Quarta-feira, Novembro 30, 2011

INCLASSIFICÁVEL


Com a abstenção do PS, o OE 2012 acaba de ser aprovado na especialidade, em votação final global. Seguro manteve até ao fim a charlatanice das “negociações” com o PSD, ora em nome da papinha dos bebés, ora em nome dos mais desfavorecidos (a “manobra” dos subsídios é absolutamente repelente). Inclassificável.

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CARJACKING


Norberto Rosa, o vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos que gere o BPN, foi vítima de carjacking, ontem à noite, na Pontinha. Dois homens armados obrigaram-no a levantar dinheiro de caixas multibanco de Telheiras e Santo António dos Cavaleiros. Depois foi abandonado em Camarate, onde a polícia o recolheu. Quando Manuela Ferreira Leite era ministra das Finanças, Norberto Rosa foi secretário de Estado do Orçamento.

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JULIAN BARNES


Hoje na Sábado escrevo sobre O Sentido do Fim, o mais recente romance de Julian Barnes (n. 1946), premiado com Man Booker Prize 2011. Ao fim de seis anos sem publicar ficção, Barnes regressa com esta delicada radiografia dos sixties: «O meu eu mais jovem voltara para chocar o meu eu mais velho com aquilo que tinha sido, ou era, ou era às vezes capaz de ser.» Tony Webster, o narrador, escava nos incidentes «que se transformaram em anedotas» e nas memórias «que o tempo desfigurou em certezas». Notável.

Escrevo ainda sobre a biografia de Luiz Pacheco (1925-2008) feita por João Pedro George, Puta que os pariu! Escritor, crítico, editor e polemista, Pacheco era uma pessoa «cheia de contrastes [que] alimentou várias hostilidades literárias [e] queria ser reconhecido como escritor.» Como sempre na Tinta da China, edição gráfica muito cuidada. Esqueceram-se foi do índice onomástico.

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BARBAS DE MOLHO


O Público faz hoje uma síntese do tema inominável do colapso do euro. Nada do que vem no artigo (a imagem mostra apenas um pequeno excerto) é novidade para quem lê a imprensa europeia e americana. Mas convém ir prevenindo os outros, que por acaso estão em maioria.

Então é assim: o ICAP anda a testar os seus sistemas face à possibilidade de colapso do euro e consequente reintrodução das moedas nacionais; se isso acontecer, o PIB da zona euro pode cair 20% ou mais; a generalidade dos investidores está convencida que 2012 será o ano em que pelo menos cinco países (a Espanha, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal) saem da zona euro; uma vez que os contratos financeiros em vigor não prevêem essa possibilidade, os grandes escritórios de advogados correm contra o tempo na redefinição das regras contratuais; países como o Reino Unido e a Dinamarca, que não pertencem à zona euro, estão a monitorizar planos de contingência; etc. Um longo et cetera.

Em que parte desta história é que entra o hush-hush à volta da venda (ainda não formalizada) do BPN aos angolanos do BIC? Roque Santeiro já eles lá têm!

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Terça-feira, Novembro 29, 2011

E AGORA?


Centenas de estudantes islâmicos invadiram (e vandalizaram) hoje de manhã a embaixada britânica em Teerão, queimando a bandeira britânica, retratos da família real, documentos e mobiliário. A bandeira iraniana foi hasteada no edifício de Gholhak gardens. O ataque foi transmitido em directo pela televisão. Seis funcionários foram mantidos como reféns e libertados ao fim de algumas horas. Ao fim da tarde, depois de evacuado todo o staff, voltou a ser invadida. William Hague considera o sucedido outraged. Estados Unidos, França e Rússia já condenaram o acto. O portal do governo português aos costumes diz nada. Siga os acontecimentos aqui.

[Imagem: foto de Abedin Taherkenareh, EFE.]

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O MINISTRO JÁ SE DEMITIU?


O Público revela hoje que a Rede Nacional de Segurança Interna, tutelada por Miguel Macedo, foi atacada pelos hackers do grupo Lulzsec Portugal, os quais acederam ilegalmente aos computadores do Ministério da Administração Interna. Os dados pessoais de 107 polícias começaram a ser divulgados no domingo à noite: nome, posto, número de identificação, cargo, local de trabalho, número de telefone, contacto de e-mail. O jornal identifica as três esquadras a que pertencem esses 107 polícias. O grupo Lulzsec Portugal explica:

«Em resposta às detenções e violência sobre civis desarmados iremos divulgar os dados de todos os agentes da PSP, esquadra a esquadra, indivíduo a indivíduo, a começar pela esquadra de Chelas

Entretanto, a opinião pública continua à espera que Macedo explique a utilização de polícias à civil na repressão dos manifestantes do passado dia 24. Macedo ainda não explicou se a utilização de polícias à civil na provocação e ulterior repressão de manifestantes faz parte das exigências da troika.

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Segunda-feira, Novembro 28, 2011

KEN RUSSELL 1927-2011


Morreu ontem, aos 84 anos. Sou da geração que viu Women in Love (1969) no ano em que fez 20 anos, estupefacto com o nu integral de Oliver Reed e Alan Bates, engalfinhados um no outro.

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OS DIAS DO FIM


Monti apresentou a conta: a Itália precisa de 600 mil milhões de euros. Enquanto aguarda instruções de Rodrigo Rato, o señor Bankia, Rajoy hesita entre pedir 400 ou 500 mil milhões para salvar a Espanha. O match point italiano desconcertou Madrid. Atenas já era. Em Londres, Osborne não esconde que o Reino Unido prepara o day after. Nos bancos de Xangai, Hong Kong e Macau, são cada vez mais extensas as filas para trocar euros por renminbis (a existência de um plafond diário obriga os interessados a várias deslocações). Hoje, em Washington, Obama pede explicações a Rompuy e Barroso. E nós por cá? Nós por cá queremos saber tudo tudo tudo das eleições egípcias.

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Domingo, Novembro 27, 2011

HARDCORE EURO


Monti prepara-se para pedir 600 mil milhões ao FMI.

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NA NYRB, OF COURSE

Sábado, Novembro 26, 2011

LISBOA À MESA


Não é novidade: gosto de guias. Com a chancela da Planeta, Miguel Pires acaba de publicar um  —  Lisboa à Mesa. O nome do autor é garantia bastante. Em 196 páginas e formato de bolso, o autor sistematiza 280 entradas: restaurantes, lojas gourmet, mercearias, talhos, charcutarias, padarias, mercados étnicos, sítios onde comprar produtos biológicos,  moradas para noctívagos, esplanadas, etc.  Além do índice geral, a abrir (v. pp 7-15), está tudo arrumado por índices temáticos (v. pp 163-190) e, a fechar, ainda há um índice alfabético (v. pp 191-196). O geral divide a cidade em zonas. É assim que deve ser. Sem bons índices, um guia perde a razão de ser.

Decerto não por acaso, Miguel Pires faz a síntese de dois clássicos: o Zagat (americano) e o Gault & Millau (francês). A roda está inventada há muito tempo, há que seguir modelos fiáveis. Cada uma das entradas do guia assinala um Factor X que justifica a escolha. Confirmei muita coisa, descobri outra.

Os restaurantes favoritos são 50, número que andará perto de 3% dos que existem no concelho de Lisboa. Muito bem. Uma selecção não é um inventário. Idiossincrasia pessoal: tenho pena que nesses três por cento (ou coisa parecida) não haja lugar para a Versailles, que ainda ontem fez 89 anos, mantendo um serviço (e uma cozinha) de qualidade à prova de bala e a tradição dos cafés-restaurantes que são traço distintivo em Paris, Madrid, Berlim, Viena, etc., mas, repito, uma escolha é uma escolha. Tudo visto, estão de parabéns a Planeta e o autor.

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ELEMENTAR


São públicas e notórias as divergências entre Cavaco e Passos Coelho no tocante ao papel do Banco Central Europeu face à crise da moeda única. Cavaco, como outros políticos europeus, economistas dos dois lados do Atlântico e a nata dos comentadores internacionais, considera que o BCE deve emitir moeda, como fazem a Reserva Federal norte-americana e o Banco de Inglaterra. Disse-o em várias oportunidades e tom. A mais recente foi ontem, na sessão de abertura do Fórum COTEC, perante a plateia selecta que o escutou no Centro Cultural de Belém. Veja o vídeo da Presidência.

Cavaco lembrou que a crise da dívida não é um mal português, pois afecta países tão diferentes como o nosso, a Irlanda, Grécia, Itália, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Áustria... Não é inocente que o Presidente da República o diga com tanta clareza, em sessão pública, na presença de correspondentes da imprensa estrangeira.

Para facilitar a vida a jornalistas de ouvido duro, pontuou o discurso com sínteses claras. Como esta, por exemplo: «Só quem revela algum desconhecimento é que receia que na situação actual possam resultar dessas intervenções perigos de inflação

Como diz o meu amigo Miguel Abrantes, o que se passou foi que Cavaco, que foi professor de Vítor Gaspar, cassou o certificado de habilitações do ministo das Finanças (para não falar do certificado de Passos Coelho, que não tem sequer crédito para ser retirado).

Assim vai Portugal.

[Imagem: foto do sítio da Presidência.]

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Sexta-feira, Novembro 25, 2011

WEIMAR


Não podemos tapar o sol com a peneira: 1. a frivolidade da Greve Geral de Novembro de 2010 esvaziou o impacto da Greve Geral de ontem. 2. as greves da Fenprof contra Maria de Lourdes Rodrigues  —  continuaram a ser contra ela mesmo no tempo de Mrs Dalloway  —  foram o preâmbulo da versão tosca da Weimar em que estamos atolados.

Lisboa semi-deserta, trânsito automóvel escasso, piquetes de greve neutralizados, transportes públicos reduzidos à ficção do serviço mínimo (e, mesmo assim, vazios), hospitais sem consultas, tribunais fechados, táxis parados, aeroporto encerrado, três repartições de Finanças vandalizadas com tinta e cocktails molotov, restaurantes à míngua, raiva contida da maioria silenciosa, Presidente da República reunido com o Conselho Superior de Defesa Nacional (e conclusões da reunião?), manif da praxe, polícia de choque à solta, “indignados” a fazer chinfrim em São Bento, polícia à paisana a perseguir e prender manifestantes junto ao Parlamento e na Avenida D. Carlos, prisões, feridos, Carvalho da Silva e João Proença debitando amenidades na Quadratura do Círculo.

Ontem não foi um dia para homens.

[Foto: Jorge Amaral, DN, Global Imagens.]

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CITAÇÃO, 392


Filipe Nunes Vicente, O que faz falta.

«Poupem-me o coito interrompido  do ataque à democracia e o psicodrama da guerra civil. Uma vez não são vezes e uma sociedade não pode  estar sempre a experimentar as coisas de  modo vicariante nos estúdios de TV e nas colunas de jornais. Não esquecer que nos gabamos de uma revolução de Abril que condecorou PIDES e manteve no cargo juizes e procuradores coniventes com o anterior regime. Por vezes têm de acontecer stasis se não queremos morrer histéricos. Por último, outra boa razão. Seria terapêutico ver o que os Zizek fans diriam e fariam uma vez lá dentro. A julgar pelo que escrevem, uma barrigada de riso estaria garantida. Se em vez dessa burguesia blogo-universitária lá entrassem lavradores, operários, cabeleireiras e taxistas, então sim, teríamos um problema.»

[Foto: Jorge Amaral, Jornal de Notícias, Global Imagens.]

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Quinta-feira, Novembro 24, 2011

FITCH & DAGONG


A Fitch baixou hoje o rating de Portugal: de BBB- para BB+ Ou seja: de pré-lixo para lixo absoluto. A dívida de longo prazo também fica sujeita a piores condições. No comunicado lê-se que «[...] a deterioração das perspectivas de crescimento económico na Europa influenciaram a decisão, levando a agência a agravar a sua projecção para a economia portuguesa em 2012, esperando agora uma recessão na ordem dos 3%.»

Do outro lado do mundo, a chinesa Dagong fez exactamente o mesmo.

A Europa já está a vender Portugal com o slogan, Passe um break na merda.

[Imagem: Merda de Artista, Piero Manzoni, 1961.]

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A CANALHA


Isto era tudo culpa do Sócrates, lembram-se? Bastava pôr a rapaziada direitola dos blogues nos ministérios, Secretas, fundações, empresas públicas e gabinetes, para sermos todos muito felizes. Sócrates partiu em Junho. Em cinco meses, o PSD atravancou o Estado de  apparatchiks inomináveis, agravou a carga fiscal de forma iníqua, aumentou o preço dos transportes, colocou a electricidade ao nível do caviar Beluga, fez disparar o desemprego, deu o dito por não dito na Educação, trocou os pés, lambeu bem lambidos os cavalheiros da troika e, para manter entretida a clique ultramontana, criou a comissão Duque, que fez Luanda corar de inveja. A cereja em cima do bolo será a aprovação do Orçamento de Estado para 2012, o qual, entre outras consequências, reduzirá em 15% o rendimento anual bruto dos pensionistas, funcionários públicos (classe que inclui militares e polícias) e trabalhadores do sector empresarial do Estado. Como dizia uma tia da actual maioria, há que pôr a “canalha” com dono.

Cavaco Silva, Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, convocou para hoje (17:30h) o Conselho Superior de Defesa Nacional. Os militares têm dificuldade em perceber o porquê dos cortes previstos no OE 2012. Não deve ser fácil explicar aos generais que não há dinheiro para a Defesa, sabendo eles, com larga soma de pormenores, que dinheiro é coisa que não falta nos gabinetes ministeriais, onde centenas de apparatchiks (a larga maioria sem vínculo ao Estado) são pagos por tabelas obscenas.

Tudo isto no dia da Greve Geral  —  em grande parte esvaziada pela frivolidade da “Geral” de Novembro de 2010, sob o alto patrocínio do PSD  —, numa altura em que há polícias a passar fome, ou quase. [v. Garcia Leandro, RTP-2, ontem, entrevista de Sandra Felgueiras.]

Portanto, isto era tudo culpa do Sócrates.

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UMA BOA NOTÍCIA


Isabel Arriaga e Cunha, Público, hoje:

«[...] Berlim, que queria emitir 6 mil milhões de euros de dívida a dez anos, só conseguiu colocar 3,6 mil milhões, o que foi encarado por vários analistas de mercado como “um desastre” e o sinal de que a crise da dívida já contaminou a totalidade da zona euro.»

Ler também: El País / Guardian / New York Times / Le Monde

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Quarta-feira, Novembro 23, 2011

TRUMAN CAPOTE


Hoje na Sábado escrevo sobre A Harpa de Ervas, de Truman Capote (1924-1984), romance da fase “inocente” que usa de incidentes autobiográficos para matizar o quadro de disfunção familiar da infância e adolescência do autor. Ainda estamos longe de A Sangue-Frio (1966), e mais ainda do corrosivo Súplicas Atendidas (1986, póstumo), razão acrescida do lugar central que ocupa na obra de Capote. Escrito e publicado em 1951, Harpa de Ervas pode ser descrito como um romance mágico sobre o atavismo dos thirties no Sul americano.

Escrevo também sobre o novo romance de Ana Cristina Silva, Cartas Vermelhas, inspirado na vida de Carolina Loff, militante destacada do Partido Comunista Português, “noiva” de Cunhal, membro influente do Komintern (em Moscovo), agente na guerra civil espanhola e... amante de Júlio Almeida, um inspector da Pide. A posteridade fixou o seu nome na lista dos traidores, embora Ary dos Santos tenha feito justiça à sua rebeldia: «Tu nunca nos traíste e se caíste / o mal nunca foi teu...» Dominando todos os recursos narrativos, Ana Cristina Silva compõe um patchwork de emoções contraditórias.

[Sendo amanhã dia de Greve Geral, a revista Sábado foi hoje para as bancas.]

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ABUSO É ISTO


Há nove meses, ainda Sócrates era primeiro-ministro, uma repórter do Diário de Notícias, Maria de Lurdes Vale, escrevia:

«Terá de haver uma mudança de vida profunda, e já ninguém terá paciência para ser cúmplice de um regime que premeia os amigos e os conhecidos em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa. Ao contrário do que muitos pensam, esta revolta dos jovens de hoje talvez seja a primeira depois do 25 de Abril que tem pés e cabeça.» — Contra os que sempre passaram à frente, DN, 20 de Fevereiro de 2011.

Há três meses, a mesma repórter foi nomeada assessora de imprensa do ministro da Economia, com vencimento equiparado a director-geral: 3900 euros por mês, acrescidos de ajudas de custo e subsídios de alimentação, Natal e férias. (Com remuneração superior, só a chefe de gabinete do ministro Santos Pereira: 5900 euros por mês mais ajudas de custo e subsídios de alimentação, Natal e férias.) Em sua defesa, diz a senhora que tem um currículo de 23 anos. OK. A minha mulher-a-dias tem um currículo de 40 anos e ainda não foi nomeada assessora de ninguém, nem sequer minha.

Sabemos hoje que a Horta Seca foi um ritual de passagem para Maria de Lurdes Vale, como prova a sua nomeação, aqui referida, para a administração do Turismo de Portugal. (Se e quando o ministro Santos Pereira cair, continuará bem calçada, fermosa e segura...) Por mim, até podia ter sido nomeada embaixadora no Butão. O ponto é outro: já ninguém tem paciência para aturar um governo que premeia os amigos e os conhecidos com tanta desfaçatez. A Greve Geral de amanhã é também por causa desta tranquibérnia.

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ABUSO, DIZ ELE


Rui Ramos, historiador, em declarações ao Público a (des)propósito da Greve Geral de amanhã:

«[...] agora resta saber se este país descontente não irá também ver esta greve como uma espécie de abuso, atendendo à situação em que nós estamos e ao dinheiro que vai custar

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Terça-feira, Novembro 22, 2011

MARAJÁS


Não me impressiono com adjuntos e assessores de gabinete. Trabalhei com vários nos ominosos tempos de Guterres (1995-2002) e sei o que casa gasta. Naquele tempo, a maioria dos adjuntos e assessores era recrutada na alta administração pública, auferindo “no gabinete” o vencimento do lugar de origem. Em regra, tratava-se de gente tecnicamente bem preparada. Muitos tinham sido directores-gerais, ou equiparados, e a sua experiência era aproveitada nos andares de cima. Ponto. O delírio chegou com a presidência portuguesa do Conselho Europeu, entre Janeiro e Junho de 2000. Guterres tinha perdido o pé.

O governo de Passos Coelho conseguiu fazer pior: foi buscar a maioria desse pessoal sabe Deus onde.

Isto, depois de sustentar a sua ascenção à liderança do PSD, o chumbo do PEC IV e uma campanha eleitoral peronista... no discurso da pré-falência do Estado. Ao arrepio desses princípios, o governo de Passos Coelho nomeou, nos primeiros 40 dias, perto de 600 colaboradores, entre adjuntos, assessores e “especialistas”. Os seus nomes estão disponíveis no Diário da República e no Portal do Governo. E circulam em listas, divulgadas sob diversas formas, a partir dos sítios mais inesperados. Por exemplo, a comunidade portuguesa do Canadá tem sido muito activa: nomes, links de família, currículos, etc. Começa a ser vexatório. E não me refiro à filiação partidária. Esse é o lado para que durmo melhor.

A imprensa, outrora tão interessada em questionar a marca das cuecas dos boys da PT (uma empresa privada), está caladinha a ver se pinga. Se uma repórter do DN de quem nunca ninguém fixou o nome, consegue chegar a assessora de imprensa do ministro da Economia, auferindo por mês 3900 euros (mais ajudas de custo e subsídios de alimentação, Natal e férias), o melhor é não fazer ruído...  Vem a talhe de foice recordar que a referida repórter, Maria de Lurdes Vale de sua graça, acaba de ser nomeada para a administração do Turismo de Portugal, lugar menos volátil que o gabinete do ministro Santos Pereira. Nunca se sabe o que pode acontecer nas próximas semanas...

Depois admirem-se que haja cem polícias a fazer manifs espontâneas à porta do ministério da Administração Interna a 48 horas de uma greve geral...

[Imagem: ministro Santos Pereira e assessora, foto do Correio da Manhã.]

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SNS. NACIONAL?


E para lavar o rabo, já alguém pediu autorização?
A imagem é do i.

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Segunda-feira, Novembro 21, 2011

CAVACO. A MÃO QUE EMBALA O BERÇO


Vasco Pulido Valente faz hoje 70 anos. Pedro Lomba entrevistou-o para o Público. Excertos, sublinhados meus:

«[...] Mesmo assim, em 1974 ainda existiam os morgadios e outras coisas que só acabaram com o 25 de Abril. [...] Politicamente e economicamente, pois o liberalismo nunca existiu. Nunca existiu como nunca existiu um poder legítimo em Portugal até 1982. Até à dissolução do Conselho da Revolução não houve poder legítimo em Portugal. As pessoas que mandaram neste país foi porque mandaram neste país. [...] Foi o Cavaco que empurrou o carrinho pela descida abaixo. Lembra-se daqueles anúncios que ele fazia: “Aumentei as reformas, aumentei as pensões”. O Cavaco começou [o endividamento] A Revolução significou fazer uma classe média. [...] Era preciso fazer uma classe média para sustentar o regime e empregou-se a classe média no Estado. Toda. Nas profissões, com as qualificações mais estapafúrdias. Empregou-se aquela gente a eito. Por isso é que nós temos 700 mil funcionários. [...] Portanto, o Estado Social favorece é a classe média, não os pobrezinhos. Isto é um lugar-comum na Europa. [...] Está por provar que as políticas da austeridade ressuscitem as economias. Isto não tem nada que ver com dar esperança às pessoas, ou falar em regeneração e justiça. Vinte e cinco anos de indisciplina fiscal absoluta produziram isto, agora temos de pagar as dívidas. Estes são os factos. Pessoas que não perguntaram quando estavam a ser beneficiadas têm de perguntar agora que estão a ser, na maneira delas, prejudicadas. [...] Mas isto não é um problema português. [...] Ainda hoje em França as pessoas se reformam, parece, aos 62 anos. Isto não é sustentável. [...] As pessoas subestimam a sombra da 2.ª Guerra Mundial sobre esta união europeia. A União é uma maneira de garantir que a Alemanha não causa problemas à Europa, é uma maneira de ligar a Alemanha ao resto da Europa e é essa a preocupação, não é a paz. Tal como acabar com a moeda de um país é tirar-lhe mais de metade da sua independência. Os alemães não queriam o euro. O euro não foi feito a bem da Europa. O euro foi feito para acabar com o marco. [...] O Cavaco subiu as expectativas dos portugueses absurdamente. [ninguém como ele] nos endividou tanto. [...] O Cavaco não fez nada pela produção portuguesa. Acabou com a frota pesqueira, com a agricultura, com várias coisas. Nunca percebeu que a justiça era importante. Quando lhe diziam, nenhuma economia funciona sem a santidade dos contratos, não percebia. Ainda hoje percebe pouco do que se passa à volta dele. E tem a força dos obcecados. [...] A miséria que havia em 1974 não se compara com a miséria que há hoje. Os meus pais iam passar férias a Magoito, uma aldeia a 15 quilómetros de Sintra, e a miséria daquela gente era de pôr os cabelos em pé. [...] Não vejo por que é que um colunista deva ser capado politicamente. O que acho é que não se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Sempre que estive dentro de alguma coisa, parei — tanto durante o Sá Carneiro, como durante o MASP. Não escrevi. [...] A única pessoa que criou um ódio permanente foi o Balsemão [...] mas ele é monstruosamente vaidoso, mais do que o Cavaco.»

[Imagem: foto de Daniel Rocha, Público.]

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OLÉ


Com uma abstenção de 28%, a direita conservadora ganhou as eleições em Espanha. O facto não impressionou os mercados, que hoje mesmo penalizaram o prémio de risco da dívida espanhola. Enquanto Berlim não nomeia os ministros-chave (economia e finanças), o povo de Mariano Rajoy celebra a sua ascensão à Moncloa. Os números são eloquentes: o PP obteve cerca de 11 milhões de votos e 186 lugares no Congresso. Os socialistas do PSOE ficaram com perto de 7 milhões de votos e 110 lugares. Os liberais catalães da CiU, que governaram a Catalunha entre 1980 e 2003, ficaram com 16 lugares no Congresso, eleitos por 1,1 milhão de votos. Mas a IU, a izquierda unida que concorreu coligada com outras doze formações, elegendo apenas 11 deputados, obteve mais votos (1,7 milhões). Os independentistas bascos da AMAIUR conseguiram 7 lugares. A UPyD (centro-direita) e o PNV (nacionalistas bascos) obtiveram 5 lugares cada um. A ERC, a esquerda republicana da Catalunha, ficou com 3 lugares. Os 7 lugares que sobram estão distribuídos por outros cinco partidos. Um bico de obra para Rajoy, que herda um país com mais de cinco milhões de desempregados numa altura em que Madrid rompeu a barreira mítica dos juros a 7%. Dez milhões de abstencionistas também não augura nada de bom! A ver vamos.

[Imagem: foto de Cristóbal Manuel, El País.]

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Domingo, Novembro 20, 2011

FESTSCHRIFT


aqui falei do livro de homenagem a Eugénio Lisboa, organizado por Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio Almeida no âmbito das celebrações promovidas pela Universidade de Aveiro nos 80 anos do autor. Esse Festschrift chegou agora às livrarias, com CD anexo. Colige 73 testemunhos (um deles o meu), dos quais destaco os de Albano Martins, Ana Marques Gastão, António Manuel Ferreira, Ascêncio de Freitas, Fernando J. B. Martinho, Francisco Seixas da Costa, Guilherme d’Oliveira Martins, Helder Macedo, João Afonso dos Santos, João Bigotte-Chorão, José-Augusto França, José Carlos Seabra Pereira, Liberto Cruz, Luís Amaro, Luís Amorim de Sousa, Maria de Lourdes Cortez, Marie-Hélène Piwnik, Miguel Real, Nuno Júdice, Ofélia Paiva Monteiro, Paulo Alexandre Pereira, Teresa Martins Marques, Teresa Rita Lopes e Urbano Tavares Rodrigues. Muito para ler em 440 páginas.

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Sábado, Novembro 19, 2011

PORTAS QUE O BPN ABRIA


Parte considerável do processo Face Oculta assenta em corrupção política e tráfico de influências. É desses crimes que os arguidos mais mediáticos são acusados. Entre todos, dois: José Penedos, antigo presidente da REN, deputado e secretário de Estado da Defesa, da Energia e da Indústria; e o seu filho Paulo, advogado, que já disse em tribunal ter usado abusivamente o nome do pai.

Numa altura em que o Ministério Público anda tão preocupado com corrupção política e tráfico de influências (ainda bem), causa enorme perplexidade o aparente desinteresse dos senhores procuradores face às declarações de Abdool Vakil, antigo presidente do Banco Efisa, sobre Miguel Relvas, actual ministro da Propaganda. Disse Vakil: «O dr. Miguel Relvas nunca trabalhou com o Efisa, mas prestou serviços muito úteis, pois abriu-nos portas no Brasil. [...] Ele tinha muitos conhecimentos no Brasil e que eram importantes para quem quer fazer negócio e abriu-nos portas.» Um desses conhecimentos era José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil do presidente Lula da Silva, cargo de que foi afastado em consequência do escândalo do Mensalão. Tudo isto se passou antes da nacionalização do BPN (a cujo grupo o Efisa pertencia), quando Miguel Relvas, na qualidade de deputado do PSD, chefiava a comissão parlamentar de Obras Públicas.

Hoje, o Público (a imagem ao alto é do jornal) conta-lhe parte desta história mirabolante.

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PROTETORADOS


Imagens como esta começam a vulgarizar-se. Chegou a vez de Cameron ir a Berlim apanhar no rabo. Papademos e Monti estão dispensados do exercício porque a Grécia e a Itália estão, de facto, reduzidas à condição de proterorados da Firma. Portugal não merece a despesa da deslocação: tem capataz designado para, in loco, monitorizar o país. (Como demonstra o Expresso, que dá honras de 1.ª página aos recados do sr Poul Thomsen.) A convocação de Cameron é assaz reveladora. O governo britânico anda há semanas a preparar um plano que minimize os efeitos colaterais que o colapso do euro terá sobre a libra. Exactamente como a Alemanha, cujo banco central precisa de tempo para blindar-se antes do colapso. No dia em que o  Deutsch Bundesbank tiver chegado a uma solução razoável (razoável do ponto de vista dos interesses da Alemanha), Merkel dirá, sem ambiguidade, que o recreio acabou. Até lá não convém dar nas vistas. Por isso Cameron foi levado pela trela. Por isso o Spiegel não hesita em tratar o Reino Unido como Krankes Empire, o Império doente...

A ver vamos se o mesmo sucede com Mark Rutte, o primeiro-ministro holandês. Rutte foi muito claro: se, a muito breve prazo, a zona euro não for reduzida a dez países (ao invés dos actuais dezassete), a Holanda tem de preparar-se para o fim da moeda única. Tem mesmo uma comissão parlamentar a tratar do assunto.

No dia em que tomou posse, Monti, o sucessor de Berlusconi, fez questão de dizer que no seu governo não havia “pessoal da política”, numa grosseira alusão ao facto de os seus ministros nunca terem concorrido a eleições. Monti gabou-se daquilo que o devia envergonhar. (Em Portugal, a nível de ministro, sempre são só três os que não foram a votos: Vítor Gaspar, Paulo Macedo e Nuno Crato.) Tudo isto releva do inquietante rumo que a Europa prossegue.

[Imagem: foto de Tobias Schwarz, Reuters.]

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Sexta-feira, Novembro 18, 2011

D. MARIA II


João Mota, 68 anos, actor e encenador, fundador (em 1972) do grupo A Comuna, aceitou substituir Diogo Infante no cargo de director artístico do Teatro Nacional D. Maria II. Para já, vai «tentar que a programação possa manter-se até ao final de Fevereiro [...] As peças estão a ser feitas. Esse programa tem de se cumprir. Depois de Fevereiro logo se vê.» Então ficamos assim. Esteja onde estiver, Amélia Rey Colaço é capaz de não discordar.

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O FACTOR LIPTON


Afinal, António Borges estava em rota de colisão com Christine Lagarde. Borges queria mais apoio do FMI aos países da zona euro, enquanto Lagarde segue a linha dura de Washington. Em Julho, a escolha de David Lipton para primeiro vice-director do FMI foi o sinal de que tudo ia mudar. Lipton, antigo secretário do Tesouro (1993-98) da administração Clinton, terá sido o responsável pela escolha de Reza Moghadam, o sucessor de Borges. A fórmula “razões pessoais” para justificar a saída de Borges foi meramente protocolar, confirmou ontem o Fundo.

[Imagem: Público.]

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INCLASSIFICÁVEL


Lembram-se com certeza da fronda contra o fecho de escolas. No tempo de Sócrates, o ministério da Educação decidiu (a meu ver, bem) encerrar escolas com menos de 20 alunos. Caiu o Carmo e a Trindade. Na televisão, pastoreado por Crespo, Nuno Crato, CEO do Taguspark até ir para o governo, disse da medida o que Mafoma não disse do toucinho. Assim que chegou a ministro, Crato mandou fechar 266 escolas, ficando 334 sob análise. Destas, fecharam já 32. Ontem, ouvido no Parlamento no âmbito do debate na especialidade do OE 2012, afirmou: «Estamos a prever encerrar uma parte substancial das mais de 400 escolas que sobraram.» A aritmética não bate certa porque o padrão-Crato é outro: em vez de escolas com menos de 20 alunos, a razia passa a afectar escolas com mais de 21 alunos. Mais de. Um burocrata qualquer deve ter feito um estudo que demonstra como a mudança do tecto promove a extinção de mais umas dezenas de escolas. Em si mesma, a decisão de encerrar escolas com poucos alunos (e sem condições) é boa. Os ziguezagues de Crato é que são inclassificáveis. 

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Quinta-feira, Novembro 17, 2011

WRIGHT/SANTOS


O Tribunal da Relação de Lisboa recusou a extradição de George Wright, cidadão português de origem americana, também conhecido por José Luís Jorge dos Santos, condenado (em 1962, nos Estados Unidos) pelo homicídio de um veterano de guerra. Wright tem hoje 68 anos, é casado com uma portuguesa e pai de dois filhos nascidos em Portugal. Fugiu da cadeia de Bayside em 1970. Em 1972 participou no desvio de um avião para a Argélia, país onde viveu. Depois de uma breve passagem por França, mudou-se para a Guiné-Bissau, onde foi treinador da equipa de basquetebol do Banco Nacional da Guiné. Radicou-se em Portugal em 1982, tendo adquirido a nacionalidade portuguesa em 1990. Em Sintra, onde vive, teve vários empregos, entre eles o de pintor da construção civil. Por estranho que pareça, tembém foi barman na base da NATO em Oeiras. Preso pela polícia portuguesa, a pedido das autoridades americanas, no passado 26 de Setembro, mantém-se em prisão domiciliária. A Relação não autoriza a sua extradição.

[Imagem: foto do Público.]

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JOHN O'HARA


Hoje na Sábado escrevo sobre Encontro em Samarra, o primeiro romance de John O’Hara (1905-1970). O livro está em 22.º lugar na lista que a Modern Library publicou em 1998 relativa aos 100 melhores romances de sempre em língua inglesa. Tendo como pano de fundo os anos terminais da Lei Seca e o Crash de 1929, Encontro em Samarra continua a ser considerado o melhor dos quinze romances que O’Hara escreveu. Regra geral, a crítica tem uma predilecção especial pelos contos do autor. Julian McHenry English, o protagonista, é o alter ego de O’Hara, girando a intriga em torno do seu (de Julian) processo autodestrutivo. Considerando-o obsceno, a Austrália proibiu a importação do livro nos anos 1930.

Escrevo ainda sobre Vida e Destino, de Vassili Grossman (1905-1964). O livro é de 1959, foi apreendido pelo KGB em 1961, e chegou ao Ocidente em 1981. Em 1983, a Editorial Inquérito publicou-o em Portugal, em tradução de Maria Gabriela de Bragança. A Dom Quixote reedita-o agora, em tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Vida e Destino é a segunda parte da saga iniciada com o romance de exaltação patriótica Por Uma Justa Causa (1956). Revendo todas as convicções anteriores, Grossman estabelece em Vida e Destino um paralelo entre a barbárie nazi e o regime soviético sob Estaline, como aliás fizera em Tudo Passa, sobre o extermínio dos kulaks.

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PRESO


Por decisão do DCIAP, Duarte Lima e o filho foram presos hoje de manhã. Ambos estão a ser investigados no âmbito do caso BPN. No início do mês, os actuais gestores do banco penhoraram bens de Duarte Lima no valor de cerca de seis milhões de euros.

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Quarta-feira, Novembro 16, 2011

COMEÇOU A SUCESSÃO


Invocando razões pessoais, António Borges, director para a Europa do Fundo Monetário Internacional, demitiu-se hoje. Foi substituído por Reza Moghadam. Depois da Grécia e da Itália, será Portugal o 3.º país da zona euro a ser chefiado por um homem da confiança dos Mercados? Esperar para ver. Janeiro vem cheio de surpresas. Leia a nota do FMI.

Borges faz 62 anos depois de amanhã e pertence à ala Manelista do PSD. Na São Caetano, o afiar de facas é tão intenso que repercute num certo restaurante do Guincho.

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D. MARIA OUT


O Teatro Nacional Dona Maria II suspendeu toda a programação para 2012, por força do corte de 36% inscrito no Orçamento de Estado. A subida do IVA para 23% é outro factor decisivo. Apesar de taxas de ocupação superiores a 90%, o teatro dirigido por Diogo Infante assumiu hoje em comunicado a impossibilidade de «honrar compromissos de programação com produtores, encenadores e actores, e com o próprio público». Ficam comprometidas também as co-produções, como é o caso, entre outras, da peça A Morte de Danton, de Büchner, com encenação de Jorge Silva Melo. (Estreia programada para o próximo 15 de Março, em co-produção do TNDM com os Artistas Unidos e Guimarães Capital Europeia da Cultura.) A secretaria de Estado da Cultura não comenta.

Adenda às 20:20h. Por despacho divulgado há menos de uma hora, Francisco José Viegas, secretário de Estado da Cultura, demitiu Diogo Infante com “efeitos imediatos”.

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THROUGH THE LOOKING-GLASS


Esta fotografia de Nuno Ferreira Santos que o Público publica hoje é esclarecedora a vários títulos. Paul Thomsen, Jürgen Kröger e Rasmus Rüffer, os senhores da troika, foram ontem à sede do PS, com notório enfado, cumprir agenda. Não sei, nem me interessa saber, se o fotógrafo pediu ao secretário-geral do PS que se virasse para a objectiva. Se pediu, um mínimo de decoro pela função levaria Seguro a recusar. Se não pediu, e foi Seguro que quis ficar no retrato, abstenho-me (em nome da decência) de comentar. Se alguém o quisesse fotografar de frente tinha dado a volta à mesa.

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CURTO & GROSSO: MENTIRA


Os representantes da Comissão Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu, vulgo troika, tiveram ontem uma reunião com os deputados da comissão parlamentar que acompanha a aplicação da ajuda externa. Miguel Tiago, deputado do PCP, quis saber a razão de estar previsto o pagamento, nos próximos quatro anos, de comissões no valor de 700 milhões de euros (sem contar os juros). Foi a verba indicada por Vítor Gaspar no Parlamento: 385 milhões até ao fim do ano; 211 em 2012 e o restante entre 2013-14. Os membros da troika desmentiram. A verba total, correcta, é de 400 milhões. A todas estas, Gaspar goza.

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Terça-feira, Novembro 15, 2011

O RELATÓRIO ALBANÊS


Estive a ler o relatório que o Grupo de Trabalho para a Comunicação Social entregou ontem ao ministro da Propaganda. Por razões diferentes das invocadas no documento, concordo com a extinção da RTP Notícias e da RTP Memória, e também que a RTP África seja fundida com a RTP Internacional. Não me pronuncio sobre a ERC, que depende da Assembleia da República.

A ideia de colocar a RTP Internacional sob tutela do ministério dos Negócios Estrangeiros não lembrava aos netos de Enver Hoxha. O ministro da Propaganda não sabe quem é Enver Hoxha, mas os assessores explicam-lhe. A ideia não lembrava aos albaneses. Lembrou, porém, aos distintos conselheiros.

Excertos:

«Um serviço internacional público de comunicação social deve ter como função despertar e consolidar o interesse por Portugal e pelo universo da língua portuguesa no mundo.

Nesse sentido, consideramos que é um instrumento da política externa, devendo depender a definição do contrato-programa e seu financiamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Para se configurar como operador estratégico, para articular os interesses políticos, e económicos, sociais, culturais, nacionais e internacionais, o operador do serviço internacional deve arquitectar uma nova abordagem que contemple a profunda modernização do actual modelo 
[...] introduzindo também algum cosmopolitismo na mentalidade e moldes que governam a programação... »

A parte do cosmopolitismo é deveras interessante.

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Segunda-feira, Novembro 14, 2011

DITADURAS SOFT


A indigitação de Mario Monti para primeiro-ministro de Itália não sossegou os Mercados: as bolsas europeias estão todas no vermelho. A ver vamos como reage Wall Street, que abre quando forem duas da tarde em Lisboa. Hoje mesmo, a Itália teve de pagar 6,29% de juro por uma emissão de obrigações a cinco anos. Se isto não é uma pré-bancarrota, não sei o que seja uma pré-bancarrota.

Monti não é o príncipe encantado que vai salvar a Bela Adormecida. Por isso não percebo a gente que anda há três dias aos pulos a festejar o afastamento de Berlusconi. Il Cavaliere, é bom lembrar, foi eleito três vezes: em 1994 (saiu em 1995), em 2001 (saiu em 2006) e em 2008 (sai quando o seu sucessor tomar posse). Ter sido afastado por exigência da Firma, do FMI e dos Mercados, sem recurso a eleições, é motivo de preocupação. Se Monti chegar a tomar posse, vai ficar quanto tempo? E Papademos, na Grécia? Alguém acredita que vai haver eleições em Fevereiro? Este tipo de precedente costuma fazer jurisprudência...

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Domingo, Novembro 13, 2011

CITAÇÃO, 391


Vasco Pulido Valente, Salvação?, hoje no Público. O último parágrafo:

«[...] A ideia do “pastel” atrai particularmente um país sem uma verdadeira burguesia industrial ou rural, com alguma ideia da sua superioridade ou da sua vocação dirigente. Não incomoda uma classe média, que nasceu anteontem e está, por natureza, insegura; e não incomoda com certeza os trabalhadores que se acumularam recentemente no litoral e que perderam a sua cultura (na essência, a do Partido Comunista), sem lhe substituir outra. Numa sociedade anómica e conformista como a nossa, governa quem calha e as circunstâncias permitem. O sr. Passos Coelho e o sr. Seguro não são muito diferentes. E o dr. Cavaco não destoa, fora na idade. Que eles se dediquem os três, no maior acordo, a salvar os pobres portugueses não custa a acreditar. Passámos por pior

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VAIADO


Dos jornais  —  Mais de dez mil militares desfilaram ontem em Lisboa em protesto contra o governo, «um bando de mentirosos», segundo Vasco Lourenço. A marcha entre o Rossio e o Terreiro do Paço contou com a presença de generais, almirantes na reforma, oficiais, sargentos e praças. Cavaco Silva foi vaiado. Para o próximo dia 30, dia da votação final global do OE 2012, está agendada uma concentração em frente ao Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas.

[Imagem: foto do sítio do Comandante Supremo das Forças Armadas.]

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Sábado, Novembro 12, 2011

RIMMING


Até quando vão alimentar a charlatanice?
Imagem: manchete do Expresso, hoje.

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NUMA RUA ALEMÃ


Ainda vamos na fase anedótica.
Clique na imagem.

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Sexta-feira, Novembro 11, 2011

VERGONHA


O OE 2012 foi aprovado na generalidade com a abstenção do PS. O secretário-geral do partido, Seguro, fez, a encerrar o debate, um discurso que ficará para a história como exemplo da infantilização acelerada da política. Treze deputados do PS, sob um coro de gargalhadas e pilhérias do hemiciclo, declararam ir apresentar declaração de voto. Vergonhoso. 

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GOVERNANÇA DIRECTA


Giorgio Napolitano, o Presidente de Itália, fez de Mario Monti senador vitalício. Monti nunca foi eleito para coisa nenhuma. É um académico de prestígio, formado por Yale, que ocupou duas vezes o cargo de comissário europeu: entre 1995-1999 (Mercado Interno) por escolha de Jacques Santer; entre 1999-2004 (Concorrência) por escolha de Romano Prodi. Barroso também o queria, mas Berlusconi vetou. Fazendo dele senador vitalício, Napolitano impôs o seu nome como sucessor de Berlusconi. A ver vamos que tipo de governo formará o presidente da Università Bocconi de Milão.

Na Itália, o Presidente da República não é eleito por sufrágio universal. A sua eleição faz-se em colégio parlamentar. Mas isso não impediu Giorgio Napolitano de dar um murro na mesa. Membro do Partido Comunista Italiano entre 1945 e 1991 (o PCI foi extinto em 1991), homem de esquerda sem complexos, não está disposto a ver a Itália levar a Europa para o buraco. O mais tardar na próxima segunda-feira, a Itália terá um novo governo, sem recurso a eleições.

Começa a ser inquietante o exercício da governança directa. Primeiro a Grécia, agora a Itália. Entre a democracia e a moeda, a Firma impõe a doutrina do Mercado.

E nós por cá?

Nós por cá, OE aprovado, promulgado e publicado, vamos acordar um dia (antes ou a seguir ao Carnaval?) com o anúncio de que Cavaco, em nome da salvação do euro, decidiu substituir o governo em funções por outro de sua iniciativa. Sem Passos, naturalmente. Tão certo como dois e dois serem quatro.

[Na imagem, Mario Monti, o designado PM italiano.]

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DIA D


O Orçamento de Estado para 2012 é votado hoje na generalidade. Os eleitores do PS têm os olhos postos nos deputados que elegeram, a larga maioria dos quais não participou na reunião da Comissão Política Nacional do PS do passado dia 3, a tal que decidiu a abstenção do partido no pressuposto de que o governo estaria disposto a recuar na eliminação de um dos subsídios (os chamados 13.º ou 14.º meses) dos pensionistas, funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado.

Relvas apressou-se a desmentir Seguro. Pior: a partir de informação fornecida pelo governo português, a Comissão Europeia esclareceu, preto no branco, que os referidos 13.º e 14.º meses são eliminados em definitivo, e não apenas suspensos em 2012-13.

Sobre a sessão de ontem, sublinhar duas coisas: por um lado, o tom de arruaça utilizado pela bancada da maioria que apoia o governo, arruaça que se prolongou fora do hemiciclo com a intervenção indecorosa de Mr Pintelhos (é assim que querem dar sinais a Bruxelas?); por outro, a ironia de ver Basílio Horta, fundador do CDS, actual deputado do PS, a fazer com brilho a defesa da honra do partido.

Ninguém compreenderá que o PS não vote contra.

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Quinta-feira, Novembro 10, 2011

O LIMITE


Otelo, em entrevista à Lusa, largamente reproduzida nas últimas 24 horas nos media nacionais:

«Não gosto de militares fardados a manifestarem-se na rua. Os militares têm um poder e uma força e não é em manifestações colectivas que devem pedir e exigir coisas. [...] Para mim a manifestação dos militares deve ser, ultrapassados os limites, fazer uma operação militar e derrubar o Governo. Hoje bastam 800 homens. [...] Um novo 25 de Abril seria mais fácil que o de 1974. [...] Os militares têm a tendência para estabelecer um determinado limite à actuação da classe política. Esse limite foi ultrapassado em 1974. Hoje, Portugal está a atingir esse limite

José Pedro Aguiar-Branco, ministro da Defesa, está a fazer uma cura de sono. Mas e os bloggers que não largavam as canelas de Augusto Santos Silva?

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HABEMUS PAPADEMOS


Lucas Papademos rendeu-se: toma posse amanhã como primeiro-ministro da Grécia. I have accepted the mandate of the president of the republic after being proposed by political leaders to form a coalition government and i have accepted ... because I believe that we should all contribute to ... resolution of the crisis.

A ver vamos se este físico doutorado em economia, professor em Harvard, membro da Trilateral, antigo presidente do Banco Central da Grécia e vice-presidente do Banco Central Europeu, consegue fazer o milagre das rosas.

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CITAÇÃO, 390


Pedro Lomba, O tempo asiático, hoje no Público. Excerto:

«O Real Madrid [...] acaba de mudar a hora dos seus jogos de futebol para o meio-dia. Isto porque há 60 milhões de chineses interessados em assistir tremulamente e com as coronárias agitadas às partidas do clube pela Pequim TV. A alteração, de resto já sancionada pela Federação espanhola para outros casos, obrigou a algumas mudanças. Ao que parece, as estrelas do Real são agora obrigadas a almoçar às 9h30 (?) para poderem jogar ao fim da manhã. Mais um pouco e é provável que Ronaldo e companhia façam o horário de Xangai para dormir, em escrupulosa homenagem aos mercados televisivos da China. [...] O futebol nunca mais será o mesmo. A decadência europeia, a mudança do poder, de ano para ano, estão nestes detalhes

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ALAN HOLLINGHURST


Hoje na Sábado escrevo sobre O Filho do Desconhecido, de Alan Hollinghurst (n. 1954). O autor segue a receita básica: reminiscências clássicas, homossexualidade, classes altas inglesas, círculos Oxbridge, cultura highbrow, crítica social. Cecil Valance, o poeta de passagem, é um decalque de Rupert Brooke. No livro, Cecil, que desaparece rapidamente, faz as vezes do “hóspede” de Pasolini em Teorema. O romance está dividido em cinco capítulos, sinalizando a acção entre 1913 e 2008, de forma a fazer um tour d’horizon à evolução dos costumes na sociedade britânica entre o período eduardiano e a actualidade, sem esquecer os anos de chumbo do thatcherismo. Por este livro, Hollinghurst recebeu o Galaxy National Book Award 2011, na categoria Autor do Ano, bem como o Stonewall Award, na categoria Escritor do Ano no Reino Unido. O livro é de facto muito bom, mas continuo a preferir o romance de estreia, The Swimming-Pool Library (1988).

Escrevo ainda sobre A Visita do Médico Real, do sueco Per Olov Enquist (n. 1934), uma edição Ahab. A Visita do Médico Real é sobre a corte de Christian VII, rei da Dinamarca e Noruega (1766-1808), no auge da disputa ideológica entre Johann Struensee, médico real e amante da rainha, e Ove Høegh-Guldberg, primeiro-ministro e adversário dos ideais Iluministas. Enquist, eterno candidato ao Nobel, consegue fazer de um romance histórico um thriller policial.

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