Agora que o n.º 124 da
LER, de Maio, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica
Totalitarismos, publicada no n.º 123 na minha coluna Heterodoxias:
Chove lá fora. E o dia escurece um pouco mais quando leio que Lech Walesa, o homem do Solidariedade que contribuiu para apressar a queda do império soviético, diz a uma televisão polaca que não quer homossexuais no Parlamento, que o lugar deles é na rua, de preferência
«atrás de um muro». É espantoso como numa Europa a rebentar pelas costuras, com o flagelo do desemprego e o torvelinho das dívidas e dos défices, este homem azedo escolheu instigar o ódio contra uma minoria.
A Polónia é um país católico. E daí? Isso não obsta a que homens e mulheres, eleitos em eleições livres, dêem a cara pela sua identidade sexual. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo de países menos fervorosos em matéria de catolicismo. O Parlamento polaco até conta nas suas bancadas com uma deputada transsexual.
Walesa recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1983 por ter liderado o movimento grevista que fez de Gdansk um nome de referência da luta anti-comunista. Preso no Outono de 1981, antes da ilegalização do Solidariedade decretada por Jaruzelski, o seu percurso confunde-se com a teia de interesses que, em 1978, levou Karol Wojtyła à cadeira de São Pedro.
Não é preciso ser especialista em história do século XX para ter a noção de quão martirizada tem sido a sociedade polaca. Tal como a conhecemos hoje, a Polónia nasceu em Novembro de 1918, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, segundo o modelo proposto pelo presidente americano Woodrow Wilson, aceite pelos aliados.
A Segunda Guerra Mundial virou tudo do avesso. A 1 de Setembro de 1939, as tropas de Hitler atravessaram a fronteira e, no dia 3 (um domingo), a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha. Pecando por tardia, a formalidade não impediu o massacre de populações inteiras: primeiro os judeus, depois os outros, em especial as elites. O massacre de Katyn é o exemplo mais conhecido. No âmbito do pacto germano-soviético, a URSS ocupou a parte oriental da Polónia. E Estaline não perdeu tempo, ordenando (em Fevereiro de 1940) a execução em massa de oficiais do exército, membros da polícia, activistas políticos, advogados, altos-funcionários do Estado, professores, escritores, artistas, jornalistas, empresários, banqueiros, padres e, de um modo geral, todos os que tivessem voz na sociedade civil. Por junto, foram executados vinte e dois mil polacos, em diversas localidades (Katyn, Kalinine, Kharlov, etc.). Foram poupados médicos e engenheiros porque eram necessários ao esforço de guerra. A matança teve lugar em Abril. Só em 2010 a Rússia reconheceu a autoria do massacre, durante muitos anos atribuído aos nazis.
Ironia macabra: quando, no 70.º aniversário do massacre, as autoridades russas e polacas se preparavam para homenagear as vítimas de Estaline, o avião em que viajava Lech Kaczynski, o presidente da Polónia (e uma comitiva de cem pessoas que incluía as mais altas chefias militares, os ministros da Defesa e da Cultura, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, o governador do Banco da Polónia, deputados, o chefe dos serviços secretos, etc.), despenhou-se antes de aterrar em Smolensk, cidade onde ia decorrer a cerimónia. Morreram todos.
A história da Polónia tem sido pontuada por sucessivas desgraças. Quando os alemães invadiram a União Soviética (em Junho de 1941), atravessando território polaco, o país voltou a ser alvo de barbárie. Finda a guerra, o regime comunista que governou a Polónia entre 1945 e 1990 fê-lo com obediência aos ditames de Moscovo. As reticências dos polacos a muitas medidas da UE, em especial à Constituição europeia, radicam nesses traumas.
A todas estas, Walesa não encontra melhor para entreter a velhice do que criar divisões artificiais numa sociedade marcada por décadas de violência extrema. O papel de palhaço desonra o Nobel e merece repúdio geral.