responsabilidade de Daniel Oliveira para tentar perceber o choque de civilizações, o Ricardo Araújo Pereira a escolher dez obras vintage, um dossiê sobre Timor de Pedro Rosa Mendes, etc. Enfim, uma revista como deve ser.

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LEGISLATIVAS. 1ª PREVISÃO


Eleições legislativas. Estudo da Eurosondagem para o Expresso, SIC e Rádio Renascença:


PS — 35,1%
PSD — 33,0%
CDU [PCP+PEV] — 9,7%
BE — 9,6%
CDS-PP — 7,4%
Outros — 5,2%


Popularidade de Sócrates — 39,1%
Popularidade de Manuela — 25,5%

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Quinta-feira, Julho 02, 2009

EGOÍSTA


Saiu a Egoísta n.º 39, relativa a Junho, editada como sempre por Patrícia Reis. O luxo do costume. Colaboram, entre outros, Maria Filomena Molder, Mário Cláudio, Maria João Seixas, António Mega Ferreira, Rui Zink, José Mário Silva, Ana Sofia Fonseca, Diego Beyró, Ivone Ralha, David LaChapelle. Há também um conto meu, O Coleccionador de Martelos. Numa livraria ou banca perto de si.

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DOIS CONTRA UM


E vão três. Manifestos, quero eu dizer. Primeiro foi o Manifesto dos 28. A nata dos economistas-políticos que, bem ou mal, mais mal que bem, conduziu Portugal ao atoleiro actual. Eles foram ministros das finanças e da economia, secretários de Estado, presidentes de bancos, governadores e vices do BdP, directores-gerais de agências de investimento, CEO’s das empresas de topo, etc. Ou seja: todos têm culpa no cartório. Agora, todos pedem a «reavaliação das grandes obras públicas». Podiam tê-lo feito em Março ou Abril, por exemplo. Mas, à cautela, esperaram pelo resultado do 7 de Junho.

Depois, foi o Manifesto dos 54. Uma plêiade de académicos de várias áreas que apela, com convicção, pelo «reforço do investimento público para combater a crise».

Ontem, o terceiro. O Manifesto dos 31. Economistas e empresários que afirmam, preto no branco, que «Portugal necessita de investimento público estratégico [...] parar é sacrificar o futuro [...] parar os grandes projectos depois de anos de estudos, de sucessivas decisões por parte de diferentes governos e dos custos já envolvidos significa continuar a hipotecar o futuro de Portugal e mantê-lo no atraso estrutural que o subjuga há décadas». Claro como água.

Nos três papers há nomes sonantes da economia e do empresariado português, oriundos (creio que por esta ordem) do PSD, do PS, do PCP, do CDS e independentes.

O burburinho parece-me fútil. Se o PSD ganhar, vai cortar onde sabe que pode fazê-lo sem agitação de maior: funcionalismo público, saúde, cultura, ambiente, justiça, educação. Mas não vai parar uma única “grande” obra pública porque isso faria disparar o desemprego para níveis incomportáveis. MFL vai dizer que as decisões já estavam tomadas pelo governo anterior. Como tentou na PT, até ser desmentida por Granadeiro. Por Granadeiro e pela documentação oficial que prova que ela, Manuela, era ministra das Finanças (de Barroso) há um ano, quando o PSD tratou a PT como coutada privada.

O travão aos “grandes” investimentos não significa deixar os imigrantes de braços cruzados. Significa inviabilizar as pequenas e médias empresas de fornecedores e outsourcing, prejudicar os grandes grupos económicos (onde o PSD tem quota de leão) e, nessa medida, tranformar a rua num caos.

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Quarta-feira, Julho 01, 2009

AGRADECIMENTO PÚBLICO


A minha participação neste blogue esteve hoje suspensa do saber e da perícia do Dr. Fernando Maia Miguel, um dos grandes neurocirurgiões deste país, e da sua equipa na Clínica de Todos os Santos, em Lisboa. O meu primeiro agradecimento vai naturalmente para ele e, por extensão, para todos os amigos (e foram muitos) que ao longo do dia quiseram saber do estado do Jorge, meu companheiro há 37 anos.

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O aquipélago e a fronteira


Na sua habitual crónica do Público, Rui Tavares refere­‑se hoje à importância das ligações entre as cidades, definindo os conjuntos assim estabelecidos como arquipélagos. Segundo um estudo que ele cita, «a Península Ibérica é ela mesma um conjunto destes arquipélagos urbanos», sendo o segundo mais rico, no seu interior, aquele que «vai da Grande Lisboa até à Corunha, passando pelo Grande Porto».

É, de certo modo, esta rota à beira do Atlântico, e as subsequentes aproximações entre Portugal e a região da Galiza, que estará em destaque em Gaia–Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2009, que está a decorrer na cidade da margem sul do Douro. Na sua vasta programação, insere­‑se um encontro de escritores portugueses e galegos, a 2 e 3 Julho, que debaterão entre si o tema da fronteira nas respectivas obras. Participarei nesse encontro, juntamente com Fernando Pinto do Amaral, João Luís Barreto Guimarães, Manuel Jorge Marmelo, Rui Costa, valter hugo mãe (da parte portuguesa), Luisa Castro, Luis Garcia Mañá, Luis G. Tosar, María Canosa, Xavier Alcalá e Xavier Queipo (da parte galega). Amanhã, quinta­‑feira, às 18h00, haverá uma sessão aberta ao público, no El Corte Inglés de Gaia, onde também se poderão adquirir os livros dos autores presentes no encontro.

Terça-feira, Junho 30, 2009

PINA BAUSCH 1940-2009


A um mês de completar 69 anos, morreu hoje, de cancro, a bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch. Nada voltará a ser como dantes.

[A foto é de Julie Lemberger, 1997.]

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CITAÇÃO, 173


Ferreira Fernandes, Pacheco Pereira e os anúncios, hoje no Diário de Notícias:



«Pacheco Pereira tem um novo programa, sobre opinião — Ponto Contra Ponto, na SIC Notícias. Um programa de “opinião, opinião, opinião.” A minha opinião: nenhuma opinião vale mais, em Portugal, que a de PP. Alguém que lembra a importância da hesitação no discurso televisivo de Vitorino Nemésio (a quem PP dedicou o seu programa) deve ser escutado. É uma luta necessária, a de PP, contra o “demasiado espectáculo e a pouca razão” na Comunicação Social portuguesa. Mais uma razão para o criticar. No primeiro Ponto Contra Ponto, PP abriu as páginas de procura de emprego do Correio da Manhã, de 26/06/2009, para concluir sobre os maus tempos em que vivemos. Fui ver esse CM: havia 52 anúncios de procura de emprego. Há 15 anos, o CM de 27/06/94 (não escolhi o de 26 porque foi domingo) tinha 104 procuras de emprego. Julgo que seria pouco razoável — PP até diria mais: situacionista! — alguém dizer, à luz dos anúncios do CM, que ao fim de nove anos de Governos de Cavaco (1985-1994) havia o dobro de desemprego que temos hoje... Conclusão: em televisão, abanar as páginas de anúncios de um jornal é demasiado espectáculo. Nemésio hesitaria, pensava e não o faria.»

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CACHIMBADAS


No Cachimbo, Fernando Martins, que é professor (estou a citar o perfil do Blogger), acusa-me de estar «cada vez mais aflito» com a possibilidade de mudança de governo. Como não sou candidato a coisa nenhuma, nem exerço cargos de nomeação, nem a minha “carreira” depende de partidos, não vejo como nem porquê. No mesmo sítio, Carlos Botelho vai mais longe: «Começa mesmo a assomar à superfície um rancor que já não se disfarça. Desespero, provavelmente.» Desespero? Rancor? Enfim, afirmações sem sentido. Dizer a ambos que o jogo democrático aceita as idiossincrasias do outro. E que não há crenças (eu não tenho nenhuma) melhores ou piores. A mim parece-me estranho o silêncio do PSD face a questões que MFL quer virar do avesso. Só isso. Confundir o que escrevo com agitprop não tem lógica nenhuma. [Em tempo: nada contra cachimbos; o meu pai toda a vida foi o que fumou, até nos intervalos da esgrima.]

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Segunda-feira, Junho 29, 2009

O QUE PODERÁ MUDAR?


Embalada pela vitória nas eleições europeias, a direita portuguesa acredita que o PSD vai ganhar as próximas legislativas. E, em conformidade, Manuela Ferreira Leite poderá vir a ser primeira-ministra, com Paulo Rangel a ministro de Estado e da Presidência. (Bruxelas é uma cidade tão chata!) A parte curiosa das expectativas reside no facto de ninguém saber ao certo o que o PSD fará para fundar o admirável mundo novo que promete. “Rasgar” tem sido um verbo muito utilizado. Vão “rasgar” este mundo e o outro, como Sá-Carneiro fez logo em Janeiro de 1980 com a legislação dos cem dias de Pintasilgo. Para já, o que se sabe é que MFL tenciona manter o Código do Trabalho de Vieira da Silva, que lhes (e nos) garante uma almofada para um mínimo de quinze anos. E congelar os vencimentos dos funcionários públicos. E alterar os parâmetros das taxas moderadoras da Saúde, que vão passar a ser indexadas aos rendimentos dos utentes. (Exemplo hipotético: rendimento colectável anual bruto inferior a três mil euros, taxa grátis em todos os serviços hospitalares; rendimento colectável anual bruto entre 12 e 24 mil euros, 25 euros por cada ida às urgências; a partir de 24 mil euros, preço real, o que dá 90 euros, ou mais, por cada ida ao “atendimento permanente”.) Tirando isso, nada se sabe do imbróglio da Educação, da Economia, da Justiça, das Obras Públicas (salvo que haverá adjudicação do TGV para Madrid ainda este ano), da Habitação, da reforma da Administração Pública, de uma nova política de Finanças, do Ambiente, da Cultura, enfim, nada do que, do ponto de vista deles, devia mudar. O maior partido da oposição devia ter ideias claras e rostos visíveis a defender políticas alternativas às actuais. Estão guardadas para depois das férias? Pelos vistos, os crentes vão votar numa entidade mítica. Eu, se fosse aos eleitores do PSD, começava a exigir, e a insistir, no esclarecimento do básico. Mas o básico não interessa a ninguém, porque o pessoal está apenas interessado na mudança de dinastia, borrifando-se para que o tecto lhes caia na tola.

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Domingo, Junho 28, 2009

FUMO BRANCO


O governo marcou as eleições autárquicas para 11 de Outubro próximo, e o Presidente da República as legislativas para 27 de Setembro. Duas decisões acertadas. Por mim preferia as legislativas a 20 de Setembro, mas a 27 também está bem.

As autárquicas é que nunca percebi por que razão têm de ser as 308 em simultâneo. Cada município devia fazê-las no dia da cidade. Lisboa e Cascais (os feriados coincidem) a 13 de Junho, o Porto a 24 de Junho, e assim sucessivamente. E de cada vez que um autarca tivesse o mandato cassado, ou ficasse impedido em definitivo por qualquer outra razão, haveria eleições, num prazo curto (30 dias), nesse município, para substituir o cessante e não o seguinte da lista.

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Sábado, Junho 27, 2009

O MERCADO A FUNCIONAR?


Os nossos liberais, que passam a vida a bramar com a intervenção excessiva do Estado na economia, acusaram o governo de estar a manipular o negócio da PT com os espanhóis da Prisa, accionistas maioritários da Media Capital, para eventural compra de 30% da empresa que detém a TVI. Porquê? Porque o Estado tem uma golden share na PT, o que lhe permitiria fazer avançar ou recuar o negócio. Zeinal Bava e Henrique Granadeiro recuaram depois de Sócrates ter dito, no Parlamento, que o governo usaria a golden share, impedindo a compra, para que não restasse «a mínima suspeita de que a operação se destinava a qualquer alteração da linha editorial da TVI».

Agora que o negócio está a ser conduzido entre a Cofina — proprietária, entre outros títulos, do Correio da Manhã e da revista Sábado — e a Prisa, ninguém tuge nem muge. Isto do mercado a funcionar é muito bonito quando é para o lado deles. Sobretudo até ao dia em que se descobre que o BPN era uma espécie de Loja P2; ou que cinco antigos administradores do Millennium BCP foram acusados pelo Ministério Público de serem responsáveis, entre 1999 e 2006, por perdas de seiscentos milhões de euros, o que não impediu o banco de Jardim Gonçalves de ter pago, no mesmo período, 291 milhões de euros (duzentos e noventa e um milhões) em prémios. Alguém da actual direcção do PSD se indignou?

Nisto tudo, duas coisas extraordinárias:

Primeira. A inusitada intervenção do Presidente da República, censurando a eventual compra de 30% da Media Capital pela PT. O mesmo Presidente da República que há poucos dias vetou o projecto de decreto n.º 265/X, com o argumento de que «a restrição de acesso, prevista no artigo 13.º, ao desenvolvimento de actividades pelo Estado e demais entidades públicas no domínio da comunicação social pode constituir um limite ao sector público, não se sabendo se, em determinadas circunstâncias, não poderá ‘pôr em causa a prossecução de interesses públicos de relevo, incluindo o próprio pluralismo e a independência dos meios de comunicação social’ [...]». Em que ficamos?

Segunda. A desfaçatez com que Manuela Ferreira Leite disse ontem às televisões que o primeiro-ministro tinha mandado a PT recuar «única e exclusivamente para defender a sua imagem.» Alberto João Jardim não faria melhor.

Pelo meio houve o sketch Moniz/Benfica, que já se percebeu que foi uma mera manobra de diversão.

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Sexta-feira, Junho 26, 2009

JAN MORRIS



Hoje no Público:


É provável que o leitor comum sinta perplexidade face ao nome e à obra de Jan Morris, que nasceu (em 1926) James Humphrey Morris, estudou História em Oxford, frequentou a Academia Militar de Sandhurst, combateu na Segunda Guerra Mundial como oficial dos Lanceiros da Rainha, tornou-se um escritor famoso e, em 1972, mudou de sexo, continuando a viver com a mulher que lhe deu cinco filhos (um deles é o poeta e músico Twm Morys). Nesse ano, atenta a nova identidade sexual, adoptou o nome de Jan Morris. Como nota Carlos Vaz Marques no prefácio de Veneza, cuja versão actualizada foi agora traduzida, «É quase escandaloso [...] ser esta a primeira vez que o leitor tem a oportunidade de encontrar o nome de Jan Morris nas estantes das livrarias portuguesas.» De facto.

A obra é vasta: entre livros de viagem (os mais aclamados), ensaios, cinco volumes de memórias, dois romances, uma colectânea de contos, uma biografia do almirante Jackie Fisher, recolhas de artigos, etc., Morris tem publicada meia centena de títulos. Como introdução, recomendaria três: o excepcional Veneza (1960), o pungente relato autobiográfico de Conundrum (1974), e a trilogia Pax Britannica (1978), sobre as luzes e sombras do Império.

A primeira versão de Veneza foi escrita «ainda na pessoa de James Morris», o que não aconteceu nas de 1974, 1983 e 1993. Muita coisa mudou desde 1945, ano da primeira visita, quando o então jovem oficial se deixou seduzir pela «mistura de tristeza e espectacularidade» da cidade, associando o perfil dos «palácios periclitantes» a um bando de «aristocratas inválidos que se atropelam para apanhar ar fresco.» A escrita é fluente, capaz de cerzir informação prosaica com erudição histórica, sem com isso beliscar a melodia da frase.

Morris adverte que não se trata de um livro de história, nem de um guia, nem sequer de uma reportagem. Ignore os avisos. O índice remissivo contém todas as referências importantes, e uma cronologia entre o ano 421 e 1960 não deixa nada de fora. O índice onomástico é precioso. Convém perceber que falamos de uma sociedade fechada: «Veneza nunca foi amada. Sempre esteve à parte, sempre foi invejada, sempre suspeita, sempre temida. [...] Era o leão que caminhava sozinho.»

O preâmbulo detalha as circunstâncias das sucessivas visitas de Morris, primeiro com «olhos jovens, especialmente sensíveis aos estímulos da juventude», mais tarde guiada pela ideia que guardava da cidade, em conflito aberto com a realidade do mundo contemporâneo: «apinhada, envelhecida e inconformista». Depois, a obra desdobra-se em cinco partes: Terra à Vista, Os Habitantes, A Cidade, A Laguna e O Embarque. Cada uma delas nos leva pelo fio da história. Peripécias do quotidiano, declinações dialectais, humores, mitos, equívocos, anedotário indígena, bricabraque, antigos ritos, nada escapa ao exaustivo tour d’horizon. Mesmo quem conheça Veneza surpreende-se com o caudal e a minúcia do relato, não isento de malícia: «Veneza ficou meio louca nas décadas que antecederam a sua queda [...] Actualmente... está relativamente sóbria...»

Morris ama Veneza mas não doura a pílula: «Em Veneza nunca se pode ter muitas certezas. O estranho é que, apesar de a informação ser claramente incerta, quem nos informa é habitualmente dogmático [...] O ponto fraco do veneziano é detestar confessar a sua ignorância.» O passado histórico explica. Morris fala de doges e ladrões com mesmo à-vontade com que nos familiariza com Ticiano. A chegada de Vasco da Gama à Índia pôs fim ao monopólio de Veneza? Sabemos que sim. Não obstante, a cidade «manteve a jactância e a pompa, preservando ainda hoje a sua reputação grandiosa.» Afinal, comerciar indiscriminadamente com cristãos e muçulmanos, fazendo tábua rasa das sanções papais, e tratar os Cruzados como meros mercenários, não é para qualquer um. Não por acaso, as grandes potências do século XVI se uniram (em 1508, na Liga de Cambrai) contra ela.

Nenhum capítulo se ocupa de arte em sentido estrito, porque a cidade é um museu vivo, nenhuma pedra ali está por acaso, e a mais inocente figura, se não for um Tiepolo ou um Guardi, pode ser que seja Mantegna ou Antonello da Messina. De modo que não vale a pena enfatizar o óbvio. Bellini, Carpaccio, Tintoretto, Veronese, Canaletto, Longhi, Canova e muitos mais, têm, na narrativa, estatuto idêntico ao do povo anónimo. Isto, que num autor menos apetrechado daria azo a uma crónica de viagem, transforma-se nas mãos de Morris numa obra que (estamos a falar de Veneza) se mede pelas memoráveis bitolas de Ruskin e Brodsky.

Não sei se, como exarou um comité de críticos consultados (em 2008) pelo Times, Jan Morris é ou não um dos mais importantes autores britânicos do pós-guerra. Sou avesso a esse tipo de classificações, as quais tendem (não estou a dizer que seja o caso) a deixar-se contaminar por razões exteriores à literatura. A minha única certeza é a da excepcional qualidade da sua escrita.


Os enigmas de Veneza, in Ípsilon, 26-6-2009, p. 38. Cinco estrelas.

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Quinta-feira, Junho 25, 2009

A NOVA GUIMARÃES


No pasado 25 de Abril, publiquei aqui este texto, divulgado na véspera no Blogtailors, como artigo de opinião. Passam hoje dois meses. No ínterim, Paulo Teixeira Pinto, presidente da Guimarães Editores, convidou-me a visitar a casa, onde fui recebido, com toda a cordialidade, por ele e por Vasco Silva, o editor.

Dizia eu que, que, na sua fase actual, a Guimarães se limitara a reeditar um catálogo de clássicos de prestígio, tendo ficado, em matéria de originais, pelo Dicionário Imperfeito, uma colectânea de declarações avulsas de Agustina Bessa-Luís, organizado por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira. E ironizava dizendo que o conselho editorial devia estar preso num engarrafamento de trânsito...

Estas coisas acontecem porquê? Porque cada vez mais a distribuição é um caos. Sucede que, já em 2009, a Guimarães editou meia centena de títulos. Mas, em livraria, eu vi três. A notável saga da Crónica da Vida Lisboeta, de Joaquim Paço d’Arcos — seis romances, publicados entre 1938 e 1956, agora reunidos em três volumes de capa dura —; o referido Dicionário Imperfeito e, por último, Pensadora entre as coisas pensadas (2008), lição do doutoramento honoris causa em Línguas e Literaturas Europeias e Americanas outorgada a Agustina pela Universidade Tor Vergata, de Roma, em edição bilingue traduzida por M. Freitas da Costa.

E afinal há um mundo por descobrir. Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979) devia dispensar apresentações. Mas o labéu de escritor do Ancien Régime afastou-o dos leitores com menos de 70 anos. Afinal, ninguém como ele descreveu o quotidiano classista do Estado Novo — e vou citar palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, autor da introdução à trilogia — «com traços de monarquia absoluta rural e ultraconservadora mais do que de despotismo esclarecido e, certamente, de fascismo contemporâneo.» Também vamos ter Agustina ne varietur: cinquenta volumes, dos quais cinco estão já em livraria, incluindo O Chapéu das Fitas a Voar, com relatos autobiográficos inéditos. E o Sena integral, começando com Sinais de Fogo (1979). Paulo Teixeira Pinto concorda comigo: «É o grande romance do século XX português.» E Oliveira Martins, senão integral, pelo menos o essencial. Mais Ferreira de Castro, Conan Doyle, Hesse, etc. Excelentes notícias.

Tenho aqui comigo os cerca de 50 volumes feitos desde Janeiro. Em traços gerais, a Guimarães divide-se em cinco chancelas. A Guimarães ela-mesma, para filosofia e ensaio (foi reeditado o 1.º tomo da História da Filosofia Portuguesa, de Pinharanda Gomes); a Ática, para poesia; a Athena — que foi buscar o título ao Almada — para livros de arte tout court, da pintura e escultura da Renascença ao pós-punk e ao concretismo, do design à fotografia e ao cinema, etc.; a Centauro, para recuperar ensaios breves, à laia de folhetos; e, last but not least, a IZI Press para obras fora de contexto específico.

Uma colectânea de 23 contos, Kismet (2009), escritos por autores anónimos, assinando sob pseudónimo — futebolistas, decoradores, CEO’s, esoterologistas bíblicos, advogados, matemáticos, espiões, economistas, um violoncelista e um que outro jornalista —, traz um boletim de voto para os leitores escolherem o preferido. Alguns são muito bons. Há um regulamento a cumprir e manual de instruções. Quem acertar, ganha um prémio. Não sei qual. Kismet, que leva por subtítulo Contos de Fados, tem posfácio de Luiza Costa Gomes. Nenhum nome na capa, com fundo fotográfico ouro-negro de Inês Sena. Colecção-mãe: Guimarães.

Termino destacando Alvorada Desfeita (2009), de Diogo de Andrade — pseudónimo de um alto quadro do Estado, testemunha privilegiada dos meandos militares e políticos do antes e do depois do 25 de Abril —, ficção sobre o que seria Portugal se a revolução não tivesse triunfado. Tomás, Caetano, Spínola, Kaúlza, Costa Gomes, Barbieri Cardoso e outros que tais, são protagonistas centrais. História virtual, portanto. Como nota António Marques Bessa, o plot denota o conhecimento de quem exerceu o poder, fazendo-o numa «tecitura fina de intriga e conjuntura epocal». A este ritmo, vamos longe.

Batam o pé aos livreiros!

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Quarta-feira, Junho 24, 2009

EXPLICAR O ÓBVIO


Relativamente a este meu texto, José Gomes André tem uma dúvida legítima. Explico. Sendo os problemas sérios, e não tendo conseguido ser resolvidos a contento por um governo de maioria absoluta, vão continuar por resolver, a menos que a futura oposição, seja ela qual for, não aposte na política da terra queimada, como tem feito a actual: PSD+BE+PCP+CDS-PP+PEV. Ou seja, se por hipótese a direita chegar ao governo, desacreditada como está, vai fazer o quê?

Desacreditada? Claro! E com pompa e circunstância! Exemplos avulsos: o comportamento do PSD durante o bloqueio dos camionistas em Junho de 2008 (com MFL no poleiro); as posições do PSD em matéria de Código do Trabalho; a instrumentalização do desemprego, que infelizmente não se resolve com passes de mágica; o blasé do PSD face às ameaças concretas de alguns militares; o episódio dos bonés da polícia; o apoio explícito às manifs da Fenprof, sem que o PSD tivesse apresentado no Parlamento um projecto alternativo de avaliação de professores; a cumplicidade objectiva com a liquidação de Correia de Campos (o melhor ministro da Saúde desde que existe SNS); o descarado lobby contra a Ota, cujo único objectivo foi favorecer os interesses do Sul elitista; os ziguezagues com o TGV, que no tempo de Barroso ia ter sete linhas, e agora cai o Carmo e a Trindade porque Sócrates quer três (Madrid, Porto, Vigo); o horror à terceira travessia do Tejo, porque o lobby do PSD quer um túnel Algés-Trafaria; as obsessões bipolares quanto à reforma da Administração Pública; o descaso do estado da Justiça; o desinteresse com a roda-livre dos sindicados do MP; a hipocrisia no caso BPN; as assobiadelas para o lado no caso BPP; a tentativa de demolição de Constâncio (não simpatizo com o personagem), que, como sabem, não pode ser demitido de governador do BdP, por muito que o sr. Nuno Melo barafuste com óbvia má-educação (cf. Pacheco Pereira), e que já devia ter mandado a comissão de inquérito catar macacos, fossem quais fossem as consequências; a complacência com as fugas ao segredo de justiça; o apoio descarado à estratégia tablóide de alguns media; etc., etc., etc. Para já não falar no défice da economia e no dossiê Provedor de Justiça.

Isto são coisas que o BE e o PCP podem fazer. Estão lá para isso. Mas um partido que quer ser governo não pode. O que vai MFL, se chegar a São Bento, fazer com os professores? Fazê-los a todos titulares...? Convidar Mário Nogueira para ministro da Educação? E o desemprego cai a pique por obra e graça do Espírito Santo? E por aí fora.

Portanto, caro José Gomes André, eu, como eleitor, e eleitor PS, fico muito preocupado «com a possibilidade de estes mesmíssimos problemas» continuarem por resolver. Acho que fui claro o bastante.

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Terça-feira, Junho 23, 2009

COLECÇÃO DA K À VENDA


Os mais novos não se lembram da revista K, que se publicou entre 1990 e 1993, tendo Miguel Esteves Cardoso como director e Pedro Rolo Duarte como editor geral. O projecto gráfico é de João Botelho (o cineasta, sim). E, entre os colaboradores, gente do quilate de Vasco Pulido Valente, que publicou lá, em primeira mão, alguns dos seus ensaios decisivos; Agustina Bessa-Luís, João Bénard da Costa, Maria Filomena Mónica, António Barreto, Francisco José Viegas, Helena Vaz da Silva, Carlos Quevedo, Eduardo Guerra Carneiro, Júlio Pereira, Manuel Hermínio Monteiro, Ferreira Fernandes, Rui Vieira Nery, Pedro Ayres Magalhães, António Cerveira Pinto, Rui Zink, etc., além de fotografia de superior qualidade de Inês Gonçalves, Augusto Brázio, Álvaro Rosendo e outros. A nata da época. Espírito cool. Não voltou a haver nada parecido. Um melting pot de arte, política, sociedade, literatura, nonsense, entrevistas corrosivas, tudo o que hoje a imprensa tem pudor em dizer ou explicar. A imagem ao alto mostra o primeiro número.

A que vem o arrazoado? Um amigo divorciou-se, não tem espaço na nova casa para a parte da biblioteca que era dele, decidiu desfazer-se de tudo o que era revista. As avulsas mandou entregar na junta de freguesia. A ex-mulher ficou com a colecção completa da Colóquio-Letras. Vai bem com as estantes, diz ela, que é prof de Letras. Ele ficou com a K. Mas acha um desperdício ficar com ela só por ficar. Foi a um alfarrabista apreçar. Pediram-lhe 100 euros pela colecção completa. Achou excessivo. Pôs anúncio no ebay por 70 euros. Mas como o ebay se calhar é pouco consultado por cá, pede-me (e faço-o com todo o gosto) que divulgue no blogue: «Vende-se por 70 euros colecção completa (32 números, 1990-93) da revista K em bom estado de conservação.» Usar, para eventual contacto, o e-mail deste blogue:
daliteratura@gmail.com


Adenda. A revista vendeu-se 20 minutos depois de publicado este post. Lamento só agora informar, mas não vivo agarrado ao computador. Embora o tenha feito pessoalmente, reitero o agradecimento aos 42 potenciais compradores (até às 16:35h).

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Segunda-feira, Junho 22, 2009

CALCANHAR DE AQUILES


Parece que, se por hipótese o PSD ganhar as legislativas de Setembro, Manuela Ferreira Leite pretende governar sozinha, ora com apoio parlamentar do CDS-PP, ora com apoio parlamentar do PS. Há um porém. Manuela deve ter memória: nas legislativas de 2002, quem impôs condições foi Paulo Portas. Foi o líder do CDS-PP quem lembrou a Barroso que, sem ele, a direita não tinha maioria. Foi essa aliança, imposta por Portas na noite das eleições, que obrigou Barroso ao governo de coligação. Perante a evidência, Sampaio deu luz verde à maioria PSD/CDS-PP. Portanto, se daqui a três meses o PSD obtiver 38% e o CDS-PP 7%, é provável que a direita do arco governativo consiga eleger 116 deputados. Mas Portas terá de ser tido em conta, como em 2002. Bem pode o baronato do PSD pensar o contrário, que Portas exigirá, no mínimo, ser ministro de Estado.

Eu, se fosse votante PSD (não sou), começava a tomar doses cavalares de sertralina. É que um hipotético futuro governo do PSD vai ter de explicar muito bem explicada a necessidade do TGV para Madrid — o qual se fará com Sócrates, com Manuela ou outros quaisquer —; a desnecessidade (como diria Mia Couto) do TGV para o Porto; o novo aeroporto de Lisboa (até porque o lobby que o mudou da Ota para Alcochete vai apresentar a factura); vai ter de lidar com os bonés dos polícias; vai ter de aguentar o sr. Mário Nogueira e as manifs da Fenprof (outra factura incómoda); vai ser obrigado à dança do ventre por cada Quimonda ou Autoeuropa que fechar de vez; vai ter de convencer 700 mil funcionários públicos da necessidade de lhes congelar os salários — MFL teve a coragem de dizer que o faria —; vai ficar com o mono do BPN nas mãos; vai ter de entender-se com os clientes do BPP; e ainda vai ter de aturar por mais dois anos (salvo erro) o dr. Vítor Constâncio, o qual, se não sair pelo seu pé, de livre vontade, não pode ser demitido. É muita areia para a camioneta da Buenos Aires. Paulo Rangel admite com veemência uma coligação com o CDS-PP, partido onde militou; mas Nuno Morais Sarmento pensa exactamente o contrário. O economista Daniel Bessa, um independente conotado com a ala direita do PS, que foi ministro da Economia do primeiro governo de Guterres, abandonou o cargo ao fim de seis meses. Mas, quem diria!, foi Bessa que MFL escolheu para coordenar o Fórum Portugal de Verdade. Verdade que o primeiro governo de Cavaco (1985-87) não tinha maioria; nem os dois de Guterres (1995-2002), mas Guterres fugiu assim que sentiu o fedor do pântano. Et pour cause. E a procissão ainda vai no adro.

Adenda. Um leitor atento e amigo lembra-me, com propriedade, que um resultado de 45% de um partido, ou de uma coligação, pode garantir maioria absoluta, sim senhor; mas isso já não é verdade se os 45% resultarem (como exemplifico em cima) da soma de 38% com 7%. Fica feita a correcção matemática, tendo em vista as regras do sistema eleitoral vigente. Em todo o caso, o meu exemplo é meramente retórico.

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Domingo, Junho 21, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Desconfio sempre dos escritores que ganham todos os prémios. O brasileiro Bernardo Carvalho (n. 1960), com toda a obra editada em Portugal pela Cotovia, é um desses casos. Recentemente deu uma interessante entrevista ao Ípsilon, conduzida por Alexandra Lucas Coelho. O seu último romance, O filho da mãe, um projecto encomendado (o autor teria de passar três meses numa cidade estrangeira e situar lá o plot), tem São Petersburgo como cenário. O título tem que ver com o facto de existir uma associação de mães que zela pelos interesses dos filhos destacados à força para a Tchetchénia. Bernardo Carvalho viveu em São Petersburgo durante uns meses. Um susto. O livro fala da nova Rússia. A Rússia dos arqui-milionários, do consumismo desenfreado, das máfias. A Rússia que deixou de ser URSS mas não abdicou do ocupar a Tchetchénia. Fala de desespero e humilhação: oficiais do exército russo que obrigam recrutas e soldados a prostituirem-se com homens. Isso é prática corrente, denunciada em revistas de grande circulação e até no 60 Minutos. Porquê? Porque, não havendo (ou sendo escasso o) dinheiro para o pré, o negócio rende para os dois lados: o oficial-proxeneta e o magala abusado. Bernardo Carvalho escreve realmente muito bem. Por acaso é gay. O filho da mãe acaba por ser uma história de amor (Genet não anda longe), um outing de viés, que empolga e se lê de um fôlego. Adenda. Alerta-me João Paulo Sousa para o seguinte: Bernardo Carvalho não tem, como escrevi acima, toda a sua obra editada em Portugal pela Cotovia. Há um volume editado pela Asa, Medo de Sade (2000), e outros dois, um de 1995, outro de 1996, que continuam por editar. Obrigado, João Paulo. A Cotovia editou seis títulos do autor, incluindo o primeiro, Aberração, 1993.


Henrique Raposo: «[...] Saber esperar é uma virtude. E saber as prioridades também. Lisboa/Madrid é necessário. Lisboa/Porto é grã-finismo tonto.»

João Gonçalves: «[...] Como em tudo neste país, tudo tem donos. E os donos não abdicam das suas pequeninas trelas, das suas capelinhas, dos seus cortesãos. Sena voltou a Portugal para o “10 de Junho” de 1977, a convite de Eanes, e fez o melhor discurso até hoje proferido nessas tétricas comemorações. [...]»

Jorge Ferreira: «Já antes das últimas eleições legislativas de 2005 aconteceu a mesma coisa. Personalidades de várias áreas decidem esquecer os egos e reunem-se para fazer manifestos temáticos. Ou sobre as agruras da economia, ou sobre os temores da educação, ou, mais prosaicamente, sobre os horrivelmente chamados “grandes desígnios nacionais”. Há um denominador comum, sempre, entre a maioria destas mentes preocupadas: estiveram quase todos no Governo onde enriqueceram o curriculum, mas pelos vistos, empobreceram o país, vista a sobrevivência de tanta preocupação nas respectivas consciências. O que acho estranho é que o ano tem 365 anos e a legislatura tem 4 anos, mas estas almas só se revelam na véspera de eleições. O que fazem entretanto? Esquecem as preocupações, ou têm mais que fazer? Agora saiu um manifesto pelo adiamento das grandes obras públicas por causa da crise. Estiveram à espera que o PS perdesse umas eleições para falar. Suspeito.»

José Pacheco Pereira: «Paga-se um preço por criticar os jornais, embora muita gente que os leia não se aperceba das pequenas vinganças e desconsiderações. A capa do i de hoje é um bom exemplo. Não me pronuncio, como é óbvio, sobre a “entrevista” de Menezes que está ao seu nível e que não me surpreende. Mas surpreende-me que um jornal que se pretende sério escolha uma frase insultuosa para título, e isso é de sua responsabilidade. / Sucede que, na quarta-feira passada, o i tinha-me pedido uma entrevista de fundo. Por consideração com a Maria João Avilez que ma pediu, dei a entrevista, estando presente uma equipa de televisão e um fotógrafo do jornal. Mas enganei-me quanto à seriedade do jornal a que dei a entrevista, pelo que, a não haver um pedido de desculpas pela afronta, não autorizo a sua publicação, facto que já comuniquei à Maria João Avilez.»

José Simões: «Desculpem lá a ingenuidade, mas estes 28 crânios não são aqueles que defendem que a recuperação da economia nacional e a competitividade das empresas portuguesas passa por congelar ou até reduzir salários (que não os próprios)? / [que] desempenharam quase todos eles funções governativas nos últimos 35 anos; não estiveram quase todos eles à frente do sistema — com toda a carga pejorativa que o termo “sistema” carrega — bancário português; [que] enquanto responsáveis e/ou titulares de cargos, nunca fizeram a ponta de um corno para evitar termos desembocado num beco quase sem saída. Antes pelo contrário, trataram da vidinha e atenderam aos lóbis amigos e amigos do “sistema”. E é de tratar da vidinha que isto trata. Isto é para levar a sério? [...] Adenda: uma resposta que nunca iremos ter é, se os resultados das europeias tivessem sido diferentes este “manifesto” teria visto a luz do dia?»

Osvaldo Manuel Silvestre: «Nunca a expressão “cidadãos-jornalistas” foi tão apropriada. Talvez por isso, as forças do regime tenham começado agora a destruir telemóveis, atacando os seus utilizadores, o que se parece muito com desespero. A velha confusão entre a notícia e o seu portador, com o espectáculo do seu ódio deslocado. Ou talvez não: porque agora a notícia coincide com o portador, e é para este efeito de hipermediação, e hipergeração, que o regime iraniano não está, como é manifesto, preparado (algum estaria?). Preparou-se para a sabotagem electrónica, é verdade, segundo a economina do modelo clássico da contra-informação, ainda «realista», modelo que subjaz também à proibição e extradição física do jornalista, esse tropo da epistemologia (e da epopeia) moderna da verdade como “correspondência”. Mas não podia prever que as ruas de Teerão se tornassem um instantâneo, e infinitamente reduplicado, palco global, com todas as encenações e todas as verdades produzidas pela tecnologia dos média. Ou que a esfera pública finalmente realizasse todas as promessas do Iluminismo e não conhecesse limites — fisicos, sociais, “nacionais”, civilizacionais — à realização de todo o seu potencial emancipatório. Não é, de facto, uma revolução, o que está a ocorrer em Teerão, mas muitas ao mesmo tempo. E, como nas revoluções, o que surpreende não é apenas que ocorram num tempo de repente fora dos eixos, mas que ocorram ali, onde supostamente não haveria condições para tal. [...]»

Pedro Lains: «Só li em diagonal e fui logo ler o que Silva Lopes diz, pois é de quem mais gosto e, claro, há lá razões fortes. Como em outras partes. Não há dúvida de que é um exercício extremamente bem feito. Sem dúvida que vou ler com mais atenção. [...] Não quer dizer que não se pense mais uns metros. Mas apenas uns metros. E não se deite fora o bebé com a água do banho, pois há trigo e joio nos investimentos projectados. É preciso não ter medo de ser bom aluno por vias não tradicionais.»

Rui Bebiano «[...] Não ter posição neste confronto, fazer de conta que não é connosco, ou, pior, tomar partido por Ahmadinejad só porque este se arvora em paladino do anti-americanismo, apenas revela cegueira e menosprezo pelos princípios básicos de uma ética democrática.»

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Sexta-feira, Junho 19, 2009

MOMENTO ZANDINGA


Um amiga portuguesa, imigrante no Canadá, não sabe se vai votar nas legislativas. Não sabe, porque, diz ela, não faz a mínima ideia do que pode acontecer perante três cenários possíveis: vitória do PS com maioria absoluta; possibilidade de maioria absoluta somando o PSD e o CDS-PP; possibilidade de maioria absoluta somando o BE com a CDU [PCP+PEV]. E pergunta: «Se uma destas três hipóteses se verificar, o que muda?» A pergunta tem a ver com o facto de estar a pensar voltar a Portugal dentro de 3 ou 4 anos. Respondi da forma como segue:


Hipotética renovação da maioria absoluta do PS, elegendo um mínimo 116 deputados:

Correia de Campos substitui Maria de Lourdes Rodrigues na Educação.
Maria de Belém substitui Ana Jorge na Saúde.
Maria João Rodrigues deixa o European Policy Centre (Bruxelas) para substituir Manuel Pinho na Economia.
Pinto Ribeiro substitui Alberto Costa na Justiça.
Manuel Maria Carrilho deixa a UNESCO (Paris) para substituir Pinto Ribeiro na Cultura.
O TGV Lisboa-Madrid é adjudicado antes do fim de 2009.
O TGV Lisboa-Porto é adiado para a 2.ª metade da legislatura.
O novo aeroporto de Lisboa é adjudicado antes do fim de 2009.
A 3.ª travessia do Tejo é adjudicada até ao início da Primavera de 2010.


Hipotética coligação ou acordo pós-eleitoral do PSD com o CDS-PP:

Medina Carreira ocupa, durante escassas semanas, o lugar de ministro das Finanças.
O TGV Lisboa-Madrid é adjudicado antes do fim de 2009.
O TGV Lisboa-Porto é adiado sine die.
O novo aeroporto de Lisboa é adjudicado antes do fim de 2009.
A 3.ª travessia do Tejo é adjudicada até ao início da Primavera de 2010.
Paulo Rangel troca Bruxelas pelo lugar de ministro-adjunto da 1ª Ministra.
A 1ª Ministra congela os salários dos funcionários públicos por 4 anos.
A 1ª Ministra congela o valor das aposentações dos funcionários públicos sine die.
A 1ª Ministra congela o valor das pensões da Segurança Social sine die.
Assim que terminar o mandato de Vítor Constâncio, Miguel Cadilhe vai a governador do BdP.
O sistema de avaliação dos professores é transformado em progressões automáticas.
A ASAE é esvaziada de competências.
A ERC é extinta.
O dossiê BPN é arquivado.
O dossiê BPP é esquecido.
A imigração vê-se reduzida a mínimos residuais.
A lei da interrupção voluntária da gravidez é derrogada.
José Pacheco Pereira é nomeado embaixador de Portugal na UNESCO.
Paulo Portas, ministro da Defesa, tem dificuldades em ser recebido em Washington D.C.


Hipotético acordo pós-eleitoral do BE com um governo do PCP:

A Banca é nacionalizada.
Os salários dos empregados bancários são congelados.
A EDP e a GALP são nacionalizadas.
O investimento estrangeiro cai a pique.
O défice atinge 9%.
A inflação atinge 27%.
É imposto um tecto salarial aos administradores de empresas públicas: 4500 euros.
Portugal abandona a NATO.
O Tratado de Lisboa é rasgado.
Economistas prudentes evitam a saída de Portugal da zona Euro.
O Código do Trabalho é revogado.
As taxas moderadoras na saúde são abolidas.
Os hospitais privados são nacionalizados.
Uma compilação de resoluções de assembleias-gerais do MFA do período entre 11 de Março e 24 de Novembro de 1975 prevalece sobre a Constituição da República.
O rating internacional da República cai para níveis inferiores aos de 1919.
É aprovada legislação permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
É criado um imposto especial sobre riqueza (património de valor igual ou superior a cem mil euros).
O TGV Lisboa-Madrid é adjudicado antes do Verão de 2010.
O TGV Lisboa-Porto é adiado sine die.
O novo aeroporto de Lisboa é adjudicado antes do Verão de 2010.
A 3.ª travessia do Tejo é adjudicada até ao Outono de 2010.
Francisco Louçã é nomeado Procurador-Geral da República.
Mário Nogueira substitui Maria de Lourdes Rodrigues na Educação.
O sistema de avaliação dos professores é transformado em progressões automáticas.
Ao fim de 8/9 meses, o BE retira o apoio ao governo.


[Imagem de Mark Shaver.]

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Hoje, o programa Grandes Livros, que a RTP-2 emite às 21:10h, é dedicado ao romance Sinais de Fogo (1979), de Jorge de Sena, provavelmente a mais importante obra da literatura portuguesa de ficção de todo o século XX. Se clicar no título do romance, tem acesso ao vídeo promocional. Logo a seguir a uma das minhas falas, o senhor do megafone é Francisco de Sousa Tavares, no Largo do Carmo, antes da rendição de Caetano.


[A caricatura é do artista plástico Vasco.]

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ARMISTEAD MAUPIN


Hoje no Público:


O que representa contar uma vida «presa por pastilhas elásticas e arames», ou seja, à custa de um combinado de nevirapina, lamivudina e zidovudina? É isso que faz, com fina ironia, passe o absurdo, o escritor americano Armistead Maupin (n. 1944), famoso pelas suas histórias de São Francisco — Tales of the City, seis volumes publicados entre 1978 e 1989, os quatro primeiros traduzidos em Portugal —, que deram origem à premiada série de televisão de Alastair Reid. Essas histórias retratam a mudança de paradigma da cidade que foi o símbolo da revolução sexual dos anos 1970, por efeito da devastação provocada a partir de 1981 pela pandemia do HIV.

Armistead Maupin é um escritor e jornalista laureado, combateu no Vietname (1967-70) como fuzileiro naval, assumiu publicamente a sua homossexualidade em 1974 e, em 2007, casou com o fotógrafo Christopher Turner. Michael Tolliver está vivo, o seu mais recente romance, chegou às livrarias portuguesas numa tradução irrepreensível de Duarte Sousa Tavares.

Michael Tolliver não é um personagem novo no universo de Maupin. Quem tenha lido os livros anteriores recorda as suas divertidas incursões no National Gay Rodeo, um evento improvável, mas se há coisa de que Maupin não pode ser acusado é de previsibilidade. Um dia (daqui a 10 anos?, menos?), historiadores, antropólogos e sociólogos não vão poder ignorar que o Leitmotiv da ficção anglo-americana pós-1980 foram as consequências da identificação do HIV, com toda a carga moral que os anos Reagan associaram à doença. Nesse particular, os livros de Maupin estão na primeira linha do enfoque. Porque se há uma diferença brutal entre a ficção, apesar de tudo “macia” (e alusiva), de escritores como Edmund White ou David Leavitt, e a crueza da vida como ela é, essa diferença é peremptória nos relatos desapiedados de Maupin, mais próximos dos testemunhos de Andrew Holleran ou Dennis Cooper. Como se estivéssemos a comparar António Lobo Antunes e Mário Cláudio (o exemplo tem como única utilidade dar um contraponto nacional facilmente perceptível por toda a gente). Maupin não generaliza, nem reduz a brutalidade da doença ou o glamour mediático de certos sectores da comunidade gay a episódios de vituosismo narrativo, como faz, por exemplo (e de forma superlativa), Augusten Burroughs.

Logo na segunda página de Michael Tolliver está vivo, a propósito de um encontro fortuito num supermercado (um dos personagens não se lemba das circunstâncias em que conheceu o outro), a súbita lembrança de certo pormenor anatómico marca o tom da assertividade como, no mundo de língua inglesa, o quotidiano das pessoas comuns se transforma em literatura. Decerto não por acaso, o realismo mágico (uma forma como qualquer outra de iludir a realidade) é uma invenção latino-americana.

A crítica tem-se dividido entre os que consideram Michael Tolliver está vivo como sendo o 7.º volume das histórias de São Francisco. Não é. Muita coisa mudou desde 1989 (a casa de Barbary Lane desapareceu), e o Michael Tolliver de agora é um homem mais velho, que reflecte na passagem do tempo. Contra todas as probabilidades, sobreviveu à doença. E o Viagra abriu-lhe novas possibilidades. Michael Tolliver está vivo integra o núcleo dos romances autónomos, entre eles o muito apreciado The Night Listener (2000), adaptado ao cinema por Patrick Stettner, com Robin Williams no protagonista. Diferença desde logo decisiva, o facto de Michael ter agora um amante 20 anos mais novo do que ele.

Por falar em amantes, um aspecto determinante deste novo livro tem a ver com o facto de o narrador falar do seu ‘marido’, por oposição à fórmula tradicional do ‘companheiro’. Opção que traduz, sem rodeios, o quadro legal dos últimos anos, em que cinco Estados norte-americanos legalizaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo: «Sumter, entretanto, tinha ficado imediatamente fascinado pelo meu marido, espalhando os fantoches a seus pés como se fossem ofertas a um deus loiro.»

As mulheres são importantes em Michael Tolliver está vivo, isso não é novidade na obra do autor. Enganam-se os que possam supor que o livro é sobre saunas e bares de engate. Afinal, São Francisco não é só o Castro. Um leitor sem preconceito pode lê-lo com o mesmo prazer (nas descrições da vida de bairro, das pequenas profissões, das querelas familiares, etc.) como lê Jane Austen ou Saul Bellow. Maupin nunca doura a pílula. Mas também não vê o mundo a preto e branco. A tonalidade e as harmónicas da sua escrita permitem-nos sonhar com os pés assentes na terra.


O mundo não acaba no Castro, in Ípsilon, 19-6-2009, p. 42. Cinco estrelas

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