Terça-feira, Junho 24, 2008

ALBERT COSSERY 1913-2008


Morreu anteontem o escritor egípcio Albert Cossery, radicado em Paris desde 1945. Tinha 94 anos. O seu corpo foi encontrado no quarto de hotel onde viveu nos últimos 63 anos. Entre 1940 e 1999 publicou oito livros (as más-línguas dizem que escrevia uma frase por semana), todos editados pela Antígona, que também publicou um volume de entrevistas com o escritor. O retrato ao alto é de 1975.

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Terça-feira, Maio 27, 2008

SYDNEY POLLACK 1934-2008


Sydney Pollack, actor, produtor e realizador americano — a ordem por que era reconhecido era exactamente a inversa —, morreu ontem. Faria 74 anos no próximo 1 de Julho. Filho de um pugilista que se tornou farmacêutico depois da morte precoce da mulher, Pollack contrariou o pai, que queria fazê-lo dentista. Em vez disso, matriculou-se na Neighborhood Playhouse School of the Theatre, de Nova Iorque, onde teve aulas com Sanford Meisner. Nos anos 1960 notabilizou-se em trabalhos para televisão, tornando-se um nome de referência em Hollywood a partir de 1975, ano em que realizou Os Três Dias do Condor. Como realizador, as suas obras mais populares foram Tootsie (1982), África Minha (1985) e A Firma (1993). Era um dos meus favoritos.

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Quinta-feira, Maio 22, 2008

CID DOS SANTOS, 1931-2008


Bartolomeu Cid dos Santos, nome incontornável da gravura portuguesa, professor emeritus da Universidade de Belas-Artes de Londres, fellow do University College e membro da Royal Society of Painter Printmakers, morreu ontem na capital britânica. Natural de Lisboa, radicado em Londres desde 1956, ano em que foi frequentar a Slade School of Fine Art, onde mais tarde (1961-1996) seria professor — Paula Rego foi uma das suas alunas —, deixa uma obra cujo espólio vai constituir o acervo de um centro de gravura e desenho a instalar, ainda este ano, em Tavira. O corpo vem para Portugal, prevendo-se que as cinzas sejam lançadas ao rio Gilão.

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TORCATO SEPÚLVEDA 1951-2008


Não conhecia Torcato Sepúlveda. (Se alguma vez o vi, não soube que era ele.) Mas sei que a sua morte, ocorrida ontem, deixa mais pobre o nosso jornalismo cultural. Fica a notícia do seu desaparecimento, e o testemunho de dois amigos comuns, a Isabel e o Francisco.

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Terça-feira, Maio 13, 2008

RAUSCHENBERG 1925-2008


Com a morte, ontem, de Robert Rauschenberg, a pop art não voltará a ser a mesma.

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Quarta-feira, Março 19, 2008

ANTHONY MINGHELLA 1954-2008


De hemorragia cerebral, morreu ontem Anthony Minghella, cineasta e dramaturgo britânico. Tinha 54 anos. Se pensarmos nele como realizador, os seus filmes mais conhecidos são O Paciente Inglês (1996), O Talentoso Mr. Ripley (1999) e Cold Mountain (2003). Se o recordarmos como produtor executivo, Um Americano Tranquilo (2002), A Intérprete (2005) e Michael Clayton (2007) correspondem a três títulos de grande sucesso. Além de guiões para cinema, escreveu e publicou meia dúzia de peças de teatro, dirigiu o British Film Institut, encenou Madame Butterfly, de Puccini, para a British National Opera, e foi autor de séries e telefilmes escritos, produzidos e realizados para a BBC. Com Sidney Pollack era sócio da produtora Mirage. New York, I Love You é um dos projectos que a sua morte inesperada deixa em suspenso.

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Segunda-feira, Março 03, 2008

MARIA GABRIELA LLANSOL 1931-2008


Morreu a Llansol, provavelmente a maior prosadora portuguesa do século XX, alguém que não era uma romancista, sequer uma ficcionista no sentido tradicional do termo, por não caber nos parâmetros do género. Alguém que, como disse Eduardo Prado Coelho, está no ponto em que «a escrita salva, redime, sustenta o bruxulear de uma luz, abre a vacilação de um caminho, e a literatura, essa, já começou a ficar para trás». Livros como Os Pregos na Erva (1962), Causa Amante (1984), Um Falcão no Punho (1985, Prémio Dom Dinis), Contos do Mal Errante (1985), Finita (1987), Um Beijo Dado Mais Tarde (1987, Grande Prémio de Romance e Novela da APE, e Prémio da Crítica), O Raio Sobre o Lápis (1991), O Começo de um Livro é Precioso (2003), Amigo e Amiga (2006, Grande Prémio de Romance e Novela da APE), e falta citar outros tantos, são obras que só uma mulher como ela podia ter escrito. Natural de Lisboa, Maria Gabriela Llansol viveu cerca de 20 anos na Bélgica (1965-84), onde se ocupou de experiências pedagógicas. Morreu hoje. [O retrato ao alto é de Álvaro Rosendo]

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Domingo, Janeiro 06, 2008

LUIZ PACHECO 1925-2008


Morreu Luiz Pacheco. Tinha 82 anos. Como autor, deixa um punhado de livros que (como tanta coisa entre nós) estão hoje esquecidos. Como editor da Contraponto, deu o pontapé decisivo para fixar um certo cânone: pense-se em Raul Leal, António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Natália Correia e Herberto Helder. Ouvidos pela Lusa, Vítor Aguiar e Silva, da Universidade do Minho, e Manuel Gusmão, da Universidade de Lisboa, disseram: «Sempre admirei muito em Luiz Pacheco o seu espírito de irreverência, a liberdade crítica, a capacidade de destruir corrosivamente as convenções, quase sempre mortas já. [...] Era um espírito que, naquela atmosfera passiva, adormecida, dos anos 50, 60 e ainda 70, trouxe, por vezes com excessos de linguagem, uma lufada de ar novo. Era dos espíritos mais irreverentes deste país.» [V.A.S]; «Obra escassa, mas bastante interessante, com destaque para Comunidade e O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor [...] praticou uma fusão entre a literatura e a vida, o que significa uma espécie de projecto de linhagem romântica, mas de cariz surrealista.» [M.G.] Não me lembro, em vida de Luiz Pacheco, de ler uma linha a seu respeito assinada por qualquer destes professores. Mas pode ser distracção minha. A título de homenagem, deixo a imagem de um opúsculo impresso em Agosto de 1980, O Caso do Sonâmbulo Chupista. Trata, com cotejo de ambos os textos, daquilo que Luiz Pacheco considerava ser o plágio de Fernando Namora a Vergílio Ferreira: Domingo à Tarde (1961), Prémio Lins do Rego, seria decalcado de Aparição (1959), Prémio Camilo Castelo Branco dois anos antes. Óscar Lopes deve poder desempatar porque fez parte dos dois júris.

Fica também um brevíssimo extracto da sua obra mais famosa:


«Gostas de broche? — pergunto e encaro-o fito nos olhos, muito sério, muito natural. / An, nem por isso — responde sempre calmo. / — Pois é só o que eu te posso fazer — digo, como se me desculpasse de não ser o Calouste Gulbenkian. / — E quanto me dá? — pergunta desagradável feita em tom meramente comercial. / — Olha, não te posso dar nada [...] e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. [...]»

Cf. O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor, escrito em Outubro de 1961, publicado pela primeira vez em 1970. Coligido em Textos Malditos, Edições Afrodite, 1977. [pp. 42-43]

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Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

OLÍMPIO FERREIRA 1967-2007


Vítima de ataque cardíaco fulminante, morreu ontem o Olímpio, que conheci na Cotovia, e com quem mais tarde (a partir do fim de 1997) me cruzava todas as semanas na Bulhosa do Campo Grande. O Olímpio começou por ser um livreiro a sério, uma espécie em vias de extinção, tornando-se entretanto o paginador dos livros da & etc e da Averno. Era também, com Mariana Pinto dos Santos, sua mulher e mãe dos seus filhos, o dinamizador da revista Intervalo. O Olímpio era um homem culto, educado e discreto. Há cada vez menos gente assim. Nunca soube se ele gostava de Rothko, mas é em sua homenagem que deixo a imagem [Untitled, 1961] ao alto.

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Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

BENAZIR BHUTTO 1953-2007


A antiga primeira-ministra do Paquistão, e líder oposicionista, morreu hoje, vítima de atentado suicida, durante um comício em Rawalpindi, no norte do país. Sobreviveu a vários atentados (incluindo aquele que a 18 de Outubro último, data do seu regresso do exílio, provocou 140 mortos), mas não ao de hoje.

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Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

FERNANDA BOTELHO 1926-2007


A notícia chega atrasada, mas só ao fim da tarde tive conhecimento da morte de Fernanda Botelho. A autora de A Gata e a Fábula (1960) não faz primeiras páginas, mas se a ficção portuguesa do século XX tem algum sentido, a sua quota não pode ser negligenciada. Três títulos, três dos catorze que publicou, são bastantes para que a não esqueçamos: Ângulo Raso (1957), cujo cinquentenário devia ter sido assinalado com a reedição que não houve, Esta Noite Sonhei com Brueghel (1987) e Dramaticamente Vestida de Negro (1994). A obra divide-se em duas fases distintas: até 1971, a partir de 1987. No intervalo não publicou, e cabe referir que foram Joana Morais Varela e Manuel de Brito (i. e., a Contexto) os fautores do seu regresso. Recebeu todos os prémios que contam, mas nem por isso comoveu o jornalismo cultural. Agora é tarde.

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Terça-feira, Setembro 04, 2007

LACERDA NO INDEPENDENT


Sob o título de Acclaimed poet, artist and critic, John McEwen, o influente crítico de arte inglês, publicou hoje no Independent um caloroso obituário de Alberto de Lacerda, que vemos ao alto retratado (em 1983) pelo pintor Jorge Martins.


«Habitués of SW3 and SW10, of such tranquil cafés as the Picasso on the King’s Road or Dino’s by South Kensington tube station, of London’s galleries, museums, theatres, concert halls and selected cinemas, cannot have failed to have seen Alberto de Lacerda: latterly a small, hobbling, tramp-like old man, with two horns of white hair and noble brow and nose, ceaselessly flitting from one venue to the next, wearing a battered black parka, whatever the heat, and clutching a crumpled white supermarket bag bursting with newspapers, books and sundries.

Lacerda was made more conspicuous by hurpling recklessly through speeding traffic at the expense of any zebra crossing or traffic-light; and fearlessly airing his right to object to what he considered such social blights as mobile phones, background music, galleries too dark to see for so-called conservation's sake, ignorant panjandrums, functionaries unable to speak English, inattentive waiters, unruly children and women in trousers.

This could lead to wrangles and misunderstandings. He was man-handled and permanently banned from a Cork Street gallery for demanding to know the price of a Picasso; struck off the list at his local health centre for asking the receptionist her nationality. Evelyn Waugh was equally at fault when describing him in younger days as “a little swarthy man who looked like a Jew but claimed to be Portuguese.

How impressions can deceive. Lacerda was a member of one of the three oldest families of the peninsula, kings and cardinals among his ancestors. He was above all one of the finest poets of his generation; but also a collage artist who had a solo show at Lisbon's Sociedade Nacional de Belas Artes; a compulsive collector and connoisseur of all the arts, an inspired teacher who retired as a professor emeritus of Boston University; a brilliant critic (the first to champion Paula Rego), a gifted broadcaster and linguist, in short a man described by Edith Sitwell as one of the most cultivated persons she had known.

Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda was born in 1928 in Mozambique, then a Portuguese colony. His father was a member of the colonial service and subsequently a business administrator. The Lacerdas' house was in open country and Alberto would fall asleep “to the sound of lions roaring.” He remembered his astonishment when his parents gave a ball and scores of white ladies and gentlemen appeared out of the darkness in impeccable and glittering court dress. It contrasted with the nightmare of a hurricane which tore the entire roof off the house. As an adult and in his poetry, Lacerda always believed the dream was the true reality; “we are such stuff as dreams are made on” one of his favourite Shakespearean lines.

As a notably precocious child he read voraciously but his formal education was patchy. A first visit to South Africa as a youth opened his eyes to the wider world, but instead of going to university he studied French and English in Lisbon. His reputation as a poet in Portugal was already established before publication of his acclaimed first collection, 77 Poemas (1951), when he was still only 23. He was in the forefront of a notably talented post-war generation of Portuguese poets, which included Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena and António Ramos Rosa.

On this wave of success he came to work for the BBC Portuguese service in London. He went straight from the boat to a Royal Shakespeare Company performance of The Winter's Tale. Thus began the love-affair with London which made it his base for life, although he never became a British subject. Through interviewing the poet Roy Campbell he met Arthur Waley, poet and famed oriental scholar, who translated his first collection, published in England as 77 Poems. His reputation was endorsed and lionisation by the Sitwells was an almost inevitable reward.

Brief imprisonment under Salazar's regime and a fall in Lisbon, which left Lacerda with a permanent limp, confirmed his preference for exile. The reputation of poets is often at odds with the pittances they earn, and while Lacerda's arrival in Brazil caused headlines in the national newspapers, in England he lost his BBC job and had to make ends meet through literary and other freelance work. His situation improved when he embarked in the early 1960s on an academic career in the United States, which lasted nearly 40 years, first at the University of Texas, Austin, and then at Boston. At both universities he was professor of comparative literature, specialising in those of France, Portugal and Brazil.

Lacerda's poetic reputation rests on 12 books published between 1951 and 2001, and has long been secured. It is testimony to his international standing that such poetic luminaries as the Nobel Prize-winning Mexican Octavio Paz, the American John Ashbery, the Frenchman René Char, the Brazilian Manuel Bandeira and English Edith Sitwell were among his many admirers.

His poetry mirrored his eccentric independence and defies categorisation. There is a personal and romantic strain but he is as much a master of the classical sonnet as of surrealist leaps of the imagination or minimalist oriental perfection. The poems celebrate his love of paintings, his passion for music – classical, folk, jazz or pop, “excellence the sole criterion” – for dance, theatre, cinema and the everyday. One of his most famous poems, The Portuguese Language, extolling “Esta maravilha / Assassinadíssima / Por quase todos que a falam” (translated by Lacerda as “This wonder / So massacred / By nearly all that speak it”) may be made compulsory reading in Portuguese schools.

Lacerda wrote many of the poems, one of them characteristically praising coffee, in the cafés he regarded as “essential to civilisation”; corroborating his belief in the things of the spirit and friendship: “vivo para isto: as coisas do espírito e a amizade.” He abhorred the egalitarianism of deconstructive criticism, the tyranny of political correctness, the pervasiveness of supermarket values. “We live in the age of vulgarity” he sighed; “vive la difference” his guiding principle. As for television, he never owned a set: “Am I interrupting your viewing?”, he would tease a friend on the telephone. “You're sure? They tell me it's very educational.”

Yet Lacerda was always aware of his own lonely fate, which became painfully pronounced in age.

Aos outros levarei a felicidade / Que a mim obscuramente foi negada / Hei-de ficar sem nada.

[To others I shall bring the happiness / That to me was mysteriously refused / I shall be left with nothing.]

And so it proved.

His one-bedroom flat in Battersea became an extraordinary archive of his life and times but by depressing turns unvisitable, irreparable and eventually, by common standards, uninhabitable. He cut himself off from friends, refused to have his telephone reconnected, left letters unanswered, said he no longer wrote poems. A formal Portuguese initiative, instigated by the poet Luís Amorim de Sousa, to place his archive in a museum and rehouse him was spurned.

A few months ago, radio and television programmes in Portugal were interrupted falsely to announce his death, yet only chance led to his discovery when an ultimately fatal heart attack came. The full horror of the flat was finally revealed, but tucked everywhere were poems, some written this summer, short and exquisite distillations of his profound solitude.

Now Portugal's former president Mário Soares has issued a formal statement in honour of Alberto de Lacerda. Friends have returned from as far away as California for his burial. Plans for the museum have resumed. Like Pessoa, Lacerda's posthumous reputation seems destined to dwarf even the fame that in his heyday led to murmurs of a Nobel Prize.»

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Terça-feira, Agosto 28, 2007

O POETA EXPATRIADO


Hoje no Público:



Com a morte inesperada de Alberto de Lacerda, ocorrida ao fim da tarde de domingo, em Londres, desaparece uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX, embora isso não fosse percetível para muita gente, porque o autor de Palácio (1961) foi toda a vida um expatriado.

Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda nasceu na ilha de Moçambique, a 20 de Setembro de 1928, tendo abandonado a colónia em 1946, pouco antes de completar dezoito anos. Em Lisboa depressa fez amizade com outros poetas, em particular Ruy Cinatti, de quem mais tarde organizou uma antologia, Sophia de Mello Breyner Andresen, a Diotima de tantos dos seus poemas, Mário Cesariny, Raul de Carvalho, António Ramos Rosa e Luís Amaro.

Foi curto, o intervalo português. Mesmo assim, em 1950, teve tempo de fundar, com David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana e Luiz de Macedo, as folhas de poesia Távola Redonda, que secretariou até ao nº 5. Um imbróglio burocrático levou-o a bater com a porta e a afastar-se do grupo. [Os detalhes do episódio são descritos por Couto Viana em Colegial de Letras e Lembranças, 1994.] Antes da partida definitiva para Londres, no Verão de 1951, os Cadernos de Poesia, então dirigidos por Jorge de Sena, José-Augusto França, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, ocuparam todo o fascículo oito com 34 poemas do jovem poeta.

Em Londres, Alberto de Lacerda começou por trabalhar na BBC, onde divulgou a cultura portuguesa, e em pouco tempo frequentava os salões literários da capital britânica. Talvez por isso, Herberto Helder tenha dito que «Alberto de Lacerda tem Londres invadida por sofás». (cf. Photomaton & Voz, 1979) Um dia, tinha Lacerda vinte e três anos, Dame Edith Sitwell convidou-o para almoçar com T. S. Eliot e o compositor William Walton. Não era já a magia do grupo do Bloomsbury, mas andava lá perto. Não por acaso, foi em Londres que foi publicado o seu primeiro livro, 77 Poems (1955), sob chancela da Allen & Unwin e com prefácio do sinólogo Arthur Waley. Esse livro de estreia teve uma calorosa recepção por parte de críticos tão reputados como Quentin Stevenson, J. M. Cohen e David Wright. E é capaz de ter sido no momento em que o Times Literary Supplement lhe dedicou uma recensão atenta, que a pátria distante começou a olhar para ele de viés.

Em 1959, por sugestão dos poetas Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, partiu para o Brasil, onde ficou cerca de um ano dando conferências e recitais em universidades e outras instituições. Finalmente, em 1961, um livro em Portugal: Palácio. Mas 1961 foi o ano de toda a ortodoxia crítica, e não era fácil reparar em versos como estes: «Há sempre imensa gente nos meus versos / Embora não se note à primeira leitura.» É verdade que Alberto de Lacerda teve críticos empenhados, como Jorge de Sena, Eduardo Lourenço, António Ramos Rosa e João Gaspar Simões, mas nunca aqueles que, ao sabor das várias circunstâncias, foram moldando o cânone. A distância, e uma desatenção crescente por parte do jornalismo cultural, fizeram o resto. Espírito inconformado, dotado de uma língua de prata como poucos, pagou sempre na mesma moeda. Em Julho de 1987, entrevistado por mim para o Jornal de Letras, perguntado sobre a importância de alguns poetas, respondeu: «Falar em poetas maiores é perigosíssimo. Há muito poucos poetas maiores num século, em qualquer língua. Atravessa-se em Portugal uma inflação do adjectivo ditirâmbico. Dentre os nomes que cita há pelo menos dois que nem por sombras podem ser considerados grandes e, muito menos, maiores: Carlos de Oliveira e Jorge de Sena. Não, meu caro Pitta, nos últimos quinze anos não apareceu nenhum grande nem maior poeta. Apareceram alguns poetas francamente bons. E já não é pouco!» Convenhamos que num país dado a mesuras era muita idiossincrasia junta.

Entre 1967 e 1993, Alberto de Lacerda leccionou em universidades americanas, primeiro em Austin (no Texas), depois em Nova Iorque, por último em Boston, onde esteve a partir de 1972. Durante esses vinte e seis anos, passava um semestre de cada lado do Atlântico. Um dia, já depois do 25 de Abril, o dirigente máximo do organismo (o Instituto de Alta Cultura) que em Portugal garantia a logística dos docentes portugueses no estrangeiro, descobriu que Alberto de Lacerda não tinha habilitação própria, ou seja, licenciatura. E não hesitou: mandou rescindir o contrato. As autoridades académicas americanas não queriam acreditar que o “seu” professor de Poética fosse posto de lado por tal motivo. E fizeram o óbvio: contrataram-no directamente.

Tal como acontecera em Inglaterra, o convívio com a intelligentzia americana foi fácil. Entre outros, conheceu e privou com os poetas Marianne Moore e Thom Gunn e com o pintor David Hockney, frequentou os sofisticados círculos literários da costa Leste e, em 1969, tinha uma antologia sua publicada pela Universidade do Texas, Sellected Poems. Foi o primeiro e único autor de língua portuguesa a dar um recital da sua poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington. E foi ainda, em 1973, o editor de Maio. International Poetry Magazine, de que saiu um único número, com colaboração de Mário Cesariny, Octavio Paz, Jorge Guillén, Murilo Mendes, Dominique Fourcade e Augusto de Campos.

O descaso português não encontra explicação na distância, esse estar longe da paróquia do Chiado, porque, além dos livros, Alberto de Lacerda tem colaboração dispersa por jornais e revistas tão diferentes como o Diário de Lisboa e a Colóquio-Letras, ou o Diário de Notícias e a Colóquio-Artes, onde escreveu sobre pintura, paixão de toda a vida (são lendárias as suas amizades com pintores: Maria Helena Vieira da Silva, Arpad Szenes, Menez, Júlio Pomar, Jorge Martins, Paula Rego, Victor Willing, etc.), para já não falar de textos publicados em Encounter ou The Listener.

Tendo em vista a diáspora, os sobressaltos da edição compreendem-se. Por exemplo, entre o terceiro e o quarto livro — isto é, entre Exílio, 1963, e Tauromagia, 1981 —, verificou-se um inexplicável hiato de dezoito anos. Em 1984, por um breve lapso, pareceu chegada a sua hora portuguesa. Nesse ano saiu o primeiro volume de Oferenda, que colige a poesia publicada entre 1951 e 1963. Do período fazem parte alguns dos poemas mais conhecidos do autor, como esta pequena estrofe de Dezembro de 1962: «O exílio é isto e nada mais / Na sua forma mais perfeita: / Hoje na terra de meus pais / Somente a luz não é suspeita.» A seguir publicaram-se Elegias de Londres (1987), Meio-Dia (1988), que ganhou o Prémio de Poesia do PEN Clube, Sonetos (1991) e, em 1994, o ansiado segundo volume de Oferenda, reunindo poemas inéditos escritos entre 1963 e 1970, como os que dão corpo a Mecânica Celeste, a mellhor e mais densa das sequências do conjunto, onde podemos ler poemas como este: «O quarto ao lado tem um caralho com um dragão amarelo / Que ameaça a virgindade do meu filho / O cu do meu filho é branco / O caralho amarelo é negro / O perigo amarelo é o meu vizinho negro / Que o meu filho branco combate no Vietnam / Para salvação da minha cona branca / / O caralho do meu filho pertence à minha cona / Quem disser o contrário é comunista / / Como diz o Império Britânico cagando / Muito sério / Todas as manhãs no trono da Sala do Trono da Casa Branca: / / América — love it or leave it.»

Razão tinha Eduardo Lourenço para se lhe referir nestes termos: «Sob o silencioso desdém ou a fulgurante ironia poucos adivinhariam que Alberto de Lacerda era já nessa época de aparentes certezas um exilado de si mesmo, escolhido com infalível mirada pela musa exigente da pura melancolia e da liberdade.» (cf. Alberto de Lacerda, o mundo de um poeta, Fundação Calouste Gulbenkian, 1987) Jorge de Sena, que o conheceu bem, falou dele como de um ser de eleição, não obstante o «convívio espiritual complicado e exigente, que uma noção de missão específica da poesia, igualmente distante do angelismo e do sensualismo cínico, defendeu de certa disponibilidade adolescente.» (cf. Líricas Portuguesas, II Vol., 1983) Não se diz o mesmo de muitos dos seus pares.

Simplificando muito, pode-se dizer que a obra de Alberto de Lacerda vive em permanente confronto com a tripla pulsão da melancolia, da liberdade e da iconoclastia: «O tigre que caminha nos meus gestos / Tem a graça insolente dos navios.» Os últimos livros, Átrio (1997) e Horizonte (2001), não têm a força dos melhores momentos, como quando, a pretexto de Serguei Bondarchuck, escrevia: «Imagens da infância me perseguem / Desde essa tarde em que surgiste à porta / Com lágrimas migratórias invisíveis / / Vinhas de habitar / As planícies raras da minha infância / E o vento que trouxeste sacudido / Pela estepe / Deu-me o tremor das deslocações oceânicas [...] Lá fora / Na noite americana / Tudo era branco russo abençoado.» Ou, num dos raros momentos em que explicitou, sem idealização de esteta, a condição homossexual que era a sua: «Os pés nus correspondem em grinalda / Aos cabelos louros sobre os ombros másculos.» Ou ainda, à laia de ars poetica, nítida como sempre fez questão: «Quero que as pátrias todas vão passear / Até ao Jardim Decente / E voltem depois não como pátrias / Mas como gente.»

Não, não é só Pessoa que tem uma arca mítica. A de Alberto de Lacerda contém para cima de mil inéditos — verdade que muitos poemas revestem a forma breve do haiku —, até eu guardo cópia de um livro nunca publicado, Pássaro de Fogo, enviado de Boston em 1986. A ver vamos se a Imprensa Nacional, que tem sido o mais regular editor do poeta (cinco volumes), consegue a proeza de o coligir na íntegra.

Além de poeta, e cronista sibilino, Alberto de Lacerda foi autor de colagens, tendo exposto várias vezes, a última das quais, quanto sei, na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, em 1987. Coleccionador de arte, parte do espólio foi mostrado ao público no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Além de pintura, essa mostra reunia correspondência com inúmeros escritores e artistas, raridades bibliográficas, retratos e outro tipo de iconografia. De facto, em 1987, parecia que o poeta acertara contas com o país. Infelizmente, não acertou.

Alberto de Lacerda, que morreu anteontem, a um mês de completar 79 anos, viveu sempre numa terra de ninguém. A Moçambique, onde nasceu, e que deixou na adolescência, voltou uma única vez (em 1963). Portugal não passou de um intervalo. Não admira que tenha sido em Londres, cidade de que era cidadão honorário, onde viveu durante 56 anos consecutivos, que a morte o tenha surpreendido. John McEwen, o crítico de arte com quem tinha combinado almoçar no domingo, estranhou o atraso e acabou por arrombar a porta. Alberto de Lacerda ainda estava vivo, porém em coma. Morreria horas depois. Conhecendo-o como conheci, sei que teria apreciado o detalhe final. [O retrato ao alto, de 1971, é de Arpad Szenes]

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Segunda-feira, Agosto 27, 2007

ALBERTO DE LACERDA 1928-2007


Morreu Alberto de Lacerda, uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX português. Faria 79 anos no próximo dia 20 de Setembro. Natural da ilha de Moçambique, radicado em Londres desde 1951, o autor que Eduardo Lourenço caracterizou como «anjo um pouco dandy, já de passagem para aquela espécie de pátria que só o poema lhe daria», foi encontrado em coma, em sua casa, ao princípio da tarde de ontem, por Ian McEwan, com quem tinha combinado almoçar. Foi o autor de On Chesil Beach que arrombou a porta e providenciou a ida do poeta para o hospital. Ao fim da tarde estava morto. Toda a vida longe dos círculos que em Portugal contam, são poucos os que entre nós têm noção da sua real importância. Sobre o amigo agora desaparecido, escreverei mais desenvolvidamente noutra ocasião. A foto ao alto, de 1951, é de Fernando Lemos.

Correcção: Não foi Ian McEwan, mas sim John McEwen, o crítico de arte, quem descobriu o poeta inanimado. Quem informou a LUSA, e me informou a mim, confiou no rigor da informação que lhe chegara de Londres.

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NA MORTE DE EPC

Sábado, Agosto 25, 2007

EDUARDO PRADO COELHO 1944-2007


Eduardo Prado Coelho morreu hoje de manhã, em casa, vítima de ataque cardíaco. Tinha 63 anos. Foi o intelectual português mais influente dos últimos 25 anos. E com toda a probabilidade um dos mais invejados, por causa da influência, das sinecuras e das mulheres. Gostava de viver e de viajar. Era filho de um homem que marcou a Academia portuguesa, Jacinto do Prado Coelho, e pai de uma jornalista que honra a sua profissão, Alexandra Prado Coelho. Escritor no sentido amplo do termo, docente universitário desde 1970 (actualmente era professor associado da Universidade Nova de Lisboa), colunista do Público desde a fundação do jornal, director-geral da Acção Cultural do ministério da Cultura (1975-76), professor de estudos ibérios na Sorbonne (1988-89), conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Paris (1989-98; a partir de 1997 acumulou com a presidência do Instituto Camões na capital francesa), várias vezes comissário de importantes eventos culturais, em Portugal e no estrangeiro. Da sua vasta obra ensaística gostaria de destacar O Reino Flutuante (1972), Os Universos da Crítica (1983, versão da sua tese de doutoramento), A Mecânica dos Fluídos (1984), A Noite do Mundo (1988), os dois volumes do diário Tudo o que não escrevi (1992 e 1994), O Cálculo das Sombras (1997), A Razão do Azul (2004) e Nacional e Transmissível (2006). Recebeu o Grande Prémio de Literatura Autobiográfica da Associação Portuguesa de Escritores (1996), o Grande Prémio de Crónica João Carreira Bom (2004) e, como tributo à sua luta contra a homofobia, o Prémio Arco-Íris da Associação ILGA Portugal (2004). Nada voltará a ser como dantes. A foto ao alto é de Silvia Seova.

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Quarta-feira, Junho 13, 2007

AL BERTO 1948-1997


Passaram dez anos. Quem diria?

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Sábado, Janeiro 20, 2007

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO 1938-2007


Um poeta nunca morre, apenas deixa de ser visto. Lembremos O Urogalo de Fiama:


O urogalo não cantou toda a manhã.
Despida de sentimentos, procuro
os nomes e os mitos. E a grande sombra
da árvore de palma veio pousar
sobre a relva nua e o decepado coto.
Não mais interiorizo a Natureza próxima.
Que o morto aloendro leve consigo
anos de infância e juventude, carícias
do vento, para sempre e em todo o lugar.

O urogalo viria em vez do melro,
cujo corpo sacode o restolho de velhas folhas,
cujo assobio se abafa na hera invasora.
Seria o sinal do último cantor da casa,
o desconhecido urogalo, que apagaria
esta tristeza de nada desejar, aqui e agora,
entre estes cepos, esta terra revolta
e os mortos tão absolutos e esquecidos,
depois de tão eternamente vivos.


in Cenas Vivas, Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

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Domingo, Novembro 26, 2006

CESARINY 1923-2006


Neste momento todas as palavras seriam excessivas. Até sempre, Mário!

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