sábado, 1 de setembro de 2018

DESCONTINUADO?


Este sinal na esquina da Rua José Carlos dos Santos com a Avenida da República foi descontinuado pela Câmara Municipal de Lisboa?

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

LISBOA VANDALIZADA


A criatura está identificada. Até dá entrevistas ao jornal Corvo. Então e a Câmara de Lisboa assobia para o lado? A administração do Metro não limpa os placards? A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária mantém os sinais de trânsito vandalizados? Estão todos com medo de fazer uso da autoridade? Isto vai durar até quando? Até começar a aparecer Geco gravado nas viaturas oficiais? Talvez fosse boa ideia. Acordavam de vez.

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LACERDA & MENDELSOHN


Hoje na Sábado escrevo sobre Labareda, antologia da obra poética de Alberto de Lacerda (1928-2007). A distância rasura. Foi o que aconteceu com Lacerda, ausente de Portugal desde 1951. Lisboa foi um intervalo fugaz entre Lourenço Marques e Londres. O périplo americano e as peculiares idiossincrasias do autor acentuaram a fractura com os media e a universidade portuguesa. Injustiça óbvia, porque falamos de um grande poeta. No ano em que Lacerda faria 90 anos, Luís Amorim de Sousa organizou esta antologia a que chamou Labareda. O volume inclui poemas seleccionados dos onze livros publicados em vida do autor, um dos quais, Sonetos, sem distribuição comercial. Este núcleo inclui os dois tomos de Oferenda (1984 e 1994) que, por sua vez, coligem cinco livros até então inéditos. Acolhe ainda 28 poemas inéditos que o antologiador foi buscar ao espólio. Mas antes surgem outros quatro, extraídos de dois títulos omissos da bibliografia: O Pajem Formidável dos Indícios, datado de 2010, e A Luz Que Se Escondeu no Escuro, de 2016. Publicados onde? As datas reportam a quê? Sobre eles, a cronologia de Luís Amorim de Sousa faz silêncio. Mesmo que façam parte de livros organizados em vida do autor, seria mais correcto tê-los incluído na secção de inéditos. Quem conhece a obra publicada é por ali que começa. É estranho que, num acervo tão vasto («deixou inéditos para cima de mil poemas», lê-se no prefácio), Luís Amorim de Sousa tenha escolhido os 28 poemas que escolheu. Foi o melhor que encontrou? Não teria sido preferível ater-se à obra publicada? Um dos mais importantes livros de Lacerda, Mecânica Celeste, está representado com 14 poemas. Todos sabemos que antologiar significa seleccionar, mas Luís Amorim de Sousa conseguiu a proeza de deixar de fora os poemas mais significativos de Mecânica Celeste. O leitor desta antologia não tem oportunidade de ler Depois de veres Guerra e Paz de Sergei Bondarchuk, Vem, Vimos, Vietnam, Os pés nus correspondem em grinalda e outros. Porquê? Porque os versos falam de merda, caralhos, cus, conas, orgasmos, putas relaxadas, escarros e, last but not least, do Império britânico cagando...? Porquê insistir no transcendental? Duas estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre Uma Odisseia, do norte-americano Daniel Mendelsohn (n. 1960). Escrever para o grande público sobre literatura grega e romana não está ao alcance de todos. Como demonstra este livro, Mendelsohn é dos melhores. Professor de Humanidades no exclusivo Bard College de Annandale-on-Hudson, Mendelsohn descreve um seminário académico sobre a Odisseia onde teve a surpresa de encontrar o pai, professor de matemática, então com 81 anos. Isso explica o subtítulo: Um pai, um filho, uma epopeia. A partir dessa experiência de 2011, Mendelsohn escreveu este curioso livro de memórias que é, ao mesmo tempo, uma close reading do poema de Homero. Não se trata de ensaio: são memórias com nomes alterados e detalhes modificados. O autor socorre-se de todos os recursos narrativos de forma a que o leitor não sinta o peso da erudição. Para sinalizar o plot, cita Aristóteles na breve nota que serve de proémio. Depois do seminário, que dura 16 semanas, Mendelsohn e alunos (o pai incluído) partem num cruzeiro pelo Mediterrâneo. A exegese do poema de Homero suscita questões identitárias que o autor desenvolve com elegância. Cinco estrelas. Publicou a Elsinore.

domingo, 26 de agosto de 2018

CATORZE VEZES


Cristina Margato assina no Expresso um extenso artigo sobre os candidatos portugueses ao Nobel da Literatura. Vale a pena ler. A jornalista consultou os arquivos da Academia Sueca disponíveis na Internet (neste momento até 1968; a partir do próximo Janeiro disponíveis até 1969, e assim sucessivamente) e descobriu coisas deveras interessantes. Também falou com algumas pessoas: Clara Rocha (a filha de Torga), António Valdemar, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, etc. O foco do artigo é a guerrilha que, em 1959 e 1960, dividiu a intelligentsia portuguesa em dois grupos: os que apoiavam Torga contra os que apoiavam Aquilino. Do lado de Torga estavam Sophia Andresen e um punhado de escritores que depois do 25 de Abril se identificariam com o PS (casos de O’Neill, David e outros). Do lado de Aquilino estavam Óscar Lopes e outros intelectuais que já nessa altura eram militantes do PCP, casos de Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite Carvalho e Abel Manta. Mário Soares, José Cardoso Pires e Vergílio Ferreira também apoiaram Aquilino. Pano de fundo: a PIDE apreendeu durante cinco dias o oitavo volume do Diário de Torga; Aquilino foi levado a Tribunal Plenário por ter escrito Quando os Lobos Uivam (1958). A querela fixou dissensões e ódios para a vida.

Escreve Cristina Margato: «A parte mais estranha desta história é que nem Torga nem Aquilino aparecem na lista da Academia Sueca como escritores propostos ao Prémio Nobel da Literatura, durante o ano de 1960

Ando há anos a bater na mesma tecla: as candidaturas ao Nobel têm protocolo próprio, não se fazem nas páginas dos jornais. O caso Torga vs Aquilino é paradigmático

Revelação verdadeiramente espantosa é esta: Maria Magdalena Valdez Trigueiros de Martel Patrício (1883-1947), que assinava Maria Magdalena Martel Patrício — o jornal inverte os apelidos —, escritora portuguesa, foi catorze vezes candidata ao Nobel da Literatura, a última das quais em 1947. Não se tratou de campanha de imprensa: o seu nome consta dos arquivos da Academia Sueca.

Conhece a autora? Então é assim: de origem aristocrática, Maria Magdalena Martel Patrício publicou, entre 1915 e 1944, cerca de trinta livros de poesia, ficção e ensaio. E em 1922 colaborou no primeiro número da Contemporânea (clique nas imagens). Hoje ninguém sabe quem foi a única mulher portuguesa nomeada para o Nobel da Literatura. E nomeada catorze vezes! À atenção das nossas estudiosas de literatura no feminino.

Tudo isto diz muito da relatividade da fama.

Imagens obtidas a partir do meu exemplar da Contemporânea.

sábado, 25 de agosto de 2018

CHIADO


Faz hoje 30 anos e não esqueço o 25 de Agosto de 1988. À época vivia em Cascais, mas trabalhava em Lisboa, onde cheguei por volta das oito da manhã. Para me pôr no Campo Pequeno tive que sair do comboio em Alcântara e apanhar o autocarro do Largo do Calvário que ia sempre a abarrotar com estudantes da Nova. Estupefacção geral. O horror era aquilo, na sua forma mais exacta.

Transcrevo do meu livro de memórias:

Nesse dia fui acordado muito cedo pelo Jorge — O Chiado está a arder. [...] O espectáculo dos Armazéns do Chiado a ruir era indescritível. Aconteceu o mesmo ao Grandella, mas dali não se via. A discoteca Valentim de Carvalho e a Ferrari ficaram reduzidas a carvão. O Martins & Costa, a melhor loja gourmet da cidade, desapareceu do mapa. Havia gente a chorar. [...] Voltei para o ministério com um nó na garganta. À noite, as imagens da RTP estavam longe de transmitir o horror. Durante anos, as pessoas subiam e desciam o Chiado em passadiços de ferro que foram montados na Rua do Carmo e na Rua Garrett. À hora do rush, essas plataformas oscilavam com o peso da multidão. Nos dias de chuva, o Chiado reproduzia o cenário fantasmático de Blade Runner. A reconstrução levou dez anos. Nesse intervalo, uma das poucas razões para voltar ao Chiado era o teatrinho que Mário Viegas dinamizou num anexo do Teatro São Luiz. Nuno Krus Abecasis, o presidente da câmara, convidou Siza Vieira a pôr de pé o novo Chiado, mantendo o desenho das fachadas originais. [...] — Eduardo Pitta, Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013.

Fogo posto, disseram todos: bombeiros, especialistas e polícia. Nunca ninguém pagou pelo crime.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

LUÍS AMARO 1923-2018


Vítima de pneumonia, morreu hoje de manhã o investigador e poeta Luís Amaro, o homem a quem, nos últimos 50 anos, toda a gente recorreu para obter ou certificar uma informação bibliográfica. O Luís sabia tudo.

Oriundo da Portugália, ingressou nos quadros da Fundação Calouste Gulbenkian em 1970. Durante os vinte anos em que trabalhou na revista Colóquio-Letras, o seu número de telefone era disputado no milieu. Colaborou nas mais importantes revistas literárias do século XX português, e publicou dois livros: Dádiva (1949) e Diário Íntimo (2006). Sobre a sua poesia escreveram, entre outros, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Vítor Silva Tavares e Gastão Cruz.

Homem avesso a holofotes, conheceu toda a gente que foi gente a partir de 1940, o que lhe permitia desatar o nó de controvérsias intrincadas. Se fosse inglês (era alentejano) teria publicado memórias explosivas. Tinha 95 anos. Até sempre, Luís.

Clique no belíssimo retrato feito por Luis Manuel Gaspar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

PRECONCEITO


A transferência, para a SIC, de Cristina Ferreira, apresentadora e directora de conteúdos não informativos da TVI, tem provocado toda a sorte de comentários. No meu mural de Facebook apaguei os de teor xenófobo.

A ver se a gente se entende: eu não vejo os programas de Cristina Ferreira do mesmo modo que não vejo os de Catarina Furtado ou Manuel Luís Goucha. É o tipo de programas que não me interessa. Faz-me confusão o montante envolvido na transferência (um milhão de euros por ano), mas essa confusão decorre de ouvir dizer, em círculos bem informados, que a SIC se debate com graves problemas de tesouraria. Portugal é um mistério insondável.

Agora o que importa. Cristina Ferreira tem 40 anos e origens humildes. Nunca escondeu essas origens, ou seja, nunca escondeu que ajudava os pais, que eram feirantes na Malveira. Portanto, não está na televisão por ter um papá muito cá dos nossos. Licenciada em História e, mais tarde, em Ciências da Comunicação, foi professora do ensino secundário durante dois anos, em Colares e Casal de Cambra. Trabalha em televisão desde 2002. Desde 2013 é directora de conteúdos não informativos da TVI. Lançada em Março de 2015, a revista Cristina é a única revista portuguesa do género que pode medir-se com equivalentes estrangeiros.

Agora vai para a SIC como apresentadora e consultora executiva da direcção-geral de entretenimento (a primeira grande contratação de Daniel Oliveira). Dito de outro modo: sai de um lugar de direcção na TVI para um lugar de direcção na SIC. Vai ganhar mais do que qualquer homem, detalhe que irrita o mulherio.

Fora dos programas que a televisão produz para o povão, Cristina Ferreira é outra pessoa. Eu arriscaria dizer que é mais culta que muitos sabichões de rede social. As pessoas ficaram agarradas à persona que ela criou. Vê-se que não percebem nada de branding.

CRISTINA


É a maior transferência televisiva de sempre. Além de apresentadora, Cristina Ferreira vai ser consultora executiva da direcção-geral de entretenimento da SIC. Um milhão de euros por ano, ou seja, 83 mil euros por mês. Abençoado país que tais artistas tem.

Clique na imagem do Expresso.

DYHOUSE & HILL


Hoje na Sábado escrevo sobre Uma História do Desejo Feminino, de Carol Dyhouse (n. 1948), historiadora social britânica. Como evoluiu o desejo das mulheres? Foi para tentar responder à questão que a autora escreveu este livro. A partir de um vasto elenco de actores, cantores pop e, grosso modo, homens célebres, Carol Dyhouse estabelece, a partir dos anos 1920, uma cartografia do desejo feminino. Sendo certo que o cinema e a música popular foram grandes detonadores da emancipação sexual, não é de estranhar que a autora dedique atenção a homens que fazem parte do imaginário universal (como, entre outros, Rodolfo Valentino, Liberace ou Elvis Presley), bem como a fenómenos de massa, caso da Beatlemania. Uma das conclusões mais curiosas radica no facto de Carol Dyhouse notar, com sageza, que o padrão ideal da masculinidade tem sido associado à figura de actores homossexuais: Richard Chamberlain e Rock Hudson alimentaram as fantasias de donas de casa em todo o mundo, tal como, num registo menos popular, sucedeu com Dirk Bogarde e Montgomery Clift. Noutro plano, o cinema fez de Mr Darcy, protagonista masculino de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, um arquétipo do herói romântico. Mas nem só o cinema e as bandas rock serviram de indutor e escape do desejo. No início do século XX, a imprensa feminina estabeleceu protótipos: «sheiks, sultões e príncipes estrangeiros, empresários, estrelas de cinema, aristocratas e aviadores.» Beau Brummell, o dândi por excelência, foi imortalizado no cinema por John Barrymore. É um entre vários exemplos de homens públicos que marcaram a representação do desejo das mulheres. As relações entre mulheres brancas e homens negros é outro tópico abordado. Servem de exemplo as ligações amorosas de Paul Robeson, barítono e activista político, com mulheres da alta sociedade britânica (Nancy Cunard e outras), mas também o affair que juntou Leslie Hutchinson, artista de cabaré, e Edwina Mountbatten, mulher do último vice-rei da Índia. Com relevo para a linhagem de mulheres escritoras, o estudo vai até E.L. James e As Cinquenta Sombras de Grey. Inclui iconografia e índice remissivo. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre Nix Fantasmas do Passado, o romance de estreia de Nathan Hill (n. 1978). Distinguir a verdade da mentira é o móbil do romance. A narrativa cobre o período que vai dos motins estudantis da Primavera de 1968, até ao aparecimento do Occupy Wall Street, no fim do Verão de 2011. Hill levou dez anos a concluir o livro. O resultado é um tour d’horizon pela América actual. Um dos personagens é o político republicano Sheldon Packer, em quem todos identificam a representação literária de Trump. Tal como na vida real, a ‘verdade’ de Packer não coincide com os factos. E Packer também não tolera imigrantes. Samuel Andresen-Anderson, o protagonista, é um escritor falhado que volta a saber da existência da mãe quando as televisões dão notícia de que, «num ataque pérfido», uma professora radical hippie tinha atingido a córnea direita do governador Packer. Para alguém que ocupava 40 horas por semana a jogar World of Warcraft, o atentado de Grant Park, em Chicago, muda tudo. A contracultura já não é o que era. Três estrelas. Publicou a Presença.

PANTEÃO?

A Sociedade Portuguesa de Autores quer ver José Afonso no Panteão. A família do cantor desconhecia a démarche e está contra. A SPA não tem mais que fazer? Resolver o imbróglio dos direitos de autor em sede de IRS, por exemplo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

TRUMP & COHEN


Michael Cohen, advogado de Trump, confirmou ao Tribunal Federal de Manhattan ter pago o silêncio de duas mulheres com quem o actual Presidente manteve relações: Stormy Daniels, actriz porno, e Karen McDougal, modelo da Playboy. Participei nesta conduta com o objectivo de influenciar a eleição, disse.

Tudo se passou durante a campanha de 2016. Cohen é acusado de financiamento ilícito e fraude fiscal. Como o dinheiro era de Trump, e os pagamentos foram efectuados por sua ordem, a confissão (obtida no âmbito de um acordo com a Justiça) coloca o Presidente em situação delicada.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

DESEMPREGO


Desde Julho de 2002 que não havia tão poucos desempregados (inscritos nos centros de emprego) em Portugal. Nessa altura eram 326 mil, hoje são 330 mil. Não esquecer que, entre 2012 e 2014, foram cerca de um milhão.

Clique na imagem do Expresso.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

ELE TAMBÉM


Asia Argento, uma das treze mulheres que em 2017 acusaram o produtor Harvey Weinstein de abuso sexual, quis comprar o silêncio do menor abusado por ela, em Maio de 2013. A vítima, o actor e músico de rock Jimmy Bennett, tem hoje 22 anos. Mas no dia do abuso tinha 17, ou seja, era um menor face à lei da Califórnia, onde a autodeterminação sexual só se atinge aos 18. Depois de ajudar a fundar o movimento MeToo, a viúva de Anthony Bourdain tentou subornar Jimmy com 380 mil dólares. Perturbado com a repercussão traumática do caso Weinstein, o jovem actor exige agora uma indemnização de 3,5 milhões de dólares, a título de «sofrimento emocional, assalto e agressão». Asia Argento, que se gabava de liderar o campo de caça a Weinstein, tem oportunidade de provar o próprio veneno.

Clique na imagem do New York Times.

domingo, 19 de agosto de 2018

AINDA LE PEN

Leio por aí que Marine Le Pen não pode ter tratamento diferente do concedido a Yanis Varoufakis, que veio a Lisboa defender os seus pontos de vista. Inteiramente de acordo. Há um porém: que eu saiba, o antigo ministro grego não onerou a fazenda nacional. Veio a convite de uma agremiação política.

O que sucederia com a líder do Rassemblement National era outra coisa. Porquê? Porque a Web Summit é largamente subsidiada pelo Estado português. O senhor Paddy Cosgrave não escolheu Lisboa por gostar de sardinhas. Escolheu Lisboa porque, aqui, gasta um terço do que gastaria em Madrid ou um sexto do que gastaria em Londres. É tão simples como isso.

Os contribuintes portugueses não têm de subsidiar os statements da senhora Le Pen, nem, evidentemente, os de Varoufakis. No dia em que uma instituição privada, ou um conjunto de cidadãos reunidos em crowdfunding, decidir convidar a senhora, o caso muda de figura. Eventos patrocinados com os nossos impostos e as nossas taxas camarárias é que não.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O RESTAURANTE


A RTP2 transmitiu hoje o 10.º e último episódio da primeira temporada da série sueca Vår tid är nu, dirigida por Harald Hamrell, exibida entre nós como O Restaurante

Não é Bergman, já sabemos, mas tem qualidade muito acima da média. Pano de fundo da intriga, a reconstrução da sociedade sueca após 1945: avanço da social-democracia (Olof Palme surge neste 10.º episódio como jovem sindicalista de 24 anos; noutros episódios surgem também Per-Albin Hansson e Tage Erlander, antigos primeiros-ministros), evolução dos costumes, desvios à normatividade sexual, arranque da segurança social, ascensão dos sindicatos, paridade de género, etc. Cronologicamente, esta primeira temporada termina em 1951.

Mas a série tem trinta episódios, divididos por três temporadas, exibidas na Suécia em 2017.

A RTP comprou apenas a primeira? Porquê? E se comprou as três, por que raio não exibe tudo seguido? Pergunto isto porque, na programação do próximo dia 20, está outra no seu lugar.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

KUSHNER & MURDOCH


Hoje na Sábado escrevo sobre O Quarto de Marte, o romance mais recente de Rachel Kushner (n. 1968). O marketing tomou conta da literatura. Autora de três romances e uma colectânea de contos, a autora foi comparada a Dickens. Não havia necessidade. Com o apoio de James Wood, Jonathan Franzen, George Saunders e outros, passa bem sem os ditirambos. Quem quiser conhecer alguma coisa acerca do sistema prisional da Califórnia, deve ler o livro. Não se assuste com o título, é apenas o nome de um clube de lap dance. Sobre prisões, Ms Kushner terá investigado tudo o que havia para investigar. O resultado não é exaltante, pese embora o excepcional conseguimento da tradução de José Miguel Silva. Romy Leslie Hall, a protagonista, tem 29 anos. Em 2003 ainda cumpre duas ‘perpétuas’ na penitenciária feminina de Stanville. O inventário dos procedimentos é um empecilho, mas os relatos em flashback, em especial os episódios de sexo, estão bem esgalhados. Romy destaca-se das mulheres que compõem o universo prisional. Quem leu Orange Is the New Black: My Year in a Women’s Prison (2010), o livro de memórias da lésbica radical-chic Piper Kerman, acusada de tráfico de drogas e fraude fiscal, conhece a fonte de Ms Kushner, colaboradora de revistas selectas, como New Yorker ou Paris Review e, portanto, merecedora de todos os créditos. A estrutura narrativa apoia-se numa sucessão de histórias almodóvarianas em clave americana, como as que vimos na série da Netflix feita a partir do livro de Piper Kerman. O ponto é esse: com todos os seus pergaminhos literários, Ms Kushner não acrescenta nada ao já lido e visto sobre wrong gender, mulheres abusadas e violência extrema do sistema policial e penitenciário (as mulheres são quase todas negras e pobres). Lyndon B. Johnson, o presidente que jurou a Constituição ao lado do corpo de Kennedy, e Richard Nixon, o presidente demitido após o Caso Watergate, fazem parte da intriga, o primeiro por causa de chuveiros genitais, o segundo a pretexto de música country. E também Dostoievski, presumo que para dar espessura. Três estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre O Sonho de Bruno, de Iris Murdoch (1919-1999), romancista e académica na área da filosofia. As questões morais foram sempre decisivas na obra. O Sonho de Bruno, um dos seus romances mais aclamados, foi agora publicado. Narrado na terceira pessoa, conta a história de Bruno, um homem de idade avançada deformado pela doença: «Ele sabia que se tornara um monstro.» Espera pela morte em casa de Danby, o genro viúvo. Intriga em família, portanto. À beira da morte, tudo gira em torno da essência da vida. Bruno tem duas obsessões: aranhas e selos. Estudou as primeiras, coleccionou os segundos. Faz vista grossa à aversão que suscita, em particular na enfermeira e na empregada doméstica, mas continua a preocupar-se com os impostos (a quem doar a colecção de selos?). A narrativa apoia-se num compósito de doença, sexo, traição, arrivismo, segredos e acidentes naturais. Fora do huis clos, o filho Miles, de quem Bruno se afastou no dia em que o viu casar com uma indiana, que entretanto morreu. Sem surpresa, Murdoch manipula tudo de forma admirável. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

TRAGÉDIA EM GÉNOVA


Era meio-dia na Itália quando colapsou uma secção de 200 metros da Ponte Morandi, que liga o centro da cidade ao aeroporto. Até ao momento estão confirmados 11 mortos, mas a polícia local diz que o número é cinco vezes superior. Dezenas de pessoas continuam debaixo dos escombros. O tabuleiro, que ruiu de uma altura de 45 metros, caiu numa área ocupada por prédios de apartamentos, centros comerciais, instalações fabris e uma linha férrea, arrastando camiões, autocarros e outro tipo de viaturas.

À esquerda da imagem vê-se um camião parado à beira do precipício. Clique na foto de El País.

AQUARIUS, AGAIN

Lembram-se da saga do Aquarius, que teve um final feliz porque, acabado de empossar, o novo Governo espanhol tinha de passar uma imagem simpática?

Pois bem, a SOS Méditerranée, que fretou o navio, voltou à carga. Anda há quatro dias à deriva, porque nem a Itália, nem Malta, nem a França, nem sequer a Espanha, autorizam atracação. A bordo, 141 migrantes.

Hoje, por decisão do Governo britânico, Gibraltar retirou a bandeira ao navio. Argumento: estando registado como navio de investigação, não pode resgatar migrantes.

Assim vai o mundo, dizia o Pessa.

sábado, 11 de agosto de 2018

V. S. NAIPAUL 1932-2018


V.S. Naipaul, escritor britânico de origem indiana, morreu na noite deste sábado. Faria 86 anos no próximo dia 17. Natural de Trinidad e Tobago, uma antiga Colónia britânica, Naipaul radicou-se em Londres em 1954. Na ficção e no ensaio, bem como nas memórias, escreveu extensamente sobre identidades em trânsito e o pós-colonialismo.

Uma Vida Pela Metade, romance de 2001, tem acção centrada em Maputo. Acusado de violência sexual por uma das suas amantes, politicamente incorrecto (em especial sobre o Islão e o colonialismo), misógino, cínico, fizeram lenda as querelas com vários dos seus pares. A rainha fê-lo cavaleiro em 1989. A obra mais aclamada continua a ser Uma Casa Para Mr Biswas, romance de 1961. Nobel da Literatura em 2001, Naipaul tem grande parte da obra traduzida em Portugal.

domingo, 5 de agosto de 2018

SHORT RENTING

O Presidente da República reconhece que o Parlamento tem produzido legislação de forma atabalhoada. Exemplo maior, o diploma sobre alojamento local. Mas então, se é assim, e qualquer pessoa reconhece que sim, por que razão o promulgou? Para proteger os centros históricos das cidades? Salvo esse detalhe (zonas de contenção a definir pelas autarquias), quase tudo o resto fica dependente de legislação a produzir no espaço de dois anos.

É o caso dos direitos dos condóminos em prédios onde coexista habitação permanente com short renting. Fica suspenso por dois anos e, não sendo alterada a redacção do actual diploma, as autarquias podem contrariar a decisão dos condóminos. Isto admite-se?

O Presidente considera questionável e desconexo, tem razão, mas promulgou. Porquê?