quinta-feira, 6 de setembro de 2018

FOI DEUS, DIZ ELE


Adélio Bispo de Oliveira, 40 anos, servente de pedreiro, missionário evangélico, esfaqueou Jair Bolsonaro durante uma acção de campanha em Juiz de Fora (Minas Gerais). O líder da extrema-direita brasileira ficou com o intestino perfurado em três sítios e o fígado afectado, estando internado no Hospital da Santa Casa, onde foi sujeito a uma melindrosa intervenção cirúrgica.

Um segundo homem, alegado cúmplice de Adélio, foi entretanto preso.

Bolsonaro, 63 anos, deputado (o mais votado no Rio de Janeiro), olho azul sibilino, militar na reserva, apoiante declarado da ditadura militar, defensor da legalização da tortura policial e da pena de morte, católico fundamentalista, activista anti-LGBT e anti-aborto, é o político brasileiro mais influente nas redes sociais e, com Lula fora da corrida, o candidato presidencial que lidera as sondagens.

Na foto do Estadão, Bolsonaro a ser retirado do local após o ataque. Clique.

PAGLIA & CUSK


Hoje na Sábado escrevo sobre Mulheres Livres Homens Livres, de Camille Paglia (n. 1947). Cada novo livro da autora é sempre um acontecimento. Mesmo que seja uma compilação de textos de natureza diversa sobre sexo, género e feminismo: ensaios académicos, conferências, recensões, capítulos de outras obras. Mulheres Livres Homens Livres é uma visão alargada sobre a sociedade contemporânea e a cultura ocidental (arte e decadência). Quem leu Personas Sexuais, a obra-prima que em 1990 projectou o nome da autora para fora da Academia, sabe do que falo. Palavras suas: «As ideias fundamentais deste livro são a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão.» Oriunda do feminismo radical e dos círculos académicos mais exigentes, Paglia nunca evitou chocar de frente com o establishment: «Permanece um mistério a razão pela qual um psicanalista trapaceiro, cínico e verborreico como Jacques Lacan […] se tornou o ídolo de tantas feministas anglo-americanas.» Com o sarcasmo de regra, os temas abordados reportam à crise do sistema de ensino universitário americano, ao retrato que Mapplethorpe fez de Patti Smith, a sexo nas escolas, à violação, ao aborto, aos equívocos da candidatura presidencial de Hillary Clinton, à série de televisão The Real Housewives, a cirurgia plástica, à prática do masoquismo por parte das classes médias educadas, à «mistela bafienta» do pós-estruturalismo, à regressão dos grupos feministas, etc. Paglia nunca desilude. A desenvoltura da sua escrita, empenhada, envolvente, apoiada numa vasta erudição e num desprezo total pela mentalidade dominante, fazem de cada livro uma provocação. Em O espelho cruel: tipos físicos e imagens do corpo tal como os reflecte a arte, a digressão sobre arte (escultura, pintura, fotografia, design publicitário) tem como contraponto a aridez do registo dos media: «Para o bem e para o mal, o corpo tornou-se um indicador identitário fundamental…» Entre vários outros, são recuperados os artigos dedicados a Nefertiti e Madona: «Madona é a verdadeira feminista. Ela põe a nu o puritanismo e a ideologia sufocante do feminismo americano […] Madona é o futuro do feminismo.» Isto foi publicado em 1990 no New York Times. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre o penúltimo romance de Rachel Cusk (n. 1967), Trânsito, que corresponde ao livro do meio da trilogia Outline, a história de uma escritora divorciada, com dois filhos, decidida a reformar uma casa em ruínas. A casa existe. Os amantes de parábolas têm aqui o relato escarolado do que seja reconstruir uma vida reduzida a cacos. A prosa irrepreensível de Cusk transfigura o quotidiano mais prosaico no tipo de narrativa que prende o leitor da primeira à última página. A acção decorre em Londres, numa zona isenta de glamour. A intriga salta com naturalidade de cenas da vida doméstica para reflexões sobre cães, formação de adolescentes, idiossincrasias literárias (a escrita onde ‘nada acontece’), responsabilidade social, trabalho precário, gentrificação, imigrantes, multiculturalisno, conjugalidade entre casais do mesmo sexo: «Não era propriamente a primeira vez que presenciara a homossexualidade: era a primeira vez que tinha presenciado amor.» O fluxo da consciência nunca derrapa. Trânsito respeita a arquitectura da trilogia, mas tem vida própria. Nenhum óbice para quem não tenha lido A Contraluz, o primeiro volume da vida de Fay. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

AXIMAGE


Sondagem da AXIMAGE para o Correio da Manhã e o Jornal de Negócios.

Maioria de Esquerda = 54,8%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 15,8% (e a PAF em 6,6%). O PSD cai três pontos. O CDS consegue ultrapassar o BE e passa a ser o terceiro partido com assento parlamentar.

Clique no gráfico do Negócios.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

FEAR


Aguardo com expectativa o novo livro de Bob Woodward, Fear, com lançamento previsto para o próximo dia 11. A data escolhida pela Simon & Schuster é uma metáfora macabra?

Se, por um lado, as revelações são preocupantes (disfunção total na West Wing e no gabinete de crise), por outro confirmam o que já se sabia: Trump é o boneco de uma administração sem rosto. A ver vamos.

Clique no retrato de Bob Woodward.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

GOOGLE


O Google faz hoje vinte anos. Graças a ele, a vida dos povos mudou mais que nos cem anos precedentes. Ter nascido antes ou depois do aparecimento do Google faz toda a diferença. Sou do tempo em que o Google Earth e o Google Maps eram coisa de ficção científica. E quem diz esses diz o Gmail e o sistema Android e o YouTube. As nossas vidas nunca mais foram as mesmas.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

RIO EM CHAMAS


Ardeu por completo o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Das mais de vinte milhões de peças do espólio, apenas escapou o meteorito Bendegó, uma pedra de 5,6 toneladas descoberta em 1784 no interior da Bahia. Por decisão do imperador Dom Pedro II, o meteorito estava no museu desde 1888.

O palácio da Quinta da Boa Vista foi residência da família real portuguesa (1808-21) e da família imperial brasileira (1822-89). O museu foi fundado em 1818, por D. João VI, mas só em 1892 foi transferido para o palácio da Quinta da Boa Vista. Era um dos mais importantes museus de história natural e antropologia da América Latina. Agora acabou. Ainda bem que o visitei em 1982.

Clique na imagem de El País.

domingo, 2 de setembro de 2018

MUDANÇA DA HORA

Segundo a Pordata, a população da UE corresponde a 512 milhões de pessoas. Daqui a seis meses, com a saída do Reino Unido, seremos 460 milhões. Não obstante, a Comissão Europeia deu por bom um inquérito em que alegadamente participaram 4,6 milhões de cidadãos dos Estados-membros.

Não sei o que aconteceu nos outros países. Em Portugal praticamente não se ouviu falar do inquérito à mudança da hora. Não vi publicidade institucional na televisão ou na imprensa (estou a falar de publicidade, não confundir com artigos de opinião), não dei por nenhum debate no Parlamento, não recebi nenhum sms sobre o assunto (como recebo para a provável ocorrência de fogos ou a vacinação contra a gripe), o Partido Ecologista Os Verdes não deu um pio, o Governo não se pronunciou, e até o Presidente da República, que emite opinião sobre tudo, fez silêncio sobre o tema. Anteontem, o Observatório Astronómico de Lisboa deu um parecer favorável à continuação da mudança da hora. Dito de outro modo, o inquérito europeu foi, entre nós, um interdito.

Por aquilo que leio nas redes sociais, a maior parte dos portugueses que “participaram” fê-lo de forma errada. Estava em pauta saber se a «mudança» da hora era para manter. Mais nada. Bruxelas quer acabar com a mudança e promoveu este circo. Mas muita gente achou que se tratava de escolher a hora preferida. Nonsense.

Vamos cumprir o que Bruxelas decidir. O circo era escusado.

VERDES ANOS


Estive ontem no primeiro dos três encontros programados para o ciclo dedicado ao bairro de Alvalade: Os Cafés e outras Constelações de Encontro da Avenida de Roma. Falou-se de quando o cinema português era novo. Foi no café-restaurante Vá-Vá, e nem fazia sentido que fosse noutro sítio, pois foi por ali que passaram as gerações que nos anos 1960 e 70 mudaram a paisagem de parte importante da vida cultural portuguesa.

Na imagem, da esquerda para a direita, Aquilino Machado, organizador dos encontros (e respectivos itinerários pedonais), Alfredo Barroso, Isabel Maria Mendes Ferreira, Isabel Ruth e Lauro Antonio. Um belo fim de tarde.

Clique na imagem.

sábado, 1 de setembro de 2018

LULA EMBARGADO


Por seis votos contra um, o Tribunal Superior Eleitoral não aceita o registo da candidatura presidencial de Lula. Argumento: o antigo Presidente «está enquadrado na Lei da Ficha Limpa». Ficam só os da Ficha Suja.

Clique na imagem do Estadão.

VANDALISMO


Isto admite-se? Clique nas imagens.

DESCONTINUADO?


Este sinal na esquina da Rua José Carlos dos Santos com a Avenida da República foi descontinuado pela Câmara Municipal de Lisboa?

Clique na imagem.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

LISBOA VANDALIZADA


A criatura está identificada. Até dá entrevistas ao jornal Corvo. Então e a Câmara de Lisboa assobia para o lado? A administração do Metro não limpa os placards? A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária mantém os sinais de trânsito vandalizados? Estão todos com medo de fazer uso da autoridade? Isto vai durar até quando? Até começar a aparecer Geco gravado nas viaturas oficiais? Talvez fosse boa ideia. Acordavam de vez.

Clique na imagem para ler melhor.

LACERDA & MENDELSOHN


Hoje na Sábado escrevo sobre Labareda, antologia da obra poética de Alberto de Lacerda (1928-2007). A distância rasura. Foi o que aconteceu com Lacerda, ausente de Portugal desde 1951. Lisboa foi um intervalo fugaz entre Lourenço Marques e Londres. O périplo americano e as peculiares idiossincrasias do autor acentuaram a fractura com os media e a universidade portuguesa. Injustiça óbvia, porque falamos de um grande poeta. No ano em que Lacerda faria 90 anos, Luís Amorim de Sousa organizou esta antologia a que chamou Labareda. O volume inclui poemas seleccionados dos onze livros publicados em vida do autor, um dos quais, Sonetos, sem distribuição comercial. Este núcleo inclui os dois tomos de Oferenda (1984 e 1994) que, por sua vez, coligem cinco livros até então inéditos. Acolhe ainda 28 poemas inéditos que o antologiador foi buscar ao espólio. Mas antes surgem outros quatro, extraídos de dois títulos omissos da bibliografia: O Pajem Formidável dos Indícios, datado de 2010, e A Luz Que Se Escondeu no Escuro, de 2016. Publicados onde? As datas reportam a quê? Sobre eles, a cronologia de Luís Amorim de Sousa faz silêncio. Mesmo que façam parte de livros organizados em vida do autor, seria mais correcto tê-los incluído na secção de inéditos. Quem conhece a obra publicada é por ali que começa. É estranho que, num acervo tão vasto («deixou inéditos para cima de mil poemas», lê-se no prefácio), Luís Amorim de Sousa tenha escolhido os 28 poemas que escolheu. Foi o melhor que encontrou? Não teria sido preferível ater-se à obra publicada? Um dos mais importantes livros de Lacerda, Mecânica Celeste, está representado com 14 poemas. Todos sabemos que antologiar significa seleccionar, mas Luís Amorim de Sousa conseguiu a proeza de deixar de fora os poemas mais significativos de Mecânica Celeste. O leitor desta antologia não tem oportunidade de ler Depois de veres Guerra e Paz de Sergei Bondarchuk, Vem, Vimos, Vietnam, Os pés nus correspondem em grinalda e outros. Porquê? Porque os versos falam de merda, caralhos, cus, conas, orgasmos, putas relaxadas, escarros e, last but not least, do Império britânico cagando...? Porquê insistir no transcendental? Duas estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre Uma Odisseia, do norte-americano Daniel Mendelsohn (n. 1960). Escrever para o grande público sobre literatura grega e romana não está ao alcance de todos. Como demonstra este livro, Mendelsohn é dos melhores. Professor de Humanidades no exclusivo Bard College de Annandale-on-Hudson, Mendelsohn descreve um seminário académico sobre a Odisseia onde teve a surpresa de encontrar o pai, professor de matemática, então com 81 anos. Isso explica o subtítulo: Um pai, um filho, uma epopeia. A partir dessa experiência de 2011, Mendelsohn escreveu este curioso livro de memórias que é, ao mesmo tempo, uma close reading do poema de Homero. Não se trata de ensaio: são memórias com nomes alterados e detalhes modificados. O autor socorre-se de todos os recursos narrativos de forma a que o leitor não sinta o peso da erudição. Para sinalizar o plot, cita Aristóteles na breve nota que serve de proémio. Depois do seminário, que dura 16 semanas, Mendelsohn e alunos (o pai incluído) partem num cruzeiro pelo Mediterrâneo. A exegese do poema de Homero suscita questões identitárias que o autor desenvolve com elegância. Cinco estrelas. Publicou a Elsinore.

domingo, 26 de agosto de 2018

CATORZE VEZES


Cristina Margato assina no Expresso um extenso artigo sobre os candidatos portugueses ao Nobel da Literatura. Vale a pena ler. A jornalista consultou os arquivos da Academia Sueca disponíveis na Internet (neste momento até 1968; a partir do próximo Janeiro disponíveis até 1969, e assim sucessivamente) e descobriu coisas deveras interessantes. Também falou com algumas pessoas: Clara Rocha (a filha de Torga), António Valdemar, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, etc. O foco do artigo é a guerrilha que, em 1959 e 1960, dividiu a intelligentsia portuguesa em dois grupos: os que apoiavam Torga contra os que apoiavam Aquilino. Do lado de Torga estavam Sophia Andresen e um punhado de escritores que depois do 25 de Abril se identificariam com o PS (casos de O’Neill, David e outros). Do lado de Aquilino estavam Óscar Lopes e outros intelectuais que já nessa altura eram militantes do PCP, casos de Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite Carvalho e Abel Manta. Mário Soares, José Cardoso Pires e Vergílio Ferreira também apoiaram Aquilino. Pano de fundo: a PIDE apreendeu durante cinco dias o oitavo volume do Diário de Torga; Aquilino foi levado a Tribunal Plenário por ter escrito Quando os Lobos Uivam (1958). A querela fixou dissensões e ódios para a vida.

Escreve Cristina Margato: «A parte mais estranha desta história é que nem Torga nem Aquilino aparecem na lista da Academia Sueca como escritores propostos ao Prémio Nobel da Literatura, durante o ano de 1960

Ando há anos a bater na mesma tecla: as candidaturas ao Nobel têm protocolo próprio, não se fazem nas páginas dos jornais. O caso Torga vs Aquilino é paradigmático

Revelação verdadeiramente espantosa é esta: Maria Magdalena Valdez Trigueiros de Martel Patrício (1883-1947), que assinava Maria Magdalena Martel Patrício — o jornal inverte os apelidos —, escritora portuguesa, foi catorze vezes candidata ao Nobel da Literatura, a última das quais em 1947. Não se tratou de campanha de imprensa: o seu nome consta dos arquivos da Academia Sueca.

Conhece a autora? Então é assim: de origem aristocrática, Maria Magdalena Martel Patrício publicou, entre 1915 e 1944, cerca de trinta livros de poesia, ficção e ensaio. E em 1922 colaborou no primeiro número da Contemporânea (clique nas imagens). Hoje ninguém sabe quem foi a única mulher portuguesa nomeada para o Nobel da Literatura. E nomeada catorze vezes! À atenção das nossas estudiosas de literatura no feminino.

Tudo isto diz muito da relatividade da fama.

Imagens obtidas a partir do meu exemplar da Contemporânea.

sábado, 25 de agosto de 2018

CHIADO


Faz hoje 30 anos e não esqueço o 25 de Agosto de 1988. À época vivia em Cascais, mas trabalhava em Lisboa, onde cheguei por volta das oito da manhã. Para me pôr no Campo Pequeno tive que sair do comboio em Alcântara e apanhar o autocarro do Largo do Calvário que ia sempre a abarrotar com estudantes da Nova. Estupefacção geral. O horror era aquilo, na sua forma mais exacta.

Transcrevo do meu livro de memórias:

Nesse dia fui acordado muito cedo pelo Jorge — O Chiado está a arder. [...] O espectáculo dos Armazéns do Chiado a ruir era indescritível. Aconteceu o mesmo ao Grandella, mas dali não se via. A discoteca Valentim de Carvalho e a Ferrari ficaram reduzidas a carvão. O Martins & Costa, a melhor loja gourmet da cidade, desapareceu do mapa. Havia gente a chorar. [...] Voltei para o ministério com um nó na garganta. À noite, as imagens da RTP estavam longe de transmitir o horror. Durante anos, as pessoas subiam e desciam o Chiado em passadiços de ferro que foram montados na Rua do Carmo e na Rua Garrett. À hora do rush, essas plataformas oscilavam com o peso da multidão. Nos dias de chuva, o Chiado reproduzia o cenário fantasmático de Blade Runner. A reconstrução levou dez anos. Nesse intervalo, uma das poucas razões para voltar ao Chiado era o teatrinho que Mário Viegas dinamizou num anexo do Teatro São Luiz. Nuno Krus Abecasis, o presidente da câmara, convidou Siza Vieira a pôr de pé o novo Chiado, mantendo o desenho das fachadas originais. [...] — Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013.

Fogo posto, disseram todos: bombeiros, especialistas e polícia. Nunca ninguém pagou pelo crime.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

LUÍS AMARO 1923-2018


Vítima de pneumonia, morreu hoje de manhã o investigador e poeta Luís Amaro, o homem a quem, nos últimos 50 anos, toda a gente recorreu para obter ou certificar uma informação bibliográfica. O Luís sabia tudo.

Oriundo da Portugália, ingressou nos quadros da Fundação Calouste Gulbenkian em 1970. Durante os vinte anos em que trabalhou na revista Colóquio-Letras, o seu número de telefone era disputado no milieu. Colaborou nas mais importantes revistas literárias do século XX português, e publicou dois livros: Dádiva (1949) e Diário Íntimo (2006). Sobre a sua poesia escreveram, entre outros, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Vítor Silva Tavares e Gastão Cruz.

Homem avesso a holofotes, conheceu toda a gente que foi gente a partir de 1940, o que lhe permitia desatar o nó de controvérsias intrincadas. Se fosse inglês (era alentejano) teria publicado memórias explosivas. Tinha 95 anos. Até sempre, Luís.

Clique no belíssimo retrato feito por Luis Manuel Gaspar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

PRECONCEITO


A transferência, para a SIC, de Cristina Ferreira, apresentadora e directora de conteúdos não informativos da TVI, tem provocado toda a sorte de comentários. No meu mural de Facebook apaguei os de teor xenófobo.

A ver se a gente se entende: eu não vejo os programas de Cristina Ferreira do mesmo modo que não vejo os de Catarina Furtado ou Manuel Luís Goucha. É o tipo de programas que não me interessa. Faz-me confusão o montante envolvido na transferência (um milhão de euros por ano), mas essa confusão decorre de ouvir dizer, em círculos bem informados, que a SIC se debate com graves problemas de tesouraria. Portugal é um mistério insondável.

Agora o que importa. Cristina Ferreira tem 40 anos e origens humildes. Nunca escondeu essas origens, ou seja, nunca escondeu que ajudava os pais, que eram feirantes na Malveira. Portanto, não está na televisão por ter um papá muito cá dos nossos. Licenciada em História e, mais tarde, em Ciências da Comunicação, foi professora do ensino secundário durante dois anos, em Colares e Casal de Cambra. Trabalha em televisão desde 2002. Desde 2013 é directora de conteúdos não informativos da TVI. Lançada em Março de 2015, a revista Cristina é a única revista portuguesa do género que pode medir-se com equivalentes estrangeiros.

Agora vai para a SIC como apresentadora e consultora executiva da direcção-geral de entretenimento (a primeira grande contratação de Daniel Oliveira). Dito de outro modo: sai de um lugar de direcção na TVI para um lugar de direcção na SIC. Vai ganhar mais do que qualquer homem, detalhe que irrita o mulherio.

Fora dos programas que a televisão produz para o povão, Cristina Ferreira é outra pessoa. Eu arriscaria dizer que é mais culta que muitos sabichões de rede social. As pessoas ficaram agarradas à persona que ela criou. Vê-se que não percebem nada de branding.

CRISTINA


É a maior transferência televisiva de sempre. Além de apresentadora, Cristina Ferreira vai ser consultora executiva da direcção-geral de entretenimento da SIC. Um milhão de euros por ano, ou seja, 83 mil euros por mês. Abençoado país que tais artistas tem.

Clique na imagem do Expresso.

DYHOUSE & HILL


Hoje na Sábado escrevo sobre Uma História do Desejo Feminino, de Carol Dyhouse (n. 1948), historiadora social britânica. Como evoluiu o desejo das mulheres? Foi para tentar responder à questão que a autora escreveu este livro. A partir de um vasto elenco de actores, cantores pop e, grosso modo, homens célebres, Carol Dyhouse estabelece, a partir dos anos 1920, uma cartografia do desejo feminino. Sendo certo que o cinema e a música popular foram grandes detonadores da emancipação sexual, não é de estranhar que a autora dedique atenção a homens que fazem parte do imaginário universal (como, entre outros, Rodolfo Valentino, Liberace ou Elvis Presley), bem como a fenómenos de massa, caso da Beatlemania. Uma das conclusões mais curiosas radica no facto de Carol Dyhouse notar, com sageza, que o padrão ideal da masculinidade tem sido associado à figura de actores homossexuais: Richard Chamberlain e Rock Hudson alimentaram as fantasias de donas de casa em todo o mundo, tal como, num registo menos popular, sucedeu com Dirk Bogarde e Montgomery Clift. Noutro plano, o cinema fez de Mr Darcy, protagonista masculino de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, um arquétipo do herói romântico. Mas nem só o cinema e as bandas rock serviram de indutor e escape do desejo. No início do século XX, a imprensa feminina estabeleceu protótipos: «sheiks, sultões e príncipes estrangeiros, empresários, estrelas de cinema, aristocratas e aviadores.» Beau Brummell, o dândi por excelência, foi imortalizado no cinema por John Barrymore. É um entre vários exemplos de homens públicos que marcaram a representação do desejo das mulheres. As relações entre mulheres brancas e homens negros é outro tópico abordado. Servem de exemplo as ligações amorosas de Paul Robeson, barítono e activista político, com mulheres da alta sociedade britânica (Nancy Cunard e outras), mas também o affair que juntou Leslie Hutchinson, artista de cabaré, e Edwina Mountbatten, mulher do último vice-rei da Índia. Com relevo para a linhagem de mulheres escritoras, o estudo vai até E.L. James e As Cinquenta Sombras de Grey. Inclui iconografia e índice remissivo. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre Nix Fantasmas do Passado, o romance de estreia de Nathan Hill (n. 1978). Distinguir a verdade da mentira é o móbil do romance. A narrativa cobre o período que vai dos motins estudantis da Primavera de 1968, até ao aparecimento do Occupy Wall Street, no fim do Verão de 2011. Hill levou dez anos a concluir o livro. O resultado é um tour d’horizon pela América actual. Um dos personagens é o político republicano Sheldon Packer, em quem todos identificam a representação literária de Trump. Tal como na vida real, a ‘verdade’ de Packer não coincide com os factos. E Packer também não tolera imigrantes. Samuel Andresen-Anderson, o protagonista, é um escritor falhado que volta a saber da existência da mãe quando as televisões dão notícia de que, «num ataque pérfido», uma professora radical hippie tinha atingido a córnea direita do governador Packer. Para alguém que ocupava 40 horas por semana a jogar World of Warcraft, o atentado de Grant Park, em Chicago, muda tudo. A contracultura já não é o que era. Três estrelas. Publicou a Presença.

PANTEÃO?

A Sociedade Portuguesa de Autores quer ver José Afonso no Panteão. A família do cantor desconhecia a démarche e está contra. A SPA não tem mais que fazer? Resolver o imbróglio dos direitos de autor em sede de IRS, por exemplo.