quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A TERAPEUTA E O ADMIRADOR DE MILOSEVIC


Foram hoje atribuídos os prémios Nobel da Literatura relativos a 2018 e 2019.

Olga Tokarczuk, polaca, 57 anos, antiga terapeuta, venceu o de 2018. A sua escolha prova que o Nobel da Literatura não é para levar a sério.

Peter Handke, austríaco, 76 anos (em Dezembro fará 77), romancista, contista, ensaísta, dramaturgo, argumentista e cineasta bissexto (colaborou com Wim Wenders), venceu o de 2019. Handke é conhecido pelo seu apoio ao nacionalismo sérvio de extrema-direita. Para escândalo das nações civilizadas, discursou no funeral de Slobodan Milošević. A imprensa nórdica considera-o fascista. A sua candidatura ao Prémio Heinrich Heine, em 2006, teve que ser retirada. E, em 2014, a atribuição do Prémio Internacional Ibsen provocou demissões no júri, foi condenada pelo PEN norueguês, e levou Bernt Hagtvet, professor emérito de ciência política da Universidade de Oslo e membro da Academia Norueguesa de Ciências e Letras, a considerar a decisão «um escândalo sem precedentes».

Este ano, a Academia sueca convidou cinco “especialistas externos” para, juntamente com os académicos, participarem na escolha. Em 2020 também será assim. Os convidados foram dois escritores (Gun-Britt Sundström e Kristoffer Leandoer) e três críticos literários: Mikaela Blomqvist, Henrik Petersen e Rebecka Kärde. Ms Kärde tem 27 anos.

Como se recordam, o Nobel da Literatura foi cancelado após o escândalo que envolveu a poeta sueca Katarina Frostenson, o membro mais influente da Academia Real, casada com o fotógrafo francês Jean-Claude Arnault, acusado de assédio sexual por dezoito mulheres (e de ter violado duas), além de alegadamente ter vendido informação da Academia a casas de apostas.

Ao fim de seis meses de rumores, o escândalo rebentou em Novembro de 2017, levando à demissão voluntária de vários membros da Academia, que ficou sem quorum. A eleição de novos membros esteve bloqueada durante um ano, mas o rei Carlos XVI Gustavo empenhou-se pessoalmente em resolver o litígio que só ele podia resolver. Tudo ficou resolvido em Março passado.

Entretanto, por decisão do Tribunal de Recurso de Estocolmo, Jean-Claude Arnault foi condenado a 30 meses de prisão efectiva, pela violação de duas mulheres, em instalações da Academia. Já este ano, a poeta Katarina Frostenson aceitou demitir-se, mas vai receber uma tença mensal vitalícia, embora tenha ficado provado que, durante vários anos, passou ao marido informação confidencial sobre os nomeados mais importantes e o nome do “escolhido”.

Anders Olsson, escritor, crítico literário, membro da Academia e seu secretário-geral, anunciou a intenção da Academia abandonar a perspectiva eurocêntrica e “masculina” na escolha dos laureados.

Nas imagens, Tokarczuk e Handke. Clique.