Quinta-feira, Maio 23, 2013

CLARICE LISPECTOR

 
Hoje na Sábado escrevo sobre A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector (1920-1977). Trata-se do volume de crónicas que o filho Paulo organizou, coligindo tudo o que Clarice publicou no Jornal do Brasil entre Agosto de 1967 e Dezembro de 1973. Vem a talhe de foice lembrar que Clarice foi despedida do J.B. por ser de origem judaica, pois a direcção do jornal alinhou com a orientação anti-semita da política externa brasileira que vigorou durante a presidência de Ernesto Geisel. Nestes textos, Clarice fala das dificuldades do quotidiano, das insónias, dos filhos, do processo criativo, de ocasionais encontros com outros escritores e artistas, da correspondência dos leitores, da praia de Olinda onde passou a infância, da hipocrisia social com a miséria e, também, de factos políticos, como, por exemplo, a guerra do Vietname. As “Conversas de sábado”, título da sua coluna no J.B., foram o ganha-pão de Clarice depois do incêndio que provocou (em sua casa) numa noite de Setembro de 1966, por ter adormecido a fumar. De certo modo, A Descoberta do Mundo é uma autobiografia exemplar.

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Terça-feira, Maio 21, 2013

OKLAHOMA

 
 
Imagens da devastação provocada pelo tornado que ontem destruiu Newcastle e Moore, a sul de Oklahoma. A foto superior é de Gene Blevins (Reuters) e a inferior de Steve Gooch (AP). Ambas constam da fotogaleria de El País. Clique.

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Segunda-feira, Maio 20, 2013

EM QUE FICAMOS?

 
Faz-me muita confusão o logro em que aparentemente toda a gente faz de conta que acredita. Toda a gente: políticos, jornalistas, comentadores, etc. A ver se nos entendemos: quando dirigentes do CDS-PP juram que «o doutor Paulo Portas não deixa passar a taxa» sobre pensões de reforma, estão a falar exactamente do quê? É que a contribuição especial de solidariedade (3,5%), que se aplica a pensões de reforma e aposentação a partir de 1.350 euros, continua (e vai continuar) a ser aplicada. O TC até a considera legítima. O que está na calha é outra coisa. A saber, um corte nas pensões de reforma e aposentação, em nome da famigerada convergência entre os regimes público e privado. E eu ainda não ouvi Paulo Portas dizer, preto no branco, que não concorda com o carácter retroactivo da referida convergência, ou seja, que a mesma incida sobre pensões atribuídas antes de 2005. Convinha portanto o CDS-PP esclarecer de uma vez por todas aquilo com que não concorda. Mas ainda nenhum jornalista teve curiosidade em esclarecer esse pequeno detalhe.

[A imagem é do Expresso. Clique.]

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GRANTA PORTUGAL

 
Depois do Brasil, Bulgária, Espanha, Noruega e Suécia, a revista inglesa GRANTA tem agora uma edição portuguesa, editada pela Tinta da China e dirigida por Carlos Vaz Marques. O primeiro número inclui cinco sonetos de Fernando Pessoa, apresentados por Jerónimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite, textos de Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Hélia Correia, Orhan Pamuk, Rachel Cusk, Ricardo Felner, Rui Cardoso Martins, Ryszard Kapuscinski, Saul Bellow, Simon Gray, Valério Romão e Valter Hugo Mãe, além de um portfolio de Daniel Blaufuks. Vera Tavares assina os desenhos das cortinas. Com periodicidade semestral, a revista é lançada no próximo dia 25, na Feira do Livro de Lisboa.

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Sábado, Maio 18, 2013

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Fnac Chiado / 17:00 / Apresentação de Eugénio Lisboa
Clique na imagem

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Sexta-feira, Maio 17, 2013

CO-ADOPÇÃO APROVADA

 
O projecto-lei do PS sobre co-adopção por casais homossexuais, foi aprovado com 99 votos a favor (sendo doze de deputados do PSD), 94 contra e 9 abstenções.

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Quinta-feira, Maio 16, 2013

PRÉMIO RAINHA SOFIA

 
Nuno Júdice venceu a XXII edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, no valor de 42 mil euros. Antes dele, só dois autores de língua portuguesa haviam sido distinguidos: o brasileiro João Cabral de Melo Neto, em 1994, e Sophia de Mello Breyner Andresen, em 2003. O prémio foi atribuído ao conjunto da obra. Parabéns, Nuno.

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MIGUEL ESTEVES CARDOSO


Hoje na Sábado escrevo sobre Como é Linda a Puta da Vida, a primeira colectânea de crónicas que Miguel Esteves Cardoso (n. 1955) publicou nos últimos sete anos. No plano da Porto Editora de reeditar toda a obra do autor, é para já o único original. Alternando crónicas de formato standard com outras de maior dimensão, o livro está dividido em cinco núcleos, sendo o primeiro dedicado à mulher: «Meu grande amor: seja de que maneira for, continua. Mesmo deixando de gostar de mim. Mas continua. Vive!» Tornou-se lugar-comum dizer que MEC influenciou toda uma geração. Não é verdade. Se isso tivesse acontecido, o jornalismo e a literatura “novíssima” teriam hoje uma clareza que não têm. Afinal, nenhum jornalista ou escritor da moda chama cagalhão a uma andouillette.

Escrevo ainda sobre Viagens e Outras Viagens, de Antonio Tabucchi (1943-2012). Não se trata de um livro de viagens no sentido tradicional do termo. Diria antes que é um notebook que intercala impressões de viagens (ao Brasil, Goa, Austrália, etc.) com textos evocativos, alguns tomando como ponto de partida obras suas. O texto dedicado à síndrome de Stendhal é dos mais interessantes. Editou a Dom Quixote.

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Quarta-feira, Maio 15, 2013

JUSTIÇA BRASILEIRA DEU PONTAPÉ DE SAÍDA

 
A notícia chega um pouco atrasada, mas não perde pela demora: por decisão do Conselho Nacional de Justiça, os cartórios do Brasil são doravante obrigados a efectuar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. A decisão foi tomada por catorze votos a favor, entre eles o do Presidente do Supremo Tribunal Federal, e um voto contra. A medida tem força de lei até à aprovação de legislação própria. Clique na imagem, que pertence ao jornal Estado de São Paulo.

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TO BE, OR NOT TO BE


Em Portugal, se um homossexual ou uma lésbica quiserem adoptar uma criança, podem fazê-lo. Podem fazê-lo enquanto pessoas singulares. E têm-no feito com regularidade, há pelo menos dez anos. Não falo de homossexuais encapotados ou lésbicas enrustidas, estou a falar de pessoas que assumem a sua condição homossexual no acto da adopção. Alguns aparecem na imprensa cor-de-rosa com as criancinhas. Outros são mais recatados. Contudo, um casal de pessoas do mesmo sexo não o pode fazer. É uma originalidade do nosso quadro legislativo.

Na próxima sexta-feira, dia 17, Dia Internacional de Luta contra a Homofobia e Transfobia, o Parlamento vai discutir diplomas do BE e do PS. O Bloco propõe que os casais de pessoas do mesmo sexo possam adoptar dentro ou fora da família, como é permitido aos casais hetero. O PS propõe que um dos cônjuges possa adoptar o/a filho(a) da sua cara metade. Em Fevereiro do ano passado, idêntico projecto-lei do Bloco foi chumbado, embora 58 deputados tivessem votado a favor: 38 do PS, 9 do PSD, 8 do BE, 2 dos Verdes e 1 do CDS-PP (mas nenhum do PCP). A ver vamos agora.

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Segunda-feira, Maio 13, 2013

CISMA


Como sublinha Ana Sá Lopes, «O governo esteve para cair durante o fim-de-semana  — infelizmente, para uma boa parte dos portugueses, não caiu. [...] Claro que a prova de que o governo está todo partido e não tarda a tranformar-se num “holograma” foi o facto da “fonte oficial” do governo se ter empenhado em humilhar Paulo Portas, anunciando aos quatro ventos a sua cedência, mal a reunião acabou  —  ignorando objectivamente o trade-off alcançado. [...]»

Bem pode João Almeida, vice-presidente da bancada parlamentar do CDS-PP, tentar matizar (no Facebook) o enxovalho, que contra factos não há argumentos. Portas transpôs a deadline e o país inteiro sabe que não tem guts para chumbar o OE para 2014.

[A imagem é do jornal i. Clique.]

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Domingo, Maio 12, 2013

CITAÇÃO, 445


Vasco Pulido Valente, Uma nova era, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«A humilhação que se acumula já fez desaparecer a mais leve ideia de responsabilidade pela catástrofe em que nos metemos (ou em que nos meteram). Ficou só o ódio. [...] E nem sequer um ódio cerimonioso e disfarçado. A vida pública começa a tomar um “tom” muito semelhante às piores fases do PREC. [...] Os jornais não hesitam em distorcer ou inventar os factos e acabaram num coro de queixas quase completamente inútil. As sessões da Assembleia da República parecem as sessões da última câmara monárquica na sua agonia. Não se sabe quem manda no governo ou se o governo realmente manda. E o dr. Cavaco arranjou para si um “exílio interior”, que o protege das baixas realidades do mundo. O ministro das Finanças altera impostos, taxas, contribuições (parece que até hoje 65 vezes), para se conformar aos “conselhos” da troika, que são os da Alemanha. [...] E, como sempre, o desespero inspira e multiplica a mentira: a mentira sistemática ou a mentira ocasional. Toda a gente mente, com raiva e com maldade ou pura e simplesmente por inconsciência. Portugal entrou numa nova era de pobreza, de conflito e de isolamento: e essa era promete durar.»

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Sábado, Maio 11, 2013

A VIDA COMO ELA É

 
A taxa oficial do desemprego, por regiões, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Agora é só juntar aos 953 mil desempregados inscritos nos centros de emprego mais 25% de desempregados não inscritos nos centros de emprego para termos uma noção do número real de desempregados. E multiplicar por três, para podermos avaliar a dimensão da tragédia. Afinal, os desempregados são pessoas como nós: têm mulher ou marido, cônjuge de facto, filhos, enteados, pais, sogros, etc. Ah! Mas é tão bom estar no euro. Este quadro foi roubado aqui. Clique na imagem.

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COREOGRAFIA

 
Sem comentários. A imagem é do jornal i. Clique.

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Sexta-feira, Maio 10, 2013

SIM, POIS, NÃO, TALVEZ, CLARO!

 
Em resposta a António José Seguro, o primeiro-ministro disse hoje de manhã no Parlamento: Estamos a falar da convergência das pensões que estão a pagamento. Vai haver, portanto, retroactividade. Paulo Portas vai fazer outra comunicação no domingo, ou bate com a porta? Em que ficamos?

[A imagem é do Público. Clique.]

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Quinta-feira, Maio 09, 2013

CITAÇÃO, 444

 
Sérgio Sousa Pinto entrevistado por São José Almeida e Nuno Sá Lourenço, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«O problema de credibilidade não é uma invenção do meu espírito, resulta dos estudos de opinião. É incompreensível que, em face das políticas que vêm sendo impostas ao país, os estudos de opinião reflictam um crescimento tão modesto do PS. A minha preocupação tem menos a ver com essa circunstância, que já de si merece reflexão, mas com o facto de eu temer que, uma vez que haja eleições e haja uma alteração do poder em Portugal, o PS não esteja em condições para protagonizar uma verdadeira alternativa. Considero que se o PS não for bem-sucedido, não trouxer uma ruptura, uma alteração corajosa em relação ao que temos, corremos o risco de que se esgotem as soluções disponíveis na Segunda República, porque não vejo para onde poderá o eleitorado português transferir a sua esperança. [...] As nossas elites várias vezes na História falharam ao país… Não quero adiantar essa reflexão sobre as elites, mas há uma coisa curiosa que posso dizer: ao longo da minha vida, frequentei universidades muito boas, algumas de elite, escolas privadas… O sítio onde eu vejo menos alta-burguesia, verdadeira burguesia, onde eu vejo menos burguesia é na Assembleia da República. Isto diz muito sobre onde é que está o poder.»

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SOMERSET MAUGHAM

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Um Gentleman na Ásia, de Somerset Maugham (1874-1965). Nos seus 44 capítulos, cinco dos quais foram mais tarde integrados em colectâneas de contos, o livro descreve uma viagem pela Birmânia, o Reino do Sião (actual Tailândia) e a Indochina francesa (actual Vietname). Maugham trabalhou como agente de campo nos serviços secretos britâncos, e é provável que a viagem esteja relacionada com obrigações profissionais. Curioso é que, mesmo em plena selva, o autor faça um relato minucioso das refeições, pois... «tudo quanto como e bebo é assunto de importância.» Muito bom. 

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DUCHE ESCOCÊS


Disto se conclui que, para Paulo Portas, a famosa linha de fronteira é uma questão semântica. Se em vez de «TSU» ou «contribuição» lhe chamarem «alteração da fórmula de cálculo das pensões» (com efeitos retroactivos), a coisa passa. Se a medida for aplicada, significa um corte médio de 10% em todas as pensões.

[A imagem é do Público. Clique.]

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O FIM DO TABU


Hélder Rosalino, secretário de Estado da Administração Pública, disse ontem no Parlamento que o Estado (ele disse «Governo», mas o dinheiro não é do Governo, é do Estado) prevê gastar entre 300 e 500 milhões de euros com o processo de rescisões amigáveis dos funcionários públicos, verba a inscrever no OE 2014. No Estado, as indemnizações por mútuo acordo têm um tecto legal de 48 mil euros, mas neste caso a indemnização média deverá oscilar entre um mínimo de 25 mil e um máximo de 30 mil euros. Para já, duas certezas: os funcionários públicos não têm direito a subsídio de desemprego, e as rescisões visam funcionários com menos de 50 anos.

[A imagem é do jornal i. Clique.]

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Quarta-feira, Maio 08, 2013

AGORA O DELAWARE


Por doze votos contra nove, o Delaware aprovou ontem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, juntando-se ao District of Columbia, sede da capital federal americana, e aos estados do Connecticut, Iowa, Maine, Maryland, Massachusetts, New Hampshire, Nova Iorque, Rhode Island, Vermont e Washington, bem como às tribos Coquille e Suquamish. O governador do Delaware já promulgou a lei. Os casamentos podem realizar-se a partir de 1 de Julho.

Fora dos Estados Unidos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado na África do Sul, Argentina, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Islândia, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, Reino Unido, Suécia, Uruguai, e também na Cidade do México.

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Terça-feira, Maio 07, 2013

MICHAEL BIBERSTEIN 1948-2013

 
Morreu no domingo o pintor suíço Michael Biberstein, que vivia em Portugal desde 1979. Morreu sem que tivesse podido concretizar o sonho de pintar o tecto da Igreja de Santa Isabel (1768), em Campo de Ourique, projecto que foi apresentado na Trienal de Arquitectura de 2010. A seu respeito, Alexandre Melo escreveu que o cruzamento «da tradição faustiana do paisagismo romântico com a influência estilizante da pintura oriental [...] cria imensas e melancólicas paisagens que ocoam um inefável minimalismo wagneriano.» O corpo de Biberstein estará em câmara ardente na capela mortuária de Santa Isabel a partir de quinta-feira, dia 9, sendo cremado no dia seguinte. Deixa viúva a romancista Ana Nobre de Gusmão.

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Domingo, Maio 05, 2013

CITAÇÃO, 443


Pedro Marques Lopes, O irregular funcionamento das instituições, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhado meu:

«[...] Ninguém tem a mínima confiança em Passos Coelho. O primeiro-ministro pode anunciar que à noite se seguirá o dia, que ninguém acredita. [...] A tudo isto deve ser acrescentada a balbúrdia no Governo que obviamente é responsabilidade do primeiro-ministro. Um dia apresenta-se um plano de fomento e crescimento (digno de um aluno de primeiro ano de Economia, diga-se) para uns dias depois ser apresentado o Documento de Estratégia Orçamental que torna inexequíveis quaisquer medidas, por muito ténues que fossem, do tal plano. DEO, aliás, que é um delírio absoluto: desde responsabilizar os portugueses por todos os males que lhes estão a acontecer, passando pela reprodução do argumentário alemão para as razões da crise até prever que em 2014 a nossa economia crescerá 0,6% com todos os cortes anunciados, com o desemprego em rápido crescimento e com a Zona Euro estagnada, vale tudo. Noutro dia, o ministro para o Consenso envia cartas de amor, para no dia seguinte o ministro Gaspar gozar com os deputados dizendo-lhes que mandou o DEO para a Comissão Europeia e uns minutos antes para eles ou atribuindo ao PS, que Maduro tenta seduzir, comportamentos patológicos.

Entretanto, vamos sabendo que dentro do Governo as reuniões duram horas infindas porque os ministros do PSD não concordam com a estratégia de Gaspar e de Passos. O Governo está totalmente partido e são os próprios ministros que o revelam. Dissensão que se alastra ao próprio PSD, onde parte importante do partido discorda e não se reconhece na acção do Governo.

Não há como ignorar, o primeiro-ministro está completamente descredibilizado e a instituição Governo não está a funcionar regularmente. Há um órgão de soberania que tem a responsabilidade de actuar quando isso acontece, mas esse órgão também não está propriamente a funcionar regularmente. Nada, aliás, parece estar a funcionar regularmente. Não me recordo de existirem tão poucas razões para estar optimista

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Sábado, Maio 04, 2013

MAIS DO MESMO


O primeiro-ministro falou ontem ao país, em vez de o ter feito na véspera, dia em que o conselho de ministros aprovou o enésimo pacote de austeridade. Mas na quinta-feira jogava o Benfica. Os media divulgaram o essencial nas 24 horas precedentes: aumento da carga horária da função pública (40 horas de trabalho por semana em vez das actuais 35), aumento da idade a partir da qual reformas e aposentações não são penalizadas, alteração da tabela remuneratória da função pública, aumento dos descontos para a ADSE, criação de uma TSU para reformados e aposentados, aplicação do factor de sustentabilidade às pensões atribuídas antes de 2005, despedimento de funcionários públicos. Tudo isto era conhecido. Na comunicação feita ontem, Passos Coelho levou 26 minutos a dourar a pílula. Se a memória me não falha, a única novidade foi o anúncio do aumento da idade a partir da qual militares e polícias podem pedir passagem à situação de reserva. O resto foram floreados. O desemprego esteve ausente da comunicação, não merecendo sequer uma frase retórica.

A famosa contribuição de solidariedade imposta a reformados e pensionistas  —  3,5% sobre pensões de valor igual ou superior a 1.350 euros  —, que o Tribunal Constitucional legitimou, será substituída por uma TSU de carácter universal, afectando (em percentagem não divulgada) todas as pensões de valor igual ou superior ao salário mínimo.

O despedimento de funcionários públicos veio embrulhado em programas de “requalificação” e em bolsas de “mobilidade”. Se o propósito é cortar na despesa com carácter permanente, não dá a bota com a perdigota. A “requalificação” custa dinheiro (e não é pouco), mesmo aquela que está a cargo do Estado. Quanto à “mobilidade”, o intervalo de 18 meses atira com a eficácia da medida para Janeiro de 2015. Como convém, essa parte da comunicação foi a mais confusa. Ninguém percebe muito bem o que quer o governo. Pode ser que o OE rectificativo faça luz sobre a matéria.

Mas como em Outubro, quando for apresentado o OE 2014, teremos novo pacote, não vale a pena perder tempo com as certezas de ontem.

Paulo Portas, que aprovou estas medidas (caso contrário elas não podiam ter sido anunciadas pelo PM ao país), fala amanhã. O contorcionismo começa a ser patético.

[A imagem é do Público. Clique.]

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Sexta-feira, Maio 03, 2013

TOTALITARISMOS


Agora que o n.º 124 da LER, de Maio, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica Totalitarismos, publicada no n.º 123 na minha coluna Heterodoxias:

Chove lá fora. E o dia escurece um pouco mais quando leio que Lech Walesa, o homem do Solidariedade que contribuiu para apressar a queda do império soviético, diz a uma televisão polaca que não quer homossexuais no Parlamento, que o lugar deles é na rua, de preferência «atrás de um muro». É espantoso como numa Europa a rebentar pelas costuras, com o flagelo do desemprego e o torvelinho das dívidas e dos défices, este homem azedo escolheu instigar o ódio contra uma minoria.

A Polónia é um país católico. E daí? Isso não obsta a que homens e mulheres, eleitos em eleições livres, dêem a cara pela sua identidade sexual. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo de países menos fervorosos em matéria de catolicismo. O Parlamento polaco até conta nas suas bancadas com uma deputada transsexual.

Walesa recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1983 por ter liderado o movimento grevista que fez de Gdansk um nome de referência da luta anti-comunista. Preso no Outono de 1981, antes da ilegalização do Solidariedade decretada por Jaruzelski, o seu percurso confunde-se com a teia de interesses que, em 1978, levou Karol Wojtyła à cadeira de São Pedro.

Não é preciso ser especialista em história do século XX para ter a noção de quão martirizada tem sido a sociedade polaca. Tal como a conhecemos hoje, a Polónia nasceu em Novembro de 1918, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, segundo o modelo proposto pelo presidente americano Woodrow Wilson, aceite pelos aliados.

A Segunda Guerra Mundial virou tudo do avesso. A 1 de Setembro de 1939, as tropas de Hitler atravessaram a fronteira e, no dia 3 (um domingo), a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha. Pecando por tardia, a formalidade não impediu o massacre de populações inteiras: primeiro os judeus, depois os outros, em especial as elites. O massacre de Katyn é o exemplo mais conhecido. No âmbito do pacto germano-soviético, a URSS ocupou a parte oriental da Polónia. E Estaline não perdeu tempo, ordenando (em Fevereiro de 1940) a execução em massa de oficiais do exército, membros da polícia, activistas políticos, advogados, altos-funcionários do Estado, professores, escritores, artistas, jornalistas, empresários, banqueiros, padres e, de um modo geral, todos os que tivessem voz na sociedade civil. Por junto, foram executados vinte e dois mil polacos, em diversas localidades (Katyn, Kalinine, Kharlov, etc.). Foram poupados médicos e engenheiros porque eram necessários ao esforço de guerra. A matança teve lugar em Abril. Só em 2010 a Rússia reconheceu a autoria do massacre, durante muitos anos atribuído aos nazis.

Ironia macabra: quando, no 70.º aniversário do massacre, as autoridades russas e polacas se preparavam para homenagear as vítimas de Estaline, o avião em que viajava Lech Kaczynski, o presidente da Polónia (e uma comitiva de cem pessoas que incluía as mais altas chefias militares, os ministros da Defesa e da Cultura, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, o governador do Banco da Polónia, deputados, o chefe dos serviços secretos, etc.), despenhou-se antes de aterrar em Smolensk, cidade onde ia decorrer a cerimónia. Morreram todos.

A história da Polónia tem sido pontuada por sucessivas desgraças. Quando os alemães invadiram a União Soviética (em Junho de 1941), atravessando território polaco, o país voltou a ser alvo de barbárie. Finda a guerra, o regime comunista que governou a Polónia entre 1945 e 1990 fê-lo com obediência aos ditames de Moscovo. As reticências dos polacos a muitas medidas da UE, em especial à Constituição europeia, radicam nesses traumas.

A todas estas, Walesa não encontra melhor para entreter a velhice do que criar divisões artificiais numa sociedade marcada por décadas de violência extrema. O papel de palhaço desonra o Nobel e merece repúdio geral.

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LER 124

 
Saiu ontem a LER n.º 124. Em vez da tradicional entrevista de fundo, duas: Ana Sousa Dias entrevista o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles a propósito da atribuição do Prémio Sir Geoffrey Jellicoe, galardão de topo da arquitectura paisagista; e Fernando Venâncio entrevista J. Rentes de Carvalho, o escritor expatriado na Holanda. Ribeiro Telles não se deslocou à Nova Zelândia para receber o prémio (atribuído por um júri de arquitectos da África do Sul, Alemanha, Colômbia, Noruega e Nova Zelândia), que foi recebido em seu nome pelo Arq Miguel Braula Reis. Rentes de Carvalho vive na Holanda há mais de 50 anos, país onde toda a sua obra está publicada, mas continua a considerar-se «intensamente português».

Momento alto: Ian McEwan escreve sobre Margaret Thatcher: «É curioso pensar que no seu tempo o romance britânico beneficiou de um ressurgimento comparativamente estimulante. [...] A Sr.ª Thatcher, sempre bastante impaciente em relação à análise da vida, empurrou os escritores para terrenos novos. O romance pode florescer na adversidade...» Mas isso é lá. Textos de José Riço Direitinho e Filipa Melo evocam Aquilino Ribeiro, cuja casa de Romarigães ocupa um portefolio fotográfico de Pedro Loureiro. O irlandês Flann O’Brien, que Maria João Freire de Andrade traduziu com o rigor que todos lhe reconhecemos — Uma Caneca de Tinta Irlandesa, 1939, ed. Cavalo de Ferro —, ocupa um longo ensaio de Rogério Casanova. E sobram as secções do costume, as crónicas (a minha é sobre Clarice Lispector), os artigos e as recensões. Há também uma série de fotos magníficas de como era o Funchal no século XIX. Numa banca perto de si.

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CITAÇÃO, 442

 
Domingos Amaral, Passos Coelho e as virtudes da ditadura de Salazar, ontem. Excertos:
 
«Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, declarou há dias que o país nunca conseguiu “equilibrar as contas públicas desde que é uma democracia”, o que subtilmente reconhece uma virtude à ditadura de Salazar, a de conseguir o equilíbrio das finanças, e estabele um pecado grave da democracia, os deficits.
 
É estranho que um primeiro-ministro democrata, do PSD, que lidera uma coligação de centro-direita, venha criticar desta forma um regime, a democracia, e dar a entender que em ditadura tais “pecados” não aconteciam. [...] Durante os tais quase 50 anos, houve vários períodos históricos em que o Estado Novo conviveu com deficits das finanças públicas. [...]
 
Caro Passos Coelho, meta uma coisinha nessa cabeça dura: 40 anos de democracia deram resultados económicos muito melhores do que 50 anos de ditadura! Salazar leva uma abada dos vários primeiro-ministros que existiram em democracia, essa é que é essa. E nem vale a pena falar na PIDE, e coisas assim, bastam os resultados económicos

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Quinta-feira, Maio 02, 2013

RUBEM FONSECA

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Agosto, de Rubem Fonseca (n. 1925), o maior escritor vivo de língua portuguesa. O romance gira à volta das figuras controversas de Getúlio Vargas, duas vezes Presidente do Brasil (entre 1930-45 e 1951-54), e do jornalista Carlos Lacerda, o seu arqui-inimigo. São personagens “mudos” na arquitectura do romance, mas sem eles não havia thriller. Como em toda a sua obra, o sexo tem uma quota importante e Rubem não precisa ser ostensivo. A trama tem lugar em Agosto de 1954 (o mês do atentado contra Lacerda e do suicídio de Getúlio), misturando ficção e factos reais. Desta vez não há Mandrake, o advogado criminalista, mas o comissário de polícia Mattos não perde no confronto. Notável.

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Quarta-feira, Maio 01, 2013

O PESADELO

 
 
Seleccionei apenas os doze países de topo. Um asterisco significa que os dados são de Janeiro 2013; dois, que são de Fevereiro; e três, que são de Desembro de 2012. A imagem é do Público. Clique.

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Terça-feira, Abril 30, 2013

O DEO


Nos termos da Portaria n.º 166/2013, datada de ontem e ontem publicada (DR n.º 82, 1.ª Série, p. 2630), o Documento de Estratégia Orçamental para 2014-2017 tem como data limite de aprovação o dia 30 de Abril de 2013. Hoje, portanto. Daí o conselho de ministros extraordinário. O referido DEO terá de ser apresentado à Assembleia da República até ao próximo 15 de Outubro.

Segundo os media, o DEO tem provocado fricções entre Gaspar e alguns dos seus pares. Por exemplo, diz-se que Paulo Portas não aceita que pensões de valor inferior a 600 euros sofram cortes. Podemos deduzir que a partir de 650 euros não haveria problema. Mas isto são especulações. O ponto é que hoje, a bem ou a mal, as birras acabam. Acabarão? Certo é que as especulações vão continuar, porque, mesmo aprovado, o conteúdo do DEO (cortes em salários e pensões, despedimentos na função pública, etc.) não será tornado público antes do próximo fim-de-semana. Se for! Esperar para ver.

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