sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

MAIORIA ABSOLUTA


Perante a indiferença de 30,9% dos inquiridos, o papão da maioria absoluta do PS ainda assusta 30,7% de potenciais eleitores

Clique na imagem do Expresso.

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 54,7%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 15,2%. E a PAF em 8,1%.

O PSD obtém o pior resultado de sempre. CDU e CDS empatados. O partido de Santana Lopes, sondado pela primeira vez, obtém 4%.

Clique na imagem do Expresso.

VIENA


Cinco dias em Viena deixaram o blogue a hibernar. Gostei da cidade? Não posso dizer que não, mas há meia dúzia de cidades europeias de que gosto mais.

Coisas boas de Viena: a escala humana, apesar da arquitectura imperial / a limpeza geral / a extensa área pedonal / o trânsito disciplinado fora do centro pedonal / os magníficos museus  / o serviço competente em cafés e restaurantes / comércio de luxo, a sério / oferta musical clássica de primeiríssima qualidade / comércio popular decente / os passeios de pedra lisa / ausência total de jeans com buracos nos joelhos / ausência quase total de grafitos nas paredes / os cafés históricos / as livrarias / as galerias de arte / os imensos parques verdes / o palácio imperial de Schönbrunn (a seis quilómetros do centro) / a catedral de Stephansdom / a possibilidade de ir a quase todo o lado sem ter de recorrer a táxis e outros transportes públicos / Etc.

Coisas más de Viena: as ruas sem árvores / a luz fosca / o urbanismo monótono em tom sépia / os taxistas turcos e croatas ostensivamente enfadados / os austríacos com ar de quem sofre de prisão de ventre permanente / a quase total ausência de adolescentes / a quase total ausência de jovens adultos (excepto empregados de mesa) / a iluminação deficiente das ruas principais / Etc.

Na imagem, a fabulosa Karlskirche, igreja dedicada a Carlos Borromeu, fotografada por mim. Clique.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

MORANTE & BUKOWSKI


Hoje na Sábado escrevo sobre A História, da italiana Elsa Morante (1912-1985), tão arredia da edição portuguesa, ao contrário de seu marido, Alberto Moravia. É bom tê-la de volta. O mais famoso dos seus romances foi agora traduzido por José Lima. À data do lançamento, em 1974, no auge dos anos de chumbo italianos, a celeuma em torno do livro dividiu a intelligentsia marxista. Pasolini, de quem Morante era amiga e colaboradora em vários filmes, foi um crítico violento. Nunca mais se falaram até à morte do cineasta. Embora comece antes e acabe depois, A História centra-se na ocupação de Roma pelos nazis e, em particular, na história pessoal de Ida Ramundo, professora, judia, vítima de estupro (em sua própria casa) por um soldado alemão, bêbedo, incapaz de perceber que a epilepsia fizera Ida perder por momentos a consciência. Useppe, o segundo filho, nasceu em resultado. Mas o romance centra-se sobretudo na história da Europa do século XX. Pontuam o livro cronologias detalhadas de convulsões políticas ocorridas entre 1900 e 1967. Como se não fosse possível perceber Ida sem conhecer os porquês das duas Guerras Mundiais, a República de Salò, o estalinismo, as bombas de Hiroxima e Nagasaki, a vitória de Mao Tsé-Tung, o Muro de Berlim, a independência da Argélia, a crise dos mísseis soviéticos em Cuba, a guerra do Vietname, a onda de assassinatos políticos em Itália, o golpe dos coronéis em Atenas, etc. Na sua crueza, na ambiguidade das suas harmónicas («Ela redescobria aquela sensação de realização…»), nem o capítulo da violação dispensa contexto histórico. O relato do conflito é devastador. Morante tem uma escrita seca, precisa, capaz de, sem ênfase retórica, fazer o retrato vívido de personagens secundários (como é o caso de Davide Segre) e, ao mesmo tempo, descrever acontecimentos terríveis em grande angular. Inquéritos e listas valem o que valem, mas, segundo uma pesquisa feita em 1985 pelo jornal Corriere della Sera, A História é (ou era) o mais lido e discutido dos romances italianos contemporâneos. Fora de Itália, é considerado um dos cem romances mais importantes de sempre em qualquer língua. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Os Cães Ladram Facas, uma antologia da poesia de Charles Bukowski (1920-1994) organizada por Valério Romão a partir de vários livros, alguns póstumos. Selecção de 135 poemas traduzidos por Rosalina Marshall. A edição não é bilingue. No prefácio, Valério Romão alerta o leitor para a possibilidade de vários poemas póstumos terem «sofrido modificações consideráveis à mão do editor, John Martin.» Poeta e escritor do realismo sujo, a obra de Bukowski tem sido reavaliada depois da sua morte. Marginal ao sistema literário, desde cedo cantou as vidas dos deserdados e o absurdo da existência: «Somos pássaros moribundos / somos navios que se afundam — / o mundo balança contra nós […] e chamam ao nosso veneno política.» Clichês autobiográficos plasmados na obra: misoginia inata, sexo promíscuo, abuso de álcool e violência indiscriminada. A precariedade das profissões (operário fabril, carteiro, etc.) não o impediu de escrever dezenas de livros, incluindo seis romances e uma dúzia de colectâneas de contos. A Black Sparrow Press tem feito render o espólio. Três estrelas. Publicou a Alfaguara.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

PURGA NO BRASIL

O primeiro acto de Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil, o equivalente a ministro da Presidência, foi exonerar 320 funcionários alegadamente militantes ou simpatizantes do PT. As exonerações foram publicadas ontem no Diário Oficial.

Onyx deu o tiro de partida para a «despetização» da Administração Pública, tornando-a «livre de amarras ideológicas». Igual medida vai ser aplicada em todos os ministérios, tribunais, escolas, universidades, institutos e órgãos oficiais brasileiros, prevendo-se a exoneração de dezenas de milhares de funcionários.

Quem considerava os excessos retóricos de Bolsonaro mera estratégia de campanha, pode agora confrontar-se com a realidade.

O CONGRESSO DA DIVERSIDADE


Ontem foi o Dia Um dos novos eleitos para o Congresso (Senado e Câmara dos Representantes) dos Estados Unidos. Dez novos senadores, sendo 3 mulheres Democratas; e 101 novos congressistas, sendo 64 Democratas. No seu conjunto, o Congresso tem agora mais de cem mulheres: 38 são Republicanas.

Nunca o Congresso americano teve tanta diversidade: homossexuais e lésbicas assumidas, imigrantes, uma mulher muçulmana, hispânicos, negros, representantes de tribos índias, dois antigos oficiais da CIA, um ex-Boina Verde, mulheres veteranas militares (nunca até agora ex-militares haviam concorrido), antigos assessores de contraterrorismo, etc.

Nancy Pelosi, 78 anos, Democrata, foi eleita Speaker, cargo que já ocupara entre 2007 e 2011. Não vai ser fácil a vida de Trump nesta segunda metade do seu mandato.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

BRANQUEAR O FASCISMO

Mário Machado, líder do movimento de extrema-direita Nova Ordem Social, esteve hoje no programa de Manuel Luís Goucha, na TVI. Mote: Precisamos de um novo Salazar?

Machado acha que sim. Bruno Caetano, alegado repórter sem carteira profissional de jornalista, autor do formato, também acha. Goucha fez notar que não foi responsável pelo convite.

Numa rápida pesquisa sobre Machado, encontro referências a condenações em 1997 (caso Alcindo Monteiro), 2008 e 2010. Goucha passou ao lado.

Se, como diz Goucha, temos de ouvir todas as partes, convém fazer primeiro o trabalho de casa. E confrontar o entrevistado com eventuais contradições. Neste caso foram várias.

MARÍAS & JONES


Hoje na Sábado escrevo sobre Berta Isla, o romance mais recente do espanhol Javier Marías (n. 1951). Trata-se de um thriller de espionagem que recupera Peter Wheeler, um dos personagens da trilogia O Teu Rosto Amanhã. O protagonista, Tom Nevinson, podia ser o alter-ego do autor, pois ambos, em determinado momento das suas vidas, trocaram Espanha por Oxford, pautando o dia a dia por idiossincrasias britânicas. Como em obras anteriores, a acção de Berta Isla — o nome da mulher de Tom — desenrola-se tendo a História europeia como pano de fundo. Desta vez, o leitor acompanha a turbulência de 1968 (o Maio francês, a ocupação de Praga pelos tanques do Pacto de Varsóvia) e o colapso da URSS em 1991, depois de passar pela guerrilha do Ulster, a guerra das Malvinas e a queda do Muro de Berlim. Sem esquecer a ditadura franquista, pretexto para Marías lembrar os ominosos tempos do caudilho, em especial os métodos de actuação das polícias espanholas. Em Oxford, Tom, cujos dotes de linguista e de mimo eram reconhecidos, vê-se compelido a ser espião ao serviço do MI6. Filho de pai inglês e mãe espanhola, reunia as condições «para ser útil ao país e o servir com as suas capacidades excepcionais.» Tom recusa a sugestão de Wheeler, mas um episódio macabro (uma mulher com quem fez sexo aparece estrangulada) coloca-o entre duas escolhas: acusação de assassinato ou tornar-se infiltrado com base em Madrid. A originalidade da intriga radica no facto de cruzar os incidentes da vida conjugal com os segredos da profissão. Por exemplo, Berta não sabe por que razão foi um dia atacada por um casal de activistas do IRA. O que queriam com ela os irlandeses? Embora se trate de um thriller, um dos aspectos mais interessantes e melhor resolvidos relaciona-se com a solidão de Berta (o meu marido é o meu marido?, interrogava-se), que foi mantendo breves casos extra-conjugais, mas durante vinte anos não desistiu de ver Tom de regresso a casa. Oportunas citações de Shakespeare (o contraponto de Thatcher com Henrique V em Agincourt, em 1415, é um achado) e T.S. Eliot, pontuam a narrativa. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Aquilo Que Encontrei na Praia, romance do escritor galês Cynan Jones (n. 1975). A vida dos que vivem no limite da sobrevivência é o tema central. Podia ser um thriller policial, na medida em que tudo começa com a descoberta do corpo de um homem com «um buraco na cara, um túnel até à nuca», homem a quem faltavam quase todos os dedos de uma das mãos. O livro foi publicado em 2011, no auge da crise europeia. No centro da intriga, Grzegorz, imigrante polaco, e Hold, um pescador. Tráfico de droga, chantagem, contabilidade paralela, expedientes que põem em risco o visto de Grzegorz, pretextos para Cynan Jones falar dos efeitos da desregulação do mercado, dos monopólios da cadeia alimentar e da globalização. Não é inocente que Grzegorz seja polaco: quando os britânicos se queixam dos estrangeiros que hoje em dia ocupam a generalidade das profissões pouco qualificadas, estão a pensar em polacos. Grzegorz lê o grafito todos os dias: «Polacos fora». Mas o medo é o que «mantém as pessoas na linha». Três estrelas. Publicou a Elsinore.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

CENTENO, THE BEST


Mário Centeno, ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, foi considerado Ministro das Finanças do Ano, na Europa, pela revista inglesa The Banker.

A revista destaca a bem-sucedida resolução de negociações delicadas envolvendo os ministros das Finanças da zona euro, o acerto na gestão e prevenção de futuras crises financeiras (com sucesso em dezenas de assuntos), bem como as significativas reformas na área da moeda única.

Contra as previsões inquinadas dos avençados do apocalipse, Centeno, o menino feio que resgatou o PS da sina do despesismo, fez a quadratura do círculo. A caterva de comentadores de economês com lugar cativo nas televisões e outros media, bem pode limpar as mãos à parede.

The Banker pertence ao grupo Financial Times.

Clique na imagem.

ESPANHA


Se as eleições se realizassem hoje em Espanha, o PSOE seria o partido mais votado, mas seria a Direita a governar com o apoio da extrema-direita. Uma geringonça à espanhola, portanto.

A soma do PP, CIUDADANOS e VOX representa 50,9% das intenções de voto (e a possibilidade de 189 deputados), enquanto a soma do PSOE e do PODEMOS apenas representa 38,4% (e a possibilidade de 143 deputados). Os pequenos partidos não contam: a soma de todos não chega para colmatar o gap.

Vendo os três gráficos, verificamos que o VOX, de extrema-direita, praticamente não existia há seis meses, e hoje consegue mobilizar quase treze por cento do eleitorado.

É evidente que uma coligação PP+PSOE+CIUDADANOS evitaria ter a extrema-direita a governar, mas a ortodoxia de uns e outros vai optar pela pior solução.

A sondagem foi divulgada hoje por El Mundo. Clique na imagem.

SINISTRO


Fui ler o discurso de posse de Bolsonaro.

Highlights

Hoje, aqui estou, fortalecido, emocionado e profundamente agradecido a Deus [...]

Vamos restaurar e reerguer nossa Pátria, libertando-a definitivamente do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade económica e da submissão ideológica [...]

Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã [...]

Vamos combater a ideologia de género... O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas [...]

O cidadão de bem merece dispor de meios para se defender, respeitando o referendo de 2005, quando optou pelo direito à legítima defesa [...]

Contamos com o apoio do Congresso Nacional para dar o respaldo jurídico aos policiais para realizarem seu trabalho. [...]

Nossas Forças Armadas terão as condições necessárias para cumprir sua missão constitucional de defesa da soberania, do território nacional e das instituições democráticas, mantendo suas capacidades dissuasórias para resguardar nossa soberania e proteger nossas fronteiras [...]

À margem do discurso: Bandeira vermelha acabou / Nosso país liberta-se hoje do socialismo / Marxismo cultural dos mídia e das universidades vai acabar / Politicamente correcto nunca mais.

Há um ano, isto era uma anedota. Hoje é a realidade. Como a imagem demonstra, o homem tomou mesmo posse, sufragado por dois terços dos eleitores brasileiros.

Clique na imagem.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

BOLSONARO, DIA UM


Quando forem 16:45 em Portugal, Bolsonaro toma posse como 38.º Presidente do Brasil.

Estão milhares de pessoas na Esplanada dos Ministérios em Brasília, onde o longo cerimonial de investidura já teve início. O esquema de segurança é o maior da história do país. Três partidos representados no Congresso recusaram participar no acto: o PT, o PSOL e o PCdoB.

Com Bolsonaro tomam posse o vice-Presidente, general Hamilton Mourão, o presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, e 22 ministros.

Tereza Cristina, ministra da Agricultura, e Damares Alves, evangélica radical [Está na hora de dizer à nação que é a hora da Igreja governar], ministra da Família, Assuntos da Mulher e Direitos Humanos, são as únicas mulheres.

O executivo conta ainda com um almirante, três generais, um tenente-coronel astronauta (Ciência), um teólogo colombiano (Educação), um diplomata de extrema-direita (MNE) e o juiz Moro à frente da Justiça e Segurança Pública.

Martín Vizcarra, Presidente do Peru, que já estava em Brasília, regressou ao seu país.

Marcelo, único Chefe de Estado europeu presente, Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, e Mike Pompeo, secretário de Estado (MNE) americano, são os convidados de maior destaque.

Esta manhã tomaram posse os 27 governadores estaduais eleitos.

Clique na imagem.

domingo, 30 de dezembro de 2018

MALWARE EM GATWICK?

E se os drones de Gatwick nunca tivessem existido?

E se a paralização de 36 horas consecutivas (entre a noite de 19 de Dezembro e a manhã do dia 21), mais uma hora extra na tarde da reabertura, afectando mais de mil voos e cerca de 200 mil passageiros, tivesse sido consequência de um ataque de malware?

A polícia britânica mantém-se evasiva. O casal preso no dia 22 foi libertado com pedido oficial de desculpas e indemnização. Passaram nove dias e o Governo de Sua Majestade nada esclarece. Os rumores avolumam-se.

Os ataques de malware são formas de terrorismo como quaisquer outras. Ainda nenhum ciberataque tinha sido tão espectacular como o da Coreia do Norte à Sony, em Dezembro de 2014, mas tem havido outros.

Ainda ontem, todos os jornais do grupo Tribune Publishing (costa oeste dos Estados Unidos) ficaram impedidos de circular devido a um ataque de malware.

Como dizia o outro, no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

AMOS OZ 1939-2018


Vítima de cancro, morreu hoje Amos Oz, o escritor israelita que se opunha à política expansionista do seu país, o defensor convicto do direito dos palestinianos a um Estado independente, uma voz incómoda para Tel Aviv: «Se não houver aqui dois estados, e rapidamente, haverá apenas um. (E será árabe.)» Romancista, contista, ensaísta, professor de literatura na Universidade Ben-Gurion, em Beersheba, tem a obra (vinte romances, onze colectâneas de ensaios e três de contos) publicada em mais de cinquenta países, incluindo Portugal, onde estão traduzidos os seus livros mais conhecidos. Em data, o mais recente é Caros Fanáticos, uma colectânea de três ensaios centrados no fanatismo universal, de que o islâmico é parte. Tinha 79 anos.

ADSE


O Observador publicou ontem um estudo muito detalhado sobre a ADSE, da autoria de Mário Amorim Lopes, professor da Universidade do Porto e da Católica Porto Business School. Trata-se de um trabalho sério, com início na criação (em 1963) deste subsistema de saúde dos funcionários públicos, anterior ao SNS, explicado até à actualidade.

Por exemplo: em 2016, a ADSE atingiu um pico de 336 milhões de euros de saldo positivo, «tendo plenamente consolidado o autofinanciamento... depende apenas das contribuições dos seus beneficiários...», que todos os meses descontam 3,5% do seu vencimento bruto, subsídios de férias e Natal incluídos.

Em 2016, a ADSE tinha 1.269.267 beneficiários, dos quais 848.665 são titulares no activo (41%) ou aposentados (27%), sendo os restantes 420.602 descendentes menores e cônjuges sem rendimentos.

É importante que estas coisas sejam esclarecidas para acabar de vez com a ideia de benesse.

Conclusão: «A ADSE é hoje financeiramente independente. Logo, é um subsistema de saúde pago pelos seus beneficiários e não pelos contribuintes. Os restantes argumentos para a sua extinção são de cariz ideológico.» O trabalho é complementado com meia dúzia de gráficos, um dos quais aqui se reproduz.

Clique na imagem.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

BEST OF 2018


Em cima do fim do ano, o meu Best Of 2018. Cinco livros:

A MENTE APRISIONADA / Czeslaw Milosz / Cavalo de Ferro

Poeta notabilíssimo, o polaco Czeslaw Milosz publicou em 1953 um libelo contra o totalitarismo: A Mente Aprisionada. A tradução portuguesa chegou em 2018. Os marxistas não gostaram, os anticomunistas torceram o nariz. Milosz sofreu o ónus de ter razão antes de tempo, mas o futuro corroborou esta obra-prima.

MULHERES LIVRES HOMENS LIVRES / Camille Paglia / Quetzal

Cada novo livro de Camille Paglia é uma provocação. Nessa medida, Mulheres Livres Homens Livres não constitui excepção. Compilação de ensaios (alguns oriundos de outras obras suas) sobre sexo, género, arte e feminismo, apoiados numa vasta erudição e no total desprezo pela mentalidade dominante. Imprescindível.

MRS. OSMOND / John Banville / Relógio d’Água

Se a ficção jamesiana é um paradigma de excelência, John Banville chegou lá. Num exercício arriscado, Mrs. Osmond prolonga Retrato de Uma Senhora, o clássico de 1881. James fez a transição do romance vitoriano para o modernismo, e Banville, dialogando de igual para igual, faz com brilho o caminho de volta.

O MUNDO GAY DE ANTÓNIO BOTTO / Anna M. Klobucka / Documenta

Ler Botto sob enfoque queer foi o que fez Anna M. Klobucka com O Mundo Gay de António Botto. Estudo inédito de um poeta que, nos anos 1920, impôs em língua portuguesa a poesia de índole homossexual, mergulha na biografia do autor, sem esquecer celeumas, o patrocínio de Pessoa, o exílio no Brasil e os delírios de uma personalidade errática.

PÁTRIA / Fernando Aramburu / Dom Quixote

O terrorismo associado ao independentismo basco ilustra um dos períodos negros da História de Espanha. No mais recente dos seus romances, Pátria, o espanhol Fernando Aramburu expõe de forma crua a vaga de assassinatos perpetrados pela esquerda abertzale. Isento de ênfase, o livro vai fundo no escalpe da realidade.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

RUI MARTINIANO 1954-2018


Vítima de aneurisma, morreu anteontem Rui Martiniano, o editor que, na qualidade de poeta, assinava Rui André Delídia.

Martiniano abandonou a actividade bancária para fundar a Hiena, editora marginal porém muito exigente, que tem no seu catálogo dois livros de Fernando Assis Pacheco, sendo um deles a primeira reunião da poesia completa do autor, uma colectânea de traduções feitas por Herberto Helder, além de livros de Raul Leal, António José Forte, Adília Lopes, Oscar Wilde, Djuna Barnes, Boris Vian, Marguerite Duras, Saint-John Perse, Marina Tsvétaïeva, Walter Benjamin, Thomas Bernhard, Mandelstam, Beckett, Nietzsche, Joyce, Hofmannsthal, Rilke, Céline, Rimbaud, Baudelaire, Genet, Lorca, Artaud, Nerval, Kafka, Mallarmé, Bataille, Michaux, Tzara, Pound e dezenas de outros.

Em 1991, com o título Arte Inútil, publicou a sua própria poesia reunida (escrevi sobre o livro no n.º 135-36 da revista Colóquio-Letras). Nos últimos anos dedicou-se à actividade de alfarrabista, na Rua Anchieta, ao Chiado. Tinha 64 anos.

Imagem de Edgar Pêra, roubada a Diogo Vaz Pinto. Clique.

domingo, 23 de dezembro de 2018

INDONÉSIA


Cerca de 250 mortos, 843 feridos graves e centenas de habitações destruídas, número que inclui uma dezena de hotéis, é o balanço provisório do tsunami que esta madrugada abalou a região costeira de Pandeglang, na província de Banten (Java), a duzentos quilómetros de Jacarta.

Clique na imagem de El País.

sábado, 22 de dezembro de 2018

COLETES & REDES

O mito das redes sociais como factor de mobilização de massas ficou demonstrado ontem com o flop dos gilets indígenas. As redes sociais criam ilusões. Ponto.

Não vale a pena invocar a manifestação de 15 de Setembro de 2012 contra o anunciado (mas abortado) redesenho da TSU, que punha os trabalhadores a descontar mais 7% do salário bruto e os patrões a pagar menos 5,75% por cada um.

O 15 de Setembro foi o que foi porque os aparelhos do PS, do PCP, do BE, da CGTP e da UGT fizeram o trabalho de casa (com muita eficácia e ainda maior discrição), os bispos tomaram posição, e Manuela Ferreira Leite foi à televisão dizer que também ia à manifestação. Tão simples como isto. Até Cavaco, nas suas memórias póstumas, confessa ter considerado a medida um erro.

Não foram os blogues, nem o Facebook, nem o Twitter, nem o WhatsApp, nem o Instagram que mobilizaram as pessoas. As redes deram visibilidade à indignação. As pessoas mobilizaram-se porque estavam indignadas com o delírio de Passos, Gaspar & Portas.

Hoje temos uma sucessão de indignações tribais. Tumulto nacional é outra coisa.

OS MELHORES?

Os best of valem o que valem. Cada um tem direito às suas agendas, quotas, epifanias, tesões, ódios de estimação, embirrações, amizades, subserviências, cumplicidades, dependências, clubites e obrigações. Nada contra. Sempre foi assim. Aqui e em toda a parte.

Continua a fazer-me confusão que a lista principal seja antecedida de outra com títulos que, alegadamente, não podem ser ignorados. Mas a pecha é antiga. Não vá o Diabo tecê-las, há que acautelar o sistema de relações públicas.

Este ano temos uma novidade: livros de 2017 na lista dos melhores de 2018 (conferir no Expresso). E por que não 2016 ou 2015? Ou mesmo 1973, ano da fundação do jornal?

A inclusão, nos livros do ano, de reedições de livros publicados em Portugal há vinte ou trinta anos, é outro lugar-comum. Mas isso releva de simples ignorância.