sexta-feira, 7 de abril de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 55,8%. A diferença entre o PS e o PSD é agora de dez pontos. E, mesmo sozinho, o PS continua a ultrapassar a PAF, que soma 35,7%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

LEITURAS


Hoje na Sábado escrevo sobre quatro livros: O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin; Diário dos Imperfeitos, de João Morgado; O Rio Triste, de Fernando Namora; e Baudolino, de Umberto Eco.

Se fizéssemos uma lista dos dez livros mais controversos do século XX, O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), estaria nela. Escrita em segredo numa quinta da Estónia, nos anos 1960, num esconderijo só tornado público em 1991, a magnum opus do autor saiu clandestinamente da URSS e foi revelada ao Ocidente em Dezembro de 1973, por intermédio da tradução francesa da IMKA. Houve quem notasse que talvez fosse o início da «desagregação do sistema comunista». A edição portuguesa de 1975 nada tem a ver com o livro que agora chegou às livrarias, em tradução directa do russo, da responsabilidade de António Pescada. Ensaio autobiográfico, ou de «investigação literária», como se lê na folha de rosto, cobre o período que vai de 1918 a 1956. As cerca de seiscentas páginas do volume correspondem à edição abreviada que tem sido publicada em todo o mundo nos últimos 44 anos. Dividido em sete partes, a clareza dos títulos respectivos não ilude: A Indústria prisional, Movimento perpétuo, Extermínio pelo trabalho, A alma e o arame farpado, Os trabalhos forçados, O desterro e, a fechar, Não há Estaline. Uma verdadeira enciclopédia do horror. Anna Akhmátova disse do livro que devia ser lido e decorado pelos duzentos milhões de russos. Combatente na Segunda Guerra Mundial, e tendo estudado física, matemática e literatura, tinha apenas 26 anos quando foi preso pela primeira vez. Mais tarde seria condenado a «desterro perpétuo» e trabalhos forçados numa charachka, ou seja, um instituto científico onde os investigadores trabalhavam sob vigilância. A pena terminou em 1953, com a chegada de Khrushchov ao poder. Toda a obra reflecte as experiências de privação de liberdade. Soljenítsin tinha nove livros publicados, e o Prémio Nobel da Literatura atribuído em 1970, quando O Arquipélago Gulag saiu dos prelos em Paris. Em Fevereiro de 1974, menos de dois meses passados sobre a sua publicação, foi preso, acusado de «traição à pátria», privado da cidadania russa e expulso do país. O volume inclui posfácio do autor, prefácio de Natália Soljenítsina, notas ao texto, glossário de abreviaturas e termos, bem como verbetes biográficos sucintos de pessoas citadas. Cinco estrelas. Publicou a Sextante.

Diário dos Imperfeitos, de João Morgado (n. 1965), foi novamente reeditado. Em 2012, quando chegou às livrarias, venceu o Prémio Literário Vergílio Ferreira, instituído pela Câmara Municipal de Gouveia (não confundir com o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, que é um prémio de consagração). A bibliografia do autor inclui romances, alguns dos quais de índole histórica; uma novela, contos, poesia e livros para a infância. Miguel Real considera-o «um Camilo Castelo Branco dos nossos tempos». Construído segundo o prisma das relações de poder, Diário dos Imperfeitos põe em pauta o tema mais antigo da humanidade, o amor: «Quando um casal discute, a cama fica para quem? Para quem domina a relação.» O que desencadeia a trama é um desastre: uma mulher perde o controlo do automóvel e capota depois de embater violentamente num semáforo. Sofre traumatismo craniano e entra em coma. Amnésia dissociativa como corolário. Numa linguagem próxima do showing, ou seja, reduzindo a distância entre o discurso do narrador e os factos narrados, João Morgado explora todos os cambiantes da alma humana. Foco central, a Gaivota, embora sejam muitas as personagens femininas, como Dorinda, Emília, Laura. Por vezes de forma desconcertante, este Diário dos Imperfeitos pretende transmitir várias dimensões do real. «Esquece o cono da mulher… é apenas um aeroporto. Podemos aterrar mil vezes num aeroporto e não conhecer o país, como podemos entrar mil vezes numa mulher e não a conhecer.» La Palisse não concluiria melhor, mas concatenar vagina com aeroporto parece-me uma novidade absoluta, mesmo na peculiar genealogia narrativa em que se insere. É muito vasto o espectro de temas dissecados: enamoramento, desejo, medo, insanidade, casamento, nojo, etc. A cada núcleo corresponde uma das três partes do romance. Embora saiba que «a metáfora é o princípio omnipresente da linguagem» (Richards, 1967), diria que certas imagens, ilustrando aquilo que muitos designam por escrita poética, fragiliza o livro. Três exemplos: «ópio de fêmea», «mãos de bolacha», «bebendo-lhe a pele». O recorte conotativo nem sempre é a melhor alternativa. Pelo contrário, não confundir prosa contaminada pela poesia com escrita poética é meio caminho andado para um bom resultado. Duas estrelas. Publicou a Casa das Letras.

Está em curso de reedição a obra de Fernando Namora (1919-1989), um dos autores portugueses mais traduzidos de sempre. O Rio Triste, o último romance, chegou agora às livrarias. Depois dele publicaria uma colectânea de poesia, outra de crónicas de viagem à URSS, e três volumes da série Cadernos de um Escritor. Por oposição ao ciclo rural que caracteriza a obra publicada até 1950 (médico de profissão, veio nesse ano para Lisboa exercer no Instituto Português de Oncologia), O Rio Triste é um bom exemplo do ciclo urbano. Com acção centrada na Lisboa de 1965, põe em pauta os temas da época: repressão política, emigração, guerra colonial, o Império a colapsar: «Há colonos que, suceda o que suceder, ninguém os arrancará vivos da sua casa ou da sua fazenda.» O epílogo dá um salto ao pós-revolução: «O Castel-Branco bufou de não ter sido convidado, julgava-se com candeia acesa no todo-poderoso MFA.» Bem esgalhada, a arquitectura romanesca inclui narrador omnisciente, excertos de cartas, páginas de um diário, notícias de jornal, exegese genológica (o romance como «enxurrada de vida»), trama policial, etc. Roman à clef ou simples coincidência? Boa ocasião para reavaliar no seu conjunto uma obra alvo de não poucos equívocos. Quatro estrelas. Publicou a Caminho.

Não é fácil fazer uma síntese da obra do italiano Umberto Eco (1932-2016), escritor lato sensu, conhecido sobretudo como medievalista e semiólogo, notável ensaísta de teoria narrativa, estudioso da ‘cultura de massas’, capaz de prender o leitor com toda a sorte de assuntos, das peculiaridades semânticas de P. G. Wodehouse ao percurso das Brigadas Vermelhas. Intelectual interventivo, tomou sempre partido, fosse para denunciar o populismo de Berlusconi, a invasão do Iraque ou o flop das Primaveras árabes. Graças à sua capacidade de transpor para a ficção temas eruditos, os romances — em especial O Nome da Rosa —, alguns dos quais deram origem a filmes, fizeram dele uma figura planetária. É o que sucede com Baudolino, agora reeditado. A trama põe em cena figuras reais com personagens de ficção, na transição dos séculos XII e XIII. Mitómano e autodidacta, Baudolino, o rapaz de Frascheta que a sorte atirou para o vasto mundo, narra a história em flashback, da juventude em Paris, para onde foi estudar retórica com uma tença de Frederico I [o Barbarroxa] do Sacro Império Romano-Germânico, ao saque de Constantinopla. O desembaraço narrativo dá consistência à intriga. Quatro estrelas. Publicou a Gradiva.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

BANNON OUT

Stephen Bannon, 63 anos, militante da ala direita do Partido Republicano, deixou de ser membro permanente do Conselho de Segurança Nacional. O almirante Michael S. Rogers, director do Conselho, bem como os chefes de Estado-Maior, recuperam a influência perdida desde a posse de Trump. Quem terá manobrado nos bastidores para que assim fosse foi o tenente-general H.R. McMaster. A realidade tem muita força.

ARQUIVADO

Lembram-se do Banco Português de Negócios, vulgo BPN, que implodiu no dia 2 de Novembro de 2008? Contas por baixo, nove mil milhões de euros pelo cano. O BPN foi nacionalizado nessa semana pelo Governo de Sócrates. E vendido em Março de 2012 pelo Governo de Passos Coelho (era Vítor Gaspar ministro das Finanças), ao angolano BIC. Vendido pelo preço de um T1 em Massamá. O Ministério Público abriu inquérito. A vox populi trouxe Dias Loureiro para o tablado, obrigando o antigo dirigente do PSD a demitir-se do Conselho de Estado. José de Oliveira Costa foi preso. A opinião pública ficou a saber que Cavaco Silva fora accionista da Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN, tendo obtido ganho de 147 mil euros em acções.

Aqui chegados, soube-se agora: o Ministério Público arquivou o processo contra Dias Loureiro e José de Oliveira Costa por não ter sido possível identificar, «de forma conclusiva, todos os factos suscetíveis de integrar os crimes imputados aos arguidos», mesmo depois da analisar toda a «informação bancária relativa às operações e aos sujeitos intervenientes». Dias Loureiro mostrou-se indignado: «Estou estarrecido. É um arquivamento com insinuações». Pois.

sexta-feira, 31 de março de 2017

TAXAS & TAXINHAS

Lembram-se da histeria do PSD quando a Câmara de Lisboa, a exemplo do que acontece em todas as cidades civilizadas, introduziu a taxa turística em Lisboa? Estão recordados da cena patética de Pires de Lima no Parlamento? Pois bem, agora é o PSD, pela voz de José Eduardo Martins, coordenador do programa autárquico do partido e candidato à Assembleia Municipal, quem propõe o aumento dessa taxa de 1 para 1,5 euros. Em conformidade, Teresa Leal Coelho irá defender esse aumento.

quinta-feira, 30 de março de 2017

JÚLIA NERY


Hoje na Sábado escrevo sobre Ei-los que partem, o novo livro de Júlia Nery (n. 1939), apresentado na capa como sendo o romance da nova emigração portuguesa, embora omita qualquer tipo de razão política. Portanto, nada de desemprego por força do colapso da economia ou do catecismo da Troika. A epígrafe de Ferreira de Castro diz tudo: «Todas as gerações nasciam já com aquela aspiração…» Lília, bióloga, parte porque tem um sonho: tornar a água potável acessível a todos os povos. Nuno, homossexual enrustido, vai-se embora para sair do armário em Notting Hill. Marta para escapar à petite vie. Os outros, auto-designados desenrascas (casos de Valter, Ilse, Paulo, Madalena), partem porque se consideram membros de uma elite sem acesso ao patamar social conforme às suas ambições. Une-os uma amizade de muitos anos. Tiago, o astrofísico que Lília trouxe da Califórnia e acrescentou ao grupo, faz parte de outra galáxia. É no casamento de Ilse com Valter, em Unterreichenbach, na Alemanha, que todos se reencontram, ficando a conhecer Albert, o namorado de Nuno (a revelação da sua identidade sexual é uma surpresa). Marta também veio de Londres, enturmando-se rapidamente com um casal de lésbicas de Unterreichenbach. Paulo e Madalena vieram de Luanda, mas primeiro deixaram o filho em França num curso para estrangeiros. Lília não contou a Ilse que em tempos fora abusada por Valter. Lembram-se do filme de Lawrence Kasdan, Os Amigos de Alex, sobre o reencontro de amigos para um funeral? Aqui, em vez de funeral, é casamento. Ei-los que partem é uma história da diáspora com diáspora dentro. Paulo nasceu em Luanda, de onde a família teve de fugir em 1975, era ele criança, tendo voltado agora como gestor financeiro. São muitas as memórias da descolonização de Angola. Episódios violentos, como os que envolveram a família de Ilse e, em concreto, a sua gestação. Subitamente, tudo rui: Ilse sofre com a personalidade bipolar de Valter; Paulo troca Madalena por uma amante angolana; a promiscuidade de Albert faz da vida de Nuno um inferno; Tiago morre num desastre de avião. Por fim, Ilse, Valter e Madalena voltam para Portugal, Marta impõe-se como artista e Nuno arranja um novo namorado. Lília não desiste de salvar o mundo. Três estrelas. Publicou a Sextante.

quarta-feira, 29 de março de 2017

A CARTA


Tusk colocou no Twitter a foto do momento em que Sir Tim Barrow lhe entregou a carta do Brexit. E o Guardian divulgou o seu conteúdo. Fica aqui a imagem da primeira página. Clique para ler melhor.

DONE


Eram 16:30 de ontem quando Theresa May assinou em Downing Street a carta que será hoje entregue a Donald Tusk, presidente do Conselho europeu, formalizando a saída do Reino Unido da UE. Merkel, Tusk e Juncker foram previamente informados do seu conteúdo. Sir Tim Barrow, embaixador britânico em Bruxelas, entregará a carta no preciso momento (12:30 de hoje) em que a primeira-ministra britânica fará um curto statement na Câmara dos Comuns.

Clique na imagem do Guardian para ver melhor.

terça-feira, 28 de março de 2017

O SICOFANTA

Depois dos socialistas europeus, os eurodeputados dos partidos filiados no PPE (como por exemplo o PSD e o CDS) subscreveram uma carta enviada hoje a Dijsselbloem, exigindo um pedido formal de desculpas e a sua imediata demissão do cargo de presidente do Eurogrupo. E fizeram questão de assinar a carta num acto público, no Parlamento Europeu.

MR KHAN EM BRUXELAS

Antecipando-se aos atritos que se adivinham, Sadiq Khan, mayor de Londres, está hoje em Bruxelas a sensibilizar a Comissão e o Conselho para o futuro dos 3,3 milhões de cidadãos de países da UE que vivem no Reino Unido, e dos britânicos (1,2 milhões) que vivem em países da UE. A preocupação de Sadiq Khan faz todo o sentido. Afinal, Londres é uma realidade autónoma do conjunto do Reino Unido, precisando como nenhuma outra de uma política de imigração flexível, apesar do Brexit.

Amanhã, Theresa May acciona o Artigo 50 com uma breve declaração no Parlamento, ao mesmo tempo que um documento de sete páginas será entregue a Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu. As negociações formais, que devem durar 18 meses, começam em meados de Maio, depois da eleição presidencial francesa.

segunda-feira, 27 de março de 2017

TURQUIA VS GRÉCIA

Se calhar sou eu que ando distraído, mas ainda não vi os media nacionais referirem a escalada de tensão entre a Turquia e a Grécia. O clima azedou com a decisão do Supremo Tribunal grego de rejeitar a extradição de oito oficiais turcos que desertaram para a Grécia na sequência do golpe contra Erdogan. A Turquia voltou a suscitar a questão das ilhas ‘ocupadas’ (em 1996, pelo mesmo motivo, os dois países estiveram à beira de um conflito de grandes proporções), tendo nos últimos dias destacado para o Egeu vários navios de guerra, enquanto aviões sobrevoam diariamente o espaço aéreo grego. O ministro grego da Defesa já declarou: «As forças armadas gregas estão prontas para responder a qualquer provocação.» Chipre pode ser o detonador.

domingo, 26 de março de 2017

SAMPAIO


Num país em que tudo é um jogo de sombras, não me espanta o ‘incómodo’ que tem causado a revelação pública de excertos do segundo volume da biografia de Jorge Sampaio, da autoria do jornalista José Pedro Castanheira. Santana Lopes é o rosto visível dessa incomodidade, tendo chegado ao extremo de desafiar o antigo Presidente para um debate na televisão. Mas Santana tem o mérito de dizer em voz alta o que os outros apenas murmuram. A biografia é excelente: mais de duas mil páginas (1060 + 1063) e centenas de fotografias. O 1.º volume, publicado em 2012, termina com a declaração de Sampaio — Sou o candidato à Câmara Municipal de Lisboa — que em Julho de 1989 deixou o país, e o próprio PS, em transe. O 2.º volume, agora publicado, arranca com a campanha em que defrontou e venceu Marcelo Rebelo de Sousa na autarquia (1990-95), terminando com o fim dos dois mandatos de Presidente da República (1996-2006). José Pedro Castanheira entrevistou cerca de duzentas personalidades e teve acesso ao arquivo pessoal de Sampaio. Não é uma obra hagiográfica. É uma biografia como deve ser: fontes creditadas, notas de contexto, correspondência, índice remissivo, iconografia de vária proveniência, citações, etc. O busílis está nas citações, porque Sampaio, homem de formação anglo-saxónica, não se coibiu de lembrar o que fulano e beltrano (a nata da nata da política portuguesa) disseram em determinadas ocasiões, sobre este e aquele. Mas é assim que se faz a História.

LÚCIA E O COCHICHO

No seu livro mais recente, Amália, uma biografia da cantora que chega às livrarias nos primeiros dias de Abril, Fernando Dacosta faz algumas revelações curiosas. Por exemplo: «Salazar receava vê-la passar-se para a oposição. Amália enfrentou Pinochet recusando uma recepção com que o ditador pretendia cumpliciá-la. Guerrilheiros palestinianos cancelaram um atentado em Beirute porque ela actuava na cidade. A Irmã Lúcia escreveu-lhe a pedir para não cantar O Cochicho da Menina.» Mas como é que a Irmã Lúcia conhecia O Cochicho da Menina? Será o terceiro segredo de Fátima?

quinta-feira, 23 de março de 2017

RUY CASTRO


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição de Carnaval no Fogo, de Ruy Castro (n. 1948). Um acontecimento. O homem que escreveu a história da Bossa Nova, o biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, podia não ter escrito mais nada, porque as duzentas páginas em que nos “explica” o Rio de Janeiro chegam e sobram para fixar o seu nome. Publicado em 2003, Carnaval no Fogo resume a biografia da cidade desde 1555, ano em que o vice-almirante Villegagnon desembarcou na ilha de Serigipe com o propósito de estabelecer uma França Antártica na região da baía da Guanabara (a ocupação durou dez anos). Em 1565, Estácio de Sá correu com os franceses e fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, «em homenagem ao rei de Portugal e ao santo crivado de flechas». Os portugueses ficaram mas persistiu o apetite francês. No século XIX, a imigração francesa deixou marca: «Depois de Paris [o Rio] é a cidade que mais tem estatuária francesa no mundo.» Sabia? O autor não se atém à cronologia histórica. A exemplo do que faz com Ela é Carioca (1999), uma enciclopédia de Ipanema, também aqui nos dá a conhecer usos e costumes; a música popular; a arquitectura (igrejas barrocas, edifícios coloniais, art déco e modernistas, mais os «estrupícios pós-modernos»); a cultura da negritude; o boom dos anos 1930, quando foram construídos os bairros da Glória, do Flamengo, da Urca e de Copacabana; a decisão de arrasar quinhentas casas e três igrejas tricentenárias para rasgar a Avenida Presidente Vargas; personalidades como Chiquinha Gonzaga (a maestrina anti-esclavagista), Nair de Teffé (a caricaturista que casou com o marechal-presidente Hermes da Fonseca) ou Oscar Niemeyer, que em 1941 viu chumbado o seu projecto para o estádio do Maracanã; a demolição do Palácio Monroe por imposição da ditadura militar; o Jardim Botânico, que desde 1808 conserva milhares de espécies vegetais e centenas de espécies de aves; o delírio do visconde de Courcy, que em 1886 propôs implodir o morro do Pão de Açúcar para ventilar o centro da cidade e, como não podia deixar de ser, o Carnaval. Entre reconstituição histórica e crónica, tudo isto compõe um patchwork de leitura compulsiva. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

quarta-feira, 22 de março de 2017

ATENTADO EM LONDRES


Um homem esfaqueou um polícia ao tentar entrar no Parlamento britânico, enquanto, ali a dois passos, na ponte de Westminster, um atropelamento em massa fez um morto e dezenas de feridos. Um polícia morreu. Dois atacantes foram capturados. O Parlamento foi encerrado.

Clique na imagem do Telegraph.

TRUMP & MAY, PARA JÁ


Anteontem foi Trump. Passageiros oriundos ou com destino a treze países não podem transportar computadores portáteis e tablets (vulgo iPads) na cabine do avião. A medida é taxativa para nove companhias de aviação, entre elas a Qatar Airways e a Emirates Airlines, mas, informalmente, foi sugerida a outras. Todos os instrumentos electrónicos de tamanho superior a um vulgar smartphone têm de ir no porão.

Ontem foi Theresa May. No tocante ao número de países, o Reino Unido desceu de treze para seis, mas as companhias visadas são catorze (em vez de nove), sendo britânicas seis: British Airways, EasyJet, Jet2, Monarch, Thomas Cook e Thomson.

A França e o Canadá estudam o assunto para adoptarem medidas equivalentes. É o mundo em que vivemos.

Clique na imagem do Guardian.

COPOS & PUTAS

Sob o efeito da estrondosa derrota do seu partido, o PvdA, ou Partij van de Arbeid (os trabalhistas), que passou de 38 para 9 deputados, o senhor Jeroen Dijsselbloem desatinou. Nele, não admira. Um ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo que atesta no currículo ter um mestrado que nunca fez, é capaz de tudo. Dizer à criatura que, se os povos do Sul gastam tudo em copos e mulheres, é para contrariar os do Norte, que gastam tudo em mefedrona e rapazes.

segunda-feira, 20 de março de 2017

BREXIT


É oficial: Theresa May vai accionar o Artigo 50 no próximo dia 29. Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, já notificou que, em 48 horas, Bruxelas poderá dar início às negociações do Brexit.

A imagem é do Guardian. Clique.

domingo, 19 de março de 2017

GRAÇA MORAIS


Graça Morais tem neste momento uma exposição na Fundação Champalimaud, em Lisboa. O quadro ao alto chama-se 27 Jan 2017, data em foi concluído e coincide com a ordem executiva anti-imigração que Trump tentou impor como Lei. Fica o registo. Graça Morais é uma grande artista, e o facto de não andar ao colo da crítica enfatiza essa realidade.

A imagem é do site da TimeOut. Clique para ver melhor.

sábado, 18 de março de 2017

DEREK WALCOTT 1930-2017


Morreu ontem Derek Walcott, poeta, dramaturgo e ensaísta caribenho, Prémio Nobel da Literatura em 1992. Quanto sei, nenhum livro seu está traduzido em Portugal. O legado colonial e a questão identitária são centrais à sua obra. Em 2009, um pacote anónimo com páginas fotocopiadas de um livro onde é acusado de assédio sexual em Harvard, frustrou a candidatura ao lugar de professor de poesia em Oxford. Morreu em Santa Lúcia, onde nasceu. Tinha 87 anos.