quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

ACIMA DAS NOSSAS POSSES?


Entrevistado pelo Expresso, Henrique Gouveia e Melo declinou, em modo ambíguo, a lengalenga da maioria PSD/CDS que nos governou entre 2011 e 2015.

Vejamos: «distribuir a riqueza inexistente, que não produzimos...» corresponde a dizer que vivemos acima das nossas possibilidades.

Mas qual riqueza? Actualização do Indexante dos Apoios Sociais, do Rendimento Social de Inserção, do salário mínimo, das pensões, dos vencimentos dos funcionários públicos?

Para começo de carreira política é um passo em falso do vice-almirante submarinista. O país precisa de muita coisa, mas não do passismo reciclado.

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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

BRUXELAS SEGURA TAP


Ao fim de um ano de análise do processo, Margrethe Vestager, comissária da Concorrência, autorizou todas as ajudas que o Estado português suportou e vai suportar com a TAP.

Os mais de três mil milhões de euros distribuem-se pelos 462 milhões do ano em curso, os 107,1 milhões no âmbito dos apoios Covid, e os 2,55 mil milhões a haver.

Como contrapartida, a companhia terá de abdicar de dezoito slots / reduzir a frota / formalizar os despedimentos previstos no plano de reestruturação / separar-se da Portugália / mas também desinvestir na Cateringpor, na Groundforce e na manutenção efectuada no Brasil.

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

HABITUEM-SE


Por contraponto aos 2,5% de devolução do IRS que a Câmara de Lisboa praticava anualmente (aos residentes no concelho), Carlos Moedas prometeu o dobro. Ou seja, 5%. 

Mas o que hoje fez aprovar foi a devolução de 3%. Ora três não são cinco.

Como vai ser com os prometidos transportes gratuitos para maiores de 65 e menores de 23 anos? Vão ser reservados a paraplégicos?

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domingo, 19 de dezembro de 2021

ABSOLUTA, COM CERTEZA


Falando num encontro promovido ontem pela Juventude Socialista, António Costa foi claro: não chega ganhar as eleições, é preciso saber em que condições elas são ganhas. Essa é a escolha fundamental.

Discurso directo — «Por isso, a forma de termos maioria é sermos nós a maioria. Para isso, temos mesmo de mobilizar os portugueses. Não podemos andar em eleições de dois em dois anos e não podemos andar a governar porque nos fazem o favor de nos viabilizarem o Orçamento durante dois anos

Continua a não ser pronunciada a formulação-tabu (maioria absoluta), mas ela tem de ser posta em cima da mesa. Se tiver de depender de terceiros, sejam eles quais forem, o PS deve abster-se de formar Governo.

Quem vota, tem de votar naquilo em que acredita. Dito de outro modo: quem vota no PCP (na CDU, vá) e no BE por convicção ideológica, deve continuar a fazê-lo. Isso não está em causa. Mas os empatas anti-PS devem perceber que o regresso da Direita ao poder está nas mãos deles. Não se pode votar para empatar nem estar permanentemente a contar com o ovo no cu da galinha.

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ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Muito Urgente de António Manuel Couto Viana (1923-2010), o poeta que a democracia obliterou.

Nascido em Viana do Castelo, veio viver para Lisboa em 1946, tendo-se estreado em livro com O Avestruz Lírico (1948), primeiro de mais de cem títulos de uma vasta bibliografia. A sua proximidade com instituições do Estado Novo fez com que, após 1974, tivesse sido praticamente silenciado. Exceptuando Joaquim Manuel Magalhães, que sobre ele escreveu um denso ensaio incluído em Rima Pobre (1999), a recepção crítica dos livros que publicou em democracia foi residual. Sobretudo a partir de Café de Subúrbio (1991), assumiu sem reservas a identidade homossexual.

Por ter herdado da avó o Teatro Sá de Miranda, de Viana do Castelo, esteve desde sempre ligado ao teatro — mas também à ópera: Teatro Nacional de São Carlos, Círculo Portuense de Ópera, etc. —, como director, encenador, tradutor, actor e figurinista. Contudo, é como poeta que a posteridade o fixa.

Membro da Academia das Ciências de Lisboa, conselheiro de leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, director de revistas literárias como Graal, Távola Redonda e outras, viveu dois anos (1986-88) em Macau. Várias vezes premiado e condecorado, foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique em 1995.

Além de poesia, escreveu teatro, contos, ensaios, memórias, literatura para a infância e gastronomia. Entre outros, traduziu Sófocles, Molière e Neruda. Por seu turno, livros seus estão traduzidos em Espanha, França, Alemanha, Rússia, Inglaterra e China.

Editada pela Imprensa Nacional, a poesia que publicou até 2001 encontra-se coligida nos dois volumes de 60 Anos de Poesia (2004). Deixou inédito um livro de memórias, provável continuação dos três que publicou em vida. Morreu na Casa do Artista, em Lisboa.

O poema desta semana pertence a Relatório Secreto (1963). A imagem foi obtida a partir do 2.º volume da Terceira Série de Líricas Portuguesas, a mítica antologia organizada por Jorge de Sena.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade e José Carlos Ary dos Santos.]

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sábado, 18 de dezembro de 2021

EVE BABITZ 1943-2021


Vítima de doença de Huntington, morreu ontem Eve Babitz, artista visual e cronista-mor de Hollywood. Quem alguma vez leu a New York Review of Books, Rolling Stone, The Village Voice ou a Vogue norte-americana, para citar apenas quatro das muitas publicações onde colaborava, lembra-se da prosa vibrante e sarcástica desta mulher que tratava por tu todos os grandes do showbiz, de Elizabeth Taylor a Madona e Jim Morrison, mas também escritores como Joseph Heller, Joan Didion e Bret Easton Ellis, ou a fotógrafa Annie Leibovitz.

Alguns dos livros que publicou, sobretudo os de ensaio e as memórias, dão testemunho de uma voz singular. Obras como Eve’s Hollywood (1974), Slow Days, Fast Company (1977), Sex and Rage (1979), Black Swans (1993), Two by Two (1999) ou I Used to Be Charming (2019) estão traduzidas em várias línguas. Para descreverem com propriedade a cena cultural de Los Angeles dos anos 1960 e 1970, os historiadores do futuro não as poderão ignorar. 

Foi também autora das capas de álbuns dos Buffalo Springfield e outras bandas.

Afilhada de Igor Stravinsky, de quem os pais eram íntimos, Eve tornou-se famosa aos vinte anos, quando Julian Wasser a fotografou nua a jogar xadrez com Marcel Duchamp. Infelizmente, aos 54, ficou com grande parte do corpo queimado: o cigarro que fumava (enquanto conduzia) pegou fogo à saia de nylon.

Em 2019, Lili Anolik publicou uma biografia de Eve, Hollywood’s Eve: Eve Babitz and the Secret History of L.A., demonstrando que Eve não era apenas a rainha do Troubadour.

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

EM QUE PAÍS VIVEMOS?

Factos agora conhecidos:

 — Sete militares da GNR de Odemira foram acusados pelo Ministério Público de torturar imigrantes. Os actos de tortura envolveram gás pimenta e foram filmados pelos torturadores.

— Tudo se passou em 2019, sendo comandante-geral da GNR o tenente-general Botelho Miguel, nomeado diretor nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras após o bárbaro assassinato do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk nas instalações daquele serviço no Aeroporto de Lisboa.

Tudo isto envergonha o país. Alguém quer saber?

PRÉMIO PESSOA 2021


Jurista especializado em Direito europeu, administrador da Fundação Oceano Azul, alto funcionário das Nações Unidas entre 1995 e 2002 (entre outros cargos, foi representante de Portugal à Assembleia Geral da Convenção do Direito do Mar e coordenador da Comissão Estratégica dos Oceanos), antigo consultor da Presidência da República para os assuntos do mar, etc., Tiago Pitta e Cunha, 54 anos, é o laureado deste ano com o Prémio Pessoa.

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COSTA VS RIO


A vida como ela é. Sondagem Aximage divulgada hoje pelo Diário de Notícias, TSF e Jornal de Notícias.

Clique na infografia do JN.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

ROGÉRIO SAMORA 1958-2021


Cinco meses após a paragem cardiorrespiratória que sofreu em Julho, e o manteve em coma, morreu hoje o actor Rogério Samora, um dos mais destacados da sua geração. Tinha 63 anos.

Nos últimos quarenta anos, Rogério Samora fez teatro, cinema e televisão. Entre outros, trabalhou com Filipe La Féria, Carlos Avillez, Fernanda Lapa, Luís Miguel Cintra, Solveig Nordlund, Manoel de Oliveira, Fonseca e Costa, António-Pedro Vasconcelos, Fernando Lopes, João Mário Grilo, Luís Filipe Rocha, Manuel Mozos, Joaquim Leitão, Miguel Gomes e João Botelho.

No ano passado posou nu para a fotógrafa Margarida Dias, autora de um calendário cuja venda se destina a apoiar o Banco Alimentar Contra a Fome.

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

LEONOR XAVIER 1943-2021


Hoje é um dia muito triste: soube-se que Leonor Xavier morreu ontem no IPO de Lisboa. Passaram oito anos sobre o dia em que juntou três dezenas de amigos na sua casa de Verão, em Vila Nova do Coito, para nos dizer a todos, com serenidade, que tinha um cancro e seria submetida dali a dias a uma intervenção cirúrgica.

Jornalista, escritora, mulher ecuménica entre as mulheres ecuménicas e nossa grande amiga, a Leonor foi admirável a vários títulos. Culta, dotada de um senso de humor imbatível, grande hostess, progressista no melhor sentido da palavra, pouca gente na vida cultural portuguesa tinha uma cabeça tão arejada como a sua. 

Oriunda dos círculos mais exclusivos do Estado Novo, licenciada em filologia românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, casou com o fiscalista Alberto Xavier, professor da Faculdade de Direito de Lisboa e secretário de Estado do Planeamento no último Governo de Marcelo Caetano. Depois do 25 de Abril, o casal partiu com os filhos para o Brasil onde, depois de uma passagem por São Paulo, se mudaram para o Rio de Janeiro: Alberto Xavier foi dar aulas na Pontífica Universidade Católica e Leonor tornou-se correspondente do Diário de Notícias e colaboradora da revista Manchete

A convite de Soares, Leonor regressou a Portugal em 1987, ano em que conheceu Raul Solnado, com quem manteve durante quinze anos uma união de facto. Em Lisboa, continuando a colaborar no DN, foi redactora da revista Máxima e ocasional colaboradora de muitas outras publicações. Em 1996 foi uma das fundadoras do núcleo português do movimento cristão Nós Somos Igreja, tendo, ainda há dois meses, assinalado os 25 anos da sua actividade no nosso país.

Da obra de Leonor Xavier constam as biografias de Maria Barroso (1995) e Solnado (2003), seis colectâneas de ensaios, crónicas e entrevistas, três romances, dois diários informais — um deles, Passageiro Clandestino, de 2014, sobre o cancro — e o excepcional Casas Contadas (2009), autobiografia dos anos brasileiros. Em data, Há Laranjeiras em Atenas (2019) é o livro mais recente.

O velório decorrerá a partir das cinco da tarde de hoje na Capela do Rato, sendo a missa de amanhã (10:00) celebrada pelo cardeal José Tolentino Mendonça, vindo do Vaticano para o efeito.

Até sempre, Leonor.

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domingo, 12 de dezembro de 2021

ARY DOS SANTOS


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Soneto Presente de José Carlos Ary dos Santos (1936-1984), o homossexual politicamente incorrecto que embaraçava o PCP.

Nascido em Lisboa no seio de uma família da alta burguesia com origens aristocráticas, abandonou a casa de família na adolescência. Ainda não tinha dezasseis anos quando se estreou em livro (Asas, 1952), embora a obra canónica comece apenas onze anos mais tarde, ao publicar A Liturgia do Sangue (1963).

Como muitos outros poetas, fez da publicidade a sua profissão. O facto de ter sido um letrista profícuo — escreveu cerca de mil canções — e famoso, e de ter vencido quatro edições do Festival da Canção da RTP, colocou-o à margem da Academia. Contudo, de Amália a Simone, poemas seus são cantados por quase toda a gente que conta na música portuguesa. Morreu de cirrose semanas depois de completar 46 anos.

O poema desta semana pertence a Resumo (1972), edição do autor a partir da qual foi obtida a imagem do poema.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa e Eugénio de Andrade.]

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

BIBLIOTECA FLORBELA ESPANCA



Instantâneos da minha conversa com Patrícia Fernandes, na Biblioteca Florbela Espanca, de Matosinhos, esta tarde, no âmbito da 16.ª edição da Festa da Poesia.

Muito bem preparada, Patrícia Fernandes conduziu com sagesse uma conversa que durou cerca de uma hora. A sessão terminou com a leitura, por Isaque Ferreira e João Rios, de catorze poemas meus, muito bem escolhidos e melhor ditos.

Em suma: sala cheia, profissionalismo, empatia. Luís Coimbra, responsável pela logística, está de parabéns.

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MATOSINHOS 2021


É hoje. Clique na imagem.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

FESTA DA POESIA DE MATOSINHOS


Amanhã, quarta-feira, dia 8, participarei com muito gosto na 16.ª edição da Festa da Poesia de Matosinhos, que decorre na Biblioteca Florbela Espanca, e este ano é dedicada a Ana Luisa Amaral, grande poeta e minha amiga.

A quem me pergunta o que vou exactamente fazer, deixo o recorte do programa.

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domingo, 5 de dezembro de 2021

FEITO

 


Hoje mesmo: Parlamento dissolvido, eleições convocadas. Clique na imagem.

EUGÉNIO DE ANDRADE


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Green God de Eugénio de Andrade (1923-2005), poeta que levou ao limite a elipse do confessionalismo.

Natural da Póvoa de Atalaia, no Fundão, passou a infância e a adolescência entre Castelo Branco, Coimbra e Lisboa, radicando-se no Porto em Dezembro de 1950, cidade onde viveu até morrer e faria dele cidadão honorário.

Estreou-se em livro ainda com o nome civil, José Fontinhas. A edição de Narciso (1939), o livro inaugural, foi paga por António Botto. Ao publicar Adolescente (1942) adopta o pseudónimo que o celebraria. Mais tarde renegaria toda a obra anterior a 1948.

Homossexual notório, a obra e a intervenção cívica elidem essa identidade.

Por iniciativa da Câmara do Porto foi criada em 1991 a Fundação Eugénio de Andrade (extinta em 2011), em cujas instalações o poeta passou a residir.

Poeta popular —  no sentido em que o foram Florbela Espanca, António Gedeão e Ary dos Santos —, nem por isso deixou de receber o reconhecimento formal da Academia.

Largamente traduzido e antologiado, traduziu ele próprio as Lettres Portugaises de Mariana Alcoforado (a freira de Beja), bem como, entre outros, Lorca, Ritsos e Borges. Também publicou prosa — Os Afluentes do Silêncio, de 1969, é um dos títulos centrais da obra —, incluindo literatura para a infância. Em 1999 deu à estampa uma Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, que nas suas sucessivas edições vai de Roi Fernandez de Santiago, poeta do século XIII, a Ruy Belo (1933-1978). 

No século XX, nenhum poeta gozou como ele de tantas celebrações institucionais. Depois de receber todos os prémios que havia para receber, foi laureado com o Prémio Camões em 2001. Foi ainda condecorado: Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 1982, Grã-Cruz da Ordem do Mérito em 1989.

O poema desta semana pertence à obra que o consagrou, As Mãos e os Frutos (1948). A imagem foi obtida a partir de Poesia, volume da obra poética completa publicado em 2000 pela Fundação Eugénio de Andrade.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava e António Maria Lisboa.]

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

MATOSINHOS


É já para a semana. A minha intervenção, na rubrica Vozes, terá lugar às 15:45 do próximo dia 8. Clique na imagem.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

Temos o Natal à porta, época tradicionalmente associada à partilha de livros. A rentrée trouxe novidades para todos os gostos. Há muito por onde escolher — a prosa completa de Sophia, o 26.º e último romance de Le Carré, ficções de Don DeLillo, João Paulo Borges Coelho, Viet Thanh Nguyen, Claudio Magris e António Ferro, o thriller com que David Lagercrantz inicia uma nova saga, a biografia que Paul Auster dedicou a Stephen Crane, a poesia reunida de Adília Lopes, o clássico de Vassili Grossman sobre a ocupação de Stalinegrado e, por último mas não em último, a novela gráfica que Martin Ernstsen fez a partir da obra-prima de Knut Hamsun.

Juntar num único volume toda a prosa de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) ajuda-nos a avaliar a dimensão de uma autora que a posteridade fixou como um dos poetas centrais do século XX português. É o que sucede com Prosa, volume organizado por Carlos Mendes de Sousa, que assina uma desenvolvida introdução. Aqui estão os contos — desde logo os magníficos Contos Exemplares, mas também os que escreveu para a infância —, além do ensaio sobre o nu na antiguidade clássica. Em suma, uma edição que fazia falta, posfaciada pela filha, Maria Andresen de Sousa Tavares. Publicou a Assírio & Alvim.

Silverview, o livro póstumo de John le Carré (1931-2020), não desilude os fiéis. Posfaciado pelo filho Nick Cornwell, que garante não ter alterado uma vírgula do manuscrito encontrado, prolonga o virtuosismo de uma obra ímpar. No lugar de George Smiley temos agora Proctor, mas o jogo de espelhos mantém-se. O essencial da intriga é narrado em flashback, quando Deborah e Edward, os anfitriões da mansão conhecida por Silverview, estavam no activo. Magnífico, como sempre. Publicou a Dom Quixote.

A violência e os bastidores do futebol universitário norte-americano são o tema de Linha Final, um dos mais antigos romances de Don DeLillo (n. 1936). Narrado por Gary Harkness, capitão de equipa, a narrativa segue à risca o jargão do balneário, ao mesmo tempo que transforma cada jogo numa batalha campal. Quem gosta de bola e conhece a sua lógica interna acompanhará com gosto as descrições “fotográficas”. Escrito no auge da Guerra Fria, não é inocente que o futebol sirva de metáfora ao frágil equilíbrio nuclear entre a Nato e o Pacto de Varsóvia (vide capítulo 29). Admirável. Publicou a Relógio d’Água.

Nasceu no Porto aquele que é um dos mais significativos autores moçambicanos. Refiro-me a João Paulo Borges Coelho (n. 1955), radicado naquele país desde criança, onde acabou por adoptar a respectiva nacionalidade. Ali se formou e construiu uma obra ficcional sólida, paralela à de historiador. Quem ler Museu da Revolução não se surpreenderá com a heterodoxia com que põe em pauta a sociedade moçambicana: «O Moçambique que encontrou não era muito diferente do Moçambique que deixara…» Meridiana clareza: violência, rigidez ideológica dos anos pós-independência, guerra civil, domínio de partido único, precariedade da economia, etc. Tudo em português de lei. Outra coisa não seria de esperar de quem escreveu As Visitas do Doutor Valdez. Publicou a Caminho.

Os fãs de policiais nórdicos conhecem David Lagercrantz (n. 1962) sobretudo por, após a morte de Stieg Larsson, ter sido o autor do prolongamento de Millennium. Mas Lagercrantz, com obra publicada desde 1997, acaba de publicar Obscuritas, primeiro livro da série Rekke & Vargas. O tiro de partida do plot é dado pelo assassinato, em 2003, de um árbitro de futebol afegão refugiado em Estocolmo. Curiosamente, o personagem Hans Rekke parece uma versão escandivana e pós-moderna de Sherlock Holmes. Publicou a Porto Editora.

Stephen Crane, gigante da literatura norte-americana do século XIX, tinha apenas 28 anos quando morreu e, talvez por isso, não goze do reconhecimento de alguns dos seus pares. Razão acrescida para ler Um Homem em Chamas, a monumental biografia que Paul Auster (n. 1947) lhe dedica. Quase novecentas páginas para “homologar” uma reputação, com destaque para a exegese da obra. Dito de outro modo, mais hermenêutica, menos acidentes biográficos. Seja como for, resgata Crane do relativo silenciamento a que foi votado. Além de notas e iconografia, o volume inclui índice onomástico. Publicou a Asa.

Os portugueses conhecem o vietnamita Viet Thanh Nguyen (n. 1971) desde o primeiro livro, laureado com o Pulitzer de Ficção 2016. Mudando a acção para Paris, mas mantendo o narrador original, O Comprometido prolonga esse livro de estreia, pondo o acento tónico em questões de identidade e género. Não esquecer que a França antecedeu os Estados Unidos na ocupação da Indochina. Radicado nos Estados Unidos desde a queda de Saigão, o autor não esquece as humilhações sofridas pelo seu povo. De certo modo, um ajuste de contas pós-colonial. E Nguyen faz isso muito bem. Publicou a Elsinore.

A partir de pretextos fortuitos, cada um à sua maneira, os cinco protagonistas de Tempo Curvo em Krems, de Claudio Magris (n. 1939), fazem o balanço do passado: o escritor, o industrial, o professor de música, o homem de passagem, o sobrevivente do império dos Habsburgo, o patriota triestino. Nada distingue ficção e realidade. Magris vintage, nestes cinco contos isentos de ênfase que se lêem de um fôlego. Publicou a Quetzal.

Por ter delineado uma política cultural tolerada por Salazar, o modernista António Ferro (1895-1956) passou à História como ideólogo do Estado Novo. O que nem todos sabem é que o editor da revista Orfeu foi um ficcionista prolífico, como demonstrado pelas quase setecentas páginas de Ficção, volume que colige os seus contos e novelas. Organizado por Hugo Xavier, com portfolio iconográfico e introdução de Luis Leal, ilustra a especial atenção que Ferro dava às personagens femininas. Uma edição primorosa. Publicou a E-Primatur.

Um grosso volume de capa dura e mais de mil páginas, Dobra, reúne a poesia completa de Adília Lopes (n. 1960), ou seja, todos os livros publicados a partir de 1985 e ainda inéditos. Lida com reticências durante alguns anos, Adília — que começou por ser um epifenómeno mediático — foi gradualmente impondo um tom, sendo hoje reconhecida a sua singularidade na poesia portuguesa contemporânea. Títulos como O Poeta de Pondichéry (1986), Maria Cristina Martins (1992), Florbela Espanca espanca (1999) e A mulher-a-dias (2002), para citar os quatro que prefiro, tornaram-se parte do cânone. Publicou a Assírio & Alvim.

Com Stalinegrado, Vassili Grossman (1905-1964) fixou a mais sangrenta batalha da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, se leu Vida e Destino, vai perceber que se trata de um díptico. Stalinegrado é a prequela do livro que imortalizou Grossman, o engenheiro que se encontrava na cidade como correspondente de guerra, e desse modo pôde legar ao futuro o testemunho da barbárie, a resistência de um povo determinado em pôr fim ao cerco nazi. Como sublinha Nina Guerra, esta «combinação da reportagem, da ficção e da análise política, social e psicológica […] cria um quadro verídico, credível.» Acompanhando o quotidiano da família Chapochnikova (a matriarca, Aleksandra, recusa deixar a cidade) temos a noção do horror. Mais tarde, Grossman, cansado de ser Kulak, tornou-se dissidente do regime soviético, mas em 1952 ainda acreditava na Mãe Rússia. Publicou a Dom Quixote.

O norueguês Knut Hamsun, Nobel da Literatura em 1920, tornou-se famoso por causa de Fome. Agora, como tem acontecido a tantas obras de ressonância planetária, esse romance de carácter autobiográfico foi vertido em novela gráfica. Quem o fez foi Martin Ernstsen (n. 1982), premiado por este trabalho. Os “puristas” dirão que a banda desenhada não transmite com nitidez o fluxo de consciência, mas trata-se de um álbum apelativo, traduzido directamente do norueguês por Liliete Martins. Publicou a Cavalo de Ferro.

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domingo, 28 de novembro de 2021

ANTÓNIO MARIA LISBOA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Poema de António Maria Lisboa (1928-1953), autor do principal manifesto do surrealismo português, Erro Próprio, publicado em 1949.

Natural de Lisboa, morreu aos 25 anos vítima de tuberculose. Homossexual em busca do andrógino ideal, pretendia o fim da distinção homem/mulher.

Segundo Cesariny, a destruição feita por familiares de parte da obra (manuscritos inéditos) constitui uma perda irreparável para a história da poesia surrealista portuguesa. Antes de morrer, passou largas temporadas em Paris, cidade onde se iniciou nas ciências do Ocultismo.

O poema desta semana pertence a Ossóptico (1952). A imagem foi obtida a partir de Poesia (1995), volume da obra poética completa organizado por Mário Cesariny para a Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal e Luís Miguel Nava.]

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