sábado, 3 de agosto de 2019

FMI


Kristalina Georgieva, a búlgara que Guterres derrotou na corrida à liderança da ONU, será a próxima directora-geral do FMI, em substituição de Christine Lagarde.

Mas antes disso vai ter de ser alterada a lei orgânica do Fundo, que inibe tomadas de posse a partir dos 65 anos, e Georgieva faz 66 no próximo dia 13.

Detalhe curioso: foi eleita com 55% dos votos, mas os estatutos obrigam a 65%. Face a um possível impasse, o FMI aceitou o resultado.

Doutorada por Harvard, actualmente directora executiva do Banco Mundial, a cujo quadro pertence desde 1993, Georgieva entrou na alta-roda da política internacional em 2007, ao assumir o cargo de directora do Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial. Foi comissária da UE para o Orçamento e Recursos Humanos entre 2014 e 2016.

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ALARMISMO


O agitprop alarmista em torno da provável greve dos motoristas de matérias perigosas (a pretexto dos salários de 2022), com início previsto para o próximo dia 12, é uma manobra infame.

É uma mentira grosseira dizer que há postos sem combustíveis. Num posto onde estive, o responsável explicou: «Assim que o nosso depósito chega a 30%, pedimos imediatamente reforço. Se fizermos o pedido até às quatro da tarde, o reforço é feito no próprio dia

Portanto não vale a pena inventar histórias de famílias munidas de jerrycans (como disse uma mulher na televisão) e de postos a zero.

Clique na imagem da RTP.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

MIRÓBRIGA


Visitei ontem pela primeira vez as ruínas da cidade romana de Miróbriga (século II a.C), na periferia de Santiago do Cacém.

O interior do museu, inaugurado em 2000, continua em bom estado de manutenção. Mas a antiga cidade romana, espalhada por mais de dois quilómetros quadrados, é pouco mais que um matagal. Sirva de exemplo o que resta da fachada do Templo de Vénus, na imagem ao alto. É uma pena.

Já sabemos que o Estado não tem dinheiro, mas a autarquia devia esforçar-se por arranjar apoios privados. Com ingressos a três euros (séniores e estudantes pagam metade), nem verba há para limpar (repito: limpar) a grelha de ripas da fachada do edifício do museu. Lamentável.

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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

BOA NOTÍCIA


Centeno autoexcluiu-se da votação, a realizar amanhã, para o cargo de director-geral do FMI.

Os nomes dos seus (e das suas) putativos substitutos à frente do ministério das Finanças não eram tranquilizadores. E o PS não deve partir para eleições sem um activo da sua envergadura.

Na imagem, tuíte em que o ministro explica a decisão. Clique para ler melhor.

LIMA & COHEN


Hoje na Sábado escrevo sobre o volume de Obra Reunida de Manuel de Lima (1915-1976), o escritor, musicólogo, crítico e artista plástico a quem chamavam o careca evidente. Hoje quase ninguém se lembra dele. Depois de se formar no Conservatório de Lisboa, Manuel de Lima foi violinista de salão em navios da marinha mercante das carreiras de África e do Brasil. A carreira literária é posterior. Mas o exílio na Venezuela contribuiu para o descaso. Os contos que escreveu foram agora coligidos em Obra Reunida, volume de apuro irrepreensível, como são por regra os que saem das mãos de Vladimiro Nunes. Surrealista mal amado pela crítica, Lima deixou obra escassa. Estreado em 1944 com o conto Um Homem de Barbas, prefaciado por Almada Negreiros (a reedição de 1973 acrescentou novos contos), publicaria mais tarde Malaquias ou a História de Um Homem Barbaramente Agredido (1953), A Pata do Pássaro Desenhou uma Nova Paisagem (1972) e a novela O Clube dos Antropófagos (1973), que começara por ser, em 1965, uma peça de teatro. Não confundir com a peça escrita em co-autoria com Natália Correia — Sucubina ou a Teoria do Chapéu, 1952 —, omissa do presente volume. A vida errática terá contribuído para o afastar dos círculos dominantes. Depois de anos de ligação amorosa, zangou-se com Natália Correia. Almada Negreiros também se afastou depois do patrocínio inicial. O grupo do Café Gelo desfez-se. Com Cesariny e Luiz Pacheco manteve sempre uma relação bipolar. Os panfletos incomodaram muita gente. João Gaspar Simões e Óscar Lopes, gurus da crítica, não gostavam dos seus livros. Absurdizante, diziam. Era demasiado humor negro e nonsense para os hábitos indígenas. Por fim, a partida para a Venezuela “apagou-o” da vida literária portuguesa. Além dos quatro livros, o volume inclui uma extensa e muito esclarecedora introdução de Vladimiro Nunes (com Luiz Pacreco, editor e amigo de Lima, no papel de deep throat…), retratos, desenhos, correspondência, fac-símiles de manuscritos, da certidão de nascimento e do assento de óbito, bem como reproduções de pinturas suas que fazem parte do espólio do Museu Carlos Machado, de Ponta Delgada. Este belo volume resgata do esquecimento a obra e a vida deste surrealista esquecido. Quatro estrelas. Publicou a Ponto de Fuga.

Escrevo ainda sobre Chama, o livro póstumo de Leonard Cohen (1934-2016). Muita gente nunca terá tido a noção exacta, mas este canadiano de origem judaica não foi só um cantor extraordinário. É também um grande poeta do amor e do desespero. Além de dois romances, publicou quinze colectâneas de poemas. «Escrever era a sua razão de ser», lembra o filho, Adam, que editou o livro e assina o prefácio. Chama é um testamento: o volume colige poemas, desenhos, autoretratos corrosivos, canções, versos dispersos, entradas de diário, fac-símiles e o discurso de aceitação do Prémio Príncipe das Astúrias, que recebeu em 2011. Existe índice de poemas e letras. À laia de apêndice, os versos originais estão agrupados a partir da página 301. Poeta, escreveu versos que ficaram gravados na nossa memória: «Tive de enlouquecer para te amar / Tive de descer até ao abismo […] Tive de ser pessoas que odiava / Tive mesmo de não ser ninguém». Sim, a voz, inconfundível, faz falta. Mas só faz falta porque não nos esquecemos. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

PADEIRO VS MANICURE

Noto que a defesa de género, da sua dignidade, não entrou no folhetim das golas. E devia. Porque mete um alegado padeiro.

Explico: se em vez de um padeiro fosse uma manicure, as manchetes e o comentariado universal fariam pontaria a ligações de natureza passional. Como é que a gaja lá chegou...? É fácil adivinhar os adjectivos se fosse uma mulher a saltar das profissões proletárias para um gabinete ministerial...

Mas como é homem, a possibilidade não se lhes colocou.

Isto não tem importância nenhuma. Prova apenas o óbvio.

MULTIDADOS


Esta sondagem da Multidados divulgada ontem à noite pela TVI coloca o PAN à frente da CDU.

Já não me admiro com nada. Por norma, em Portugal vota-se contra, raramente a favor. Um bom exemplo: dois terços dos meus amigos e conhecidos de Direita vota no BE, não porque concorde com a ideologia bloquista, mas para, dizem eles, impedir a vitória do PS. Começaram a fazer isso em 1975 com o PCP e o MDP-CDE. E nos últimos dez anos fazem com o BE. 

Em todo o caso, uma maioria de Esquerda de 55,8%. E o PS com mais 15,2% que o PSD.

A confirmarem-se as sucessivas sondagens, o CDS passa a partido tuk-tuk.

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domingo, 28 de julho de 2019

MANTRA

Por que carga de água toda a gente começou de súbito a especular nos media sobre a  muito previsível maioria absoluta do PS?

Os estudos de opinião mais favoráveis oscilam entre 38 e 40%. Ora, pelo método de Hondt, a maioria absoluta obtém-se algures entre 44 e 45% (conforme a distribuição dos votos). Salvo se — a ressalva é decisiva — o primeiro partido obtiver o dobro do segundo. Seria preciso o PSD não passar de 21 ou 22%.

Eu sou a favor de maiorias absolutas (o Tribunal Constitucional existe para lhes pôr travão, como aconteceu nos ominosos anos passistas), o PS merecia, mas não me parece que isso vá acontecer.

sábado, 27 de julho de 2019

À FARTAZANA

As conclusões da sindicância feita pelo Ministério da Saúde à Ordem dos Enfermeiros é um susto, parecendo haver razões para dissolver a sua direcção. O ministério entregou um relatório à Polícia Judiciária, estando a ultimar o documento final que será entregue ao Ministério Público.

A bastonária, Ana Rita Cavaco, terá tido parte activa nas greves — a Lei não permite — que paralisaram os blocos operatórios em todo o país, mas isso são amendoins.

Segundo o Observador, a sindicância da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde terá encontrado «os documentos que provam a apropriação ilegal de quantias durante a investigação sobre a participação da bastonária Ana Rita Cavaco na greve dos enfermeiros e configuram os gastos como violação de normas e regras inerentes à realização da despesa

As despesas sem justificação ultrapassam a imaginação mais delirante. Entre outros dados, o relatório da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde, ontem divulgado pela SIC no Jornal da Noite, refere «seis mil euros em restaurantes, mais de três mil euros em levantamentos, cerca de cinco mil em compras no estrangeiro, cerca de oito mil em Via Verde, setenta mil euros em cartão de crédito, deslocações em viatura própria com despesa média de 2.600 euros mensais... [...]» Mas também gastos exorbitantes com vestuário e cabeleireiros.

A classe dos enfermeiros revê-se nisto?

quinta-feira, 25 de julho de 2019

NOVAS ELEIÇÕES?


Pedro Sánchez voltou a falhar a investidura como Presidente do Governo de Espanha. Esgotadas as duas votações (a do passado dia 22 e a de hoje), começa a contar o prazo de sessenta dias para a terceira e última votação. Se voltar a falhar a 23 de Setembro, o rei dissolve as Cortes e marca novas eleições para 10 de Novembro.

A teimosia do PODEMOS em querer entrar no Governo tem ditado o seu comportamento. Mas Sánchez não cede e já toda a gente percebeu que o PSOE prefere novas eleições.

A partir daqui tudo é possível. O senhor Iglesias tem que ter a noção das proporções.

Clique na imagem de Sánchez.

POLLOCK & ANA CRISTINA SILVA


Hoje na Sábado escrevo sobre Banquete no Paraíso, do americano Donald Ray Pollock (n. 1954), um autor que não tem pressa. Publicou o primeiro livro, uma colectânea de contos, aos 54 anos, e o mais recente, este Banquete..., em 2016. Antes de voltar a estudar e dedicar-se à escrita foi camionista. Para já, a bibliografia reduz-se a três títulos, mas a recepção crítica tem sido boa e revistas de prestígio pedem-lhe textos. Também foi traduzido e premiado em França. O carácter sombrio dos três livros que escreveu não constitui óbice. Antes pelo contrário. Sem surpresa, os círculos literários mais sofisticados continuam a olhar para ele como um intruso. Ele paga-lhes na mesma moeda, causticando os árbitros do gosto e caricaturando o establishment. O livro é um western. Isso vale para o imaginário, personagens, violência, lixo, sordidez, truques, vício, amoralidade, prostitutas, jogadores, banditismo e outros lugares-comuns. Estamos em 1917, algures na «fronteira que separa a Geórgia do Alabama», mas os cem anos de intervalo nada significariam se tudo decorresse na actualidade. Afinal, a história dos três irmãos Jewett podia ser hoje. O título, Banquete no Paraíso, remete para o estado de espírito dos irmãos após a morte do pai durante um acesso de diarreia. Para Cane, Cob e Chaminé, o equivalente de ‘agora tudo é possível’. Doravante seriam um bando implacável, uma lenda viva. A Primeira Guerra Mundial e, em concreto, a luta contra os alemães, funciona como metáfora da natureza humana. As actividades ilegais do Bando Jewett servem de fio condutor do plot e de pretexto para Donald Ray Pollock inserir estórias laterais (e muitas referências literárias, Shakespeare incluído) na narrativa central. Sirva de exemplo a personagem do tenente Vincent Bovard, um homossexual recalcado cuja presença parece corresponder à necessidade de introduzir um tema fracturante: «A Europa destroçada pela guerra, com os seus governantes consaguíneos e preconceitos vetustos, ia dar-lhe […] uma morte pela qual valia a pena lutar.» O autor tem uma mente fértil, mas a quota de transgressão não corresponde ao que foi escrito sobre o romance anterior, The Devil All the Time, publicado em 2011. Três estrelas. Publicou a Sextante.

Escrevo ainda sobre As Longas Noites de Caxias, o romance mais recente de Ana Cristina Silva (n. 1964). Decorridos quase 50 anos da queda da ditadura, começa a fazer-se a história da polícia política. Sirva de exemplo este livro. Se outro mérito não tivesse, faz luz sobre uma realidade pouco conhecida: o das mulheres torturadoras. O quotidiano de Caxias confronta Laura com Maria Helena, uma agente da PIDE que chegou a chefe de brigada. O mais interessante não radica no sadismo, traço de carácter sem género. O que dá singularidade à narrativa é o modo como Maria Helena “sobrevive” ao 25 de Abril: prisão, fuga para Madrid (onde Barbieri Cardoso lhe arranja emprego), regresso a Portugal, nova prisão, julgamento, pena simbólica — a democracia nunca julgou os seus verdugos — e, por fim, um cancro que não a impede de dizer: «Não, nunca me arrependi de nada. Os tempos da PIDE foram os mais felizes da minha vida.» A radiografia de Ana Cristina Silva tem a nitidez das evidências. Quatro estrelas. Publicou a Planeta.

CARNIFICINA


Uma vez empossado primeiro-ministro e primeiro lorde do Tesouro, Boris Johnson não perdeu tempo. Fez a maior remodelação ministerial de que há memória no Reino Unido, garantindo que a 31 de Outubro haverá Brexit sem ses e sem mas. Está tudo preparado: sistema bancário, serviço de saúde e stocks farmacêuticos, portos e aeroportos, distribuição alimentar, indústria, agricultura, etc. Quanto ao famigerado backstop na Irlanda do Norte, foi claro: «Esqueçam. A atribuição de culpas acaba aqui.» Temos homem!

Michael Gove é o novo vice PM. Para ministro dos Negócios Estrangeiros foi Dominic Raab. As Finanças ficam com Sajid Javid. Nos assuntos do Brexit continua Stephen Barclay. O novo chief whip (o todo poderoso líder parlamentar que tem assento no conselho de ministros) é Mark Spencer. E assim sucessivamente. São dezassete brexiteers da linha dura. A cereja em cima do bolo foi a nomeação de Dominic Cummings para primeiro-conselheiro.

Aguardar para ver. Clique na imagem.

terça-feira, 23 de julho de 2019

BORIS CHEGOU A PM


Com 92.153 votos, nada menos que 66,4% dos votantes, Boris Johnson foi eleito líder do Partido Conservador. Isso faz dele, a partir de hoje, o primeiro-ministro designado do Reino Unido.

Jeremy Hunt, o seu rival, obteve 46.656 votos. Votaram 87,5% dos 159 mil tories que podiam votar.

Boris fala esta tarde em Westminster. Amanhã, Theresa May apresenta à rainha a sua renúncia e o nome do novo PM. De seguida, Boris desloca-se a Buckingham para ser formalmente empossado.

Boris Johnson, 55 anos, natural de Nova Iorque, historiador, deputado desde 2001, formou-se na Escola Europeia de Bruxelas, em Eton e no Balliol College, de Oxford. Entre 1999 e 2005 foi editor da Spectator, a mais influente revista política inglesa. Foi Mayor de Londres durante nove anos: de 2007 a 2016. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2016 e 2018. Publicou uma dúzia de livros — de História e ensaio político —, sendo The Dream of Rome (2006) um dos mais aclamados. É pai de seis filhos e está separado da segunda mulher.

Por muito que isto custe a aceitar aos seus detractores, Boris é hoje o único intelectual à frente de um Governo.

Clique na imagem do Telegraph.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

DONE


A Pátria pode dormir descansada.

A Procuradoria de Clark County rejeitou a acusação de violação apresentada por Kathryn Mayorga contra Cristiano Ronaldo:

«Tendo em conta a informação disponível, as alegações de violação contra Cristiano Ronaldo não podem ser provadas, por não serem inequívocas. Não serão feitas mais acusações.»

Clique na imagem.

EVOLUÇÃO


A ver vamos até Outubro.
Clique no gráfico da TSF.

PITAGÓRICA


Começar bem a semana. Sondagem da PITAGÓRICA divulgada hoje pela TSF e o Jornal de Notícias.

Obtendo 43,2% o PS fica à beira da maioria absoluta. O score corresponde ao dobro do PSD, que fica em 21,6%.

PS = 43,2% / PSD = 21,6% / BE = 9,2% / CDU = 6,8% / CDS = 6% / PAN = 3,6% 

Sozinho, o PS obtém mais 15,6% que a PAF [PSD+CDS].

Maioria de Esquerda = 59,2%. Em deputados seriam mais de dois terços.

Santana Lopes não consegue ser eleito.

Clique no gráfico da TSF.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

AXIMAGE


Sondagem Aximage divulgada hoje no Correio da Manhã e no Negócios. A continuar assim, está tudo dito.

Clique no gráfico do Negócios.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

VIENA


Impressões minhas de Viena, hoje na Sábado.

A literatura e o cinema ajudam-nos a conhecer as cidades muito antes de as visitarmos. Nova Iorque, Paris e Londres são exemplos extremos, onde nos orientamos com facilidade. Não se pode dizer o mesmo de Viena. Sucede com a capital austríaca o que acontece com certos livros: toda a gente cita sem os ter lido.

Resisti o mais que pude. A minha geração não esqueceu o Anschluss (a conexão nazi), nem, mais tarde, o estatuto de satélite adormecido de Moscovo. Verdade que o Círculo de Viena faz parte do nosso imaginário, não tanto por causa dos fundadores, mas pela irradiação internacional deste grupo de filósofos, cientistas, artistas plásticos e escritores que durante grande parte da primeira metade do século XX fizeram de Viena um dos epicentros da política e da cultura europeia. O domínio do Terceiro Reich alemão e a ideologia nacional-socialista levaram à diáspora os seus membros mais ilustres, mas o mundo académico anglo-americano, que os acolheu, preserva o legado.

Viena, portanto. Ficamos em Hofburg, o anel central da cidade, a dois passos de tudo o que interessa: museus e galerias de arte, grandes hotéis, livrarias sofisticadas, lojas de luxo, três cafés históricos — Mozart, Central e Sacher —, o Loos American Bar, vários dos melhores restaurantes, mercearias gourmet, chocolatarias para todos os gostos, o Palácio Palfy, sala de concertos low cost, a famosa Graben, artéria pedonal com casino e comércio de todo o tipo, a Spanische Hofreitschule (escola de arte equestre), o parque Burggarten e a elegante Kohlmarkt, que desemboca em Michaelerplatz, entrada principal do Palácio Imperial de Hofburg para onde convergem todos os nostálgicos de Sissi, a imperatriz imortalizada por Romy Schneider. Dito de outro modo: explorar Hofburg é conhecer o essencial de Viena.

Por exemplo, é no vasto complexo do Palácio Imperial que estão instalados os museus canónicos: o Kunsthistorisches, ou Museu de História da Arte, e o Museu de História Natural. Situados defronte um do outro, são obra da mesma dupla de arquitectos, Karl von Hasenauer e Gottfried Semper. Em Viena, tudo o que é relevante saiu das mãos deles.

No Kunsthistorisches há sempre grandes exposições temporárias, de Bruegel (embora A Torre de Babel faça parte das colecções permanentes), Rothko, Caravaggio e outros que tais. O acervo é riquíssimo. Há de tudo, do antigo Egipto à pintura flamenga, sem esquecer o mundo grego e romano, os renascentistas italianos, pintura inglesa, joalheria e até o extravagante Arcimboldo. A escadaria central é dominada por Teseu e o Centauro, a monumental escultura de Canova. Os magníficos painéis do tecto são de Klimt, também presente com o célebre Nuda Veritas. Os despojos escultóricos de Éfeso estão depositados no Castelo Novo, denominado Ephesos Museum, uma extensão do Kunsthistorisches, onde funciona a Biblioteca Nacional Austríaca.

Mas há mais. Após uma caminhada de cinco minutos, ocupando o espaço outrora reservado aos estábulos imperiais, o Museum Quartier (com cinco entradas viradas à Museumplatz) alberga mais de meia centena de instituições, de que fazem parte quatro museus importantes: o Leopold, incontornável para quem gosta de Schiele, Klimt e restante arte austríaca; o Mumok, de arte moderna e contemporânea; o Kunsthalle, feudo dos performativos abstractos; e o Architekturzentrum, ideal para perceber a evolução da arquitectura. Separados por talvez cem metros, o Leopold e o Mumok são edifícios modernos, muito diferentes entre si, construídos de raiz no vasto pátio central, coberto de neve no Inverno e de esplanadas no Verão.

No Leopold tive a grata surpresa de descobrir a obra de Richard Gerstl, o primeiro modernista da Áustria, suicidado aos 25 anos quando Schönberg rompeu a ligação amorosa de ambos e o expulsou do Círculo de Viena. Quem prefere Schiele a Klimt, como acontece comigo, encontra no Leopold a razão dessa preferência. Ainda no Leopold, Ferdinand Georg Waldmüller foi outra descoberta auspiciosa. Como notou um amigo atento, Waldmüller é uma espécie de Henrique Pousão ‘mais luminoso’. O Mumok acolhe parte da obra de Ernst Caramelle. No Kunsthalle há muita fotografia e vídeos: Andrzej Steinbach, Ingel Vaikla, Joanna Piotrowska (que tem uma galeria em Lisboa), Peter Wächtler, Tobias Zielony, Ian Wallace e outros. À chegada ou partida do Museum Quartier deve visitar-se o MQ Point, que tem uma das melhores livrarias de arte que me lembro de ter visto dos dois lados do Atlântico. Infelizmente não é para todas as bolsas. Saí de mãos vazias e a ranger os dentes: o álbum de Lucian Freud custa 750 euros.

Mais afastado, mas ainda em Hofburg, instalado no Palais Erzherzog Albrecht, o Museu Albertina é do melhor que há na Europa: Dürer, Chagall, Lichtenstein, Magritte, Kandinsky, Degas, Kirchner, Rubens, Bosch, Monet, Picasso, Warhol (o retrato Mao), Brassaï, Rafael e Leonardo são alguns dos artistas melhor representados. Estes e a nata da arte austríaca, que inclui o pouco citado mas insigne Kokoschka. O museu fica em Albertinaplatz — morada do Café Mozart, onde Graham Greene, nos seus tempos de espião, marcava encontros com outros agentes do MI6 —, e é porventura o melhor museu ‘moderno’ de Viena.

Na fronteira de Hofburg temos Stephansdom, a imponente catedral medieval de Santo Estevão. Assombrosa, com uma nave espectacular, fica ‘entalada’ entre edifícios vulgares. Portanto, a melhor forma de apreciar a torre gótica e as telhas de vidro colorido que forram o telhado é ir tomar um copo ao bar do 6.º andar do DO&CO, mesmo em frente.

Pelo contrário, a Karlskirche, igreja barroca dedicada a Carlos Borromeu, mandada construir por Carlos VI, imperador do Sacro Império Romano, está enquadrada pelo cenário desafogado de Karlsplatz. Lá dentro, os frescos de 1726 que Johann Michael Rottmayr pintou na cúpula são impressionantes. Uma estrutura metálica, com elevador, leva-nos a uma plataforma elevada a mais de trinta metros que permite apreciar os detalhes. Quem não queira subir, vê os frescos reflectidos em dois globos transparentes de grande diâmetro. Na Karlskirche também se realizam concertos de música clássica: no dia em que fomos era Ave Maria, de Schubert.

Karlsplatz é um parque de grandes proporções que tem na sua moldura a fabulosa Karlskirche, a Universidade Técnica de Viena, o Wien Museum, o cubo de vidro que serve de extensão ao Kunsthalle e, do lado oposto, já em Innere Stadt, a Musikverein, sede da Filarmónica de Viena, conhecida sala de concertos que toda a gente identifica por causa da gala de Ano Novo. Não confundir com a Staatsoper (imagem ao alto), a mítica ópera de Viena, que domina Ringstrasse e fica ali perto. A enorme mais-valia de Viena é essa: podermos ir a quase todo o lado a pé, sem necessidade de táxis ou metro. Por falar em ópera: não é um espectáculo barato em lado nenhum, a Staatsoper tem uma programação invejável, mas pratica preços de extorsão, superiores aos de Nova Iorque e Londres.

Voltando a Karlsplatz, o discreto Wien Museum é muitíssimo recomendável. Vimos uma notável exposição documental e fotográfica sobre a implosão do Império Austro-Húngaro (1918) e subsequente proclamação da República (1919), organizada por Anton Holzer: Die erkämpfte Republik. As maquetas da cidade, desde 1400, são outro atractivo. A sala dedicada aos indígenas ilustres dá a medida daquilo que Viena representou até 1940.

No outro extremo de Karlsplatz, já em Friedrichstrasse, fica a Wiener Secession, fundada em 1897 por Klimt, Moser e outros adversários da arte conservadora que então dominava. Conhecido simplesmente como ‘a Secessão’, trata-se de um dos edifícios mais pequenos e belos de Viena, rapidamente identificado pela cúpula dourada de Olbrich (a sua efígie está cunhada nas moedas austríacas de 50 cêntimos). Serviu de escola de arte e ofícios de artistas novos. É lá que podemos ver os famosos murais de Klimt, bem como exposições temporárias vanguardistas, como são as de Kris Lemsalu, Ed Ruscha e Philipp Timischl. Pelo tipo de visitantes percebe-se que estamos num museu muito exclusivo. Se atravessar a rua encontra o confortável Café Museum, poiso de Musil e outros intelectuais da cidade.

Não é despiciendo falar de cafés, traço distintivo da cultura vienense. A UNESCO classificou-os como património imaterial da humanidade. Já referi o Mozart, o Central e o Sacher, que têm filas homéricas à porta (assunto que se resolve fazendo reserva online), mas o Sperl, o Frauenhuber e o Landtmann são igualmente de visita “obrigatória”. Acoplado ao hotel homónimo, o Sacher serve a famosa tarte e, dizem os entendidos, a melhor melange da cidade. Além de bolos, o Mozart serve pratos da cozinha local, como Wiener Schnitzel com salada de batata e compota de framboesas, ou Tafelspitz, o prato preferido do imperador Francisco José, com puré de maçã. No Central come-se um Goulash decente e Apfelstrudel aquecido a nadar em creme de baunilha. A cozinha mais elaborada é a do Landtmann. Habitué, Freud tinha a mesma opinião. Paul McCartney e Hillary Clinton corroboram. Se quer ver rapaziada jovem e descontraída tem de ir ao Sperl, fora do anel central.

Os restaurantes propriamente ditos são outra coisa. Mesmo ao lado do Landtmann fica o Burgtheater, o esplêndido teatro ‘alemão’ desenhado por Hasenauer e Semper. É no Burgtheater, virado à Universitätsring e ao Rathaus (a Câmara Municipal de Viena), que fica o Vestibül, um dos melhores restaurantes da cidade, elegante, formal, absolutamente Habsburgo, porém acessível a bolsas portuguesas — tal como o Dstrikt, o DO&CO, o Eight e o feérico Palmenhaus, que fica na antiga estufa imperial, mesmo atrás do Museu Albertina. Noutro patamar, com preços proibitivos, o Steirerek, do chef Heinz Reitbauer, divide com o Opus, de Stefan Speiser, o pódio dos eleitos. Mas Le Ciel, de Toni Mörwald, e Konstantin Filippou, do próprio, também estão em alta. Conseguem todos a proeza de serem mais caros que os equivalentes de Londres.

A visita não ficaria completa sem conhecer o Palácio de Schönbrunn, residência de Verão dos Habsburgos, situado em Hietzing, a cerca de oito quilómetros do centro de Viena. A comparação com Versailles torna-se inevitável, mas, apesar das suas mil e quinhentas divisões, a casa de Maria Tereza ganha em escala humana. No topo dos jardins, a Gloriette, epifania absoluta. Quem não queira ir tão longe tem muito para ver no Belvedere, em especial no Belvedere Superior, que acolhe arte moderna (Klimt, Gerstl, Kokoschka) em alas de estatuária barroca. Os jardins do Belvedere estão no centro da cidade, e são, juntamente com o Prater — o parque de diversões onde se realizou a Exposição Mundial de 1873 —, dois hot spots durante a Primavera e o Verão. Em 1949, Orson Welles filmou ali, na roda gigante do Prater, O Terceiro Homem

Não vi centros comerciais, mas decerto haverá. O mais parecido foram as arcadas Freyung e Ferstel, com lojas de gama alta e pequenos cafés, ambas em Herrengasse. Também não vi sinais da comunidade LGBTI ou fumadores.

Aquela que foi a última fronteira entre o Ocidente e a Cortina de Ferro mantém-se suspensa no tempo. Se lá voltasse, Graham Greene encontraria quase tudo na mesma. O século XXI ainda não chegou ali.

Clique na imagem da Staatsoper.

THEROUX & BARNES


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição de Viagem por África, de Paul Theroux (n. 1941), autor de uma obra muito extensa, conhecido sobretudo pelos livros de viagem. Vem muito a propósito, na medida em que entre 2002 e a actualidade nada mudou no quotidiano dos povos que vivem de Norte a Sul do continente. Utilizando o comboio, camionetas e carros de toda a espécie, a viagem começa no Cairo e acaba na Cidade do Cabo. Durante o percurso — ele chama-lhe safari —, Theroux confirmou os perigos de visitar países como a Etiópia, o Quénia e a Zâmbia, a bipolaridade religiosa do Sudão, a falta de estradas no Congo e na Tanzânia, a ditadura dos «senhores da guerra» na Somália, as sequelas do Ruanda após o genocídio de 1994 (em três meses, membros da etnia hutu chacinaram um milhão de membros da etnia tutsi), as ocupações selvagens no Zimbabué, a relativa acalmia em Moçambique e a “prosperidade” da África do Sul, malgré a criminalidade urbana que afecta Joanesburgo. Teroux não é um colono saudosista, embora tenha vivido e trabalhado no Malawi e no Uganda. Conhece bem os países que descreve e, se não tem ilusões acerca da violência como modo de vida, da fome e das epidemias (em especial a Sida), também não as tem acerca do papel do voluntariado “humanitário” praticado pela maioria dos funcionários das poderosas ONG internacionais, toleradas, decerto não por acaso, pelas plutocracias nacionais. Por exemplo, sobre a devastação de Moçambique provocada pelos quinze anos de guerra civil (1977-1992) que sucederam à independência, diz que, ao arrepio da retórica mediática, as ONG nada fizeram: «Eu suspeitava de que tinham inventado este sucesso para justificar a sua própria existência.» Contudo, são muito interessantes as páginas dedicadas ao país. A estação ferroviária de Maputo, com a abóboda de bronze (e não de ferro) desenhada por Eiffel, é considerada «a mais bela de África». A narrativa inclui relatos de conversas com (e comentários sobre as respectivas obras) o egípcio Naguib Mahfouz e a sul-africana Nadine Gordimer, dois Prémios Nobel da Literatura que não abandonaram os países de origem. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre A Única História, o romance mais recente de Julian Barnes (n. 1946). Os incondicionais do autor, entre os quais me incluo, atribuem-lhe a responsabilidade de, em 2011, ter salvo a reputação do Man Booker Prize. Porquê? Porque um júri presidido por Stella Rimington fez dele o vencedor. Vai nisto alguma dose de ironia, mas o facto é que Barnes nunca decepciona. A intriga é velha como o mundo: rapaz de 19 anos torna-se amante de mulher casada, com mais do dobro da sua idade, e duas filhas mais velhas do que ele. A acção tem lugar no Sussex, região dilecta das classes altas inglesas ou com pretensões a sê-lo. Tudo se passa nos azougados anos 60 britânicos, pretexto para analisar o amor e o sexo à luz dos códigos e tiques dos súbditos de Sua Majestade. Para Susan Macleod, Paul é um brinquedo muito apetecido com prazo de validade curto (como descobrirá mais tarde). Não acaba bem, mas a mordacidade e o virtuosismo de Barnes valem a leitura. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

GRANDES DEVEDORES

Sabemos hoje que entre 2010, no Governo Sócrates, e 2012, no Governo PAF, os grandes devedores passaram de seis para dezassete. Um deles, identificado com o número de código 088, é responsável por perdas efectivas de 542 milhões de euros, o correspondente a 40% do total de 1.334 milhões de euros perdidos em créditos pela CGD.

Que raio andaram as equipas da troika (constituída pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu) a fazer em Portugal, entre 2011 e 2015? Para as contas dos Bancos não olharam. Nem sequer para as da Caixa Geral de Depósitos, que pertence ao Estado.

Serviram de bode expiatório para o guião PSD-CDS que aumentou os impostos de forma brutal, cortou subsídios, incluindo o de doença e o de reinserção social (sujeito a condição de recursos), taxou os reformados e os aposentados com a famigerada CES, fez disparar o desemprego para 15%, etc. Não nos esquecemos.