quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado:

A holandesa Marieke Lucas Rijneveld (n. 1991) conseguiu a proeza de vencer o International Booker Prize com o livro de estreia, O Desassossego da Noite. Nunca o prémio fora atribuído a alguém tão jovem. Ao receber a notícia, Marieke, então com 29 anos, exclamou: «Estou orgulhosa como uma vaca de sete tetas.» Com acção centrada numa quinta de produtores de leite dos Países Baixos, o plot apoia-se num incidente autobiográfico, a morte acidental do irmão mais velho da narradora, Cas, testemunha da tragédia quando tinha dez anos. Marieke descreve com desenvoltura o dia-a-dia da quinta, o protestantismo da família e, com precisão gráfica, o incesto entre irmãos (muito criativo o uso dado às anilhas das latas de Coca-Cola). Além de sexo e escatologia, o livro subsume violência física e verbal, fisting em bovinos, febre aftosa, abate de animais, barras de sabão introduzidas no reto do pai, etc. Tudo isto em linguagem crua, traduzida directamente do neerlandês por Patrícia Couto. Publicou a Dom Quixote.

Um tour d’horizon sobre a Belle Époque, O Homem do Casaco Vermelho traz de volta Julian Barnes (n. 1946), excelentíssimo autor da literatura de língua inglesa. O ponto de partida é uma viagem a Londres, em 1885, na qual participaram três amigos, um deles Samuel Pozzi, o ginecologista francês que foi amante de Sarah Bernhardt. Barnes decidiu escrever o livro depois de ver o retrato de Pozzi feito por John Singer Sargent (o da sobrecapa e folha de rosto). Digamos que O Homem do Casaco Vermelho é uma espécie de Who’s Who dos anos 1880-90, escrito com minúcia e sagacidade. Estão lá todos, de Oscar Wilde ao conde de Montesquiou (o dândi que Proust imortalizou como Barão de Charlus), de Clemenceau a Dreyfus, de Madame X a Jean Lorrain, de Gide a Henry James, de Huysmans aos irmãos Goncourt. Em suma, um livro culto e divertido, em edição de capa dura com extenso portofolio fotográfico. Publicou a Quetzal. 

Um novo livro de Edna O’Brien (n. 1930), a mais importante escritora irlandesa, é sempre uma boa notícia. Publicado em 2019, Menina é inspirado no rapto, pela seita Boko Haram, das alunas cristãs de uma escola nigeriana. Tudo se passou em 2014, quando mais de duzentas raparigas foram feitas escravas sexuais dos jiadistas. O romance faz silêncio sobre o local do crime, dando voz às vítimas anónimas: «Em tempos fui uma menina, mas já não sou.» Assim começa o relato de Maryam, nome fictício de alguém que sobreviveu ao cativeiro. Para melhor escrever o livro, O’Brien deslocou-se duas vezes à Nigéria. Vão longe os tempos em que as suas obras eram banidas das livrarias de Dublin, muitas delas queimadas em autos-de-fé. Contar a verdade nunca foi fácil, mas O’Brien não desistiu. Descreve a tragédia das rapariguinhas de Chibok com o mesmo desembaraço com que em 1960 descreveu os interditos da sociedade irlandesa. Agora, fez de Menina um romance sobre o indizível. Magnífico. Publicou a Cavalo de Ferro.

Quase toda a gente sabe que Simone Veil (1927-2017) foi a ministra francesa da Saúde que, em 1975, despenalizou a interrupção voluntária da gravidez, tendo sido a primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente do Parlamento Europeu. O que nem toda a gente conhece é o seu passado de prisioneira em Auschwitz-Birkenau e Bergen-Belsen. Através dos relatos feitos a David Teboul, A Madrugada em Birkenau recupera o horror da sua deportação (Simone tinha 16 anos), o paroxismo nazi da “solução final” e o regresso a França depois da prisão. Um testemunho indispensável, ilustrado por dezenas de fotografias. Publicou a Quetzal.

Estamos habituados à ficção de Zadie Smith (n. 1975), mas Sinta-se Livre é uma colecção de ensaios deveras estimulantes, especialmente os da Parte V, que tem o título do livro. Originalmente publicados na New York Review of Books e outras revistas, sobre temas tão diferentes como literatura, Brexit, identidade de género, fotografia, censura artística, Facebook, alterações climáticas, cinema, fractura de classes, liberdade, etc., são textos que nos interpelam com opiniões fortes. Publicou a Dom Quixote.

Para assinalar os 700 anos da morte de Dante Alighieri, o historiador da literatura John Took escreveu A Importância de Dante, obra subtitulada como sendo Um Guia para Pessoas Inteligentes. Na realidade, trata-se um esclarecedor companion da vida e obra de Dante, acessível ao leitor comum. Centrado em três obras — A Divina Comédia, A Vida Nova e O Convívio —, Took cativa-nos do princípio ao fim da leitura. Publicou a Bertrand.

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terça-feira, 7 de setembro de 2021

7 DE SETEMBRO DE 1974


Passam hoje 47 anos sobre uma das datas mais trágicas da História de Moçambique: a tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, patrocinada por parte da burguesia branca (empresários e políticos) e por partidos sem expressão popular, alguns deles formados por dissidentes da FRELIMO, tais como, entre outros, o COREMO, o FICO, o GUMO, o MOLIMO, etc. Quatro dias de pesadelo sobre os quais a historiografia portuguesa faz silêncio.

Um dos contos do meu livro Devastação tem como ponto de partida esse fim-de-semana alucinante. Os factos constam do meu livro de memórias — Um Rapaz a Arder —, do qual deixo um breve excerto:

A tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974 foi um episódio tenebroso com ramificações nunca devidamente esclarecidas. Nesse sábado foi assinado em Lusaka o acordo que definia os termos e condições da independência de Moçambique, tendo Mário Soares e Samora Machel como principais signatários.

Assim que o facto foi divulgado, um grupo de antigos colonos reunidos no denominado Movimento de Moçambique Livre ocupou as instalações do Rádio Clube e fechou o aeroporto da cidade. Eram seis da tarde. Fiz alguns telefonemas e percebi que a situação era muito grave. Horas antes, um grupo de insurrectos tinha invadido a penitenciária e libertado os pides.

A situação ficou fora de controlo. Jornais pró-independência, como o Notícias e A Tribuna, foram tomados de assalto, o mesmo acontecendo às instalações da Associação Académica. O Diário foi o único jornal que saiu no domingo. Entre alusões patrióticas e recados aos «vendilhões de feira» (o alvo era Soares), apoiava a secessão. Os Democratas de Moçambique, cujo bureau fora destruído, deixaram as suas casas no Sommerschield e na Polana e foram refugiar-se no Caniço. Rui Knopfli foi para casa de José Craveirinha. Os transportes públicos deixaram de circular, grande parte dos restaurantes encerrou e, durante quatro dias, os cinemas não funcionaram.

O Movimento de Moçambique Livre confiava no apoio do Presidente da República, mas Spínola não abriu a boca. E contava também com Jorge Jardim, mas o ideólogo do federalismo desapareceu de cena. Apesar do apoio da BOSS, a polícia política sul-africana, o golpe não teve repercussão noutras cidades de Moçambique, nem sequer na Beira, feudo de Jorge Jardim. Mesmo assim, o MML galvanizou os sectores mais reaccionários de Lourenço Marques.

A cidade mergulhou num caos sem precedentes. Enquanto a tranquibérnia durou, não me atrevi a ir mais longe que o Parque José Cabral, a cem metros de minha casa. O Jorge estava retido em Boane, na escola de oficiais milicianos.

[...] Uma companhia de comandos oriunda do Niassa reabriu o aeroporto e desocupou o Rádio Clube na tarde do dia 10. Soube-se que a opera buffa tinha acabado quando as arengas de Gomes dos Santos e Vellez Grilo foram substituídas pelo grito «Galo, galo, galo. Amanheceu. Galo, amanheceu». Para uns, a senha da Frelimo visava apaziguar o Caniço. Para outros foi o tiro de partida da desforra que se manifestou de forma assaz violenta [centenas de mortos] nas vilas da Machava e da Matola. Parte significativa da população branca via esboroar-se o sonho de uma secessão de perfil rodesiano. O êxodo foi imediato. Entre os dias 10 e 12, as autoridades da África do Sul e da Suazilândia facilitaram a passagem de mais de cinquenta mil brancos, a maioria sem passaporte. Muitos regressaram ao fim de semanas. No dia 12 chegou o almirante Vítor Crespo, investido pelo MFA como alto-comissário português.

— Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013

Imagem: no rescaldo do golpe, militares patrulham a cidade. Clique.

domingo, 5 de setembro de 2021

LEONOR DE ALMEIDA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Atrás dos Olhos de Leonor de Almeida (1909-1983), poeta ignorada que Vladimiro Nunes tirou do limbo por ocasião da Feira do Livro do Porto de 2020, evento em que foi homenageada.

Para esse resgate contribuiu Claudia Clemente, que em simultâneo publicou Tatuagens de Luz (Documenta, 2020), rigorosa monografia biográfica de cuja iconografia consta a certidão que fixa em definitivo a data de nascimento de Leonor de Almeida.

Natural do Porto, Leonor de Almeida foi poeta, enfermeira, publicista, fisioterapeuta, esteticista e mulher do mundo, tendo vivido largas temporadas em Londres, Paris e Copenhaga. Morreu em Lisboa, onde viveu praticamente incógnita a partir de 1962.

Feminista avant la lettre, foi aclamada pelos críticos mais influentes dos anos 1940 e 50 (entre outros, João Gaspar Simões, Alberto de Serpa, Jacinto Prado Coelho, Melo e Castro), tendo sido incluída por Natália Correia na Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satítica (1966). Seguiu-se mais de meio século de silêncio.

Além dos quatro livros de poesia que publicou entre 1947 e 1960, colaborou (no mesmo lapso de tempo) em quase todas as revistas e jornais de referência, sendo membro da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Durante os anos em que viveu na Dinamarca tentou publicar naquele país uma antologia de poesia portuguesa traduzida. Foi casada em segundas núpcias (1951-61) com Alexandre Pinheiro Torres, catorze anos mais novo do que ela.

O poema desta semana pertence a Caminhos Frios (1947), o livro de estreia. A imagem foi obtida a partir de Na Curva Escura dos Cardos do Tempo (2020), volume da sua poesia reunida organizado por Vladimiro Nunes, prefaciado por Ana Luisa Amaral e publicado pela editora Ponto de Fuga.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte e Francisco Bugalho.]

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sábado, 4 de setembro de 2021

PAULO RANGEL FAZ COMING OUT


Por causa desta manchete do Expresso fui ver o programa Alta Definição, da SIC. Nele, Paulo Rangel, 53 anos, eurodeputado do PSD, fez o seu coming out com inteligência e serenidade. 

Fê-lo só agora, esclareceu, para preservar a mãe, falecida em 2019. Quem tinha de saber sabia, isso nunca constituiu problema. 

Rangel, homem culto —  um cristão que tolera o catolicismo —, fez o que fazem os políticos sérios quando se preparam para voos mais altos: pôs as cartas na mesa.

Ao longo da entrevista, além de falar dos pais, dos irmãos, da formação académica, de viagens, do Parlamento Europeu e de política tout court, ainda disse poemas de Gedeão.

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LEITURA


No seu blogue Acrítico, Antonio Ganhão faz a resenha do mais recente dos meus livros. Deixo aqui os últimos parágrafos:

«[...] Depois, temos esta escrita de Eduardo Pitta, limpa, sem metáforas, em linguagem direta. No início do conto Ema entra no autocarro, nada nos é dito sobre essa decisão. Mas o esgar do motorista e o espanto do revisor contam-nos toda uma história. Algo de grave se passou que não nos é dado a conhecer diretamente, cabe ao entendimento do leitor transcender a própria palavra escrita, uma elipse poderosa, avassaladora e o leitor treme de espectativa. Ao terceiro parágrafo já se rendeu e espera o pior, mas não consegue parar de ler. É assim em todos os contos, a elipse como uma segunda voz, um novo tipo de narrador a que não estamos habituados, pelo menos com este nível de mestria.

Todos nós somos senhores das nossas decisões ou de parte da nossa vida, mas o destino está nas circunstâncias de cada um, nos preconceitos, no que escondemos, no que a sociedade nos impõe, e sobreviver pode não ser uma opção. Devastação, impensável não ler este livro.»

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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

ISABEL DA NÓBREGA 1925-2021


Morreu hoje Isabel da Nóbrega, escritora e tradutora, Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Tinha 96 anos.

Autora de romances, contos, três peças de teatro e literatura para a infância, foi várias vezes premiada. Colaborou intensamente na imprensa, tendo escrito, a partir dos anos 1950, cerca de três mil crónicas.

A partir de edições inglesas e francesas traduziu obras de Tolstoi, Pirandello, Erich Maria Remarque, Graham Greene e outros. Na rádio e na televisão foi responsável por diversos programas culturais, tais como O Prazer de Ler e Largo do Pelourinho. O romance Viver com os outros (1964) é considerado a sua obra-prima.

Depois do cardiologista Abreu Loureiro, pai dos seus filhos, viveu com João Gaspar Simões entre 1954 e 1968, tornando-se companheira de Saramago em 1970 (viveu com o futuro Nobel durante dezasseis anos), mas o seu nome desapareceu das dedicatórias.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

LISBOA


CÂMARA DE LISBOA — Sondagem da Aximage para a TSF, JN e DN divulgada hoje.

Fernando Medina, PS / 51% 

Carlos Moedas, PSD+CDS+PPM+MPT+ALC / 27% 

João Ferreira, CDU / 9%

Beatriz Gomes Dias, BE / 4% 

Bruno Horta Leal, IL / 2%

Manuela Gonzaga, PAN / 2%

Nuno Graciano, CH / 2%

Liderando uma coligação de cinco partidos (PSD, CDS, PPM, MPT e ALC), Moedas obtém um resultado inferior ao conseguido pela soma do PSD e do CDS em 2017.

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LISBOA


O jornal é de hoje, mas a imagem da 1.ª página começou a circular ontem à noite, animando (ou estragando) jantares e convívios.

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domingo, 29 de agosto de 2021

FRANCISCO BUGALHO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Dúvida de Francisco Bugalho (1905-1949), o poeta que melhor retratou os dias parados no tempo.

Conhecido como poeta da melancolia alentejana, Francisco Bugalho nasceu no Porto, numa família da alta burguesia com raízes em Castelo de Vide.

Após haver colaborado em vários jornais e na influente revista — aliás ‘folha de arte e crítica’ — Presença, estreou-se em livro com Margens (1931). Em 1932 radicou-se em Lisboa, onde concluiu o curso de Direito, casou e lhe nasceu o primeiro filho, o futuro poeta Cristovam Pavia. Radicado em Castelo de Vide a partir de 1933, cidade onde exerceu funções de Conservador do Registo Predial, também se dedicou à agricultura.

Em 1960, Régio fez para a Portugália a introdução da sua poesia completa. Além de poesia, Bugalho escreveu um romance (inédito) e traduziu autores como Hawthorne e Stevenson. Morreu aos 43 anos, na sua casa de Castelo de Vide.

O poema desta semana pertence a Canções de entre Céu e Terra (1940). A imagem foi obtida a partir de Poesia (1998), volume organizado por Luis Manuel Gaspar, João Filipe Bugalho, Maria Jorge, Luís Amaro e Diana Pimentel. Prefaciado por Joana Morais Varela, publicado pela Editora LG, com ilustrações de Luis Manuel Gaspar, vasta iconografia, cronologia, tábua de variantes, extractos de correspondência e minuciosa bibliografia, Poesia é, pelo esmero gráfico e rigor bibliográfico, o livro com que sonham todos os poetas.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde e António José Forte.]

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PORTO


CÂMARA DO PORTO — Sondagem da Aximage para a TSF, JN e DN divulgada hoje.

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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

FEIRA DO LIVRO


No próximo sábado, dia 28, estarei na Feira do Livro de Lisboa a partir das 18 horas.

O pavilhão da Dom Quixote fica no topo do Parque Eduardo VII, à direita de quem sobe do Marquês ou à esquerda de quem vem de cima.

Vou lá fazer o quê? Assinar os livros que publiquei na Dom Quixote (mas se aparecerem com outros não me farei rogado), em especial o mais recente, Devastação.

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

JEAN-LUC NANCY 1940-2021


De causa desconhecida, morreu ontem à noite o filósofo francês Jean-Luc Nancy, professor emérito de filosofia na Universidade de Estrasburgo e membro do Collège International de Philosophie.

Discípulo de Derrida, que sobre ele escreveu um livro — Le Toucher. Jean-Luc Nancy, 2000 —, e amigo de Philippe Lacoue-Labarthe, com quem escreveu vários, entre eles Le Mythe Nazi (1991), Nancy pensou sempre em termos de ‘comunidade’. Sirvam de exemplo obras como La Communauté Désœuvrée (1986) e La Communauté Confrontée (2001). 

Deixa uma bibliografia de mais de duzentos títulos, sobre temas tão diversos como história da filosofia, literatura, sexualidade, psicanálise, teologia, pandemia Covid-19 [Un Trop Humain Virus, 2020], política, ociosidade, transplantes (a partir da sua experiência pessoal de transplante de coração em 1992), arte, democracia e outros. Em Portugal estão traduzidos nove, mas nenhum dos títulos aqui citados.

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domingo, 22 de agosto de 2021

COMO É QUE ISTO SE FAZ?


Grata surpresa de domingo, a publicação no Esquerda Net — um portal mantido pelo BE desde 2006 — da leitura feita por Alice Brito do mais recente dos meus livros, Devastação.

Acaba assim:

«Como é que isto se faz? / Como é que se consegue ter este olhar caleidoscópico sobre a realidade, este olhar que nunca é explícito, mas tão certeiro, tão profundamente devastador, que nos vai retratando seres humanos, sociedades, longínquos ways of life, regimes, perdas irreversíveis, traumas ocultos que à primeira oportunidade se revelam e rebelam... [...] Como é que isto se faz? Essa é a pergunta. Sem recurso a cambalhotas de palavras, metáforas, assim com esta limpeza, esta assepsia de prosa clara. / Como é que isto se faz? Essa é a pergunta.»

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ANTÓNIO JOSÉ FORTE


UM POEMA POR SEMANA — Publico hoje o 30.º poema desta secção: dezasseis escritos por homens, catorze por mulheres. O critério mantém-se: autores portugueses nascidos a partir de 1842, exclusão de autores vivos, autores relevantes a despeito do meu gosto.

Para este domingo escolhi Retrato do Artista em Cão Jovem de António José Forte (1931-1988), poeta surrealista ligado ao grupo do Café Gelo. O poema funciona como paráfrase em verso de um título famoso de Dylan Thomas.

Natural de Vila Franca de Xira, publicou o primeiro livro em 1960, foi funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian (encarregado das bibliotecas itinerantes durante vinte anos) e deixou uma obra breve. Foi casado em segundas núpcias com a artista plástica Aldina Costa.

O poema desta semana pertence a 40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girândola Implacável e Outros Poemas (1960). A imagem foi obtida a partir de Edoi Lelia Doura, antologia das vozes comunicantes da poesia portuguesa organizada por Herberto Helder em 1985.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos e Cesário Verde.]

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terça-feira, 17 de agosto de 2021

PESOS E MEDIDAS

A forma como tanta gente tem reagido à queda de Cabul, invectivando Washington, leva-me a alinhavar alguns comentários.

Na sequência do 11 de Setembro, o Afeganistão não foi ocupado pelos Estados Unidos, foi ocupado pela NATO, sob liderança norte-americana (a Austrália, que não é membro da NATO, também integrou a coligação). Não esquecer que, ao longo dos últimos vinte anos, Portugal teve forças no terreno.

Os que hoje lamentam a falta de solidariedade americana pela população afegã, acaso manifestaram solidariedade com as populações de Angola, Guiné, Moçambique, etc., durante a descolonização exemplar...? Alguém falou ou fala dos campos de reeducação que a Frelimo manteve em Nachingwea, Bagamoyo e Mitelela? Alguém se lembra das vítimas da reeducação, na sua maioria moçambicanos negros? Falo desses campos no meu livro de memórias, mas não sou o único. Ungulani Ba Ka Khosa, nome tsonga de Francisco Esau Cossa, também o faz no seu livro Entre Memórias Silenciadas (2013), como antes dele fizera o historiador João Paulo Borges Coelho em Campo de Trânsito (2007). Em Portugal alguém quis saber? 

Biden disse, por outras palavras: Estamos fartos! Acabou. Se não estava a debitar a cartilha do MRPP — Nem mais um soldado para as colónias —, andou lá perto.

Os que andam há décadas a demonizar «a América» não podem agora querer virar a História do avesso.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

ESTAMOS FARTOS, DIZ ELE


Interrompendo as férias em Camp David, Biden deslocou-se esta tarde à Casa Branca para falar ao país quando eram 16:05 em Washington.

Breve resumo: «A escolha que tive de fazer como Presidente foi respeitar o acordo de retirada das nossas forças.» Acrescentou que não faria sentido «intensificar o conflito, enviando milhares de soldados americanos de volta ao combate, prolongando o conflito pela terceira década.»

Afinal de contas, «os líderes políticos do Afeganistão desistiram e fugiram do país, desprezando centenas de biliões de dólares em equipamentos e recursos com militares que depuseram as armas.» Terminou dizendo que não se arrependia da decisão, assumindo total responsabilidade.

Pelo meio também disse que não se pode impor a terceiros o nosso modelo de sociedade, sobretudo quando eles não querem.

Não houve direito a perguntas. Biden abandonou o salão assim que acabou de falar.

Pela primeira vez, um Presidente norte-americano fez a vontade à opinião pública europeia, aparentemente desconcertada com o fracasso da operação da NATO — como Merkel reconheceu —, operação de vinte anos na qual participaram norte-americanos, canadenses, britânicos, alemães, franceses, espanhóis, portugueses, etc. Um dia histórico, este 16 de Agosto de 2021.

Clique na imagem do NYT.

domingo, 15 de agosto de 2021

CESÁRIO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi De Tarde de Cesário Verde (1855-1886), o mais destacado precursor da moderna poesia portuguesa.

Natural de Lisboa, Cesário Verde nasceu no seio de uma família de comerciantes abastados. Tinha dois anos quando uma epidemia de febre-amarela assolou Lisboa, obrigando a família a deslocar-se para Linda-a-Pastora, localidade onde Cesário passou a infância.

Aos 18 anos matriculou-se no Curso Superior de Letras, que abandonou ao fim de três meses. Data dessa época a sua amizade com Silva Pinto, o miglior fabbro. Aprendeu latim, francês e, para trabalhar numa loja do pai, rudimentos de contabilidade. Colaborou em revistas e jornais de Lisboa e de Azeitão. Vítima de tuberculose, morreu no Paço do Lumiar com 31 anos.

O poema desta semana pertence à sequência O Sentimento dum Ocidental, incluída no Livro de Cesário Verde (1887), edição póstuma organizada e publicada pelo amigo Silva Pinto, autor do prefácio. A imagem foi obtida a partir da edição que o Círculo de Leitores fez, em 1982, para a colecção Clássicos da Literatura Portuguesa.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha e Edith Arvelos.]

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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

MAHFOUZ


Traduzido directamente do árabe por Badr Hassanein, Entre os Dois Palácios, do egípcio Naguib Mahfouz (1911-2006), abre a famosa Trilogia do Cairo, publicada trinta anos antes do Nobel ter dado visibilidade planetária ao autor e à literatura árabe. Foi Jackie Kennedy quem, como editora da Doubleday, comprou os direitos da obra em língua inglesa.

Dividido em 71 capítulos breves, Entre os Dois Palácios centra-se no quotidiano de uma família da pequena-burguesia cairota, entre o decurso da Primeira Guerra Mundial e as sequelas da Revolução Egípcia de 1919 contra o domínio britânico. O patriarca, Ahmad Abdel Gawward, é um comerciante devoto, autoritário, alcoólatra e devasso. O plot realça a identidade cultural do Islão, por oposição a práticas ocidentais. Cada membro da família ilustra uma sensibilidade política diferente, estando a narrativa impregnada de tradição, sexo, drogas, contradições, desobediência e abuso. Nenhum dos cinco filhos, duas raparigas e três rapazes, aceita a intolerância do pai, um libertino dominador para quem a moral islâmica só tem validade dentro de casa (e com os seus). Os irmãos não se entendem, excepto no amor pela mãe, denominador comum. Em pano de fundo, a vida dos bairros populares do Cairo, incluindo os motins contra o regime de Propectorado que a todos oprime.

Frequentemente comparado a Dickens, cuja obra conhecia bem, Mahfouz foi uma personalidade discreta da vida literária egípcia. Nascido no seio de uma família pobre, fez estudos de filosofia, foi funcionário público (um dos lugares que ocupou foi o de director do gabinete de censura ao cinema), colaborou na imprensa, casou tarde e raramente viajou. Era assessor do ministro da Cultura quando decidiu ser escritor a tempo inteiro.

Escreveu perto de quarenta romances, centenas de contos, quatro peças de teatro, uma autobiografia e diversos guiões para filmes, mas nenhum a partir de obras suas, dezenas das quais foram adaptadas ao cinema. Em 1994, por causa de um folhetim sobre religiões monoteístas, publicado em 1959 no jornal Al-Ahram, foi vítima de tentativa de assassinato. Apunhalado no pescoço, sobreviveu, mas precisou de protecção policial até morrer. Após a morte de Mahfouz, Children of Gebelawi foi finalmente editado em livro no Egipto (no Líbano circulava desde 1967), acentuando a passagem do realismo social para as questões da fé, escolha que colocou o autor em conflito com as autoridades religiosas.

Publicou a E-Primatur.

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domingo, 8 de agosto de 2021

EDITH ARVELOS


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi A Esfera de Cristal de Edith Arvelos (1924-2006), poetisa de um só livro.

Nascida acidentalmente na cidade da Praia (Cabo Verde), Edith Arvelos veio para Lisboa ainda criança, aqui tendo frequentado o Colégio das Doroteias. Aos catorze anos foi para Lourenço Marques, onde concluiu o ensino secundário e fez estudos de piano com Yolanda Soares de Melo, professora de, entre outros, Sequeira Costa e Filipe de Sousa.

Nos anos 1960 passou em Lisboa uma larga temporada, estreitando com Fernanda de Castro a amizade iniciada em Lourenço Marques. Nessa ocasião privou com inúmeros artistas, poetas, músicos e intelectuais da entourage da família Ferro. Antes de regressar a Moçambique publicou Um Longo e Lúcido Olhar (1962), primeiro e único livro. 

Personalidade discreta, nem por isso deixou de participar na vida cultural de Lourenço Marques, fosse no Círculo de Cultura Musical, fosse através da publicação de poemas e artigos (sobre música, literatura e cinema) na imprensa local.

Deixou Moçambique no fim de 1974, vindo viver para casa de Fernanda de Castro, onde lhe sobreviveu e residiu até morrer. O n.º 5 de Poetânea (2006) acolhe a homenagem que nesse ano lhe foi prestada por um grupo de amigos.

O poema desta semana pertence à primeira edição de Um Longo e Lúcido Olhar — uma segunda edição, acrescentada, foi publicada em 2001 —, a partir da qual a imagem foi obtida.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares e Camilo Pessanha.]

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sexta-feira, 6 de agosto de 2021

AS ESCOLHAS DE BIDEN


Beth Robinson, 56 anos, juíza do Supremo Tribunal do Vermont, foi escolhida por Biden para integrar o Tribunal de Apelações dos Estados Unidos para o Segundo Circuito (Connecticut, Nova Iorque e Vermont). Ms Robinson é casada com uma mulher desde 2010.

Por seu turno, Charlotte Sweeney, 39 anos, advogada de Denver especialista em direito do trabalho, activista LGBTQ, foi a escolha do Presidente para o Tribunal Distrital do Colorado.

As duas nomeações estão pendentes de aprovação pelo Comité Judiciário do Senado.

Nas imagens da Advocate, Robinson está à esquerda e Sweeney à direita. Clique.