terça-feira, 1 de março de 2022

A VER SE A GENTE SE ENTENDE

Durante a Guerra Colonial (1961-1974), uma larga maioria de portugueses solidarizou-se, sob diversas formas, com os povos das Colónias que lutavam pela independência.

Não quero acreditar que, salvo por parte dos sociopatas do costume, essa solidariedade traduzisse ódio pelos portugueses nascidos e/ou radicados nas Colónias.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia coloca a mesma questão: a nossa solidariedade com o povo ucraniano em nada diminui igual solidariedade com o povo russo.

É dever dos intelectuais não assobiar para o lado.

SEQUELAS NO MILIEU ARTISTE

UPDATE DO SEXTO DIA DA INVASÃO DA UCRÃNIA

— Kirill Savchenkov e Alexandra Sukhareva, os artistas plásticos escolhidos para representar a Rússia na Bienal de Veneza 2022, desistiram de participar, alegando: Não há lugar para arte quando civis são mortos sob o fogo de mísseis, quando cidadãos da Ucrânia vivem escondidos em abrigos, quando manifestantes russos anti-guerra estão ser amordaçados e presos.

Raimundas Malasauskas, curador do pavilhão russo, também se retirou, subscrevendo a posição de Savchenkov e Sukhareva.

— A Filarmónica de Munique demitiu Valery Gergiev do cargo de maestro-chefe. Amigo pessoal de Putin, Gergiev também viu cancelada a sua presença no Scala de Milão, no Carnegie Hall de Nova Iorque e no Festival de Edimburgo.

— A soprano russa Anna Netrebko, que deveria actuar no MET (Nova Iorque) em Abril, já não o poderá fazer. A senhora escreveu no Instagram o seguinte: «Forçar artistas, ou qualquer figura pública, a expressar as suas opiniões políticas em público, denunciando a sua pátria, é errado.» Peter Gelb, responsável máximo do MET, não se comoveu. A Turandot terá outra solista.

— A Royal Opera House de Londres cancelou a temporada de Verão do Bolshoi Ballet.

— O Festival de Música da Primavera, que se realiza todos os anos em Lucerna (Suíça), este ano dedicado a Mendelssohn e com início marcado para o próximo 8 de Abril, cancelou a presença de todos os artistas russos.

— A Grécia vai suspender a colaboração com todas as organizações culturais russas.

— A Rússia foi expulsa da Eurovisão.

— A Warner Bros, a Disney e a Netflix cancelaram a distribuição de filmes (e as emissões por cabo) na Rússia.

Imagem: o pavilhão da Rússia no Giardini della Biennale, em Veneza.

PEN INTERNACIONAL



Claro que os intelectuais têm de tomar posição. Assinada por mais de mil escritores de todo o mundo (entre eles Joyce Carol Oates, Salman Rushdie, Margaret Atwood, Orhan Pamuk, Svetlana Alexievich, Jonathan Franzen, Lyudmila Ulitskaya, Colm Tóibín, Olga Tokarczuk e Paul Auster), a carta do PEN internacional é clara: solidariedade com o povo da Ucrânia (em especial com os artistas, escritores e jornalistas), condenação da invasão russa e apelo para o fim imediato das hostilidades.

Aos meus pares que não saibam como o fazer, o contacto é este: Aurelia.dondo@pen-international.org

Imagem: excerto das assinaturas, por ordem alfabética (apelido). Clique.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

RÉGIO


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Libertação de José Régio (1901-1969), um dos fundadores, e o principal teórico, da revista Presença, que se publicou durante treze anos, dando corpo ao segundo modernismo.

Natural de Vila do Conde, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, Régio foi, além de poeta, também dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, cronista, crítico, diarista, memorialista e desenhador. Estreou-se em livro com Poemas de Deus e do Diabo (1925), colectânea que inclui Cântico Negro, o mais famoso dos seus poemas.

Professor de liceu no Porto e em Portalegre, foi uma das personalidades mais destacadas da vida literária portuguesa entre os anos 1930 e 1960. Morreu aos 68 anos sem nunca ter constituído família.

Publicado originalmente no livro de estreia, o poema desta semana foi integrado, em 1939, no segundo, Biografia. A imagem foi obtida a partir de Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra, publicada em 2002 pela Cotovia e Angelus Novus.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neill, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Miguel Torga, Ângelo de Lima, Pedro Tamen e António Ramos Rosa.]

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sábado, 26 de fevereiro de 2022

COSTA NA NATO


A declaração do primeiro-ministro foi feita após ter participado na cimeira extraordinária da NATO terminada há pouco.

Putin não gostou de ver a Suécia e a Finlândia participarem na cimeira com o estatuto de Estados observadores, e pôs Maria Zakharova, porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros russo, a dizer que lhes aconteceria o mesmo que à Ucrânia.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

EXPANSIONISMO

Continua a haver muita confusão em muitas cabeças. Há quem continue a supor que a Rússia é um país comunista e, nessa medida, a saudar a invasão da Ucrânia como uma desforra da queda da URSS.

Do mesmo passo, muita gente continua a «achar» que a Bulgária, a antiga Checoslováquia (as actuais República Checa e a Eslováquia), a Hungria, a antiga Jugoslávia (actualmente dividida em sete países), a Polónia e a Roménia, pertenciam à URSS. Errado.

As repúblicas soviéticas eram dezasseis, e apenas três (os países bálticos) fazem hoje parte da NATO.

A URSS era constituída pela Rússia / Arménia / Azerbaijão / Bielorrússia / Bukharan / Cazaquistão / Estónia / Geórgia / Letónia / Lituânia / Moldávia / Quirguistão / Tajiquistão / Turquemenistão / Ucrânia / Uzbequistão.

Convinha não meter os pés pelas mãos. E ter presente que Putin, um czar implacável, marimba-se para o marxismo-leninismo. A ocupação da Ucrânia — uma antiga república soviética — não passa de expansionismo. Não há aqui ideologia nenhuma, a não ser aquela que atropela direitos, liberdades e garantias.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

COMEÇOU


Sem surpresa, a Rússia atacou a Ucrânia esta madrugada praticamente até às fronteiras ocidentais.

Por enquanto, apenas Lviv, no extremo ocidental do país, foi poupada. A razão é simples: é lá que se encontram quase todos os diplomatas estrangeiros, retirados de Kiev assim que a situação atingiu o turning point.

Neste momento, Kiev está sem defesas antiaéreas, que foram destruídas por mísseis russos. Forças russas já entraram em Carcóvia, aliás Kharkiv, capital da Ucrânia entre 1919 e 1934, actualmente a segunda cidade mais importante do país, centro da indústria tecnológica de ponta (electrónica, aeroespacial, nuclear), epicentro da vida cultural e científica ucraniana, onde vivem cerca de dois milhões de pessoas.

O aeroporto militar da cidade já foi bombardeado.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

GURNAH EM PORTUGUÊS


O Nobel da Literatura 2021 foi parar às mãos de Abdulrazak Gurnah (n. 1948), nascido no Sultanato de Zanzibar, quando o arquipélago não fazia parte da República da Tanzânia. Gurnah ainda não tinha dezoito anos quando, a pretexto de terminar os estudos, foi para Inglaterra. É lá que vive desde então. Foi breve o regresso a África: ocorreu nos anos 1980, um breve período em que deu aulas numa universidade da Nigéria. Para todos os efeitos, Gurnah é um eminente cidadão, escritor e académico britânico, professor emérito da Universidade de Kent.

Vidas Seguintes, o décimo e mais recente dos romances que publicou, tem como pano de fundo as relações entre colonizadores e colonizados na Deutsch-Ostafrika. Muita gente não se lembra, mas o território da Tanzânia fez parte, até ao fim da Primeira Guerra Mundial, da África Oriental Alemã, vasta área que se estendia até à província do Niassa, no Norte de Moçambique. A problematização do colonialismo alemão tem sido sistematicamente omitida nos últimos cem anos, daí a relevância com que a obra de Gurnah preenche essa lacuna.

Gurnah nasceu sob domínio colonial britânico, mas é sobre as práticas coloniais alemãs que a obra se debruça. Denominador comum a todos os livros: as ilhas de Zanzibar, predominantemente muçulmanas e, como tal, estranhas ao clichê “africano”. Dito de outro modo, arabização no lugar da negritude.

As histórias dos quatro principais personagens de Vidas Seguintes — Khalifa, Ilyas, Hamza e Afiya — são as histórias de todos os colonizados que um dia foram obrigados a lutar pelo império ocupante, muitos deles roubados em crianças pelo Schutztruppe: «Toda a gente conhecia a frieza e impiedade dos oficiais alemães.»

Não é a primeira vez que o autor escreve sobre o tema. Por exemplo, Yusuf, o protagonista de Paradise (1994), é uma criança vendida pelo pai para trabalhar em regime de escravatura.

Qual o significado de “pertença”? Pondo em pauta a vexata quaestio da extraterritorialidade, do choque identitário e de culturas, Gurnah coloca-se no centro das experiências de alteridade que distinguem o que escreve.

Além de romancista, Gurnah é autor de contos. Uns e outros muito bem recebidos pela crítica, mas com vendas residuais (mesmo no Reino Unido, o prémio apanhou os editores desprevenidos). Antes de laureado com o Nobel, era sobretudo conhecido e respeitado pelos ensaios que escreveu sobre diáspora e literatura pós-colonial.

Vidas Seguintes foi traduzido por Eugénia Antunes e publicado pela Cavalo de Ferro.

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domingo, 20 de fevereiro de 2022

ANTÓNIO RAMOS ROSA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi De Coincidência em Incoincidência de António Ramos Rosa (1924-2013), um dos poetas centrais da poesia portuguesa do Século XX.

Natural de Faro, António Ramos Rosa veio para Lisboa em 1945, embora até 1962 tenha mantido itinerância entre as duas cidades. 

Membro da secção algarvia do MUD Juvenil, esteve preso três meses (1947) no Governo Civil de Lisboa. Publicou o primeiro livro, O Grito Claro, em 1958.  A experiência de empregado de escritório deu origem a dois poemas famosos: O Funcionário Cansado e O Boi da Paciência. Contudo, a obra posterior afasta-se desse neorealismo com laivos surrealistas.

Poeta, crítico, ensaísta e tradutor, mas também desenhador, foi um dos fundadores e directores da revista Árvore (1951), bem como de outras publicações, entre elas Cadernos do Meio-Dia (1958). Em 1962 publicou um importante livro de ensaios, Poesia, Liberdade Livre. A quarta série de Líricas Portuguesas (1969), antologia de referência, foi por si organizada. Traduziu Éluard, Foucault, Marguerite Yourcenar e outros.

Entre os muitos prémios que recebeu, em Portugal e na França, foi distinguido (1991) pelo Collège de l’Europe como Poeta Europeu da Década.

O poema desta semana pertence a Ocupação do Espaço (1963). A imagem foi obtida a partir do primeiro volume de Obra Poética (2018), editado por Luis Manuel Gaspar e publicado pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neill, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Miguel Torga, Ângelo de Lima e Pedro Tamen.]

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

REPETIR É PRECISO


O Tribunal Constitucional deu provimento às reclamações apresentadas por cinco partidos: CHEGA, PAN, LIVRE, VOLT e MAS.

E os membros das mesas que anularam 157.205 votos ficam a rir-se? Não lhes são pedidas responsabilidades?

Na repetição não será admitido o voto postal, apenas o voto presencial nas representações diplomáticas.

Clique na imagem do Público.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

TAMEN


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi três versículos aforísticos de Dentro de Momentos de Pedro Tamen (1934-2021), personalidade destacada do grupo de católicos progressistas que se afirmou contra o Estado Novo nos anos 1960.

Natural de Lisboa, Pedro Tamen estreou-se em livro com Poema para Todos os Dias (1956). Além de poeta, foi professor do ensino secundário, cineclubista, crítico literário, editor e director de revistas. Notabilizou-se como tradutor de, entre muitos outros, Gilgamesh, Sade, Flaubert, Proust, Foucault, Bataille, Sartre e Perec.

Daniel na Cova dos Leões (1970) impôs definitivamente o timbre da sua poesia, uma liturgia anticonvencional, culta e sarcástica. 

Durante a Guerra Colonial fez duas comissões de serviço militar em Moçambique.

Tendo colaborado largamente na imprensa, pertenceu ao núcleo fundador da revista O Tempo e o Modo. Dirigiu a editora Moraes (onde criou a colecção Círculo de Poesia) durante dezoito anos. Entre 1975 e 2000 foi administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi laureado com os mais importantes prémios literários nacionais, tendo recebido comendas em Espanha e França. Publicado em 2013, Retábulo das Memórias colige a obra poética completa, dezanove livros e dispersos.

Constituem o poema desta semana três versículos de Dentro de Momentos (1984). A imagem foi obtida a partir da primeira edição desse livro, acompanhada de colagens de Fernando de Azevedo e integrada, nessa data, na colecção Mvsarvm Officia da Imprensa Nacional.

Falecido em Setúbal em Julho de 2021, Pedro Tamen é pai de Miguel Tamen, ensaísta, tradutor e professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neill, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Miguel Torga e Ângelo de Lima.]

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

ALMUDENA GRANDES


Hoje na Sábado

A morte precoce de Almudena Grandes (1960-2021) interrompeu um dos projectos mais ambiciosos da literatura de Espanha, a série de Episódios de Uma Guerra Interminável, terminada com A Mãe de Frankenstein, agora traduzido. Inspirando-se na vida de Aurora Rodríguez Carballeira, uma feminista avant la lettre, Almudena Grandes — formada em História — expõe a forma como o regime de Franco lidava com a psiquiatria.

Aurora foi internada depois de matar a filha de dezoito anos, a famosa Hildegart, menina-prodígio e activista republicana, abatida pela mãe com quatro tiros de pistola. O interesse da autora pela história clínica de Aurora começou no momento em que leu El Manuscrito Encontrado em Ciempozuelos, do psiquiatra Guillermo Rendueles Olmedo.

Como em livros anteriores, também neste se cruzam personagens fictícias e pessoas reais (entre outros, o psiquiatra Juan José López Ibor, que pretendia curar a homossexualidade dos pacientes), factos históricos e situações efabuladas. O manicómio feminino de Ciempozuelos existe, estando associado à tentativa de reconquista da cidade por parte do Quinto Regimento republicano, comandado por Gustavo Durán, amigo de Lorca, Buñuel e Alberti, figura lendária de Guerra Civil de Espanha.

Narrado a três vozes, uma delas a do psiquiatra Germán Velázquez Martín, A Mãe de Frankenstein centra-se nos últimos anos de vida de Aurora, fazendo o relato cru de como a repressão do nacional-catolicismo espanhol se estendia à esfera da saúde mental. Germán, que viveu exilado na Suíça durante quinze anos, regressa ao país em 1954, trazendo com ele métodos humanos e um medicamento experimental, a Clorpromazina. Ali chegado, Germán interessa-se pelo ‘caso’ de Aurora, bem como pela natureza da relação da filicida com a enfermeira María Castejón. É sobre este eixo central que se desenvolve a narrativa, tendo como pano de fundo as diversas faces da ignomínia franquista, como por exemplo o roubo de crianças filhas de republicanos, para serem entregues a famílias católicas. 

Uma extensa nota da autora contextualiza as relações de contiguidade entre ficção e realidade. A útil tábua de personagens que fecha o volume podia (e devia) ter sido inserida a abrir.

Escritos contra a amnésia histórica, os cinco romances que compõem a série de Episódios de Uma Guerra Interminável (o sexto ficou por concluir) estendem à segunda metade do século XX a saga ficcional escrita por Benito Pérez Galdós sobre os anos 1800.

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

CIBERATAQUE


A Vodafone foi ontem à noite alvo de um ciberataque. Embora, ao fim de doze horas, tenham sido recuperados os serviços de voz e os dados móveis 3G, mantêm-se out o serviço de televisão e as redes de dados móveis 4G e 5G.

Um comunicado da empresa esclarece:

«Já recuperámos os serviços de voz móvel e os serviços de dados móveis estão disponíveis exclusivamente na rede 3G em quase todo o país. Infelizmente, a dimensão e a gravidade do acto criminoso a que fomos sujeitos implica para todos os demais serviços um cuidadoso e prolongado trabalho de recuperação. [...] Temos na Vodafone Portugal e no Grupo uma equipa experiente de profissionais de cibersegurança que, em conjunto com as autoridades competentes, está a realizar uma investigação aprofundada para perceber e ultrapassar a situação.»

Depois dos ciberataques ao Expresso, que inutilizou o site do jornal e todos os seus arquivos, à SIC e à revista Sábado, chegou a vez da Vodafone.

Imagem obtida hoje às 09:45h. Clique.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

ÂNGELO DE LIMA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi o mais famoso poema de Ângelo de Lima (1872-1921), o simbolista que, tal como seu pai — o poeta Pedro de Lima —, morreu louco.

Natural do Porto, Ângelo de Lima nasceu no seio de uma família burguesa. Frequentou o Colégio Militar de Lisboa, de onde foi expulso, e a Academia de Belas Artes do Porto. Em 1891, integrado numa expedição a Manica e Sofala, cumpriu serviço militar em Moçambique.

Além de poeta, foi também pintor. Tendo poemas publicados em vários jornais e revistas literárias, uma delas o n.º 2 de Orpheu (1915), não publicou nenhum livro em vida. A sua breve Autobiografia foi publicada em 1992. O aparecimento da obra em volume deve-se a Fernando Guimarães, que em 1971 publicou as suas Poesias Completas.

Em 1894 foi internado no Hospital do Conde de Ferreira, no Porto, por alegadamente manter relações incestuosas com uma filha natural de seu pai. Teve alta ao fim de quatro anos, indo então viver para o Algarve. Em Dezembro de 1901, por ter dito um palavrão, foi preso no Teatro Dona Amélia [actual Teatro de São Luiz], de Lisboa. Internado no Hospital de Rilhafoles, ali permaneceu até morrer.

O poema desta semana foi publicado em várias revistas literárias a partir de 1900. A imagem pertence a Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra, publicada em 2002 pela Cotovia e Angelus Novus.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neil, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira e Miguel Torga.]

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

LAURO ANTÓNIO 1942-2022


Vítima de ataque cardíaco fulminante, morreu hoje Lauro António, cineasta, encenador, crítico e professor. Tinha 79 anos.

Notabilizado com Manhã Submersa (1980), o mais célebre dos filmes que realizou, Lauro António desenvolveu grande actividade no cineclubismo, na rádio e na televisão. Foi director de festivais de cinema, arte sobre a qual deixa uma extensa bibliografia de mais de cem títulos.

A partir de uma doação sua à Câmara de Setúbal (milhares de livros, mas também filmes, fotografias, cartazes, documentos, objectos, etc.), foi inaugurada naquela cidade, em Maio do ano passado, a Casa das Imagens.

Os meus sentimentos a Maria Eduarda Colares, a seu filho Frederico Corado, mas também a Alexandra Prado Coelho.

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

MONICA VITTI 1931-2022


Morreu hoje Monica Vitti, musa de Antonioni e uma das grandes divas do cinema europeu dos anos 1960-70. Tinha 90 anos e sofria da doença de Alzheimer há mais de 25 anos.

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

ABSOLUTA, OF COURSE



Maioria absoluta do PS. O Presidente da República começa a ouvir amanhã, nos termos do artigo 187.º, n.º 1, da Constituição, os Partidos com representação parlamentar. Clique nas imagens.

A NOITE MAIS LONGA


Quando faltam contar apenas os votos da emigração, o PS tem 117 deputados eleitos, o que faz dele o vencedor do acto eleitoral, com maioria absoluta. 

— O PSD perdeu 6 deputados mas mantém-se no 2.º lugar.

— Perdendo 14 deputados, o BE passou do 3.º para 6.º lugar.

— Perdendo 6 deputados, a CDU passou do 4.º para 5.º lugar.

— Perdendo 3 deputados, o PAN passou do 6.º para 8.º lugar.

— A extrema-direita do CH conseguiu eleger 12 deputados.

— Os liberais elegeram 8.

— O CDS e o PEV não obtiveram representação parlamentar.

Apesar da manipulação e do medo [mais de um milhão de portugueses confinados], aumentou o número de votantes. A abstenção baixou, o que não acontecia há dezassete anos.

A maioria absoluta do PS — e a continuação de António Costa como primeiro-ministro — é motivo de regozijo. 

Sem surpresa, os portugueses penalizaram fortemente quem chumbou o OE para 2022. Estava escrito nas estrelas? Parece que sim.

Nota patética da noite: Francisco Rodrigues dos Santos conseguiu a proeza de fazer implodir o CDS, um dos Partidos fundadores da democracia portuguesa.

Imagem: secretaria-geral do MAI. Clique.

domingo, 30 de janeiro de 2022

TORGA


UM POEMA POR SEMANA — Para este domingo escolhi Primeira Endecha de Miguel Torga (1907-1995), um dos mais influentes escritores portugueses do século XX.

Natural de São Martinho de Anta (Sabrosa), Torga — pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha — foi, ainda criança, moço de recados de uma família abastada do Porto e candidato a seminarista. Aos 13 anos emigrou para o Brasil, onde viveu cinco anos como apanhador de café na Fazenda de Santa Cruz, em Minas Gerais, tendo regressado a Portugal em 1925.

Publicou o primeiro livro, Ansiedade (1928), no ano em que se matriculou na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Médico otorrinolaringologista de profissão, Miguel Torga publicou, além de poesia, contos, novelas, romances, peças de teatro, ensaios, crónicas, cinco volumes de memórias e dezasseis volumes do famoso «Diário». Homem de esquerda, teve livros apreendidos, foi preso pela PIDE e impedido de viajar para o estrangeiro.

Adversário da integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia, militou publicamente contra a assinatura do Tratado de Maastricht.

Em 1960, a Universidade de Montpellier propôs o seu nome para o Nobel da Literatura, ao mesmo tempo que a intelligentsia portuguesa propunha Aquilino Ribeiro (nenhum dos dois ganhou). Voltaria a ser candidato em 1978, dessa vez sob unanimidade nacional. Traduzido em vários países europeus, recebeu, entre outros, os prémios Montaigne (1981), Camões (1989) e Vida Literária (1992).

Foi casado com a professora e ensaísta Andrée Crabbé Rocha e é pai da professora e ensaísta Clara Rocha.

O poema desta semana pertence a Abismo (1932). A imagem foi obtida a partir do primeiro volume de Poesia Completa (2007), publicado pela Dom Quixote. Foi a primeira vez que um livro seu apareceu nas livrarias sob chancela editorial: em vida, todos os seus livros foram publicados em edição de autor.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão, Reinaldo Ferreira, Judith Teixeira, Armando Silva Carvalho, Irene Lisboa, António Botto, Ana Hatherly, Alberto de Lacerda, Merícia de Lemos, Vasco Graça Moura, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Natércia Freire, Gomes Leal, Salette Tavares, Camilo Pessanha, Edith Arvelos, Cesário Verde, António José Forte, Francisco Bugalho, Leonor de Almeida, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco, José Blanc de Portugal, Luís Miguel Nava, António Maria Lisboa, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, António Manuel Couto Viana, Ruy Cinatti, Al Berto, Alexandre O’Neil, Vitorino Nemésio e David Mourão-Ferreira.]

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VOTAR É PRECISO


Hoje é o dia em que decidimos o nosso futuro. Repito o que já disse outro dia: temos de votar com a razão, deixando em casa as emoções e a bílis.

Não podemos esquecer os ominosos anos do Governo PSD/CDS. Não podemos esquecer quem chumbou o OE 2022. Não podemos ir na cantiga de quem nos promete o impossível. Não podemos deixar que o neo-liberalismo faça o seu caminho. Não podemos deixar passar a extrema-direita.

Daqui a pouco, quando for votar, votarei PS. Quero que António Costa continue primeiro-ministro. Não quero imaginar o que possa ser do país se não houver condições para que isso aconteça.

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