quinta-feira, 12 de agosto de 2021

MAHFOUZ


Traduzido directamente do árabe por Badr Hassanein, Entre os Dois Palácios, do egípcio Naguib Mahfouz (1911-2006), abre a famosa Trilogia do Cairo, publicada trinta anos antes do Nobel ter dado visibilidade planetária ao autor e à literatura árabe. Foi Jackie Kennedy quem, como editora da Doubleday, comprou os direitos da obra em língua inglesa.

Dividido em 71 capítulos breves, Entre os Dois Palácios centra-se no quotidiano de uma família da pequena-burguesia cairota, entre o decurso da Primeira Guerra Mundial e as sequelas da Revolução Egípcia de 1919 contra o domínio britânico. O patriarca, Ahmad Abdel Gawward, é um comerciante devoto, autoritário, alcoólatra e devasso. O plot realça a identidade cultural do Islão, por oposição a práticas ocidentais. Cada membro da família ilustra uma sensibilidade política diferente, estando a narrativa impregnada de tradição, sexo, drogas, contradições, desobediência e abuso. Nenhum dos cinco filhos, duas raparigas e três rapazes, aceita a intolerância do pai, um libertino dominador para quem a moral islâmica só tem validade dentro de casa (e com os seus). Os irmãos não se entendem, excepto no amor pela mãe, denominador comum. Em pano de fundo, a vida dos bairros populares do Cairo, incluindo os motins contra o regime de Propectorado que a todos oprime.

Frequentemente comparado a Dickens, cuja obra conhecia bem, Mahfouz foi uma personalidade discreta da vida literária egípcia. Nascido no seio de uma família pobre, fez estudos de filosofia, foi funcionário público (um dos lugares que ocupou foi o de director do gabinete de censura ao cinema), colaborou na imprensa, casou tarde e raramente viajou. Era assessor do ministro da Cultura quando decidiu ser escritor a tempo inteiro.

Escreveu perto de quarenta romances, centenas de contos, quatro peças de teatro, uma autobiografia e diversos guiões para filmes, mas nenhum a partir de obras suas, dezenas das quais foram adaptadas ao cinema. Em 1994, por causa de um folhetim sobre religiões monoteístas, publicado em 1959 no jornal Al-Ahram, foi vítima de tentativa de assassinato. Apunhalado no pescoço, sobreviveu, mas precisou de protecção policial até morrer. Após a morte de Mahfouz, Children of Gebelawi foi finalmente editado em livro no Egipto (no Líbano circulava desde 1967), acentuando a passagem do realismo social para as questões da fé, escolha que colocou o autor em conflito com as autoridades religiosas.

Publicou a E-Primatur.

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domingo, 8 de agosto de 2021

EDITH ARVELOS


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi A Esfera de Cristal de Edith Arvelos (1924-2006), poetisa de um só livro.

Nascida acidentalmente na cidade da Praia (Cabo Verde), Edith Arvelos veio para Lisboa ainda criança, aqui tendo frequentado o Colégio das Doroteias. Aos catorze anos foi para Lourenço Marques, onde concluiu o ensino secundário e fez estudos de piano com Yolanda Soares de Melo, professora de, entre outros, Sequeira Costa e Filipe de Sousa.

Nos anos 1960 passou em Lisboa uma larga temporada, estreitando com Fernanda de Castro a amizade iniciada em Lourenço Marques. Nessa ocasião privou com inúmeros artistas, poetas, músicos e intelectuais da entourage da família Ferro. Antes de regressar a Moçambique publicou Um Longo e Lúcido Olhar (1962), primeiro e único livro. 

Personalidade discreta, nem por isso deixou de participar na vida cultural de Lourenço Marques, fosse no Círculo de Cultura Musical, fosse através da publicação de poemas e artigos (sobre música, literatura e cinema) na imprensa local.

Deixou Moçambique no fim de 1974, vindo viver para casa de Fernanda de Castro, onde lhe sobreviveu e residiu até morrer. O n.º 5 de Poetânea (2006) acolhe a homenagem que nesse ano lhe foi prestada por um grupo de amigos.

O poema desta semana pertence à primeira edição de Um Longo e Lúcido Olhar — uma segunda edição, acrescentada, foi publicada em 2001 —, a partir da qual a imagem foi obtida.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares e Camilo Pessanha.]

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sexta-feira, 6 de agosto de 2021

AS ESCOLHAS DE BIDEN


Beth Robinson, 56 anos, juíza do Supremo Tribunal do Vermont, foi escolhida por Biden para integrar o Tribunal de Apelações dos Estados Unidos para o Segundo Circuito (Connecticut, Nova Iorque e Vermont). Ms Robinson é casada com uma mulher desde 2010.

Por seu turno, Charlotte Sweeney, 39 anos, advogada de Denver especialista em direito do trabalho, activista LGBTQ, foi a escolha do Presidente para o Tribunal Distrital do Colorado.

As duas nomeações estão pendentes de aprovação pelo Comité Judiciário do Senado.

Nas imagens da Advocate, Robinson está à esquerda e Sweeney à direita. Clique.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

GROUNDFORCE FALIDA

Esta tarde, o Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa declarou a Groundforce insolvente, tendo notificado a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários.

A declaração de insolvência não determina a cessação dos contratos dos seus trabalhadores, nem a suspensão da prestação de serviços e assistência à TAP nos aeroportos de Lisboa, Porto, Faro, Funchal e Porto Santo.

Lembrar que a TAP detém 49,9% do capital da Groundforce.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

GIBBON REEDITADO


Esgotada há muito a edição portuguesa de 1994, em boa hora decidiu a Bookbuilders reeditar História do Declínio e Queda do Império Romano, obra-prima de Edward Gibbon.

Os seis volumes escritos por Gibbon entre 1776 e 1788 foram, em 1960, abreviados para dois: The Decline and Fall of the Roman Empire: An Abridgement. Desse homérico trabalho se encarregou D.M. Low, académico de Oxford e biógrafo de Gibbon. Foi a partir dessa suma que os leitores não especializados tiveram acesso à obra fundadora da historiografia moderna em língua inglesa.

Publicados em capa dura pela Bookbuilders, com introdução de Low e lettering agradável à leitura, os dois volumes (cerca de 1.300 páginas) foram traduzidos por Maria Emília Ferros Moura. Indispensável.

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domingo, 1 de agosto de 2021

PESSANHA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Phonographo de Camilo Pessanha (1867-1926), o mais destacado simbolista da língua portuguesa.

Natural de Coimbra, Camilo Pessanha era filho de um juiz e de uma criada. Teve uma infância nómada e atribulada, dividida entre Portugal e os Açores. Estudou Direito, advogou em Óbidos e Trás-os-Montes e, aos 27 anos, radicou-se em Macau, onde foi professor de liceu, conservador do Registo Predial e juiz.

Estudioso da língua e da literatura chinesa, escreveu ensaios coligidos postumamente em China (1944), volume que inclui oito elegias chinesas.

A partir de 1895 publicou poemas avulsos em jornais de Macau e de Lisboa, mas também no número único da revista Centauro (1916). Em 1920, Ana de Castro Osório organizou esse corpus poético, publicando-o como Clepsydra, título inspirado num poema de Baudelaire, L’horloge.

Neurótico, coleccionador de objectos raros, viveu dependente do consumo de ópio. Da sua ligação com Ngan-Yen teve um filho.

Durante os 32 anos de permanência em Macau, veio quatro vezes a Portugal, numa delas tendo assistido ao assassinato de D. Carlos e do príncipe herdeiro. 

Vítima de tuberculose pulmonar, morreu em Macau com 58 anos.

O poema desta semana pertence a Clepsydra (1920), mais exactamente à edição crítica organizada por Paulo Franchetti, publicada pela Relógio d’Água em 1995. A imagem foi obtida a partir dessa edição.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal e Salette Tavares.]

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quinta-feira, 29 de julho de 2021

PEDRO TAMEN 1934-2021


Morreu hoje Pedro Tamen, poeta, tradutor, um dos fundadores do Centro Cultural de Cinema, antigo editor da Moraes e, durante vinte e cinco anos, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.

Estreado em 1956 com Poema para Todos os Dias, é uma das vozes centrais da poesia portuguesa dos anos 1960-80.

Entre outros, traduziu Proust, Flaubert, Perec, Reinaldo Arenas e Gabriel García Márquez. Homem de esquerda, extremamente afável, fez parte do grupo de católicos progressistas a que pertenceram António Alçada Baptista, João Bénard da Costa (seu primeiro cunhado) e Nuno Bragança. É pai do professor e ensaísta Miguel Tamen.

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LGBTQ ELEITOS


Já que estamos em maré de censos, o Victory Institute divulgou ontem o relatório 2021 sobre pessoas LGBTQ eleitas para cargos públicos nos Estados Unidos.

Em 2021 foram quase mil, mais precisamente 986, entre gays, lésbicas, bissexuais e transgéneros. Todos os Estados, excepto o Mississippi, agora têm agora pelo menos um governante LGBTQ eleito. O maior aumento [75%] de eleitos verificou-se na comunidade negra. 

Entre outros, foram eleitos dois governadores, dois senadores, nove congressistas nacionais, 189 legisladores estaduais e 56 presidentes de câmara. Um dos legisladores estaduais (Oklahoma) é uma mulher negra, muçulmana e não-binária.

Na imagem, o congressista democrata Mondaire Jones, um dos eleitos.


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CENSOS 2021


Foram ontem revelados os dados preliminares dos Censos 2021. Desde 1970 que não se verificava uma tão grande quebra populacional. Infelizmente, a governação PAF não foi uma distopia. E houve mesmo um mamífero que nos mandou sair da zona de conforto.

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domingo, 25 de julho de 2021

SALETTE TAVARES


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Hoje de Salette Tavares (1922-1994), nome maior do experimentalismo português.

Natural de Lourenço Marques, onde viveu até 1933, Salette Tavares estudou filosofia em Lisboa antes de radicar-se (1949) em Paris. Na capital francesa trabalhou com Gabriel Marcel, Merleau-Ponty, Étienne Souriau e Louis Lavelle.

Além de poesia, traduziu Pascal e publicou ensaios sobre o existencialismo católico, estética, linguagem e teoria da arte. A partir dos anos 1970 fez exposições individuais da sua poesia visual, na Galeria Quadrum, no CCB, em Serralves, na Gulbenkian, etc. Leccionou estética na Sociedade Nacional de Belas Artes (Lisboa) e foi presidente da secção portuguesa da Associação Internacional dos Críticos de Arte.

Prefaciado por Luciana Stegagno Picchio, o volume Obra Poética 1957-1971 (1992) recebeu o Prémio do PEN Clube. Ao longo da vida voltou várias vezes a Moçambique.

O poema desta semana pertence a Quadrada (1967). A imagem foi obtida a partir do 2.º volume da Terceira Série de Líricas Portuguesas, a mítica antologia organizada por Jorge de Sena, publicada pelas Edições 70 [este segundo volume] em 1983, já depois da morte do antólogo.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire e Gomes Leal.]

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OTELO 1936-2021


No Hospital Militar, onde se encontrava internado, morreu hoje Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do 25 de Abril e actual coronel de artilharia. Natural de Lourenço Marques, veio para Lisboa em 1955 frequentar a Academia Militar.

Otelo foi Comandante da Região Militar de Lisboa e Comandante do COPCON, tendo pertencido ao Conselho dos Vinte e ao Conselho da Revolução. Depois do 25 de Novembro de 1975 foi preso e afastado de todos os cargos. Libertado ao fim de três meses, concorreu às eleições presidenciais de Junho de 1976, obtendo 16,5% dos votos. Em Dezembro de 1980 voltou a concorrer às presidenciais, obtendo 1,4% dos votos.

Em 1984, acusado de ser o líder das FP-25, foi preso, julgado e condenado a quinze anos. Esteve preso cinco, sendo libertado por indulto da Assembleia da República.

Em 2011 afirmou que, se soubesse como o país ia ficar, não teria realizado o 25 de Abril.

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sexta-feira, 23 de julho de 2021

AUTÁRQUICAS 2021


Sondagem do ISCTE e do Instituto de Ciências Sociais, divulgada hoje no Expresso.

Medina repete o score de 2017. 64% dos eleitores de Lisboa consideram o seu mandato Bom (61%) ou Muito Bom (3%). Os itens melhor avaliados são os transportes públicos, os espaços urbanos, a oferta cultural, a segurança e a limpeza.

Moedas consegue o resultado de Cristas (CDS, 20%) e Teresa Leal Coelho (PSD, 11%) em 2017.

BE ultrapassa o PCP+PEV.

Números:

Medina / PS — 42%

Moedas / PSD+CDS+PPM+MPT+ALC — 31%

Beatriz Gomes Dias / BE — 8%

João Ferreira / PCP+PEV — 6%

Nuno Graciano / CH — 4%

Manuela Gonzaga / PAN — 3%

Bruno Horta Soares / IL — 2%

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quinta-feira, 22 de julho de 2021

POVOS ÁRABES


Foi finalmente traduzida a História dos Povos Árabes, de Albert Hourani (1915-1993), historiador britânico de origem libanesa, professor em Oxford entre 1948 e 1984. Hourani também foi professor em universidades de Beirute, Chicago e Harvard, além de ter trabalhado para a Chatham House, ou seja, para o Royal Institute of International Affairs. Em suma, um nome inquestionável em matéria de estudos árabes.

Esta História dos Povos Árabes foi publicada pela primeira vez em 1991, tendo sido actualizada em 2012 por Malise Ruthven, professor em Cambridge. Ruthven assina um prefácio e o posfácio. No posfácio, de 52 páginas, são analisados todos os acontecimentos ocorridos entre os anos 1990 e o levantamento da Praça Tahrir (2011), no Cairo. 

Como disse Edward Said, «Não há elogios suficientes para a importância deste livro neste tempo.» Com efeito.

Além de doze mapas, o volume inclui, em anexo, listas dos imãs xiitas, dos califas, as dinastias importantes, as famílias reinantes dos séculos XIX e XX, índice remissivo, notas e bibliografia.

Indispensável para quem queira perceber o mundo árabe. Editou a Bookbuilders.

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ABRAPLIP


Por amável convite de Sérgio Nazar David, participarei, em Outubro, no XXVIII Congresso da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa. Outros portugueses presentes são Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice e Frederico Lourenço.

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quarta-feira, 21 de julho de 2021

DISTOPIA DE DICK EM SÉRIE


Disponível em streaming na Amazon Prime, descobri por acaso a adaptação feita por Frank Spotnitz, com produção de Ridley Scott, de O Homem do Castelo Alto (1962) de Philip K. Dick.

Quem leu o livro conhece o plot, uma das mais famosas distopias de Dick. Inversamente à realidade, os Aliados perderam a Segunda Guerra Mundial, tendo os nazis (com Hitler ainda vivo) dividido os Estados Unidos em duas zonas: a Leste, o Grande Reich, com a capital em Nova Iorque; a Oeste, os Estados Japoneses do Pacífico, com a capital em São Francisco. Entre ambas, nas Montanhas Rochosas, a Zona Neutra, terra sem lei. Os acontecimentos ocorrem a partir de 1962.

São 40 episódios em 4 temporadas. A 1.ª temporada é de 2015 e ainda só vi oito episódios, mas, do que vi, gostei bastante.

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segunda-feira, 19 de julho de 2021

AXIMAGE


Sondagem da Aximage para a TSF, o DN e o JN, divulgada hoje.

PS 37,6% / PSD 25,2% / BE 7,8% / CH 7,7% / IL 5,5% / CDU 4,8% 

/ PAN 4,6% / CDS 0,9%

Esquerda = 54,8% / Direita = 45,2%

PS e PSD separados por 12,4% / BE e CH empatados / IL ultrapassa a CDU / CDS desaparece.

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DIA DA LIBERDADE


Às zero horas de hoje a Inglaterra levantou as restrições legais decorrentes da pandemia. Mas, pressionado por “especialistas”, Boris Johnson cancelou o discurso que celebraria «a vitória sobre o vírus», tendo, a partir de Checkers (onde se encontra recolhido), aconselhado prudência. 

As discotecas reabriram à meia-noite, momento a partir do qual milhares de pessoas circulam sem máscara nos transportes públicos.

Na imagem, do Guardian, londrinos celebram no The Piano Works, em Farringdon Rd. Clique.

domingo, 18 de julho de 2021

GOMES LEAL


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Soneto dum poeta morto de Gomes Leal (1848-1921), nome maior do Segundo Romantismo português. Uma forma como qualquer outra de assinalar o centenário da sua morte.

Natural de Lisboa, Gomes Leal ficou reduzido à legenda do Anticristo (1884), um juízo enviesado, porquanto, como lembrou Sena, a ele se devem «algumas das mais esmagadoras líricas da língua portuguesa.» Publicou o primeiro poema em 1866, na Gazeta de Portugal, fazendo-se logo notar pelo dandismo saturniano. Em 1872, com Luciano Cordeiro, Magalhães Lima, Silva Pinto e outros, fundou O Espectro de Juvenal, jornal satírico onde zurzia os «liberalões corruptos» e a caterva dos «literatos oficiais». Depressa adquire o estatuto de panfletário-mor do republicanismo mais radical: poemas e opúsculos políticos como O Tributo do Sangue e A Canalha, ambos de 1873, fixam a lenda.

Uma vida pontuada por incidentes folhetinescos obnubilou a justa avaliação da Obra. O eco provocado pela divulgação de virulentos panfletos poéticos — de que são exemplo A Traição, O Herege e O Renegado, todos de 1881 —, com a celeuma jornalística que os acompanhou e o inevitável escândalo no milieu político e literário, contribuiu para desviar a atenção do essencial.

Por exemplo, A Traição invectiva directamente D. Luís face à atitude ambígua do rei no tocante à possibilidade, insistentemente referida, da venda (aos ingleses) de Lourenço Marques. Gomes Leal classifica o monarca como salafrário, pandilha, assassino e ladrão, esgotam quatro edições, mas o poeta acaba na prisão, destino fatal para quem escolhera dar prioridade ao combate ideológico, questionando a Igreja, os fundamentos da monarquia, a pessoa do rei e as instituições burguesas.

Em 1881 escapou ileso de um atentado e, no ano seguinte, começou a publicar A Orgia, mensário de Política, Literatura e Costumes.

Com a morte da mãe, em Maio de 1910, Gomes Leal converte-se ao catolicismo e rende-se à monarquia que tão insistentemente combatera. Devorado pelo álcool, desencantado com os homens, as convicções estilhaçadas, encontra-se sozinho e na miséria. Uma diatribe em verso contra Afonso Costa, Pátria e Deus e a Morte do Mau Ladrão (1914) tem o simbolismo do último estertor. Passou a viver da caridade alheia, dormindo em bancos de jardim.

Até que um grupo de escritores, liderado por Pascoaes, subscreve um apelo a seu favor e, em 1916, o Parlamento vota a atribuição de uma tença anual de 600$00 (importância significativa para a época). Era hóspede do socialista Ladislau Batalha quando, em Janeiro de 1921, morre meio louco.

Natália Correia e Herberto Helder meteram-no em antologias por si organizadas: O Surrealismo na Poesia Portuguesa (1973, Natália) e Edoi Lelia Doura (1985, Herberto). Natália não fez a coisa por menos: devemos-lhe «o mérito surrealizante de reacender o facho da revolta luciferina contra o tirânico policiamento da racaille tonsurée.» Contudo, continua a ser Vitorino Nemésio o principal dos seus antólogos.

Este texto aproveita passagens do que sobre Gomes Leal escrevi em Metal Fundente, o livro de ensaios que publiquei em 2004.

O poema desta semana pertence a Claridades do Sul (1875). A imagem foi obtida a partir da edição que José Carlos Seabra Pereira organizou deste livro, para a colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. O volume foi publicado pela Assírio & Alvim em 1998, assinalando os 150 anos do nascimento do autor.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira e Natércia Freire.]

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quinta-feira, 15 de julho de 2021

GUERRA CIVIL NO HORIZONTE?


Com dez mil soldados na rua, a África do Sul começou a convocar reservistas, o que não acontecia desde os anos 1990. Após sete dias de tumultos e desordem generalizada, o número de mortos subiu para 117, tendo sido efectuadas mais de três mil prisões. Nosiviwe Mapisa-Nqakula, a ministra da Defesa, quer em acção 25 mil efectivos do Exército.

Tudo começou no passado dia 9, nas províncias de KwaZulu-Natal e Gauteng, quando o antigo Presidente Jacob Zuma se entregou à polícia para cumprir a pena de prisão de quinze meses a que foi condenado por ter recusado comparecer perante a Comissão Zondo, um colectivo nomeado para investigar alegados actos de corrupção durante os nove anos (2009-18) em que foi Presidente. 

Neste momento a violência atinge várias regiões do país, com as principais autoestradas cortadas, dezenas de centros comerciais saqueados e incendiados, milhares de lojas vandalizadas, distribuição de alimentos à beira da ruptura desde que a Tiger Brands suspendeu a actividade, postos de combustíveis abandonados e outras infraestruturas críticas nas mãos dos insurrectos. A refinaria de petróleo Sapref, a maior da África Subsariana, também suspendeu a operação.

A prisão de Zuma terá sido o detonador da profunda crise económica que afecta a África do Sul, país que se debate com uma taxa de desemprego de 32% (superior a 50% nos menores de 30 anos), corte dos subsídios estatais que vigoraram até 2019 e, agora, os efeitos da pandemia: 2,3 milhões de infectados, mais de 65 mil mortos.

Com cerca de 60 milhões de habitantes (sendo brancos 8%), a África do Sul é a segunda maior economia de África e a 32.ª a nível mundial. A oposição responsabiliza Cyril Ramaphosa, o actual Presidente, de ter negligenciado os repetidos avisos dos serviços secretos.

Sabemos como começou, não sabemos como vai acabar. Guerra civil no horizonte?

Na imagem, uma rua de Joanesburgo no passado dia 11. Clique.

CHRISTIAN BOLTANSKI 1944-2021


Christian Boltanski morreu ontem em Paris, no Hospital Cochin. A causa não foi determinada, há quem fale de cancro, mas Annette Messager, sua mulher, não confirma.

Autodidacta, tornou-se um dos mais importantes artistas visuais franceses, célebre do Japão à Patagónia, conhecido pelas instalações provocatórias — como a pirâmide de roupas usadas que em 2010 ocupou o Grand Palais —, os vídeos escatológicos, a fotografia e os filmes autobiográficos. No ano passado, quando a pandemia encerrou os museus franceses, o Centro Pompidou exibia desde o Outono de 2019 uma grande retrospectiva da sua obra.

Menschlich (1994), um dos seus livros mais conhecidos, reúne mil e trezentos retratos dos anos 1970-80, tendo como denominador comum o horror do Holocausto. Boltanski tem origem judaica, tendo seus pais (uma escritora e um médico) sofrido a violência da França ocupada.

Começou pela pintura (1957-68), mas seria nas artes visuais que se notabilizaria, estando representado em museus de Paris, Grenoble, Madrid, Nova Iorque, Quebec, ilha japonesa de Teshima, etc. Em 2010, em troca de uma choruda renda vitalícia, “vendeu” a sua vida a um milionário australiano, ficando este com o direito de filmar Boltanski 24 horas por dia.

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