sábado, 29 de setembro de 2018

FLOP


Vi esta tarde a exposição de Mapplethorpe no Museu de Serralves. A primeira, desde que me conheço, em Portugal e no estrangeiro, sem legendas. Um panfleto impresso em nano-lettering é tudo o que há. Não substitui as legendas, como implica saber ler mapas.

As exposições não são feitas para intelectuais, nem as pessoas são obrigadas a saber que o autor fez muitos auto-retratos. Entre os fotografados há artistas célebres, galeristas, poetas, actores, modelos, gente que a minha geração conhece, mas os mais novos ignoram. Não se trata, portanto, de haver só 159 retratos (em vez de 179). A exposição está mal montada. Também não há catálogo. Lamentável.

A ver se a gente se entende. Eu gostava de dizer bem da exposição de Mapplethorpe, um artista da minha geração, que frequento desde 1983, dos dois lados do Atlântico. Infelizmente, a exposição, tal como está, é um desastre. A ausência de legendas não é um detalhe menor.

Um exemplo. Um casal jovem comentava a foto de William S. Burroughs com a espingarda, uma foto de 1981, tinha o escritor 67 anos: Esta do velho é porreira. Nenhum deles sabe quem é William S. Burroughs. Ignoram portanto que, em 1951, numa festa onde as lendas de Guilherme Tell eram macaqueadas, Burroughs matou Joan Vollmer (mãe do seu filho) com um tiro na cabeça. Se soubessem, a foto ganhava outro sentido.

Quando pessoas identificam, no acervo exposto, a recriação de A Morte de Marat (1793), de Jacques-Louis David? E assim sucessivamente.

Exemplos como estes multiplicam-se. Portanto, pendurar 159 fotografias sem contexto, não serve para nada.

CORPO, IDENTIDADES


No decurso de Carmina 3 foi lançada uma antologia de poesia sobre o corpo na poesia portuguesa, organizada por Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas. Faço parte dos 40 antologiados. Comigo estão, entre outros, Adília Lopes, Al Berto, Alberto Pimenta, Alexandre O’Neill, Ana Hatherly, Ana Marques Gastão, António Botto, Armando Silva Carvalho, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Florbela Espanca, Gastão Cruz, Helga Moreira, Irene Lisboa, Isabel de Sá, Jorge Sousa Braga, José Carlos Ary dos Santos, Luís Miguel Nava, Luiza Neto Jorge, Maria do Rosário Pedreira, Maria Teresa Horta, Mário Cesariny, Mário de Sá-Carneiro, Natália Correia, Nuno Júdice, Pedro Homem de Mello, Rosa Maria Martelo, Sophia de Mello Breyner Andresen. 344 páginas sem interditos. Ontem, Ana Luísa Amaral, João Rios, Rui Spranger e Isaque Ferreira, leram alguns dos poemas seleccionados. Foi desse modo vibrante que a festa acabou. A Fundação Cupertino de Miranda está de parabéns.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

O SEXO DA POESIA E DA CRÍTICA


Intervenção em Carmina 3, hoje à tarde, na Fundação Cupertino de Miranda.
Clique na imagem. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

CARMINA 3


A partir de hoje vou estar em Vila Nova de Famalicão, a convite da Fundação Cupertino de Miranda, para discutir poesia e identidades. Comigo vão estar Ana Luísa Amaral, Maria Teresa Horta, Rosa Maria Martelo, Livia Apa, Marinela Freitas, Catherine Dumas, Graça Capinha, Anabela Mota Ribeiro, Jorge Sousa Braga, Fernando Aguiar, Helga Moreira e Isabel Pires de Lima.

BALDWIN & OZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Se Esta Rua Falasse, do americano James Baldwin (1924-1987). Vá-se lá saber porquê, o autor só agora teve uma obra sua traduzida em Portugal. Não estou a contar com o ensaio sobre a revolta dos negros americanos inserido em volume colectivo. Romancista, dramaturgo, poeta e ensaísta, Baldwin foi também um empenhado activista dos direitos civis, dentro e fora dos Estados Unidos (viveu dez anos em Paris e, a partir de 1970, em Saint-Paul-de-Vence). Negro e homossexual pobre do Harlem, tudo o afastava do meio literário. Contudo, o carácter autobiográfico do primeiro romance, Go Tell It on the Mountain (1953), colocou-o no radar da crítica americana, inglesa e francesa. Se Esta Rua Falasse, publicado em 1974, chegou agora pela mão de José Mário Silva. «Alonzo, vamos ter um bebé.» Feita por auscultador, a revelação dá o tiro de partida à primeira parte do romance. Clementine e Alonzo, 19 e 22 anos respectivamente, o par de namorados da rua Beale, estão separados por um vidro como de regra nos palratórios das prisões. Alonzo está preso por um estupro que não cometeu. O facto de ser um adolescente com excesso de hormonas não fazia dele o violador de Victoria Rogers, a porto-riquenha que o apontou na line-up da esquadra depois de haver sido «forçada a praticar as mais inimagináveis perversões sexuais.» Alonzo teve o azar de ficar na mira de um polícia racista. Narrada por Clementine, a história segue passo a passo a saga de duas famílias sem recursos, apostadas em provar a inocência de Alonzo. Em síntese, pode-se dizer que Baldwin faz o retrato da comunidade negra na América dos seventies, os anos do racismo puro e duro. Por fim, Alonzo sai em liberdade sob fiança (no dia em que o pai comete suicídio) e a criança nasce. A origem do dinheiro é obscura. O julgamento não cabe no plot. O título é uma parábola da desigualdade social: Se a rua Beale pudesse falar… É isso que Baldwin (antigo membro dos Panteras Negras) quis vincar. Os avanços e recuos cronológicos ajudam a contextualizar o ar do tempo. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Caros Fanáticos, do israelita Amos Oz (n. 1939), autor que dispensa apresentações. Defensor do direito dos palestinianos a um Estado independente, voz incómoda para Tel Aviv, juntou em  três ensaios sobre questões controversas de Israel. Questões de vida ou de morte, diz ele, ao caracterizar as reflexões. O livro abre com o ensaio que dá o título ao conjunto, adaptação alargada de conferências feitas na Alemanha. Centra-se no fanatismo islâmico, da Al-Qaeda ao Daesh, passando pelo Hezbollah e outros grupos radicais. O ódio identitário deu azo a uma «vaga de rejeição do outro», instalando o fanatismo universal. É interessante a forma como introduz comentários a obras suas de ficção, sinalizando temas concretos. O segundo, Luzes e não uma única luz, baseia-se num livro da filha. Judaísmo enquanto cultura «e não apenas como religião, e nação.» É porventura o mais erudito dos três. O terceiro, Sonhos de que Israel se deve libertar rapidamente, estatui de modo peremptório: «Se não houver aqui dois estados, e rapidamente, haverá apenas um.» (E será árabe.) Perturbador? Decerto. Amos Oz sabe do que fala. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

HELENA ALMEIDA 1934-2018


Com 84 anos, morreu esta madrugada Helena Almeida, uma das mais importantes artistas plásticas portuguesas do século XX. Ainda a semana passada vi obras suas na Tate Modern, em Londres. Quem estiver em Madrid encontra novos trabalhos seus na Galeria Helga de Alvear.

Clique na foto de 1976.

SERRALVES & MAPPLETHORPE

Na conferência de imprensa dada esta manhã pelo Conselho de Administração da Fundação de Serralves, terminada há pouco, Ana Pinho foi peremptória:

O Conselho de Administração não mandou retirar quaisquer obras da exposição [...] Todas as fotografias foram escolhidas exclusivamente pelo curador [...] As 20 obras não foram expostas por iniciativa do curador [...] Não haverá complacência com a falta de verdade.

Ana Pinho estava ladeada por Isabel Pires de Lima, José Pacheco Pereira, Manuel Ferreira da Silva e Manuel Cavaleiro Brandão.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

A FALÁCIA DO INFARMED

O tema da transferência para o Porto da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, vulgo Infarmed, ocupa várias páginas do Público. A choradeira de Rui Moreira não me interessa. Só lhe fica mal dizer que levou aquilo a sério. Qualquer pessoa com sentido prático percebia que, sem medidas radicais de logística e tesouraria (e porventura de natureza legislativa), a mudança não era viável. Tudo isso é claro desde 21 de Novembro de 2017, data em que o ministro da Saúde anunciou ao país uma medida que não tinha condições de concretizar a 1 de Janeiro de 2019.

O que me interessa no dossiê do Público são os números do relatório do grupo de trabalho criado pelo Governo para avaliar a viabilidade da mudança, mais os da Porto Business School sobre o funcionamento do Infarmed.

Dizem-nos esses números que as obras de adaptação do edifício onde o Infarmed ficaria instalado no Porto teriam o custo de 4,25 milhões de euros, não ficando prontas em menos de 30 meses (dois anos e meio). Esses 4,25 milhões de euros fazem parte do pacote de 17 milhões de euros que custaria a mudança. Verdade que há números sobre hipotéticas poupanças futuras, mas não vale contar com o ovo no cu da galinha.

O mais importante nem são os milhões para adaptar o edifício da Manutenção Militar (na zona ribeirinha), construir o laboratório e o data center. Nenhuma destas obras está sequer planeada, mas isso não preocupa o autarca-mor da Invicta.

Importantes são as pessoas. Ou seja, os 354 funcionários do Infarmed, dos quais apenas dez mostraram disponibilidade para a mudança. Se o Governo via vantagem na mudança do Infarmed para o Porto, tinha de o explicar. Em seguida, confrontado com recusa geral dos funcionários, devia, logo naquela altura, ter aberto concursos com carácter de urgência para recrutar na área do Grande Porto. Não acredito que ficassem desertos. Mesmo assim, com procedimentos concursais, adjudicações e obras, antes de 2022 nada aconteceria. Se nós tivéssemos uma imprensa atenta, e um jornalista que soubesse contar pelos dedos, o ministro da Saúde teria sido obrigado a esclarecer a natureza falaciosa do calendário.

Se vivêssemos na Coreia do Norte, os funcionários eram arrastados pelos cabelos. Vivendo em democracia, isso não acontece. Transferir 354 funcionários e respectivas famílias, significa obrigar perto de mil pessoas a mudar de vida. Não vale a pena entrar em detalhes de compra ou arrendamento de casa, vagas em escolas e faculdades, gestão de compromissos em Lisboa, etc.

Nas primeiras semanas (ainda em 2017) após a fake new, um punhado de técnicos especializados rescindiu com o Estado e foi trabalhar para o sector privado do medicamento. A sangria estancou quando foi garantido que a mudança não se faria. Mesmo um pólo de natureza administrativa, para manter as aparências, com pessoal reduzido a recrutar in loco, orçaria em seis milhões de euros.

Sobra ainda a posição das associações do sector do medicamento, a indústria farmacêutica, as empresas de dispositivos médicos, etc., todas contra a mudança.

É a Máquina? Claro que é a Máquina. Rui Moreira nasceu ontem?

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

MAPPLETHORPE AGAIN


Se, como revela hoje o Público, João Ribas foi forçado a tirar da parede obras já penduradas, aceitando, do mesmo passo, a substituição do vídeo Still Moving por uma tela que veda quase completamente a entrada numa das salas reservadas, por que razão compareceu ao vernissage...?

Sol na eira e chuva no nabal nunca deu bom resultado.

Clique na foto de António Lagarto.

domingo, 23 de setembro de 2018

NOVELA MAPPLETHORPE


Isabel Pires de Lima, administradora da Fundação de Serralves, deu esta noite uma entrevista ao Expresso online. A antiga ministra da Cultura não podia ser mais clara: foi João Ribas quem pôs de lado 20 fotografias, reduzindo a exposição de 179 para 159 trabalhos. Discurso directo: Surpreende-nos que ele tenha excluído 20 obras. É bastante penalizador para a Fundação, que pagou 179. Também não aceita a alegação de censura porque, desde o início, ficou estabelecido criar uma zona interdita (as fotografias de cariz sexual explícito) a menores de 18 anos não acompanhados.

Como João Ribas ainda não se pronunciou, o que é estranho, ficamos só com um dos lados da história.

Importa lembrar que não é a primeira vez que obras de Mapplethorpe são expostas em Portugal. Em 1985, a Galeria Cómicos (Lisboa), de Luís Serpa, expôs Black Flowers, ainda o autor estava vivo. Em 1993, no Mês da Fotografia de Lisboa, e nos Encontros da Imagem, em Braga, mais obras foram expostas. Verdade que nenhuma destas exposições era uma grande retrospectiva, como a que neste momento está em Serralves.

Clique na imagem.

sábado, 22 de setembro de 2018

INFARMED

Acabou a novela da transferência do Infarmed para o Porto, iniciada em Novembro de 2017. Ouvido ontem no Parlamento, o ministro da Saúde revelou que o Governo suspendeu a medida.

Integrada na candidatura falhada do Porto à sede da Agência Europeia do Medicamento, a transferência do Infarmed não podia fazer-se sem os seus 356 funcionários. Sucede que apenas 19 (nenhum dirigente, nenhum quadro superior, nenhum técnico especializado) manifestaram disponibilidade para se deslocar.

Alguém no seu perfeito juízo acreditou ser possível transferir 356 funcionários e respectivas famílias para mais de 300 quilómetros da sua residência?

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

MAPPLETHORPE CENSURADO

João Ribas, director do Museu de Serralves, e Paula Fernandes, curadora, organizaram a exposição de Mapplethorpe com 179 trabalhos do fotógrafo americano. A publicidade institucional vinca a existência desse conjunto.

Mas a administração da Fundação vetou 20, reduzindo a mostra a 159. Também impôs proibição a menores de 18 anos.

João Ribas demitiu-se esta noite do cargo de director.

A administração da Fundação é composta por Ana Pinho, Manuel Cavaleiro Brandão, Manuel Ferreira da Silva, Isabel Pires de Lima, Vera Pires Coelho, Carlos Moreira da Silva, António Pires de Lima e José Pacheco Pereira.

A decisão de interditar as 20 obras foi tomada por maioria ou por unanimidade? Quem votou a favor da interdição?

De que modo a Fundação de Serralves tenciona ressarcir quem (como eu) comprou ingressos por via electrónica?

PIRUETAS

Desde 9 de Janeiro, dia em que Francisca Van Dunem defendeu na TSF a eficácia de mandato único para o cargo de Procurador-Geral da República, a Direita entrou em ebulição. A carta que Passos Coelho publicou ontem à noite no Observador faz a síntese do desapontamento de quantos, nos últimos oito meses, fizeram da recondução de Joana Marques Vidal o turning point do Governo.

Marcelo não pode ceder a Costa, repetiram dirigentes nacionais e apparatchik locais do PSD e do CDS, articulistas encartados, comentadores avençados e eurodeputados metediços. Não houve cão nem gato que não defendesse a continuação de Joana Marques Vidal, titular do cargo desde 2012. Marques Mendes, o oráculo do regime, afiançou que o assunto estava arrumado. Sábado passado, o Expresso fez manchete de uma fake new estridente. Nas audiências feitas pela ministra da Justiça aos partidos com representação parlamentar, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa também se manifestaram a favor da recondução de Joana Marques Vidal.

No centro do furacão, o primeiro-ministro escolheu Lucília Gago, comunicou a escolha ao Presidente da República, foi a Angola, veio a Lisboa trocar os jeans Paul Smith pelo fato Huntsman & Sons (Savile Row) e, sem perder a compostura, partiu para a cimeira da UE em Salzburgo.

Mas, quem ler hoje os jornais da manhã, fica com a sensação de que não aconteceu nada.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

LUCÍLIA GAGO


Por escolha do primeiro-ministro, Lucília Gago, 62 anos, especialista em Direito de Família e Menores, é a nova Procuradora-Geral da República. O Presidente da República já formalizou a nomeação.

António Costa não cedeu à chantagem da Direita nem aos pontos de vista do PCP e do BE, e não reconduziu Joana Marques Vidal.

MACHADO & MÓNICA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado (n. 1986). Por regra, os escritores fortes constroem a sua persona. Mas o processo era lento, e só dávamos por isso a meio da carreira. Agora não. O protocolo das redes sociais mudou tudo. Assim que publica o primeiro livro, o escritor apressa-se a divulgar as idiossincrasias. É o modus operandi de Carmen, filha de emigrantes cubanos e autora residente da Universidade da Pensilvânia, que usa o Twitter para pôr tudo em pratos limpos. Os contos reunidos em O Corpo Dela e Outras Partes dão notícia de uma voz poderosa, sem necessidade de mais nada, porque nos fala do corpo, de sexo, violência, paixão e morte. E fica tudo dito com apreciável grau de conseguimento. Como meta-linguagem, a literatura dispensa folclore. Neste caso, folclore significa o aproveitamento que tem sido feito do seu livro por parte do movimento MeToo. Sucede que a qualidade desta escrita passa bem sem muletas ideológicas. As questões identitárias são centrais à obra? É evidente que sim: «Ela movia-se com uma descontracção masculina e dura […] Fiquei molhada.» Neste conto, um casal de duas mulheres tem um bebé. Lesbianismo, portanto. É a circunstância de Carmen, casada com uma mulher. Um escritor sério escreve sobre o que conhece. A economia discursiva é uma vantagem. Carmen descreve cenas de sexo com natural parcimónia: «Não sei muito bem o que ele vai fazer, só quando o faz. Está duro, quente e seco, e cheira a pão e, quando me rasga, grito e agarro-me a ele como se estivesse perdida no mar.» Os textos mais agressivos, a roçar a pornografia, assina-os como Olivia Glass, o pseudónimo hard. Um dos textos corresponde a 272 sketches escritos a partir das doze temporadas da série de televisão Lei & Ordem. Um inventário de fantasia sem limites. Aqui é um conto, mas este núcleo constitui o livro de estreia: Especialmente Abominável (2013). Uma forma de colagem como qualquer outra. A ficção de Carmen não tem fronteiras, e por vezes aproxima-se da plenitude, como em As Mulheres de Verdade Têm Corpo. Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Nunca Dancei Num Coreto, da socióloga Maria Filomena Mónica (n. 1943). As crónicas são um género nobre, entre nós muitas vezes confundido com panfleto político. A autora reuniu neste volume as que escreveu a partir de 2011. Maria Filomena Mónica tem a enorme vantagem de pensar pela sua cabeça. Temas prosaicos ou eruditos, o desembaraço é de regra. Com brilho, a autora salta dos efeitos corrosivos da burocracia para as idiossincrasias de Christopher Hitchens, da redução de salários do Estado para a cultura do desenrascanço, dos bastidores da vida académica para a gentrificação do bairro da Lapa, do crash do Lehman Brothers para os direitos das mulheres, da escola pública para a regressão das liberdades individuais, de Sócrates (o antigo primeiro-ministro) para as casas de banho de hotel, da banlieue de Paris para Obama, da farsa independentista de Puigdemont para a guerrilha geracional, do pianista Claudio Arrau para Marcelo (o Presidente), da desigual repartição de sacrifícios para os graffiti, da doença para o esplendor da relva. Deveras estimulante. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

MAPPLETHORPE EM SERRALVES


É hoje inaugurada em Serralves uma exposição de Robert Mapplethorpe. Junta 179 trabalhos do autor, incluindo as fotografias de cariz sexual que têm sido boicotadas por museus dos dois lados do Atlântico. Comissariada por João Ribas e Paula Fernandes, arrisca-se a ser o acontecimento cultural mais importante do ano em Portugal. Mapplethorpe (1946-1989) é um dos artistas mais importantes do século XX, e quem não conhece tem aqui uma boa oportunidade. Não voltei a vê-lo desde o Whitney, lá terei que voltar à Marechal Gomes da Costa. Vale uma ou várias deslocações ao Porto. Fica até 6 de Janeiro de 2019.

Clique na imagem.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

PREC TAXISTA


Em protesto contra a legalização das plataformas online de táxis (casos da Uber, Cabify, Taxify e Chaffeur Privé), os taxistas estão a bloquear Lisboa. Desde as 5 da manhã que a Praça dos Restauradores está intransitável. Além dos Restauradores, estão ocupadas, e nalguns casos cortadas ao trânsito, a Avenida da Liberdade, o Marquês de Pombal, a Avenida Fontes Pereira de Melo, o Saldanha e a Avenida da República.

No Porto e em Faro decorrem acções semelhantes.

E depois admiram-se com o extremismo das populações.

Na imagem, interior do Cab londrino (os melhores táxis do mundo) onde circulei na tarde de sábado, 15 de Setembro. Clique

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

BOWLES & SHEPARD


Na edição desta semana da Sábado escrevo sobre Deixa a Chuva Cair, o segundo romance do americano Paul Bowles (1910-1999). Autor de uma obra extensa, Bowles sobrevive como nome de culto. O facto de ter-se expatriado em Tânger logo após a Segunda Guerra Mundial cimentou a lenda do escritor “maldito”. Escreveu quinze colectâneas de contos, seis romances, uma novela, cinco livros de poesia, dois de viagem e uma autobiografia em quatro volumes, mas, na realidade, foram os incidentes biográficos que fixaram o interesse e a avaliação dos contemporâneos. Quantos dos seus leitores sabem que foi um notável compositor de música erudita e de scores para a Broadway? Sem o halo de transgressão que marcou o exílio marroquino, como teria sido a recepção crítica? Além de compositor, ficcionista, poeta e memorialista, Bowles foi tradutor de Sartre e Genet, mas também dos contos orais do pintor Mohammed Mrabet. Metáfora omnipresente, o céu. A epígrafe do Macbeth, de Shakespeare, dá o tiro de partida. O plot ilumina os primeiros tempos de Bowles em Marrocos. Nas suas linhas gerais, a história de Dyar, o bancário que troca Manhattan («Qualquer outra vida seria melhor do que esta») pelos expedientes da zona internacional de Tânger, assenta no impulso que levou Bowles a deixar a América. Nova vida: outra gente, novos padrões morais, a mesma solidão. Dyar é um homem enredado nas contradições do desconhecido e numa sucessão de azares. Bowles teve um percurso diferente, sabemos que sim, mas não é das minudências do quotidiano que falamos. O conflito entre despaisamento e a nova realidade assenta na experiência do autor. É curiosa a insistência num cenário sombrio, por vezes macabro, por parte de alguém que escolheu viver ali mais de meio século. Se, em romances posteriores — A Casa da Aranha é um bom exemplo —, Bowles meteu na ficção acontecimentos políticos concretos (a colonização, o exílio na Córsega imposto pelos franceses ao sultão Maomé V, o avanço da cultura pan-islâmica, o nacionalismo árabe, os dogmas do Islamismo), em Deixa a Chuva Cair é a própria circunstância do autor que está em pauta. Três estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre a novela Espião na Primeira Pessoa, o livro póstumo de Sam Shepard (1943-2017). Conhecido sobretudo como actor de cinema, Shepard é autor de mais de cinquenta peças de teatro, algumas das quais encenou e interpretou, dezenas de contos e um romance. Vítima de esclerose lateral amiotrófica, Shepard foi obrigado a ditar parte deste livro derradeiro, constituído por 37 capítulos muito breves. Patti Smith, amiga de longa data, editou a versão final da obra. Texto de despedida, narra o ocaso de um homem que passa os dias a ler, num alpendre, enquanto come queijo e bolachas e bebe chá gelado. Um vizinho espia a progressão da doença. Por trás da tensa arquitectura discursiva, é nítida a mão do dramaturgo que sempre foi. (Em 1979, Shepard ganhou o Pulitzer com a peça Buried Child.) Tentativa de captura do tempo, «Como uma crosta muito estaladiça, muito pequena, que se arranha. Está um pouco turvo, este tempo. Não está muito claro para mim.» Sem escapatória: Espião na Primeira Pessoa é o epitáfio deste narrador anónimo. Notável. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

IMBRÓGLIO SUECO

Os números oficiais contrariam as sondagens, mas a tendência foi corroborada:

Direita — 158 deputados
Esquerda — 129 deputados
Extrema-direita — 62 deputados

O Socialdemokraterna, vulgo Partido Operário Social-Democrata da Suécia, vencedor de todas as eleições desde 1917, foi outra vez o partido mais votado (28,4%), mas obteve o pior resultado desde 1908. Tem agora 101 deputados. Perdeu 12.

O Moderaterna, vulgo Partido Moderado, mantém o segundo lugar (19,8%), mas perdeu 14 deputados. Tem agora 70.

O Sverigedemokraterna, vulgo Democratas Suecos, chegou aos 17,7%. Tem agora 62 deputados, mais 13 do que tinha. O establishment sueco não pode continuar a ignorar o partido de Jimmie Åkesson. Sessenta e dois deputados são três BE e ainda sobram cinco.

Os Verdes perderam 10 deputados.

Concorreram 15 partidos. Oito conseguiram representação parlamentar.

Os 349 deputados estão assim distribuídos:

Social-democratas, 101
Moderados, 70
Democratas (extrema-direita), 62
Centristas, 31
Comunistas, 28
Democratas-cristãos, 23
Liberais, 19
Verdes, 15

domingo, 9 de setembro de 2018

O FIM DA SOCIAL-DEMOCRACIA?


Os suecos podem acordar amanhã noutro país. Tudo depende do resultado das eleições deste domingo.

Prevê-se que o Socialdemokraterna, vulgo Partido Operário Social-Democrata da Suécia, fundado em 1889, tenha o pior resultado desde 1930. Os Verdes e os Liberais devem ter resultados insignificantes.

Entretanto, o Sverigedemokraterna, vulgo Democratas Suecos, actualmente o terceiro partido, está à frente em todas as sondagens.

Liderado por Jimmie Åkesson, 39 anos, o Sverigedemokraterna tem o apoio da extrema-direita e dos antigos comunistas. Tem um programa que galvaniza cada vez mais suecos. Quer fechar as fronteiras a emigrantes; quer o exército a assegurar a ordem pública nos subúrbios das grandes cidades; quer agravar o sistema penal; quer o fim da iniciativa privada na Saúde, na Educação, na distribuição de Energia e na rede viária; quer o encerramento das escolas privadas e religiosas; quer diminuir a carga fiscal dos altos rendimentos; e também quer um referendo para tirar o país da UE. Os esperados 25% nas eleições farão com que nenhum partido consiga formar governo sem o seu apoio. Jimmie Åkesson vai fazer pagar caro o desprezo dos partidos tradicionais.

À sua direita, o Nordiska Motståndsrörelsen, vulgo Movimento Nórdico de Resistência, órgão do neo-nazismo escandinavo, pode ter um resultado surpreendente. O MNR é liderado por Simon Lindberg, 35 anos, várias vezes preso por incitamento ao ódio racial e de género, activista anti-LGBT, xenófobo radical e neo-nazi declarado: O Holocausto nunca existiu. O partido tem extensões na Noruega, Finlândia e Islândia.

No gráfico do Guardian, a evolução das intenções de voto nos Democratas Suecos. Clique.