sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

DESOBEDIÊNCIA

A requisição civil dos enfermeiros foi decretada por incumprimento dos serviços mínimos em quatro hospitais:

Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto
Centro Hospitalar do Porto, integrado no Hospital de Santo António
Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga, em Santa Maria da Feira
Centro Hospitalar Tondela-Viseu, em Viseu

O que fará o Governo se a requisição civil não for cumprida?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A GREVE CIRÚRGICA

O Conselho de Ministros aprovou, e Marta Temido, ministra da Saúde, anunciou esta tarde a requisição civil dos enfermeiros.

Objectivo: pôr termo «a situações de incumprimento dos serviços mínimos reportados em diversos hospitais.» Não era sem tempo.

CRISTINA CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre A Saga de Selma Lagerlöf, de Cristina Carvalho (n. 1949). Biografias romanceadas há muitas. O que Cristina Carvalho fez foi outra coisa: chamou-lhe romance biográfico. Ainda hoje a escritora sueca de maior projecção internacional, Selma Lagerlöf rompeu a barreira da língua, impondo-se ao vasto mundo. Verdade que o Nobel da Literatura ajudou, mas, em 1909, quando o recebeu, era já autora de um livro que se tornou um clássico, A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson pela Suécia. Com a focalização omnisciente levada ao extremo, a autora introduz-se na narrativa em nome próprio. Utiliza o expediente ao longo do livro, desde logo na descrição do enterro de Selma no cemitério da colina de Östra Ämtervik: «Agradeço-te muito, Cristina Carvalho, o facto de estares a falar por mim, mas não te alongues muito, não faz sentido, pouco interessa.» Facto é que, sem ignorar nenhum detalhe relevante, a autora constrói o livro como um patchwork de memórias. Está lá tudo: a casa de Marbacka; a descoberta dos pavões, acontecimento de tal modo marcante que pôs fim às limitações provocadas pela deficiência no quadril esquerdo com que Selma havia nascido («De repente, caminhei»); a morte do pai; os anos da juventude; o intervalo de Falun; a docência com crianças; a descoberta da condição feminina; o combate sufragista; as relações lésbicas (com Sophie Elkan, sua companheira durante 27 anos, mas também com Valborg Olander, amante e consultora literária); as viagens pela Europa e pela Palestina; o sucesso estrondoso do primeiro livro, A Saga de Gösta Berling (1891); a carreira literária ao arrepio dos padrões da época; o Prémio Nobel; o ingresso na Real Academia Sueca em 1914, privilégio até então vedado a mulheres; a troca de cartas com a poetisa Nelly Sachs, vítima do Holocausto e futura Nobel; a amizade com o pintor Carl Larsson; etc. Mas estão sobretudo os rituais escandinavos, os estados de espírito, as sensações, o peculiar universo de lobos, ursos, gralhas, bruxas, pragas e terrores. Bem como a marca identitária de Selma: «Sim, sou homossexual. Mas então, se não fosse era o quê?» Em suma, um belo romance biográfico. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

PRAÇA DE ESPANHA


No próximo dia 11, de manhã, Fernando Medina apresenta na Fundação Calouste Gulbenkian o projecto vencedor do concurso público internacional para o ora denominado Parque Público da Praça de Espanha.

Aquilo nunca foi bem uma praça. E, nos anos 1990, viu abortada a construção de seis edifícios assinados pela nata da arquitectura mundial no dia em que o Banco de Portugal desistiu de lá instalar uma sede faraónica.

Sucessivas hipóteses de túneis têm estado em cima da mesa. Agora virou parque público. Corresponderá a imagem do convite ao que vão lá fazer? Tremo. Monet não é a minha chávena de chá.

Clique na imagem.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

IMPORTA-SE DE REPETIR?

Sigo há muitos anos o historiador britânico Timothy Garton Ash, 63 anos, director do centro de estudos europeus do St Antony’s College. Garton Ash é um homem de Direita, mas pensa bem.

Li esta manhã a longa entrevista que deu a Teresa de Sousa, que foi a Oxford falar com ele sobre o Brexit, a Europa e os populismos. A entrevista ocupa sete páginas do P2 do Público.

Garton Ash repete tudo o que tem escrito em dezenas de artigos e livros. A novidade é dizer, preto no branco, que a Europa tem hoje um único estadista, que não é outro senão... Macron. Discurso directo: «Finalmente, com a excepção de Macron, não temos líderes com qualidade

Conheço e admiro a excentricidade britânica, mas aqui estamos no domínio do proselitismo. O problema é que Garton Ash não é jornalista, é historiador.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

MARGARET DRABBLE


Hoje na Sábado escrevo sobre o romance mais recente de Margaret Drabble (n. 1939), Sobe a Maré Negra. Lembro-me da autora como ensaísta e editora do Oxford Companion to English Literature, mas, apesar de extensa, não conhecia a sua ficção. O título do romance remete para um conhecido poema de D.H. Lawrence (citado em epígrafe) sobre a finitude da vida. O romance põe em pauta a velhice tout court, bem como o ritual de sofrimento das doenças letais, “antecipando”, provavelmente, a morte recente da filha Rebecca, uma conhecida consultora literária, vítima de cancro aos 53 anos. E por vezes nem tanto. Frequentemente, o desconforto e as indignidades da velhice tornam-se tão incómodos que alguns preferem «embarcar num desses atos de loucura imprudente que leve tudo a um fim rápido…» Não se trata portanto de escrita light, antes pelo contrário, mas Margaret Drabble doseia bem o sarcasmo de forma a resgatar o romance da sua tonalidade sombria. A intriga é pontuada por citações ou alusões a Shakespeare, Beckett, Auden, Spender, Adorno, Edward Said e muitos outros, em parte por imperativo do tema, outro tanto porque as personagens do romance (como os próprios familiares da autora, irmã da romancista A.S. Byatt e da historiadora Helen Langdon) respiram literatura por todos os poros. Nem sequer escapa o casal gay formado por Ivor e Bennet. Certo pendor ensaístico (espécie de inventário histórico de mortes não relacionadas com a doença, tais como desastres naturais, guerras e crimes) mantém a narrativa suspensa num género fluido. Por exemplo, vejam-se as referências às vagas migratórias no Mediterrâneo: «Nenhum deles pode saber até que ponto a história dos imigrantes está longe de acabar [e] quanto mais gente se afogar, espera a Europa, mais se desencorajará a emigração e menos serão as bocas para a Europa alimentar.» Afinal, pode reflectir-se sobre a morte para lá dos muros das residências sénior. Verdade que o cinismo de Francesca Stubbs, a protagonista, prende o leitor. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

GUAIDÓ RECONHECIDO PELA UE

Por 439 votos a favor, 104 contra e 88 abstenções, o Parlamento Europeu reconheceu hoje Juan Guaidó como Presidente da Venezuela.

Em caso de conflito armado, os países da UE pensam enviar tropas para resgatar os seus cidadãos. Santos Silva, o MNE português, confirmou que Portugal também o fará.

Algo me diz que esta história não vai acabar bem.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

TURNING POINT


Theresa May conseguiu impor a sua vontade: por 307 votos contra 301, a emenda de Graham Brady, apoiada pelo Governo, saiu vencedora. Catorze trabalhistas votaram ao lado dos conservadores. A primeira-ministra tem agora mais quinze dias para convencer Bruxelas a renegociar o backstop da Irlanda do Norte.

Juncker e Tusk repetiram que não há nada a renegociar, mas a alternativa é um Brexit desordenado daqui a 58 dias. Um Brexit unilateral, como lhe chamou May.

Foram rejeitadas todas as restantes emendas: adiamento do prazo do Brexit; novo referendo, proposto pelos deputados escoceses; revogação do art.º 50.º; extensão do período de transição para 2021; passagem da liderança das negociações do Governo para Westminster, etc. Uma proposta de Corbyn, o líder trabalhista, sobre «voto público», também foi chumbada: 327 contra 296 votos.

May venceu em toda a linha. O que conseguirá com esta vitória é outro campeonato.

Clique na imagem.

JAMAICA & MARCELO


Santana Lopes foi ontem ao Jamaica: Um susto. Eu, se morasse aqui, também me sentiria revoltado. A frase soa bem, mas não esquecer que Santana foi primeiro-ministro durante oito meses, entre 2004 e 2005, e o Bairro da Jamaica, em Setúbal, existe pelo menos desde 1989. Mas não é Santana que me interessa. Santana anda em campanha pelo seu partido.

O que me faz confusão é o aparente descaso do Presidente da República. Depois da visita ao Panamá, onde foi assistir a um concílio papal (visita que devia ter sido feita a título particular, nunca com carácter de Estado, na medida em que Portugal é uma República laica), o PR cumpre agenda à revelia dos acontecimentos do Jamaica.

O facto seria natural se a agenda (oficial, oficiosa e privada) do PR não fosse pautada pelo dom da ubiquidade. Sirva de exemplo o descarrilamento do eléctrico da Carris, ocorrido em Dezembro, no cruzamento da Rua de São Domingos à Lapa com a Rua Garcia de Orta, em Lisboa. Minutos após o acidente, Marcelo estava no local.

Estabelecido um padrão, é difícil escapar ao formato sem uma explicação razoável.

Clique na imagem.

domingo, 27 de janeiro de 2019

MADUREZAS


Não percebo a gritaria actual em torno de Nicolás Maduro. Desde 2013, ano da morte de Hugo Chávez, que Maduro ocupa o cargo de Presidente da Venezuela. Ocupou-o 72 horas após a morte do antecessor, contra o que diz a Constituição venezuelana, a qual estabelece, no seu artigo 233.º que, por morte do Presidente, o cargo é assumido pelo presidente da Assembleia Nacional, que em 2013 era Diosdado Cabello. Mas o Tribunal Supremo de Justicia de Caracas legitimou Maduro.

Nesse mesmo ano realizaram-se eleições, que Maduro “venceu”, tal como “venceu” as realizadas em Maio de 2018. Portanto, se querem formalidades, elas têm sido cumpridas. Sabemos como é, porque Portugal passou pelo mesmo entre 1926 e 1974.

Isto dito, a gritaria faria todo o sentido se tivesse começado em Março de 2013. Agora é tarde. Pedro Sánchez, líder do PSOE e presidente do Governo da Espanha, ouviu o que não queria. E os pruridos da UE chegam tarde.

Juan Guaidó, 35 anos, presidente da Assembleia Nacional venezuelana desde 5 de Janeiro, esperou 18 dias para declarar-se Presidente da Venezuela interino, desencadeando a tranquibérnia actual no passado dia 23.

Washington, Berlim, Paris, Londres, Tóquio, etc., já o reconheceram, mas a história está longe de acabar.

O que Maduro tem feito na Venezuela não é muito diferente do que Assad faz na Síria. Falta só a guerra civil.

Clique na imagem de Guaidó.

CRISTANDADE & EUROPRIDE

No Panamá, Marcelo conseguiu convencer o Papa a patrocinar em Portugal, em 2022, as Jornadas Mundiais da Juventude, encontro da cristandade global que dura sete dias. Para o ajudar no trabalho de lobista, meteu na comitiva o presidente da Câmara de Lisboa e o Patriarca de Lisboa. Assunto arrumado. O Vaticano confirmou.

Para o mesmo ano, 2022, Portugal candidatou-se a acolher o EuroPride, o maior evento LGBTI do mundo, que tem a duração de um ano, exigindo um orçamento nunca inferior a 1,5 milhões de euros (o Estado apoiaria com 25%). A candidatura portuguesa distingue-se das outras por ter carácter nacional: abertura no Porto, encerramento em Lisboa, raves na Abrançalha, etc. A Espanha e a Sérvia são os outros países concorrentes. Em Setembro saberemos.

Se ganharmos o EuroPride, haverá uma semana em que os dois eventos coincidem. É capaz de ser a semana mais interessante.

sábado, 26 de janeiro de 2019

ISTO ANDA TUDO LIGADO


A instrução do processo Operação Marquês começa depois de amanhã, dia 28. Hoje, o Expresso faz manchete com uma revelação que pode tramar o referido processo: se, como revela o jornal, a investigação policial a Sócrates foi despoletada em Abril de 2013 por um alerta da Caixa Geral de Depósitos, significa que foi anterior à abertura oficial do processo. A ver vamos.

Ontem, a RTP estreou a série Teorias da Conspiração, realizada por Manuel Pureza, escrita por Paulo Pena e Artur Ribeiro, com excelente fotografia de Vasco Viana, sound design e produção musical de Elvis Veiguinha e um cast homérico de actores, de que destacaria Rúben Gomes, Carla Maciel (os protagonistas), Gonçalo Waddington, Miguel Loureiro, Rui Morisson e André Gago.

Para já, o 1.º episódio detém-se na queda de Jardim Gonçalves à frente do BCP, o banco que na série se chama BPC.

Na imagem, Pedro Carmo, o actor que faz de Sócrates. Clique.

EMA DEIXOU LONDRES


Em Londres, ontem foi o último dia da Agência Europeia de Medicamentos. Foram arriadas as bandeiras dos 28 Estados-membros e desocupado o edifício de Canary Wharf.

Um total de 900 técnicos e funcionários preferiram o desemprego à mudança para Amesterdão (cidade escolhida para acolher a agência), onde a EMA funcionará a partir da próxima segunda-feira.

«Perder a sede da Agência Europeia de Medicamentos é uma perda significativa para Londres e para o Reino Unido», disse Simon Fraser, vice-presidente de Chatham House.

A 63 dias do Brexit, este é o acontecimento mais marcante do atribulado processo em curso.

Imagem: tuíte da EMA, vendo-se as bandeiras dobradas. Clique.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

BARÃO NEGRO


A RTP-2 tem estado a transmitir a série francesa Baron Noir / Barão Negro. Ao pé disto, os episódios mais sórdidos da política portuguesa são peanuts. A segunda temporada começou ontem.

Inspira-se na vida política francesa da última década: corrupção, nepotismo, escândalos, défice excessivo e UE, direitização galopante da sociedade, regressão de direitos sociais, financiamento ilegal de partidos, presidenciais de 2017.

Conta com actores/actrizes conhecidos nos papéis de Emmanuel Macron (a actriz Anna Mouglalis), François Hollande (Niels Arestrup), Manuel Valls (Hugo Becker), Jean-Luc Mélenchon (François Morel), Nicolas Sarkozy (Michel Voïta), Marine Le Pen (o actor Patrick Mille) e outros. Centra-se na figura de Philippe Rickwaert (Kad Merad), o barão negro que não é outro senão Julien Dray, antigo assessor de Mélenchon. Rickwaert é a eminência parda da série.

Todas estas figuras têm nomes fictícios: Macron é Amélie Dorendeu, Hollande é Francis Laugier, Valls é Cyril Balsan, Mélenchon é Michel Vidal, Sarkozy é Jean-Marc Auzanet, etc. Cito estes por serem facilmente identificáveis, mas quem conheça bem a política francesa descobre outros nesta teia ficcional bem urdida. Escrita por Eric Benzekri e Jean-Baptiste Delafon, conta com um naipe de intérpretes excelentes. Oito episódios cada temporada.

Clique na imagem.

CRISTINA EM BELÉM

Esta manhã, no famoso programa da SIC, Lili Caneças foi directa ao ponto: como as coisas estão, Cristina Ferreira pode muito bem chegar a Presidente da República. Tiras um curso de ciência política e está feito. Para lá caminhamos. Não é preciso fazer o desenho, pois não?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

LITTELL & SMITH


Hoje na Sábado escrevo sobre Uma História Antiga, de Jonathan Littell (n. 1967), a nova versão, em sete capítulos, do díptico de 2012. Quando, em 2006, Littell publicou As Benevolentes, venceu, entre outros, o Goncourt e o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa, assim monopolizando todos os holofotes dos dois lados do Atlântico. Só em França, o romance vendeu um milhão de exemplares. Filho de escritor, Littell nasceu em Nova Iorque, estudou em França, mas regressou a Nova Iorque, onde escreveu o primeiro livro, uma novela cyberpunk, além uma série de ensaios polémicos sobre Bacon (o pintor), as guerras que devastaram a Síria, o Congo, a Tchechénia, o Afeganistão e a Geórgia, as crianças-soldado do Uganda — acerca das quais realizou em 2015 o documentário Wrong Elements —, os serviços secretos russos, o activista da extrema-direita belga Léon Degrelle, etc. Agora, esta nova versão de Uma História Antiga, não chegando a ser desastrosa, fica muito aquém dos mínimos exigidos a um autor desta envergadura. Os sete capítulos correspondem a diferentes variações do mesmo tema: sexo, dominação e poder. O narrador muda de género à medida que a narratriva progride. Fiel a si próprio, Littell descreve cenas de sexo em doses maciças, por norma em contexto de grande violência. Relações humanas, diz ele, no tom sobranceiro da prosa desta vez tão francesa. Littell entretém-se a ilustrar aquilo a que Freud chamou ‘conteúdo manifesto’ (nos sonhos) e ‘conteúdo latente’, sobrepondo ambos: «Um outro ânus estava mesmo junto do meu rosto e eu estendi a língua para o lamber […] Quando acordei, uma luz fria irradiava pelo quarto.» A piscina é a metáfora deste récit à maneira de Burroughs (o autor de Naked Lunch surge em cada frincha), o qual, ao contrário do original, substitui interditos por subterfúgios. O que pretende Littell? Transpor para o quotidiano das pessoas comuns o horror dos conflitos de que tem sido testemunha privilegiada? Sexualizar os Carnets de Homs, relato da viagem clandestina que fez à Síria? Afinal, nada do que relata é estranho às pessoas comuns. Com mais ou menos transgressão, estamos a falar de trivialidades. Duas estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Inverno, segundo volume da tetralogia das estações do ano, da escocêsa Ali Smith (n. 1962). Activista política e defensora dos direitos LGBTI, foca-se agora nas consequências do Brexit e na deriva populista encarnada po Trump, «um presidente norte-americano que tem por hábito comparar mulheres a cadelas [e que] encoraja os Escuteiros da América a vaiar o último presidente e a vaiar o nome da sua própria adversária nas eleições do ano passado.» Em Smith, nada é linear: a narrativa errática e os monólogos interiores permitem todo o tipo de digressões. O real (um deputado britânico a ladrar para uma colega de etnia diferente) pode ser surreal. Reflexões em torno de Cimbelino, de Shakespeare, servem de metáfora ao Brexit: «Uma peça sobre um reino assente no caos, na mentira, no exercício tirânico do poder…» Certa acumulação de referências sociais, como os direitos dos refugiados, as mudanças climáticas, as incertezas do pós-Brexit, o domínio das redes sociais, o fascismo subliminar, etc., tenderiam a fazer de Inverno um panfleto, não fosse o caso de Smith ser uma autora prodigiosa. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

O DIA DA RAÇA

Num dos anos em que exerceu o cargo de primeiro-ministro, Cavaco convidou (e ele aceitou) Miguel Esteves Cardoso a escrever as Grandes Opções do Plano. Não vou comparar MEC com JMT. Mas o nonsense é da mesma ordem de grandeza. E o ano passado foi Ricardo Araújo Pereira quem esteve nas Nações Unidas, a representar a língua portuguesa, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal. A lógica é a mesma, e não me admiraria ver Cristina Ferreira a presidir às comemorações no próximo ano. Eu, como considero que o Dia da Raça devia ter sido extinto pela democracia, em vez de lhe mudarem o nome e meterem os emigrantes no pacote, também considero pouco edificantes estas nomeações. Mas cada um sabe de si.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

EM QUE FICAMOS?

A lei manda retirar condecorações a quem foi condenado. Acho pífio. Desde quando um castigo retrocede? Mas é o que há. Ora bem. Ronaldo foi condenado por um tribunal de Espanha a pagar 18,8 milhões de euros por fuga ao Fisco.

Agora, Marcelo quer alterar a lei para não retirar ao jogador as condecorações atribuídas.

Mas então têm de fazer o mesmo com os outros todos. Certo?

domingo, 20 de janeiro de 2019

COLÓQUIO-LETRAS 200


A Colóquio-Letras chegou ao número 200. Sendo colaborador da revista da Fundação Calouste Gulbenkian desde o n.º 54, ou seja, desde Março de 1980, dá-me especial satisfação ver que a revista resistiu.

Este número abre com um dossiê dedicado ao centenário do nascimento de Jorge de Sena, de que fazem parte três extensas cartas, uma delas reproduzida em fac-símile, dirigidas a Gastão Cruz pelo autor de Peregrinatio ad Loca Infecta. Quem quiser saber o que Sena pensava da terceira série de Líricas Portuguesas, antologia organizada por si (e reeditada em versão aumentada), descobre novidades em duas dessas cartas.

Desta vez não há poesia, mas um conto de Marco Lucchesi, um in memoriam de Luís Amaro, bem como os habituais ensaios, recensões críticas, notas & comentários, ilustrações de Rui Sanches, um texto de Ramalho Eanes (sobre Sena), etc. Nuno Júdice e Ana Marques Gastão estão de parabéns.

ERA UMA VEZ EM LOURES

A Câmara de Loures, presidida por Bernardino Soares (PCP), fez uma adjudicação directa para serviços de manutenção, tais como substituição de lâmpadas, limpeza de vidros e troca de cartazes. Quem ganhou essa adjudicação? Um indivíduo que é genro do secretário-geral do PCP.

Desde 2015, a autarquia de Loures pagou mais de 150 mil euros por esses serviços. Por exemplo, só em Outubro de 2018 pagou onze mil euros pela mudança de oito lâmpadas e dois casquilhos. Bernardino Soares diz que são as regras do mercado. Ele lá sabe.

Repetir cem vezes: são as regras do mercado.

A TVI fez uma reportagem detalhada. Bernardino insiste com o mercado, mas não apresenta documentos que fundamentem a escolha e os gastos de marajá. O PCP reagiu com um comunicado ideológico, como o BE fez no auge do Caso Robles. E depois admiram-se com o triunfo dos porcos.