sexta-feira, 23 de julho de 2021

AUTÁRQUICAS 2021


Sondagem do ISCTE e do Instituto de Ciências Sociais, divulgada hoje no Expresso.

Medina repete o score de 2017. 64% dos eleitores de Lisboa consideram o seu mandato Bom (61%) ou Muito Bom (3%). Os itens melhor avaliados são os transportes públicos, os espaços urbanos, a oferta cultural, a segurança e a limpeza.

Moedas consegue o resultado de Cristas (CDS, 20%) e Teresa Leal Coelho (PSD, 11%) em 2017.

BE ultrapassa o PCP+PEV.

Números:

Medina / PS — 42%

Moedas / PSD+CDS+PPM+MPT+ALC — 31%

Beatriz Gomes Dias / BE — 8%

João Ferreira / PCP+PEV — 6%

Nuno Graciano / CH — 4%

Manuela Gonzaga / PAN — 3%

Bruno Horta Soares / IL — 2%

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quinta-feira, 22 de julho de 2021

POVOS ÁRABES


Foi finalmente traduzida a História dos Povos Árabes, de Albert Hourani (1915-1993), historiador britânico de origem libanesa, professor em Oxford entre 1948 e 1984. Hourani também foi professor em universidades de Beirute, Chicago e Harvard, além de ter trabalhado para a Chatham House, ou seja, para o Royal Institute of International Affairs. Em suma, um nome inquestionável em matéria de estudos árabes.

Esta História dos Povos Árabes foi publicada pela primeira vez em 1991, tendo sido actualizada em 2012 por Malise Ruthven, professor em Cambridge. Ruthven assina um prefácio e o posfácio. No posfácio, de 52 páginas, são analisados todos os acontecimentos ocorridos entre os anos 1990 e o levantamento da Praça Tahrir (2011), no Cairo. 

Como disse Edward Said, «Não há elogios suficientes para a importância deste livro neste tempo.» Com efeito.

Além de doze mapas, o volume inclui, em anexo, listas dos imãs xiitas, dos califas, as dinastias importantes, as famílias reinantes dos séculos XIX e XX, índice remissivo, notas e bibliografia.

Indispensável para quem queira perceber o mundo árabe. Editou a Bookbuilders.

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ABRAPLIP


Por amável convite de Sérgio Nazar David, participarei, em Outubro, no XXVIII Congresso da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa. Outros portugueses presentes são Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice e Frederico Lourenço.

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quarta-feira, 21 de julho de 2021

DISTOPIA DE DICK EM SÉRIE


Disponível em streaming na Amazon Prime, descobri por acaso a adaptação feita por Frank Spotnitz, com produção de Ridley Scott, de O Homem do Castelo Alto (1962) de Philip K. Dick.

Quem leu o livro conhece o plot, uma das mais famosas distopias de Dick. Inversamente à realidade, os Aliados perderam a Segunda Guerra Mundial, tendo os nazis (com Hitler ainda vivo) dividido os Estados Unidos em duas zonas: a Leste, o Grande Reich, com a capital em Nova Iorque; a Oeste, os Estados Japoneses do Pacífico, com a capital em São Francisco. Entre ambas, nas Montanhas Rochosas, a Zona Neutra, terra sem lei. Os acontecimentos ocorrem a partir de 1962.

São 40 episódios em 4 temporadas. A 1.ª temporada é de 2015 e ainda só vi oito episódios, mas, do que vi, gostei bastante.

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segunda-feira, 19 de julho de 2021

AXIMAGE


Sondagem da Aximage para a TSF, o DN e o JN, divulgada hoje.

PS 37,6% / PSD 25,2% / BE 7,8% / CH 7,7% / IL 5,5% / CDU 4,8% 

/ PAN 4,6% / CDS 0,9%

Esquerda = 54,8% / Direita = 45,2%

PS e PSD separados por 12,4% / BE e CH empatados / IL ultrapassa a CDU / CDS desaparece.

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DIA DA LIBERDADE


Às zero horas de hoje a Inglaterra levantou as restrições legais decorrentes da pandemia. Mas, pressionado por “especialistas”, Boris Johnson cancelou o discurso que celebraria «a vitória sobre o vírus», tendo, a partir de Checkers (onde se encontra recolhido), aconselhado prudência. 

As discotecas reabriram à meia-noite, momento a partir do qual milhares de pessoas circulam sem máscara nos transportes públicos.

Na imagem, do Guardian, londrinos celebram no The Piano Works, em Farringdon Rd. Clique.

domingo, 18 de julho de 2021

GOMES LEAL


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Soneto dum poeta morto de Gomes Leal (1848-1921), nome maior do Segundo Romantismo português. Uma forma como qualquer outra de assinalar o centenário da sua morte.

Natural de Lisboa, Gomes Leal ficou reduzido à legenda do Anticristo (1884), um juízo enviesado, porquanto, como lembrou Sena, a ele se devem «algumas das mais esmagadoras líricas da língua portuguesa.» Publicou o primeiro poema em 1866, na Gazeta de Portugal, fazendo-se logo notar pelo dandismo saturniano. Em 1872, com Luciano Cordeiro, Magalhães Lima, Silva Pinto e outros, fundou O Espectro de Juvenal, jornal satírico onde zurzia os «liberalões corruptos» e a caterva dos «literatos oficiais». Depressa adquire o estatuto de panfletário-mor do republicanismo mais radical: poemas e opúsculos políticos como O Tributo do Sangue e A Canalha, ambos de 1873, fixam a lenda.

Uma vida pontuada por incidentes folhetinescos obnubilou a justa avaliação da Obra. O eco provocado pela divulgação de virulentos panfletos poéticos — de que são exemplo A Traição, O Herege e O Renegado, todos de 1881 —, com a celeuma jornalística que os acompanhou e o inevitável escândalo no milieu político e literário, contribuiu para desviar a atenção do essencial.

Por exemplo, A Traição invectiva directamente D. Luís face à atitude ambígua do rei no tocante à possibilidade, insistentemente referida, da venda (aos ingleses) de Lourenço Marques. Gomes Leal classifica o monarca como salafrário, pandilha, assassino e ladrão, esgotam quatro edições, mas o poeta acaba na prisão, destino fatal para quem escolhera dar prioridade ao combate ideológico, questionando a Igreja, os fundamentos da monarquia, a pessoa do rei e as instituições burguesas.

Em 1881 escapou ileso de um atentado e, no ano seguinte, começou a publicar A Orgia, mensário de Política, Literatura e Costumes.

Com a morte da mãe, em Maio de 1910, Gomes Leal converte-se ao catolicismo e rende-se à monarquia que tão insistentemente combatera. Devorado pelo álcool, desencantado com os homens, as convicções estilhaçadas, encontra-se sozinho e na miséria. Uma diatribe em verso contra Afonso Costa, Pátria e Deus e a Morte do Mau Ladrão (1914) tem o simbolismo do último estertor. Passou a viver da caridade alheia, dormindo em bancos de jardim.

Até que um grupo de escritores, liderado por Pascoaes, subscreve um apelo a seu favor e, em 1916, o Parlamento vota a atribuição de uma tença anual de 600$00 (importância significativa para a época). Era hóspede do socialista Ladislau Batalha quando, em Janeiro de 1921, morre meio louco.

Natália Correia e Herberto Helder meteram-no em antologias por si organizadas: O Surrealismo na Poesia Portuguesa (1973, Natália) e Edoi Lelia Doura (1985, Herberto). Natália não fez a coisa por menos: devemos-lhe «o mérito surrealizante de reacender o facho da revolta luciferina contra o tirânico policiamento da racaille tonsurée.» Contudo, continua a ser Vitorino Nemésio o principal dos seus antólogos.

Este texto aproveita passagens do que sobre Gomes Leal escrevi em Metal Fundente, o livro de ensaios que publiquei em 2004.

O poema desta semana pertence a Claridades do Sul (1875). A imagem foi obtida a partir da edição que José Carlos Seabra Pereira organizou deste livro, para a colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. O volume foi publicado pela Assírio & Alvim em 1998, assinalando os 150 anos do nascimento do autor.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira e Natércia Freire.]

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quinta-feira, 15 de julho de 2021

GUERRA CIVIL NO HORIZONTE?


Com dez mil soldados na rua, a África do Sul começou a convocar reservistas, o que não acontecia desde os anos 1990. Após sete dias de tumultos e desordem generalizada, o número de mortos subiu para 117, tendo sido efectuadas mais de três mil prisões. Nosiviwe Mapisa-Nqakula, a ministra da Defesa, quer em acção 25 mil efectivos do Exército.

Tudo começou no passado dia 9, nas províncias de KwaZulu-Natal e Gauteng, quando o antigo Presidente Jacob Zuma se entregou à polícia para cumprir a pena de prisão de quinze meses a que foi condenado por ter recusado comparecer perante a Comissão Zondo, um colectivo nomeado para investigar alegados actos de corrupção durante os nove anos (2009-18) em que foi Presidente. 

Neste momento a violência atinge várias regiões do país, com as principais autoestradas cortadas, dezenas de centros comerciais saqueados e incendiados, milhares de lojas vandalizadas, distribuição de alimentos à beira da ruptura desde que a Tiger Brands suspendeu a actividade, postos de combustíveis abandonados e outras infraestruturas críticas nas mãos dos insurrectos. A refinaria de petróleo Sapref, a maior da África Subsariana, também suspendeu a operação.

A prisão de Zuma terá sido o detonador da profunda crise económica que afecta a África do Sul, país que se debate com uma taxa de desemprego de 32% (superior a 50% nos menores de 30 anos), corte dos subsídios estatais que vigoraram até 2019 e, agora, os efeitos da pandemia: 2,3 milhões de infectados, mais de 65 mil mortos.

Com cerca de 60 milhões de habitantes (sendo brancos 8%), a África do Sul é a segunda maior economia de África e a 32.ª a nível mundial. A oposição responsabiliza Cyril Ramaphosa, o actual Presidente, de ter negligenciado os repetidos avisos dos serviços secretos.

Sabemos como começou, não sabemos como vai acabar. Guerra civil no horizonte?

Na imagem, uma rua de Joanesburgo no passado dia 11. Clique.

CHRISTIAN BOLTANSKI 1944-2021


Christian Boltanski morreu ontem em Paris, no Hospital Cochin. A causa não foi determinada, há quem fale de cancro, mas Annette Messager, sua mulher, não confirma.

Autodidacta, tornou-se um dos mais importantes artistas visuais franceses, célebre do Japão à Patagónia, conhecido pelas instalações provocatórias — como a pirâmide de roupas usadas que em 2010 ocupou o Grand Palais —, os vídeos escatológicos, a fotografia e os filmes autobiográficos. No ano passado, quando a pandemia encerrou os museus franceses, o Centro Pompidou exibia desde o Outono de 2019 uma grande retrospectiva da sua obra.

Menschlich (1994), um dos seus livros mais conhecidos, reúne mil e trezentos retratos dos anos 1970-80, tendo como denominador comum o horror do Holocausto. Boltanski tem origem judaica, tendo seus pais (uma escritora e um médico) sofrido a violência da França ocupada.

Começou pela pintura (1957-68), mas seria nas artes visuais que se notabilizaria, estando representado em museus de Paris, Grenoble, Madrid, Nova Iorque, Quebec, ilha japonesa de Teshima, etc. Em 2010, em troca de uma choruda renda vitalícia, “vendeu” a sua vida a um milionário australiano, ficando este com o direito de filmar Boltanski 24 horas por dia.

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quarta-feira, 14 de julho de 2021

MAIS ALVALADE


Hoje ao fim da tarde, como previsto, lá nos juntámos todos no Parlatório do Jardim Mário Soares, ali no Campo Grande, para apoiar a recandidatura de José António Borges ao cargo de Presidente da Junta de Freguesia de Alvalade. A data não podia ter sido melhor escolhida.

Muito boa intervenção do incumbente, após Luís Nazaré e Fernando Medina terem feito o balanço do mandato que termina em Setembro.

Quadro do Banco de Portugal desde 2013, membro da Comissão Política Nacional do PS, antigo adjunto ministerial, licenciado em Direito pela Universidade Nova de Lisboa e a terminar um mestrado de Economia e Políticas Públicas no ISCTE, José António Borges tem feito um trabalho notável na Freguesia a que preside.

Como amigo e membro da sua Comissão de Honra, faço questão de assinalar a minha satisfação em vê-lo prosseguir esse trabalho.

Na imagem, José António Borges no uso da palavra, vendo-se, sentados à direita, Luís Nazaré e Fernando Medina. Clique.

terça-feira, 13 de julho de 2021

CULTURA VS PATRIMÓNIO

A minha recente visita a Tomar deu azo a que publicasse no Facebook fotografias do património histórico da cidade. Uma delas, da Janela do Capítulo (Convento de Cristo), gerou uma onda de indignação. A «incúria» da Direcção-Geral do Património Cultural foi apontada, por quase toda a gente, como causa do «estado miserável, vergonhoso, etc.» da referida janela.

Onde é que eu quero chegar? Quem me conhece, ou simplesmente lê o que escrevo à margem da literatura — entre 2005 e 2011 este blogue foi dos mais lidos —, sabe que discordo da existência de ministérios da Cultura, coisa muito apreciada em França, na antiga URSS, em Cuba, na China e afins. Digo-o com o à vontade de quem é ou foi (alguns morreram) amigo de vários titulares do cargo. Um deles, na primeira entrevista que deu após a posse, até me citou a esse respeito. Adiante.

Manda a verdade dizer que o interior do Convento de Cristo se encontra em muito bom estado de conservação. Mas não é isso que me interessa.

Como em tudo na vida, não podemos comer o bolo e ficar com ele. Ou há dinheiro para apoiar o teatro, o cinema, a música, as bolsas de criação literária, as artes performativas, as mil e uma Fundações culturais que existem de Norte a Sul do país, os arraiais temáticos, etc., ou para restaurar e conservar o Património. Para as duas coisas nunca houve: uns remendos aqui, outros ali, queixas de todos os lados.

Enquanto não houver um ministério do Património, com orçamento adequado, o pouco dinheiro do ministério da Cultura terá como prioridade subvencionar, em registo de esmola (ou seja, em termos análogos aos do rendimento social de inserção), um reduzido núcleo de actores, encenadores, músicos, bailarinos, cineastas, performers, etc., negligenciando museus — o MNAA e o MNAC já têm catálogo? —, monumentos, igrejas, bibliotecas públicas, palácios de reconhecido interesse histórico, castelos, pelourinhos, aquedutos (o de Pegões nem sinalizado está), pontes romanas, edifícios classificados, etc. Para tudo não há.

A opção é justa: entre pessoas e pedras, primeiro estão as pessoas. Mas temos de saber, com clareza, aquilo que queremos.

domingo, 11 de julho de 2021

NATÉRCIA FREIRE


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Braços Longos de Natércia Freire (1919-2004), poetisa que durante vinte anos coordenou a página de Artes & Letras do Diário de Notícias, lugar de que foi afastada no imediato pós-25 de Abril. Foram mais de mil páginas, onde colaboraram todos os nomes que, entre 1954 e 1974, contavam na Literatura portuguesa.

Natural de Benavente, Natércia Freire estudou música (canto e composição), fez o curso do Magistério Primário e leccionou antes de dedicar-se por inteiro à vida literária. Além de poesia escreveu contos, tendo-se estreado com Castelos de Sonho (1935). Recebeu duas vezes o Prémio Antero de Quental (1947 e 1952), o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa (1955) e, em 1971, o Prémio Nacional de Poesia. Era irmã da escritora Maria da Graça Freire.

Entre 1971 e 1974 fez parte da Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian.

Pedro Sena-Lino, seu neto, organizou — juntamente com Alexandre Nave e José Félix Duque — O Livro de Natércia, publicado em 2005. Volume de evocação da autora, com prefácio de Jorge Sampaio, conta com a colaboração de 51 poetas (um deles eu próprio) e 21 artistas plásticos.

No centenário do seu nascimento (2019) foi nobilitada a título póstumo com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

O poema desta semana integra Anel de Sete Pedras (1952). A imagem foi obtida a partir do 1.º volume da Terceira Série de Líricas Portuguesas, a mítica antologia organizada por Jorge de Sena, publicada pela Portugália [este primeiro volume] em 1972.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro e José Gomes Ferreira.]

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quinta-feira, 8 de julho de 2021

CARDOSO PIRES BIOGRAFADO


Hoje na Sábado

Chegou finalmente às livrarias a tão aguardada biografia de José Cardoso Pires (1925-1998), nome maior da ficção portuguesa. Bruno Vieira Amaral, o biógrafo, escolheu um título certeiro — Integrado Marginal. Ao contrário de muitos dos seus pares, Cardoso Pires foi uma personalidade de certo modo “secreta”, razão acrescida para o interesse suscitado pelo livro de Amaral.

Sem perder de vista a vida cultural e política do país ao longo de seis décadas, bem como a boémia tão do agrado de Cardoso Pires, o biógrafo ilustra as origens rurais do biografado, o estertor da Primeira República, o tédio precoce pelo quotidiano pequeno-burguês, as primícias literárias, as amizades com Pomar, Castro Soromenho, Luiz Pacheco e outros, a iniciação sexual das «matinées-segóvia», uma viagem a África como tripulante de navio (curiosos os flashes da sua estadia em Lourenço Marques em 1945), o MUD Juvenil, a passagem pelo PCP, a “tutoria” de Mário Dionísio, o primeiro livro em 1949, os anos em que foi guia-intérprete da TAP, experiências como editor, a revista Eva, a cumplicidade com Maria Lamas, atritos com a crítica, apreensão pela PIDE do segundo livro, a morte do irmão, o casamento com Edite («o rochedo da família»), as filhas, desilusão com o Movimento Para a Paz, os retiros na Caparica, a parceria com Figueiredo Magalhães, a consolidação da obra — a partir de O Anjo Ancorado, de 1958 —, o Golpe da Sé, a direcção do Almanaque, o crime da praia do Guincho (móbil de Balada da Praia dos Cães), a fuga para Londres em 1960, a temporada brasileira, o congresso em Itália da Comunità Europea Degli Scrittori, o prémio para O Hóspede de Job, a extinção da SPE, a publicidade, consagração com O Delfim (1968), leitor e depois escritor residente no King’s College de Londres, o Diário de Lisboa, passagem pela Câmara de Lisboa, a ida ao Camboja, o Prémio da União Latina e o Grande Prémio da APE, o reconhecimento institucional, o apagão cerebral de 1995 e um De Profundis por antecipação.

Bruno Vieira Amaral calibra bem a vasta informação de que dispõe, analisa com argúcia a obra de Cardoso Pires e abstém-se de especulações laterais. Apenas lamento a ausência de uma bibliografia activa do biografado. No mais, Integrado Marginal cumpre com brio o protocolo do género.

Publicou a Contraponto. Clique na imagem.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

LFV PRESO

Foi preso o presidente do Benfica. Desde Sócrates que não havia, no país, uma detenção tão importante. A diferença é que a de hoje não foi em directo.

A NOVELA DE TANCOS


Durante mais de três anos, a pretexto do alegado desaparecimento de material de guerra dos paióis de Tancos, Azeredo Lopes foi enxovalhado por todos os media, acabando por demitir-se do cargo de ministro da Defesa Nacional do XXI Governo Constitucional.

Ontem, o Ministério Público pediu a absolvição de Azeredo Lopes da trapalhada em que o envolveram.

Em simultâneo, o MP pediu penas para 12 dos restantes 22 arguidos do caso que, quando começou, metia no mesmo saco o alegado tráfico de armas, terrorismo, associação criminosa e denegação de justiça.

Antigo director da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa do Porto, terá sido a sua passagem pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social, da qual foi presidente entre 2006 e 2011, que fez dele um alvo a abater.

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segunda-feira, 5 de julho de 2021

RECANDIDATURA FORMALIZADA


Na presença do primeiro-ministro, Fernando Medina formalizou há pouco, na Estufa Fria do Parque Eduardo VII, a sua recandidatura à Câmara de Lisboa. António Costa abriu a sessão, sublinhando o apoio incondicional do PS.

Medina falou a seguir: «Nenhuma acção nos distrairá do fundamental: auxiliar os mais necessitados, apoiar a economia e o emprego, promover a testagem em massa, apoiar a aceleração da vacinação. Nada nem nenhuma campanha nos distrairá.»

Ora bem.

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MOBILIDADE


É hoje assinado o protocolo para a construção da nova linha de metro de superfície entre Odivelas e Loures, numa extensão de 12,1 quilómetros.

A futura linha terá dezoito estações, servindo uma população de cerca de 180 mil pessoas, distribuídas por oito freguesias. Se não surgir nenhum percalço, começará a funcionar no Outono de 2025.

Clique na imagem do Público.

domingo, 4 de julho de 2021

NOVE MILHÕES


Incomoda a caterva dos tremendistas, mas é um facto. O número de inoculações ultrapassou hoje a fasquia de nove milhões: até ao fim da tarde, em Portugal, foram inoculadas 9.060.568 doses.

O mapa é do passado dia 1 e já nos colocava acima da média da UE. Clique.

JOSÉ GOMES FERREIRA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Viver sempre também cansa de José Gomes Ferreira (1900-1985), publicado em 1931, no n.º 33 da revista Presença. Lutador antifascista, a obra oscila entre o neo-realismo e uma certa ideia de surrealismo. Reunida em três volumes, a sua obra poética completa leva o título de Poeta Militante.

Natural do Porto, veio para Lisboa aos 4 anos de idade. Após a formatura em Direito, foi cônsul de Portugal na cidade norueguesa de Kristiansund entre 1926 e 1930. Afastado pela ditadura de todos os cargos públicos, foi jornalista e, sob pseudónimo, tradutor de filmes.

Estreado em 1918 com Lírios do Monte, a obra canónica arranca de facto em 1948. Colaborou nas mais importantes publicações do seu tempo, tendo escrito, além de poesia, contos, ensaio, teatro, crónicas, memórias e um diário publicado em vários volumes.

Em democracia, foi o primeiro presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

O poema desta semana integra Poesia I (1948). A imagem foi obtida a partir de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, organizada por Jorge Reis-Sá e Rui Lage, publicada pela Porto Editora em 2009.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura e Fernanda de Castro.]

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ANA LUÍSA AMARAL NO Y


Excelente entrevista de Ana Luisa Amaral, conduzida por Luís Miguel Queirós, publicada hoje no Público. 

Ao longo de sete páginas, Ana Luísa fala da obra, da traumática ida para o Norte quando tinha 9 anos (nasceu em Lisboa, vive em Leça da Palmeira desde 1965), do doutoramento em Dickinson, dos anos americanos, da docência, do prémio Reina Sofia de Poesia Ibérica que lhe foi atribuído há dois meses, de feminismo, da famosa despensa, do poema-panfleto de Amanda Gorman e do nonsense que representa a obrigatoriedade de ser uma mulher negra a traduzir, da cadela Milly, etc. Vale a pena ler.

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