quinta-feira, dezembro 18, 2014

ARQUIVADO


O Ministério Público arquivou o processo iniciado em 2006 relativo a suspeitas de corrupção na compra de dois submarinos. À época, havia dezassete suspeitos: 13 pessoas, entre elas um almirante e um contra-almirante; e 4 entidades, uma delas um conhecido escritório de advogados de Lisboa. Desse lote, o MP constituiu quatro arguidos: o advogado que assessorou juridicamente o ministério da Defesa, o presidente da Escom e dois administradores dessa empresa do universo Espírito Santo. Os quatro estavam indiciados por corrupção activa, tráfico de influências e branqueamento de capitais. Em 2012, o advogado Bernardo Ayala foi ilibado. Ontem foi tudo arquivado: não foram encontradas provas de crimes e, se os houve, estariam prescritos. A Alemanha investigou, deteve, julgou e condenou gente envolvida no processo. Nós por cá somos peritos em fogo de artifício.

O país teve conhecimento da notícia ao mesmo tempo que a TVI transmitia gravações de reuniões secretas do Conselho Superior do GES nas quais Ricardo Salgado confessa: 1. Estar «rodeado de aldrabões» / 2. Desconhecer a identidade das três pessoas que dividiram entre si quinze milhões de euros de comissão... / 3. «Nós» (a família) «ficamos com cinco milhões». Era interessante saber quem passou à TVI gravações de reuniões do Conselho Superior do Grupo Espírito Santo, classificadas como secretas. Mas quem acompanha as audições da comissão parlamentar de inquérito ao caso BES não terá dificuldade em fazer um prognóstico.

Ana Gomes, eurodeputada e assistente do processo, aguarda a notificação oficial do arquivamento para decidir se avança com o pedido de abertura de instrução.

[Imagem: jornal i. Clique.]

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JOYCE CAROL OATES


Hoje na Sábado escrevo sobre Terra Amarga, de Joyce Carol Oates (n. 1938), eterna candidata ao Nobel. Esta excepcional colectânea de contos chegou agora à edição portuguesa. Criadora da sua própria tradição, Joyce Carol Oates é aquilo que se designa por “autor forte”, voz ímpar sem interditos de qualquer natureza. O detonador de alguns destes contos foi a morte súbita (em 2008) do primeiro marido. Sobre o assunto publicou depois A Widow’s Story: a memoir, mas por enquanto estamos no domínio da ficção, autocentrada que seja. Terra Amarga é uma reacção enérgica à condição da sobrevivente que recusa o vazio: «Aquela primeira semana depois de ele ter morrido. [..] E por duas vezes, em casa, sozinha, o horror da sua nova vida póstuma varreu-a como água suja na boca...» Oates escreve com impaciência, sem dourar a pílula, a realidade crua ao serviço de uma escrita admirável. Inserido com o título original, Sourland, o conto que dá o título ao conjunto e o fecha, ilustra de forma brutal a dor da perda. Raiva a driblar a compaixão, necessidade de desenterrar fantasmas da juventude ardente: causas, sexo, política. A fúria de estar só, o apaziguamento da idade. Se nunca leu Oates, comece pelo fim. Percebe logo o que distingue a Literatura dos seus sucedâneos. Sucessões é outro murro no estômago. Ao terceiro dia de viúva, a narradora cai no buraco negro do totalitarismo de Estado. Mesmo quem nunca leu Kafka vê-se coagido a reavaliar com incredulidade o desamparo do indivíduo numa democracia avançada. Violência física, abuso sexual, doença, humilhação, o corpo exposto nos seus pormenores mais íntimos, sentimentos de culpa, nada escapa às harmónicas de Oates. Quem senão ela se lembraria de descrever o amante com um detalhe gráfico entre o desprendimento e a mordacidade: «O pénis-coto, macio & maleável como uma lesma.» De certo modo, contos como Amputada e A tareia subsumem o largo espectro de temas. O realismo é de regra, facto não incompatível com uma prosa (e uma prosódia) absolutamente contemporânea.

Escrevo ainda sobre os Diários de Franz Kafka (1883-1924), o judeu-checo cuja obra deu origem ao adjectivo “kafkiano”, adoptado como património do Ocidente sempre que se verificam situações de abuso de poder com contornos absurdos. A presente tradução, da responsabilidade de Isabel Castro Silva, inclui os diários de viagem, reproduzindo a edição crítica que Hans-Gerd Koch, Michael Müller e Malcolm Pasley organizaram. Divididos em doze cadernos, os diários foram escritos entre 1909 e 1923. Os de viagem, não incluídos nos cadernos, vão de 1911 a 1913. Além do sufoco profissional sentido quando trabalhou numa companhia de seguros, e da turbulência europeia desencadeada pela Primeira Guerra Mundial, são temas recorrentes a vocação literária, a deriva existencial, a doença, o totalitarismo burocrátrico, a violência (mesmo em família), o amor, o sexo, a oficina do escritor: «Isto é necessário, pois a história [...] saiu de mim coberta de imundície e muco, e eu só tenho a mão que pode e quer chegar até ao corpo...» Se Max Brod tivesse cumprido a promessa feita ao amigo, estes Diários teriam sido destruídos. Uma cronologia da vida de Kafka, índice de nomes e obras, bem como vinte páginas de notas, completam esta criteriosa edição. Publicou a Relógio d’Água.

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quarta-feira, dezembro 17, 2014

DÉJÀ VU


Nos anos 1940-50, em Moçambique e, presumo, noutras colónias africanas, o edifício que vemos na imagem seria o dormitório dos trabalhadores de uma grande empresa agrícola. Em Portugal, em 2014, é o Torre da Palma Wine Hotel, em Monforte (Portalegre), projecto do arquitecto João Mendes Ribeiro, um dos dezanove candidatos portugueses à edição de 2015 do Prémio Mies van der Rohe, que tem sede em Barcelona.

[Imagem: fotografia de Eduardo Nascimento e João Foja, Público. Clique.]

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EM QUE FICAMOS?

 
Enquanto pingou, valeu. Agora que a casa desabou, a culpa é do boss. Para serem coerentes, José Manuel Espírito Santo, José Maria Ricciardi e Manuel Fernando Espírito Santo deviam devolver as comissões e os prémios obtidos por actos de gestão a que (eles o dizem) foram alheios. Não estou a falar de salários. Estou a falar de comissões e prémios, a chamada remuneração variável. Ou era um direito dinástico?

[Imagem: jornal i. Clique.]

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sexta-feira, dezembro 12, 2014

GENOLOGIA

 
Estamos sempre a aprender. A partir de hoje ficamos a saber que livros de Herberto Helder, Paul Celan, Manuel de Castro, Matilde Campilho e Alberto Pimenta, são afinal livros de ficção, e não de poesia, como era suposto serem. O mesmo acontece com a autobiografia de Thomas Bernhard e com os diários de Kafka, estes sem direito a lugar na secção de ensaio. A imagem é do Best Of 2014 do Público. Clique para ver melhor.

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CITAÇÃO, 508


Ferro Rodrigues entrevistado por Rita Tavares, hoje, no jornal i. Excerto, sublinhado meu:

«O fundamental que as pessoas vão ter de pensar é sobre o que aconteceu nestes três anos e o que pode acontecer nos próximos quatro, e é essa a questão de fundo. Estar a fazer desvios históricos não tem qualquer sentido. Estas políticas são muito pesadas. Foi a primeira vez que houve uma maioria a levar à prática políticas de uma enorme gravidade no plano do empobrecimento do país e no aumento brutal de impostos sobre a classe média. Houve retirada de direitos sociais que têm que ver com a dignidade e a existência de decência na sociedade. O que vai estar em jogo nestas eleições é esse exercício de balanço destes últimos três anos e de análise das políticas alternativas. Essa é que é a grande questão

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quinta-feira, dezembro 11, 2014

EUGÉNIO LISBOA


Hoje na Sábado escrevo sobre Acta Est Fabula. Memórias IV. Peregrinação, quarto volume das memórias de Eugénio Lisboa (n. 1930), cobrindo os anos de 1976 a 1995. O volume da diáspora que começa em Joanesburgo e termina em Londres, com intervalos em Paris e Estocolmo. A obra intercala narrativa memorialística com fragmentos de um Diário inédito dos anos de Londres, e também, sob forma diarística, o relato franco de uma viagem a Maputo em 1989, das melhores páginas que podemos ler. Mas é sobretudo nas passagens do Diário londrino que o autor alivia o fígado. Num país «onde abundam os especialistas em processos de intenção», Eugénio tem o mérito de dizer em voz alta o que a maioria cochicha, quer se trate de candidatos ao Panteão ou de personalidades com lugar cativo nos media, como aqueles que, sem pudor, «atordoam a nossa praça literária com o ruído wagneriano do amor por si próprios» (neste caso, Al Berto). Em clave provocatória, Eugénio sujeita Saramago, Vergílio Ferreira, Lobo Antunes, etc., a um escrutínio isento de vénia. Um dos capítulos, Brincando (a sério) aos editores, ilustra a extrema dificuldade em impor a literatura portuguesa no mundo anglo-saxónico. A terminar, ficando muito por dizer, gostaria de sublinhar a nitidez das reflexões pós-coloniais e, num registo pungente, confissões de natureza íntima. Publicou a Opera Omnia.

Escrevo ainda sobre Educação Europeia, de Romain Gary (1914-1980), um dos grandes nomes da literatura francesa do século XX. Oriundo da Lituânia, filho de mãe judia, escritor e diplomata, radicado em França desde 1928, Gary utilizou vários pseudónimos, sendo Émile Ajar aquele que o levou a ganhar pela segunda vez o Prémio Goncourt. Para assinalar o centenário do nascimento, foi agora traduzido Educação Europeia, romance por norma apresentado como sendo o primeiro do autor, embora, assinando Roman Kacew, o primitivo nome, já tivesse publicado outros três. Escrito em 1943, durante a Segunda Grande Guerra, Educação Europeia descreve a luta dos partisans polacos contra a ocupação alemã. Tudo flui com desconcertante naturalidade na escrita limpa de Gary. Publicou a Sextante.

[Os textos supra são meros resumos dos textos publicados na revista.]

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quarta-feira, dezembro 10, 2014

VENHA AJUDAR

 
Depois de amanhã, sexta-feira, a Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica e o Teatro Nacional de São Carlos promovem uma gala de angariação de fundos, em que participam a Orquestra do Norte e o seu maestro titular, José Ferreira Lobo, o pianista Adriano Jordão, a soprano Elmira Karakhanova, bem como os baixo-barítonos russos Sergei Leiferkus e Mikhail Gavrilov. O espectáculo inclui obras sinfónicas e líricas de Falla, Leoncavallo, Puccini, Rimsky-Korsakov, Rossini, Verdi e Wagner. Venha ajudar os que padecem desta doença neurológica degenerativa e progressiva. Clique na imagem para melhor anotar os contactos.

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LUÍS CAPETO NÃO FARIA MELHOR


Luís XVI ou, se preferirem, Luís Capeto, interrogado na Convenção, também argumentou: Nenhuma lei me proibiu de fazer o que fiz. Ouvido na comissão parlamentar de inquérito durante cerca de dez horas (antes e depois do almoço), Ricardo Salgado parecia uma personagem de Rohmer: nunca levantou a voz, não deu mostras de irritação, mantendo um fair play à prova de bala. Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, na sequência da audição do antigo CEO do BES, viu-se obrigado a enviar (ao fim da tarde) uma carta ao Parlamento, tornando públicos documentos até aqui tidos por confidenciais.

A seguir, José Maria Ricciardi, o primo de Salgado, desconstruiu a narrativa toda.

A imagem ilustra a voracidade dos media sobre o antigo patrão disto tudo. Ontem, logo pela manhã, cerca de 60 jornalistas (cinco vezes o número habitual em casos análogos) esperaram por Salgado na porta do costume. Mas ele já tinha entrado, de carro, naturalmente, utilizando o parque que liga a residência oficial do primeiro-ministro ao Parlamento. O acesso à sala de audição também foi feito pela porta reservada aos deputados.

[Imagem: a fotografia é de Bruno Simão, para o Negócios. Clique.]

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segunda-feira, dezembro 08, 2014

BESI FALA CHINÊS


O Novo Banco vendeu hoje o Banco Espírito Santo de Investimento ao grupo chinês Haitong, com sede em Hong Kong. O negócio valeu 379 milhões de euros. José Maria Ricciardi ficou na fotografia e tem razões para sorrir. A Haitong quer que continue à frente do BESI. Quando amanhã for ouvido no Parlamento, em sede de comissão parlamentar de inquérito, terá decerto muito para contar. A imagem é do Expresso.

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domingo, dezembro 07, 2014

NOVENTA ANOS


Mário Soares faz hoje 90 anos. Nunca lhe pagaremos a dívida de ter fundado a democracia portuguesa. Filho de um ministro da Primeira República, opositor e resistente declarado à ditadura desde os tempos de estudante, foi preso pela PIDE em doze ocasiões diferentes. Casado com Maria Barroso, advogado de profissão, foi deportado sem julgamento para São Tomé, em 1968, e depois forçado ao exílio em França em 1970. A fundação do Partido Socialista ocorreu em 1973, em Bad Münstereifel, na Alemanha. Regressado a Portugal em 28 de Abril de 1974, coube-lhe o papel de obter o reconhecimento internacional do regime saído do golpe militar de 25 de Abril. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros em quatro Governos Provisórios, deputado em todas as Legislaturas até 1986, primeiro-ministro em três Governos Constitucionais (1976-78 e 1983-85), responsável pela adesão de Portugal à União Europeia, Presidente da República em dois mandatos (1986-96) e deputado ao Parlamento Europeu (1999-2004). Presidente honorário da Internacional Socialista e presidente da Comissão Mundial Independente Para os Oceanos (1995-98), da sua bibliografia constam mais de cem títulos. Noventa anos é uma data bonita para festejar. Parabéns, doutor Mário Soares.

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sábado, dezembro 06, 2014

NO PASA NADA

 
Pois. Mas por cá no pasa nada. Imagem do jornal i. Clique.

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sexta-feira, dezembro 05, 2014

SINAL DE CARÁCTER

 
Tendo votado sempre PS, nunca votei em Guterres. Abstive-me nas Legislativas de 1995 e 1999 por ser ele o candidato a primeiro-ministro. Passados estes anos, acredito que pudesse exercer com competência, lisura e dignidade o cargo de Presidente da República. Porém, ao contrário dos meus amigos, não acredito que tenha condições para vencer. O país mudou muito e o rolo compressor do populismo exige contrapartida forte. Dito isto, considero um sinal de carácter a visita que Guterres fez ontem a Sócrates. Com todas as condições para assobiar para o lado, não se eximiu de ir a Évora.

[Imagem: Guterres fotografado por Tim Brakemeier, em Berlim, na conferência sobre os refugiados sírios. Clique.]

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quinta-feira, dezembro 04, 2014

CITAÇÃO, 507


Francisco Louçã, Acerca da ética do ódio e da credibilidade do jornalismo a sério, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«[...] No entanto, nada nos prepararia para a ética do ódio, como a que surgiu vibrante no caso Sócrates. Ora, foi neste processo e foi entre jornalistas, como Manuel Carvalho sublinhou, que se exprimiu o mais desbragado ajuste de contas.

Francisco Gonçalves, “editor do Mundo” no Correio da Manhã, destacada função, escreve que José Sócrates não “parece merecer melhor destino do que a prisão”, até porque “se há alguma coisa a lamentar no seu caso é que a detenção tenha chegado tão tarde”.

No Público, João Miguel Tavares clamou pelo seu direito pessoal “de presumir, face ao que leio nos jornais, às minhas deduções, às minhas convicções, à minha experiência, à minha memória e ao esgotamento de sete presunções de inocência, que Sócrates é culpado daquilo de que o acusam”. Ou seja, pelas “minhas deduções” e pela “minha experiência” em coisas como a compra da TVI pela PT, “presumo” que Sócrates recebeu não sei quantos milhões de euros sei lá de quem e que comprou uma casa milionária no Seizième.

Com o mesmo acinte, José Manuel Fernandes argumenta superiormente, no Observador,  que “a dúvida que havia sobre José Sócrates era sobre se seria algum dia apanhado”.

Ou seja, todos eles sabem que o homem é culpado e lamentam que a detenção seja tardia. Têm motivos de sobra para ter a certeza que ainda falta ao tribunal: João Miguel Tavares foi levado a tribunal por Sócrates, num processo patético por difamação, logo sabe que um sujeito tão arreliante só pode ser culpado; José Manuel Fernandes sabe, simplesmente porque sabe tudo; e o homem do Correio da Manhã sabe porque decerto leu as manchetes do seu jornal.

Ora, quando os jornalistas escrevem opinião  —  dizendo o que entendem sobre o que entendem  —  estão a arriscar-se a subordinar o seu dever de informação, bem como o peso social gerado pela visibilidade da função de informar, ao seu direito de ajustarem contas, de tomarem partido, até de suspeitarem. É porque são jornalistas com coluna publicada ou com editorial que a sua opinião conta, ou seja, importam porque se presume que farão o trabalho de jornalistas, mesmo quando o estão a contrariar, substituindo informação por uma campanha. Naturalmente, quando se dedicam a fazê-lo sob a forma sublime da conversa de café, o uso do poder discricionário da sua opinião sentenciosa é mais flagrante.

Este é o caso dos acórdãos de Tavares, Fernandes e Gonçalves sobre o processo em apreço. De facto, eles não sabem nada: não sabem o suficiente sobre os factos, porque ninguém o sabe entre o público, e mostram saber pouco sobre a lei, que tinham obrigação de conhecer. E, se apresentam conclusões, simplesmente porque consideram que o seu próprio ódio pessoal é suficiente para condenar outrem, estão não só a desmerecer a profissão de jornalista, porque abusam do seu poder, como estão a escrever torto por linhas pouco direitas.

O que se esperaria de um jornalista seria o tratamento da informação com os dados disponíveis, sem aceitar ser porta-voz de alguém que na acusação (ou, noutros casos, na acusação ou na defesa) use a comunicação social para ganhar tempo e convicção para a investigação que ainda não terá obtido resultados bastantes. E esperar-se-ia igualmente que tratasse todos os casos da justiça com o mesmo critério: seja Ricardo Salgado, seja José Sócrates, seja quem for tem o direito a essa resistente regra social, que abrange do mesmo modo as obrigações da informação e da opinião pública, que é o direito de defesa.

Se esse direito for enfraquecido, teremos o pior de todos os resultados: a corrupção será facilitada, pois a justiça claudicará, acusará erraticamente e condenará quando calha, porque lhe faltará investigação que conduza a acusações consistentes sobre factos, preferindo então usar a facilidade da coluna de jornal e substituindo as provas pelo imediatismo da sentença lavrada em ódios de estimação. Era melhor levar a sério o perigo da corrupção, que é monumental em Portugal: a transparência da vida social, a informação rigorosa e a lei equitativa podem combatê-la, mas o jornalismo serviçal de uma ideia, de uma pessoa ou de um ódio é manifestamente irrrelevante ou prejudicial contra a justiça justa

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LEONOR XAVIER

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Passageiro Clandestino, o livro mais recente de Leonor Xavier (n. 1943). No momento em que a vida lhe pregou uma partida, a Leonor publicou um conjunto de reflexões sobre o cancro que traz dentro de si. Não escreveu um livro de auto-ajuda, muito menos um récit complacente. Jornalista e escritora, biógrafa de Maria Barroso e Raul Solnado, autora de um notável livro de memórias  —  Casas Contadas, 2009  —, expõe o «ritual da doença» sem resquício de lamechice: «Nesta condição que agora é a minha, sinto-me como se mudasse de país, de identidade...» A doença como necessidade de afirmação é um questão que interroga. Após o 25 de Abril de 1974, os doze anos de exílio brasileiro (membro do governo de Marcello Caetano, o marido foi expulso da Faculdade de Direito de Lisboa) foram determinantes no crescimento intelectual e no desassombro de quem «encara a besta de frente». A prosa tem a clareza das evidências, porque o tumor e as metástases estão lá: «Toda essa colecção de gente invasora não desiste de nós. Mas eu recuso-me a ceder...» E sobra ironia, tanto nos trocadilhos acerca de quem oferece o corpo como «prestadora de serviços», como nas virtudes da homeopatia. Um grande testemunho.

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CITAÇÃO, 506


José Sócrates, em carta enviada ontem aos media. Excerto:

«[...] Prende-se principalmente para despersonalizar. Não, já não és um cidadão face às instituições, és um “recluso” que enfrenta as “autoridades”: a tua palavra já não vale o mesmo que a nossa. Mais do que tudo  —  prende-se para calar

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CAIU


Copiando o modelo da BBC, o ministro Poiares Maduro criou um Conselho Geral Independente para a RTP. O PSD queria privatizar a estação pública, uma das bandeiras da campanha eleitoral de 2011, o CDS opunha-se (e continua a opor-se) à privatização, mas o impasse manteve-se enquanto Relvas durou. Com a saída de Relvas, que nomeou Alberto da Ponte, entrou Poiares Maduro. E o ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, com a tutela da comunicação social, tirou da cartola o Conselho Geral Independente, que dilui o peso do Governo no controlo da RTP.

Para presidir ao CGI foi escolhido João Lopes, um respeitado crítico de cinema, mas o vínculo profissional que mantém com o Diário de Notícias, com a Antena Um e com a SIC, fez com que a ERC tivesse vetado o seu nome. Poiares Maduro foi então buscar António Feijó, professor de literatura anglo-americana e vice-reitor da Universidade de Lisboa. Ao lado de Feijó, que preside, estão Álvaro Dâmaso, antigo presidente da Anacom, Ana Lourenço, professora da Universidade Católica, Diogo Lucena, antigo administrador da Gulbenkian, Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho, e Simonetta Luz Afonso, antiga presidente do Instituto Camões.

Esta semana, o CGI chumbou o projecto estratégico de Alberto da Ponte, sublinhando a violação do princípio de lealdade institucional e o dever de colaboração com o órgão supervisor, propondo a demissão do Conselho de Administração  da RTP. Porquê? Porque Alberto da Ponte não deu cavaco à tutela quando decidiu comprar, por 18 milhões de euros, os direitos da Liga dos Campeões de futebol.

Alberto da Ponte caiu.

[Imagem: Alberto da Ponte fotografado por Alberto Frias, Expresso. Clique.]

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quarta-feira, dezembro 03, 2014

LOBBIES


Hoje, o Público ocupa (e muito bem) duas páginas com citações do novo livro de Álvaro Santos Pereira, o homem que bateu com a porta da Horta Seca por causa da fantochada irrevogável de Paulo Portas. O antigo ministro da Economia trabalha hoje na OCDE, onde ingressou por concurso público internacional.

Ainda não vi o livro, Reformar Sem Medo, editado pela Gradiva. Mas depois dos highlights divulgados pelo jornal da Sonae vou ter de o ler.

Três excertos, sublinhados meus:

«[...] um dos membros da minha equipa foi abordado por um representante dos produtores da energia que lhe disse que, como sabia que estávamos muito ocupados e não tínhamos recursos, eles próprios poderiam fazer as transposições de directivas e que depois nos entregariam as leis para fazermos o que entendêssemos. Pelo que parece, isso já tinha acontecido no passado. Como é óbvio, nós agradecemos mas declinámos a gentileza.»

«Outro dos dossiês que fui aconselhado por muita gente a deixar de lado foi o das contrapartidas militares. Porquê? Porque o tema das contrapartidas foi sempre bastante controverso, envolvendo inúmeras suspeitas e acusações de corrupção e de financiamento partidário. Por isso, para muitos, esse era um assunto que era proibido

«Sinceramente, penso que a crise da dívida europeia só será resolvida com um reescalonamento a longo prazo da dívida dos países europeus mais endividados

E mais um, sobre Paulo Portas:

«No encerramento do debate do Estado da Nação de 11 de Julho mantive a minha compostura e fiquei sentado a ouvir o discurso de alguém que fez o que fez ao país. [...] Na tomada de posse dos novos ministros optei igualmente por não ir, pois recusei-me a apertar a mão a alguém que tinha feito algo tão prejudicial para o país

[Imagem: Miguel Manso, Público. Clique.]

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segunda-feira, dezembro 01, 2014

DIZER O NOME DELAS

 
Qualquer que seja a filiação ideológica, os congressos partidários têm sido o altar-mor das frioleiras. Este fim-de-semana, no Congresso do PS, Costa mudou o paradigma. A intervenção de Maria do Céu Guerra foi um sinal claro. A imagem com legenda é do Público. Clique.

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domingo, novembro 30, 2014

COSTA SEM COMPLEXOS

 
Os media, e não vale a pena distinguir «os de Direita», porque toda a imprensa corrobora o pensamento da Direita, mesmo aquela que tem nas suas redacções gente que vota (ou diz votar) à Esquerda, andou semanas a fio a pressionar Costa para a purga dos socráticos. Saiu-lhes o tiro pela culatra. O novo Secretariado Nacional do PS é composto por Bernardo Trindade, Fernando Medina, Fernando Rocha Andrade, Graça Fonseca, Isilda Gomes, João Galamba, Jorge Gomes, Luís Patrão, Manuel Pizarro, Maria do Céu Albuquerque, Maria da Luz Rosinha, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Porfírio Silva, Sérgio Sousa Pinto e Wanda Guimarães. Dez homens e cinco mulheres. Reforço da ala esquerda do partido, como era previsível. Para o inner circle, Costa foi buscar autarcas, deputados, professores universitários, antigos membros do Governo, um constitucionalista, o antigo chefe de gabinete de Guterres e Sócrates, uma sindicalista e uma antiga governadora-civil. Não ter complexos é um bom começo.

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quinta-feira, novembro 27, 2014

P. D. JAMES 1920-2014


P. D. James morreu hoje em Oxford. Tinha 94 anos. Tendo começado a escrever tarde, deixa uma obra parcimoniosa: vinte e dois títulos, sendo romances dezanove. Vários foram adaptados à televisão e ao cinema.

Notabilíssima autora de thrillers (não confundir com literatura escandinava sobre juventude disfuncional e violência urbana), baralhou a crítica e os leitores com três livros “desalinhados” do género: Innocent Blood (1980), The Children of Men (1992) e Death Comes to Pemberley (2011). O inspector-poeta Adam Dalgliesh não terá o carisma de Poirot, mas os catorze romances que protagoniza são do melhor que Phyllis Dorothy James escreveu.

Formada em administração hospitalar, e viúva de um médico, trabalhou durante vinte anos na Segurança Social britânica e, mais tarde, no âmbito da Scotland Yard, em medicina legal, facto que explica as minuciosas descrições de dissecação de cadáveres dos seus romances.

Feita baronesa de Holland Park, ingressou na Câmara dos Lordes em 1991.

Metade da obra encontra-se publicada em Portugal, em edições de má qualidade, com excepção do recente Morte em Pemberley, que Tânia Ganho traduziu no ano passado para a Porto Editora. Convinha fazer novas traduções do restante.

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RUBEM & MÁRIO DE CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Amálgama, a obra mais recente de Rubem Fonseca (n. 1925), unanimemente considerado o maior escritor brasileiro vivo. O volume colige trinta e quatro textos: 29 são contos, e poemas são 5. O virtuosismo dos contos não surpreende. Os poemas sim. A propósito de genologia: o chamado Poema da vida é de facto um conto, naco de prosa em louvor da vagina. Rubem prefere chamar-lhe boceta, como é de uso comum no Brasil. Nenhuma grosseria ou expressão vulgar maculam essas duas páginas. Logo a abrir, um murro no estômago. O filho deixa entrever o olhar duro de quem, tendo visto muito (não esquecer a carreira do autor na polícia), dispensa o álibi da indignação: «Então jogou o bebê na lata de lixo. O bebê era aleijado. Só tinha um braço. Ela não ia dar de mamar nem ninguém ia querer comprar aquela coisa.» A mesma secura para descrever a decisão de um pai que mata o filho de 15 anos com uma bomba por si fabricada: «Coloquei a bomba na sua mão. [...] Eu amava o meu filho.» Nem tudo é tragédia grega. E a ironia impõe-se até nos textos mais negros, matizando-os de forma impressiva. Certa obsessão com anões e pais ausentes servirá de pasto a teses académicas, mas não é disso que aqui tratamos.  O espectro de temas é muito amplo e todos servem para iluminar a prosa dúctil: quotidiano, sexo, transtorno obsessivo-compulsivo, bandidagem, solidão, pé-rapados, ofício de escritor, crendices, voyeurismo, mulheres, engenharia social, criminalidade, indiferença, psicanálise, má-língua literária: «Clara Bela tinha dinheiro, pagava para que escrevessem resenhas dos seus livros» (um incêndio reduziu a cinzas a casa de Clara Bela, e o narrador de O aprendizado contempla o desastre com alegria). Será Clara Bela quem julgamos ser? Aqui chegados, não é fácil isolar uma dúzia de contos em detrimento de outros. Ciente da futilidade do exercício, destaco, além dos citados, os seguintes: Segredos e mentiras, Decisão, Isto é o que você deve fazer, O ciclista, Escrever, A festa, Best-seller, Sonhos, Fábula, Premonição e Os pobres e os ricos. Amálgama é uma festa da língua e seria pleonástico sublinhar a riqueza vocabular e os ritmos polissémicos da voz do autor.

Escrevo ainda sobre Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, um guia prático de escrita de ficção que Mário de Carvalho (n. 1944) em boa hora publicou. A obra exonera-se de pretensões académicas ou mantra escolástico. Coloquial, o tom está repassado de ironia. Atente-se no equívoco entre «writer» e «escritor», pretexto de reflexões assisadas, isentas de remoques enviesados. O livro divide-se em seis secções: Pontos de Ordem (direitos e deveres do escritor, cânone, etc.), Pontos de Mira (o leitor, estrutura, etc.), Pontos de Referência (a acção ou a personagem?, coisas práticas, etc.), Pontos de Vista (enredo, mise en abîme, etc.), Pontos Radiantes (dramatis personae, tipos de narrador, etc.) e Pontos de Luz (estranhamento, originalidade, etc.). Cito dois temas por secção, mas convém multiplicar por cinco. Nada escapou ao tour d’horizon. Sendo escassas as citações de autores vivos («Pior para o autor destas linhas, que reteve a ocasião de elogiar»), Mário de Carvalho apoia-se em remissões pertinentes. Lembrar Rodrigues Lapa não é despiciendo. Deveras pedagógica, como várias outras passagens do livro, a análise da «prosa pataqueira e patchuli a armar ao pingarelho». Está lá tudo. Em suma, um manual doravante imprescindível. Edição Porto Editora.

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STATEMENT


Ontem à noite, Sócrates enviou aos media uma declaração com oito parágrafos. Cito em baixo os últimos três:

 «[...] Defender-me-ei com as armas do Estado de Direito — são as únicas em que acredito. Este é um caso da Justiça e é com a Justiça Democrática que será resolvido.

Não tenho dúvidas que este caso tem também contornos políticos e sensibilizam-me as manifestações de solidariedade de tantos camaradas e amigos. Mas quero o que for político à margem deste debate. Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia.

Este processo só agora começou

Não tenho nada a acrescentar.

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quarta-feira, novembro 26, 2014

SAKHAROV 2014

 
O Prémio Sakharov, instituído pelo Parlamento Europeu para distinguir pessoas ou organizações que dedicaram a sua vida e/ou actividade na defesa da liberdade de pensamento e dos direitos humanos, foi este ano atribuído ao médico ginecologista congolês Denis Mukwege (n. 1955), especialista no tratamento de mulheres violadas, em especial as que têm sido vítimas de milícias armadas. Nem tudo é mau à nossa volta.

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terça-feira, novembro 25, 2014

ESPERAR PARA VER


Setenta e duas horas depois de ter sido detido para interrogatório, José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal entre 12 de Março de 2005 e 20 de Junho de 2011, seguiu para uma cadeia de Évora reservada a magistrados, militares e polícias, onde fica em prisão preventiva, indiciado por crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.

A medida de coacção imposta causa perplexidade e acorda velhos fantasmas.

Como não podemos fugir ao valor simbólico das datas, lembrar que, com um intervalo de 39 anos, a noite de 24 para 25 de Novembro voltou a levar o país ao estupor.

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domingo, novembro 23, 2014

CITAÇÃO, 505


Pedro Marques Lopes, Uma crise de Regime, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhados meus:

«1. Esta crónica já estava escrita, chamava-se “Telegramas do Manicómio”. Era acerca da única e exclusiva responsabilidade de Carlos Costa na solução encontrada para o BES e do facto dum Governo ter prescindido de ter uma palavra num assunto que dizia respeito a cerca de 20% da economia nacional, dum alto responsável da Administração Pública ter aparentemente sido constituído arguido por ter recebido um par de garrafas de vinho e alguém ter dito que se lhe devia dar uns euros, dum vice-primeiro-ministro que mostrou não saber distinguir um partido político duma empresa, dum presidente duma comissão parlamentar que combateu com um secretário de Estado pelo acesso a um microfone e de dois partidos que mudaram de opinião sobre um assunto em 24 horas.

Entre as 23h45, momento em que pus o ponto final na dita crónica, e a meia-noite e pouco, hora em que soube da detenção de José Sócrates, o país mudou. Melhor,  passamos a estar no meio da maior crise de Regime desde a normalização da nossa democracia.

O principal pilar duma democracia liberal é o de ninguém estar acima da lei. Ninguém. Nem quem a faz, nem quem a aplica, nem quem a fiscaliza. Mas, de boa-fé, não se pode pensar que é exatamente a mesma coisa deter um responsável por uma polícia, um ex-primeiro-ministro ou um cidadão que não tem, ou teve, responsabilidades nos destinos da comunidade. [...]

Até por isto se percebe que, sim, a lei é igual para todos mas que não há nada mais injusto do que tratar de igual modo situações diferentes. O que está, sobretudo, em questão na detenção do ex-primeiro-ministro é a possibilidade duma comunidade ter sido representada e conduzida por alguém que não tinha condições pessoais para o fazer, alguém que enganou os cidadãos ou a incapacidade dum sistema judicial fazer cumprir a lei, ou pior, esse sistema criar um caso desta gravidade sem indícios realmente sérios.

Qualquer uma destas situações é duma gravidade sem paralelo conhecido em Portugal.

[...] Bem gostava de em consciência pensar que seria possível ver as instituições a funcionar regularmente, de não assistir à construção de barricadas, de ver toda a gente preocupada em descobrir a verdade e não a sua verdade, mas estou cético, como, estou convencido, muita gente está. É também esse ceticismo generalizado sobre o resultado futuro deste e doutros casos, qualquer que seja o sentido, que mostra o quão estamos doentes como comunidade.

Qualquer que seja o desenlace deste processo as instituições democráticas saem fortemente abaladas. Agora sim, estamos perante uma verdadeira crise, a pior delas: uma crise do Regime. Nada ficará como dantes.

2. O homem mais poderoso do país deixou de ser um político ou um empresário. O homem que manda nisto tudo, o novo DDT, é Carlos Alexandre, o juiz ligado aos casos BPN, Furacão, Monte Branco, Vistos Gold e, agora, Sócrates. O poder político criou o Ticão e deu todo este poder a quem o dirige. É demasiado poder concentrado neste ou em qualquer outro homem

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CITAÇÃO, 504


Clara Ferreira Alves, A Justiça a que temos direito, ontem no Expresso. Sublinhados meus:

«A Justiça é antes de mais um código e um processo na sua fase de aplicação. Ou seja, obediência cega, essa sim cega, a um conjunto de regras que protegem os cidadãos da arbitrariedade. Do abuso de poder. Do uso excessivo da força. Essas regras têm, no seu nó central, uma ética. Toda e qualquer violação dessa ética é uma violação da Justiça. E uma negação dos princípios do Direito e da ordem jurídica que nos defendem.

Num caso de tanta gravidade como este, o da suspeita de crimes graves e detenção de um ex-primeiro-ministro do Partido Socialista, verifico imediatamente que o processo foi grosseiramente violado. Praticou-se, já, o linchamento público. Como?

1) Detendo o suspeito numa operação de coboiada cinemática, parecida com as de Carlos Cruz e Duarte Lima, a uma hora noturna e tardia, num aeroporto, quando não havia suspeita de fuga, pelo contrário. O suspeito chegava a Portugal. Porque não convocá-lo durante o dia para interrogatório ou levá-lo de casa para detenção?

2) Convidou-se uma cadeia de televisão a filmar o acontecimento. Inacreditável.

3) Deram-se elementos que, a serem verdadeiros, deviam constar em segredo de Justiça. Deram-se a dois jornais sensacionalistas, o Correio de Manhã e o Sol, que nada fizeram para apurar o que quer que seja. Nem tal trabalho judicial lhes competia. Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.

4) Leio, pela mão da jornalista Felícia Cabrita, no site do Sol, pouco passava da hora da detenção, que Sócrates (entre outros crimes graves) acumulou 20 milhões de euros ilícitos enquanto era primeiro-ministro. Alta corrupção no cargo. Milhões colocados numa conta secreta na Suíça. Uma acusação brutal que é dada como certa. Descrita como transitada em julgado. Base factual? Fontes? Cuidado no balanço das fontes, argumentos e contra-argumentos? Enunciado mínimo dos cuidados deontológicos de checking e fact-checking? Nada. Apenas «o Sol apurou junto de investigadores». O Sol não tem editores. Tem denúncias. Violações de segredo de Justiça. Certezas. E comenta a notícia chamando «trituradora» de dinheiro aos bolsos de Sócrates. Inacreditável.

5) Verificamos apenas, num estilo canhestro a que a biógrafa de Passos Coelho nos habituou (caso Casa Pia, entre outros) que a notícia sai como confirmada e sustentada. Se o Watergate tivesse sido assim conduzido, Nixon teria ido preso antes de se saber se era culpado ou inocente. No jornalismo, como na justiça, há um processo e uma ética. Não neste jornalismo.

6) Neste momento, não sei nem posso saber se Sócrates é inocente ou culpado. Até prova em contrário é inocente. In dubio pro reo. A base de todo o Direito Penal.

7) Espero pelo processo e exijo, como cidadã, que seja cumprido à risca. Não foi, até agora. Nem neste caso nem noutros. Isto assusta-me. Como me assustou no caso Casa Pia. Esta Justiça de terceiro mundo aterroriza-me. Isto não acontece num país civilizado com jornais civilizados. Isto levanta-me suspeitas legítimas sobre o processo e a Justiça, e neste caso, dada a gravidade e ataque ao regime que ele representa, a Justiça ou age perfeitamente ou não é Justiça.

8) Verifico a coincidência temporal com o Congresso do PS. Verifico apenas. Não suspeito. Aponto. E recordo que há pouco tempo um rumor semelhante, detenção no aeroporto à chegada de Paris, correu numa festa de embaixada onde eu estava presente. Uma história igual. Por alturas da suspeita de envolvimento de José Sócrates no caso Monte Branco. Aponto a coincidência. Há um comunicado da Procuradoria a negar a ligação deste caso ao caso Monte Branco. A Justiça desmente as suas violações do segredo de Justiça. Aponto.

9) E não, repito, não gosto de José Sócrates. Nem desgosto. Sou indiferente à personagem e, penso, a personagem não tem por mim a menor simpatia depois da entrevista que lhe fiz no Expresso há um ano. Não nos cumprimentamos. Não sou amiga nem admiradora. É bizarro ter de fazer este ponto deslocado e sentimental mas sei donde e como partem as acusações de «socratismo» em Portugal.

10) As minhas dúvidas são as de uma cidadã que leu com atenção os livros de Direito. E que, por isso mesmo, acha que a única coisa que a Justiça tem a fazer é dar uma conferência de imprensa onde todos, jornalistas, possamos estar presentes e fazer as perguntas em vez de deixar escorregar acusações não provadas para o Correio da Manhã e o Sol. E quejandos. Não confio nestes tabloides para me informarem. Exijo uma conferência de imprensa. Tenho esse direito. Vivo num Estado de Direito.

11) Há em Portugal bom jornalismo. Compete-lhe impedir que, mais uma vez, as nossas liberdades sejam atropeladas pelo mau jornalismo e a manipulação política.

12) Vou seguir este processo com atenção. Muita. Ou ele é perfeito, repito, ou é a Justiça que se afundará definitivamente no justicialismo. Na vingança. No abuso de poder. Na proteção própria. O teste é maior para a Justiça porque é o teste do regime democrático. E este é mais importante que os crimes atribuídos a quem quer que seja. Não quero que um dia, como no poema falsamente atribuído a Brecht, venham por mim e não haja ninguém para falar por mim. A minha liberdade, a liberdade dos portugueses, é mais importante que o descrédito da Justiça. A Justiça reforma-se. A liberdade perde-se. E com ela a democracia

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sábado, novembro 22, 2014

DETIDO

 
Ontem, às 22:42, ao chegar de Paris, Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa pelo procurador Rosário Teixeira e por agentes da Autoridade Tributária. O antigo primeiro-ministro será hoje presente ao juiz de instrução. Ao longo do dia (sexta-feira) já haviam sido detidas mais três pessoas. Em causa estarão crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.

Pode ler aqui o comunicado que a Procuradoria-Geral da República divulgou hoje.

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quinta-feira, novembro 20, 2014

TRAMBOLHÃO & BAILE


O jornalista Miguel Pinheiro, autor da mais detalhada biografia até hoje conhecida sobre Francisco Sá Carneiro (a obra foi publicada em 2010 e resume em 770 páginas a vida do fundador do PPD, o homem que deu a primeira vitória à Direita depois da queda da ditadura), voltou ao terreno da investigação histórica  —  A Noite Mais Longa faz o relato minucioso das treze horas que abalaram o Estado Novo no Verão de 1968. Ou seja, do que de facto aconteceu entre as 8 da noite de 6 de Setembro e as 9 horas da manhã seguinte.

Salazar caiu da cadeira, no Forte de Santo António do Estoril, quando se preparava para ler os jornais. Até aqui, nenhuma controvérsia. Porém, na imprensa, nos mentideros, nos círculos da Oposição, mesmo nos bastidores do Regime, quase ninguém se entendia com a data exacta do acidente. Conforme a fonte, teria ocorrido a 3 ou 4 ou 5 de Agosto. Mas uma carta do calista de Salazar, arquivada na Biblioteca Nacional, cujo fac-símile Miguel Pinheiro insere no livro, põe termo à querela: o trambolhão do ditador ocorreu no dia 1 de Agosto de 1968.

Salazar seria operado na noite de 6 para 7 de Setembro, data em que Beatriz e Antenor Patiño receberam na sua casa de Alcoitão os cerca de dois mil convidados daquela que foi considerada, à escala portuguesa, a festa do século. Literalmente: o jet set aterrou em Lisboa. Vieram actrizes, príncipes, duquesas, milionários e empresários de várias nacionalidades. A alta sociedade portuguesa fez-se representar ao mais alto nível. Poucos membros do governo obtiveram convite. O Presidente da Câmara Corporativa pediu autorização prévia para o aceitar. As filhas de Américo Thomaz também foram. Vera Franco Nogueira, mulher do ministro dos Negócios Estrangeiros, tinha prometido a Salazar que o punha ao corrente de todos os pormenores. Vera Lagoa e João Coito foram os únicos jornalistas admitidos nessa qualidade. Entraram mais dois ou três (um deles Nuno Rocha), mas disfarçados. Balsemão, então no Diário Popular, não conta. Era um convidado natural.

Miguel Pinheiro tece um hábil patchwork entre o que nessa noite se passou no Forte de Santo António do Estoril, no Hospital da Cruz Vermelha (onde Salazar começou a ser operado às 4 da madrugada), e na festa do “rei do estanho”. Um dos aspectos mais curiosos do relato diz respeito ao antagonismo entre Eduardo Coelho, médico pessoal de Salazar, e António Vasconcelos Marques, o neurocirurgião que chefiou a equipa que operou o Presidente do Conselho. A atrabílis chegou aos tribunais, estando Vasconcelos Marques morto há três anos quando, em 1999, o Supremo Tribunal de Justiça, contrariando as instâncias anteriores, considerou que Vasconcelos Marques havia ofendido «o bom nome» de Eduardo Coelho.

Tal como na biografia de Sá Carneiro, Miguel Pinheiro fez uma investigação exaustiva, dentro e fora da Torre do Tombo, onde filtrou documentação. Também entrevistou familiares e amigos de Eduardo Coelho, Vasconcelos Marques, Anselmo Costa Freitas e outros; tendo falado com Pinto Balsemão, André Gonçalves Pereira (advogado de Patiño), o neurocirurgião João Lobo Antunes e outros médicos, o historiador Rui Ramos, o politólogo António Costa Pinto, os filhos de Marcello Caetano, jornalistas que cobriram os acontecimentos de 1968, etc. Mais de cinquenta páginas de notas creditam as citações. Um manuscrito inédito de Anselmo Costa Freitas, o último secretário de Salazar, é tornado público pela primeira vez. De tudo resulta um testemunho ágil como num script para cinema, não tanto na descrição da festa Patiño, mas na recriação do ambiente que se terá vivido no hospital onde Salazar foi operado.

Publicou a Esfera dos Livros. Clique na imagem.

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E VÃO 35

 
O Montana legalizou ontem, com efeitos imediatos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Junta-se assim ao Alaska, Arizona, Califórnia, Colorado, Connecticut, Delaware, Hawaii, Idaho, Illinois, Indiana, Iowa, Maine, Maryland, Massachusetts, Minnesota, Nevada, New Hampshire, New Jersey, New Mexico, Nova Iorque, North Carolina, Oklahoma, Oregon, Pennsylvania, Rhode Island, Utah, Vermont, Virginia, Washington (não confundir com Washington DC) e West Virginia. Além destes Estados, e de doze nações índias, dezanove cidades do Kansas efectuam casamentos entre pessoas do mesmo sexo. O mesmo acontece na capital do Missouri. Na Carolina do Sul e na Flórida, apesar de aprovadas, as leis respectivas ainda não entraram em vigor.

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quarta-feira, novembro 19, 2014

O FOLHETIM TAP

 
A notícia é do jornal i. Fica para memória futura. Depois do flop Efromovich (o brasileiro de origem boliviana que há dois anos não deu as garantias financeiras exigidas), temos Lorenzo na calha. Clique na imagem.

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