sábado, 22 de dezembro de 2018

COLETES & REDES

O mito das redes sociais como factor de mobilização de massas ficou demonstrado ontem com o flop dos gilets indígenas. As redes sociais criam ilusões. Ponto.

Não vale a pena invocar a manifestação de 15 de Setembro de 2012 contra o anunciado (mas abortado) redesenho da TSU, que punha os trabalhadores a descontar mais 7% do salário bruto e os patrões a pagar menos 5,75% por cada um.

O 15 de Setembro foi o que foi porque os aparelhos do PS, do PCP, do BE, da CGTP e da UGT fizeram o trabalho de casa (com muita eficácia e ainda maior discrição), os bispos tomaram posição, e Manuela Ferreira Leite foi à televisão dizer que também ia à manifestação. Tão simples como isto. Até Cavaco, nas suas memórias póstumas, confessa ter considerado a medida um erro.

Não foram os blogues, nem o Facebook, nem o Twitter, nem o WhatsApp, nem o Instagram que mobilizaram as pessoas. As redes deram visibilidade à indignação. As pessoas mobilizaram-se porque estavam indignadas com o delírio de Passos, Gaspar & Portas.

Hoje temos uma sucessão de indignações tribais. Tumulto nacional é outra coisa.

OS MELHORES?

Os best of valem o que valem. Cada um tem direito às suas agendas, quotas, epifanias, tesões, ódios de estimação, embirrações, amizades, subserviências, cumplicidades, dependências, clubites e obrigações. Nada contra. Sempre foi assim. Aqui e em toda a parte.

Continua a fazer-me confusão que a lista principal seja antecedida de outra com títulos que, alegadamente, não podem ser ignorados. Mas a pecha é antiga. Não vá o Diabo tecê-las, há que acautelar o sistema de relações públicas.

Este ano temos uma novidade: livros de 2017 na lista dos melhores de 2018 (conferir no Expresso). E por que não 2016 ou 2015? Ou mesmo 1973, ano da fundação do jornal?

A inclusão, nos livros do ano, de reedições de livros publicados em Portugal há vinte ou trinta anos, é outro lugar-comum. Mas isso releva de simples ignorância.

GENERAL


Regina Mateus, 52 anos, médica-cirurgiã, foi ontem promovida a general. É a primeira vez que, em Portugal, uma mulher atinge o topo das Forças Armadas. Natural de Lourenço Marques (Maputo), ocupava actualmente o cargo de directora do Hospital das Forças Armadas. No âmbito da NATO, participou em operações em Espanha, na Grécia e na Turquia.

FINALMENTE

Um homem e uma mulher foram presos a noite passada, acusados de serem os responsáveis pela operação dos drones que paralisaram o aeroporto de Gatwick durante 36 horas consecutivas.

O sistema israelita Drone Drone, que interfere nas comunicações entre o drone e o seu operador, permitiu acelerar a actuação da polícia britânica.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

ACABOU?


Após 36 horas de caos, que afectou cerca de 200 mil passageiros e deu origem ao cancelamento de quase dois mil voos, Gatwick reabriu esta manhã. Mesmo assim, mantêm-se cancelados mais de cem voos, e a Ryanair transferiu a sua operação para Stansted.

Apoiada pelo exército (e, presumo, pelos serviços de intelligence), a polícia britânica ainda não identificou nem localizou o responsável, ou responsáveis, pela intromissão dos drones. Isto dá que pensar.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

GATWICK ENCERRADO


Gatwick, um dos cinco aeroportos de Londres, está encerrado há mais de catorze horas devido à presença de drones. As autoridades estão a tentar localizar os respectivos operadores. A ministra dos Transportes, baronesa Elizabeth Sugg, fará uma comunicação às 11:35 desta manhã. A comunicação da ministra faz recear o pior, ou seja, a eventual origem terrorista dos drones.

Entretanto, milhares de passageiros estão a ser desviados do aeroporto. Desde as 21 horas de ontem, e até ao momento, foram cancelados 760 voos (e dezenas de outros desviados para outros aeroportos), afectando mais de cem mil passageiros. Helicópteros da polícia continuam a sobrevoar o perímetro do aeroporto.

Clique na imagem do Guardian.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

TIRO PELA CULATRA

Mr Corbyn, o impagável líder trabalhista, julgou que era Houdini. Infelizmente, nem para ilusionista serve. O que fez o chefe da Oposição britânica? Em vez de apresentar uma moção de censura ao Governo, que se resume a uma frase-padrão [Esta Casa não tem confiança no Governo de Sua Majestade] e tem de ser votada num prazo máximo de 24 horas, apresentou uma moção de censura à primeira-ministra, procedimento inexistente e, nessa medida, para arquivar.

Se tivesse apresentado uma moção de censura ao Governo, teria do seu lado os deputados unionistas irlandeses (DUP), os deputados escoceses (SNP), os deputados liberais democratas (LD) e, provavelmente, alguns tories adversários de Theresa May. Com a sua originalidade, ficou a falar sozinho. Às 9 da noite de ontem, a moção estava no lixo.

O acordo UE-UK que estabelece as bases para o Brexit será votado a 14 de Janeiro, como decidiu a primeira-ministra.

REPÚBLICA DE JUÍZES?

A procuradora-geral da República ameaça demitir-se se for aprovado o projecto-lei do PSD que altera a composição do Conselho Superior do Ministério Público. O primeiro-ministro deve lembrar à PGR que a porta da rua é a serventia da casa. Rui Rio tem inteira razão quando diz que a ameaça pública da PGR é uma intromissão descarada do poder judicial no poder legislativo. Muito mal andará o PS se não aprovar a proposta de alteração do Conselho Superior do Ministério Público.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

DICKENS ESTÁ DE VOLTA


Primeiro foi o relatório da ONU, publicado o mês passado.

Síntese: «Com as suas políticas de austeridade, punitivas, mesquinhas e muitas vezes insensíveis, o Governo do Reino Unido infligiu grande miséria à população. Embora o Reino Unido seja a quinta maior economia do mundo, os níveis de pobreza infantil não são apenas uma desgraça, mas uma calamidade social e um desastre económico. Cerca de 14 milhões de pessoas, um quinto da população, vivem na pobreza, e um milhão e meio são indigentes, incapazes de arcar com despesas básicas, como alojamento, alimentação e vestuário. É patentemente injusto e contrário aos valores britânicos que tantas pessoas vivam na pobreza. As políticas do Governo conservador em relação aos pobres não foram impulsionadas pela economia, mas por um compromisso em alcançar uma reengenharia social radical

Philip Alston, o relator, cita dados do Instituto de Estudos Fiscais e da Fundação Joseph Rowntree.

Agora foi o inquérito da NUT (National Union of Teachers), dirigido a mais de mil professores britânicos do ensino básico.

Síntese: «Há cada vez mais alunos a passar fome, sem calçado [‘sapatos presos com fita adesiva’] e roupa adequada para o Inverno. O Governo vive alheado da realidade angustiante da vida quotidiana

Clique na imagem do Guardian.

domingo, 16 de dezembro de 2018

TELEFONE GRIPADO?

Um helicóptero do INEM, com destino a Macedo de Cavaleiros, despenhou-se ontem perto de Valongo, cerca das 18:30, aparentemente por ter colidido com uma antena. Morreram quatro pessoas: o piloto João Lima, o co-piloto Luís Rosindo, o médico Luís Vega e a enfermeira Daniela Silva.

A NAV, entidade que gere o tráfego aéreo nacional, perdeu o contacto com o aparelho às 18:25, altura em que tentou contactar os CDOS (Comandos Distritais de Operações de Socorro) do Porto, Braga e Vila Real. «Após contacto com o CDOS de Coimbra, que reencaminhou a chamada para o Porto, é que se conseguiu contactar o CDOS do Porto.» Mas, até prova em contrário, os CDOS de Braga e Vila Real «não atenderam».

Às 19:40 foi avisada a Força Aérea. As buscas tiveram início às 20:15. Através de geolocalização, o SIRESP encontrou (após triangular os telemóveis dos ocupantes) o aparelho despenhado. O resto já se sabe.

Falta esclarecer os intervalos de tempo e o silêncio dos telefones dos CDOS de Braga e Vila Real.

BÉLGICA


Cerca de seis mil manifestantes de extrema-direita, grande parte deles flamengos, adversários do Pacto Global para as migrações, destruíram tudo à sua passagem até à sede da Comissão Europeia, em Bruxelas, onde lançaram petardos. Não querem imigrantes na Bélgica, ponto.

A polícia fez vista grossa, aparecendo praticamente no fim dos distúrbios, com um canhão de água e gás lacrimogéneo.

Clique na imagem do Le Soir.

sábado, 15 de dezembro de 2018

CASA OU CANNABIS?

A Lei de Bases da Habitação — o projecto de lei 843/XIII, de Helena Roseta (PS) — esteve em discussão pública entre 15 de Maio e 31 de Julho, mas, ao fim de mais de quatro meses, continua a aguardar debate e votação em Plenário.

Sobre habitação, o único diploma consequente que o Parlamento aprovou foi a Lei n.º 30/2018, de 16 de Julho, que estabelece o regime extraordinário e transitório para protecção de pessoas idosas ou com deficiência. Ou seja: suspende, até 31 de Março de 2019, os despejos de pessoas com 65 ou mais anos de idade (ou portadoras de deficiência) que residam na mesma habitação há 15 ou mais anos. Diploma transitório, destinado a pôr um travão na disneylandização dos centros históricos de Lisboa e do Porto. Daqui a catorze semanas volta tudo à estaca zero.

A Lei n.º 64/2018, de 29 de Outubro, que garante o exercício do direito de preferência pelos arrendatários, é muito bonita, mas serve para quê?

As alterações fiscais em matéria de arrendamento, uma iniciativa do PSD, foram aprovadas esta semana porque o PS se absteve. Portanto, sem Lei de Bases da Habitação, nada feito.

Vendo bem, importante mesmo é legalizar o consumo de cannabis para fins recreativos, como ainda ontem propôs o Bloco de Esquerda.

Estas coisas acontecem porque o nosso descaso permite que aconteçam. E depois ficamos admirados com o triunfo dos Bolsonaros.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

SALÁRIO MÍNIMO ESPANHOL

Sánchez tirou um coelho da cartola e anuncia que vai aprovar, no próximo dia 21, a subida do salário mínimo de 735 para 900 euros. Um aumento de 22%. Nunca tal havia acontecido em Espanha desde 1977.

Sucede que esse aumento vai ser aprovado em conselho de ministros, ou seja, por decreto-lei.

Qual é o problema? Por falta de maioria nas Cortes e no Senado, o primeiro-ministro espanhol viu-se obrigado a adiar para Janeiro a discussão e aprovação dos Presupuestos Generales del Estado (o Orçamento). O truque do dec-lei funciona até à votação... Mas o que acontecerá a seguir (além das inevitáveis eleições antecipadas) se não conseguir aprovar o Orçamento para 2019?

PRÉMIO PESSOA


Miguel Araújo, 49 anos, geógrafo, especialista em biodiversidade, investigador do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid e do CSIC (Consejo Superior de Investigaciones Científicas), professor visitante do Imperial College de Londres e das universidades de Évora e Copenhaga, é o vencedor do Prémio Pessoa 2018.

De acordo com o ranking americano Highly Cited Researchers 2018, figura entre os quinze investigadores mais citados (em publicações científicas) do mundo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

DEANA BARROQUEIRO


Hoje na Sábado escrevo sobre Contos Eróticos do Velho Testamento, de Deana Barroqueiro (n. 1945), autora de romances históricos, que agora coligiu num único volume os 21 contos que escreveu a partir da Bíblia. Embora o erotismo seja moderado, a selecção faz jus ao título. Discurso directo: «Partindo dos estereótipos do Antigo Testamento, tive a pretensão de escrever uma saga histórica […] das mulheres da Antiguidade…» Trata-se portanto de fixar uma genealogia da mulher pré-emancipada. Numa linguagem escorreita, a autora compõe a narrativa de submissão, abuso, adultério e incesto de mulheres subjugadas à autoridade e aos caprichos dos seus amos, homens que foram príncipes, guerreiros, irmãos e pais, casos de, entre outros, Abraão, Booz, David, Amnon, Holofernes, Jacob e Sansão. Quem, tendo lido os textos sagrados, não reconhece Sarai, Abisag, Raquel, Betsabé, Thamar, Rute, Judite, Rebeca, Tirsa, Dalila e tantas mais? Algumas foram amadas, outras simplesmente humilhadas ou violentadas. Se outra coisa não fossem, os contos de Deana Barroqueiro servem de resgate da subalternidade de género em que todas viveram. Maria Teresa Horta assina o prefácio. Três estrelas. Publicou a Planeta.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

ENTRECAMPOS


Realizou-se hoje, finalmente, a hasta pública dos terrenos de Entrecampos onde funcionou a antiga Feira Popular, mais uma parcela em frente ao ISCTE. Por junto, mais de 25 hectares.

Postos a leilão por 188 milhões de euros, foram todos comprados pela Fidelidade Property Europe por 274 milhões de euros: 238,5 milhões o da antiga Feira e 35,5 milhões a parcela da Avenida Álvaro Pais.

Deste modo, a Câmara encaixou mais 86 milhões que o previsto. Mas, como fez notar Fernando Medina, «o município vai encaixar mais de 300 milhões de euros com esta venda, dado que é preciso ter em conta impostos e taxas que serão pagos posteriormente.» Agora, mãos à obra, que o projecto vale a pena.

Obra: construção de 979 fogos, sendo 259 para venda livre e 720 para arrendamento controlado; parking público para 800 viaturas; comércio, escritórios, creche, centro de dia e lar de cuidados continuados. O estudo do terreno é de Ana Costa e Souto Moura. Na imagem, o projecto aprovado.

COMITÉ DA DESCONFIANÇA


Foi atingido e ultrapassado ontem à noite o limite de 48 cartas enviadas por deputados conservadores a partir do qual Theresa May tem de ser submetida a um voto de desconfiança. Esse limite é de 15% dos deputados conservadores em funções.

Sir Graham Brady, presidente do Comité de 1922, emitiu o comunicado que vemos na imagem.

O início do debate e consequente votação está previsto para hoje às 20h. Se a primeira-ministra britânica cair, a lista de putativos sucessores são, por ordem de probabilidade, Boris Johnson (ex-MNE), Sajid Javid, Jeremy Hunt, Penny Mordaunt, Amber Rudd, Dominic Raab e Michael Gove. Sublinhar que Mr Javid, Mrs Mordaunt e Mr Gove são apoiantes de May.

Até ao momento, mais de cem deputados conservadores expressaram no Twitter o seu apoio à primeira-ministra.

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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

IMPASSE


Theresa May está neste momento reunida em Haia com o primeiro-ministro holandês, e logo à noite estará com Jean-Claude Juncker em Bruxelas. Amanhã vai a Berlim.

Ontem, a primeira-ministra britânica cancelou a votação, agendada para hoje, do protocolo de saída da UE. Na melhor das hipóteses, essa votação ocorrerá em meados de Janeiro.

Corbyn ficou com as calças na mão, mas nem assim o líder trabalhista dá um passo em frente para apresentar a moção de desconfiança que muitos dos seus correligionários (mas também os liberais) exigem. Entretanto, Juncker, o presidente da Comissão Europeia, foi claro: «Não há espaço para renegociação [...] o acordo não será reaberto

Por este andar, o Brexit será efectuado sem acordo, o que é mau para todas as partes.

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

MACRON MICRON

Macron tirou um coelho da cartola. Face à onda de protestos, promete aumentar já em Janeiro o salário mínimo nacional, que corresponde actualmente a 1.498 euros brutos (cerca de 1.140 líquidos), pago nos doze meses do ano, sem subsídios adicionais. Viver em França com 1.140 euros no bolso é mais complicado do que viver em Portugal com 600.

O prometido aumento de 100 euros mensais será pago pelo Estado. Ou seja, os patrões ficam imunes à medida, que será suportada por todos os contribuintes. Isto não vai acabar bem. Por outro lado, Macron promete diminuir a carga fiscal das pensões de valor inferior a dois mil euros.

Sábado, os Gilets fazem o Acte V de la révolution citoyenne.

sábado, 8 de dezembro de 2018

LA DOUCE FRANCE


Com 90 mil polícias mobilizados em toda a França, carros blindados em várias avenidas de Paris, o Exército de prevenção, museus encerrados, monumentos vedados ao público, espectáculos e jogos de futebol cancelados, comércio encerrado, etc., os Gilets Jaunes ficaram com rédea curta.

Mas fizeram divulgar um manifesto. Síntese:

— Uma nova Constituição, redigida pelo povo.
— FREXIT (sair da UE e da zona euro).
— Saída imediata da NATO.
— Regresso imediato a França de militares destacados.
— Fim imediato ao saque da África francófona.
— Fim imediato do fluxo migratório.
— Aumento imediato do salário mínimo: 40%.
— Aumento imediato das pensões: 40%.
— Aumento imediato das prestações sociais: 40%.
— Alteração total do sistema fiscal.
— Tecto máximo de impostos sobre salários: 25%.
— Reforma total do ensino.
— Contratações em massa no sector empresarial do Estado.
— Contratações em massa nas escolas e hospitais públicos.
— Revogação imediata de todas as privatizações.
— Fim da obsolescência planejada nos produtos industriais.
— Quadruplicar o orçamento do poder judicial.
— Proibição imediata de lobbies.
— Proibição imediata de alimentos geneticamente modificados
— Proibição imediata de pesticidas carcinogénicos.
— Fim imediato de monopólios.

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