quinta-feira, 4 de março de 2021

PARA O LEITOR RELUTANTE


Acaba de sair mais um livro vermelho da Guerra & Paz, desta vez um cânone para o leitor relutante.

Falo de Vamos Ler!, de Eugénio Lisboa, suma de cinquenta obras de 35 autores portugueses, um deles ainda vivo. Destinado a leitores relutantes, ou seja, a leitores não-adictos, exclui autores que, «embora grandes ou notáveis, não se adequam ao [imperativo de] atrair leitores. Isso explica as ausências de, entre outros, Aquilino, Nemésio, Cesariny e Herberto.

Eugénio Lisboa faz a defesa das obras escolhidas, esclarecendo o critério de escolha. Sínteses biográficas de cada autor ajudam o leitor relutante a contextualizar a obra.

Há remoques contra a crítica highbrow e certos tiques do Meio.

Vamos ler!

Clique na imagem.

quarta-feira, 3 de março de 2021

CTT & LISBOA


Sempre que tiver razões de queixa dos CTT, lembre-se que Carlos Moedas foi um dos principais artífices da privatização da empresa.

Se vive no concelho de Lisboa, não se esqueça disso quando for votar para a Câmara Municipal nas próximas eleições autárquicas.

Um dos melhores serviços europeus de correios enquanto prestaram serviço público, os CTT conseguem a proeza de ser, em 2021, piores do que eram nos anos 1950. Motivo: a privatização efectuada entre Dezembro de 2013 (apenas 70%) e Setembro de 2014 (os restantes 30%). Uma herança dos anos de chumbo.

Carlos Moedas não precisou de ser ministro para ser o elemento-chave do Governo PSD/CDS. Oriundo da Goldman Sachs e do Deutsche Bank, ocupou o cargo de secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, sendo o interlocutor privilegiado da troika. 

Comissário Europeu para a Investigação, Inovação e Ciência (2014-19), actual administrador da Fundação Calouste de Gulbenkian, Moedas foi o coelho que Rui Rio tirou da cartola para fazer frente a Medina, mas o mais próximo que se lhe conhece sobre a gestão da cidade tem a ver com a direcção da Aguirre Newman Cosmopolita, uma imobiliária do segmento de luxo.

Não há escolhas inocentes.

Na imagem, Carlos Moedas e a mulher, Céline Abecassis-Moedas, directora de Formação de Executivos da Católica Lisbon SBE, ex-administradora dos CTT privados. Clique.

MARIA JOSÉ VALÉRIO 1933-2021


Vítima de Covid-19, morreu hoje a cantora Maria José Valério, a Menina dos Telefones e de Olha o Polícia Sinaleiro, dois dos maiores êxitos de vendas da canção popular portuguesa.

Estreada na Emissora Nacional em 1952, intérprete da Marcha do Sporting, também fez  teatro de revista, cinema e televisão.

Em 1962, o seu casamento com o toureiro José Trincheira foi celebrado por Manuel Gonçalves Cerejeira, então cardeal-Patriarca de Lisboa, e transmitido em directo, a partir do Mosteiro dos Jerónimos, pela RTP. O matrimónio foi abençoado pelo Papa João XXIII.

Nos anos 1970, uma longa tournée levou-a a França, ao Canadá, Brasil (onde permaneceu quase um ano), África do Sul, Moçambique, Angola e Espanha.

Faria 88 anos no próximo mês de Maio.

Na imagem, Maria José Valério em 1972. Clique.

terça-feira, 2 de março de 2021

UM ANO


Faz hoje um ano que foi registado em Portugal o primeiro caso de Covid-19.

Os números da imagem são de ontem. Provam que estamos quase na previsão feita por Graça Freitas ao Expresso, em entrevista publicada a 29 de Fevereiro do ano passado, admitindo que 10% da população portuguesa seria infectada. Infelizmente, a própria directora-geral da Saúde não escapou ao vírus, do qual recuperou.

Entretanto, muita água passou sob as pontes.

Imagem: Worldometer. Clique.

segunda-feira, 1 de março de 2021

AXIMAGE


Sondagem da Aximage para a TSF, o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias, divulgada hoje.

Parece confirmar-se a volatilização do CDS.

Clique no gráfico da TSF.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

SENA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Camões Dirige-se Aos Seus Contemporâneos, de Jorge de Sena (1919-1978), nome maior do século XX português. O poema foi escrito no Brasil, país onde Sena viveu entre 1959 e 1965 e lhe nasceram dois dos nove filhos.

Poeta, romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, crítico, historiador da Literatura, especialista em Camões e Pessoa, tradutor de Kavafis, Dickinson e outros, organizador de antologias, professor de literatura, intelectual público, Sena nasceu em Lisboa a 2 de Novembro de 1919, falecendo em Santa Bárbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978. Tinha 58 anos.

Antes de ingressar na Escola Naval, foi aluno de Rómulo de Carvalho (o poeta António Gedeão) no Liceu Camões, de Lisboa. Após uma viagem no navio-escola Sagres, entre Outubro de 1937 e Fevereiro de 1938, foi expulso da Marinha de Guerra. Sob o pseudónimo de Teles de Abreu, publicou os primeiros textos em Março de 1939. O primeiro livro, Perseguição, saiu em 1942. Concluiu o curso de engenharia civil em Novembro de 1944.

Depois do serviço militar, ingressou no ministério das Obras Públicas e fez um estágio de engenharia em Inglaterra. Em 1949 casou com Maria Mécia de Freitas Lopes, irmã de Óscar Lopes.

Em 1955, a PIDE apreendeu As Evidências, rotulando o livro de subversivo e pornográfico. Em Março de 1959 envolveu-se no frustrado Golpe da Sé e, em Agosto, partiu com a família para o Brasil. Começou a dar aulas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (São Paulo), tendo, à margem da docência, sido director literário da Editora Agir, do Rio de Janeiro. Em paralelo, fez conferências, participou de congressos, colaborou largamente na imprensa e com os círculos anti-salazaristas no exílio.

Em 1960 publicou a primeira colectânea de contos, Andanças do Demónio. Tornou-se cidadão brasileiro em Março de 1963. Doutorou-se em 1964 com uma tese sobre Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular. Em consequência da ditadura militar brasileira, instaurada em 31 de Março de 1964, foi demitido do ensino. Em Outubro de 1965, mudou-se com a mulher e os filhos para os Estados Unidos. Contratado pela Universidade do Wisconsin-Madison, transferiu-se mais tarde (1970) para a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Era professor catedrático efectivo de Literatura Portuguesa e Brasileira desde 1967. Sucedem-se as viagens à Europa, onde participa em colóquios e congressos internacionais.

A 22 de Dezembro de 1968 tentou entrar em Portugal, mas foi detido pela PIDE na fronteira de Valencia de Alcántara. No mesmo dia, José Blanc de Portugal intercede junto de Marcello Caetano e, ao fim de poucas horas, concedem-lhe visto de entrada. Fica dois meses em Lisboa. Em Julho de 1972 visita Moçambique, proferindo três conferências em Lourenço Marques.

Antes de morrer publica três livros memoráveis: Conheço o Sal... e Outros Poemas (1974) e Sobre Esta Praia... Oito Meditações À Beira do Pacífico (1977), ambos de poesia, e os contos de Os Grão Capitães (1976). Em 1977 recebeu o prémio internacional de poesia Etna-Taormina e, a convite de Eanes, discursou na Guarda no 10 de Junho.

Da vasta bibliografia — cerca de cem títulos em todos os géneros, incluindo volumes de correspondência — faz parte o romance póstumo Sinais de Fogo, publicado em 1979.

A universidade portuguesa nunca foi capaz de lhe oferecer um lugar. Vindos da Califórnia, os seus restos mortais foram transladados para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, em Setembro de 2009. O centenário do seu nascimento foi assinalado em 2019 de forma parcimoniosa.

Escrito em 1961, o poema desta semana pertence ao livro Metamorfoses (1963). A imagem foi obtida a partir da 1.ª edição da obra, publicada pelo Círculo de Poesia da Livraria Morais Editora, de Lisboa.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny e Natália Correia.]

O ESTADO DA NAÇÃO

Sondagem da Aximage para a TSF, o DN e o JN, divulgada hoje.

Apreciação positiva para o PR (68%), o PM (56%) e o Governo (50%). Do lado da Oposição, o BE despenca. O CDS desaparece.

Imagens: TSF. Clique.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

TERESA


Com Estranhezas, Maria Teresa Horta foi a vencedora do Prémio Literário Casino da Póvoa. O anúncio foi feito há pouco, na abertura da 22.ª edição do festival Correntes d’Escritas. 

Nas palavras do júri, o livro faz a «síntese de um percurso poético ancorado na celebração do corpo e do desejo, que estabelece um diálogo transgressor com a tradição lírica e medieval e renascentista [...] fazendo-as implodir num erotismo vital, que se exerce numa contínua experimentação dos limites da nudez e mistério da palavra.» 

Poeta e ficcionista, Maria Teresa Horta, nascida em Lisboa em 1937, publicou o primeiro livro de poesia em 1960, e o primeiro romance em 1970. Com Tatuagem integrou o núcleo fundador do grupo Poesia 61. Feminista heterodoxa, foi co-autora de Novas Cartas Portuguesas (1972), obra pela qual teve de responder em tribunal, num processo — conhecido como das Três Marias — que suscitou ressonância mediática planetária. Da sua vasta bibliografia poética destacaria Candelabro (1964), Minha Senhora de Mim (1971), Educação Sentimental (1975), Os Anjos (1983), Poemas para Leonor (2012), A Dama e o Unicórnio (2013) e o livro ora laureado.

Na área da ficção o destaque não pode ir senão para As Luzes de Leonor (2011), monumental romance sobre a marquesa de Alorna, sua ancestral. Mas Ema (1984) e A Paixão Segundo Constança H. (1994), dois exemplos entre outros, são prova de que alguma da melhor ficção portuguesa tem sido escrita por poetas.

Mulher de Esquerda, Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Maria Teresa Horta foi jornalista durante mais de trinta anos, tendo, no vespertino A Capital, coordenado o suplemento Literatura e Arte. Foi ainda crítica de cinema e dirigente do ABC Cineclube de Lisboa. Um dos seus poemas mais celebrados, Verão Coincidente (1962), deu origem a uma curta-metragem de António de Macedo. Como tradutora, devemos-lhe Ópio, de Cocteau.

Entre outros prémios e distinções, recebeu em 2011 o Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus. Em 2017 recusou receber o Prémio Oceanos que lhe fora atribuído ex-aequo com o escritor brasileiro Bernardo Carvalho.

Parabéns, Teresa. 

Clique na imagem.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

Para surpresa de muitos, o Nobel da Literatura 2020 foi atribuído a uma poeta praticamente desconhecida em Portugal. Falo da norte-americana Louise Glück (n. 1943), oriunda de uma família de judeus russos e húngaros. Traduzido por Ana Luísa Amaral, A Íris Selvagem venceu o Pulitzer de Poesia em 1993. Conjunto de 54 poemas em torno de um jardim, alegoria de Deus, cerca de vinte têm o mesmo título: Matinas e Vésperas. Logo a abrir, o poema titular dá o mote: «É muito duro sobreviver assim, / a consciência / sepultada na terra escura.» Onde lemos rosas, violetas, íris, etc., estão pessoas. Elíptica, nimbada de certa tonalidade bíblica, a poesia de Glück demarca-se ostensivamente do que convencionou chamar-se “poesia do real”. Se começar por ler “Final de Inverno”, “Vento em Fuga” ou “A Porta”, vai querer ler tudo, incluindo os outros três livros da autora já disponíveis. Agora é só aguardar por The Triumph of Achilles, uma das suas obras mais notáveis. Publicou a Relógio d'Água.

Traduzido directamente do russo por Larissa Shotropa, foi publicado Garganta de Aço, primeiro volume dos contos completos de Mikhail Bulgakov (1891-1940). Seriados cronologicamente, incluem “Apontamentos de um jovem médico”, ciclo sobre o início da sua actividade clínica em Smolensk. Em jeito de autobiografia ficcionada, Bulgakov não poupa o leitor aos detalhes de uma traqueotomia. Mais tarde, Bulgakov tornou-se escritor a tempo inteiro, mas acabou por cair em desgraça junto de Estaline. Só trinta anos após a sua morte as obras começaram a ser divulgadas. Por exemplo, a primeira edição não censurada de O Mestre e Margarita é de 1973. Um clássico entre clássicos. Publicou a E-Primatur.

O poeta e ensaísta espanhol Antonio Gamoneda (n. 1931) publicou Um Armário Cheio de Sombra, memórias da infância e adolescência de um rapaz pobre das Astúrias, nos anos de sombra da Guerra Civil de Espanha. O relato seco da miséria extrema, dos abusos do colégio de frades, da repressão franquista, da morte do pai (a seu pedido, após um derrame cerebral, a mulher provocou-lhe uma overdose de morfina), do primeiro emprego, antecipando a idade adulta para os catorze anos, fazem deste livro um testemunho admirável. Publicou a Minotauro.

Quem gosta de ficção histórica ambientada na Idade das Trevas e, em especial, dos livros de Ken Follett (n. 1949), vai com certeza apreciar Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era, prequela de Os Pilares da Terra. O novo livro recua até ao ano 997dC, durante os ataques a Inglaterra vindos do Leste (os viquingues) e do Oeste (os galeses). A estrutura romanesca não difere dos anteriores, embora não esteja focado numa grande construção. Desta vez, sobrelevam os efeitos colaterais da política. Eventuais especulações sobre dados históricos não beliscam o prazer da leitura. Afinal, trata-se de um romance de aventuras bem esgalhado. Publicou a Presença.

Com Mulheres da Minha Alma, a chilena Isabel Allende (n. 1942) acrescentou um título à extensa bibliografia feminista. Rebelde contra a autoridade masculina, fala das mulheres da sua alma: sua mãe, sua filha Paula e a amiga e agente Carmen Balcells. Mas também de Olga Murray (a salvadora de meninas nepalesas), das escritoras de eleição e de bruxas. Numa linguagem alheada de jargão académico, escalpeliza a realidade chilena, mas também a de outras latitudes, como a norte-americana. Uma boa surpresa. Publicou a Porto Editora.

Romancista, dramaturgo e ensaísta, é sempre gratificante voltar a Don DeLillo (n. 1936), o derradeiro guru da literatura norte-americana. Depois de ter escrito sobre temas tão diversos como o advento da Era digital, o assassinato de Kennedy, fraude fiscal, linguística, dissuasão nuclear, artes performativas, adultério, terrorismo, Wall Street, desporto, televisão, o 11 de Setembro (o melhor romance sobre a tragédia de 2001 continua a ser O Homem em Queda), velhice, etc., chegou a vez de escrever sobre o futuro próximo. Publicado em plena pandemia, O Silêncio, romance minimal que podia ser uma peça de teatro, centra-se no Super Bowl de 2022. Em Nova Iorque, defronte de um televisor, ansiosas pela final do campeonato, três pessoas aguardam a chegada de um casal amigo regressado de Paris (ignoram que o avião de Jim e Tessa tenha tido que fazer uma violenta aterragem de emergência). Até que tudo pára: televisores, laptops, relógios, telefones. Com o colapso geral da energia, a cidade está mergulhada na escuridão. Apocalipse da Internet provocado pela China? Ciberataque de origem russa? Início da Terceira Guerra Mundial? Invasão extraterrestre? Nenhum dos cinco sabe o que pensar. Deveras inquietante. Publicou a Relógio d'Água.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

LAWRENCE FERLINGHETTI 1919-2021


Vítima de doença pulmonar intersticial, Lawrence Ferlinghetti morreu anteontem à noite na sua casa em São Francisco.

Faria 102 anos no próximo mês de Março. Poeta, escritor, crítico de arte, tradutor, artista plástico, editor e livreiro, ocasional activista político, Ferlinghetti foi quem, a partir de 1953, deu a conhecer ao mundo a Geração Beat. Sem ele, provavelmente não haveria tão cedo Ginsberg, Kerouac, Corso e outros.

Ferlinghetti não conheceu os progenitores: o pai morreu de síncope cardíaca ainda ele não era nascido, a mãe abandonou-o recém-nascido antes de ser internada num hospital psiquiátrico. Foi uma tia que o levou para Estrasburgo, onde passou a infância (o francês foi a primeira língua que aprendeu). De regresso a Nova Iorque, a tia Émilie tornou-se governanta em casa de uma família rica, os Bisland, que proporcionaram a Ferlinghetti uma educação esmerada em colégios privados.

Depois dos primeiros estudos universitários alistou-se na Marinha de Guerra, tendo visto de perto as ruínas de Nagasaki. Depois da guerra estudou literatura, em Columbia, e mais tarde na Sorbone (Paris), mas mudou-se para São Francisco em 1951. E foi aí que tudo mudou: casou com Selden Kirby-Smith e abriu, com um amigo, a City Lights Pocket Book Shop. 

Preso e julgado por obscenidade por ter publicado Uivo — Howl and Other Poems, 1956 —, de Ginsberg, Ferlinghetti acabou  absolvido e o poema tornou-se um bestseller internacional. O livro tinha sido impresso em Londres, enviado para os Estados Unidos e apreendido assim que chegou às livrarias. 

Em 1958, o seu primeiro livro de poesia, A Coney Island of the Mind, vendeu mais de um milhão de exemplares. Mas houve congressistas a pedirem a interdição da obra que, na opinião deles, ridicularizava a crucificação de Cristo. Tudo muda e, em 1998, Ferlinghetti era Poet Laureate.

Entre poesia, ficção, teatro, memórias, diários de viagem e uma heterodoxa autobiografia publicada quando fez cem anos — Rapazinho, 2019 —, Ferlinghetti deixou mais de cinquenta títulos.

Em São Francisco, desde 2019, o dia do seu aniversário [24 de Março] é celebrado como Dia Lawrence Ferlinghetti.

Na imagem, Ferlinghetti em 2006. Clique.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

PASSARAM 40 ANOS


Eram 18:20 em Madrid quando, a 23 de Fevereiro de 1981, o tenente-coronel Antonio Tejero invadiu o Palácio das Cortes à frente de um pelotão de Guardas Civis. 

Nessa segunda-feira, as Cortes procediam à investidura de Leopoldo Calvo-Sotelo como Presidente do Governo de Espanha. Calvo-Sotelo sucedia a Adolfo Suárez, que renunciara a 29 de Janeiro.

Enquanto as Cortes eram invadidas, a cidade de Valência era ocupada por meia centena de tanques e três mil militares golpistas afectos ao general Alfonso Armada e ao tenente-general Jaime Milans del Bosch.

Através da televisão, era uma da madrugada de 24 de Fevereiro, Juan Carlos I, rei de Espanha, exortou os espanhóis a resistirem e a defenderem a Constituição: «A Coroa não pode tolerar de forma alguma acções ou atitudes de pessoas que tentem interromper pela força o processo democrático que a Constituição votada pelo povo espanhol determinou.» O discurso do rei desencorajou os revoltosos.

O sequestro das Cortes terminou ao meio-dia do dia 24. Por recusa peremptória do rei, abortou a tentativa de constituir um Governo provisório de salvação nacional. Um telefonema de Juan Carlos forçou a rendição de Alfonso Armada e Milans del Bosch. Tejero e outros golpistas foram presos. Calvo-Sotelo foi investido ao fim da tarde de 24 de Fevereiro.

O Supremo Tribunal condenou Alfonso Armada, Milans del Bosch e Tejero a 30 anos de prisão, embora nenhum tenha cumprido a pena na totalidade. Foram também condenados outros trinta golpistas. 

Na imagem, a foto que correu mundo: o momento em que Tejero ordena aos deputados que se atirem ao chão. Clique.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O NAVIO FANTASMA


Passados 50 anos sobre o Caso Angoche, o que se passou continua a ser um mistério.

Apenas se sabe que, no dia 24 de Abril de 1971, foi avistado à deriva, com fogo a bordo, entre as cidades de Quelimane e da Beira (costa de Moçambique), o navio de cabotagem Angoche, da Companhia Moçambicana de Navegação. O alerta foi dado no dia 27 pelo petroleiro Esso Port Dickson, com pavilhão do Panamá. Está por esclarecer o hiato de três dias. Curiosamente, Moçambique só reportou o caso a Lisboa a 6 de Maio. E foi a PIDE que o fez, tendo o relatório desaparecido depois do 25 de Abril.

O Angoche transportava material de guerra, treze tripulantes negros, dez tripulantes brancos e um cão. Não havia registo de passageiros, mas há quem sustente a presença de um. O navio tinha saído de Nacala na véspera, com destino a Porto Amélia (Pemba), no Norte, mas, em vez disso, rumou a Sul.

Quando, no dia 3 de Maio, a polícia marítima e a PIDE conseguiram entrar a bordo, encontraram apenas o cão. O cão e sinais de explosões na ponte de comando e na casa das máquinas, estando inoperantes todos os sistemas de comunicação. O material de guerra sumiu. Nas cabines dos tripulantes brancos não havia qualquer vestígio de pertences, como vestuário, calçado e objectos pessoais.

As polícias políticas da África do Sul (a BOSS) e da Rodésia (a CIO) juntaram-se à PIDE, mas nada de concreto transpirou para a opinião pública. 

O Angoche foi atacado? Em caso afirmativo, por quem? Golpe interno executado pela ARA? O que aconteceu aos 23 homens? Por que razão os tripulantes negros deixaram tudo a bordo, incluindo os coletes de salvação? Por que razão o radiotelegrafista se “esqueceu” de embarcar, ficando em Nacala? 

O navio foi rebocado para a baía de Lourenço Marques, onde chegou a 6 de Maio. Estando o navio a cem milhas da Beira, não teria sido mais lógico ser rebocado para lá? O suicídio de uma cabareteira da Beira, tida como próxima de um oficial da tripulação, adensou o mistério.

Nos círculos da oposição democrática moçambicana constava que a tripulação tinha sido levada para Dar es Salaam, na Tanzânia. Fantasia? Seja como for, o governo de Julius Nyerere desmentiu categoricamente. Também se falou de um submarino russo. Delírio? Parte desses homens voltou a Portugal? Quando e em que circunstâncias? Quanto sei, as famílias nunca comentaram o assunto.

Prevalecem duas versões: vários tripulantes, brancos e negros, teriam sido executados em Nachingwea, o campo de reeducação que a FRELIMO manteve na Tanzânia até aos anos 1990; os restantes teriam regressado a Portugal ao fim de alguns anos. Mas tudo isto são suposições.

Sobre o assunto estão publicados pelo menos três livros, um deles, o único que li, de Eduardo Metzner Leone. Se os media querem discutir a Guerra Colonial e, por arrasto, a descolonização, investiguem. Com a bibliografia disponível nem é necessário partir muita pedra.

Na imagem, o Angoche adernado na baía de Lourenço Marques em 1971.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

NATÁLIA CORREIA



UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi A Defesa do Poeta, de Natália Correia (1923-1993), poema com que a autora respondeu aos juízes do Tribunal Plenário durante o processo que lhe foi movido por ter organizado a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (1966). Natália foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa. Quando se encontraram em 1968 num acto oficial, Marcello Caetano recusou apertar-lhe a mão. 

Natural da ilha de São Miguel, Natália deixou os Açores aos 11 anos, vindo para Lisboa com a mãe e a irmã. Começou a publicar em 1947 e, como Jorge de Sena fixou numa síntese lapidar, impôs-se na vida literária «pela forma como soube transformar o escândalo numa espécie de terror sagrado do provincianismo embevecido

Além de poesia, publicou cinco romances, uma colectânea de contos, sete peças de teatro, cinco volumes de ensaio, um corrosivo diário dos anos da revolução (1974-75) e um livro de viagens. Organizou uma dezena de antologias: poesia galaico-portuguesa, barroco, surrealismo, erotismo, etc. Foi também editora, tradutora, conferencista, cronista, directora do Século e da revista Vida Mundial, dirigente na Secretaria de Estado da Cultura (1976-78) e, a partir de 1979, deputada independente, primeiro nas listas do PPD/PSD, depois nas do PRD.

Casou quatro vezes, mas o grande amor da sua vida foi um primo, José António Correia. A correspondência amorosa de ambos, por enquanto inédita, é do melhor que existe em língua portuguesa, garante quem leu.

Como editora da Arcádia, deslocou-se a Bissau para receber de Spínola o manuscrito de «Portugal e o Futuro». Natália telefonou ao general directamente do Botequim, o bar do Largo da Graça que abrira em 1971 com Isabel Meyrelles.

A sua casa da Rua Rodrigues Sampaio, onde sofreu o ataque cardíaco que a vitimou, acolheu o mais famoso salão literário de Lisboa. Por ali passou quase toda a gente que conta na vida cultural portuguesa. Entre estrangeiros, destaco Ionesco, Sartre, Michaux, Ievtuchenko, Graham Greene, Claude Roi e Henry Miller, mas foram mais. Sophia de Mello Breyner Andresen também por lá andou, e terá começado ali o atrito entre ambas.

Em 1969, a convite de Mário Soares, fez parte do núcleo fundador da CEUD. Opositora do Estado Novo, inimiga jurada de Salazar, opôs-se violentamente ao PREC. Embora as reuniões decisivas se realizassem noutro local, era no Botequim que os estrategas (como Melo Antunes e Vítor Alves) do 25 de Novembro se encontravam. Ao piano, Maria Paula levava a sala ao rubro com canções anti-gonçalvistas. Francisco Sá Carneiro, Snu Abecassis e Helena Roseta eram habitués.

O poema desta semana pertence ao livro A Mosca Iluminada (1972). A imagem foi obtida a partir do 1.º volume de O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, obra poética completa publicada em 1993 pelo Círculo de Leitores no mês em que a autora faleceu. Tinha 69 anos e deixou viúvo Dórdio Guimarães.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge e Mário Cesariny.]

sábado, 20 de fevereiro de 2021

COLONIZAÇÃO


A pretexto do colonialismo português, o deputado socialista Ascenso Simões interroga-se hoje no Público: «[...] porque é que os portugueses da metrópole só podiam trabalhar em Angola e Moçambique depois de obterem uma carta de chamada

Isto não é exacto.

Para Angola sempre foi quem quis, quando quis e como quis. Por seu turno, o Estado destacava militares, polícias, agentes da PIDE, quadros superiores da Administração Pública, médicos, professores e juízes. Integrados no denominado Quadro Comum, os dirigentes máximos podiam ser colocados em qualquer Colónia.

Ao contrário, para Moçambique, era exigida carta de chamada, prática apenas extinta na segunda metade dos anos 1960. O Estado mantinha a prerrogativa de destacar os militares, funcionários e magistrados acima referidos. A carta de chamada era um documento obrigatório, emitido pelo Ministério das Colónias, mais tarde designado como do Ultramar. Atestava garantia de trabalho, alojamento, sustento e repatriamento.

A carta de chamada é uma das várias razões (existem outras) que explicam a diferença entre as colonizações de Angola e Moçambique.

Acrescendo o facto de, entre 1501 e 1752, a Capitania Geral do Estado de Moçambique — com capital na Ilha de Moçambique — ter sido governada a partir de Goa. Isso mudou em 1753 e Lourenço Marques passou a capital em 1898.

Imagem: mapa do tempo do Estado Novo. Clique.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

INTERDITOS DA GUERRA

Agora não se consegue ler um jornal sem tropeçar em artigos de opinião sobre Marcelino da Mata, tenente-coronel Comando falecido no passado dia 11, vítima de Covid-19. Em uníssono, a Direita considera-o um herói. Parte da Esquerda considera-o criminoso de guerra. O Presidente da República e as mais altas chefias militares fizeram questão de estar presentes no funeral. O ministro da Defesa não, mas enviou à Lusa um comunicado a enaltecer enfaticamente a carreira do militar falecido. A ironia é que 9,9 em cada dez portugueses nunca ouviu falar do homem.

Em vez de artigos de opinião, muitos deles canhestros, a imprensa tinha aqui um bom pretexto para investigar o dark side da Guerra Colonial. Passados 60 anos sobre o início do conflito — 4 de Fevereiro de 1961 —, está na altura de avaliar o que aconteceu. Por exemplo, explicar o que foi a Operação Mar Verde, concebida e executada por portugueses, na Guiné, em Novembro de 1970.

A referida operação, uma espécie de Baía dos Porcos à portuguesa, tem todos os ingredientes para interessar um grande número de leitores. Vejamos: nesse distante Novembro de 1970, o então capitão-tenente Fuzileiro Alpoim Calvão liderou um ataque à capital da Guiné-Conacry. Intuito: capturar Amílcar Cabral, líder do PAIGC / libertar prisioneiros portugueses / proporcionar o desembarque de oposicionistas de Sékou Touré / destruir os caças russos Mig que se supunha estarem no aeroporto da cidade, bem como as lanchas rápidas fornecidas pela URSS ao PAIGC. Marcelino da Mata foi um dos principais protagonistas da operação, que seria mais tarde discutida na ONU, embora Portugal dissesse que desconhecia o assunto.

Spínola e Marcello Caetano deram luz verde ao golpe. Mas a única coisa que os homens de Alpoim Calvão conseguiram foi destruir as lanchas rápidas e libertar um número indeterminado (entre 25 e 40) de prisioneiros portugueses. Tudo o resto falhou. Amílcar Cabral não foi encontrado, não havia Migs no aeroporto de Conacry, os oposicionistas da FLNG não conseguiram eliminar Sékou Touré. Em vez disso, os cem homens da FLNG foram presos, torturados e executados pela República da Guiné.

Em vez das redacçõezinhas em que os colunistas andam entretidos, a imprensa podia ilustrar os mais jovens sobre uma guerra de que eles quase nunca ouvem falar.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

CARMEN DOLORES 1924-2021


Morreu hoje Carmen Dolores, uma das mais respeitadas actrizes portuguesas de teatro, cinema e televisão.

Estreou-se nos palcos em 1945, embora já antes fizesse teatro radiofónico. Antes de retirar-se em 2005, no Teatro Aberto, pertenceu às companhias do Teatro da Trindade, Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Nacional Popular e Teatro Moderno de Lisboa, interpretando clássicos como Raul Brandão, Tennessee Williams, Garrett, Dürrenmatt, Giraudoux, Brecht, Pirandello, Strindberg, Tchekhov, Turguêniev e outros. Como diseuse, foi grande divulgadora de poesia.

Viveu em Paris durante sete anos (1976-83), época durante a qual deu recitais de poesia no Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian da capital francesa.

No cinema trabalhou sob direcção de António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros, António de Macedo e José Fonseca e Costa. Em 2018, a sala principal do Teatro da Trindade, de Lisboa, passou a designar-se Sala Carmen Dolores. Foi várias vezes laureada e condecorada.

Publicou três livros de memórias: Retrato Inacabado (1984), No Palco da Memória (2013) e Vozes Dentro de Mim (2017). Faria 97 anos no próximo mês de Abril.

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

MST & VACINAS


Como se vê pela imagem, divulgada pelo Público no passado dia 12, Portugal contratualizou vacinas de cinco farmacêuticas, com a BioNTech/Pfizer à cabeça.

É pena que Miguel Sousa Tavares não tenha feito o trabalho de casa. Evitaria ter dito, como disse agora no Jornal das 8 da TVI, que o atraso na chegada das vacinas se deve a termos feito a maior encomenda à AstraZeneca/Oxford, talvez por ser «a mais barata». Mas o barato sai caro, acrescentou.

Como se vê pelo quadro, as doses da AstraZeneca/Oxford são pouco mais de metade das da BioNTech/Pfizer.

Lamentável, vindo de quem vem.

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domingo, 14 de fevereiro de 2021

CESARINY


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Pastelaria, de Mário Cesariny (1923-2006), o mais proeminente surrealista português.

Natural de Lisboa, Cesariny frequentou a Escola António Arroio e fez estudos de música com Lopes Graça. Além de notabilíssimo poeta, foi artista plástico, tendo recebido em 2005 o Grande Prémio de Arte da Fundação EDP. O espólio artístico encontra-se depositado na Fundação Cupertino de Miranda. 

Pelo facto de ser homossexual, viveu cinco anos (1953-58) com obrigação de apresentações regulares à polícia. Graças a bolsas da Gulbenkian, passou uma temporada em Paris, onde esteve preso, tendo, a partir de 1964, vivido vários anos em Londres.

Depois do 25 de Abril, alegadamente por veto do embaixador José Fernandes Fafe, o MNE recusou que ocupasse o cargo de adido cultural na embaixada de Portugal na Cidade do México. Em 1976 foi responsável pela representação portuguesa à Exposição Surrealista Mundial de Chicago.

Dias antes de morrer, Jorge Sampaio atribuiu-lhe Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Em testamento, Cesariny deixou mais de um milhão de euros à Casa Pia de Lisboa.

Aproveito para transcrever parte de um texto que publiquei em 2019 — «Tudo o afastava do establishment literário: de origem proletária, refractário aos salões bem pensantes, viveu de costas voltadas para a Academia, fez apostasia com o neo-realismo, teve problemas com a polícia de costumes, escreveu em jornais de Direita contra os militares e a Esquerda marxista, insultou gente influente e, pecado maior, nunca escondeu a sua predilecção por marujos.»

O poema desta semana pertence ao livro Nobilíssima Visão (1959). A imagem foi obtida a partir de Poesia, volume de obra completa publicado em 2017 pela Assírio & Alvim, organizado por Perfecto E. Cuadrado.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli e Luiza Neto Jorge.]

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

BAZUCA DA UE


António Costa assinou hoje em Bruxelas, em nome dos 27, o Fundo de Recuperação Europeu, vulgo Bazuca.

O dinheiro começa a chegar aos estados-membros no início do 2.º semestre, depois de aprovados todos os 27 planos. O português será apresentado para a semana.

Na imagem vêem-se, da esquerda para a direita, o primeiro-ministro português, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e David Sassoli, presidente do Parlamento Europeu.

Imagem: TVI. Clique.

OVO NO CU DA GALINHA


Foi você que pediu um drive-thru...? Esqueça.

Foram inequívocas as comunicações do primeiro-ministro e do Presidente da República.

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