sábado, 21 de janeiro de 2017

CRONOLOGIA DO HORROR

Dilma foi destituída. O Brexit venceu. Theresa May está disposta a pôr um ponto final nas negociações de saída se os antigos parceiros não fizerem o que ela quer. Vamos voltar a ser grandes, disse. Ter em conta o tiro de partida: ainda o Artigo 50 não foi accionado e o Reino Unido já se auto-excluiu do Mercado Único Europeu. A Turquia, membro da NATO, vive em situação de pré-ditadura, com mais de seis mil pessoas presas por delito de opinião. Apesar de uma vantagem de três milhões de votos, Hillary Clinton não sucedeu a Obama. Trump tomou posse e ditou as novas regras. Vamos reconstruir a América, disse. Marine Le Pen vai vencer as presidenciais francesas de Abril.

Hoje, em Koblenz, na Alemanha, tem início a Cimeira da Extrema-Direita Europeia: Marine Le Pen, da França, Frauke Petry, da Alemanha, Geert Wilders, da Holanda, Matteo Salvini, da Itália, Norbert Hofer, da Áustria, etc. A cimeira tem como objectivo prioritário levar os seus países a fechar as portas à imigração, acabar com o Espaço Schengen, sair da UE e da moeda única. Putin nunca se divertiu tanto. Por último mas não em último, Nigel Farage, antigo líder do UKIP, foi convidado (e aceitou) ser comentador político da Fox News. A sugestão partiu de Trump. Em pano de fundo, milhões de refugiados morrem gelados nos compounds da Turquia e da Grécia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

NOVA ERA

Quando forem cinco da tarde em Portugal, Trump toma posse como 45.º Presidente dos Estados Unidos. John G. Roberts Jr., juiz do Supremo, preside ao juramento. A inauguração (chama-se assim à tomada de posse) decorre como sempre num dos terraços de acesso ao Capitólio. Acontece que o executivo da Casa Branca ainda não tem luz verde do Congresso: dos seus quinze membros, apenas dois têm a nomeação validada, estando sete na iminência de serem chumbados.

Pelas piores razões, hoje é um dia histórico. Começa uma Nova Era e ninguém sabe exactamente o que isso significa. Não foi por acaso que Theresa May fez o discurso que fez no passado dia 17. Se o fizesse depois da posse de Trump, a primeira-ministra britânica passaria aos olhos de todos como marionete de Washington. O statement de Lancaster House foi imposto pela Nova Era. Ao decretar que o Reino Unido abandona imediatamente o Mercado Único Europeu, qualquer que seja a duração das negociações do Brexit, Theresa May deixou claro estar disposta a bater com a porta de forma unilateral e a qualquer momento. Isso só acontece porque a partir de hoje começa uma Nova Era.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ANNEMARIE & TEOLINDA


Hoje na Sábado escrevo sobre Todos os Caminhos Estão Abertos, de Annemarie Schwarzenbach (1908-1942), escritora e fotógrafa suíça, mas também arqueóloga, autora que tem sido tratada com indiferença pelos editores portugueses. Todos os Caminhos Estão Abertos, agora publicado, parece-me ser o segundo dos seus livros traduzido em Portugal. Em 2008, a Tinta da China publicou Morte na Pérsia, mas continuam por traduzir muitos títulos. Nem o facto de Annemarie ter vivido em Lisboa em 1941 (era então casada com um diplomata francês), ano em que a cidade foi ponto de passagem dos judeus em fuga do nazismo, suscita interesse de maior. Verdade que Annemarie é hoje uma figura de culto à margem da obra literária. A origem aristocrática, a beleza andrógina, a militância anti-fascista, as ligações amorosas com mulheres célebres (entre outras, Carson McCullers e Erika Mann), as histórias associadas às viagens que fez aos Balcãs, Turquia, Pérsia, Palestina, Iraque, Índia, etc., as expedições arqueológicas, as reportagens fotográficas da Grande Depressão americana, as tentativas de suicídio, a dependência da morfina e, last but not least, a circunstância de ter morrido aos 34 anos em consequência de ter caído de uma bicicleta, tudo contribui para o mito. Coligindo textos publicados na imprensa com inéditos, Todos os Caminhos Estão Abertos é o relato de uma viagem ao Afeganistão, entre 1939 e 1940, na companhia de Ella Maillart. As duas partiram de Genebra no carro de Annemarie e só a eclosão da Segunda Grande Guerra abreviou a aventura. No fatídico 1 de Setembro de 1939 estavam em Herat, sem saber do estado do mundo. A reportagem não está isenta de ironia. Annemarie não poupa na invectiva aos hábitos ocidentais, em especial britânicos, parodiando o seu (deles) formalismo por oposição à frugalidade adoptada por si e pela companheira: «nós viajámos sós, sem boy nem chauffeur e, até mesmo, sem gentleman.» A consciência da vaga nazi está presente na narrativa, em particular durante a travessia da Áustria. Apesar da empatia demonstrada pelas tribos afegãs, o tom é objectivo, quase neutro, porém “fotográfico”. É curioso verificar como a Cabul daqueles anos em pouco difere da Cabul descrita na actualidade. Mas tudo acaba em Port Said, no Suez. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Prantos, amores e outros desvarios, de Teolinda Gersão (n. 1940). Seria pleonástico insistir nos recursos discursivos da autora, patentes nos romances e contos que publicou a partir de 1981. A recente atribuição do Prémio Vergílio Ferreira, distinguindo o conjunto da obra, é um corolário justo. Catorze contos dão corpo a esta colectânea que assinala a sua passagem para o catálogo da Porto Editora. Numa escrita que flui com naturalidade, Teolinda narra episódios prosaicos com aparente displicência. Na realidade, esse universo “normalizado” não está isento de violência. Descrito num tom cordato, o quotidiano das pessoas comuns apresenta-se como o conhecemos: um labirinto de interditos. Traços distintivos que Teolinda manobra com exemplar eficácia: rigor vocabular, mordacidade, ausência de ênfase ou delíquio sentimental. Quase sempre histórias de mulheres da actual classe média urbana. A excepção é Alice in Thunderland, que fecha o volume. É o conto mais extenso, e afasta-se do imaginário precedente. Teolinda faz com ele a close reading da obra mítica de Lewis Carroll. Não foi a primeira nem será a última a ficcionar os recessos do reverendo Dodgson, mas, em português, ninguém escavou tanto. A tese é simples: Through a looking glass foi um truque. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

CONCERTAÇÃO SOCIAL


De que serviu a gritaria de Assunção Cristas? O Governo aprovou o decreto que entra amanhã em vigor. O Presidente da República promulgou. Os parceiros assinaram o Acordo. A peixeirada da líder do CDS foi deprimente. Clique na imagem.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MARIA CABRAL 1941-2017


Morreu no sábado, dia 14, em Paris, a actriz Maria Cabral, rosto mítico do Novo Cinema Português. Tinha 75 anos. A notícia foi dada hoje pela Academia Portuguesa de Cinema. Maria Cabral tornou-se célebre com O Cerco (1970), de Cunha Telles, tendo protagonizado vários outros filmes, tais como O Recado (1971), de Fonseca e Costa, Vidas (1984), também de Cunha Telles, No Man’s Land (1985) de Alain Tanner, e Um Adeus Português (1986), de João Botelho. Do seu casamento (1964-71) com Vasco Pulido Valente nasceu uma filha, Patrícia Cabral, que foi nos anos 1980 a mais iconoclasta crítica literária portuguesa.

sábado, 14 de janeiro de 2017

FERNANDA LEITÃO 1936-2017


Chega-me de Toronto a notícia muito triste da morte, na noite de quinta-feira, dia 12, de Fernanda Leitão, jornalista, antiga proprietária e directora do Templário, um jornal de Direita que se publicou em Tomar e, no auge do PREC, vendia 60 mil exemplares por edição. Cansada de processos judiciais, nada menos que 150, por alegado abuso de liberdade de imprensa (alô Charlies), decidiu bater com a porta e radicar-se no Canadá em 1983. Enviava de Toronto as suas crónicas mensais, o que fez quase até ao fim da vida, execrando Passos Coelho e a política do governo PSD-CDS. Natural de Angola, de onde saiu ainda adolescente, fez-se jornalista, viajou, conheceu toda a gente que contava. Tinha 80 anos. Sim, era de Direita, mas eu não escolho os amigos pela ideologia. Até sempre, Fernanda.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 54,6%. Sozinho, o PS ultrapassa a PAF. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

RENTES DE CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre A Ira de Deus sobre a Europa, de J. Rentes de Carvalho (n. 1930). A edição portuguesa deste volume de memórias veio desconcertar os leitores que o descobriram quando a Quetzal apostou na publicação sistemática da sua obra. Quem se lembrava de Montedor (1968) ou de O Rebate (1971), livros inaugurais? Mas, nos últimos anos, a crítica tem estado atenta, e o público fez a fortuna de Ernestina (1998), romance entretanto reeditado, bem como dos contos reunidos na colectânea Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia (2011), bons exemplos de mestria ficcional. Surgia uma voz nova. A Ira de Deus sobre a Europa é outra coisa. Num prefácio ácido, escrito para a edição portuguesa, o autor descreve as peripécias censórias que rodearam a edição holandesa de 2008 (sem o actual prefácio), de várias formas boicotada pelos próprios editores. Reportando ao período compreendido entre 1956 e 2006, o volume leva por subtítulo Testemunho de Um Meio Século. Nesse prefácio, a propósito da vaga migratória que assola a Europa, Rentes de Carvalho invectiva o que considera «o hedonismo e a ausência de ideais» das sociedades ocidentais, em especial a holandesa, sobre a situação actual: «a Europa tem toda a aparência de presa fácil para um islão que, convicto da sua supremacia e decidido a vencer, não olha a meios nem sacrifícios para impor a sua ideologia. […] Pela sua atitude e ideologia os refugiados do Médio Oriente formam certamente uma ameaça […] o fluxo de refugiados africanos, calamidade de proporções bíblicas, prenuncia uma tragédia…» Houellebecq não diria melhor. Afinal, como defendia Neruda, todos temos o direito a entesourar os nossos equívocos. Estas memórias fazem o retrato dos tiques, carácter, hábitos e costumes dos holandeses e, em particular, de Amesterdão, cidade que há cinquenta anos escolheu para viver, começando por trabalhar nos serviços consulares brasileiros, antes de tornar-se escritor e professor universitário. Rigor e mordacidade: «um país grande na pornografia, na pedofilia, no comércio da droga [porém] campeão da moral.» A estratificação social e cultural é um item bem esgalhado. Por se tratar de um lugar-comum, não podemos dizer o mesmo da xenofobia anti-turca. Mérito maior: o desembaraço narrativo. Três estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre Da Direita à Esquerda, onde o historiador António Araújo (n. 1966) analisa os últimos trinta anos da sociedade portuguesa, a partir da verificação de que a Esquerda, «mesmo quando se apresenta como radical, parece agora mais reconciliada com a estrutura de classes e de elementos de diferenciação de status…». O Estado Novo caiu em 1974 mas seria preciso esperar dez anos para a poeira assentar. Nos anos 1980 já não havia censura nem guerra colonial, mas, dos dois lados da barricada, o quadro mental tinha cristalizado no baile Patiño. Dito de outro modo, os eighties foram a nossa década prodigiosa. Muito se tem escrito sobre esses anos, mas só agora chegou às livrarias uma síntese coerente do que eles representaram. Ironia e fair play com toda a gente citada pelo nome. Certos “perfis” denotam pouca (ou nenhuma) empatia, mas ninguém pode queixar-se de assassínio de carácter. Escrita limpa e persuasiva. O espectro de temas é vasto: neoconservadorismo, imprensa, edição, lifestyle, memórias ultramarinas, linguagem abrasiva, Cultura, intelectuais, gentrificação, redes sociais, o Povo, «bricolage religioso», etc. Cento e vinte páginas de notas enquadram a narrativa. Inclui índice remissivo. Não há bonecada nem grafismo BD. Quatro estrelas. Publicou a Saída de Emergência.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O ADEUS A SOARES


Começam hoje as cerimónias fúnebres em honra de Mário Soares. O protocolo de Estado prevê que o corpo saia de sua casa, no Campo Grande, hoje pelas 11 da manhã, com destino ao Mosteiro dos Jerónimos. O cortejo será escoltado por 30 motos e 84 cavalos da GNR. O trajecto é o seguinte: Rua Dr. João Soares, Alameda da Universidade, Campo Grande, Avenida da República, Saldanha, Avenida Fontes Pereira de Melo, Marquês de Pombal, Avenida da Liberdade, Restauradores, Rossio, Rua do Ouro, Rua do Comércio, Praça do Município (com paragem na Câmara de Lisboa), Rua do Arsenal, Terreiro do Paço, Avenida Ribeira das Naus, Cais do Sodré, Avenida 24 de Julho, Avenida da Índia e Praça do Império. O trânsito estará condicionado em todo este percurso. A chegada a Belém está prevista para as 13 horas. Chegado ao Mosteiro, o corpo ficará em câmara ardente na Sala dos Azulejos, até à meia-noite. A entrada é livre.

Amanhã, dia do funeral, o corpo sai dos Jerónimos às 13 horas, seguindo para o Cemitério dos Prazeres pela Rua de Belém, Praça Afonso de Albuquerque, Avenida da Índia, Avenida 24 de Julho, Avenida D. Carlos I, Rua de São Bento, Largo do Rato, Avenida Álvares Cabral, Rua de São Jorge, Rua da Estrela, Rua Domingos Sequeira, Rua Saraiva de Carvalho e Praça São João Bosco. Haverá paragens no Parlamento, na Fundação Mário Soares e na sede do PS (no Largo do Rato), onde ontem milhares de pessoas assinaram o livro de condolências.

sábado, 7 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES 1924-2017


Após 26 dias em coma, Mário Soares morreu hoje. Tinha 92 anos. Se vivemos em democracia a ele o devemos. Filho de um ministro da Primeira República, advogado, professor, escritor, adversário do Estado Novo, fundador e secretário-geral do Partido Socialista, ministro dos Negócios Estrangeiros em vários governos, deputado e eurodeputado, presidente da Internacional Socialista, três vezes primeiro-ministro, Presidente da República entre 1986 e 1996, conselheiro de Estado, presidente de inúmeras organizações internacionais, como, por exemplo, a Comissão Mundial Independente dos Oceanos. Doze vezes preso, deportado para São Tomé em 1968, exilado em Paris (1970-74), período durante o qual foi professor na Sorbonne, tornou-se o garante do reconhecimento internacional do regime saído do golpe de 25 de Abril de 1974. Foi casado com Maria Barroso (1925-2015), de quem teve dois filhos: João Soares, antigo presidente da Câmara de Lisboa, e Isabel Soares, directora do Colégio Moderno.

SALDANHA


Digam lá se o Saldanha não está infinitamente melhor assim? A imagem ilustra um pequeno detalhe da requalificação operada entre o Marquês de Pombal e o Campo Grande, alterando a Fontes Pereira de Melo, o Saldanha, a Avenida da República, o Campo Pequeno, Entrecampos e toda a área do Campo Grande. Os passeios largos oferecem dois tipos de piso: pedrinhas de calçada para os saudosistas, mas também pedra lisa para pessoas como eu que não gostam de patinar.

A imagem foi roubada à página de Facebook de Fernando Medina. Clique para ver melhor.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

HARRY PARKER


Hoje na Sábado escrevo sobre Anatomia de um Soldado, de Harry Parker (n. 1983). Filho de um general britânico, o autor participou como oficial na campanha de 2009 no Afeganistão, tendo perdido as duas pernas: a esquerda no momento da explosão, e a direita por amputamento, já em Birmingham. Agora existe o romance onde narra a experiência de guerra. Anatomia de um Soldado é o seu primeiro livro e foi publicado este ano. O romance tem narradores peculiares como, por exemplo, uma mochila, um drone e uma cama de campanha desdobrável: «O meu número de stock da NATO é o 7105-99-383. Fui uma das primeiras a chegar à base.» Tom é referido como BA5799. Avanços e recuos no tempo ajudam a situar os acontecimentos. A prosa escorreita em pouco difere de uma reportagem jornalística de qualidade. A descrição minuciosa dos equipamentos e procedimentos transmite uma sensação de assepsia que anula por completo o pathos da história. O registo é intencional, podendo ler-se como forma de ironia “abstracta”. Não acontece todos os dias ver o conflito pela perspectiva de um drone. Parece-me evidente que Parker, não querendo dramatizar a situação pessoal numa obra de ficção, optou pela digressão reflexiva. Três estrelas. Publicou a Elsinore.

domingo, 1 de janeiro de 2017

TERROR EM ISTAMBUL

Saiu Istambul na roleta do terrorismo. Munido de Kalashnikov, um atirador vestido de Pai Natal matou 39 pessoas e feriu 70 no interior da discoteca Reina, um local da moda em Istambul, onde estariam cerca de seiscentas pessoas. Entre os mortos encontram-se 16 estrangeiros, um segurança e um polícia. Tudo se passou quando eram 23:45 em Portugal (01:45 no local da tragédia). A discoteca Reina fica situada no bairro de Ortakoy, na margem Leste do estreito do Bósforo. Dezenas de pessoas atiraram-se à água para escapar aos tiros. São contraditórias as notícias sobre o destino do atacante, não havendo confirmação sobre se fugiu ou foi abatido.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

MARINA PEREZAGUA


Hoje na Sábado escrevo sobre Yoro, de Marina Perezagua (n. 1978). Mais conhecida como contista, a espanhola chega à edição portuguesa com o único romance que publicou. Seria bom editar as colectâneas de contos. A escrita de Marina, que vive e lecciona em Nova Iorque, tem sido comparada com a de Djuna Barnes. A avaliação vale o que vale, mas dá a medida da recepção crítica. Sem prejuízo da fluidez, não é despiciendo que a estrutura deste romance deva quase tudo à matriz do conto. Tomemos como exemplo a história de Herculine Barbin, a/o hermafrodita, que pode ler-se como texto autónomo. O livro abre com uma enigmática declaração de interesses, assinada H., algures na República Democrática do Congo. Descobrimos então que aquele H, vogal muda em castelhano, inicial de Hiroxima, corresponde à identidade da narradora. Afinal, é das sequelas da bomba que Yoro trata, e em paralelo com a saga de Jim, o soldado americano que «viu e acariciou a pele» da mãe de Yoro. A narrativa contrapõe realidades distintas, duas em particular, Hiroxima e um incêndio no Congo. Corolário: a devastação não se mede pelo impacto imediato. As mortes individuais, «pela fome, a escravatura, a doença», acrescidas dos abusos sexuais que o status quo permite e finge ignorar, em nada se distinguem de um bombardeamento planificado. O que a autora sublinha é justamente o indizível: o genocídio japonês de 1945 e o quotidiano de certas zonas de África (nos nossos dias) são sobreponíveis. Uma tese escorregadia que Marina Perezagua defende bem, tendo como ponto de partida as minas de urânio, e a relação entre uma coisa e outra, de tão óbvia, dispensa grandes explicações. São vários os episódios que acentuam o carácter desconcertante da narrativa. Desde logo a peculiar gravidez da narradora. Mas também a descoberta, na Hungria, de «um vibrador [um pénis com dezoito centímetros] que os arqueólogos datavam do período Mesolítico…», um dos muitos artefactos sexuais que a autora descreve com minúcia nas páginas que dedica ao tema. O «prazer de matar» vem associado ao terceiro orgasmo: «Como vê, nunca poderá dizer que sou frígida.» Neste caso, terceiro não é número, mas género: orgasmo heterossexual, homossexual, assassino. Crime, disse ela. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

BEST OF


O Best Of da Sábado saiu hoje. Aqui ficam a minhas escolhas:

Todos os Contos, Clarice Lispector / Relógio d’Água
Uma rapariga é uma Coisa Inacabada, Eimear McBride / Elsinore
Túnel de Pombos, John Le Carré / Dom Quixote
A Gorda, Isabela Figueiredo / Caminho
A Última Noite e Outras Histórias, James Salter / Livros do Brasil

Clique na imagem.

MÃE & FILHA


Para mal dos meus pecados, não faço parte da legião de pessoas que conhecia a Princesa Leia de Star Wars. Nem sabia que Carrie Fisher era filha de Debbie Reynolds (1932-2016), que morreu ontem durante os preparativos do funeral da filha. As gerações mais novas não sabem quem foi Debbie Reynolds, que protagonizou setenta filmes, mais coisa menos coisa. Tenho de voltar a ver The Unsinkable Molly Brown, que em 1964 emocionou a minha juventude. Vejam, para tomar o pulso a uma actriz imensa.

Na imagem, Debbie e a filha. Clique.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

BÍBLIA GREGA


Fico sempre surpreendido com a incapacidade de tantos em perceber o sentido de um texto. Será que só lêem duas linhas? Abreviando: o que ontem escrevi no Facebook sobre “especialistas de grego” (nos media) foi entendido como crítica à recente tradução do primeiro volume da Bíblia Grega, empreendida por Frederico Lourenço. Num país onde 99% das pessoas, grupo no qual me incluo, não domina os estudos bíblicos, e menos ainda as variantes dos cânones católico, hebraico e protestante, dando de barato que uma percentagem ligeiramente mais alargada tenha conhecimentos de latim e grego, num país como o nosso, dizia, faz-me espécie ver tanto especialista encartado. Eu também presumo que a tradução seja boa. E tenho boas razões para presumir. Frederico Lourenço tem provas dadas como tradutor de Homero e outros, não estando em causa a sua erudição ou proficiência literária. Mas presumir não é o mesmo que garantir. Passou-se o mesmo em 1995, com O Erro de Descartes, de António Damásio. O pessoal deu cambalhotas como se estivesse a comentar O Canto da Mocidade de Odette de Saint-Maurice.

Voltando à Bíblia Grega. Até ao momento, li uma recensão ao trabalho de Frederico Lourenço, publicada no Observador no passado 16 de Outubro. Um texto assinado por Frei Herculano Alves, franciscano capuchinho, biblista, professor da Universidade Católica do Porto. Francisco José Viegas, editor da Quetzal, reagiu em defesa do seu autor: «[...] só o pode fazer por uma de três razões: má fé, ignorância ou distração. Certamente que foi por distração. Há limites.» É tudo o que sei à margem dos Best of de imprensa.

Ainda ontem, um dos espantados com o meu post comentou por mensagem privada. Palavra puxa palavra, ele, um dos que ama esta versão, não sabia da existência de uma Bíblia Grega: «Mas então não é judaica

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

GEORGE MICHAEL 1963-2016


Vítima de paragem cardíaca enquanto dormia, George Michael (1963-2016), aliás Georgios Kyriacos Panayiotou, filho de pai cipriota grego e mãe inglesa, morreu ontem na sua casa em Oxfordshire. Tinha 53 anos. Em 1981 fundou com Andrew Ridgeley a banda Wham! que o tornaria conhecido em todo o mundo. Em 1987 saiu do armário, assumindo-se como gay, e passou a actuar a solo. Em Abril de 1998 foi preso num urinol público de Los Angeles por um polícia de nome Marcelo Rodríguez, membro do Squad Pretty, o corpo de polícias handsome que, actuando à paisana, induzia homossexuais a praticar sexo em locais públicos para depois lhes darem ordem de prisão, como também acontecia em Portugal antes de Abril de 1974. George Michael vendeu mais de cem milhões de discos, recebeu dezenas de prémios, e marcou de forma decisiva a música pop de língua inglesa. Crítico da invasão do Iraque, lançou em 2002 o álbum Shoot the Dog (os cães são Bush e Blair), cujo vídeo promocional inclui um urinol da Casa Branca, em referência explícita ao episódio de 98.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

EX AEQUO

Não gosto de classificações ex aequo, sejam prémios ou listas dos melhores do ano. O ex aequo é uma forma de escapismo, de não deixar de fora ninguém que, pelas mais variadas razões, não “pode” ficar de fora. Outra coisa que me intriga: como se alinham os livros, ou filmes, músicas, peças de teatro, bailados, exposições de artes plásticas, etc., metidos no saco sem fundo do ex aequo? Por ordem alfabética do título? Por ordem alfabética do autor? Por ordem cronológica de publicação ou exibição? Por data de nascimento do autor? Arbitrariamente? O arbítrio é da responsabilidade do publicista-mor ou do lobby dominante? Já não gostava no tempo dos livros ou filmes ao par, agora em quarteto ou aos molhos de meia-dúzia não se pode levar a sério.

ERA UMA VEZ

Para que servem os serviços de informações? Anis Amri, o tunisino suspeito do atentado da Breitscheidplatz, em Berlim, no passado dia 19, foi abatido durante um operação stop de rotina, na Piazza I Maggio, em Milão. A polícia italiana nem sabia da sua presença no país. Enfim. Vamos todos fingir que acreditamos na versão oficial.