domingo, 2 de maio de 2021

JUDITH TEIXEIRA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Ausência de Judith Teixeira (1880-1959), primeira mulher a assumir, na poesia portuguesa, a sua condição de lésbica.

Natural de Viseu, Judith Teixeira foi um dos três poetas alvo da campanha promovida, em 1923, pela Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa (com o patrocínio de Pedro Teotónio Pereira, Marcello Caetano e toda a imprensa conservadora), contra «os invertidos». Os outros eram António Botto e Raul Leal. No dia 5 de Março desse ano, o Governo Civil de Lisboa apreendeu as suas obras, mais tarde queimadas no Rossio. Marcello Caetano chamou-lhe “desavergonhada”.

A 28 Maio de 1926 deu-se em Braga o golpe militar que pôs fim à Primeira República.

Figura proeminente do Modernismo português, Judith Teixeira publicou três livros, um deles as novelas de Satânia (1927), fez conferências e dirigiu a revista Europa, tornando-se o bode expiatório da desordem social que o fascismo associava à Primeira República. 

Foi casada com dois homens, primeiro com um empresário, depois com um advogado de origem aristocrática. A partir da ditadura militar (1928-33) que antecedeu o Estado Novo, nunca mais publicou. Deixou dispersos, coligidos nos anos 1990. Viajou, terá feito vida boémia, e geriu um negócio de antiguidades.

Um estudo de António Manuel Couto Viana, publicado em 1974 — considerando-a «a única poetisa Modernista» —, continua a ser o texto de referência sobre a sua obra. Judith Teixeira não se encontra representada em nenhuma antologia de poesia portuguesa.

Morreu na casa de Campo de Ourique (Lisboa) onde residia, a 17 de Maio de 1959. Tinha 79 anos.

O poema desta semana pertence a Nua. Poemas de Bizâncio (1926). A imagem foi obtida a partir de Poemas, volume da obra completa organizado por Maria Jorge e Luis Manuel Gaspar, publicado pela & etc em Setembro de 1996.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão, Fiama Hasse Pais Brandão e Reinaldo Ferreira.]

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sábado, 1 de maio de 2021

PRIMEIRO DE MAIO


Celebra-se hoje o Dia Internacional dos Trabalhadores. Tudo começou em 1886, quando, no âmbito da luta pelas oito horas de trabalho diário (metade da média horária praticada à época), os motins de Haymarket, em Chicago, levaram a Segunda Internacional a escolher a data por proposta da Federação Americana do Trabalho.

Em Portugal, hoje, talvez seja altura de reflectir sobre as condições de trabalho dos migrantes sem os quais a nossa indústria agrícola não teria expressão. Para eles não há sindicatos, nem contratos colectivos de trabalho, nem eco nos media.

Há pelo menos vinte anos que os trabalhadores por conta de outrem perdem direitos que nos anos 1970 eram dados por adquiridos. Mas a situação das populações deslocadas, aqui e em toda a parte, é especialmente revoltante.

Na imagem, o 1.º de Maio de 1974, em Lisboa. A primeira vez que a data foi celebrada sem bufos da Pide e cavalaria da GNR. Entre outros, vêem-se Sophia, Gastão Cruz, Armindo Rodrigues e, de barbas e boina, Fernando Grade.

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quinta-feira, 29 de abril de 2021

PASSAPORTE COVID


Por 540 votos a favor, 119 contra e 31 abstenções, o Parlamento Europeu aprovou esta manhã o passaporte Covid.

Dito de outro modo, um certificado em suporte digital ou em papel, comprovando que o portador foi vacinado, ou, não tendo sido, se um teste efectuado nas 48 horas anteriores à viagem deu resultado negativo. 

Teoricamente, sem o referido passaporte, o atravessamento de fronteiras obrigará a quarentenas. Em todo o caso, diz-nos a experiência, cada membro da UE fará o que os seus interesses ditarem. 

A ver vamos como a presidência portuguesa da UE gere os detalhes técnicos do assunto.

Imagem: tuíte da presidente da Comissão Europeia a saudar a aprovação. Clique.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

NONSENSE


Se não comprou, já não compra. A Norton suspendeu a distribuição, incluindo a das versões digitais, e mandou retirar das livrarias a biografia de Philip Roth escrita por Blake Bailey, o conceituado biógrafo de John Cheever, Richard Yates e Charles Jackson. O livro estava à venda há três semanas.

Bailey é acusado por antigas alunas de má-conduta e assédio sexual. E Valentina Rice, uma executiva editorial de 47 anos, acusa-o mesmo de sexo não consentido.

Redes de livrarias e plataformas dominantes como a Amazon, a Barnes & Noble e a Recorded Books não aceitam mais livros do autor. Por exemplo, The Splendid Things We Planned, as memórias que Bailey publicou em 2014, já não estão disponíveis.

Julia A. Reidhead, CEO da Norton, vai doar a organizações que apoiam vítimas de assédio sexual uma soma equivalente ao adiantamento pago a Bailey, ou seja, cerca de um milhão de dólares.

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segunda-feira, 26 de abril de 2021

AUTARQUIAS & PANDEMIA

Para quem tanto barafusta com a dependência do Terreiro do Paço, Rui Moreira deu prova de que o Princípio de Peter se lhe aplica. Ou então é só descaso. Entre uma coisa e outra, venha o Diabo e escolha. Afinal, o Estado central sempre dá muito jeito.

Muito resumidamente: em 2020, a Câmara de Lisboa gastou 6,7% do seu orçamento em acções de combate à pandemia, enquanto a do Porto gastou 1,78%.

Dito de outro modo: em 2020, Lisboa investiu 77,7 milhões de euros, 55 dos quais a fundo perdido (restauração e comércio), enquanto o Porto apenas investiu 5,6 milhões. 

Mais: em 2020, para financiar acções de combate à pandemia, o investimento da Câmara do Porto foi inferior ao das Câmaras de Cascais e Sintra, que investiram, para o mesmo fim, 25 e 20 milhões de euros respectivamente.

O concelho de Lisboa tem cerca de 515 mil habitantes, o de Sintra cerca de 380 mil, o do Porto cerca de 240 mil e o de Cascais cerca de 215 mil.

HOPKINS & FRANCES


Sem grande surpresa, os Óscares foram para Nomadland, melhor filme, Chloé Zhao, melhor realizadora, Frances McDormand, melhor actriz, Anthony Hopkins, melhor actor, Yuh-Jung Youn, melhor actriz coadjuvante, Daniel Kaluuya, melhor actor coadjuvante, e Druk, do dinamarquês Thomas Vinterberg, melhor filme estrangeiro. Sobram mais uns tantos, importando destacar o de melhor fotografia [Erik Messerschmidt] para Mank.

Aos 83 anos, Hopkins ganhou pela segunda vez o Óscar de melhor actor. Desta vez por The Father. À beira de completar 74, a sul-coreana Yuh-Jung Youn ganhou o primeiro, como actriz coadjuvante. 

Chloé Zhao, 39 anos, nascida em Pequim, tornou-se a segunda mulher, em 93 anos, a ganhar o Óscar de melhor realização. Ms Zhao nasceu na China mas frequentou colégios privados ingleses e a Universidade de Nova Iorque. Vive nos Estados Unidos desde 1999.

Disponível na Netflix, Mank é uma seca, mas tem uma fotografia soberba. Frances McDormand, por quem nunca morri de amores, entra na galeria dos que receberam três Óscares.

Clique na fotografia de Hopkins.

domingo, 25 de abril de 2021

REINALDO


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia de Reinaldo Ferreira (1922-1959), nome destacado da poesia portuguesa escrita em Moçambique.

Começar por esclarecer: em Portugal, quase toda a gente confunde o poeta com seu pai, o mais famoso jornalista português dos anos 1920 e 30, que assinava com o pseudónimo de Repórter X. Além de jornalista, o Repórter X era também novelista, dramaturgo, realizador e produtor de cinema. [Em 1986, José Nascimento fez Repórter X, o filme.] Tendo ambos o mesmo nome civil, a confusão é de regra, até porque Reinaldo filho, o poeta, viveu em Lourenço Marques a partir dos 17 anos.

Estando seus pais radicados em Barcelona, foi ali que Reinaldo nasceu. Com a chegada ao poder de Primo de Rivera, a família regressou a Portugal. Mais tarde, por razões nunca devidamente esclarecidas, o futuro poeta foi terminar o liceu a Lourenço Marques, cidade onde viveu até morrer.

Funcionário da Administração Civil, Reinaldo foi publicando poemas nos suplementos literários da imprensa local, sem nunca ter organizado um livro em vida. Escrito no início dos anos 1950, Receita Para Fazer um Herói passou a integrar o cânone da Guerra Colonial.

Homossexual assumido, figura mítica da gay scene laurentina, tornou-se responsável, a partir de 1952, pela secção de teatro do Rádio Clube de Moçambique, para onde traduziu peças de vários autores.

Escreveu as letras de canções interpretadas por, entre outros, Amália [Uma Casa Portuguesa] e Zeca Afonso [Menina dos Olhos Tristes], bem como, sob o pseudónimo de Reinaldo Porto, o guião e as canções de musicais exibidos em Lourenço Marques.

Vítima de cancro no pulmão, morreu antes de completar 37 anos.

O poema desta semana pertence a Um Voo Cego a Nada, primeira sequência da obra poética completa, coligida no volume Poemas, publicado pela Imprensa Nacional de Moçambique no primeiro aniversário (1960) da sua morte. A imagem foi obtida a partir desse livro. Em Portugal estão publicadas outras duas edições (1962 e 1998), prevendo-se para breve uma terceira.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca, António Gedeão e Fiama Hasse Pais Brandão.]

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47 ANOS


Passam hoje 47 anos sobre a queda da ditadura. Quem nasceu em democracia não tem noção de como era viver num país miserável.

Não concebe sequer o totalitarismo de Estado, o regime de Partido único, os malefícios da censura (no ensino, imprensa, literatura, música, teatro, rádio, cinema, televisão, etc.), as arbitrariedades da polícia política, os treze anos de guerra colonial, a rígida hierarquia de classes, o ostracismo de grande parte da comunidade internacional. O inventário é longo, não fica por aqui.

Clique na fotografia de Alfredo Cunha, tirada quando ainda não se sabia se a Fragata F-743 bombardearia o Terreiro do Paço.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

ALVALADE CAPITAL DA LEITURA


Agora que é oficial, torno público: este ano serei o autor homenageado em Alvalade Capital da Leitura.

A semana começa no dia 31 de Maio, com um colóquio na Biblioteca Nacional de Portugal, terminando no dia 5 de Junho com o lançamento do meu livro Devastação, no Museu Bordalo Pinheiro, onde será apresentado pela professora Teresa Sousa de Almeida e o actor Luis Lucas lerá um dos contos.

Estou naturalmente feliz por se terem lembrado de mim. Sobretudo por suceder a três dos mais ilustres dos meus pares — José Cardoso Pires (2018), Aquilino Ribeiro (2019), Lídia Jorge (2020), todos antigos ou actuais moradores em Alvalade —, reunindo à minha volta um conjunto de personalidades que admiro: poetas, ficcionistas, ensaístas, críticos, professores de Literatura, cientistas sociais, actores, especialistas em estudos de género, jornalistas e gestores culturais.

Além do colóquio de abertura, sobre poesia, a realizar na BNP, e do lançamento do livro, haverá sessões temáticas: crítica literária, literatura LGBT, memórias de Lourenço Marques. Mas também uma noite de poesia e um mural público, de Vanessa Teodoro, inspirado num dos meus poemas. Tudo isto em locais icónicos de Alvalade, que divulgarei assim que o programa estiver impresso.

Embora estejam todos confirmados, não revelo nomes por enquanto. Uma coisa sei: não podia estar em melhor companhia.

Carlos Vaz Marques é o curador do evento.

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DIA MUNDIAL DO LIVRO


Celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, instituído em 1995 pela UNESCO. 

A data coincide com a morte, no mesmo dia, de Cervantes e Shakespeare. Passam hoje 405 anos.

Em Espanha, no Reino Unido, na Irlanda e na Suécia, o Dia Mundial do Livro é celebrado em datas diferentes.

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quinta-feira, 22 de abril de 2021

MAÇON, SER OU NÃO SER

O PSD e o PAN querem obrigar os titulares de altos cargos públicos a declararem publicamente se devem obediência a uma Loja maçónica. Abstenho-me de classificar o disparate.

O projecto do PSD quer registo obrigatório (nem Salazar se atreveu a ir tão longe). O projecto do PAN fica-se pela recomendação.

Hoje, José Adelino Maltez, maçon assumido, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, foi ouvido no Parlamento. Entre outras coisas, disse: «A Assembleia da República é o maior templo de maçonaria em Portugal

As vestais rasgaram as vestes, mas Maltez continuou: «O PSD é o partido com mais maçons, não é o PS...» Sim, deputados. Sim, mais de metade dos candidatos às próximas eleições autárquicas. E por aí fora.

André Silva, do PAN, e um deputado do PSD que não sei quem seja, perderam as estribeiras. Perante a chicana, Maltez nunca perdeu a compostura.

Em que país julgam viver estas criaturas que um dia chegaram a deputados? Não conhecem a História da Europa? Nunca foram a Washington?

quarta-feira, 21 de abril de 2021

BLACK LIVES MATTER


Derek Chauvin, o polícia que a 25 de Maio do ano passado matou George Floyd numa rua de Minneapolis, foi declarado culpado das três acusações de homicídio de que está acusado.

A partir do veredicto do júri, proferido ontem, o tribunal decidirá dentro de oito semanas qual a pena, nunca inferior a 40 anos. 

Neste caso, o crime de homicídio em segundo grau é agravado por três factores: abuso de autoridade / crime de ódio / presença de crianças no local.

Chauvin saiu do tribunal algemado, tendo de aguardar preso a sentença.

O assassinato de George Floyd, um homem de 46 anos, desempregado, que sufocou até morrer deitado no chão de cara para baixo, com o joelho de Chauvin a pressionar-lhe o pescoço durante 9 minutos e 29 segundos, deu origem a manifestações em prol dos direitos civis, em todos os Estados americanos (muitas delas violentas), mas também em sessenta países.

Os três colegas de Chauvin que assistiram à tortura sem nada fazer (os polícias Kueng, Lane e Thao), serão julgados a partir de 23 de Agosto.

Na imagem, Chauvin a sair do tribunal.

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segunda-feira, 19 de abril de 2021

DEVASTAÇÃO

 


Nas livrarias a partir do próximo 25 de Maio. São contos. Clique.

48 ANOS


Passam hoje 48 anos sobre a fundação do Partido Socialista. 

Nesse distante 19 de Abril de 1973, vinte e sete membros da Acção Socialista Portuguesa, oriundos de Portugal e outros países, reunidos na Fundação Friedrich Ebert, em Bad Münstereifel, votaram a favor da transformação da ASP em PS. Sete votaram contra.

Assim nasceu o PS.

A lista de fundadores é mais extensa que os dezanove da imagem, porque nem todos puderam deslocar-se à Alemanha.

A foto é da Fundação Mário Soares. Clique.

CENSOS 2021


Começa hoje o período de resposta ao Censos 2021. Até ao próximo 3 de Maio, há que preencher, este ano de forma online, os questionários.

Os códigos de acesso foram distribuídos pelo INE (nós recebemos os nossos no passado dia 15) em boletim próprio. Para quem não responder, as coimas podem ir até 25 mil euros.

Até 1970, o censo realizava-se nos anos zero (1900, 70). A partir da década seguinte passou para o ano um (1981, 2011). Em Portugal e no resto do mundo.

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DESCONFINAR


Ora vamos lá desconfinar mais um pouco.

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domingo, 18 de abril de 2021

FIAMA


UM POEMA POR SEMANA — Para hoje escolhi O Miradouro, de Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), personalidade hierática da vida literária portuguesa, de quem se diz ter sido hermética entre os herméticos. Discordo.

Natural de Lisboa, Fiama viveu numa quinta de Carcavelos até aos 18 anos, tendo feito os primeiros estudos na St Julian’s School. Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa conheceu Gastão Cruz, com quem foi casada. Juntos, editaram a Antologia de Poesia Universitária (1964) e deram consistência teórica ao movimento Poesia 61. A obra canónica abre com Morfismos (1961), justamente porque Fiama rasurou os dois livros anteriores, um dos quais premiado.

Além de poesia, Fiama escreveu teatro, ensaio, récits e o romance Sob o Olhar de Medeia (1998). Na área do ensaio ocupou-se sobretudo de teatro, Camões, Gil Vicente e a influência da Cabala na poesia portuguesa dos séculos XVI a XVIII. Como tradutora, verteu para português obras de Artaud, Brecht, Novalis, Tchekov e outros. Entre todas, destacaria a versão que fez do Cântico Maior Atribuído a Salomão (1985), integrada na sua obra poética.

O teatro foi sempre uma paixão. Talvez por isso, a seu respeito, se fale do teatro da voz. Fiama estagiou no Teatro Experimental do Porto, fez crítica, fundou com Gastão o Teatro Hoje (Lisboa), frequentou na Gulbenkian um seminário de Gutkin, encenou Mariana Pineda de Lorca e, por último mas não em último, escreveu sete peças, algumas das quais representadas.

Investigadora de linguística, disse um dia que O Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro fora o primeiro livro infantil que lera. Em 1992 deixou Lisboa, voltando à quinta de Carcavelos. Em Portugal recebeu todos os prémios que havia para receber, excepto o Camões. Morreu aos 68 anos.

O poema desta semana pertence a (Este) Rosto, de 1970, mais precisamente à sequência que nesse livro se chama ‘A Vez das Vilas’. A imagem foi obtida a partir de Obra Breve, volume da poesia reunida, publicado em 2006 pela Assírio & Alvim.

[Antes deste, foram publicados poemas de Rui Knopfli, Luiza Neto Jorge, Mário Cesariny, Natália Correia, Jorge de Sena, Glória de Sant’Anna, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Florbela Espanca e António Gedeão.]

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quinta-feira, 15 de abril de 2021

ASTRAZENECA, OF COURSE


Fomos hoje vacinados (18:30) no Estádio Universitário de Lisboa. Não podia ter corrido melhor. A DGS, em articulação com a Câmara de Lisboa, tem feito um trabalho irrepreensível.

Na imagem, entre o meu marido e eu próprio, vê-se Lídia Brás, a operacional que nos acompanhou durante o processo. Clique.

SEIS ESCOLHAS


Hoje na Sábado.

O gigante perdido da literatura americana, como é conhecido William Melvin Kelley (1937-2017), chegou finalmente à edição portuguesa. Depois da morte do autor, Um Tambor Diferente, o aclamado romance de estreia, tem sido reeditado em todo o mundo. Kelley, que também foi professor de escrita criativa no Sarah Lawrence College, deixou uma obra parcimoniosa: cinco títulos, publicados entre 1962 e 1970. Mesmo oriundo de Harvard e vivendo em Nova Iorque, onde o comparavam a Faulkner e James Baldwin, era complicado um negro impor-se no milieu literário norte-americano. Isso explica que tenha vivido quase uma década entre Paris e Roma, radicando-se em 1968 na Jamaica. Escrito quando a luta pelos direitos civis marcava a agenda política, Um Tambor Diferente é o relato vibrante da rejeição, por parte de Tucker Caliban (o protagonista), das iniquidades do Sul Profundo. Após salgar as terras, abater o cavalo e deitar fogo à casa onde vivia com a mulher grávida, Tucker parte para o Norte, decisão que desencadeia o êxodo da comunidade negra. A originalidade do plot reside no facto de ser narrado a partir do ponto de vista dos brancos. Publicou a Quetzal.

A reedição de Fome, do norueguês Knut Hamsun (1859-1952), traz de volta um autor controverso. Admirador de Hitler e Goebbels, racista confesso, colaborador nazi, foi julgado e condenado por traição ao seu país. Além de romances e contos, Hamsun escreveu poesia, ensaios e panfletos. Após publicar Os Frutos da Terra (1917), recebeu o Nobel da Literatura em 1920. O domínio do fluxo de consciência acentua o carácter autobiográfico de Fome, o seu primeiro livro (1890), elogiado por Gide, Thomas Mann e outros. Liliete Martins traduz directamente do norueguês. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrito para a BBC Radio, Estilicídio, do galês Cynan Jones (n. 1975), são esses doze episódios em forma de livro. Estilicídio significa ‘queda de água gota a gota’. Série de antecipação sobre como sobreviver a uma crise climática de proporções bíblicas, coloca o leitor perante a possibilidade da falta de água. A acção centra-se numa grande metrópole (admitamos que seja Londres) devastada por uma sucessão de secas e enchentes. Uma das alternativas consiste em rebocar um iceberg do Ártico. Falta porém consenso entre quem manda, a população, os ambientalistas e, como é de regra, os terroristas que também entram na história. Resumindo: Estilicídio ecoa todas as harmónicas possíveis num guião televisivo. Publicou a Elsinore.

É sempre gratificante voltar a Cesare Pavese (1908-1950), nome maior da literatura italiana. Poeta, ficcionista, ensaísta, diarista, crítico, tradutor de Joyce, Melville e outros, Pavese suicidou-se aos 41 anos, poucos meses depois de receber o Prémio Strega e de publicar A Lua e as Fogueiras, o livro derradeiro. Narrado na primeira pessoa («Há uma razão para eu ter voltado para esta aldeia…») pela voz de um emigrante regressado da América após o fim da Segunda Guerra Mundial, demonstra a impossibilidade de resgatar o passado. Tudo rui à sua volta, e nem a fortuna acumulada desfaz a condição de “bastardo”. Uma elegia seca e amarga dos lugares e pessoas da remota infância. Publicou a Bertrand.

Quando George Orwell (1903-1950) escreveu 1984, estava longe de supor o impacto que o livro teria nas gerações vindouras. Agora que a obra caiu em domínio público, sucedem-se as reedições. A obra de Orwell recentrou a distopia em literatura, na medida em que o seu precedente mais célebre, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, não resistiu à usura do tempo. Pelo contrário, o Grande Irmão (o Big Brother) faz parte do imaginário contemporâneo. Escrito com a intenção de denunciar o totalitarismo estalinista, a tese do controlo total por parte do Partido é o Leitmotiv do romance. Um dos personagens, o poeta Ampleforth, intelectual praticante da Novilíngua, parece ser uma caricatura de Auden. Gonçalo M. Tavares assina o prefácio. Publicou a Relógio d'Água.

Numa altura em que se verifica o avanço de forças extremistas em democracias consolidadas, convém ler O Regresso da Ultradireita, de Cas Mudde (n. 1967), o cientista político holandês que tem escrito sobre as várias formas de populismo. Analisando a rapidez com que partidos tradicionais, outrora conservadores, interiorizaram o discurso de homens como Trump ou Bolsonaro, Mudde faz um tour d’horizon às franjas radicais que controlam os governos de vários países, dentro e fora da Europa. A quarta vaga da ultradireita é o enfoque do livro. Por que é que há vinte anos as opiniões públicas reagiam indignadas à xenofobia, e hoje reagem com um bocejo à sua “normalização”? Publicou a Presença.

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quarta-feira, 14 de abril de 2021

O ÚLTIMO?

Foi aprovado esta tarde, na Assembleia da República, o 15.º estado de emergência, que vigorará entre os próximos dias 16 e 30.

Votos a favor — PS, PSD, CDS, PAN e uma deputada não-inscrita.

Votos contra — PCP, PEV, IL, CH e JKM.

O BE absteve-se.

O Presidente da República fala hoje (20:00) ao país.