quinta-feira, 20 de abril de 2017

FUSILLADE


A três dias da 1.ª volta das presidenciais francesas, um atentado reivindicado pelo Daesh fez um morto (um polícia) e dois feridos graves, nos Campos Elísios, em Paris. O ataque deu-se entre a loja Marks & Spencer e a estação de metro Franklin D. Roosevelt. A avenida continua cortada ao trânsito.

Imagem: Le Monde. Clique.

BRUNO VIEIRA AMARAL



Esta semana, na Sábado, escrevo sobre Hoje Estarás Comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral (n. 1978). Quem tenha lido o que escrevi há cerca de quatro anos sobre o primeiro romance do autor, não ficará surpreendido com o juízo que faço do segundo. Sublinhei então a qualidade da narrativa («o texto é brilhante»), bem como a evidência de que «temos escritor». Tudo se confirma. Bruno Vieira Amaral tem o enorme mérito de não escrever para a academia, nem complexos sobre Realismo. Em suma, as palavras têm vida própria, estão no sítio certo, e o leitor interessado em devaneios metafísicos terá de procurar noutra freguesia. Partindo de uma grelha autobiográfica, porém ficcionada, o autor intercala no plot reflexões de natureza hermenêutica que sinalizam o lugar do narrador. A investigação em torno do assassínio do primo João Jorge permite mergulhar nas remotas memórias da infância e adolescência: pai ausente, ecos da Angola colonial, o bairro em que cresceu, ilustrado com virtuosismo no romance anterior. Não me recordo, na literatura portuguesa das últimas décadas, de descrições tão vívidas dos anos da puberdade: mitos, rituais, erotismo, carências, matraquilhos, almoços de domingo, cromos da bola, a «praia do cagalhão», torneios com caricas, cumplicidades tribais, alcunhas. Verdade que desde As Primeiras Coisas temos o Bairro Amélia inscrito no cânone literário, mas agora podemos vê-lo em cinemascope. Factos reais intercalados com acuidade pontuam a evolução da história. Sirvam de exemplo os anos da fome em Setúbal ou o Caso Dona Branca. A destreza do narrador autodiegético ajuda, mas é o domínio dos recursos narrativos que dá eficácia à trama romanesca, servida por uma escrita limpa e polida até ao osso. De forma natural, o enquadramento histórico (em particular sobre Angola) “explica” a personalidade de vários personagens. Isso e as reminiscências da Luanda pré-independente. O mesmo se diga da reconstrução do assassinato de João Jorge: excertos de notícias de jornal, autos policiais, ressonância da vox populi, mnemónica atinente. Por último mas não em último, sublinhar o carácter identitário do texto, a força de uma prosa isenta de qualquer espécie de floreados retóricos: «Onde é que a história da nossa família contamina a nossa história individual?» A obra responde. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre o oitavo volume da série diarística Dias Comuns, de José Gomes Ferreira (1900-1985), volume que tem como subtítulo Livro das Insónias sem Mestre. Num país sem tradição memorialística — os exemplos de Raul Brandão, Torga, Saramago e Ruben A., não sendo os únicos, estão longe de fazer escola —, o diário de Gomes Ferreira tem, sobre outros, o mérito de ilustrar o comportamento do milieu durante a ditadura do Estado Novo. O autor não insinua nem discreteia em abstracto: cita nomes, datas, prémios, anedotário de café, mexericos, etc. O foco central é o país e a literatura. Apesar da aparente secura, não há azedume na prosa. Gomes Ferreira, que em vida foi um cavalheiro, mantém-se igual a si mesmo. Reportando ao período que vai de Agosto de 1969 a Janeiro de 1970, o volume não ignora as eleições do consulado de Caetano, quem era quem na CEUD e na CDE, a violência dos legionários, o cinismo da Pide, e até o manifesto dos escritores (cortado pela Censura), aqui reproduzido na íntegra, com o nome dos seus 83 signatários. A propósito: por que razão a poesia de Gomes Ferreira anda desaparecida há mais de vinte anos? Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

terça-feira, 18 de abril de 2017

BORA LÁ


Hoje em Lisboa. Clique na imagem.

THERESA ANTECIPA


Para calar os detractores do Brexit, Theresa May anunciou há momentos que haverá eleições gerais antecipadas no próximo 8 de Junho. Com o Labour em frangalhos, e sem que os britânicos tenham começado a sentir os efeitos das negociações «duras» que ela pretende, o momento é ideal.

A imagem é do Guardian. Clique nela.

sábado, 15 de abril de 2017

FRANÇA


A mais recente sondagem do Monde. E não é que Mélenchon, 65 anos, eurodeputado, esquerda dura, anti-UE, chegou aos 20% das intenções de voto? Tecnicamente empatado com Macron, Le Pen e Fillon, tudo pode acontecer. Clique na imagem para ler melhor.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

ORDEM PARA ABATER

Para estabelecer a ordem pública na Chechénia, Putin escolheu Ramzan Kadyrov para presidente. Kadyrov, 40 anos, muçulmano sunita, praticante de wrestling, ex-rebelde separatista, chefe de um exército privado denominado Kadyrovtsy, é filho do antigo presidente Akhmad Kadyrov (1951-2004). Em troca de segurança militar, Putin deu carta branca a Kadyrov para impor um regime totalitário. A criatura está em funções desde Abril de 2007, com aval de Moscovo desde Março de 2011. Em Dezembro de 2015 tornou-se membro da Comissão Consultiva do Conselho de Estado da Federação Russa.

Nos últimos dias, a partir de notícias do jornal russo Novaya Gazeta, a imprensa internacional tem feito eco da existência, na Chechénia, de campos de detenção, tortura e abate de homossexuais. Numa sociedade extremamente conservadora e homofóbica como a chechena, a maioria dos homossexuais casa com mulheres (mantendo vida dupla) para evitar retaliação das próprias famílias. Leia-se: para evitarem ser executados pela própria família, como é aconselhado pelas autoridades e tem acontecido. Mas uns quantos saem de casa para viver a sua vida. São esses que têm sentido a mão pesada dos esbirros de Kadyrov. Os que conseguem sair da Chechénia dão conta do horror generalizado. Activistas dos direitos humanos estão a monitorizar a fuga de dúzias de homossexuais que, tendo saído da Chechénia, ainda se encontram na Rússia, pois a possibilidade de serem repatriados para Grózni é real.

Boris Johnson, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, escreveu no Twitter que a situação na Chechénia é «ultrajante». O Reino Unido já manifestou disponibilidade para acolher esses homens. Curiosamente, as notícias não referem lésbicas. Sobre tudo isto, o que dizem as Nações Unidas? E Mr Guterres, católico, em particular?

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A MÃE DE TODAS AS BOMBAS


A partir de um avião MC-130, a Força Aérea dos Estados Unidos lançou hoje sobre Khorosan, no Afeganistão, uma bomba GBU-43, vulgo MOAB, ou Massive Ordnance Air Blast. Esta ‘Mãe de Todas as Bombas’ tem um índice explosivo superior a onze toneladas de TNT. Foi a primeira vez que foi usada em combate. Khorosan é o epicentro de uma zona de cavernas utilizadas como esconderijos pelo Daesh. Projectada para destruir alvos subterrâneos, a bomba GBU-43 detona antes de atingir o solo e, além do seu poder destruidor, tem enorme impacto psicológico. O general John W. Nicholson, comandante das forças americanas no Afeganistão, disse que o GBU-43, a bomba não-nuclear mais potente, era a munição certa para combater o Daesh.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

BILL BRYSON


Hoje na Sábado escrevo sobre Regresso à Pequena Ilha, de Bill Bryson (n. 1951). Na melhor tradição anglo-americana, Bryson é o autor de livros de viagens por excelência. Mas também escreveu uma biografia de Shakespeare, ensaios sobre a língua inglesa, ciência, História, e um volume de memórias. Americano de nascença, transferiu-se para Inglaterra em 1973, e por lá ficou, primeiro a trabalhar num hospital psiquiátrico, depois como colunista e escritor. Houve um breve intervalo no Iowa natal, mas foi em Inglaterra que casou e nasceram os filhos, tendo obtido a cidadania britânica em Outubro de 2014. Com doze livros publicados em Portugal, tornou-se um autor de culto. Refere o Brexit nestes termos: «A muitos de nós, o voto inglês pareceu uma espécie de loucura.» Como o título induz, Regresso à Pequena Ilha é uma sequela de Crónicas de uma Pequena Ilha, várias vezes trazido à colação, embora o título original, The Road to Little Dribbling, não seja tão óbvio. Em 26 capítulos, Bryson passa em revista o Reino Unido. A displicência é aparente, zurzindo sem dó nas instituições, usos e costumes dos dois lados do Atlântico. Sobre condecorações, o contraponto é hilariante: «Na América o sistema produz a ala de um hospital; na Grã-Bretanha ficamos apenas com um idiota vestido de arminho.» O capítulo dedicado a Londres tem o mérito de ilustrar os estrangeiros: «Nem sequer é uma cidade, mas sim duasWestminster e a City —», concluindo que a inépcia e o cabelo de Boris Johnson (antigo Mayor da cidade) são «um monumento à desordem». Na parte dedicada ao País de Gales temos uma evocação de Dylan Thomas e, coisa rara, elogios francos à estância balnear de Tenby. Muito curiosas as observações sobre centrais nucleares, a partir do acidente de 1957 em Windscale. Evitou-se a catástrofe («os carneiros ficaram incandescentes durante uns tempos»), mas o Lake District permaneceu uma das mais belas paisagens do mundo. Stonehenge tem direito a onze páginas. Etc. O brilho da prosa é equivalente ao grau de corrosão. Mas há uma indisfarçável quota bipolar no binómio EUA vs UK. Remissões inesperadas, como a referência a Frederic Leighton, o pintor mais famoso da Era vitoriana, põem o acento tónico no prazer do texto. Quatro estrelas. Publicou a Bertrand.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA 1925-2017


Morreu hoje Maria Helena da Rocha Pereira, decana dos especialistas portugueses em estudos clássicos. Da sua obra, muito vasta, constam os dois volumes de Estudos de História da Cultura Clássica: o de 1965 dedicado à cultura grega, o de 1984 à cultura romana. Entre outros, traduziu Platão, Sófocles, Eurípides, Píndaro, Anacreonte e Pausânias. Tinha 91 anos.

domingo, 9 de abril de 2017

RAUL BRANDÃO


Não tenho livros de cabeceira por uma razão muito simples: não leio na cama. Mas a expressão tem valor simbólico e, nessa medida, as Memórias de Raul Brandão têm todas as condições para serem livro de cabeceira. Bem andou a Quetzal ao reunir num único tomo (capa dura, 623 páginas) os três volumes de memórias do autor de Húmus.

Brandão, que foi militar entre 1888 e 1911, facto que o não impediu de deixar uma obra literária consistente que inclui historiografia, teatro, ficção, livros de viagens e narrativas diarísticas, escreveu estas memórias enquanto testemunha privilegiada dos últimos anos da monarquia e da implantação da República. Lendo-o, temos uma radiografia nítida de Portugal no período que vai de 1900 a 1930, em especial a primeira metade. Diversa iconografia, como cartazes da época, retratos, fac-símiles de documentos de vária proveniência, etc., serve de apoio ao texto. Brandão põe o acento tónico nos factos, bem documentados, mas não ignora a ‘história da porteira’.

Se quer conhecer aquele tipo de detalhes da vida de D. Carlos que as Histórias canónicas omitem, tem de ler estas memórias. E quem diz o rei diz todos os políticos que deixaram marca no início do século XX português. Está lá tudo. Só assim se percebe o estado a que chegámos. Indispensável. Inclui, naturalmente, índice remissivo.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 55,8%. A diferença entre o PS e o PSD é agora de dez pontos. E, mesmo sozinho, o PS continua a ultrapassar a PAF, que soma 35,7%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

LEITURAS


Hoje na Sábado escrevo sobre quatro livros: O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin; Diário dos Imperfeitos, de João Morgado; O Rio Triste, de Fernando Namora; e Baudolino, de Umberto Eco.

Se fizéssemos uma lista dos dez livros mais controversos do século XX, O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), estaria nela. Escrita em segredo numa quinta da Estónia, nos anos 1960, num esconderijo só tornado público em 1991, a magnum opus do autor saiu clandestinamente da URSS e foi revelada ao Ocidente em Dezembro de 1973, por intermédio da tradução francesa da IMKA. Houve quem notasse que talvez fosse o início da «desagregação do sistema comunista». A edição portuguesa de 1975 nada tem a ver com o livro que agora chegou às livrarias, em tradução directa do russo, da responsabilidade de António Pescada. Ensaio autobiográfico, ou de «investigação literária», como se lê na folha de rosto, cobre o período que vai de 1918 a 1956. As cerca de seiscentas páginas do volume correspondem à edição abreviada que tem sido publicada em todo o mundo nos últimos 44 anos. Dividido em sete partes, a clareza dos títulos respectivos não ilude: A Indústria prisional, Movimento perpétuo, Extermínio pelo trabalho, A alma e o arame farpado, Os trabalhos forçados, O desterro e, a fechar, Não há Estaline. Uma verdadeira enciclopédia do horror. Anna Akhmátova disse do livro que devia ser lido e decorado pelos duzentos milhões de russos. Combatente na Segunda Guerra Mundial, e tendo estudado física, matemática e literatura, tinha apenas 26 anos quando foi preso pela primeira vez. Mais tarde seria condenado a «desterro perpétuo» e trabalhos forçados numa charachka, ou seja, um instituto científico onde os investigadores trabalhavam sob vigilância. A pena terminou em 1953, com a chegada de Khrushchov ao poder. Toda a obra reflecte as experiências de privação de liberdade. Soljenítsin tinha nove livros publicados, e o Prémio Nobel da Literatura atribuído em 1970, quando O Arquipélago Gulag saiu dos prelos em Paris. Em Fevereiro de 1974, menos de dois meses passados sobre a sua publicação, foi preso, acusado de «traição à pátria», privado da cidadania russa e expulso do país. O volume inclui posfácio do autor, prefácio de Natália Soljenítsina, notas ao texto, glossário de abreviaturas e termos, bem como verbetes biográficos sucintos de pessoas citadas. Cinco estrelas. Publicou a Sextante.

Diário dos Imperfeitos, de João Morgado (n. 1965), foi novamente reeditado. Em 2012, quando chegou às livrarias, venceu o Prémio Literário Vergílio Ferreira, instituído pela Câmara Municipal de Gouveia (não confundir com o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, que é um prémio de consagração). A bibliografia do autor inclui romances, alguns dos quais de índole histórica; uma novela, contos, poesia e livros para a infância. Miguel Real considera-o «um Camilo Castelo Branco dos nossos tempos». Construído segundo o prisma das relações de poder, Diário dos Imperfeitos põe em pauta o tema mais antigo da humanidade, o amor: «Quando um casal discute, a cama fica para quem? Para quem domina a relação.» O que desencadeia a trama é um desastre: uma mulher perde o controlo do automóvel e capota depois de embater violentamente num semáforo. Sofre traumatismo craniano e entra em coma. Amnésia dissociativa como corolário. Numa linguagem próxima do showing, ou seja, reduzindo a distância entre o discurso do narrador e os factos narrados, João Morgado explora todos os cambiantes da alma humana. Foco central, a Gaivota, embora sejam muitas as personagens femininas, como Dorinda, Emília, Laura. Por vezes de forma desconcertante, este Diário dos Imperfeitos pretende transmitir várias dimensões do real. «Esquece o cono da mulher… é apenas um aeroporto. Podemos aterrar mil vezes num aeroporto e não conhecer o país, como podemos entrar mil vezes numa mulher e não a conhecer.» La Palisse não concluiria melhor, mas concatenar vagina com aeroporto parece-me uma novidade absoluta, mesmo na peculiar genealogia narrativa em que se insere. É muito vasto o espectro de temas dissecados: enamoramento, desejo, medo, insanidade, casamento, nojo, etc. A cada núcleo corresponde uma das três partes do romance. Embora saiba que «a metáfora é o princípio omnipresente da linguagem» (Richards, 1967), diria que certas imagens, ilustrando aquilo que muitos designam por escrita poética, fragiliza o livro. Três exemplos: «ópio de fêmea», «mãos de bolacha», «bebendo-lhe a pele». O recorte conotativo nem sempre é a melhor alternativa. Pelo contrário, não confundir prosa contaminada pela poesia com escrita poética é meio caminho andado para um bom resultado. Duas estrelas. Publicou a Casa das Letras.

Está em curso de reedição a obra de Fernando Namora (1919-1989), um dos autores portugueses mais traduzidos de sempre. O Rio Triste, o último romance, chegou agora às livrarias. Depois dele publicaria uma colectânea de poesia, outra de crónicas de viagem à URSS, e três volumes da série Cadernos de um Escritor. Por oposição ao ciclo rural que caracteriza a obra publicada até 1950 (médico de profissão, veio nesse ano para Lisboa exercer no Instituto Português de Oncologia), O Rio Triste é um bom exemplo do ciclo urbano. Com acção centrada na Lisboa de 1965, põe em pauta os temas da época: repressão política, emigração, guerra colonial, o Império a colapsar: «Há colonos que, suceda o que suceder, ninguém os arrancará vivos da sua casa ou da sua fazenda.» O epílogo dá um salto ao pós-revolução: «O Castel-Branco bufou de não ter sido convidado, julgava-se com candeia acesa no todo-poderoso MFA.» Bem esgalhada, a arquitectura romanesca inclui narrador omnisciente, excertos de cartas, páginas de um diário, notícias de jornal, exegese genológica (o romance como «enxurrada de vida»), trama policial, etc. Roman à clef ou simples coincidência? Boa ocasião para reavaliar no seu conjunto uma obra alvo de não poucos equívocos. Quatro estrelas. Publicou a Caminho.

Não é fácil fazer uma síntese da obra do italiano Umberto Eco (1932-2016), escritor lato sensu, conhecido sobretudo como medievalista e semiólogo, notável ensaísta de teoria narrativa, estudioso da ‘cultura de massas’, capaz de prender o leitor com toda a sorte de assuntos, das peculiaridades semânticas de P. G. Wodehouse ao percurso das Brigadas Vermelhas. Intelectual interventivo, tomou sempre partido, fosse para denunciar o populismo de Berlusconi, a invasão do Iraque ou o flop das Primaveras árabes. Graças à sua capacidade de transpor para a ficção temas eruditos, os romances — em especial O Nome da Rosa —, alguns dos quais deram origem a filmes, fizeram dele uma figura planetária. É o que sucede com Baudolino, agora reeditado. A trama põe em cena figuras reais com personagens de ficção, na transição dos séculos XII e XIII. Mitómano e autodidacta, Baudolino, o rapaz de Frascheta que a sorte atirou para o vasto mundo, narra a história em flashback, da juventude em Paris, para onde foi estudar retórica com uma tença de Frederico I [o Barbarroxa] do Sacro Império Romano-Germânico, ao saque de Constantinopla. O desembaraço narrativo dá consistência à intriga. Quatro estrelas. Publicou a Gradiva.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

BANNON OUT

Stephen Bannon, 63 anos, militante da ala direita do Partido Republicano, deixou de ser membro permanente do Conselho de Segurança Nacional. O almirante Michael S. Rogers, director do Conselho, bem como os chefes de Estado-Maior, recuperam a influência perdida desde a posse de Trump. Quem terá manobrado nos bastidores para que assim fosse foi o tenente-general H.R. McMaster. A realidade tem muita força.

ARQUIVADO

Lembram-se do Banco Português de Negócios, vulgo BPN, que implodiu no dia 2 de Novembro de 2008? Contas por baixo, nove mil milhões de euros pelo cano. O BPN foi nacionalizado nessa semana pelo Governo de Sócrates. E vendido em Março de 2012 pelo Governo de Passos Coelho (era Vítor Gaspar ministro das Finanças), ao angolano BIC. Vendido pelo preço de um T1 em Massamá. O Ministério Público abriu inquérito. A vox populi trouxe Dias Loureiro para o tablado, obrigando o antigo dirigente do PSD a demitir-se do Conselho de Estado. José de Oliveira Costa foi preso. A opinião pública ficou a saber que Cavaco Silva fora accionista da Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN, tendo obtido ganho de 147 mil euros em acções.

Aqui chegados, soube-se agora: o Ministério Público arquivou o processo contra Dias Loureiro e José de Oliveira Costa por não ter sido possível identificar, «de forma conclusiva, todos os factos suscetíveis de integrar os crimes imputados aos arguidos», mesmo depois da analisar toda a «informação bancária relativa às operações e aos sujeitos intervenientes». Dias Loureiro mostrou-se indignado: «Estou estarrecido. É um arquivamento com insinuações». Pois.

sexta-feira, 31 de março de 2017

TAXAS & TAXINHAS

Lembram-se da histeria do PSD quando a Câmara de Lisboa, a exemplo do que acontece em todas as cidades civilizadas, introduziu a taxa turística em Lisboa? Estão recordados da cena patética de Pires de Lima no Parlamento? Pois bem, agora é o PSD, pela voz de José Eduardo Martins, coordenador do programa autárquico do partido e candidato à Assembleia Municipal, quem propõe o aumento dessa taxa de 1 para 1,5 euros. Em conformidade, Teresa Leal Coelho irá defender esse aumento.

quinta-feira, 30 de março de 2017

JÚLIA NERY


Hoje na Sábado escrevo sobre Ei-los que partem, o novo livro de Júlia Nery (n. 1939), apresentado na capa como sendo o romance da nova emigração portuguesa, embora omita qualquer tipo de razão política. Portanto, nada de desemprego por força do colapso da economia ou do catecismo da Troika. A epígrafe de Ferreira de Castro diz tudo: «Todas as gerações nasciam já com aquela aspiração…» Lília, bióloga, parte porque tem um sonho: tornar a água potável acessível a todos os povos. Nuno, homossexual enrustido, vai-se embora para sair do armário em Notting Hill. Marta para escapar à petite vie. Os outros, auto-designados desenrascas (casos de Valter, Ilse, Paulo, Madalena), partem porque se consideram membros de uma elite sem acesso ao patamar social conforme às suas ambições. Une-os uma amizade de muitos anos. Tiago, o astrofísico que Lília trouxe da Califórnia e acrescentou ao grupo, faz parte de outra galáxia. É no casamento de Ilse com Valter, em Unterreichenbach, na Alemanha, que todos se reencontram, ficando a conhecer Albert, o namorado de Nuno (a revelação da sua identidade sexual é uma surpresa). Marta também veio de Londres, enturmando-se rapidamente com um casal de lésbicas de Unterreichenbach. Paulo e Madalena vieram de Luanda, mas primeiro deixaram o filho em França num curso para estrangeiros. Lília não contou a Ilse que em tempos fora abusada por Valter. Lembram-se do filme de Lawrence Kasdan, Os Amigos de Alex, sobre o reencontro de amigos para um funeral? Aqui, em vez de funeral, é casamento. Ei-los que partem é uma história da diáspora com diáspora dentro. Paulo nasceu em Luanda, de onde a família teve de fugir em 1975, era ele criança, tendo voltado agora como gestor financeiro. São muitas as memórias da descolonização de Angola. Episódios violentos, como os que envolveram a família de Ilse e, em concreto, a sua gestação. Subitamente, tudo rui: Ilse sofre com a personalidade bipolar de Valter; Paulo troca Madalena por uma amante angolana; a promiscuidade de Albert faz da vida de Nuno um inferno; Tiago morre num desastre de avião. Por fim, Ilse, Valter e Madalena voltam para Portugal, Marta impõe-se como artista e Nuno arranja um novo namorado. Lília não desiste de salvar o mundo. Três estrelas. Publicou a Sextante.

quarta-feira, 29 de março de 2017

A CARTA


Tusk colocou no Twitter a foto do momento em que Sir Tim Barrow lhe entregou a carta do Brexit. E o Guardian divulgou o seu conteúdo. Fica aqui a imagem da primeira página. Clique para ler melhor.

DONE


Eram 16:30 de ontem quando Theresa May assinou em Downing Street a carta que será hoje entregue a Donald Tusk, presidente do Conselho europeu, formalizando a saída do Reino Unido da UE. Merkel, Tusk e Juncker foram previamente informados do seu conteúdo. Sir Tim Barrow, embaixador britânico em Bruxelas, entregará a carta no preciso momento (12:30 de hoje) em que a primeira-ministra britânica fará um curto statement na Câmara dos Comuns.

Clique na imagem do Guardian para ver melhor.

terça-feira, 28 de março de 2017

O SICOFANTA

Depois dos socialistas europeus, os eurodeputados dos partidos filiados no PPE (como por exemplo o PSD e o CDS) subscreveram uma carta enviada hoje a Dijsselbloem, exigindo um pedido formal de desculpas e a sua imediata demissão do cargo de presidente do Eurogrupo. E fizeram questão de assinar a carta num acto público, no Parlamento Europeu.

MR KHAN EM BRUXELAS

Antecipando-se aos atritos que se adivinham, Sadiq Khan, mayor de Londres, está hoje em Bruxelas a sensibilizar a Comissão e o Conselho para o futuro dos 3,3 milhões de cidadãos de países da UE que vivem no Reino Unido, e dos britânicos (1,2 milhões) que vivem em países da UE. A preocupação de Sadiq Khan faz todo o sentido. Afinal, Londres é uma realidade autónoma do conjunto do Reino Unido, precisando como nenhuma outra de uma política de imigração flexível, apesar do Brexit.

Amanhã, Theresa May acciona o Artigo 50 com uma breve declaração no Parlamento, ao mesmo tempo que um documento de sete páginas será entregue a Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu. As negociações formais, que devem durar 18 meses, começam em meados de Maio, depois da eleição presidencial francesa.