sábado, 11 de janeiro de 2020

A CULPA NÃO MORRE SOLTEIRA


«Assumo total responsabilidade...», disse na televisão o brigadeiro-general Amir Ali Hajizadeh, comandante da secção aeroespacial dos Guardas Revolucionários do Irão.

Acrescentou: «Preferiria ter morrido a ser testemunha de um acidente semelhante. [...] O soldado encarregado das operações confundiu o avião de passageiros com um míssil de cruzeiro.» 

Na imagem, momento em que Hajizadeh fala na televisão estatal iraniana. Clique.

ABATE CONFIRMADO


Hassan Rouhani, Presidente do Irão, assumiu publicamente o abate do vôo 752 da Ukraine International Airlines: «Disastrous mistake

Terá sido convencido por Putin? Sabe-se que Moscovo ia alinhar com a denúncia de Trump, Trudeau e Boris Johnson.

Khamenei, o aiatola (o líder supremo), também já pediu desculpa. Javad Zarif, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, afirmou: «A sad day. [...] Human error at time of crisis caused by US adventurism led to disaster.» A Guarda Revolucionária do Irão emitiu um comunicado sobre o erro.

Ali Abedzadeh, chefe da aviação nacional iraniana, ainda não se pronunciou. E devia: ninguém percebe por que razão o aeroporto de Teerão não foi encerrado na noite do lançamento de mísseis para Bagdade.

O erro imperdoável causou a vida a 176 pessoas, sendo 167 passageiros e 9 tripulantes, de várias nacionalidades: 82 iranianos, 63 canadianos, 11 ucranianos (a tripulação e dois passageiros), 10 suecos, 4 afegãos, 3 britânicos e 3 alemães.

Imagem: tuíte de Rouhani. Clique.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

OE APROVADO, TAKE UM

O OE 2020 foi há pouco aprovado na generalidade, com os votos a favor do PS (108), e os votos contra do PSD, CDS, CHEGA e IL (83).

Abstiveram-se: BE, PCP, PAN, PEV, LIVRE e os três deputados do PSD-Madeira.

Em Fevereiro, depois do debate na especialidade, verifica-se a votação final global.

DANOS COLATERAIS

Primeiro foi Trump, e muita gente descartou. Mas Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, foi peremptório na conferência de imprensa que deu ontem à tarde em Otava: o avião da Ukrainian International Airlines, onde viajavam 63 canadianos, foi abatido por um míssil do Irão, porventura de forma não intencional.

Quase em simultâneo, Boris Johnson declarou: «There is now a body of information that the flight was shot down by an Iranian Surface to Air Missile. This may well have been unintentional. We are working closely with Canada and our international partners and there now needs to be a full, transparent investigation

Pouco depois foi a vez do New York Times divulgar um vídeo que mostra o momento em que o míssil provoca a queda do avião e a morte de 176 pessoas.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

BREXIT, OF COURSE

Por 330 votos contra 231, a Câmara dos Comuns aprovou o Brexit (sem emendas) esta tarde. Deste modo, às 23:00 horas do próximo dia 31, o Reino Unido deixa de fazer parte da União Europeia. No dia seguinte começam as negociações do acordo comercial, que terão de estar concluídas até 31 de Dezembro.

Para alinhavar as negociações, Ursula Von der Leyen, presidenta da Comissão Europeia, esteve reunida com Boris Johnson no n.º 10 de Downing Street. É eloquente o contraste com as deslocações de Theresa May a Bruxelas. Como sói dizer-se, se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha... Ambos foram colegas no mesmo colégio em Bruxelas, e devem ter aproveitado a ocasião para recordar o tempo em que jogavam à macaca.

ZBIGNIEW HERBERT


Hoje na Sábado escrevo sobre Um Bárbaro no Jardim, de Zbigniew Herbert (1924-1998), poeta, ensaísta e dramaturgo polaco dos mais notáveis do século XX. Infelizmente não é um nome familiar a leitores portugueses. Uma breve antologia poética, organizada e traduzida pelo poeta Jorge de Sousa Braga, é tudo quanto havia em Portugal. Mas foi agora traduzida, por Teresa Fernandes Swiatkiewicz, a primeira colectânea de ensaios que Herbert publicou, Um Bárbaro no Jardim. Trata-se de um livro que o autor pretende seja lido como «um relatório das [suas] viagens.» Em vez do tradicional diário, Herbert centrou-se na Idade Média e optou por “coser” breves ensaios sobre arte e civilizações distantes, incluindo estudos de fundo sobre os Albigenses (também chamados de Cátaros) e os Templários. Considerados hereges, os Albigenses eram oriundos da região francesa do Languedoque, tendo sido perseguidos e massacrados por tropas apoiadas pelo Papa Inocêncio III. No século XII, o conflito durou 45 anos. Apesar de tudo, os Templários são mais conhecidos, surgindo, aqui e ali, na cultura popular (a procura do Graal é tema de inúmeros livros e filmes), como acontece na obra de Dan Brown. Foi através da Ordem de Cristo que os Templários se estabeleceram em Portugal, em 1319, depois da tentativa de aniquilamento ordenada em 1314 pelo Papa Clemente V. Herbert faz a defesa dos Templários em vinte páginas absorventes. O renascentista italiano Piero della Francesca é outro foco da atenção do autor. O mesmo se diga de Il Duomo, de Orvieto (a catedral dedicada à Virgem Maria). Como vai dito no início, Um Bárbaro no Jardim trata de viagens por interpostos artistas, grupos religiosos ou as pinturas rupestres de Lascaux. Nada a ver com os livros de viagens de Bruce Chatwin ou Jan Morris. Nos anos 1960 (a edição original deste livro é de 1962), um cidadão dos países satélites de Moscovo não viajava com facilidade pelo Ocidente. Herbert não teve outra alternativa senão dissertar sobre temas de cultura geral, como, entre outros, a derrota do exército florentino frente a Siena. Não é de admirar que os templos religiosos estejam no centro da narrativa, seja no Périgord, na Umbria ou em Arles. Quatro estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

Clique na imagem.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

SONTAG


Não sei se os nossos editores são da mesma opinião, mas convinha traduzir a biografia da última intelectual do século XX.

Benjamin Moser, que todos conhecemos por ter escrito a biografia de Clarice Lispector, levou sete anos a escavar a vida da inventriz do camp.

Clique na imagem.

EM NOME DA CONSTITUIÇÃO


«Ha sido rápido, simple y sin dolor...», disse o rei depois de Sánchez jurar a Constituição.

Além de Felipe VI, assistiram ao acto Meritxell Batet, presidenta do Congresso, Pilar Llop, presidenta do Senado, Dolores Delgado, ministra da Justiça, Carlos Lesmes, presidente do Tribunal Supremo, e Juan José González Rivas, presidente do Tribunal Constitucional.

«O pior vem agora...», respondeu o líder do PSOE.

Clique na foto de El País.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

SEGUNDO ROUND


Por 167 votos contra 165 (e 18 abstenções), as Cortes de Espanha acabam de investir Pedro Sánchez, líder do PSOE, como Presidente do Governo de Espanha.

Votaram a favor de Sánchez: PSOE, PODEMOS, PNV, BNG, Más País, Compromís, Nueva Canarias e a plataforma cidadã Teruel Existe.

Votaram contra Sánchez: PP, VOX, Ciudadanos, Junts per Catalunya, CUP, Navarra Suma, Coalición Canaria, Foro Asturias e o PRC.

Abstiveram-se os catalães da ERC e a coligação basca EH BILDU.

Na imagem de El País, vemos Sánchez a ser aplaudido pela sua bancada. Clique.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

OE 2020


Claro como água.
Clique na imagem do Expresso.

domingo, 5 de janeiro de 2020

PRIMEIRO ROUND


Por 166 votos contra 165 (e 18 abstenções), as Cortes de Espanha não investiram Pedro Sánchez. Esta primeira votação exige maioria absoluta, ou seja, 176 votos. É provável que na segunda volta, a realizar no próximo dia 7, Sánchez seja investido por maioria simples.

Votaram a favor de Sánchez: PSOE, PODEMOS, PNV, BNG, Más País, Compromís, Nueva Canarias e a plataforma cidadã Teruel Existe.

Votaram contra Sánchez: PP, VOX, Ciudadanos, Junts per Catalunya, CUP, Navarra Suma, Coalición Canaria, Foro Asturias e o PRC.

Abstiveram-se os catalães da ERC e a coligação basca EH BILDU.

A deputada Aina Vidal, de En Comú Podem, favorável à investidura, faltou à votação, alegadamente por motivos de doença. Mas já disse que na terça-feira comparece.

Na imagem de El País, vemos Sánchez a abandonar as Cortes após a votação. Clique.

GRAZAS VS OBRIGADO


Ontem, no debate de investidura de Pedro Sánchez, o presidente em exercício do Governo de Espanha agradeceu o apoio do Bloco Nacionalista da Galiza dizendo... obrigado. Sucede que, em galego, obrigado é o particípio do verbo obrigar. Na acepção de agradecimento diz-se grazas.

Mas o erro não foi exclusivo de Sánchez. O deputado galego Néstor Rego, do BNG, também terminou o seu discurso com um obrigado. Não admira, porque tudo indica que Rego milita no movimento reintegracionista, adepto da união cultural, linguística e social da Galiza e de Portugal.

No Twitter podem ler-se comentários como o da imagem.

sábado, 4 de janeiro de 2020

APOCALIPSE AGAIN


O governador-geral da Austrália, David Hurley, assinou a ordem de mobilização de três mil reservistas do Exército para ajudar as populações afectadas pelos fogos nos Estados de Nova Gales do Sul e Victoria.

A mobilização tem carácter obrigatório e ocorre pela primeira vez no país. Linda Reynolds, ministra da Defesa, declarou que os reservistas «permanecerão no terreno enquanto forem necessários

O navio HMAS Adelaide, o maior da Marinha de Guerra, juntou-se ao HMAS Choules nas operações de resgate de populações.

Scott Morrison, o primeiro-ministro, cancelou as viagens oficiais à Índia e ao Japão, agendadas para esta semana.

Clique na imagem do jornal The Australian.

EM QUE FICAMOS?


Vejo gente a rasgar as vestes por terem pichado uma instalação de Pedro Cabrita Reis em Leça da Palmeira. Crime, sem dúvida.

Mas não vejo essas pessoas preocupadas com a vandalização de Lisboa e outras cidades. Património histórico, edifícios acabados de recuperar, muros, viadutos, estações de metropolitano, sinais de trânsito, etc., nada tem escapado à pichação.

Um italiano, de nome Geco, vandalizou centenas de sinais de trânsito (e estações de comboio, e placards do metropolitano) em toda a cidade, sem que as autoridades reagissem.

A Câmara de Lisboa não pode escudar-se no diferendo jurídico que há dois anos a opõe ao Tribunal de Contas, a pretexto de que foi chumbado o ajuste directo para a remoção de graffitis.

Portanto, em que ficamos? Estando a falar do mesmo crime, não podemos ter dois pesos e duas medidas. A pichação operada na instalação de Pedro Cabrita Reis é o corolário de uma pulsão que tem sido acarinhada pelos mesmos que hoje rasgam as vestes.

Clique na imagem.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O APOCALIPSE

Gladys Berejiklian, primeira-ministra de Nova Gales do Sul (não confundir com o Governo Nacional australiano, chefiado por Scott Morrison), alertou a população das áreas afectadas pelos fogos, cerca de 300 mil pessoas, para a necessidade de abandonarem essas áreas antes do amanhecer de sábado, dia em que se espera um agravamento da situação: «Há uma janela até hoje à noite

Neste momento, no local, começou a madrugada de sexta para sábado: são 00:10h.

Nova Gales do Sul é um dos seis Estados australianos com governo próprio.

Além de 19 pessoas, morreram milhões de animais, uns queimados, outros abatidos pelos proprietários.

Não há palavras para o horror.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

NORBERTO BARROCA 1937-2020


Morreu hoje Norberto Barroca, actor, encenador, cenógrafo, figurinista e arquitecto de quem fui amigo.

O Norberto viveu cerca de três anos em Lourenço Marques, integrado num projecto de requalificação do Caniço, mas depressa entrou no programa da Gulbenkian que apoiava dois grupos de teatro locais, o TALM e o TEUM.

Após o regresso a Portugal, integrou o Teatro Experimental de Cascais, a Casa da Comédia, o Teatro Estúdio de Lisboa, a Barraca, a Comuna, o Novo Grupo/Teatro Aberto, o Teatro Nacional D. Maria II, a Seiva Trupe, a Centelha (de Viseu) e outros. Foi director artístico do Teatro Experimental do Porto e do Teatro São Luiz de Lisboa. Do seu repertório fazem parte obras de Gil Vicente, Francisco Manuel de Mello, Sttau Monteiro, Pirandello, Shakespeare, Joe Orton, etc. Como actor e encenador trabalhou com toda a gente que conta no teatro português, tendo entrado em filmes de Manoel de Oliveira, Jorge Silva Melo, Paulo Rocha e Eduardo Geada. Tinha 82 anos.

Clique na foto do Jornal da Marinha Grande, cidade onde nasceu. A autarquia decretou luto municipal.

AUSTRÁLIA


A tragédia dos fogos australianos atingiu o ponto de não retorno. Até ao momento: dezassete mortos confirmados, dezenas de milhares de pessoas encurraladas nos Estados de Nova Gales do Sul e de Victoria (a maioria sem água e comida), vinte cidades cercadas pelas chamas, milhares de casas reduzidas a cinzas, milhões de animais queimados, etc. A cidade de Balmoral, a sudoeste de Sydney, praticamente desapareceu do mapa.

As evacuações em massa, muitas delas por mar, não devem evitar o número de vítimas mortais, pois o navio de desembarque militar HMAS Choules transporta apenas oitocentas pessoas de cada vez, e os aviões não chegam aos pontos críticos.

Isto leva-nos a reflectir sobre o futuro que nos espera. Quando a tragédia for global, e esse momento há de chegar, os governos democráticos serão substituídos por ditaduras. Ditaduras não são bolsonarices nem trumpices, são regimes totalitários. Nos romances distópicos de Anna Kavan, Philip K. Dick, Margaret Atwood e outros, podemos antecipar esse futuro negro.

Na imagem, um grupo de pessoas aguarda evacuação na praia de Batemans Bay, em Nova Gales do Sul.

Clique na imagem de El País.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

BEST OF

O meu coração balança entre o concerto de Viena, a patada de Francisco (o Papa) e os dois mil drones a iluminarem a noite de Xangai. O concerto é um remake sempre deslumbrante, a impaciência papal acrescenta dimensão humana à Igreja de Roma e a tecnologia ao serviço da coreografia antecipa o futuro.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O RÉVEILLON DE 1974


A última passagem de ano que fiz em Lourenço Marques foi a de 1974, tinha então 25 anos. Nos meses anteriores, a cidade tinha vivido dois momentos de tragédia.

Primeiro, a tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, o sábado em que foi assinado o Acordo de Lusaka, documento que definiu os termos e condições da independência de Moçambique.

Nessa tarde, um grupo de antigos colonos reunidos no denominado Movimento de Moçambique Livre ocupou as instalações do Rádio Clube e fechou o aeroporto da cidade. Depressa percebi que a situação era muito grave: milhares de pessoas na rua, invasão da cadeia central para libertar os pides, jornais pró-independência (como o Notícias e A Tribuna) tomados de assalto, Associação Académica incendiada, amigos refugiados em locais improváveis, etc. Durante quatro dias, a situação ficou fora de controlo. O MML contava com o apoio de Spínola, mas o general não abriu a boca. Na tarde do dia 10, uma companhia de Comandos, oriunda do Niassa, reabriu o aeroporto e desocupou o Rádio Clube. Nas 48 horas que se seguiram, as autoridades da África do Sul e da Suazilândia facilitaram a passagem de mais de cinquenta mil brancos. No dia 12 chegou o almirante Vítor Crespo, investido pelo MFA como alto-comissário português. No dia 20, nove meses antes da independência, tomou posse o Governo de transição. A tranquibérnia teve como saldo centenas de mortos.

Seis semanas passadas, o fatídico 21 de Outubro, acção de agitprop pensada ao milímetro. Nesse dia, a partir do anoitecer, um vento de insânia varreu os bairros da periferia e todas as povoações num raio de vinte quilómetros. Por vento de insânia entenda-se casas pilhadas e incendiadas, mulheres violadas, crianças brancas penduradas em ganchos de talho, negros esquartejados, corpos decapitados, etc. Nos bairros burgueses da Maxaquene, Ponta Vermelha, Polana e Sommerschield, nada sucedeu. O aeroporto foi encerrado, mas as fronteiras com a África do Sul e a Suazilândia mantiveram-se abertas durante toda a noite. O número de mortos nunca foi oficialmente divulgado. A imprensa afecta à Frelimo falou de cem. Médicos e enfermeiros terão identificado para cima de dois mil.

Face a tudo isto, não admira que o réveillon fosse encarado com todas as precauções. Foi então que um amigo, o Américo Rola Pereira, decidiu organizar uma passagem de ano a bordo de um dos ferry boats que faziam a ligação com a Katembe. Fretou-o, e o barco partiu do cais da Fazenda às oito da noite, ficando a vogar na baía até à manhã seguinte. Quem quisesse regressar a casa mais cedo podia fazê-lo num gasolina destinado para o efeito.

Não sei se foi o último baile do Império, mas foi assaz divertido. Duas “orquestras” revezaram-se, o catering era bom e todos nós, embora conscientes da débâcle, estivemos distendidos nessa noite esplêndida.

O réveillon de 1975 já foi no Estoril.

Na imagem, Lourenço Marques vista da praia da Katembe. Clique.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

CONTO DE NATAL


Escrevi este conto de Natal em 2008, para o volume colectivo Um Natal Assim. Transcrevo alguns breves excertos:

«João Pedro tinha apenas doze anos mas sabia exactamente o que queria. E o que queria era passar o Natal longe do pai. O pai nunca lhe tinha feito mal. Pelo contrário. Quando estava em casa dele, o que sempre acontecia no início das férias grandes, logo a seguir aos exames, o pai até o deixava assistir aos treinos de esgrima. E uma das coisas de que João Pedro gostava era de brincar sozinho com os floretes. Vestia a elegante jaqueta acolchoada que lhe ficava a dançar no corpo, punha a máscara metálica (que bem se via através dela) e zurzia o ar. Um dia, apanhado em flagrante pelo Mustafá, golpeou a bonita otomana forrada de chintz que ocupava o canto poente do escritório. Mas o ajudante de motorista fez de conta. Entrou e saiu calado, sorriso enigmático nos lábios, depois de recolher um dossier em pele de crocodilo que o pai deixara esquecido em cima do tampo da secretária. [...]

Repetir a experiência do último Natal com o pai era o que menos lhe interessava. Dessa vez, para impressionar uns suíços de visita à plantação, o pai tinha organizado um safari numa reserva selvagem que a companhia mantinha, em regime de coutada privada, trezentos quilómetros a norte. As avionetas andaram toda a manhã num corrupio entre a plantação e Mokaputa. João Pedro não tinha memória de um Natal tão quente. As ventoinhas de pá dos bungalows e do pavilhão principal de nada valiam. Um bafo pegajoso tomava conta de tudo. João Pedro lembrava-se de ver os jarros cheios de mazagrã a embaciarem em cima dos sideboards de pau-rosa e latão.

Mokaputa estava preparada para receber convidados. Em número de seis, os bungalows alinhavam-se cerca de cem metros à esquerda do pavilhão principal, uma construção maciça dominada pelo imponente tecto de colmo. Era lá que ficava o escritório da administração e a casa-forte das armas, instalada na pequena cave equipada com transmissores de rádio. No outro extremo do piso térreo ficava a cozinha, a copa, três despensas e a garrafeira. O átrio que separava o escritório da administração dessa área de serviço tinha o pé-direito alto e uma escada de madeira que levava ao mezanino. Tal como João Pedro sempre o conhecera, era igual a muitas salas de leilão: tapetes, duas estantes, sofás, cadeirões, banquetas, mesinhas, candeeiros, vasos de porcelana chinesa, tudo desirmanado, numa desordem não isenta de conforto. João Pedro gostava especialmente de uma cadeira em aço e pele, com as costas inclinadas, onde costumava sentar-se a olhar o tecto e a sonhar com trapezistas. No mezanino ficava o bar e a varanda interior utilizada para almoços e jantares.

O pequeno-almoço era servido muito cedo, ao ar livre. Para obviar ao cacimbo, a mesa era posta debaixo de um grande toldo de lona. João Pedro lembrava-se como se tivesse sido na véspera: o grito irrepetível de Cosima Fürchtegott quando vira surgir da vegetação uma leoa rugindo sottovoce. O enfado da bicha era evidente, mas, com o imprevisto e o susto, por um triz João Pedro não cuspiu o porridge. Hieráticos, Mauser em riste, dois sipaios zelavam no corredor de gravilha que os separava da orla do mato onde o animal ensaiava uma coreografia de volteios. O pai riu-se. Tinha conseguido o efeito desejado. Quando regressassem à casa de Stresa, os Fürchtegott teriam muito que contar. João Pedro não achou graça ao episódio. E estava decidido a impedir que se repetisse. [...]»

Eduardo Pitta, O estratagema, in UM NATAL ASSIM, Lisboa: QuidNovi, 2008.