sábado, 18 de dezembro de 2021

EVE BABITZ 1943-2021


Vítima de doença de Huntington, morreu ontem Eve Babitz, artista visual e cronista-mor de Hollywood. Quem alguma vez leu a New York Review of Books, Rolling Stone, The Village Voice ou a Vogue norte-americana, para citar apenas quatro das muitas publicações onde colaborava, lembra-se da prosa vibrante e sarcástica desta mulher que tratava por tu todos os grandes do showbiz, de Elizabeth Taylor a Madona e Jim Morrison, mas também escritores como Joseph Heller, Joan Didion e Bret Easton Ellis, ou a fotógrafa Annie Leibovitz.

Alguns dos livros que publicou, sobretudo os de ensaio e as memórias, dão testemunho de uma voz singular. Obras como Eve’s Hollywood (1974), Slow Days, Fast Company (1977), Sex and Rage (1979), Black Swans (1993), Two by Two (1999) ou I Used to Be Charming (2019) estão traduzidas em várias línguas. Para descreverem com propriedade a cena cultural de Los Angeles dos anos 1960 e 1970, os historiadores do futuro não as poderão ignorar. 

Foi também autora das capas de álbuns dos Buffalo Springfield e outras bandas.

Afilhada de Igor Stravinsky, de quem os pais eram íntimos, Eve tornou-se famosa aos vinte anos, quando Julian Wasser a fotografou nua a jogar xadrez com Marcel Duchamp. Infelizmente, aos 54, ficou com grande parte do corpo queimado: o cigarro que fumava (enquanto conduzia) pegou fogo à saia de nylon.

Em 2019, Lili Anolik publicou uma biografia de Eve, Hollywood’s Eve: Eve Babitz and the Secret History of L.A., demonstrando que Eve não era apenas a rainha do Troubadour.

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

EM QUE PAÍS VIVEMOS?

Factos agora conhecidos:

 — Sete militares da GNR de Odemira foram acusados pelo Ministério Público de torturar imigrantes. Os actos de tortura envolveram gás pimenta e foram filmados pelos torturadores.

— Tudo se passou em 2019, sendo comandante-geral da GNR o tenente-general Botelho Miguel, nomeado diretor nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras após o bárbaro assassinato do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk nas instalações daquele serviço no Aeroporto de Lisboa.

Tudo isto envergonha o país. Alguém quer saber?

PRÉMIO PESSOA 2021


Jurista especializado em Direito europeu, administrador da Fundação Oceano Azul, alto funcionário das Nações Unidas entre 1995 e 2002 (entre outros cargos, foi representante de Portugal à Assembleia Geral da Convenção do Direito do Mar e coordenador da Comissão Estratégica dos Oceanos), antigo consultor da Presidência da República para os assuntos do mar, etc., Tiago Pitta e Cunha, 54 anos, é o laureado deste ano com o Prémio Pessoa.

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COSTA VS RIO


A vida como ela é. Sondagem Aximage divulgada hoje pelo Diário de Notícias, TSF e Jornal de Notícias.

Clique na infografia do JN.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

ROGÉRIO SAMORA 1958-2021


Cinco meses após a paragem cardiorrespiratória que sofreu em Julho, e o manteve em coma, morreu hoje o actor Rogério Samora, um dos mais destacados da sua geração. Tinha 63 anos.

Nos últimos quarenta anos, Rogério Samora fez teatro, cinema e televisão. Entre outros, trabalhou com Filipe La Féria, Carlos Avillez, Fernanda Lapa, Luís Miguel Cintra, Solveig Nordlund, Manoel de Oliveira, Fonseca e Costa, António-Pedro Vasconcelos, Fernando Lopes, João Mário Grilo, Luís Filipe Rocha, Manuel Mozos, Joaquim Leitão, Miguel Gomes e João Botelho.

No ano passado posou nu para a fotógrafa Margarida Dias, autora de um calendário cuja venda se destina a apoiar o Banco Alimentar Contra a Fome.

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

LEONOR XAVIER 1943-2021


Hoje é um dia muito triste: soube-se que Leonor Xavier morreu ontem no IPO de Lisboa. Passaram oito anos sobre o dia em que juntou três dezenas de amigos na sua casa de Verão, em Vila Nova do Coito, para nos dizer a todos, com serenidade, que tinha um cancro e seria submetida dali a dias a uma intervenção cirúrgica.

Jornalista, escritora, mulher ecuménica entre as mulheres ecuménicas e nossa grande amiga, a Leonor foi admirável a vários títulos. Culta, dotada de um senso de humor imbatível, grande hostess, progressista no melhor sentido da palavra, pouca gente na vida cultural portuguesa tinha uma cabeça tão arejada como a sua. 

Oriunda dos círculos mais exclusivos do Estado Novo, licenciada em filologia românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, casou com o fiscalista Alberto Xavier, professor da Faculdade de Direito de Lisboa e secretário de Estado do Planeamento no último Governo de Marcelo Caetano. Depois do 25 de Abril, o casal partiu com os filhos para o Brasil onde, depois de uma passagem por São Paulo, se mudaram para o Rio de Janeiro: Alberto Xavier foi dar aulas na Pontífica Universidade Católica e Leonor tornou-se correspondente do Diário de Notícias e colaboradora da revista Manchete

A convite de Soares, Leonor regressou a Portugal em 1987, ano em que conheceu Raul Solnado, com quem manteve durante quinze anos uma união de facto. Em Lisboa, continuando a colaborar no DN, foi redactora da revista Máxima e ocasional colaboradora de muitas outras publicações. Em 1996 foi uma das fundadoras do núcleo português do movimento cristão Nós Somos Igreja, tendo, ainda há dois meses, assinalado os 25 anos da sua actividade no nosso país.

Da obra de Leonor Xavier constam as biografias de Maria Barroso (1995) e Solnado (2003), seis colectâneas de ensaios, crónicas e entrevistas, três romances, dois diários informais — um deles, Passageiro Clandestino, de 2014, sobre o cancro — e o excepcional Casas Contadas (2009), autobiografia dos anos brasileiros. Em data, Há Laranjeiras em Atenas (2019) é o livro mais recente.

O velório decorrerá a partir das cinco da tarde de hoje na Capela do Rato, sendo a missa de amanhã (10:00) celebrada pelo cardeal José Tolentino Mendonça, vindo do Vaticano para o efeito.

Até sempre, Leonor.

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domingo, 12 de dezembro de 2021

ARY DOS SANTOS


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Soneto Presente de José Carlos Ary dos Santos (1936-1984), o homossexual politicamente incorrecto que embaraçava o PCP.

Nascido em Lisboa no seio de uma família da alta burguesia com origens aristocráticas, abandonou a casa de família na adolescência. Ainda não tinha dezasseis anos quando se estreou em livro (Asas, 1952), embora a obra canónica comece apenas onze anos mais tarde, ao publicar A Liturgia do Sangue (1963).

Como muitos outros poetas, fez da publicidade a sua profissão. O facto de ter sido um letrista profícuo — escreveu cerca de mil canções — e famoso, e de ter vencido quatro edições do Festival da Canção da RTP, colocou-o à margem da Academia. Contudo, de Amália a Simone, poemas seus são cantados por quase toda a gente que conta na música portuguesa. Morreu de cirrose semanas depois de completar 46 anos.

O poema desta semana pertence a Resumo (1972), edição do autor a partir da qual foi obtida a imagem do poema.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa e Eugénio de Andrade.]

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

BIBLIOTECA FLORBELA ESPANCA



Instantâneos da minha conversa com Patrícia Fernandes, na Biblioteca Florbela Espanca, de Matosinhos, esta tarde, no âmbito da 16.ª edição da Festa da Poesia.

Muito bem preparada, Patrícia Fernandes conduziu com sagesse uma conversa que durou cerca de uma hora. A sessão terminou com a leitura, por Isaque Ferreira e João Rios, de catorze poemas meus, muito bem escolhidos e melhor ditos.

Em suma: sala cheia, profissionalismo, empatia. Luís Coimbra, responsável pela logística, está de parabéns.

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MATOSINHOS 2021


É hoje. Clique na imagem.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

FESTA DA POESIA DE MATOSINHOS


Amanhã, quarta-feira, dia 8, participarei com muito gosto na 16.ª edição da Festa da Poesia de Matosinhos, que decorre na Biblioteca Florbela Espanca, e este ano é dedicada a Ana Luisa Amaral, grande poeta e minha amiga.

A quem me pergunta o que vou exactamente fazer, deixo o recorte do programa.

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domingo, 5 de dezembro de 2021

FEITO

 


Hoje mesmo: Parlamento dissolvido, eleições convocadas. Clique na imagem.

EUGÉNIO DE ANDRADE


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Green God de Eugénio de Andrade (1923-2005), poeta que levou ao limite a elipse do confessionalismo.

Natural da Póvoa de Atalaia, no Fundão, passou a infância e a adolescência entre Castelo Branco, Coimbra e Lisboa, radicando-se no Porto em Dezembro de 1950, cidade onde viveu até morrer e faria dele cidadão honorário.

Estreou-se em livro ainda com o nome civil, José Fontinhas. A edição de Narciso (1939), o livro inaugural, foi paga por António Botto. Ao publicar Adolescente (1942) adopta o pseudónimo que o celebraria. Mais tarde renegaria toda a obra anterior a 1948.

Homossexual notório, a obra e a intervenção cívica elidem essa identidade.

Por iniciativa da Câmara do Porto foi criada em 1991 a Fundação Eugénio de Andrade (extinta em 2011), em cujas instalações o poeta passou a residir.

Poeta popular —  no sentido em que o foram Florbela Espanca, António Gedeão e Ary dos Santos —, nem por isso deixou de receber o reconhecimento formal da Academia.

Largamente traduzido e antologiado, traduziu ele próprio as Lettres Portugaises de Mariana Alcoforado (a freira de Beja), bem como, entre outros, Lorca, Ritsos e Borges. Também publicou prosa — Os Afluentes do Silêncio, de 1969, é um dos títulos centrais da obra —, incluindo literatura para a infância. Em 1999 deu à estampa uma Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, que nas suas sucessivas edições vai de Roi Fernandez de Santiago, poeta do século XIII, a Ruy Belo (1933-1978). 

No século XX, nenhum poeta gozou como ele de tantas celebrações institucionais. Depois de receber todos os prémios que havia para receber, foi laureado com o Prémio Camões em 2001. Foi ainda condecorado: Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 1982, Grã-Cruz da Ordem do Mérito em 1989.

O poema desta semana pertence à obra que o consagrou, As Mãos e os Frutos (1948). A imagem foi obtida a partir de Poesia, volume da obra poética completa publicado em 2000 pela Fundação Eugénio de Andrade.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava e António Maria Lisboa.]

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

MATOSINHOS


É já para a semana. A minha intervenção, na rubrica Vozes, terá lugar às 15:45 do próximo dia 8. Clique na imagem.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

Temos o Natal à porta, época tradicionalmente associada à partilha de livros. A rentrée trouxe novidades para todos os gostos. Há muito por onde escolher — a prosa completa de Sophia, o 26.º e último romance de Le Carré, ficções de Don DeLillo, João Paulo Borges Coelho, Viet Thanh Nguyen, Claudio Magris e António Ferro, o thriller com que David Lagercrantz inicia uma nova saga, a biografia que Paul Auster dedicou a Stephen Crane, a poesia reunida de Adília Lopes, o clássico de Vassili Grossman sobre a ocupação de Stalinegrado e, por último mas não em último, a novela gráfica que Martin Ernstsen fez a partir da obra-prima de Knut Hamsun.

Juntar num único volume toda a prosa de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) ajuda-nos a avaliar a dimensão de uma autora que a posteridade fixou como um dos poetas centrais do século XX português. É o que sucede com Prosa, volume organizado por Carlos Mendes de Sousa, que assina uma desenvolvida introdução. Aqui estão os contos — desde logo os magníficos Contos Exemplares, mas também os que escreveu para a infância —, além do ensaio sobre o nu na antiguidade clássica. Em suma, uma edição que fazia falta, posfaciada pela filha, Maria Andresen de Sousa Tavares. Publicou a Assírio & Alvim.

Silverview, o livro póstumo de John le Carré (1931-2020), não desilude os fiéis. Posfaciado pelo filho Nick Cornwell, que garante não ter alterado uma vírgula do manuscrito encontrado, prolonga o virtuosismo de uma obra ímpar. No lugar de George Smiley temos agora Proctor, mas o jogo de espelhos mantém-se. O essencial da intriga é narrado em flashback, quando Deborah e Edward, os anfitriões da mansão conhecida por Silverview, estavam no activo. Magnífico, como sempre. Publicou a Dom Quixote.

A violência e os bastidores do futebol universitário norte-americano são o tema de Linha Final, um dos mais antigos romances de Don DeLillo (n. 1936). Narrado por Gary Harkness, capitão de equipa, a narrativa segue à risca o jargão do balneário, ao mesmo tempo que transforma cada jogo numa batalha campal. Quem gosta de bola e conhece a sua lógica interna acompanhará com gosto as descrições “fotográficas”. Escrito no auge da Guerra Fria, não é inocente que o futebol sirva de metáfora ao frágil equilíbrio nuclear entre a Nato e o Pacto de Varsóvia (vide capítulo 29). Admirável. Publicou a Relógio d’Água.

Nasceu no Porto aquele que é um dos mais significativos autores moçambicanos. Refiro-me a João Paulo Borges Coelho (n. 1955), radicado naquele país desde criança, onde acabou por adoptar a respectiva nacionalidade. Ali se formou e construiu uma obra ficcional sólida, paralela à de historiador. Quem ler Museu da Revolução não se surpreenderá com a heterodoxia com que põe em pauta a sociedade moçambicana: «O Moçambique que encontrou não era muito diferente do Moçambique que deixara…» Meridiana clareza: violência, rigidez ideológica dos anos pós-independência, guerra civil, domínio de partido único, precariedade da economia, etc. Tudo em português de lei. Outra coisa não seria de esperar de quem escreveu As Visitas do Doutor Valdez. Publicou a Caminho.

Os fãs de policiais nórdicos conhecem David Lagercrantz (n. 1962) sobretudo por, após a morte de Stieg Larsson, ter sido o autor do prolongamento de Millennium. Mas Lagercrantz, com obra publicada desde 1997, acaba de publicar Obscuritas, primeiro livro da série Rekke & Vargas. O tiro de partida do plot é dado pelo assassinato, em 2003, de um árbitro de futebol afegão refugiado em Estocolmo. Curiosamente, o personagem Hans Rekke parece uma versão escandivana e pós-moderna de Sherlock Holmes. Publicou a Porto Editora.

Stephen Crane, gigante da literatura norte-americana do século XIX, tinha apenas 28 anos quando morreu e, talvez por isso, não goze do reconhecimento de alguns dos seus pares. Razão acrescida para ler Um Homem em Chamas, a monumental biografia que Paul Auster (n. 1947) lhe dedica. Quase novecentas páginas para “homologar” uma reputação, com destaque para a exegese da obra. Dito de outro modo, mais hermenêutica, menos acidentes biográficos. Seja como for, resgata Crane do relativo silenciamento a que foi votado. Além de notas e iconografia, o volume inclui índice onomástico. Publicou a Asa.

Os portugueses conhecem o vietnamita Viet Thanh Nguyen (n. 1971) desde o primeiro livro, laureado com o Pulitzer de Ficção 2016. Mudando a acção para Paris, mas mantendo o narrador original, O Comprometido prolonga esse livro de estreia, pondo o acento tónico em questões de identidade e género. Não esquecer que a França antecedeu os Estados Unidos na ocupação da Indochina. Radicado nos Estados Unidos desde a queda de Saigão, o autor não esquece as humilhações sofridas pelo seu povo. De certo modo, um ajuste de contas pós-colonial. E Nguyen faz isso muito bem. Publicou a Elsinore.

A partir de pretextos fortuitos, cada um à sua maneira, os cinco protagonistas de Tempo Curvo em Krems, de Claudio Magris (n. 1939), fazem o balanço do passado: o escritor, o industrial, o professor de música, o homem de passagem, o sobrevivente do império dos Habsburgo, o patriota triestino. Nada distingue ficção e realidade. Magris vintage, nestes cinco contos isentos de ênfase que se lêem de um fôlego. Publicou a Quetzal.

Por ter delineado uma política cultural tolerada por Salazar, o modernista António Ferro (1895-1956) passou à História como ideólogo do Estado Novo. O que nem todos sabem é que o editor da revista Orfeu foi um ficcionista prolífico, como demonstrado pelas quase setecentas páginas de Ficção, volume que colige os seus contos e novelas. Organizado por Hugo Xavier, com portfolio iconográfico e introdução de Luis Leal, ilustra a especial atenção que Ferro dava às personagens femininas. Uma edição primorosa. Publicou a E-Primatur.

Um grosso volume de capa dura e mais de mil páginas, Dobra, reúne a poesia completa de Adília Lopes (n. 1960), ou seja, todos os livros publicados a partir de 1985 e ainda inéditos. Lida com reticências durante alguns anos, Adília — que começou por ser um epifenómeno mediático — foi gradualmente impondo um tom, sendo hoje reconhecida a sua singularidade na poesia portuguesa contemporânea. Títulos como O Poeta de Pondichéry (1986), Maria Cristina Martins (1992), Florbela Espanca espanca (1999) e A mulher-a-dias (2002), para citar os quatro que prefiro, tornaram-se parte do cânone. Publicou a Assírio & Alvim.

Com Stalinegrado, Vassili Grossman (1905-1964) fixou a mais sangrenta batalha da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, se leu Vida e Destino, vai perceber que se trata de um díptico. Stalinegrado é a prequela do livro que imortalizou Grossman, o engenheiro que se encontrava na cidade como correspondente de guerra, e desse modo pôde legar ao futuro o testemunho da barbárie, a resistência de um povo determinado em pôr fim ao cerco nazi. Como sublinha Nina Guerra, esta «combinação da reportagem, da ficção e da análise política, social e psicológica […] cria um quadro verídico, credível.» Acompanhando o quotidiano da família Chapochnikova (a matriarca, Aleksandra, recusa deixar a cidade) temos a noção do horror. Mais tarde, Grossman, cansado de ser Kulak, tornou-se dissidente do regime soviético, mas em 1952 ainda acreditava na Mãe Rússia. Publicou a Dom Quixote.

O norueguês Knut Hamsun, Nobel da Literatura em 1920, tornou-se famoso por causa de Fome. Agora, como tem acontecido a tantas obras de ressonância planetária, esse romance de carácter autobiográfico foi vertido em novela gráfica. Quem o fez foi Martin Ernstsen (n. 1982), premiado por este trabalho. Os “puristas” dirão que a banda desenhada não transmite com nitidez o fluxo de consciência, mas trata-se de um álbum apelativo, traduzido directamente do norueguês por Liliete Martins. Publicou a Cavalo de Ferro.

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domingo, 28 de novembro de 2021

ANTÓNIO MARIA LISBOA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Poema de António Maria Lisboa (1928-1953), autor do principal manifesto do surrealismo português, Erro Próprio, publicado em 1949.

Natural de Lisboa, morreu aos 25 anos vítima de tuberculose. Homossexual em busca do andrógino ideal, pretendia o fim da distinção homem/mulher.

Segundo Cesariny, a destruição feita por familiares de parte da obra (manuscritos inéditos) constitui uma perda irreparável para a história da poesia surrealista portuguesa. Antes de morrer, passou largas temporadas em Paris, cidade onde se iniciou nas ciências do Ocultismo.

O poema desta semana pertence a Ossóptico (1952). A imagem foi obtida a partir de Poesia (1995), volume da obra poética completa organizado por Mário Cesariny para a Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal e Luís Miguel Nava.]

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sábado, 27 de novembro de 2021

RIO VENCE DE NOVO

Rui Rio venceu as directas do PSD apesar do baronato, dos capos, do circuito da carne assada, do Expresso, do Observador e dos comentadores do costume. A derrota de Paulo Rangel, como antes a de Luís Montenegro, representa uma clara rejeição do passismo por parte dos militantes do partido.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

OMICRON

Por causa da nova variante sul-africana da Covid — B.1.1.529, vulgo Omicron —, a UE prepara-se para interditar voos de e para vários países da África Austral, tais como a África do Sul, a Namíbia, o Botswana, o reino de Essuatíni (a antiga Suazilândia), Moçambique, o Zimbabwe, a Zâmbia e o Lesoto.

domingo, 21 de novembro de 2021

LUÍS MIGUEL NAVA


Com um poema em prosa, retomo hoje a publicação de um poema por domingo, interrompida em 26 de Setembro.

Para hoje escolhi Matadouro de Luís Miguel Nava (1957-1995), poeta barbaramente assassinado aos 37 anos.

Natural de Viseu, Nava foi poeta e ensaísta. Atravessou a cena literária como uma estrela cadente e deixou uma obra breve mas impressiva. Começou a escrever em criança, mais precisamente aos oito anos (facto que coincidiu com o divórcio dos pais), e ainda não tinha dezasseis quando publicou o primeiro livro, O Perdão da Puberdade (1974), assinado Luís Miguel Perry Nava, título omisso da bibliografia canónica, que começa em 1979, com Películas.

Em 1975, durante alguns meses, foi casado com a poeta Rosa Oliveira. Homossexual assumido, docente na Faculdade de Letras de Lisboa, partiu em 1983 para Oxford como leitor de português. Mais tarde foi tradutor da União Europeia, em Bruxelas. Nómada no Magreb, acalentou nos últimos anos de vida o desejo de um leitorado no Cairo, mas a morte surpreendeu-o em casa, onde foi degolado no dia 9 de Maio de 1995.

O poema desta semana pertence a O Céu Sob as Entranhas (1989). A imagem foi obtida a partir de Poesia (2020), volume organizado por Ricardo Vasconcelos que reúne a obra poética completa.

Depois da sua morte, instituiu-se por testamento a Fundação Luís Miguel Nava, que editou durante anos a revista Relâmpago, atribuindo um prémio anual de poesia.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco e José Blanc de Portugal.]

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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

ANTÓNIO OSÓRIO 1933-2021


Nunca nos habituaremos à morte de um amigo próximo. António Osório, poeta maior do século XX português, morreu ontem aos 88 anos.

Estreado em livro à beira dos 40 anos, seria só com A Ignorância da Morte (1978) que a crítica dominante fixaria o seu lugar na poesia portuguesa contemporânea.

Várias vezes premiado, com obra traduzida e publicada em Espanha, França e Itália, mas também no Brasil, elogiada por críticos tão diferentes como João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa, Joaquim Manuel Magalhães, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço, Fernando J.B. Martinho, João Bigotte Chorão, Eduardo Prado Coelho, Carlos Reis, Fernando Pinto do Amaral, Diogo Pires Aurélio, Pedro Mexia, António Carlos Cortez, eu próprio, etc. (cito apenas portugueses), Osório é uma das vozes mais marcantes do denominado regresso ao real.

Advogado de profissão, Bastonário da respectiva Ordem entre 1984 e 1986, membro da Academia das Ciências de Lisboa, presidente da Associação Portuguesa para o Direito do Ambiente (1994-96), administrador da Comissão Portuguesa da Fundação Europeia da Cultura, representante de Portugal na Convenção da Haia (1980), presidente da delegação portuguesa no Tribunal Europeu de Arbitragem (com sede em Estrasburgo), fundador da revista de Direito do Ambiente e do Ordenamento do Território, membro do Instituto de Direito Comparado Luso-Brasileiro, director da Biblioteca da Ordem dos Advogados (1995-2002), director da revista de Direito do Ambiente e do Ordenamento do Território, director da revista Foro das Letras, exerceu diversos outros cargos de interesse público.

A Luz Fraterna (2009, Assírio & Alvim) colige a sua obra poética completa.

Até sempre, António.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

NATÁLIA NUNES, CEM ANOS


Passam hoje cem anos sobre o nascimento de Natália Nunes (1921-2018), romancista, contista, dramaturga, ensaísta, memorialista e tradutora. Entre outros, Óscar Lopes cedo destacou a importância da sua Obra, publicada entre 1952 e 2006.

Estreada em 1952 com Horas Vivas: Memórias da Minha Infância, foi sempre, à margem de holofotes mediáticos e respaldo partidário ou corporativo, uma feminista avant la lettre.

Autora de extensa bibliografia em vários géneros, Natália Nunes distinguiu-se sobretudo na área da ficção. Obras como Autobiografia de uma Mulher Romântica (1955), O Caso de Zulmira L. (1967), A Nuvem (1970), Da Natureza das Coisas (1985) e As Velhas Senhoras e Outros Contos (1992) fazem dela um nome de referência na literatura portuguesa do século XX.

Publicada em 1970, a peça de teatro Cabeça de Abóbora é uma farsa demolidora do totalitarismo de Estado.

Na área do ensaio, destaque para As Batalhas Que Nós Perdemos (1973), obra que colige estudos sobre Augusto Abelaira, José Cardoso Pires e Raul Brandão.

Traduziu Dostoievski, Tolstoi, Simonov, Elsa Triolet e Violette Leduc, tendo, durante quarenta anos, colaborado com regularidade nos títulos mais relevantes da imprensa portuguesa.

Foi casada com o cientista, pedagogo e professor Rómulo de Carvalho, mais conhecido pelo pseudónimo de António Gedeão. Exerceu o cargo de conservadora da Torre do Tombo (1957-68) e fez parte da última direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores, extinta pelo Estado Novo em Maio de 1965.

Sua filha, a escritora Cristina Carvalho, participa hoje, juntamente com a professora Teresa Sousa de Almeida, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, num colóquio de homenagem moderado pela professora Margarida Braga Neves, do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que terá lugar via zoom, a partir das 18 horas.

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