domingo, 21 de fevereiro de 2016

MOVIFLOR


Nia Griffith, 59 anos, do Partido Trabalhista Galês, e Hannah Bardell, 32 anos, do Partido Nacional Escocês, assumiram ontem publicamente a sua condição de lésbicas, elevando para 35 o números de deputados declaradamente gays do Parlamento britânico (o escocês David Mundell é o único tory). Trinta e cinco. Na Assembleia da República, fora do armário, temos um. Por aqui se vê a força do lobby do mobiliário. A imagem mostra alguns desses deputados. Clique.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O SEXO INÚTIL


Este livro de Ana Zanatti chega às livrarias no próximo dia 23, antevéspera da sua apresentação nas Correntes de Escritas. Vai ser uma pedrada no charco, na medida em que dá a conhecer uma realidade escondida por quase todos: a violência exercida no seio da família sobre rapazes e raparigas que têm a coragem de assumir a sua identidade gay, em meios urbanos e classes letradas economicamente desafogadas. Estamos no coração da alta classe média de Lisboa, Estoril, Cascais, etc. Ana Zanatti compilou testemunhos e analisa casos extremos.

No prefácio, Viriato Soromenho-Marques escreve: «Este é um livro sobre o que de mais profundo vive no coração da condição humana. [...] Esta obra vai marcar profundamente muitas pessoas. Vai trazer-lhes luz, conforto e energia. Vai mudar muitas vidas. Talvez até ajudar a salvar vidas, que, sem a sua tonificante ajuda, se poderiam perder irreversivelmente.»

O posfácio é de Lídia Jorge. Ana Zanatti e a Sextante estão de parabéns.

FOLHETIM TAP

Ontem, a Autoridade Nacional da Aviação Civil chumbou a privatização da TAP nos moldes decididos pelo Governo PAF. Recordar que o contrato foi assinado às 23:30 de 12 de Novembro (ou seja, dois dias depois da queda do Governo de Passos Coelho), em reunião à porta fechada, que juntou Sérgio Monteiro com Neeleman & Pedrosa. A decisão da ANAC impõe um período de 90 dias durante os quais a administração da TAP fica limitada a gestão corrente. Consequência imediata: o empréstimo de 200 milhões de euros, a libertar para a semana, ficou bloqueado. Na sua deliberação, a ANAC considera haver desconformidade na estrutura de controlo societário, uma forma enviesada de dizer que Pedrosa não é (como os regulamentos europeus exigem) o sócio maioritário.

Até aqui, eu percebo. Mas faz-me muita confusão que tenham sido necessários três meses para chegar a esta conclusão. Dez dias seria um limite razoável.

Entretanto, a estrutura accionista mudou. A Gateway, representada por Neeleman & Pedrosa, abdicou de 16% do capital, passando a deter apenas 45%, em vez dos 61% de Novembro. O Estado absorveu 11%, que juntou aos 39% que não tinham sido vendidos, e os pilotos vão, em princípio, ficar com os restantes 5%.

No meio deste imbróglio, como irá reagir o grupo chinês HNA? A companhia Azul, de Neeleman, precisa com urgência do capital chinês porque a Barraqueiro não lhe pode acudir. Uma grande trapalhada.

UMBERTO ECO 1932-2016


Morreu ontem na sua casa de Milão o semiólogo e escritor italiano Umberto Eco, um dos últimos pensadores europeus. Tinha 84 anos. A fama planetária chegou em 1980, quando publicou o primeiro de sete romances, O Nome da Rosa, levado ao cinema por Jean-Jacques Annaud. A partir de 1962, ano em que publica Obra Aberta (um volume de ensaios), tornou-se um nome de referência nos estudos sobre estética. O essencial da bibliografia ocupa-se de semiologia, linguísta e estudos medievais. Não foi divulgada a causa da morte. Clique na imagem.

A foto é de Nuno Botelho, para o Expresso.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

HARPER LEE 1926-2016


Morreu hoje Harper Lee, a celebrada autora de To Kill a Mockingbird, o romance de 1960 que venceu o Pulitzer de Ficção. To Kill a Mockingbird ou, em Portugal, Não Matem a Cotovia, foi eleito em 1999 o melhor romance do século XX. Durante cinquenta e quatro anos tida como autora de um único livro, Lee publicou outro em 2014 (escrito nos anos 1950), inédito durante décadas: Vai e Põe Uma Sentinela. Tinha 89 anos. A causa da morte não foi revelada. Clique na imagem.

ESTRUTURA EXTINTA

Em Junho do ano passado, o Governo PSD-CDS criou uma estrutura para gerir todos os equipamentos culturais situados entre o alto da Ajuda e o Tejo. Dito de outro modo, para gerir o Centro Cultural de Belém, o Planetário Calouste Gulbenkian, o Mosteiro dos Jerónimos, os Museus dos Coches (o antigo e o novo), a Cordoaria Nacional, o Picadeiro da Escola Portuguesa de Arte Equestre, o Palácio de Belém, a Ermida de São Jerónimo, o Museu de Arte Popular, a Torre de Belém, a Gare Marítima de Alcântara, a Igreja da Memória, o Museu Nacional de Etnologia, o Museu de Marinha, o Jardim Botânico Tropical, o Jardim Botânico da Ajuda, o Palácio dos Condes da Calheta, o Palácio da Ajuda e outros.

Para presidir à referida estrutura nomeou António Lamas, presidente do CCB. A decisão foi tomada à revelia da Câmara de Lisboa. Fernando Medina não gostou da ideia e João Soares também não. Ontem, em conselho de ministros, o Governo extinguiu a coisa. António Lamas pode continuar a gerir o CCB, mas não passa dali. A gestão de planos estratégicos para a cidade é um competência da Câmara. Ponto.

UMBADÁ

Não conheço o Lara das heráldicas de lado nenhum. Mas descubro com espanto que as redes sociais (como sói dizer-se) entraram em transe porque Cavaco fez dele Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. E daí? É para mim uma completa surpresa o apreço que os portugueses nutrem por condecorações.

COSTA VS COSTA

Já todos sabemos que o Banco de Portugal é uma entidade independente. Mas a actuação do seu Governador, seja ele qual for, pode e deve ser questionada. O facto de o primeiro-ministro ter dito em público, em Lisboa e em Bruxelas, que não tem confiança nos procedimentos do BdP, em especial nos casos que envolvem o BES e respectivos lesados, o Novo Banco e o Banif, é a primeira batata quente a cair no colo de Marcelo. O histerismo com que o PSD tem reagido a essas declarações é um espectáculo indecoroso. Foi por isso muito oportuno que a TVI tivesse recordado ontem (com imagens eloquentes) o conflito que opôs Miguel Beleza, então Governador do BdP, a Jorge Braga de Macedo, o ministro das Finanças. Macedo disse de Beleza o que Mafoma não disse do toucinho. Pouco depois, Beleza bateu com a porta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI


Quando morreu, em Novembro de 2006, Mário Cesariny foi metido num gavetão anónimo do Cemitério dos Prazeres. Em vida, tinha manifestado vontade de ficar num jazigo. Dinheiro vivo não faltava. Cesariny, poeta e pintor (Grande Prémio EDP em 2002), tinha depositados, à data da sua morte, mais de um milhão de euros. Para ser exacto: 1.038.290,54 euros. Tendo o dinheiro sido deixado em testamento à Casa Pia, Catalina Pestana, então provedora, adquiriu um jazigo, que o escultor Manuel Rosa se prontificou a reabilitar. Rosa, que foi amigo e editor de Cesariny na Assírio & Alvim, e herdou os direitos da obra literária, é seu testamenteiro. Fez o projecto, que foi aprovado, mas a reabilitação nunca se fez porque a actual direcção da Casa Pia não está disponível para pagar 28 mil euros. Portanto, no ano do décimo aniversário da sua morte, Cesariny permanece num gavetão anónimo. Mais pormenores no Observador, que conta a história toda.

JAMES M. RUSSELL


Hoje na Sábado escrevo sobre Um breve guia para Clássicos Filosóficos, de James M. Russell. A tradução de Jorge Pereirinha Pires é correcta, mas o título soa estranho. Visto numa montra, é imediata a tentação de perguntar: e por que não um breve guia para… Clássicos de Filosofia? Uma vez lido, percebe-se. O enfoque de Russell ultrapassa os clássicos de filosofia tout court. Dois exemplos: nem O Estrangeiro (1942), de Camus, nem O Principezinho (1943), de Saint-Exupéry, são obras de filosofia. Contudo, Russell ocupa-se delas, e de mais sessenta e quatro, para estabelecer o fio condutor da tradição filosófica ocidental. Fê-lo com recurso a um largo espectro genológico: romances, livros infantis, ficção científica, etc. Nas sete secções em que o livro se divide, Russell analisa obras de autores tão importantes como (cito apenas metade) Platão, Aristóteles, Descartes, Hobbes, Hume, Kant, Hegel, Gödel, Wittgenstein, Kierkegaard, Dostoiévski, Kafka, Borges, Huxley, Blake, Levi, Rochefoucauld, Freud, Jung, Marx, Engels, Sartre, Adorno, Rawls, Gramsci, Barthes, Lacan, Althusser, Derrida, Lyotard, Foucault, Kristeva e Baudrillard. Russell é claro acerca do propósito do livro: «fornecer breves introduções aos clássicos filosóficos [de forma] o mais acessível possível [explicando] por que motivo cada um destes livros é importante, ou considerado como tal.» Estamos portanto em presença de um verdadeiro companion, de leitura acessível a toda a gente. As secções permitem agrupar os diferentes aspectos da tradição filosófica. Com excepção do texto de abertura, sobre Os Problemas da Filosofia (1912), de Bertrand Russell, os restantes estão listados por ordem cronológica. Cada um dos sessenta e seis textos é autónomo, tendo todos, a fechar, uma ficha de leitura, redigida quase sempre com uma nota de humor. Sirva de exemplo o abstract relativo ao Manifesto do Partido Comunista (1848), de Marx e Engels: «Ter de trabalhar para viver é uma chatice.» Em suma, uma obra imprescindível para avaliar a evolução do pensamento. O volume inclui índice remissivo. Quatro estrelas e meia.

Escrevo ainda sobre 1000 Frases de Vergílio Ferreira. No ano em que se comemora o centenário do autor (1916-1996), Luís Naves organizou um volume que abrange dezasseis temas: Amor, Arte, Autobiografia, Autores, Crença, Destino, Existência, Humanidade, Irrealidade, Melancolia, Memória, Mundo, Palavra, Portugal, Povo, Sabedoria. O antólogo rastreou os romances, os ensaios e o diário vergiliano, para nos dar o retrato do autor de Nítido Nulo. Não admira que Conta-Corrente e, em especial, a primeira série, seja a fonte primordial. Os seus oito volumes, milhares de páginas escritas contra o establishment, constituem a mais incisiva radiografia do milieu literário e, por arresto, do atavismo do país. É interessante notar que o diário surge (1980) no momento em que a ficção de Vergílio inflecte, fazendo pontaria ao eco do jornalismo cultural. Não admira que livros como Para Sempre (1983) e a sequela Cartas a Sandra (1996) estejam na origem da vacuidade daquilo que passa por ficção “nova”. Seria pedagógico replicar o modelo com outros autores. Três estrelas. Publicou a Quetzal, editora que está a reeditar a obra de Vergílio Ferreira.

DIOGO SEIXAS LOPES 1972-2016


Vítima de cancro, morreu hoje, com 43 anos, o arquitecto Diogo Seixas Lopes, filho de Maria João Seixas, antiga directora da Cinemateca Nacional, e do realizador Fernando Lopes. Entre as suas obras mais conhecidas contam-se a reabilitação do Teatro Thalia e a polémica torre de dezassete andares em construção na esquina da Avenida Fontes Pereira de Melo com o Jardim Augusto Monjardino. Diogo Seixas Lopes encontrava-se neste momento a preparar a próxima Trienal de Arquitectura de Lisboa. Além da obra arquitectónica, deixa um livro notável, Melancholy and Architecture, publicado no ano passado.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

NÍVEL DE CONFORTO

Anda a tropa fandanga a repetir há semanas que a DBRS tencionava cortar o rating de Portugal e, afinal, a agência canadiana acaba de emitir um comunicado declarando que o rating se mantém inalterado porque, vejam só o desplante dos madraços, «estamos confortáveis com a situação actual». E esta?

DISCURSO DIRECTO, 37

Francisco Seixas da Costa no Facebook. Excerto, sublinhado meu:

«Devo dizer que fiquei com pena que Mário Centeno não tivesse aproveitado o encontro com os jornalistas, depois do Eurogrupo, em Bruxelas, para dizer algo parecido com isto: ‘Aproveito para agradecer ao meu colega alemão a preocupação que demonstrou com a situação financeira portuguesa. [...] Mas não posso deixar de aproveitar este ensejo para expressar uma palavra de grande solidariedade portuguesa face aos gravíssimos problemas que a banca alemã atravessa. A crise que o principal banco alemão de investimento, o Deutsh Bank, sofre nos dias de hoje, a somar-se à preocupante situação que sabemos persistir na banca de alguns dos Laender alemães, obrigam a que estejamos atentos e, mais do que isso, profundamente solidários com os nossos amigos da Alemanha e as ameaças que possam impender sobre o seu sistema bancário. No que pessoalmente me toca, e em tudo quanto lhe puder ser útil no âmbito europeu, Wolfgang Schäuble sabe que pode contar connosco!’ —»

PONTO DA SITUAÇÃO


A Direita não desiste de sondar o vasto mundo. Ao meio-dia, o Expresso publicou o mais recente estudo da Eurosondagem. Então ficamos assim: PS = 33,6%. PSD = 32,5%. Melhor dito: Esquerda 52%. Direita 40%. Clique na imagem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

EUTANÁSIA

Lá para a Primavera, depois da discussão e aprovação do OE 2016, o BE quer avançar com um projecto de lei sobre eutanásia, ou “morte assistida”, se preferirem. O PS acha a iniciativa prematura, o PSD idem, o CDS está contra (e exige referendo), o PCP não se pronuncia mas torce o nariz. Fui convidado a assinar o manifesto do Movimento Cívico para a Despenalização da Morte Assistida, que li com atenção assim que me chegou às mãos há cerca de um mês. Não subscrevi. Num país como Portugal, onde apenas 8% dos doentes tem acesso a cuidados paliativos, não faz sentido legalizar a eutanásia.

É-me indiferente o facto de só três países europeus (a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo) terem legalizado a eutanásia, e de um quarto país, a Suíça, permitir o suicídio assistido. (O qual, na Irlanda, dá catorze anos de cadeia.) A eutanásia podia ser legal em trinta ou mais países, e continuaria a considerar que, nas condições do SNS português, a sua prática fere direitos básicos. Que tal começar por estender os cuidados paliativos a todos os doentes, e não apenas a oito por cento? É o que penso, não quero catequizar ninguém. Existem vários países, como a Alemanha, Áustria, Dinamarca, Espanha, França, Hungria, República Checa, Reino Unido e Suécia, onde os doentes, mesmo internados, podem recusar tratamento médico, sendo essa vontade respeitada. Mas isso, creio, também se pratica de forma informal entre nós. Disse.

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS


Hoje na Sábado escrevo A Poeira Que Cai Sobre a Terra, de Francisco José Viegas (n. 1962). O livro marca o regresso do inspector Jaime Ramos, seguramente o mais conhecido personagem de ficção da nossa literatura policial, protagonista de romances como Morte no Estádio (1991), Um Céu Demasiado Azul (1995), Longe de Manaus (2005), vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, O Mar em Casablanca (2009) e outros. Jaime Ramos é um homem do Porto que gosta de mulheres e de comer bem. Com exclusão do métier, podemos vê-lo como alter-ego do autor. Os leitores habituaram-se às suas idiossincrasias e bonomia lúdica. Entretanto, Ramos envelheceu e sofreu um AVC, episódio que não lhe tolda a memória: o eco dos sinos de Provesende, as figueiras da casa do Pinhão, as amenidades do Hotel d’Inghilterra, escape romano. Com envios (cultura, actualidade, background histórico) inseridos de forma hábil, a prosa escarolada de Viegas é o exacto oposto das “narrativas” que dominam o mercado. Dito de outro modo, estamos mesmo a falar de literatura. Quatro estrelas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

ADOPÇÂO GAY & IVG


PS, BE, PCP, PEV, PAN e 19 deputados do PSD reconfirmaram as leis vetadas por Cavaco. Foi há poucos minutos. Passos Coelho e Paulo Portas não participaram na votação. Os vidros de Belém ainda tremem. Clique na imagem da SICN para ver melhor.

O MILHO DOS PARDAIS

A América de 2016 não é a América de 1966. Nem sequer a de 1976. Portanto, não faz sentido olhar para o Iowa e New Hampshire como se estivéssemos nos sixties. O Iowa e New Hampshire têm tanta diversidade cultural como a Quinta da Marinha. São Estados de perfil WASP, com minorias étnicas residuais, que há 50 anos serviam de bitola. Hoje, o Iowa e New Hampshire estão para os Estados Unidos como a Aula Magna para Portugal. E depois há o Vermont, o segundo menos populoso do país e o mais rural de todos. Nos três, Trump ganhou do lado republicano. Não estou com isto a retirar mérito à vitória que Bernie Sanders obteve ontem no New Hampshire: 60% contra 38% de Hillary Clinton. Apenas faço notar que as Primárias se decidem nos grandes Estados. A ver vamos quando lá chegarmos. O primeiro milho é sempre dos pardais. Isto vale para os candidados democratas de que falo aqui, como para os republicanos.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

AINDA NÃO ACABÁMOS


Gosto de memórias, com os seus lapsos, um buraco aqui, outro ali, zonas de sombra, o foco de luz onde queremos que esteja. Memória é olhar para fora, para os outros, para as coisas. Jorge Silva Melo já escreveu as suas, Século Passado, livro magnífico que a Cotovia publicou em 2007. Agora, nos 20 anos dos Artistas Unidos, fez um filme como se fosse uma carta, monólogo belíssimo sob o olhar vivo de João Pedro Mamede. São Luiz a rebentar pelas costuras para seguir uma vida. Os Verdes Anos, Manuel Wiborg, António, Um Rapaz de Lisboa, Glicínia Quartin, cinemas de bairro, cinemas de estreia (sim, eram coisas diferentes), Walsh, Minnelli, o snack-bar Pic-Nic, Lia Gama, Mário Dionísio, desenhos de Jorge Martins, a Papelaria Progresso transformada por Conceição Silva, Luís Miguel Cintra adolescente, Andreia Bento, o Bloco das Águas Livres de Teotónio Pereira, Ivo Canelas, Álvaro Lapa lembrando a humilhação, a Fronda dos estudantes nos idos de 60, Rúben Gomes, a carta aberta que Medeiros Ferreira escreveu ao povo português na véspera de partir para o exílio (não sei se os detractores do AO90 deram pelo regimen, pelo sòmente, etc., que pontuam o texto de 1968), Américo Silva, A Capital, E Depois (Bal-Trap), Roma, Spiro Scimone, Maria João Luís, poetas amados nas capas do Escada, work in progress de Sofia Areal, João Perry, tantos que lá estão. Deixo a Luiza para o fim, Luiza Neto Jorge, maior entre as maiores, franzina, outsider da resistência de salão, tão injustamente esquecida. Foi ela que nos disse que «o poema ensina a cair». Esqueço gente. Esquecemos sempre. Vai haver DVD? Devia.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

MEDIA PAF

Tornou-se praticamente impossível ler jornais. A televisão dispensa o advérbio. Isto faz lembrar o PREC mas no PREC houve resposta. Entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, a Direita dava pinotes com a imprensa de Esquerda, que eram todos os títulos de referência vindos do antigamente. Mas como a Direita não dorme em serviço, a CIP financiou um vespertino alternativo, o Jornal Novo. Dirigido por Artur Portela Filho, o Jornal Novo começou a publicar-se em 17 de Abril de 1975. Nesse tempo, a Direita fazia manifs em frente ao Diário de Notícias, então dirigido por Luís de Barros e Saramago, gritando horas a fio: O diário é do Povo, não é de Moscovo!

Chegou o 25 de Novembro e, com ele, um blackout imposto à imprensa. Entre 25 de Novembro e 10 de Dezembro não se publicaram jornais, com excepção do Expresso, que durante dois meses manteve duas edições por semana: quartas e sábados. Em 11 de Dezembro regressou às bancas o Diário Popular, com a direcção de Jacinto Baptista intocada. As direcções do Diário de Notícias, que só regressou a 22 de Dezembro, do Diário de Lisboa, de A Capital, etc., foram entregues a jornalistas da confiança do PS e do PSD. A Direita civilizada relaxou, mas a Direita radical fundou dois novos jornais: O Dia, matutino ultraconservador dirigido por Vitorino Nemésio, que começou a publicar-se a 11 de Dezembro (ou seja, no dia do regresso do Popular); e O Diabo, semanário faca-nos-dentes dirigido por Vera Lagoa, que começou a publicar-se a 10 de Fevereiro de 1976. Hoje não há alternativa. O pensamento único veio para ficar.