Mostrar mensagens com a etiqueta revista Sábado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta revista Sábado. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

ALMUDENA GRANDES


Hoje na Sábado

A morte precoce de Almudena Grandes (1960-2021) interrompeu um dos projectos mais ambiciosos da literatura de Espanha, a série de Episódios de Uma Guerra Interminável, terminada com A Mãe de Frankenstein, agora traduzido. Inspirando-se na vida de Aurora Rodríguez Carballeira, uma feminista avant la lettre, Almudena Grandes — formada em História — expõe a forma como o regime de Franco lidava com a psiquiatria.

Aurora foi internada depois de matar a filha de dezoito anos, a famosa Hildegart, menina-prodígio e activista republicana, abatida pela mãe com quatro tiros de pistola. O interesse da autora pela história clínica de Aurora começou no momento em que leu El Manuscrito Encontrado em Ciempozuelos, do psiquiatra Guillermo Rendueles Olmedo.

Como em livros anteriores, também neste se cruzam personagens fictícias e pessoas reais (entre outros, o psiquiatra Juan José López Ibor, que pretendia curar a homossexualidade dos pacientes), factos históricos e situações efabuladas. O manicómio feminino de Ciempozuelos existe, estando associado à tentativa de reconquista da cidade por parte do Quinto Regimento republicano, comandado por Gustavo Durán, amigo de Lorca, Buñuel e Alberti, figura lendária de Guerra Civil de Espanha.

Narrado a três vozes, uma delas a do psiquiatra Germán Velázquez Martín, A Mãe de Frankenstein centra-se nos últimos anos de vida de Aurora, fazendo o relato cru de como a repressão do nacional-catolicismo espanhol se estendia à esfera da saúde mental. Germán, que viveu exilado na Suíça durante quinze anos, regressa ao país em 1954, trazendo com ele métodos humanos e um medicamento experimental, a Clorpromazina. Ali chegado, Germán interessa-se pelo ‘caso’ de Aurora, bem como pela natureza da relação da filicida com a enfermeira María Castejón. É sobre este eixo central que se desenvolve a narrativa, tendo como pano de fundo as diversas faces da ignomínia franquista, como por exemplo o roubo de crianças filhas de republicanos, para serem entregues a famílias católicas. 

Uma extensa nota da autora contextualiza as relações de contiguidade entre ficção e realidade. A útil tábua de personagens que fecha o volume podia (e devia) ter sido inserida a abrir.

Escritos contra a amnésia histórica, os cinco romances que compõem a série de Episódios de Uma Guerra Interminável (o sexto ficou por concluir) estendem à segunda metade do século XX a saga ficcional escrita por Benito Pérez Galdós sobre os anos 1800.

Clique na imagem.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

EMMA GOLDMAN


Hoje na Sábado

Nenhum balanço do século XX pode ignorar Emma Goldman, que em 1931 publicou uma densa autobiografia — Viver a Minha Vida — só agora traduzida em Portugal. Mas quem foi esta mulher que o activismo anarquista, longe dos corredores académicos, fez filósofa política?

Nascida na Lituânia no seio de uma família judaica, Emma tinha dezasseis anos quando foi para os Estados Unidos, fixando-se primeiro em Rochester e anos mais tarde em Nova Iorque, cidade onde fez a sua formação junto das comunidades de imigrantes russos e alemães. Piotr Kropotkin, teórico do anarco-comunismo, seu amigo, foi uma permanente fonte de inspiração.

Viver a Minha Vida começa exactamente assim: «Foi em 15 de Agosto de 1889 que cheguei a Nova Iorque, tinha vinte anos.» A partir daí nunca mais abandonou as causas em que acreditava. Os motins de Haymarket, em Chicago, desencadeados pela jornada de oito horas de trabalho, foram o ponto de partida para uma vida pontuada por incidentes. Um dos primeiros foi a tentativa de assassinato do coleccionador de arte Henry C. Frick, perpetrada (1892) por Alexander Berkman, seu amante. Berkman foi preso, mas depois de sair da prisão ajudou-a a fundar a revista Mother Earth, que se publicou até serem ambos presos e deportados para a Rússia.

Porém, a pátria dos sovietes não era lugar indicado para uma defensora pública da liberdade de expressão, da independência das mulheres, dos direitos laborais, das lutas sindicais, da objecção de consciência, do controlo da natalidade, do amor livre, da homossexualidade, etc. Dois anos perdidos. A forma como Moscovo esmagou a revolta de Kronstadt, que opôs marinheiros anti-bolcheviques a Lenine, levou-a a sair do país e a escrever (1923-24) dois livros sobre o desapontamento que lhe causara a Mãe Rússia. A partir de então foi alvo de ataques por parte do movimento comunista internacional. Para os camaradas, Emma Goldman fizera apostasia.

Após temporadas em vários países europeus e no Canadá, estabeleceu-se em Saint-Tropez em 1928. Precisava de tranquilidade para a sua autobiografia mas também para escrever uma biografia de Voltairine de Cleyre. Apoiante declarada da Espanha republicana, nada sabemos desses anos fatais, posteriores à redacção de Viver a Minha Vida.

Emma Goldman morreu em Toronto, pouco antes de completar 71 anos. Mas, como desejava, foi enterrada em Chicago junto às campas dos mártires de Haymarket.

Clique na imagem.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

JAVIER MARÍAS


Um novo romance de Javier Marías (n. 1951) é sempre um acontecimento. E Tomás Nevinson, provavelmente o melhor de todos os que publicou até hoje, não constitui excepção. Traz consigo o aliciante de colocar no título o protagonista de Berta Isla, alegado alter-ego do autor.

Filho de um filósofo exilado por causa de Franco, eterno candidato ao Nobel, admirado sem reservas pelos mais ilustres dos seus pares europeus e norte-americanos, romancista, contista, ensaísta, tradutor de Sterne, Conrad, Yeats, Auden, Nabokov, Ashbery e outros, antigo professor de literatura em Oxford, nada na sua obra (várias vezes premiada dentro e fora de Espanha) se confunde com a imagem de marca da literatura espanhola contemporânea. Digamos com clareza: Javier Marías é o mais importante escritor espanhol dos últimos cinquenta anos.

Sob a aparência de um thriller, Tomás Nevinson põe em pauta o dilema moral de matar ou não matar, o “dever” de optar por uma dessas soluções. Veja-se o episódio que une o escritor alemão Friedrich Reck-Malleczewen ao destino de Hitler: podia tê-lo morto em 1936, mudando o curso da História, mas não o fez, acabando morto em Dachau.

Com os massacres da ETA em pano de fundo, detalhando alguns dos mais brutais, o plot é narrado na primeira pessoa, excepto quando Nevinson veste a pele de Miguel Centurión Aguilera, o pacato professor de inglês pelo qual se faz passar em Ruán, a cidade fictícia onde tem por missão descobrir, entre três mulheres — Inés Marzán, Celia Bayo e María Viana —, qual delas é de facto Magdalena Orúe O’Dea, «metade da Irlanda do Norte e metade da Rioja…», o cérebro por trás do crime hediondo. Por se tratar de um exercício sobre o bem e o mal, a culpa, o medo e a memória, e não de mero panfleto sobre espiões e terrorismo político, Shakespeare é citado com propriedade. Mas, como sempre, a vasta erudição da prosa não perturba a fluidez do discurso.

Calibrando cada frase com a precisão de um joalheiro, ao mesmo tempo que mantém a tensão narrativa num jogo de harmónicas não isento de mordacidade e humor, Javier Marías não esquece as vítimas do separatismo basco, o ónus do horror. Tomás Nevinson, o romance, é apenas o invólucro elegante da interpelação que deixa à posteridade.

Clique na imagem.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

FUTUROS CLÁSSICOS?


Hoje na Sábado

Nem sempre acontece, mas o ano que agora termina foi pródigo na edição de livros que podem vir a tornar-se clássicos. Estamos a falar de poesia, ficção, biografia e História. Do que li gostaria de destacar oito títulos.

Um deles é Poemas, reunião da poesia completa de António Franco Alexandre, oportunidade para nos deixarmos absorver pelo estranhamento desta poesia sem predecessores em língua portuguesa: «Vamos a ver se dois incêndios se juntam, / se a folha do corpo fica a arder. / Os dentes que riem, saberão morder?» Outro é o primeiro volume de uma trilogia sobre a América contemporânea, Encruzilhadas, de Jonathan Franzen. A família Hildebrandt pode não ter glamour, mas só um escritor com o fôlego de Franzen podia dar-nos um épico desta natureza. Noutro registo, Maggie O’Farrell demonstra que Shakespeare é um personagem em aberto, servindo-se da morte precoce do filho do bardo para escrever Hamnet, romance centrado na vida de Anne Hathaway. Mas também Paul Auster, que resgata a vida e obra de Stephen Crane, um gigante da literatura norte-americana do século XIX, na monumental biografia a que deu o título de Um Homem em Chamas. Por falar em biografias, não podemos ignorar a de Philip Roth escrita por Blake Bailey, desassombrado registo de uma época e seus temas-fétiche. Ainda no domínio da compreensão do outro, a História dos Povos Árabes de Albert Hourani, historiador britânico de origem libanesa, finalmente traduzida e actualizada, é indispensável para entender o mundo árabe. Entretanto, numa altura em que foi tudo escrito sobre disfunções (sexuais e outras), a holandesa Marieke Lucas Rijneveld consegue surpreender-nos com O Desassossego da Noite. Por último mas não em último, Trilogia de Jon Fosse, volume que colige três novelas, traduzidas directamente do norueguês por Liliete Martins, que respeita a peculiar pontuação (ou falta dela) do autor. Rompendo mais uma vez com os modelos convencionais, Fosse não abdica de construir uma linguagem própria.

António Franco Alexandre, Poemas / Assírio & Alvim

Jonathan Franzen, Encruzilhadas / Dom Quixote

Maggie O’Farrell, Hamnet / Relógio d’Água

Paul Auster, Um Homem em Chamas / Asa

Blake Bailey, Philip Roth / Dom Quixote

Albert Hourani, História dos Povos Árabes / Book Builders

Marieke Lucas Rijneveld, O Desassossego da Noite / Dom Quixote

Jon Fosse, Trilogia / Cavalo de Ferro

Clique na imagem.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

Temos o Natal à porta, época tradicionalmente associada à partilha de livros. A rentrée trouxe novidades para todos os gostos. Há muito por onde escolher — a prosa completa de Sophia, o 26.º e último romance de Le Carré, ficções de Don DeLillo, João Paulo Borges Coelho, Viet Thanh Nguyen, Claudio Magris e António Ferro, o thriller com que David Lagercrantz inicia uma nova saga, a biografia que Paul Auster dedicou a Stephen Crane, a poesia reunida de Adília Lopes, o clássico de Vassili Grossman sobre a ocupação de Stalinegrado e, por último mas não em último, a novela gráfica que Martin Ernstsen fez a partir da obra-prima de Knut Hamsun.

Juntar num único volume toda a prosa de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) ajuda-nos a avaliar a dimensão de uma autora que a posteridade fixou como um dos poetas centrais do século XX português. É o que sucede com Prosa, volume organizado por Carlos Mendes de Sousa, que assina uma desenvolvida introdução. Aqui estão os contos — desde logo os magníficos Contos Exemplares, mas também os que escreveu para a infância —, além do ensaio sobre o nu na antiguidade clássica. Em suma, uma edição que fazia falta, posfaciada pela filha, Maria Andresen de Sousa Tavares. Publicou a Assírio & Alvim.

Silverview, o livro póstumo de John le Carré (1931-2020), não desilude os fiéis. Posfaciado pelo filho Nick Cornwell, que garante não ter alterado uma vírgula do manuscrito encontrado, prolonga o virtuosismo de uma obra ímpar. No lugar de George Smiley temos agora Proctor, mas o jogo de espelhos mantém-se. O essencial da intriga é narrado em flashback, quando Deborah e Edward, os anfitriões da mansão conhecida por Silverview, estavam no activo. Magnífico, como sempre. Publicou a Dom Quixote.

A violência e os bastidores do futebol universitário norte-americano são o tema de Linha Final, um dos mais antigos romances de Don DeLillo (n. 1936). Narrado por Gary Harkness, capitão de equipa, a narrativa segue à risca o jargão do balneário, ao mesmo tempo que transforma cada jogo numa batalha campal. Quem gosta de bola e conhece a sua lógica interna acompanhará com gosto as descrições “fotográficas”. Escrito no auge da Guerra Fria, não é inocente que o futebol sirva de metáfora ao frágil equilíbrio nuclear entre a Nato e o Pacto de Varsóvia (vide capítulo 29). Admirável. Publicou a Relógio d’Água.

Nasceu no Porto aquele que é um dos mais significativos autores moçambicanos. Refiro-me a João Paulo Borges Coelho (n. 1955), radicado naquele país desde criança, onde acabou por adoptar a respectiva nacionalidade. Ali se formou e construiu uma obra ficcional sólida, paralela à de historiador. Quem ler Museu da Revolução não se surpreenderá com a heterodoxia com que põe em pauta a sociedade moçambicana: «O Moçambique que encontrou não era muito diferente do Moçambique que deixara…» Meridiana clareza: violência, rigidez ideológica dos anos pós-independência, guerra civil, domínio de partido único, precariedade da economia, etc. Tudo em português de lei. Outra coisa não seria de esperar de quem escreveu As Visitas do Doutor Valdez. Publicou a Caminho.

Os fãs de policiais nórdicos conhecem David Lagercrantz (n. 1962) sobretudo por, após a morte de Stieg Larsson, ter sido o autor do prolongamento de Millennium. Mas Lagercrantz, com obra publicada desde 1997, acaba de publicar Obscuritas, primeiro livro da série Rekke & Vargas. O tiro de partida do plot é dado pelo assassinato, em 2003, de um árbitro de futebol afegão refugiado em Estocolmo. Curiosamente, o personagem Hans Rekke parece uma versão escandivana e pós-moderna de Sherlock Holmes. Publicou a Porto Editora.

Stephen Crane, gigante da literatura norte-americana do século XIX, tinha apenas 28 anos quando morreu e, talvez por isso, não goze do reconhecimento de alguns dos seus pares. Razão acrescida para ler Um Homem em Chamas, a monumental biografia que Paul Auster (n. 1947) lhe dedica. Quase novecentas páginas para “homologar” uma reputação, com destaque para a exegese da obra. Dito de outro modo, mais hermenêutica, menos acidentes biográficos. Seja como for, resgata Crane do relativo silenciamento a que foi votado. Além de notas e iconografia, o volume inclui índice onomástico. Publicou a Asa.

Os portugueses conhecem o vietnamita Viet Thanh Nguyen (n. 1971) desde o primeiro livro, laureado com o Pulitzer de Ficção 2016. Mudando a acção para Paris, mas mantendo o narrador original, O Comprometido prolonga esse livro de estreia, pondo o acento tónico em questões de identidade e género. Não esquecer que a França antecedeu os Estados Unidos na ocupação da Indochina. Radicado nos Estados Unidos desde a queda de Saigão, o autor não esquece as humilhações sofridas pelo seu povo. De certo modo, um ajuste de contas pós-colonial. E Nguyen faz isso muito bem. Publicou a Elsinore.

A partir de pretextos fortuitos, cada um à sua maneira, os cinco protagonistas de Tempo Curvo em Krems, de Claudio Magris (n. 1939), fazem o balanço do passado: o escritor, o industrial, o professor de música, o homem de passagem, o sobrevivente do império dos Habsburgo, o patriota triestino. Nada distingue ficção e realidade. Magris vintage, nestes cinco contos isentos de ênfase que se lêem de um fôlego. Publicou a Quetzal.

Por ter delineado uma política cultural tolerada por Salazar, o modernista António Ferro (1895-1956) passou à História como ideólogo do Estado Novo. O que nem todos sabem é que o editor da revista Orfeu foi um ficcionista prolífico, como demonstrado pelas quase setecentas páginas de Ficção, volume que colige os seus contos e novelas. Organizado por Hugo Xavier, com portfolio iconográfico e introdução de Luis Leal, ilustra a especial atenção que Ferro dava às personagens femininas. Uma edição primorosa. Publicou a E-Primatur.

Um grosso volume de capa dura e mais de mil páginas, Dobra, reúne a poesia completa de Adília Lopes (n. 1960), ou seja, todos os livros publicados a partir de 1985 e ainda inéditos. Lida com reticências durante alguns anos, Adília — que começou por ser um epifenómeno mediático — foi gradualmente impondo um tom, sendo hoje reconhecida a sua singularidade na poesia portuguesa contemporânea. Títulos como O Poeta de Pondichéry (1986), Maria Cristina Martins (1992), Florbela Espanca espanca (1999) e A mulher-a-dias (2002), para citar os quatro que prefiro, tornaram-se parte do cânone. Publicou a Assírio & Alvim.

Com Stalinegrado, Vassili Grossman (1905-1964) fixou a mais sangrenta batalha da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, se leu Vida e Destino, vai perceber que se trata de um díptico. Stalinegrado é a prequela do livro que imortalizou Grossman, o engenheiro que se encontrava na cidade como correspondente de guerra, e desse modo pôde legar ao futuro o testemunho da barbárie, a resistência de um povo determinado em pôr fim ao cerco nazi. Como sublinha Nina Guerra, esta «combinação da reportagem, da ficção e da análise política, social e psicológica […] cria um quadro verídico, credível.» Acompanhando o quotidiano da família Chapochnikova (a matriarca, Aleksandra, recusa deixar a cidade) temos a noção do horror. Mais tarde, Grossman, cansado de ser Kulak, tornou-se dissidente do regime soviético, mas em 1952 ainda acreditava na Mãe Rússia. Publicou a Dom Quixote.

O norueguês Knut Hamsun, Nobel da Literatura em 1920, tornou-se famoso por causa de Fome. Agora, como tem acontecido a tantas obras de ressonância planetária, esse romance de carácter autobiográfico foi vertido em novela gráfica. Quem o fez foi Martin Ernstsen (n. 1982), premiado por este trabalho. Os “puristas” dirão que a banda desenhada não transmite com nitidez o fluxo de consciência, mas trata-se de um álbum apelativo, traduzido directamente do norueguês por Liliete Martins. Publicou a Cavalo de Ferro.

Clique na imagem.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

JONATHAN FRANZEN


Hoje na Sábado.

Tem saudades de, ou quer saber como se vivia nos anos 70 do século passado? Então leia Encruzilhadas, o romance mais recente de Jonathan Franzen (n. 1959), primeiro título de uma anunciada trilogia sobre a América comtemporânea, A Key to All Mythologies. Desde as obras-primas de Updike, Roth e DeLillo que a literatura norte-americana não atingia tal fôlego, mas isso ficou estabelecido há vinte anos, quando Franzen publicou Correcções.

O título original, Crossroads, remete para um gangue de adolescentes da Comunidade de Deus. Tudo se passa num subúrbio de classe-média de Chicago, onde vivem os Hildebrandt. Russ, o patriarca da família, pastor na igreja local, via-se a si próprio, aos 47 anos, como um «tolo, obsoleto e repelente palhaço». Estamos nos últimos anos da Guerra do Vietname e, para os Hildebrandt , o Natal de 1971 desata o nó górdio das tensões (o romance ocupa-se de duas gerações da família). O plot inclui desastres, sexo, estupro, aborto, drogas, renascimento do cristianismo moderno, crises de fé, internamento psiquiátrico, costumes Navajo, contracultura hippie, guerra vs pacifismo, voluntariado, frustração, memórias recalcadas, ressentimento, psicanálise grupal, conflito étnico, dilemas morais, epifanias, crime, suicídio e blues de Robert Johnson. Leitores familiarizados com a cultura pop dos seventies, sobretudo música e cinema, identificam com facilidade os envios.

A mais-valia de toda a arquitectura romanesca encontra-se na forma como Franzen radiografa cada um dos cinco membros da família. Por exemplo, Perry (o filho mais novo), um toxicodependente de 15 anos intelectualmente sobredotado, terá sido inspirado na personalidade de David Foster Wallace, que foi íntimo do autor. Em suma, uma versão actual dos Buddenbrook de Thomas Mann não andaria longe deste quadro.

Encruzilhadas é realismo histérico (como James Wood bem observa) em todo o seu esplendor, calibrado com o virtuosismo a que Franzen nos habituou. A partir de incidentes paroquiais e das disfunções de uma família sem glamour, o autor constrói um épico irrepreensível, onde não faltam juízos morais: «Como podia uma nação que se intitulava cristã gastar milhares de milhões de dólares em armas mortíferas?» Nada que surpreenda quem conheça a obra do autor.

Doravante, a cidade fictícia de New Prospect passa a integrar a geografia da literatura contemporânea. E Marion, mulher mal amada, mãe de cinco filhos e co-autora dos sermões do marido, tem a espessura de uma heroína de Balzac.

Clique na imagem.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

VIGDIS HJORTH


Hoje na Sábado.

Com Herança, a norueguesa Vigdis Hjorth (n. 1959) tornou-se uma das autoras mais discutidas da literatura europeia contemporânea. Vigdis começou pela literatura infantil, mas de seguida publicou cerca de trinta romances, sendo a Herança o primeiro a chegar à edição portuguesa.

No ano em que foi publicado (2016) o livro gerou controvérsia pela sua natureza autobiográfica. À laia de recado, a autora cita A Festa, o filme de Thomas Vinterberg. Na Noruega, foram muitos os que reconheceram no plot nada menos que três gerações da família Hjorth. Vigdis foi acusada de usar diverso material privado, como por exemplo correspondência familiar. A irmã, Helga, até publicou a sua versão dos factos, num livro que foi um bestseller. E a mãe de ambas processou a companhia de teatro que encenou uma adaptação da obra.

Relatos de sordidez familiar não são novidade em literatura. Os noruegueses tinham o precedente de Karl Ove Knausgård, mas o quinteto Melrose, do inglês Edward St Aubyn, continua sem equivalente em matéria de transgressão. Isto dito, a Herança não surpreende pelo tema. O que o distingue é a escrita da autora, nem sempre linear, porém estimulante nos seus avanços, recuos e minúcia descritiva. Certas repetições parecem-me escusadas, mas terá que ver com o discurso obsessivo compulsivo. Curiosamente, críticos de língua inglesa têm falado de Vigdis Hjorth como de um híbrido de Jane Austen e Agatha Christie, com laivos de Ibsen.

Incesto (em criança, Bergljot foi várias vezes abusada sexualmente pelo próprio pai) e disputas patrimoniais entre quatro irmãos constituem uma mistura explosiva. Vigdis Hjorth constrói a narrativa explicando as razões que levam a sua narradora a aliar-se ao irmão mais velho, contra as irmãs mais novas, na querela que o opõe à partilha das casas de férias dos pais. No momento em que decide expor as memórias acumuladas da infância traumática, Bergljot é uma escritora e crítica de teatro, mãe de três filhos adultos, divorciada, há muito afastada do núcleo familiar. A herança é o detonador do conflito. Com prejuízo dos filhos mais velhos, Bergljot e Bård, o testamento do patriarca beneficia as filhas mais novas (menos ausentes da casa-mãe). Sem essa disputa, provavelmente Bergljot não traria à tona o recalque de anos de manipulação e abuso.

Por causa deste livro, há cinco anos que os media e a intelligentsia da Noruega discutem os limites da literatura “da realidade”.

Clique na imagem.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

LIVROS PARA O OUTONO


Hoje na Sábado.

A partir da morte de Hamnet Shakespeare, Maggie O’Farrell (n. 1972) escreveu Hamnet, romance inspirado na vida do bardo com Anne Hathaway. É a história de um casal de Stratford-upon-Avon. O’Farrell diz apenas: «Cerca de quatro anos depois, o pai escreveu uma peça chamada Hamlet.» (O mesmo nome escrevia-se nas duas formas.) É desconhecida a causa da morte de Hamnet, mas no romance é vítima da peste. Quando o filho morre, já Shakespeare estava estabelecido em Londres. Portanto, tudo gira em torno de Anne e dos filhos. Mais exactamente, sobre o luto da mulher que se sente responsável pela morte do filho de onze anos. Sem beliscar factos históricos, a narrativa é deveras empolgante. Com Hamnet, O’Farrell ganhou o Women’s Prize for Fiction 2020.

Com nova tradução, temos de volta Olá, América!, uma das distopias mais famosas do inglês J.G. Ballard (1930-2009). Publicado pela primeira vez em 1981, o livro “antecipa” o apocalipse dos Estados Unidos nos anos 2100, após um colapso ambiental (a Rússia barrou o Estreito de Bering que liga o Pacífico ao Ártico) e financeiro de proporções bíblicas. Com Charles Manson na Casa Branca e dois terços dos norte-americanos expatriados na Europa e na Ásia, um grupo de aventureiros parte de Inglaterra para averiguar o que se passa do outro lado do Atlântico. Excessivo, irónico, mordaz, por vezes burlesco, Olá, América! é uma visão dantesca do fracasso do sonho americano.

Com A Anomalia, Hervé Le Tellier (n. 1957) venceu no ano passado o Prémio Goncourt. O livro foi agora traduzido por Tânia Ganho, que encontrou o registo certo do thriller. Dividido em três partes, sinalizadas por versos de Queneau, A Anomalia é uma sucessão de narrativas escritas de acordo com o perfil das respectivas personagens, muito diferentes entre si. Tudo se passa num voo entre Paris e Nova Iorque, mas podia ser num festival literário, tantas são as referências literárias (nomes, citações, trocadilhos, opinião). Ficcionista, ensaísta e colunista político, Le Tellier é o paradigma do intelectual público francês. Mérito maior: ao contrário de outros laureados da sua geração, o que escreve não provoca enfado.

A ficção identitária vive um momento alto, e A Outra Metade de Brit Bennett (n. 1990) é do melhor que tem sido escrito sobre interditos étnicos. Em Mallard, a cidade do romance, ninguém se casava com gente escura. Até aqui, nada que o inventário do racismo não ilustre. O ponto é outro: de forma a ficarem cada vez mais claros, os negros de Mallard fazem casamentos mistos. Com dezasseis anos, as gémeas Vignes fogem da cidade após o linchamento do pai. Contudo, enredam-se noutro tipo de contradições. Stella casa com um branco desconhecedor das suas origens, e Desiree regressa à cidade com uma filha negra como o alcatrão. Estamos nos anos 1950, no auge do segregacionismo. A saga prossegue até aos anos 1970, com as filhas de ambas em confronto com novas realidades (a transexualidade, etc.) e perspectivas de vida opostas. Brit Bennett é um nome a fixar.

Pode um irlandês, radicado em Nova Iorque, ficcionar o quotidiano da Palestina? Foi o que fez Colum McCann (n. 1965), professor do Hunter College. O livro tem um título estranho, Apeirogon, que significa polígono infinito. McCann conta a história de dois homens, um judeu e um palestiniano, unidos pelo denominador comum de terem perdido as filhas pré-adolescentes: em 1997, Smadar, 13 anos, vítima de bombistas suícidas; em 2007, Abir, 10 anos, com um tiro na nuca. Não são personagens de ficção, isto aconteceu. Os factos foram «compilados a partir de uma série de entrevistas em Jerusalém, Nova Iorque, Jericó e Beit Jala», embora o autor tenha arredondado o discurso. Ao longo de mil e um capítulos (Mitterrand e família, amante incluída, surgem no sexto), como nas mil e uma noites do clássico árabe, McCann tenta expor o absurdo do conflito que opõe os dois Estados. São muitas as derivações de tema e sentido, da Flauta Mágica à Mossad. Vários capítulos resumem-se a uma única linha. Também há ilustrações. Como refere o subtítulo, trata-se de viagens infinitas.

A italiana Rosa Ventrella regressa com A Maledicência. Quem gostou de História de Uma Família Decente vai gostar deste regresso ao coração da Apúlia. Tendo a Segunda Guerra Mundial em pano de fundo (e, mais tarde, a reforma agrária), o romance opõe a fome e a moral, no registo fluente a que a autora nos habituou.

Clique na imagem.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

DIANA EVANS


Hoje na Sábado:

Ajusta-se perfeitamente a Pessoas Comuns, de Diana Evans, a máxima de Tolstói: cada família infeliz é infeliz à sua maneira. A meia-idade é um período fértil em desacertos conjugais e é deles que o romance trata. Não esquecer que, mesmo de viés, o fracasso do casamento de Diana com o príncipe Carlos paira sobre o seu livro de estreia, o premiado 26a, de 2005.

Filha de pai inglês e mãe nigeriana, Diana Evans nasceu (1972) na Inglaterra mas passou parte da infância na Nigéria. Neste livro, o terceiro que publica, pretende fazer uma grande angular sobre a classe média negra britânica. Tudo começa na festa de sábado à noite dada pelos irmãos Wiley, na sua casa do sudeste de Londres, para celebrar a eleição de Obama. Os convidados, gente glamorosa e bem-sucedida, são advogados, jornalistas, actores e políticos da comunidade negra. Isto coincide com o facto de Wall Street ter arrastado o mundo para o crash de 2008. A partir da realidade concreta da capital britânica, Evans ilustra esse microcosmo de forma minuciosa: «Não paravam de chegar, homens de boa disposição e sapatilhas no ponto, mulheres com diferentes graus de cabelo postiço […] como sócias de Beyoncé.» Sublinhar que o romance progride ao som de playlist adequada (começa logo no título), onde não falta Michael Jackson, cuja morte fecha o livro.

Melissa, a personagem mais forte, é uma jornalista freelance residente na área de Crystal Palace. Entedia-se com as rotinas domésticas como acontece com a maioria das mulheres (e homens) da sua geração que têm uma profissão absorvente. Nada de extraordinário. O melhor do livro acaba por ser o tour d’horizon pela Grande Londres gentrificada, vista a partir das duas margens do rio, num périplo que se estende a Dorking, trinta quilómetros a Sul. ‘Exilado’ no Surrey por vontade da dona de casa convencional com quem casou, Damian, um aspirante a escritor cujo pai fora um conhecido activista negro, sonha com a Londres da sua vida de solteiro. Denominador comum aos casais retratados, a incomunicabilidade e o tédio de vidas que chegaram ao ponto de não retorno, após crises de identidade, equívocos embaraçosos e ocasional adultério. Terá sido pelo facto de tentarem decalcar o padrão de vida dos homens e mulheres que alimentam a imprensa cor-de-rosa? Mas Torremolinos, onde fazem férias, não é exactamente um destino trendy.

Clique na imagem.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado:

A holandesa Marieke Lucas Rijneveld (n. 1991) conseguiu a proeza de vencer o International Booker Prize com o livro de estreia, O Desassossego da Noite. Nunca o prémio fora atribuído a alguém tão jovem. Ao receber a notícia, Marieke, então com 29 anos, exclamou: «Estou orgulhosa como uma vaca de sete tetas.» Com acção centrada numa quinta de produtores de leite dos Países Baixos, o plot apoia-se num incidente autobiográfico, a morte acidental do irmão mais velho da narradora, Cas, testemunha da tragédia quando tinha dez anos. Marieke descreve com desenvoltura o dia-a-dia da quinta, o protestantismo da família e, com precisão gráfica, o incesto entre irmãos (muito criativo o uso dado às anilhas das latas de Coca-Cola). Além de sexo e escatologia, o livro subsume violência física e verbal, fisting em bovinos, febre aftosa, abate de animais, barras de sabão introduzidas no reto do pai, etc. Tudo isto em linguagem crua, traduzida directamente do neerlandês por Patrícia Couto. Publicou a Dom Quixote.

Um tour d’horizon sobre a Belle Époque, O Homem do Casaco Vermelho traz de volta Julian Barnes (n. 1946), excelentíssimo autor da literatura de língua inglesa. O ponto de partida é uma viagem a Londres, em 1885, na qual participaram três amigos, um deles Samuel Pozzi, o ginecologista francês que foi amante de Sarah Bernhardt. Barnes decidiu escrever o livro depois de ver o retrato de Pozzi feito por John Singer Sargent (o da sobrecapa e folha de rosto). Digamos que O Homem do Casaco Vermelho é uma espécie de Who’s Who dos anos 1880-90, escrito com minúcia e sagacidade. Estão lá todos, de Oscar Wilde ao conde de Montesquiou (o dândi que Proust imortalizou como Barão de Charlus), de Clemenceau a Dreyfus, de Madame X a Jean Lorrain, de Gide a Henry James, de Huysmans aos irmãos Goncourt. Em suma, um livro culto e divertido, em edição de capa dura com extenso portofolio fotográfico. Publicou a Quetzal. 

Um novo livro de Edna O’Brien (n. 1930), a mais importante escritora irlandesa, é sempre uma boa notícia. Publicado em 2019, Menina é inspirado no rapto, pela seita Boko Haram, das alunas cristãs de uma escola nigeriana. Tudo se passou em 2014, quando mais de duzentas raparigas foram feitas escravas sexuais dos jiadistas. O romance faz silêncio sobre o local do crime, dando voz às vítimas anónimas: «Em tempos fui uma menina, mas já não sou.» Assim começa o relato de Maryam, nome fictício de alguém que sobreviveu ao cativeiro. Para melhor escrever o livro, O’Brien deslocou-se duas vezes à Nigéria. Vão longe os tempos em que as suas obras eram banidas das livrarias de Dublin, muitas delas queimadas em autos-de-fé. Contar a verdade nunca foi fácil, mas O’Brien não desistiu. Descreve a tragédia das rapariguinhas de Chibok com o mesmo desembaraço com que em 1960 descreveu os interditos da sociedade irlandesa. Agora, fez de Menina um romance sobre o indizível. Magnífico. Publicou a Cavalo de Ferro.

Quase toda a gente sabe que Simone Veil (1927-2017) foi a ministra francesa da Saúde que, em 1975, despenalizou a interrupção voluntária da gravidez, tendo sido a primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente do Parlamento Europeu. O que nem toda a gente conhece é o seu passado de prisioneira em Auschwitz-Birkenau e Bergen-Belsen. Através dos relatos feitos a David Teboul, A Madrugada em Birkenau recupera o horror da sua deportação (Simone tinha 16 anos), o paroxismo nazi da “solução final” e o regresso a França depois da prisão. Um testemunho indispensável, ilustrado por dezenas de fotografias. Publicou a Quetzal.

Estamos habituados à ficção de Zadie Smith (n. 1975), mas Sinta-se Livre é uma colecção de ensaios deveras estimulantes, especialmente os da Parte V, que tem o título do livro. Originalmente publicados na New York Review of Books e outras revistas, sobre temas tão diferentes como literatura, Brexit, identidade de género, fotografia, censura artística, Facebook, alterações climáticas, cinema, fractura de classes, liberdade, etc., são textos que nos interpelam com opiniões fortes. Publicou a Dom Quixote.

Para assinalar os 700 anos da morte de Dante Alighieri, o historiador da literatura John Took escreveu A Importância de Dante, obra subtitulada como sendo Um Guia para Pessoas Inteligentes. Na realidade, trata-se um esclarecedor companion da vida e obra de Dante, acessível ao leitor comum. Centrado em três obras — A Divina Comédia, A Vida Nova e O Convívio —, Took cativa-nos do princípio ao fim da leitura. Publicou a Bertrand.

Clique na imagem.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

MAHFOUZ


Traduzido directamente do árabe por Badr Hassanein, Entre os Dois Palácios, do egípcio Naguib Mahfouz (1911-2006), abre a famosa Trilogia do Cairo, publicada trinta anos antes do Nobel ter dado visibilidade planetária ao autor e à literatura árabe. Foi Jackie Kennedy quem, como editora da Doubleday, comprou os direitos da obra em língua inglesa.

Dividido em 71 capítulos breves, Entre os Dois Palácios centra-se no quotidiano de uma família da pequena-burguesia cairota, entre o decurso da Primeira Guerra Mundial e as sequelas da Revolução Egípcia de 1919 contra o domínio britânico. O patriarca, Ahmad Abdel Gawward, é um comerciante devoto, autoritário, alcoólatra e devasso. O plot realça a identidade cultural do Islão, por oposição a práticas ocidentais. Cada membro da família ilustra uma sensibilidade política diferente, estando a narrativa impregnada de tradição, sexo, drogas, contradições, desobediência e abuso. Nenhum dos cinco filhos, duas raparigas e três rapazes, aceita a intolerância do pai, um libertino dominador para quem a moral islâmica só tem validade dentro de casa (e com os seus). Os irmãos não se entendem, excepto no amor pela mãe, denominador comum. Em pano de fundo, a vida dos bairros populares do Cairo, incluindo os motins contra o regime de Propectorado que a todos oprime.

Frequentemente comparado a Dickens, cuja obra conhecia bem, Mahfouz foi uma personalidade discreta da vida literária egípcia. Nascido no seio de uma família pobre, fez estudos de filosofia, foi funcionário público (um dos lugares que ocupou foi o de director do gabinete de censura ao cinema), colaborou na imprensa, casou tarde e raramente viajou. Era assessor do ministro da Cultura quando decidiu ser escritor a tempo inteiro.

Escreveu perto de quarenta romances, centenas de contos, quatro peças de teatro, uma autobiografia e diversos guiões para filmes, mas nenhum a partir de obras suas, dezenas das quais foram adaptadas ao cinema. Em 1994, por causa de um folhetim sobre religiões monoteístas, publicado em 1959 no jornal Al-Ahram, foi vítima de tentativa de assassinato. Apunhalado no pescoço, sobreviveu, mas precisou de protecção policial até morrer. Após a morte de Mahfouz, Children of Gebelawi foi finalmente editado em livro no Egipto (no Líbano circulava desde 1967), acentuando a passagem do realismo social para as questões da fé, escolha que colocou o autor em conflito com as autoridades religiosas.

Publicou a E-Primatur.

Clique na imagem.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

CARDOSO PIRES BIOGRAFADO


Hoje na Sábado

Chegou finalmente às livrarias a tão aguardada biografia de José Cardoso Pires (1925-1998), nome maior da ficção portuguesa. Bruno Vieira Amaral, o biógrafo, escolheu um título certeiro — Integrado Marginal. Ao contrário de muitos dos seus pares, Cardoso Pires foi uma personalidade de certo modo “secreta”, razão acrescida para o interesse suscitado pelo livro de Amaral.

Sem perder de vista a vida cultural e política do país ao longo de seis décadas, bem como a boémia tão do agrado de Cardoso Pires, o biógrafo ilustra as origens rurais do biografado, o estertor da Primeira República, o tédio precoce pelo quotidiano pequeno-burguês, as primícias literárias, as amizades com Pomar, Castro Soromenho, Luiz Pacheco e outros, a iniciação sexual das «matinées-segóvia», uma viagem a África como tripulante de navio (curiosos os flashes da sua estadia em Lourenço Marques em 1945), o MUD Juvenil, a passagem pelo PCP, a “tutoria” de Mário Dionísio, o primeiro livro em 1949, os anos em que foi guia-intérprete da TAP, experiências como editor, a revista Eva, a cumplicidade com Maria Lamas, atritos com a crítica, apreensão pela PIDE do segundo livro, a morte do irmão, o casamento com Edite («o rochedo da família»), as filhas, desilusão com o Movimento Para a Paz, os retiros na Caparica, a parceria com Figueiredo Magalhães, a consolidação da obra — a partir de O Anjo Ancorado, de 1958 —, o Golpe da Sé, a direcção do Almanaque, o crime da praia do Guincho (móbil de Balada da Praia dos Cães), a fuga para Londres em 1960, a temporada brasileira, o congresso em Itália da Comunità Europea Degli Scrittori, o prémio para O Hóspede de Job, a extinção da SPE, a publicidade, consagração com O Delfim (1968), leitor e depois escritor residente no King’s College de Londres, o Diário de Lisboa, passagem pela Câmara de Lisboa, a ida ao Camboja, o Prémio da União Latina e o Grande Prémio da APE, o reconhecimento institucional, o apagão cerebral de 1995 e um De Profundis por antecipação.

Bruno Vieira Amaral calibra bem a vasta informação de que dispõe, analisa com argúcia a obra de Cardoso Pires e abstém-se de especulações laterais. Apenas lamento a ausência de uma bibliografia activa do biografado. No mais, Integrado Marginal cumpre com brio o protocolo do género.

Publicou a Contraponto. Clique na imagem.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado

Começar pelo princípio: Marilynne Robinson (n. 1943), voz maior da literatura norte-americana, está de volta com Jack. Com acção em Gilead, a cidade que empresta o nome ao título do romance que a fez vencer o Pulitzer de Ficção em 2005, o livro conta a história de Jack Boughton, filho “problemático” de um pastor presbiteriano. Já o conhecemos de Gilead, Home e Lila, os romances anteriores da tetralogia. O ponto crítico está na ligação amorosa de um homem branco com uma mulher negra, na América dos anos 1950. Ser professora e filha de um bispo metodista influente na comunidade negra não isenta Della Miles dos interditos da lei. Mas a vexata quaestio nem sequer reside aí. Para Marilynne Robinson, a questão central é pôr em pauta o tipo de país em que a América se transformou. O dilema de Hamlet paira como uma sombra nas discussões “teológicas” de Jack e Della. Notável. Publicou a Relógio d'Água.

Finalmente podemos ler Luto em português. Trata-se do romance mais traduzido e premiado do guatemalteco Eduardo Halfon (n. 1971), judeu mizrahim que nos faz mergulhar no horror de um país destroçado pela guerra civil. No Verão de 1981, antes de completar dez anos, o narrador muda-se com os pais para os Estados Unidos. O relato será feito a partir da Flórida, a pretexto da memória de um tio que nunca conheceu: «Chamava-se Salomón. Morreu aos cinco anos, afogado no lago Amatitlán.» Filtrada pelas raízes familiares — polacas por parte da mãe, libanesas do lado paterno —, a escavação do passado expõe o conflito entre culpa e curiosidade. Publicou a Dom Quixote.

A Trilogia da Cidade de K. traz de volta os livros mais famosos de Agota Kristof (1935-2011), a escritora que fugiu para a Suíça após o fracasso da Revolução Húngara de 1956. Radicada em Neuchâtel, tornou-se cidadã helvética e publicou a obra em francês. Reunidos em volume único, O Caderno Grande (1986), A Prova (1988) e A Terceira Mentira (1992) contam a história de dois gémeos amorais, vítimas da guerra e toda a espécie de iniquidades. Escrito em capítulos muito curtos, O Caderno… suscitou controvérsia quando foi publicado, dando origem a um processo judicial (as cenas de sexo e crime foram consideradas pornográficas). Os outros dois romances têm uma estrutura mais convencional, desdizendo, cada um a seu modo, as “verdades” do Caderno… Publicou a Relógio d'Água.

Sessenta anos após a sua primeira publicação, Chamada Para o Morto volta às livrarias, desta vez com uma introdução escrita para assinalar a data pelo próprio John le Carré (1931-2020). O livro marca o “nascimento” de Smiley, o espião improvável com quem Le Carré cresceu e amadureceu. Chamada Para o Morto é o primeiro de nove romances centrados na figura desse erudito da cultura alemã que fará dos serviços secretos a sua razão de vida (a mulher, Lady Ann Sercomb, trocou-o por um piloto cubano de Fórmula Um). O plot gira em torno do alegado suicídio de Samuel Fennan, funcionário do Foreign Office britânico. Foi o primeiro, mas já era vintage. Publicou a Dom Quixote.

Condensar a história inglesa entre o século V e o fim dos anos 1990 numa síntese rigorosa, foi o que fez Simon Jenkins (n. 1943) ao escrever esta Breve História de Inglaterra. Em menos de quatrocentas páginas, o autor faz um tour d’horizon deveras estimulante, que nos leva da Alvorada Saxónica ao legado de Thatcher, dissecando temas tão importantes como a Reforma religiosa (o conflito com o Papa) ou o Estado-Providência criado em 1945. A obra inclui uma cronologia de datas-chave, bem como a lista de todos os soberanos e primeiros-ministros do Reino Unido. Publicou A Esfera dos Livros.

A morte de Marcelino da Mata, controverso oficial dos Comandos, acordou velhos fantasmas da Guerra Colonial. Um deles, porventura o mais polémico, foi a invasão falhada da Guiné-Conacry, em Novembro de 1970. Efectuado por via marítima, o golpe visava capturar Amílcar Cabral, líder do PAIGC, libertar prisioneiros portugueses, levar os oposicionistas de Sékou Touré ao poder, e destruir os caças russos Mig. Operação Mar Verde, de António Luís Marinho, expõe os factos com exemplar minúcia: Amílcar Cabral não foi encontrado, não havia Migs no aeroporto de Conacry, os oposicionistas da FLNG não conseguiram eliminar Sékou Touré. Portugal desmentiu tudo. Prefaciado por Guilherme Alpoim Calvão, responsável pela tentativa desse coup d'État, o volume inclui dezenas de fotografias, índice onomástico e, em anexo, documentação militar. Um documento para a História. Publicou a Temas & Debates.

Clique na imagem.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

Os indefectíveis de Patricia Highsmith (1921-1995) dispõem agora, não de um novo thriller, mas do ensaio Suspense ou a Arte da Ficção. Mais do que um manual de escrita criativa, trata-se de um companion da obra. Publicado em 1966, quando era já uma escritora consagrada (o seu alter-ego, Ripley “nasceu” em 1955), Highsmith fez em 1981 uma edição revista e alargada, agora traduzida. Filha de um casal de artistas que se divorciou antes do seu nascimento, Highsmith foi uma vítima da depressão e do álcool, uma lésbica socialmente inadaptada que criou uma das obras literárias mais consistentes do século XX. Preciosa, esta tese sobre a arte da ficção. Publicou a Cavalo de Ferro.

Aos poucos, vai-se fazendo a história da colonização. O segundo volume das memórias de João Afonso dos Santos (n. 1927), Até ao Cair da Folha, abrange os anos que vão de 1947 a 1975. Sob um título genérico — O Último dos Colonos —, o autor põe em letra de forma «impressões e rememorações» do tempo passado em Moçambique, onde viveu em dois períodos distintos, primeiro em criança (o pai era juiz e estava radicado na Colónia desde os anos 1930), depois em adulto, como advogado. Tal como no primeiro volume, relata peripécias do irmão mais novo, o cantor Zeca Afonso, professor do ensino secundário em Lourenço Marques e na Beira, nos anos 1960. O autor discreteia sobre a oposição ao Estado Novo, levando o relato até à independência do país. Além de retratos de família, o volume inclui documentos da transição independentista. Publicou a Sextante.

Um novo livro da israelita Zeruya Shalev (n. 1959), O Que Resta da Nossa Vida, expõe vários tabus a partir do momento em que uma octogenária moribunda passa a sua vida em revista, dos anos do kibutz aos desacertos da vida em família: um filho advogado de causas “erradas”, uma filha por quem sente repulsa desde a gravidez. A neta, por sua vez, despreza a mãe. Mas o plot não se esgota no drama familiar. São claras as críticas da autora (vítima de um atentado terrorista em 2004) à política de expansão israelita. Pela sua tradução em França, O Que Resta da Nossa Vida recebeu o Prémio Femina Étranger. Publicou a Elsinore.

A saga de Harro e Libertas Schulze-Boysen, o casal alemão que lutou contra Hitler, é o tema de Os Infiltrados, de Norman Ohler (n. 1970), jornalista especializado em história da Segunda Guerra Mundial. Escrito com exemplar minúcia, o autor faz questão de sublinhar que não se trata de um texto ficcional. A nota prévia faz luz sobre a razão de ser do livro. A partir de correspondência, diários e recortes de imprensa, Ohler reconstrói a vida de Harro e Libertas, membros destacados da Orquestra Vermelha, nome dado pela polícia política aos dissidentes. Harro era um intelectual de esquerda quando a guerra fez dele oficial da Luftwaffe. Libertas foi uma aristocrata liberal que se afastou das simpatias pró-nazis da família para acompanhar o amante e futuro marido. Os dois tinham um casamento aberto, e uma intensa vida boémia, mas nada disso os desviou da espionagem a favor da União Soviética e do auxílio a judeus perseguidos. Em Dezembro de 1942, com uma hora de intervalo, ambos foram executados. Todas as fontes estão creditadas e as inúmeras fotografias ilustram os anos felizes. Publicou a Vogais.

Saiu mais um livro vermelho da Guerra & Paz — Vamos Ler! Um Cânone Para o Leitor Relutante, de Eugénio Lisboa (n. 1930), suma de cinquenta obras de trinta e cinco autores portugueses. Destinado a leitores relutantes, exclui autores que, «embora grandes ou notáveis, não se adequam ao [objectivo de] atrair leitores.» A ressalva justifica as ausências de, entre outros, Aquilino e Herberto, privilegiando as presenças de Eça, Régio, Sena, Sophia, etc. Eugénio Lisboa “defende” as obras escolhidas, uma delas de Miguel Sousa Tavares. Não faltam remoques à crítica highbrow. Sínteses biográficas de cada autor ajudam o leitor a contextualizar a obra. Publicou a Guerra & Paz.

Com A Força da Não-Violência, a filósofa americana Judith Butler (n. 1956) põe em pauta, de forma clara, o debate em torno da desobediência civil, sublinhando as questões éticas associadas à ambiguidade semântica dos conceitos de violência e não-violência. Mas as vagas de imigrantes fugidos à guerra, o feminicídio, o movimento Ni Una Menos, etc., também são tratados, tornando leitura do livro deveras estimulante. Publicaram as Edições 70.

Clique na imagem.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

O gigante perdido da literatura americana, como é conhecido William Melvin Kelley (1937-2017), chegou finalmente à edição portuguesa. Depois da morte do autor, Um Tambor Diferente, o aclamado romance de estreia, tem sido reeditado em todo o mundo. Kelley, que também foi professor de escrita criativa no Sarah Lawrence College, deixou uma obra parcimoniosa: cinco títulos, publicados entre 1962 e 1970. Mesmo oriundo de Harvard e vivendo em Nova Iorque, onde o comparavam a Faulkner e James Baldwin, era complicado um negro impor-se no milieu literário norte-americano. Isso explica que tenha vivido quase uma década entre Paris e Roma, radicando-se em 1968 na Jamaica. Escrito quando a luta pelos direitos civis marcava a agenda política, Um Tambor Diferente é o relato vibrante da rejeição, por parte de Tucker Caliban (o protagonista), das iniquidades do Sul Profundo. Após salgar as terras, abater o cavalo e deitar fogo à casa onde vivia com a mulher grávida, Tucker parte para o Norte, decisão que desencadeia o êxodo da comunidade negra. A originalidade do plot reside no facto de ser narrado a partir do ponto de vista dos brancos. Publicou a Quetzal.

A reedição de Fome, do norueguês Knut Hamsun (1859-1952), traz de volta um autor controverso. Admirador de Hitler e Goebbels, racista confesso, colaborador nazi, foi julgado e condenado por traição ao seu país. Além de romances e contos, Hamsun escreveu poesia, ensaios e panfletos. Após publicar Os Frutos da Terra (1917), recebeu o Nobel da Literatura em 1920. O domínio do fluxo de consciência acentua o carácter autobiográfico de Fome, o seu primeiro livro (1890), elogiado por Gide, Thomas Mann e outros. Liliete Martins traduz directamente do norueguês. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrito para a BBC Radio, Estilicídio, do galês Cynan Jones (n. 1975), são esses doze episódios em forma de livro. Estilicídio significa ‘queda de água gota a gota’. Série de antecipação sobre como sobreviver a uma crise climática de proporções bíblicas, coloca o leitor perante a possibilidade da falta de água. A acção centra-se numa grande metrópole (admitamos que seja Londres) devastada por uma sucessão de secas e enchentes. Uma das alternativas consiste em rebocar um iceberg do Ártico. Falta porém consenso entre quem manda, a população, os ambientalistas e, como é de regra, os terroristas que também entram na história. Resumindo: Estilicídio ecoa todas as harmónicas possíveis num guião televisivo. Publicou a Elsinore.

É sempre gratificante voltar a Cesare Pavese (1908-1950), nome maior da literatura italiana. Poeta, ficcionista, ensaísta, diarista, crítico, tradutor de Joyce, Melville e outros, Pavese suicidou-se aos 41 anos, poucos meses depois de receber o Prémio Strega e de publicar A Lua e as Fogueiras, o livro derradeiro. Narrado na primeira pessoa («Há uma razão para eu ter voltado para esta aldeia…») pela voz de um emigrante regressado da América após o fim da Segunda Guerra Mundial, demonstra a impossibilidade de resgatar o passado. Tudo rui à sua volta, e nem a fortuna acumulada desfaz a condição de “bastardo”. Uma elegia seca e amarga dos lugares e pessoas da remota infância. Publicou a Bertrand.

Quando George Orwell (1903-1950) escreveu 1984, estava longe de supor o impacto que o livro teria nas gerações vindouras. Agora que a obra caiu em domínio público, sucedem-se as reedições. A obra de Orwell recentrou a distopia em literatura, na medida em que o seu precedente mais célebre, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, não resistiu à usura do tempo. Pelo contrário, o Grande Irmão (o Big Brother) faz parte do imaginário contemporâneo. Escrito com a intenção de denunciar o totalitarismo estalinista, a tese do controlo total por parte do Partido é o Leitmotiv do romance. Um dos personagens, o poeta Ampleforth, intelectual praticante da Novilíngua, parece ser uma caricatura de Auden. Gonçalo M. Tavares assina o prefácio. Publicou a Relógio d'Água.

Numa altura em que se verifica o avanço de forças extremistas em democracias consolidadas, convém ler O Regresso da Ultradireita, de Cas Mudde (n. 1967), o cientista político holandês que tem escrito sobre as várias formas de populismo. Analisando a rapidez com que partidos tradicionais, outrora conservadores, interiorizaram o discurso de homens como Trump ou Bolsonaro, Mudde faz um tour d’horizon às franjas radicais que controlam os governos de vários países, dentro e fora da Europa. A quarta vaga da ultradireita é o enfoque do livro. Por que é que há vinte anos as opiniões públicas reagiam indignadas à xenofobia, e hoje reagem com um bocejo à sua “normalização”? Publicou a Presença.

Clique na imagem.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

Para surpresa de muitos, o Nobel da Literatura 2020 foi atribuído a uma poeta praticamente desconhecida em Portugal. Falo da norte-americana Louise Glück (n. 1943), oriunda de uma família de judeus russos e húngaros. Traduzido por Ana Luísa Amaral, A Íris Selvagem venceu o Pulitzer de Poesia em 1993. Conjunto de 54 poemas em torno de um jardim, alegoria de Deus, cerca de vinte têm o mesmo título: Matinas e Vésperas. Logo a abrir, o poema titular dá o mote: «É muito duro sobreviver assim, / a consciência / sepultada na terra escura.» Onde lemos rosas, violetas, íris, etc., estão pessoas. Elíptica, nimbada de certa tonalidade bíblica, a poesia de Glück demarca-se ostensivamente do que convencionou chamar-se “poesia do real”. Se começar por ler “Final de Inverno”, “Vento em Fuga” ou “A Porta”, vai querer ler tudo, incluindo os outros três livros da autora já disponíveis. Agora é só aguardar por The Triumph of Achilles, uma das suas obras mais notáveis. Publicou a Relógio d'Água.

Traduzido directamente do russo por Larissa Shotropa, foi publicado Garganta de Aço, primeiro volume dos contos completos de Mikhail Bulgakov (1891-1940). Seriados cronologicamente, incluem “Apontamentos de um jovem médico”, ciclo sobre o início da sua actividade clínica em Smolensk. Em jeito de autobiografia ficcionada, Bulgakov não poupa o leitor aos detalhes de uma traqueotomia. Mais tarde, Bulgakov tornou-se escritor a tempo inteiro, mas acabou por cair em desgraça junto de Estaline. Só trinta anos após a sua morte as obras começaram a ser divulgadas. Por exemplo, a primeira edição não censurada de O Mestre e Margarita é de 1973. Um clássico entre clássicos. Publicou a E-Primatur.

O poeta e ensaísta espanhol Antonio Gamoneda (n. 1931) publicou Um Armário Cheio de Sombra, memórias da infância e adolescência de um rapaz pobre das Astúrias, nos anos de sombra da Guerra Civil de Espanha. O relato seco da miséria extrema, dos abusos do colégio de frades, da repressão franquista, da morte do pai (a seu pedido, após um derrame cerebral, a mulher provocou-lhe uma overdose de morfina), do primeiro emprego, antecipando a idade adulta para os catorze anos, fazem deste livro um testemunho admirável. Publicou a Minotauro.

Quem gosta de ficção histórica ambientada na Idade das Trevas e, em especial, dos livros de Ken Follett (n. 1949), vai com certeza apreciar Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era, prequela de Os Pilares da Terra. O novo livro recua até ao ano 997dC, durante os ataques a Inglaterra vindos do Leste (os viquingues) e do Oeste (os galeses). A estrutura romanesca não difere dos anteriores, embora não esteja focado numa grande construção. Desta vez, sobrelevam os efeitos colaterais da política. Eventuais especulações sobre dados históricos não beliscam o prazer da leitura. Afinal, trata-se de um romance de aventuras bem esgalhado. Publicou a Presença.

Com Mulheres da Minha Alma, a chilena Isabel Allende (n. 1942) acrescentou um título à extensa bibliografia feminista. Rebelde contra a autoridade masculina, fala das mulheres da sua alma: sua mãe, sua filha Paula e a amiga e agente Carmen Balcells. Mas também de Olga Murray (a salvadora de meninas nepalesas), das escritoras de eleição e de bruxas. Numa linguagem alheada de jargão académico, escalpeliza a realidade chilena, mas também a de outras latitudes, como a norte-americana. Uma boa surpresa. Publicou a Porto Editora.

Romancista, dramaturgo e ensaísta, é sempre gratificante voltar a Don DeLillo (n. 1936), o derradeiro guru da literatura norte-americana. Depois de ter escrito sobre temas tão diversos como o advento da Era digital, o assassinato de Kennedy, fraude fiscal, linguística, dissuasão nuclear, artes performativas, adultério, terrorismo, Wall Street, desporto, televisão, o 11 de Setembro (o melhor romance sobre a tragédia de 2001 continua a ser O Homem em Queda), velhice, etc., chegou a vez de escrever sobre o futuro próximo. Publicado em plena pandemia, O Silêncio, romance minimal que podia ser uma peça de teatro, centra-se no Super Bowl de 2022. Em Nova Iorque, defronte de um televisor, ansiosas pela final do campeonato, três pessoas aguardam a chegada de um casal amigo regressado de Paris (ignoram que o avião de Jim e Tessa tenha tido que fazer uma violenta aterragem de emergência). Até que tudo pára: televisores, laptops, relógios, telefones. Com o colapso geral da energia, a cidade está mergulhada na escuridão. Apocalipse da Internet provocado pela China? Ciberataque de origem russa? Início da Terceira Guerra Mundial? Invasão extraterrestre? Nenhum dos cinco sabe o que pensar. Deveras inquietante. Publicou a Relógio d'Água.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

ESCOLHAS


A espanhola Almudena Grandes (n. 1960) não desiste de radiografar o regime franquista. Começou em 2010 com o romance Inés y la Alegría, primeiro de uma série a que chamou Episódios de uma Guerra Interminável, publicando em 2017 o mais recente, Os Doentes do Doutor García, agora traduzido. Na forja estão outros dois. O livro trata da rede clandestina de evasão de criminosos de guerra nazis, dirigida por Clara Stauffer a partir de Madrid. Como nos anteriores, Almudena Grandes constrói a ficção a partir de factos e personagens reais (são citados pelo nome alguns dos oitocentos nazis que Clara Stauffer ajudou a fugir para Buenos Aires). A acção decorre em vários países, entre 1936, por ocasião do Festival de Ópera de Bayreuth, e 1977, no auge da ditadura militar argentina instaurada por Videla. O médico Guillermo García Medina, conhecido por outros nomes a partir de 1939, e o diplomata Manuel Arroyo Benítez, que também usa nomes falsos, são as personagens fictícias que sustentam este romance deveras empolgante, no qual Almudena Grandes faz um ajuste de contas com a História, ou não fosse ela, além de romancista, também historiadora. / Porto Editora

A reedição de O Bom Soldado, de Ford Madox Ford (1873-1939), traz de volta um mogul da literatura. Simplificando muito, pode-se dizer que Quadrilha, o poema de Carlos Drummond de Andrade, é uma “síntese” irónica, deslocada no tempo, no lugar e nas intenções, da obra-prima que Ford Madox Ford publicou em 1915. O intróito da edição canónica de 1927 (uma carta escrita à mulher, Stella, depois do affaire com Jean Rhys), leva-nos a supor que se trata de um roman à clef. Será Edward Ashburnham um alter-ego do autor? Abrindo com a frase famosa — «Esta é a mais triste história jamais contada.» —, O Bom Soldado é um tratado ácido sobre a imprevisibilidade das paixões. / Relógio d'Água

Quem gosta de ficção científica conhece Frank Herbert (1920-1986), autor de clássicos do género, em particular os seis romances da saga Duna, que David Lynch transpôs para o cinema em 1984. Herbert, um “autodidacta” libertário, é frequentemente comparado a Tolkien, o erudito que escreveu O Senhor dos Anéis. Compósito de política, religião, ecologia e alteração de consciência em ambiente interestelar feudal, num futuro longínquo, tudo gira em torno da mélange da imortalidade. A história de Paul Atreides, senhor de Arrakis (adversário dos Harkonnen), tem galvanizado sucessivas gerações. O volume inclui cartas cartográficas e um glossário da terminologia do Império. / Relógio d'Água

Editar em forma de antologia breve As Farpas que Ramalho Ortigão (1836-1915) publicou entre 1872 e 1883, acrescentando-lhe textos posteriores publicados até 1914, alguns deles na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, é uma forma hábil de pôr o leitor a reflectir sobre o presente, a partir da vida portuguesa durante a monarquia constitucional e nos primeiros anos da República. Francisco Abreu fez a selecção deste Ramalho a solo (como é sabido, Eça de Queirós foi co-autor das Farpas antes de partir para Havana), optando por textos que «denotam uma espantosa — e deveras preocupante — actualidade.» Viriato Soromenho-Marques assina o prefácio. / Manufactura

Saiu finalmente em português o primeiro romance de Richard Zimler (n. 1956), Insubmissos, publicado em língua inglesa em 1996. No prefácio, o autor explica: «Nessa altura [1996] eu ainda não tinha cidadania portuguesa. […] A possibilidade de me ser negada a renovação do visto de trabalho pareceu-nos muito real…» Tendo como Leitmotiv a Sida, então associada à comunidade gay, a tradução ficou “congelada”. Até hoje. Escrito em linguagem crua, Insubmissos aborda a homossexualidade dos seus personagens. Importa pouco saber se o narrador (um professor de guitarra clássica, judeu) e o autor são uma e a mesma pessoa. Lê-se com agrado e as suas ocasionais fragilidades não beliscam o plot. / Porto Editora

Professor de psicologia clínica em Columbia e colaborador de revistas de prestígio, Andrew Solomon (n. 1963) tornou-se conhecido do grande público depois de publicar O Demónio da Depressão. Mas a sua obra tem um espectro mais largo, indo dos direitos LGBT à arte soviética. Tendo o suicídio como denominador comum, a Quetzal reuniu nove ensaios, alguns publicados no New York Tomes, na New Yorker, etc., e editou Um Crime da Solidão. Solomon fala de celebridades que puseram termo à vida, como a designer Kate Spade, o actor Robin Williams, o chef de cozinha Anthony Bourdain, mas também de sua mãe. Um livrinho didáctico que ajuda a perceber as possíveis razões de um acto tão radical. / Quetzal

Clique na imagem.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

SEIS MULHERES


Hoje na Sábado.

À beira de completar 48 anos, a francesa Vanessa Springora (n. 1972), editora da Julliard, publicou Consentimento, primeiro e único livro que escreveu, logo premiado com o prémio Jean-Jacques Rousseau para literatura autobiográfica. A onda de choque atingiu os leitores não familiarizados com os interditos do demi-monde, mas não surpreendeu o meio literário. Poucos ignoram que Gabriel Matzneff gosta de rapariguinhas — e também de rapazinhos —, preferência documentada ao longo da obra, razão pela qual as revelações de Vanessa Springora acrescentam pouco. Perturba descobrir os detalhes da intensa ligação sexual, consentida, que uniu V. e G., ou seja, entre uma rapariga de 14 anos e um homem de 50, mas literatura não é sinónimo de moral. Além do prémio, Consentimento vendeu cerca de cem mil exemplares. Entretanto, os livros de Matzneff, hoje com 84 anos, foram retirados de muitas livrarias francesas, em especial o ensaio Les Moins de Seize Ans (1974). Vanessa Springora resume: escrevi para «apanhar o caçador na sua própria armadilha, prendê-lo num livro.» Valeu a pena?

Acaba de ser traduzido o romance mais recente de Mariana Enriquez (n. 1973), A Nossa Parte da Noite. Jornalista e escritora argentina, a obra de Mariana Enriquez adapta ao imaginário sul-americano a tradição gótica. A partir desse amálgama de fantasia e horror, a autora constrói um universo que os leitores portugueses conhecem desde, pelo menos, As Coisas Que Perdemos no Fogo (2017). Retrato cru da ditadura militar argentina, A Nossa Parte da Noite não constitui excepção. O facto de o fazer por intermédio de uma narrativa que mistura médiuns, satanismo, masmorras, rituais de sexo, etc., não belisca a descrição da tragédia em que o país viveu mergulhado.

Enquanto não chega a biografia de Agustina Bessa-Luís escrita pelo historiador Rui Ramos, um novo contributo faz luz sobre a vida da grande escritora. Refiro-me a Sapatos de Corda, de Mónica Baldaque, relato desempoeirado da vida da mãe: relações de família, o Douro, a Obra, os anos de Esposende, a casa do Gólgota, os Verões em Guéthary, a desconfiança do milieu literário, o enfado com o paroquialismo indígena, a política, as viagens, os filmes de Manoel de Oliveira, a saída de cena em 2007, a presença constante de Alberto Luís. Vasta iconografia ilustra o livro, cheio de episódios surpreendentes, como, entre outros, o do Jaguar que pediu (e recebeu) a título de royalties… Imprescindível.

A obra de Rachel Ingalls (1940-2019) é um dos segredos mais bem guardados da literatura de língua inglesa. Admirada pelos seus pares e nos círculos cultos dos dois lados do Atlântico, não é um nome familiar ao grande público. Agora temos Mrs. Caliban para avaliar a excelência desta americana que viveu quase toda a vida na Inglaterra. Se viu A Forma da Água (2017), o filme de Guillermo del Toro, fica com a sensação de que ele se “inspirou” no livro de 1983. Decerto não por acaso, a obra-prima de Rachel Ingalls foi reeditada em 2017. Enfim, até um leitor distraído se interroga sobre onde viu ou ouviu falar de uma mulher apaixonada por um anfíbio gigante com pele verde-acastanhada. Felizmente, a prosa da autora é infinitamente superior às capacidades do cineasta. Quem gosta de fábulas (esta é sobre solidão) vai com certeza deliciar-se com este romance breve mas intenso.

Um novo subgénero faz o seu caminho: o da literatura de imigrantes sem resquícios de auto-complacência. É o caso de Yaa Gyasi (n. 1989), nascida no Gana, radicada desde criança nos Estados Unidos, autora de dois livros, ambos premiados sob aplauso geral. Reino Transcendente relata o quotidiano de uma doutoranda de Stanford, oriunda de África, forçada a gerir as obrigações académicas com a depressão da mãe. Numa escrita fluente, Yaa Gyasi diz o que tem a dizer sem os clichês associados ao proselitismo étnico da political correctness.

Até aos anos 1970, a literatura francesa foi determinante na cultura do Ocidente. Quase todos crescemos à sombra da vasta plêiade que vai de Balzac a Marguerite Duras, mais uma centena entre ambos. Isso acabou. Annie Ernaux (n. 1940) destaca-se nas raras excepções, como descobrirá quem ler Uma Paixão Simples, brevíssimo récit que volta às livrarias na irrepreensível tradução de Tereza Coelho. Só uma grande autora podia escrever um livro assim, misto de diário («não conto uma história») e bloco de notas, 70 páginas de uma crueza desarmante: «Não quero explicar a minha paixão […] quero, simplesmente, expô-la.» Notável.

Clique na imagem.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

Terminou a especulação em torno da identidade de Elena Ferrante, pseudónimo da tradutora Anita Raja (n. 1943), mas não o ritmo de publicação. Agora traduzido, A Vida Mentirosa dos Adultos mantém a exuberância descritiva da sua ficção. Quem leu a tetralogia A Amiga Genial sabe do que falo. Denominador comum à obra precedente: Nápoles, conflito de classes, a experiência das mulheres, a perversidade das relações familiares. Giovanna mente aos pais, coisa que ambos fazem com ela. Um romance sobre o poder e as consequências da mentira? De certo modo, sim. Aos doze anos, ouvindo o pai dizer à mãe que a filha «está a ficar com a cara de Vittoria» (a tia malvada), descobre-se feia. A partir daí, todo o plot gira em torno da aversão que julga causar. O aspecto mais interessante é o confronto entre a rudeza dos bairros populares e a “respeitabilidade” da cidade burguesa. Não é um livro amável, mas o contrário é que seria de admirar. Editou a Relógio d'Água.

Uma nova tradução do polaco Zbigniew Herbert (1924-1998) traz de volta um autor central à cultura europeia. Natureza Morta Com Brida colige seis ensaios e dez textos apócrifos sobre a cultura dos Países Baixos. Com enfoque nos costumes da Holanda dos séculos XVI e XVII, o ensaio que dá o título ao conjunto disseca a biografia e a obra homónima de Johannes van der Beeck, o pintor que passou à história da arte como Torrentius. O artista foi condenado à fogueira por pertencer à Rosa-Cruz, uma sociedade secreta, mas a repercussão internacional do veredicto valeu-lhe o exílio na corte inglesa. Deveras estimulante. Editou a Cavalo de Ferro.

Traduzidos directamente do russo por Nina e Filipe Guerra, chegaram a Portugal os contos que Ivan Búnin (1870-1953) escreveu durante o exílio no sul de França e reuniu em Alamedas Escuras. Famoso pelo seu diário Os Dias Malditos (1926), Búnin ganhou o Nobel da Literatura em 1933, antes de qualquer outro russo e numa altura em que, ao contrário do que hoje sucede, estava longe de ser um autor célebre, respeitado, traduzido e estudado. O amor e a natureza dominam a obra, embora a condição de émigré, bem como as mudanças ocorridas na Rússia pré e pós-1917, estejam sempre presentes. Esta edição inclui prefácio de Tatiana Mártchenko. Editou a Dom Quixote.

Quem acompanha a literatura espanhola reconhece a importância de Javier Cercas (n. 1962) e sabe que um dos seus traços distintivos radica no hábito de inserir factos reais na trama ficcional. Terra Alta não constitui excepção. Com acção centrada na comarca de Terra Alta, o protagonista, Melchor Marín, mosso d’Esquada com passado problemático, tem um crime nas mãos. O thriller não ignora os atentados islâmicos de Barcelona, o referendo catalão de 2017 e a Guerra Civil. Longe do seu melhor, Terra Alta ganhou o Prémio Planeta 2019. Editou a Porto Editora.

Mais de 30 anos passados sobre a fatwa que o aiatola Khomeini decretou contra si, Salman Rushdie (n. 1947) continua a ser uma das grandes vozes da literatura de língua inglesa. Cervantes deu o tiro de partida, mas Quichotte, a obra mais recente de Rushdie, faz vénia ao surrealismo, sem esquecer Voltaire e Ionesco. O «viajante de origem indiana...» que atravessa a América, radiografa o caos actual. Com reality shows no centro da intriga, Quichotte tem outro livro dentro, modo de ilustrar, em dois andamentos, o desconcerto do mundo. Uma coisa sabemos: Rushdie himself não é outro senão Miss Salma R., «estrela de uma dinastia de estrelas». Digamos que a obra do autor já conheceu melhores dias. Editou a Dom Quixote.

Organizado por António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, saiu O Cânone. A partir de autores nascidos entre 1391 (o rei Dom Duarte) e 1939 (Luiza Neto Jorge), os três editores, o historiador Rui Ramos e 22 ensaístas, escrevem sobre 47 autores, mais as Três Marias, poetas laureados, revistas e críticos. Entre outros textos, António M. Feijó assina a introdução, Miguel Tamen escreve sobre a lógica interna do livro, Anna M. Klobucka sobre mulheres na literatura, João R. Figueiredo sobre escritores homossexuais, etc. Como vem escrito, trata-se de «um livro de crítica literária para nos fazer pensar sobre a literatura portuguesa.» Meia dúzia de omissões geraram controvérsia, assente, como de regra, em clubismo. Tudo visto, o saldo é deveres positivo. Editaram, em co-edição, a Fundação Cupertino de Miranda e a Tinta da China.

Clique na imagem.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

SEIS LIVROS


Hoje na Sábado.

A rentrée trouxe novidades há muito aguardadas. Entre elas, a edição em volume único da autobiografia de Ruben A., a edição da poesia reunida de Leonor de Almeida, romances novos de Colson Whitehead, David Grossman e Bernardine Evaristo, mas também a oportuna reedição do clássico de Daniel Defoe sobre a Grande Peste de Londres.

No ano do centenário do nascimento de Ruben A. (1920-2020), o mais secreto dos grandes autores portugueses, reeditam-se num único volume os três tomos de O Mundo À Minha Procura, autobiografia publicada entre 1964 e 68. Natural de Lisboa, Ruben Alfredo Andresen Leitão morreu em Londres, cidade onde viveu vários anos. Em Setembro de 1975, um ataque de coração impediu que assumisse o cargo de Senior Fellow no St Antony’s College de Oxford. Tinha 55 anos e uma obra dividida entre ficção (contos e romances), dramaturgia, narrativa de viagem, diarística e História. Salazar chamava-lhe “o maluco”. Não obstante, após ter trabalhado cerca de 20 anos na embaixada do Brasil em Lisboa, foi administrador da Imprensa Nacional e director-geral dos Assuntos Culturais do ministério da Educação e Cultura. A Torre da Barbela, romance de 1964, é um dos títulos centrais do cânone nacional. Escrito em registo desembaraçado e culto, O Mundo À Minha Procura conta agora com um prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa. 

Leonor de Almeida (1909-1983) é hoje um nome ignorado por quase toda a gente. Em boa hora decidiu Vladimiro Nunes reunir os quatro livros que constituem a sua poesia completa. Na Curva Escura dos Cardos do Tempo é o resultado desse trabalho, com o detalhe de seriar os livros por ordem inversa à da publicação original. Estabelecendo, no prefácio, o guião da recepção crítica da poeta, Ana Luísa Amaral estranha a desatenção de que Leonor de Almeida, uma feminista avant la lettre, tem sido alvo. Publicada quase em simultâneo, a monografia biogáfica Tatuagens de Luz, de Cláudia Clemente, ilumina a personalidade de uma autora que urge descobrir.

Quem acompanha a ficção norte-americana não ignora Colson Whitehead (n. 1969), duas vezes laureado com o Pulitzer de Ficção — proeza até ao momento apenas lograda por Tarkington, Faulkner e Updike —, primeiro com A Estrada Subterrânea, agora com Os Rapazes de Nickel, acabado de traduzir. Voltamos à escavação do passado, neste caso aos horrores da Dozier School, o reformatório da Flórida onde desde 1899 rapazes negros foram torturados e enterrados num cemitério secreto. O romance ficciona essa realidade macabra, descoberta por estudantes universitários de arqueologia. Dito de outro modo: a experiência pessoal de Elwood transforma o terrorismo racial em Literatura. 

O mais recente romance do israelita David Grossman (n. 1954), A Vida Brinca Comigo, confirma-o como uma das grandes vozes actuais. O livro inspira-se em factos verídicos, em particular nos vividos por uma sobrevivente de Goli Otok, a ilha croata do Mar Adriático que serviu de prisão e campo de trabalhos forçados. Quando as personagens do romance (Vera, Nina, Guili e Rafi) visitam o local, é todo o passado que regressa. Não obstante a secura da linguagem, A Vida Brinca Comigo é o relato envolvente e doloroso da história de duas famílias.

Com o vibrante Rapariga, Mulher, Outra, a britânica Bernardine Evaristo (n. 1959) venceu, ex-aequo com Margaret Atwood, o Man Booker Prize de 2019. Bernardine, filha de pai nigeriano, constrói um mosaico com 12 personagens principais (Amma, Yazz, Dominique, Carole, Bummi, LaTisha, Shirley, Winsome, Penelope, Megan-Morgan, Hattie, Grace) através de cujas vidas, cosidas num patchwork multicultural, vão sendo abordadas questões pós-coloniais e de identidade de género. É pena que Nzinga, feminista radical e rainha do vodu, não tenha direito a capítulo próprio. Logo a abrir, não é difícil identificar em Amma, uma dramaturga lésbica negra, o alter-ego da autora. Nem todas são jovens habitantes de Londres. Hattie, por exemplo, tem 93 anos e mora no Norte da Inglaterra. Em suma, um retrato muito nítido do Reino Unido contemporâneo.

Pelas piores razões, vem a propósito a reedição de Diário do Ano da Peste, o clássico que Daniel Defoe (1660-1731) publicou em 1722 a seguir ao sucesso planetário de Robinson Crusoe. Defoe era uma criança quando a peste bubónica dizimou 200 mil pessoas em Londres, mas o livro faz um relato impressivo da epidemia, incluindo listas com as directivas impostas pelo Lord Mayor para controlo de danos. Precursor do romance moderno inglês, Defoe foi, além de homem de negócios, um político muito interventivo e ocasional espião. Rui Tavares assina o prefácio.