sábado, 1 de fevereiro de 2020

A NOVA BAIXA


A revolução que Medina anunciou ontem para a Baixa de Lisboa, uma vasta área que vai do Terreiro do Paço ao Marquês de Pombal, abrangendo todo o Chiado, o Príncipe Real, a Avenida Liberdade, os Restauradores, o Rossio, o Martim Moniz, etc., está programada para Julho próximo.

Grosso modo, consiste em menos faixas de rodagem, passeios mais largos, circulação restrita a transportes públicos e carros 100% eléctricos (excluem-se os híbridos), interdição total de autocarros turísticos, aumento de ciclovias, estacionamento reservado a moradores.

Por junto, entre a Avenida da Liberdade, os Restauradores, o Rossio, o Martim Moniz e o Chiado, desaparecem 600 lugares de estacionamento à superfície, ficando o estacionamento subterrâneo dos Restauradores para uso exclusivo de residentes e assinantes de avença. Tudo isto controlado por pórticos de reconhecimento de matrículas.

A discussão pública decorre até à primeira quinzena de Março.

Nada contra. Mas olho para uma das imagens divulgadas, a da Rua Garrett, e não posso deixar de me surpreender com os canteiros. Mesmo não fazendo barreira horizontal como faziam os que Abecasis mandou construir na Rua do Carmo (impedindo parte do trabalho dos bombeiros no Grande Incêndio de 1988), parecem-me supérfluos.

Haja bom senso na discussão pública.

Clique na imagem da Rua Garrett a devir.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

AT LAST


Hoje é o dia do Brexit.
Na imagem do Guardian, o Mall de Londres. Clique

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

ESCOLHAS DE JANEIRO


Hoje na Sábado.

Lawrence Ferlinghetti fez cem anos em Março de 2019, data que assinalou com o romance autobiográfico Rapazinho, no qual revela a sua atribulada infância com a tia Émilie, que o levou ainda criança para Estrasburgo, o regresso a Nova Iorque, a vida em casa dos Bisland, o colégio, a Marinha de Guerra, a passagem pelas ruínas de Nagasaki, a nostalgia de Paris, o salto para a Califórnia, etc. Poeta, escritor, livreiro, editor e artista plástico, Ferlinghetti deu a conhecer ao mundo a Geração Beat (Ginsberg, Kerouac e outros), foi julgado por obscenidade, tornou-se o símbolo de todas as transgressões, vendeu um milhão de exemplares do seu livro de poesia A Coney Island of the Mind (1958) e, em 1998, foi nomeado Poet Laureate. Em Rapazinho, o mais impressionante é a vitalidade da prosa, o testamento de um grande autor. Admirável. Publicou a Quetzal.

Pouca gente se lembra hoje da inglesa Anna Kavan (1901-1968), morta por overdose de heroína, cuja última e mais conhecida obra, Gelo, agora traduzida, antecipa uma era pós-nuclear centrada em alterações climáticas. O mundo está a ser engolido pelo gelo e a catástrofe traz com ela o autoritarismo: «Além do mais, não há transportes, a não ser para entidades oficiais.» Não sabemos onde isto acontece, nem com quem (o narrador não tem nome), sabemos apenas que há controlo militarizado. Será o colapso da sociedade uma metáfora da disfunção psicossocial da autora? Publicou a Cavalo de Ferro.

História da Violência, do francês Édouard Louis (n. 1992), é o romance de um estupro na noite de Natal. Narrado na primeira pessoa, o livro descreve a violação do autor pelo cabila com quem passou essa noite. A partir do comportamento da irmã, amigos, médicos e polícias, Édouard Louis analisa preconceitos de classe, xenofobia e homofobia, bem como as sequelas da descolonização da Argélia. Publicou a Elsinore.

O penúltimo romance do austríaco Robert Seethaler (n. 1966), Uma Vida Inteira, é uma viagem pelo século XX. Andreas Egger passou por tudo: brutalizado em rapaz pelo parente que o adoptou, fisicamente diminuído, prisioneiro de guerra, operário, guia turístico da região onde mais sofreu, nem por isso perde a esperança e o sentido de humor. Numa linguagem isenta de ênfase, Seethaler faz o relato comovente de uma vida. Publicou a Porto Editora.

A literatura está cheia de personagens com quem crescemos. Alberto Manguel (n. 1948) chama-lhes amigos literários. Juntou-os em Monstros Fabulosos, espécie de dicionário com 38 entradas: Capuchinho Vermelho, Fausto, Super-Homem e outros. Selecção criteriosa, da Bíblia à banda desenhada, passando por Eça de Queirós, pela mitologia e por contos infantis. Ensaios breves, eruditos, ecoando memórias pessoais. Um belo companion de leitura. Publicou a  Tinta da China.

A história de dois ordenhadores de 17 anos que são recrutados pelas Waffen-SS é o tema de Morrer na Primavera, romance do alemão Ralf Rothmann (n. 1953). Não obstante a marca autobiográfica, o leitor lembra-se do facto de Günter Grass ter sido recrutado com a mesma idade por aquela divisão do exército nazi. Culpa é o sentimento dominante: Walter, o narrador, vê-se obrigado a fuzilar o melhor amigo. Para quê? Quando a guerra acaba, a ordenha é feita por máquinas. Publicou a Sextante.

Ilustrar a vida de uma dúzia de escritoras com opiniões fortes é o propósito da jornalista canadiana Michelle Dean (n. 1979), que escolheu Dorothy Parker, Rebecca West, Zora Neale Hurston, Hannah Arendt, Mary McCarthy, Susan Sontag, Pauline Kael, Joan Didion, Nora Ephron, Lillian Hellman, Renata Adler e Janet Malcolm para escrever De Língua Afiada. O layout da edição portuguesa faz supor que se trata de uma colectânea de textos das referidas autoras. Não é. Como o subtítulo indica — Mulheres que fizeram da opinião uma arte —, trata-se de um ensaio biográfico sobre mulheres que marcaram a cena literária. O livro acompanha a onda actual do movimento feminista, embora muitas delas tenham estado em rota de colisão «com as posições políticas do feminismo…» Publicou a Quetzal.

Um dos aspectos menos conhecidos do Holocausto diz respeito à destruição de livros hebraicos. Esse desconhecimento foi ultrapassado com a publicação de Os Homens Que Salvavam Livros, do historiador David E. Fishman (n. 1957). A ocupação da Polónia e da Lituânia, pelos nazis e pelos soviéticos, é o foco do livro. Fishman dá a conhecer os homens e mulheres que fizeram a “Brigada do Papel” no gueto de Vilnius. Além de mapas, o volume inclui portfolio fotográfico. Publicou a Presença.

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RESGATE


Partem hoje de Beja três aviões da Hi Fly com a missão de resgatar cidadãos europeus retidos em Wuhan: o primeiro às 10 da manhã, o segundo às 11 e o terceiro às 15. Foi à companhia da família Mirpuri, especializada no fretamento de aviões comerciais, que a Comissão Europeia, através do Mecanismo Europeu de Protecção Civil, os fretou.

O voo das 10 da manhã será feito por um A-380, o maior avião comercial do mundo, com capacidade máxima para 853 passageiros, embora as companhias que o utilizam (casos da Emirates, Etihad, Quatar, Singapore Airlines, Qantas, Lufthansa, Air France, British Airways, etc.) tenham optado pela versão de 520 lugares em três classes. Desconhece-se a versão a utilizar no voo da Hi Fly.

O avião sai de Beja, único aeroporto português onde o A-380 pode operar, com destino a Paris, para embarcar médicos e outros profissionais de saúde, num total de 30 pessoas. De Paris segue para Hanói, sendo a ligação com Wuhan efectuada por outro avião, provavelmente chinês. O voo das 11 horas segue o mesmo percurso. O das 15 não passa por Paris, mas por Bruxelas. O destino final é sempre o Vietname.

Os dezassete tripulantes são portugueses. A partir de Beja, seguem técnicos da direcção-geral de Saúde.

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

DONE


Por 621 votos a favor, 49 contra e 13 abstenções, o Parlamento Europeu aprovou hoje os termos do Brexit. 

Na imagem do Guardian vêem-se eurodeputados britânicos a celebrar no plenário. Clique.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

PE RENOVADO

A três dias do Brexit, começaram a chegar ao Parlamento Europeu os deputados, oriundos de catorze países, que vão substituir os britânicos. França e Espanha são os Estados-membros mais beneficiados com a redistribuição.

A representação portuguesa não sofre alteração.

O PE já tinha sido desenhado para, a partir das eleições de 2019, ter apenas 705 lugares. Os percalços do Brexit alteraram tudo, uma vez que os britânicos acabaram por ter de votar. Agora que saiem, volta-se ao número de 705.

Portanto, dos 73 lugares do Reino Unido, apenas 27 são preenchidos pelo método da proporcionalidade degressiva, ficando distribuídos assim: França (+5), Espanha (+5), Itália (+3), Países Baixos (+3), Irlanda (+2), Suécia (+1), Áustria (+1), Dinamarca (+1), Finlândia (+1), Eslováquia (+1), Croácia (+1), Estónia (+1), Polónia (+1) e Roménia (+1).

Os restantes 46 desaparecem.

A EROSÃO DO TEMPO


A RTP2 transmitiu ontem um filme que não tinha visto por ocasião do seu lançamento, em 2012. Falo de Amour, de Michael Haneke.

Laureado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Globo de Ouro na mesma categoria, a Palma de Ouro de Cannes, cinco Césares, dois Bafta, etc., narra a história de dois professores de piano aposentados, residentes em Paris, octogenários ambos. Nos papéis de Georges e Anne estão Jean-Louis Trintignant (nascido em 1930) e Emmanuelle Riva (1927-2017). A porteira do prédio é Rita Blanco. Uma história de solidão, doença e eutanásia. Muito deprimente.

Na minha adolescência, fui testemunha do sucesso de Trintignant, um pedaço de homem naquela época. Como actor nunca me entusiasmou: E Deus criou a mulher (Vadim), com a Bardot, filme que só vi nos anos 1960, e Um Homem e Uma Mulher (Lelouch), com Anouk Aimée, são dois exemplos.

Lembro-me da polémica que o filme de Lelouch suscitou em Lourenço Marques, porque Irene Gil abriu a ‘Página da Mulher’ — que coordenava no Notícias — a um debate em que participaram algumas personalidades locais, como Edith Arvelos e outras, mas não os cinéfilos de Esquerda, especializados em Godard e Antonioni, que escreviam noutras páginas.

Irene Gil, mãe dos filósofos Fernando Gil e José Gil, foi de certo modo uma feminista avant la lettre, pois, mesmo nos ominosos anos da censura, usou a coluna que assinava, Daqui e dali, para falar de Betty Friedan, autora do polémico The Feminine Mystique (1963), de Maria Teresa Horta, da ‘invisibilidade’ das mulheres negras na sociedade moçambicana (em 1972), em suma, de temas como relações de classe e etnia, estranhos ao espírito do tempo. Conheci bem Irene Gil e sei as dificuldades que teve em remar contra a maré.

Como disse, Um Homem e Uma Mulher deu azo a uma curiosa polémica, que esteve sempre no meu pensamento enquanto ontem via um Trintignant octogenário perdido no labirinto das escolhas inomináveis.

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

E ENTÃO?


Num comunicado hoje divulgado, os advogados Francisco Teixeira da Mota e William Bourbon confirmaram que Rui Pinto é a fonte do Luanda Leaks.

A documentação que compromete Isabel dos Santos foi entregue ao ICIJ (o International Consortium of Investigative Journalists) há mais de um ano.

Portanto... «A responsabilidade das autoridades é agora agir e abrir as investigações necessárias — já abertas em Angola — e ao mesmo tempo recuperar elevadas somas de dinheiro, mas é preciso dizer que são as mesmas autoridades portuguesas que mantêm Rui Pinto na prisão há quase um ano, sob o pretexto de uma tentativa de extorsão, e que, até este momento, apenas pediram a sua colaboração com o exclusivo intuito de o auto-incriminar. [...]»

Ou muito me engano, ou isto é o primeiro passo para mandar arquivar tudo.

Clique na imagem.

sábado, 25 de janeiro de 2020

CORONAVÍRUS GLOBAL


Por causa do Coronavírus, hoje, dia de Ano Novo chinês, mais de 56 milhões de pessoas estão impedidas de celebrar a data devido às restrições de circulação, não só em Wuhan, mas também em Pequim e noutras cidades.

O que são 56 milhões num país com 1,4 mil milhões de habitantes?, dirão alguns. Em todo o caso, a maior quarentena jamais posta em prática.

Foram cancelados os festejos públicos. A Grande Muralha e a Disneylândia de Xangai foram encerradas por tempo indeterminado, o mesmo acontecendo a templos e feiras de 30 províncias.

Até ao momento, estão reportados casos na China (com 1.372 doentes infectados e 41 mortos), Macau, Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul, Japão, Singapura, Tailândia, Nepal, Malásia, Vietname, Austrália, Estados Unidos e França. 

Vários países, entre os quais Portugal, estão a tomar medidas para retirarem os seus cidadãos (vivem 14 portugueses em Wuhan). O primeiro avião americano, com pessoal médico a bordo e capacidade para 230 passageiros, já aterrou em Wuhan. Mas só nessa cidade vivem mais de mil americanos.

Clique no gráfico do Guardian, que reporta às 15:20 de hoje.

IMPERATIVO CATEGÓRICO

Com o argumento, correcto, de que «a Esquerda democrática não pode deixar de comparecer na eleição presidencial...», Francisco Assis defende hoje no Público a candidatura presidencial de Ana Gomes, 66 anos, diplomata de carreira (exerceu funções em Genebra, Nova Iorque, Tóquio, Londres e Jacarta), eurodeputada durante quinze anos (2004-19), activista dos direitos humanos e militante de base do PS.

Sobre uma sua eventual candidatura, Ana Gomes disse há dias na RTP3 que, por querer trabalhar contra a corrupção, é mais importante ter a liberdade de dizer o que diz «sem os constrangimentos institucionais que qualquer cargo político, incluindo o de Presidente da República, impõe

É pena. Seriam umas eleições muito estimulantes.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

CIDADE SITIADA


Em Wuhan, na China, cerca de 20 milhões de pessoas (onze milhões no centro da cidade) vivem o terror do Coronavírus.

Sem transportes públicos de qualquer espécie, o aeroporto encerrado e as autoestradas bloqueadas, o pesadelo instalou-se. Fechados nos hotéis, os turistas não podem regressar aos seus países. Trata-se da maior operação de quarentena pública de todos os tempos.

Um novo hospital, com mil camas, começou hoje a ser construído. Prazo limite da obra: dez dias. No próximo 3 de Fevereiro terá de receber os primeiros doentes.

A coreografia das escavadoras antecipa a desmesura. É outra a escala chinesa.

Clique na imagem do Financial Times.

COMO VAI SER?

Isabel dos Santos fez ontem uma visita relâmpago a Lisboa. O motivo terá sido agilizar a venda da sua participação (70%) no capital da Efacec.

Vender 70% do capital da Efacec não é o mesmo que vender um andar. Mesmo com comprador à porta e dinheiro na mão, a operação envolve entidades reguladoras (não só a CMVM) e decisões políticas, tornando-se, por essa razão, um processo moroso.

O mesmo se diga do EuroBic, que terá comprador apalavrado desde anteontem (comprador dos 42,5% que a empresária detém no Banco), mas também terá de passar por vários crivos.

Isto leva-nos ao ponto: uma vez consumadas as vendas, qual o destino do dinheiro? Fica congelado em Portugal até decisão dos tribunais? É entregue ao Estado angolano? É transferido para uma das muitas empresas (em países terceiros) da empresária? É transferido para uma das suas contas pessoais, seja em bancos tradicionais seja em offshores?

A ver vamos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

MADRID


Hoje na Sábado.

Madrid me mata

Descobri Madrid há quarenta anos, induzido pela movida de Tierno Galván, o alcaide que fez da capital de Espanha a cidade mais frenética da Europa. Toda a gente ia a Londres fazer compras, ver teatro e museus, mas quem queria “desbocar-se” tinha de ir a Madrid, que naquela época foi uma espécie de Nova Iorque a preço de peseta.

Tenho voltado repetidas vezes. Como no resto do mundo, muita coisa mudou, mas a joie de vivre dos madrilenos continua imbatível, os cafés icónicos ainda lá estão, a oferta gastronómica alinhou pelos padrões europeus mais exigentes, o Prado continua a ser um museu excelentíssimo e, mesmo ao lado, só o mítico Ritz se mantém encerrado há dois anos, alvo de obras de renovação decididas pelo grupo Mandarin Oriental. Por cento e vinte milhões de euros, os novos proprietários garantem devolver à cidade, talvez ainda este ano, o hotel que o rei Alfonso XIII mandou construir pouco depois de casar-se com Victoria de Battenberg.

O Ritz fica no topo do Triângulo de Arte, constituído pelos museus do Prado, o Thyssen-Bornemisza e o Reina Sofía. Com mais de duzentos anos, o Prado é o equivalente espanhol do Louvre. Sem surpresa, Goya e Velázquez estão extensamente representados. A sala de Las meninas (Velázquez) está em permanente engarrafamento. O acervo de pintura europeia inclui Rafael, Bosch, Caravaggio, Rubens, Botticelli, Ticiano, Brueghel, Fra Angelico, Tiepolo, Van Dyck e outros, como o notável Lawrence Alma-Tadema, de quem nunca tinha ouvido falar antes de o descobrir ali. O que saiu do Prado foi Guernica, obra que Picasso pintou em 1937, após o bombardeio da cidade basca. Exposto na Exposição Universal de Paris, enquanto prosseguia a Guerra Civil espanhola, o vasto mural só entrou em Espanha em 1981, ficando exposto no Casón del Buen Retiro, o anexo do Prado onde pela primeira vez o vi. Em 1992 foi transferido para o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, inaugurado nesse ano. Ao contrário do Prado, mandado construir para albergar as colecções reais, o Reina Sofía ocupa as instalações de um antigo hospital, aumentado em 2005 pelo edifício Nouvel. Focado em arte moderna, permite um amplo tour d’horizon do século XX aos nossos dias. Picasso, Dalí, Calder, Lichtenstein, Picabia, Warhol, Baselitz, Tàpies, Poliakoff, Saura, Rothko, Klee, Miró, Pollock, Barceló e muitos outros, incluindo fotógrafos como Cindy Sherman e Man Ray, fazem do Reina Sofía uma das moradas mais procuradas da cidade.

A meio caminho entre o Prado e o Reina Sofía fica o Thyssen-Bornemisza, com origem na colecção privada da família de industriais alemães Thyssen. As vicissitudes da Segunda Guerra Mundial fizeram com que as obras circulassem entre a Alemanha, a Hungria, a Holanda e a Suíça (em 1988 ainda estavam em Lugano). Foi Carmen Cervera, então casada com o barão Hans Heinrich von Thyssen-Bornemisza, quem convenceu Felipe González, presidente do Governo, a negociar a vinda definitiva das obras para Espanha. Assim, em 1992, o Palácio de Villahermosa tornou-se um museu de referência, visitado em 2019 por mais de um milhão de pessoas, atraídas pelo carácter heterogéneo da colecção. Há de tudo, do Renascimento a Balthus, passando por Willem de Kooning, Natalia Goncharova, Arshile Gorky, Frank Stella, Georgia O'Keeffe, Egon Schiele, etc., sem esquecer os flamengos, os impressionistas e os cubistas. Tal como o Prado e o Reina Sofía, mantém ao longo do ano excelentes exposições temporárias.

Mais recente, ocupando as instalações de uma antiga central eléctrica reconvertida em centro cultural, o CaixaForum Madrid destaca-se pelo jardim vertical de Patrick Blanc. Inaugurado em 2008, exibe exposições temporárias ao longo do ano, muitas delas em parceria com o British Museum, de Londres.

Denominador comum às quatro moradas, o Paseo del Prado, imponente avenida que, ultrapassada a Praça de Cibeles, entronca com o Paseo de Recoletos e o Paseo de la Castellana. Em 2002, o arquitecto português Álvaro Siza Vieira ganhou o concurso internacional para a sua “requalificação”, mas o violento clamor público (um movimento cívico liderado por Carmen Cervera) gerado pelo previsto abate de árvores, congelou o projecto sine die. Ainda bem.

Na Praça de Cibeles o que mais impressiona não é a espectacular fonte dedicada à deusa grega da fertilidade. É o palácio que ocupa o lado sudeste. O edifício, um dos mais monumentais da cidade, destaca-se por ter sido construído em pedra branca. Foi sede dos Correios durante 90 anos, albergando actualmente os serviços culturais do município. Dispõe de uma área de exposições temporárias denominada CentroCentro. A dois passos, encontramos a Praça da Independência, dominada pela Puerta de Alcalá, monumento neoclássico que Sabatini desenhou em 1768 por encomenda de Carlos III. Após uma pausa no Cappuccino Grand Café, a Puerta de Alcalá é o ponto de partida ideal para descobrir o privilegiado bairro de Salamanca, epicentro do comércio de luxo, concentrado nas calles Serrano, Claudio Coello, Ayala, Ortega y Gasset, Hemorsilla, Lagasca, Ramón de la Cruz e Goya, esta última com ofertas mais “populares”. A larga maioria dos melhores hotéis, bem como alguns dos restaurantes mais exclusivos, também se encontram no bairro de Salamanca. O mesmo se diga do Museu Arqueológico, na elegante Calle Serrano.

A título de exemplo refira-se a Calle de Jorge Juan, com mais de duas dúzias de restaurantes. Pela qualidade da cozinha e do serviço, mas também pela atmosfera glossy, destaco cinco: o Quintin, o Paraguas, La Máquina, o Graciano e La Bien Aparecida. Não estamos a falar de restaurantes que têm ou tiveram estrelas Michelin. Esses encontram-se espalhados um pouco por toda a cidade, como o magnífico Club Allard, em tempos um clube privado da monarquia e da alta-finança, o glamoroso Coque ou o incontornável Cebo, do chef Aurelio Morales. Localizado no rés-do-chão do Hotel Urban, decorado por Philippe Starck, o Cebo fica muito próximo das Cortes. No outro extremo do paladar, os amantes de tapas podem optar pela tradição ou pela “desconstrução”… No primeiro caso, a Casa Del Abuelo (Calle Goya) é perfeita. No segundo, convém conhecer o Juana La Loca, na Plaza de Puerta de Moros.

Na bifurcação da Calle Alcalá com a Gran Vía, ou seja, na zona de fronteira entre a Madrid Bourbon e o centro histórico, o Círculo de Bellas Artes é ponto de passagem “obrigatório”, quanto mais não seja por ter a melhor esplanada da cidade. Fundado em 1880, o Círculo está equipado com quatro salas para exposições, auditório para concertos e teatro, sala de cinema, centro de documentação e uma das melhores (senão a melhor) livrarias da cidade. No piso térreo encontra-se o café-restaurante La Pecera, todo art déco, onde é possível almoçar a preço módico. Nos anos 1990, ainda o espaço hoje ocupado pelo restaurante era uma varanda larga à altura da copa das árvores. Convém não confundir o Círculo com a Real Academia de Bellas Artes, que também fica na Calle Alcalá, e tem um espólio riquíssimo de pintura espanhola, de perfil paralelo ao do Prado.

Tão importante como visitar os museus é conhecer o Café Gijón, no Paseo de Recoletos. Aberto desde 1888, por lá passou toda a gente que conta, na literatura, na política e nas artes em geral. As suas tertúlias fazem parte da história da cidade (no Museu de Cera existe réplica de uma delas). No Gijón encontramos velhos intelectuais antifranquistas, poetas, turistas cultos, monárquicos, yuppies da era digital, galeristas, etc. Não tem filas à porta, como os cafés de Viena, mas, sem reserva, é impossível arranjar mesa no interior. Na esplanada sim, mas é outro campeonato.

O prolongamento de Recoletos é o Paseo de la Castellana, com início na Praça Colón. Ao longo de seis quilómetros, a avenida vai mudando de perfil. Na primeira secção fica o muito recomendável Museu de Ciências Naturais. Na segunda, denominada Nuevos Ministerios, vários departamentos do Governo. E, na terceira, o CTBA, ou seja, o Cuatro Torres Business Area (os quatro arranha-céus que vemos do ar, muito antes do avião aterrar). Portanto, como o nome indica, uma área de negócios.

Há trinta anos, ainda a Gran Vía era o coração de Madrid: comércio de todo o tipo, teatros, cinemas, cafés, bares, restaurantes, casas de diversão nocturna, hotéis, galerias, edifícios magníficos. Não havia como ignorar o eixo que liga o bairro de Salamanca com o de Argüelles. Nada disso desapareceu (nem os grandes cinemas), as obras modernistas continuam a ser um íman fortíssimo para quem gosta de arquitectura, mas o downsizing é evidente, em especial no comércio e na hotelaria. Sirva de exemplo o Bar Chicote, que nos anos 1970 ainda era considerado um dos dez melhores do mundo, ponto de encontro de celebridades planetárias, e é hoje um antro incaracterístico para os turistas low cost que tornam a circulação da Gran Vía um inferno. Contudo, a comunidade LGBT ainda a utiliza como ponto de passagem para Chueca, o gueto gay do bairro Justicia que tem inspirado livros, filmes e muita lenda urbana.

Outro grande atractivo é a Plaza Mayor, sobrevivente de três incêndios desde o século XVI. Mantém as nove entradas em arco, sendo a Casa de la Panadería o ponto de maior interesse. O “progresso” transformou a praça num conglomerado de restaurantes, esplanadas e lojas sem interesse. A duzentos metros fica outra praça famosa, a Puerta del Sol, centro de manifestações políticas e de festejos do réveillon. Quem quiser ver a estátua do Urso e do Medronheiro, símbolos de Madrid, tem de lá ir. Na Carretera San Jerónimo, que parte da Puerta del Sol, fica o Lhardy, loja gourmet com restaurante no primeiro andar. O estabelecimento tem quase duzentos anos, e ainda me lembro do tempo em que, ao domingo, antes do almoço, toda a gente lá ia comer (aliás beber, pois era servido em almoçadeiras) consommé. Hoje, os turistas fazem filas homéricas à porta da loja.

No centro histórico merecem visita o Mosteiro das Descalças Reais (com obras esplêndidas de Zurbarán, Murillo e Ribera), o Museu Cerralbo, que acolhe a colecção particular do marquês do mesmo nome (notável sobretudo pelas peças de arqueologia), bem como o Teatro Real, ou seja, a Ópera. E na Calle de los Cuchilleros, o Botín, que hoje se chama Sobrino de Botín. Estamos a falar do restaurante mais antigo do mundo, aberto desde 1725. Em quatro pisos, um labirinto de salas, algumas com uma única mesa, serve comida tradicional, valendo sobretudo pela experiência.

Como escrevi um dia, é mais fácil viver nestas cidades que conservam os seus cafés, a sua vegetação e a sua loucura.

Clique na imagem.

TURNING POINT


Acusada de corrupção, branqueamento de capitais e apropriação indevida de fundos da Sonangol, Isabel dos Santos foi constituída arguida num processo-crime instaurado pela procuradoria-geral de Angola, divulgado em directo na televisão angolana, ontem à noite, pelo PGR do país.

Ela e quatro colaboradores portugueses: Mário Leite da Silva, CEO do Banco de Fomento de Angola, Sarju Raikundalia, ex-administrador financeiro da Sonangol, e Paula Oliveira, administradora da NOS.

Entretanto, o quarto arguido, Nuno Ribeiro da Cunha, ex-director do private banking do EuroBic, foi encontrado morto, em Lisboa, hoje de manhã.

A posição de Isabel dos Santos no Eurobic (42,5%) terá sido vendida nas últimas horas.

O PGR de Angola reúne-se hoje de emergência com Lucília Gago, a PGR portuguesa. Parece estar em cima da mesa um pedido de extradição. Mas como é que se extradita alguém que não reside no país? O pedido terá de ser feito aos Emirados Árabes Unidos, uma vez que a arguida tem residência oficial no Dubai.

Clique na imagem do Guardian.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

PATRICK MELROSE


Estreou hoje na RTP2 a minissérie britânica Patrick Melrose, de Edward Berger.

O protagonista não podia ser outro senão Benedict Cumberbatch, o maior actor de língua inglesa da sua geração (nasceu em 1976). O primeiro episódio é uma explosão de overacting de Cumberbatch.

Transposta para televisão por David Nicholls, a partir do quinteto Melrose — compactado em três volumes na edição portuguesa da Sextante — de Edward St Aubyn, o maior escritor de língua inglesa da sua geração (nasceu em 1960), mantém o grau de corrosão do quinteto autobiográfico, violento, inominável, sobre a infância indizível de Edward St Aubyn, abusado pelo próprio pai dos 5 aos 8 anos de idade.

São muitos adjectivos juntos, mas quem leu os livros sabe do que falo.

Não é uma distracção amável. É um bestiário moral de tiques e perversões no lodaçal da aristocracia inglesa.

Clique nas imagens: cartaz da minissérie e capas da edição portuguesa do Quinteto.

domingo, 19 de janeiro de 2020

LUANDA LEAKS


Juntamente com outros 37 jornais de vários países, o Expresso online divulgou há pouco o Luanda Leaks. Ou seja, a história de Isabel dos Santos contada aos incrédulos. Não quero parecer cínico, mas faz-me confusão ver tanta gente surpreendida com os factos.

Na imagem, Isabel dos Santos e o marido, Sindika Dokolo. Clique.

sábado, 18 de janeiro de 2020

CLARO COMO ÁGUA

«Lamento informar que elegeram uma mulher que gagueja, que é negra e foi útil para a subvenção. [...] Usam o ódio para me atacar. Eu não vou renunciar para que as pessoas que votaram nestas Legislativas não se sintam defraudadas [...] independentemente do resultado que saia deste Congresso, vou garantir por não deixar órfãs as pessoas que votaram em Outubro.» — disse esta tarde Joacine Katar Moreira.

Foi adiada a decisão de obrigar a deputada a renunciar ao mandato ou, não o fazendo, deixar de representar o Livre.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

EQUÍVOCO


Lamento ir contra a corrente, mas Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa estava publicado em Portugal há vários anos, na colecção de obras fac-similadas vendida pelo Público e disponível em livrarias.

Na imagem, é o exemplar da direita, que reproduz a edição original (1956) da Livraria José Olympio Editôra, do Rio de Janeiro.

A minha amiga Isabel Lucas, que é uma mulher culta, no texto que hoje dedica à obra, fala de edição («só agora tem edição em Portugal...») e não de publicação. A mudança dos substantivos tem significado.

Mas, na cabeça de muita gente, persiste a ideia de que só em Outubro de 2019 o livro foi impresso em Portugal. Errado.

Clique na imagem.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

TAMBÉM ELE


Jerónimo de Sousa foi hoje Programa da Cristina, onde não cozinhou, embora tenha mostrado fotografias do casamento.

Ficámos a saber que o secretário-geral do PCP vive com 900 euros mensais, porque o restante é entregue ao Partido. No fim, emocionou-se.

Clique na imagem.

MÁQUINA HAMLET


Com encenação de Jorge Silva Melo estreou ontem no Teatro da Politécnica A Máquina Hamlet de Heiner Müller.

Durante cerca de uma hora, somos absorvidos pela música de João Madeira e pelo texto que Müller escreveu em 1977, ainda no tempo da RDA, denunciando a situação vivida pelos artistas e intelectuais alemães.

João Pedro Mamede, Américo Silva, Inês Pereira, André Loubet, Hugo Tourita, João Estima e José Vargas interpretam. Simplificando muito, diria que a peça se apoia nos monólogos (shakespearianos) de Mamede e Américo Silva. Inesperado, bem conseguido, o Pas de Deux a que Mamede e André Loubet dão corpo.

O texto de Müller chega à nossa língua pela mão de Maria Adélia Silva Melo e Jorge Silva Melo. Os Artistas Unidos não podiam ter começado melhor o ano.

Clique na foto de Jorge Gonçalves.