quinta-feira, 30 de julho de 2020

ESCOLHAS DE VERÃO


Hoje na Sábado.

Por decisão da viúva, foi agora reeditado o livro que Herberto Helder (1930-2015) obliterou da sua obra em 1968 — Apresentação do Rosto. Apreendido pela PIDE pouco depois de chegar às livrarias, não voltou aos prelos. Contudo, fragmentos seus vieram mais tarde a ser integrados noutros livros do autor. A nota editorial que antecede os textos nada esclarece sobre a vontade de Herberto. O recorte autobiográfico aproxima Apresentação do Rosto de obras como Os Passos em Volta (1963) ou Photomaton & Vox (1979). Minudências à parte, trata-se de um texto forte, como são por regra os de Herberto: «Eu tinha a febre de enterrar hastes em amoras e amoras em hastes, e era uma febre quente como não podes supor.» Dividida em seis partes, a narrativa em prosa antecipa o esplendor da poesia a devir.

O albanês Ismail Kadaré (n. 1936) não é um desconhecido dos leitores portugueses. Quem não conhece, tem agora oportunidade de ler o mais famoso dos seus romances, O General do Exército Morto. A partir de uma missão sombria (identificar e recuperar os corpos de soldados italianos mortos na Albânia), o plot flui com precisão. Por muito justa que fosse a pretensão da Itália, não deixava de ser uma nova “violentação” do território da Albânia. Nos diálogos estabelecidos entre o general e o padre que o acompanha, ambos italianos, fica exposta a “fractura” daquela missão impossível. O mérito de Kadaré é fazê-lo com secura não isenta de ironia.

A reedição de Nada a Temer traz de volta Julian Barnes (n. 1946), excelentíssimo autor inglês que há doze anos publicou este primeiro volume de memórias centrado na falta de fé: «Não acredito em Deus, mas sinto a Sua falta.» Está dado o tiro de partida. A partir do axioma, Barnes passa em revista as relações de família, a amizade, o amor, a morte, a arte, as questões ambientais, a própria literatura, etc., apoiando as reflexões na citação de factos vividos ou obras de terceiros (entre outros, Montaigne e Koestler). Como sempre, envolvente e elegante, sem deixar de ser sardónico.

Quem leu A Porta, romance de Magda Szabó (1917-2007) já editado entre nós, ficou com vontade de ler outros romances da autora. Chegou agora A Balada de Iza, traduzido directamente do húngaro por Piroska Felkai. Trata-se da sibilina denúncia do estalinismo, feita a partir dos segredos de um pequeno núcleo familiar. Tudo se passa em poucos meses, na Budapeste do início dos anos 1960, num crescendo de tensão entre mãe (viúva de juiz) e filha (médica). Claustrofóbico, decerto, mas dando testemunho da transição entre duas épocas.

O caso verídico da ocupação, em 2012, do Hotel Cambridge, de São Paulo, pelo colectivo Frente de Luta por Moradia, é o tema do livro-manifesto A Ocupação, do brasileiro Julián Fuks (n. 1981). Sem evasivas: «É uma grande tristeza o que sucede no Brasil de hoje.» Sebastián, narrador e alter-ego do autor, sublinha: «Os ditadores de hoje são papagaios ruidosos. […] Querem ser maiores do que o regime em que se deitam.» Retrato nítido do Brasil actual, algures entre a reportagem literária e o panfleto de causas, A Ocupação inclui, num dos seus 41 breves capítulos, uma carta dirigida por Fuks a Mia Couto.

O romance mais recente da inglesa Pat Barker (n. 1943), O Silêncio das Mulheres, relê a Ilíada para, por interposto cânone feminino, pôr em pauta questões relacionadas com identidade de género. Agora é a vez delas. A narradora não é outra senão Briseida, a princesa troiana que Aquiles sequestrou e fez concubina. Habituados a ler a História escrita por homens, Pat Barker não só inverte as posições como antecipa a cronologia dos factos cantados no poema de Homero: aqui, tudo começa em Lirnesso. Há um senão: a “mensagem” vê-se beliscada pelo proselitismo. Mas talvez fosse mesmo essa a intenção. Ou seja, obrigar-nos a ler a Ilíada em registo feminista.

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