domingo, 27 de janeiro de 2019

CRISTANDADE & EUROPRIDE

No Panamá, Marcelo conseguiu convencer o Papa a patrocinar em Portugal, em 2022, as Jornadas Mundiais da Juventude, encontro da cristandade global que dura sete dias. Para o ajudar no trabalho de lobista, meteu na comitiva o presidente da Câmara de Lisboa e o Patriarca de Lisboa. Assunto arrumado. O Vaticano confirmou.

Para o mesmo ano, 2022, Portugal candidatou-se a acolher o EuroPride, o maior evento LGBTI do mundo, que tem a duração de um ano, exigindo um orçamento nunca inferior a 1,5 milhões de euros (o Estado apoiaria com 25%). A candidatura portuguesa distingue-se das outras por ter carácter nacional: abertura no Porto, encerramento em Lisboa, raves na Abrançalha, etc. A Espanha e a Sérvia são os outros países concorrentes. Em Setembro saberemos.

Se ganharmos o EuroPride, haverá uma semana em que os dois eventos coincidem. É capaz de ser a semana mais interessante.

sábado, 26 de janeiro de 2019

ISTO ANDA TUDO LIGADO


A instrução do processo Operação Marquês começa depois de amanhã, dia 28. Hoje, o Expresso faz manchete com uma revelação que pode tramar o referido processo: se, como revela o jornal, a investigação policial a Sócrates foi despoletada em Abril de 2013 por um alerta da Caixa Geral de Depósitos, significa que foi anterior à abertura oficial do processo. A ver vamos.

Ontem, a RTP estreou a série Teorias da Conspiração, realizada por Manuel Pureza, escrita por Paulo Pena e Artur Ribeiro, com excelente fotografia de Vasco Viana, sound design e produção musical de Elvis Veiguinha e um cast homérico de actores, de que destacaria Rúben Gomes, Carla Maciel (os protagonistas), Gonçalo Waddington, Miguel Loureiro, Rui Morisson e André Gago.

Para já, o 1.º episódio detém-se na queda de Jardim Gonçalves à frente do BCP, o banco que na série se chama BPC.

Na imagem, Pedro Carmo, o actor que faz de Sócrates. Clique.

EMA DEIXOU LONDRES


Em Londres, ontem foi o último dia da Agência Europeia de Medicamentos. Foram arriadas as bandeiras dos 28 Estados-membros e desocupado o edifício de Canary Wharf.

Um total de 900 técnicos e funcionários preferiram o desemprego à mudança para Amesterdão (cidade escolhida para acolher a agência), onde a EMA funcionará a partir da próxima segunda-feira.

«Perder a sede da Agência Europeia de Medicamentos é uma perda significativa para Londres e para o Reino Unido», disse Simon Fraser, vice-presidente de Chatham House.

A 63 dias do Brexit, este é o acontecimento mais marcante do atribulado processo em curso.

Imagem: tuíte da EMA, vendo-se as bandeiras dobradas. Clique.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

BARÃO NEGRO


A RTP-2 tem estado a transmitir a série francesa Baron Noir / Barão Negro. Ao pé disto, os episódios mais sórdidos da política portuguesa são peanuts. A segunda temporada começou ontem.

Inspira-se na vida política francesa da última década: corrupção, nepotismo, escândalos, défice excessivo e UE, direitização galopante da sociedade, regressão de direitos sociais, financiamento ilegal de partidos, presidenciais de 2017.

Conta com actores/actrizes conhecidos nos papéis de Emmanuel Macron (a actriz Anna Mouglalis), François Hollande (Niels Arestrup), Manuel Valls (Hugo Becker), Jean-Luc Mélenchon (François Morel), Nicolas Sarkozy (Michel Voïta), Marine Le Pen (o actor Patrick Mille) e outros. Centra-se na figura de Philippe Rickwaert (Kad Merad), o barão negro que não é outro senão Julien Dray, antigo assessor de Mélenchon. Rickwaert é a eminência parda da série.

Todas estas figuras têm nomes fictícios: Macron é Amélie Dorendeu, Hollande é Francis Laugier, Valls é Cyril Balsan, Mélenchon é Michel Vidal, Sarkozy é Jean-Marc Auzanet, etc. Cito estes por serem facilmente identificáveis, mas quem conheça bem a política francesa descobre outros nesta teia ficcional bem urdida. Escrita por Eric Benzekri e Jean-Baptiste Delafon, conta com um naipe de intérpretes excelentes. Oito episódios cada temporada.

Clique na imagem.

CRISTINA EM BELÉM

Esta manhã, no famoso programa da SIC, Lili Caneças foi directa ao ponto: como as coisas estão, Cristina Ferreira pode muito bem chegar a Presidente da República. Tiras um curso de ciência política e está feito. Para lá caminhamos. Não é preciso fazer o desenho, pois não?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

LITTELL & SMITH


Hoje na Sábado escrevo sobre Uma História Antiga, de Jonathan Littell (n. 1967), a nova versão, em sete capítulos, do díptico de 2012. Quando, em 2006, Littell publicou As Benevolentes, venceu, entre outros, o Goncourt e o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa, assim monopolizando todos os holofotes dos dois lados do Atlântico. Só em França, o romance vendeu um milhão de exemplares. Filho de escritor, Littell nasceu em Nova Iorque, estudou em França, mas regressou a Nova Iorque, onde escreveu o primeiro livro, uma novela cyberpunk, além uma série de ensaios polémicos sobre Bacon (o pintor), as guerras que devastaram a Síria, o Congo, a Tchechénia, o Afeganistão e a Geórgia, as crianças-soldado do Uganda — acerca das quais realizou em 2015 o documentário Wrong Elements —, os serviços secretos russos, o activista da extrema-direita belga Léon Degrelle, etc. Agora, esta nova versão de Uma História Antiga, não chegando a ser desastrosa, fica muito aquém dos mínimos exigidos a um autor desta envergadura. Os sete capítulos correspondem a diferentes variações do mesmo tema: sexo, dominação e poder. O narrador muda de género à medida que a narratriva progride. Fiel a si próprio, Littell descreve cenas de sexo em doses maciças, por norma em contexto de grande violência. Relações humanas, diz ele, no tom sobranceiro da prosa desta vez tão francesa. Littell entretém-se a ilustrar aquilo a que Freud chamou ‘conteúdo manifesto’ (nos sonhos) e ‘conteúdo latente’, sobrepondo ambos: «Um outro ânus estava mesmo junto do meu rosto e eu estendi a língua para o lamber […] Quando acordei, uma luz fria irradiava pelo quarto.» A piscina é a metáfora deste récit à maneira de Burroughs (o autor de Naked Lunch surge em cada frincha), o qual, ao contrário do original, substitui interditos por subterfúgios. O que pretende Littell? Transpor para o quotidiano das pessoas comuns o horror dos conflitos de que tem sido testemunha privilegiada? Sexualizar os Carnets de Homs, relato da viagem clandestina que fez à Síria? Afinal, nada do que relata é estranho às pessoas comuns. Com mais ou menos transgressão, estamos a falar de trivialidades. Duas estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Inverno, segundo volume da tetralogia das estações do ano, da escocêsa Ali Smith (n. 1962). Activista política e defensora dos direitos LGBTI, foca-se agora nas consequências do Brexit e na deriva populista encarnada po Trump, «um presidente norte-americano que tem por hábito comparar mulheres a cadelas [e que] encoraja os Escuteiros da América a vaiar o último presidente e a vaiar o nome da sua própria adversária nas eleições do ano passado.» Em Smith, nada é linear: a narrativa errática e os monólogos interiores permitem todo o tipo de digressões. O real (um deputado britânico a ladrar para uma colega de etnia diferente) pode ser surreal. Reflexões em torno de Cimbelino, de Shakespeare, servem de metáfora ao Brexit: «Uma peça sobre um reino assente no caos, na mentira, no exercício tirânico do poder…» Certa acumulação de referências sociais, como os direitos dos refugiados, as mudanças climáticas, as incertezas do pós-Brexit, o domínio das redes sociais, o fascismo subliminar, etc., tenderiam a fazer de Inverno um panfleto, não fosse o caso de Smith ser uma autora prodigiosa. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

O DIA DA RAÇA

Num dos anos em que exerceu o cargo de primeiro-ministro, Cavaco convidou (e ele aceitou) Miguel Esteves Cardoso a escrever as Grandes Opções do Plano. Não vou comparar MEC com JMT. Mas o nonsense é da mesma ordem de grandeza. E o ano passado foi Ricardo Araújo Pereira quem esteve nas Nações Unidas, a representar a língua portuguesa, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal. A lógica é a mesma, e não me admiraria ver Cristina Ferreira a presidir às comemorações no próximo ano. Eu, como considero que o Dia da Raça devia ter sido extinto pela democracia, em vez de lhe mudarem o nome e meterem os emigrantes no pacote, também considero pouco edificantes estas nomeações. Mas cada um sabe de si.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

EM QUE FICAMOS?

A lei manda retirar condecorações a quem foi condenado. Acho pífio. Desde quando um castigo retrocede? Mas é o que há. Ora bem. Ronaldo foi condenado por um tribunal de Espanha a pagar 18,8 milhões de euros por fuga ao Fisco.

Agora, Marcelo quer alterar a lei para não retirar ao jogador as condecorações atribuídas.

Mas então têm de fazer o mesmo com os outros todos. Certo?

domingo, 20 de janeiro de 2019

COLÓQUIO-LETRAS 200


A Colóquio-Letras chegou ao número 200. Sendo colaborador da revista da Fundação Calouste Gulbenkian desde o n.º 54, ou seja, desde Março de 1980, dá-me especial satisfação ver que a revista resistiu.

Este número abre com um dossiê dedicado ao centenário do nascimento de Jorge de Sena, de que fazem parte três extensas cartas, uma delas reproduzida em fac-símile, dirigidas a Gastão Cruz pelo autor de Peregrinatio ad Loca Infecta. Quem quiser saber o que Sena pensava da terceira série de Líricas Portuguesas, antologia organizada por si (e reeditada em versão aumentada), descobre novidades em duas dessas cartas.

Desta vez não há poesia, mas um conto de Marco Lucchesi, um in memoriam de Luís Amaro, bem como os habituais ensaios, recensões críticas, notas & comentários, ilustrações de Rui Sanches, um texto de Ramalho Eanes (sobre Sena), etc. Nuno Júdice e Ana Marques Gastão estão de parabéns.

ERA UMA VEZ EM LOURES

A Câmara de Loures, presidida por Bernardino Soares (PCP), fez uma adjudicação directa para serviços de manutenção, tais como substituição de lâmpadas, limpeza de vidros e troca de cartazes. Quem ganhou essa adjudicação? Um indivíduo que é genro do secretário-geral do PCP.

Desde 2015, a autarquia de Loures pagou mais de 150 mil euros por esses serviços. Por exemplo, só em Outubro de 2018 pagou onze mil euros pela mudança de oito lâmpadas e dois casquilhos. Bernardino Soares diz que são as regras do mercado. Ele lá sabe.

Repetir cem vezes: são as regras do mercado.

A TVI fez uma reportagem detalhada. Bernardino insiste com o mercado, mas não apresenta documentos que fundamentem a escolha e os gastos de marajá. O PCP reagiu com um comunicado ideológico, como o BE fez no auge do Caso Robles. E depois admiram-se com o triunfo dos porcos.

sábado, 19 de janeiro de 2019

OS DOIS REINALDOS


Em Portugal, quando se fala de Reinaldo Ferreira, nove em cada dez portugueses (intelectuais incluídos) pensa no Repórter X, o mais famoso jornalista português dos anos 1930, também dramaturgo e cineasta. Tão famoso que, em 1986, José Nascimento fez um filme sobre a sua vida, com Joaquim de Almeida, Eunice Muñoz, Jorge Silva Melo, Fernando Heitor, Anamar, José Ribeiro da Fonte e dois terços dos frequentadores do Frágil.

Na História da Literatura Portuguesa, Óscar Lopes refere o Repórter X, ou seja, Reinaldo Ferreira pai (1897-1935), mas, em capítulo diferente, também refere o filho (1922-1959). O seu a seu dono.

Porém, toda a gente se esquece desse filho pródigo, o poeta Reinaldo Ferreira, nascido em Barcelona, onde o pai estava a filmar. Reinaldo foi para Lourenço Marques com 17 anos, ali tendo morrido com 37. Uma lenda da comunidade homossexual moçambicana, deixou uma obra poética incontornável, de que faz parte um dos grande êxitos de Zeca Afonso: Menina dos olhos tristes. Ou o fado-canção Uma casa portuguesa, imortalizado por Amália.

Em todo o caso, a poesia de Reinaldo é outra coisa. Em 1966, Régio não poupou elogios no prefácio que fez para a primeira edição portuguesa (a edição original, publicada em Lourenço Marques em 1960, um ano após a morte do poeta, é da responsabilidade de Eugénio Lisboa) dos seus poemas. Portanto, convinha não confundir Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira com o papá.

Nas imagens, capas das primeiras edições de Poemas (1960) de Reinaldo Ferreira, e de Memórias de um ex-morfinómano (1956) do Repórter X. Clique.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

EGOÍSTA 66


Lugar-comum: a revista Egoísta representa o luxo gráfico da edição portuguesa. Mas, talvez por ser dedicado à literatura infantil — era uma vez —, o número mais recente, o 66, libertou a fantasia dos artistas plásticos convidados.

Pessoalmente tive muita sorte com as ilustrações que Rodrigo Prazeres Saias fez para o meu conto O Menino Malaquias. Mas Rodrigo Prazeres Saias assina outros trabalhos de grande qualidade, como os que acompanham os textos de Lídia Jorge, Mário Claúdio, Inês Pedrosa, Tânia Ganho e Marta Vaz. Também gosto muito Gonçalo F. Santos. Estou a esquecer-me de outros artistas, o que não significa menor estima. E ainda não tive tempo de ler nenhum texto, pois só hoje recebi a revista.

É evidente que nada disto seria possível sem o know-how e o bom gosto da Patricia Reis, sua editora. Parabéns!

Clique na imagem.

BARNIER EM BELÉM


Realizou-se ontem mais uma sessão do Conselho de Estado. Desta vez, o convidado foi Michel Barnier, negociador-chefe da UE para o Brexit.

Durantes os trabalhos, António Costa expôs o Plano de Preparação e de Contingência para a saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo. A intervenção do primeiro-ministro faz todo o sentido. Mas por que carga de água (excepto demonstrar a eficácia da nossa diplomacia) o Presidente da República convidou Mr. Barnier?

Imagem (editada) do site da Presidência da República. Clique.

FOLHETIM PSD


A peixeirada do PSD acabou perto das cinco da manhã. Ironia suprema: a escolha do voto secreto foi feita de braço no ar. Respeitado o procedimento, Rui Rio ganhou por 75 contra 50. Um déjà vu para quem conhece a história do PSD.

Eu não esqueço. Cito do meu livro de memórias:

«Em Abril de 1979, com o país em transe, 37 dos 73 deputados do PSD desvincularam-se do partido, permanecendo no Parlamento como independentes. Ficaram conhecidos como Inadiáveis

Mais: Vítor Direito lançou o Correio da Manhã para ser o porta-voz dos Inadiáveis. Tal como hoje o Observador é o porta-voz da Direita neo-liberal.

Mas esta gajada passista não tem os guts de Magalhães Mota, co-fundador do partido, Sousa Franco, Sérvulo Correia (os três continuaram deputados), Rui Machete, Ernâni Lopes, Jorge Miranda (não eram deputados mas abandonaram o partido), limitando-se a rodopiar para onde sopra o vento.

CRISTINA & CRISTAS


Depois do telefonema de Marcelo, Assunção Cristas foi fazer arroz de atum ao programa de Cristina Ferreira. Quem é o político que, um destes dias, vai à Casa mais badalada do país fazer punhetas de bacalhau?

Clique no Instagram de Cristina.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

BANVILLE & ONDAATJE


Hoje na Sábado escrevo sobre Mrs. Osmond, de John Banville (n. 1945), o irlandês que é actualmente um dos mais importantes autores vivos de língua inglesa. Só um autor como ele podia, sem cair no ridículo, escrever a sequela de Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Fez isso neste seu romance mais recente, prolongamento das aventuras de Isabel Archer, a americana rica que se deixou seduzir por um europeu arrivista. O romance de 1881 é um clássico. Quem não leu James, viu com certeza o filme que Jane Campion fez em 1996, com Nicole Kidman e John Malkovich nos papéis de Isabel e Gilbert Osmond. Mrs. Osmond é um pastiche, com a vantagem suplementar de ‘responder’ ao livro de James, que tem um final ambíguo, coisa que agora não acontece. É provável que alguns jamesianos prefiram a história suspensa. Para muitos deles, é indiferente saber se Isabel volta para Gilbert. Mas esse detalhe hermenêutico vê-se ultrapassado pelo brilho estilístico de Banville, que resgata a intriga das incertezas e equívocos da obra-prima de James, fazendo a transição do romance vitoriano para a narrativa modernista. Isabel continua na Europa, em trânsito pela Inglaterra, França e Itália, porém ligada ao repelente marido. Banville cria novas personagens, sem excluir as de James: o primo Ralph, madame Merle (amante de Gilbert), Henrietta Stackpole e outras. A mais-valia radica no fôlego da escrita, quer se trate de descrições de viagens, factos triviais ou estados de alma: «Além disso, não estava na sua natureza esquivar-se ao dever e às coisas que reclamavam a sua intervenção. Na sua conceção de si mesma, sempre predominara a ideia de que na vida uma pessoa só consegue preservar o que resta da sua honra ao encarar cabalmente as suas más ações e a sua cumplicidade no mal…» O leitor talvez considere excessivo o uso de pronomes possessivos, que têm no texto original um peso diferente daquele que adquirem na língua de chegada, mas a prosódia tem exigências. No confronto com James, Banville dialoga de igual para igual, sobrepondo o virtuosismo da prosa à engrenagem do plot. O resultado é surpreendente. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre A Luz da Guerra, de Michael Ondaatje (n. 1943), poeta consagrado e romancista laureado, conhecido em todo o mundo desde que Anthony Minghella adaptou ao cinema O Paciente Inglês, provavelmente o melhor romance deste canadense nascido no Sri Lanka. A obra mais recente confirma a solidez de uma escrita convencional, porém sedutora. Estamos na ressaca da Blitz londrina, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A primeira frase dá o tom: «Os nossos pais foram-se embora, deixando-nos ao cuidado de dois homens que podiam muito bem ser criminosos.» O motivo da inesperada partida para Singapura foi um mistério para Nathaniel e Rachel. Por que razão a mãe não levou consigo a mala de porão? Qual a natureza do trabalho que precipitou a partida? Serviços secretos? Fuga a segredos indizíveis? Como de regra, Ondaatje é minucioso nos detalhes da recriação de ambientes, mesmo (como aqui) em registo dickensiano. Do seu lugar de narrador autodiegético, Nathaniel conta como foi. Tudo aconteceu num tempo que a memória filtrou, sem os holofotes do presente. Música de câmara perfeita. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

RELER MILLER


Apesar do gelo que transia o São Luiz, gostei muito de ver Do Alto da Ponte. Austera, a encenação de Jorge Silva Melo — relendo tão bem o Arthur Miller dos fifties — é perfeita. O mesmo se diga do sexteto de actores principais: Américo Silva, Joana Bárcia, André Loubet, Vânia Rodrigues, António Simão e Bruno Vicente. Tema central: sexo e delação num gueto novaiorquino de imigrantes ilegais. Como Silva Melo disse numa entrevista recente, «o realismo de Miller é moral». Vendo a peça (traduzida por Ana Raquel Fernandes e Rui Pina Coelho), percebemos porquê.

A fotografia é de Jorge Gonçalves. Clique na imagem.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

MAY SOBREVIVE

Por 325 votos contra 306, foi hoje derrotada, como era de prever, a moção de censura apresentada pelo Labour contra o Governo de Theresa May. A esquizofrenia prossegue.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

IMPASSE


Por 432 votos contra 202, os deputados britânicos rejeitaram o acordo negociado com a UE.

Como tinha avisado, Theresa May reiterou que não há plano B. Sei que rejeitam o acordo, mas não sei o que querem. Brexit significa brexit, sublinhou a primeira-ministra.

Minutos depois da votação, Jeremy Corbyn, líder da Oposição, apresentou uma moção de censura ao Governo que será votada obrigatoriamente amanhã. Como é pouco provável que vença, a incerteza adensa-se.

No Reino Unido, a marcação de eleições gerais é uma prerrogativa do chefe do Governo.

ÁLVARO DE CAMPOS RASURADO


O livro escolar Encontros 12.º ano, da Porto Editora, omite três versos da Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, por se tratar de «versos que têm linguagem explícita e se relacionam com a prática da pedofilia». A versão do mesmo livro destinada aos professores insere o poema na íntegra.

Os argumentos morais do comunicado da equipa de autores do livro [«Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos.»] não merecem comentário.

Imagem: excerto da Ode Triunfal, in Álvaro de Campos, Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 87, edição de Teresa Rita Lopes. Clique para ler melhor.