Um livro cada domingo. Desconfio sempre dos escritores que ganham todos os prémios. O brasileiro Bernardo Carvalho (n. 1960), com toda a obra editada em Portugal pela Cotovia, é um desses casos. Recentemente deu uma interessante entrevista ao
Ípsilon, conduzida por Alexandra Lucas Coelho. O seu último romance,
O filho da mãe, um projecto encomendado (o autor teria de passar três meses numa cidade estrangeira e situar lá o
plot), tem São Petersburgo como cenário. O título tem que ver com o facto de existir uma associação de mães que zela pelos interesses dos filhos destacados à força para a Tchetchénia. Bernardo Carvalho viveu em São Petersburgo durante uns meses. Um susto. O livro fala da nova Rússia. A Rússia dos arqui-milionários, do consumismo desenfreado, das
máfias. A Rússia que deixou de ser URSS mas não abdicou do ocupar a Tchetchénia. Fala de desespero e humilhação: oficiais do exército russo que obrigam recrutas e soldados a prostituirem-se com homens. Isso é prática corrente, denunciada em revistas de grande circulação e até no
60 Minutos. Porquê? Porque, não havendo (ou sendo escasso o) dinheiro para o
pré, o negócio rende para os dois lados: o oficial-proxeneta e o magala abusado. Bernardo Carvalho escreve realmente muito bem. Por acaso é
gay.
O filho da mãe acaba por ser uma história de amor (Genet não anda longe), um
outing de viés, que empolga e se lê de um fôlego.
Adenda. Alerta-me João Paulo Sousa para o seguinte: Bernardo Carvalho não tem, como escrevi acima, toda a sua obra editada em Portugal pela Cotovia. Há um volume editado pela Asa,
Medo de Sade (2000), e outros dois, um de 1995, outro de 1996, que continuam por editar. Obrigado, João Paulo. A Cotovia editou seis títulos do autor, incluindo o primeiro,
Aberração, 1993.
Henrique Raposo: «
[...] Saber esperar é uma virtude. E saber as prioridades também. Lisboa/Madrid é necessário. Lisboa/Porto é grã-finismo tonto.»
João Gonçalves: «
[...] Como em tudo neste país, tudo tem donos. E os donos não abdicam das suas pequeninas trelas, das suas capelinhas, dos seus cortesãos. Sena voltou a Portugal para o “10 de Junho” de 1977, a convite de Eanes, e fez o melhor discurso até hoje proferido nessas tétricas comemorações.
[...]»
Jorge Ferreira: «Já antes das últimas eleições legislativas de 2005 aconteceu a mesma coisa. Personalidades de várias áreas decidem esquecer os egos e reunem-se para fazer manifestos temáticos. Ou sobre as agruras da economia, ou sobre os temores da educação, ou, mais prosaicamente, sobre os horrivelmente chamados “grandes desígnios nacionais”. Há um denominador comum, sempre, entre a maioria destas mentes preocupadas: estiveram quase todos no Governo onde enriqueceram o curriculum, mas pelos vistos, empobreceram o país, vista a sobrevivência de tanta preocupação nas respectivas consciências. O que acho estranho é que o ano tem 365 anos e a legislatura tem 4 anos, mas
estas almas só se revelam na véspera de eleições. O que fazem entretanto? Esquecem as preocupações, ou têm mais que fazer? Agora saiu um manifesto pelo adiamento das grandes obras públicas por causa da crise.
Estiveram à espera que o PS perdesse umas eleições para falar. Suspeito.»
José Pacheco Pereira: «Paga-se um preço por criticar os jornais, embora muita gente que os leia não se aperceba das pequenas vinganças e desconsiderações. A capa do
i de hoje é um bom exemplo. Não me pronuncio, como é óbvio, sobre a “entrevista” de Menezes que está ao seu nível e que não me surpreende. Mas surpreende-me que um jornal que se pretende sério escolha uma frase insultuosa para título, e isso é de sua responsabilidade. / Sucede que, na quarta-feira passada, o
i tinha-me pedido uma entrevista de fundo. Por consideração com a Maria João Avilez que ma pediu, dei a entrevista, estando presente uma equipa de televisão e um fotógrafo do jornal. Mas enganei-me quanto à seriedade do jornal a que dei a entrevista, pelo que,
a não haver um pedido de desculpas pela afronta, não autorizo a sua publicação, facto que já comuniquei à Maria João Avilez.»
José Simões: «Desculpem lá a ingenuidade, mas
estes 28 crânios não são aqueles que defendem que a recuperação da economia nacional e a competitividade das empresas portuguesas passa por congelar ou até reduzir salários (que não os próprios)? /
[que] desempenharam quase todos eles funções governativas nos últimos 35 anos; não estiveram quase todos eles à frente do sistema — com toda a carga pejorativa que o termo “sistema” carrega — bancário português;
[que] enquanto responsáveis e/ou titulares de cargos, nunca fizeram a ponta de um corno para evitar termos desembocado num beco quase sem saída. Antes pelo contrário, trataram da vidinha e atenderam aos lóbis amigos e amigos do “sistema”. E é de tratar da vidinha que isto trata. Isto é para levar a sério?
[...] Adenda: uma resposta que nunca iremos ter é, se os resultados das europeias tivessem sido diferentes este “manifesto” teria visto a luz do dia?»
Osvaldo Manuel Silvestre: «Nunca a expressão “cidadãos-jornalistas” foi tão apropriada. Talvez por isso, as forças do regime tenham começado agora a destruir telemóveis, atacando os seus utilizadores, o que se parece muito com desespero. A velha confusão entre a notícia e o seu portador, com o espectáculo do seu ódio deslocado. Ou talvez não: porque agora a notícia
coincide com o portador, e é para este efeito de hipermediação, e hipergeração, que o regime iraniano não está, como é manifesto, preparado (algum estaria?). Preparou-se para a sabotagem electrónica, é verdade, segundo a economina do modelo clássico da contra-informação, ainda «realista», modelo que subjaz também à proibição e extradição física do jornalista, esse tropo da epistemologia (e da epopeia) moderna da verdade como “correspondência”.
Mas não podia prever que as ruas de Teerão se tornassem um instantâneo, e infinitamente reduplicado, palco global, com todas as encenações e todas as verdades produzidas pela tecnologia dos média. Ou que a esfera pública finalmente realizasse todas as promessas do Iluminismo e não conhecesse limites — fisicos, sociais, “nacionais”, civilizacionais — à realização de todo o seu potencial emancipatório. Não é, de facto, uma revolução, o que está a ocorrer em Teerão, mas muitas ao mesmo tempo. E, como nas revoluções, o que surpreende não é apenas que ocorram num tempo de repente fora dos eixos, mas que ocorram
ali, onde supostamente não haveria condições para tal.
[...]»
Pedro Lains: «Só li em diagonal e fui logo ler o que Silva Lopes diz, pois é de quem mais gosto e, claro, há lá razões fortes. Como em outras partes. Não há dúvida de que é um exercício extremamente bem feito. Sem dúvida que vou ler com mais atenção.
[...] Não quer dizer que não se pense mais uns metros. Mas apenas uns metros. E não se deite fora o bebé com a água do banho, pois há trigo e joio nos investimentos projectados. É preciso não ter medo de ser bom aluno por vias não tradicionais.»
Rui Bebiano «
[...] Não ter posição neste confronto, fazer de conta que não é connosco, ou, pior, tomar partido por Ahmadinejad só porque este se arvora em paladino do anti-americanismo, apenas revela cegueira e menosprezo pelos princípios básicos de uma ética democrática.»